A Corrida Alucinante — Drama Sem Fronteiras

Capítulo 2

A apresentadora Lucina Skye estava recostada no seu assento acolchoado na Classe Premium de um voo em direção à Quito. Ela pega meia dúzia de fichas e começa a narrar para a câmera.

LUCINA: No episódio de estreia… nós conhecemos as dez duplas que vão competir nesta grande corrida! São elas: as gêmeas desatentas; os ex-namorados do triatlo; mãe e filho; pai e filha lenhadores; irmãos caubóis; nerds da robótica; a influenciadora e sua assistente; as japonesas esquisitas; os frenemies chefs de cozinha e os vovôs! Eles conheceram nosso primeiro destino e estão em dois voos separados indo para as Ilhas Galápagos. Além do mais, eles descobriram que a primeira etapa recompensará um time com o poderoso “Passe Livre”. Quem vai levar essa vantagem? E quem será parte da primeira dupla eliminada? Continue assistindo! Esta é ‘A Corrida Alucinante — Drama sem Fronteiras!’

*Abertura*

Dois aviões cortam o céu azul. Lá embaixo, o continente americano se estende sem fim. A câmera se aproxima do segundo avião, onde as coisas não são tão confortáveis. No interior da cabine da Classe Econômica, cinco duplas aguentavam a travessia como podiam.

Maria olhava em volta com olhos arregalados, visivelmente desconfortável com o voo. Suas mãos apertavam o cinto de segurança com medo. Ao lado, Peter tentava resistir ao sono, mas sua cabeça balançava a cada piscada.

Willow e Larry dormiam e o ronco do lenhador ecoava por todo o corredor. Nick e Logan dormiam em silêncio, quase imóveis. Mikayla e Mackenzie cochichavam, rindo baixo demais para acordar alguém, mas animadas demais para dormir.

Na frente da cabine, estavam Chantelle e Mona. E Chantelle estava no limite da paciência.

CHANTELLE: Ugh! Que espelunca. Nunca pensei que eu voltaria a pisar na… — Ela quase engasgou na ânsia. — Na Classe Econômica.

Mona fechou os olhos e suspirou, claramente já tendo ouvido esse papo. Repentinamente, uma aeromoça passou pelo corredor, distribuindo amendoins como um lanchinho. O rosto de Chantelle brilhou.

CHANTELLE: Ô! Aeromoça!

A funcionária logo apareceu para atendê-la.

AEROMOÇA: Sim, senhorita Chantelle?

CHANTELLE: Isso mesmo! Você sabe quem eu sou né? — Perguntou com um sorriso. — Todo mundo no Canadá me conhece! É um fato científico!

AEROMOÇA: Bem… minha irmãzinha é uma grande fã do seu trabalho. — Respondeu com hesitação.

CHANTELLE: Ótimo! Que tal você me ajudar?

AEROMOÇA: Claro, senhorita Chantelle. O que deseja?

CHANTELLE: Me coloca na Primeira Classe. Imediatamente. — Ela demandou e então suavizou a voz. — E eu assino uma foto para sua irmã.

AEROMOÇA: Bem, eu adoraria, mas nossa companhia tem políticas que…

CHANTELLE: E eu te dou 1 ano de cosméticos Silky Rose. De graça.

A aeromoça ficou surpresa e levantou uma sobrancelha.

CHANTELLE: E você vai ter um cartão fidelidade vitalício. Você e sua irmã! Válido em qualquer loja Silky Rose no mundo.

AEROMOÇA: Uau… Senhorita Chantelle, eu…

CHANTELLE: É, eu sei. Sou muito generosa. Agora… — Ela se levantou. — Pode nos escoltar para a Primeira Classe?

A aeromoça soltou um suspiro quase imperceptível e fez sinal para que passassem, indicando o caminho. Chantelle ajeitou os óculos escuros enquanto Mona, com expressão estóica, a seguia em silêncio.

*ENTREVISTA ON*

A câmera liga no confessionário. Uma voz de produtor faz uma pergunta fora de quadro. Chantelle ajeita o cabelo, já empolgada com a chance de se exibir. Mona só suspira.

CHANTELLE: Duh, era óbvio que eu conseguiria o upgrade. Quem não quer minha marca de cosméticos? Eu poderia ter subornado ela com um batom vencido que ela aceitaria.

MONA: Não que você já não tenha feito isso antes.

CHANTELLE: Ugh, cala a boca, Mona! Minha advogada disse para eu não mencionar mais esse processo! Você quer que eu vá para a prisão?

MONA: Claro que não, senhorita Chantelle. — Respondeu com secura.

CHANTELLE: Então fica quieta, né! Hmpf. — Ela cruzou os braços. — Como eu estava dizendo… consegui a Primeira Classe com facilidade. E sabe o que é melhor? A Primeira Classe desembarca antes dos plebeus na Classe Econômica. Ou seja, Mona e eu ganhamos uma vantagem na corrida!

*ENTREVISTA OFF*

O avião tocou o chão de Quito com um solavanco seco que fez metade dos passageiros agarrar os apoios de braço.

Maria prendeu a respiração, como se o avião fosse explodir. Peter, ao lado, abriu os olhos só o suficiente para perceber que ainda estava vivo.

PETER: Já… já chegamos?

MARIA: Acho que sim… ou não. Estou amedrontada demais para ter certeza. — Respondeu com exasperação.

Lá na frente, Chantelle nem piscou. Estava ocupada retocando o batom, como se nem tivesse sentido a turbulência. Mona, de braços cruzados, esperava o aviso de destravar cintos.

Assim que o “ding” soou, Chantelle levantou tão rápido que o passageiro do corredor mal teve tempo de encolher as pernas.

CHANTELLE: Com licença, prioridade de celebridade. — Disse, se enfiando pelo corredor sem esperar resposta.

PASSAGEIRO: É… claro. — Olhou para a câmera, confuso.

— — —

A porta do avião abriu, e o calor seco de Quito bateu como um soco. Produção e assistentes gritavam instruções enquanto dois ônibus esperavam logo à frente. O primeiro já estava quase cheio, ocupados pelas duplas do primeiro voo, só faltavam poucos lugares.

Por algum motivo os dois ônibus iam sair ao mesmo tempo, independente dos voos, basicamente anulando a vantagem.

Chantelle acelerou o passo, saltando degraus da escada do avião como se estivesse numa passarela. Mona vinha atrás, carregando a própria bagagem e metade das coisas de Chantelle.

No chão, Betty e Raymond também desembarcavam.

NICK: Olha lá. Ela vai furar fila.

LOGAN: É uma boa estratégia. Embora possa danificar o jogo social dela. — Apontou o óbvio.

No momento em que o motorista do primeiro ônibus estava prestes a fechar a porta, Chantelle colocou o pé no degrau.

CHANTELLE: Espera aí! — E sorriu como se fosse óbvio. — Eu também estou entrando. E minha assistente, é claro.

O motorista olhou para ela, depois para Mona e depois para a câmera, e deu de ombros. Abriu caminho.

Mona passou sem dizer nada. Chantelle se virou para as outras duplas atrás.

CHANTELLE: Não fiquem com ciúmes, queridos. Não é todo mundo que consegue… prioridade.

Maria, ainda no chão, virou para Peter.

MARIA: Você viu? Mais cedo, no vôo, eu ouvi que ela subornou uma aeromoça com um gloss.

Peter bocejou.

PETER: Faz sentido. Se fosse comigo, eu também aceitava.

E sua mãe fez uma careta desgostosa.

— — —

Os ônibus cortavam o caminho pelas ruas movimentadas de Quito. Crianças acenavam das calçadas enquanto passavam. Em um dos veículos, Mikayla e Mackenzie fingiam tirar uma selfie complexa com a paisagem urbana desfocada ao fundo. Willow, sentada à frente, havia se entregado ao cansaço, com a cabeça pendendo contra o vidro frio da janela.

LARRY: Ei, Willow... você está babando, filhota.

WILLOW: Não é a coisa mais humilhante que já fiz na TV internacional. — Ela murmurou, virando o rosto sem acordar completamente.

Do assento atrás dela, Raymond abriu silenciosamente o zíper da pochete e tirou um lenço dobrado com cuidado. Inclinou-se para a frente, com a voz suave.

RAYMOND: Aqui está, querida. — Ele ofereceu o lenço à garota sonolenta. — Para a, ah, baba.

O gesto, no entanto, foi como um fósforo para Larry. Ele se levantou de um salto, sua figura larga bloqueando o corredor enquanto encarava o homem mais velho.

LARRY: Ela não precisa disso de você, seu velho! Ela tem um pai para cuidar dela. Você não tem uma esposa para incomodar?! Deixe minha filha em paz!

Ele gritava, com o rosto corado. Raymond encolheu-se na cadeira, agarrando o lenço. Em meio à confusão, Willow finalmente abriu os olhos, uma nova onda de constrangimento cortando seu sono.

WILLOW: Pai, se eu sentir mais um grama de vergonha, vou explodir. Deixe o homem em paz. Ele só estava sendo gentil.

LARRY: Mas ele é um homem, falando com a minha filhinha! Eu não posso permitir!

WILLOW: Ele tem o triplo da minha idade!

LARRY: E isso importa? Eu sei o que as garotas gostam hoje em dia. Elas gostam daqueles "sugar daddies" ou seja lá como se chamam.

Willow soltou um som de pura frustração contida. Sem dizer mais nada, empurrou o pai e foi para o fundo do ônibus, deixando um silêncio denso para trás.

Uma hora depois, chegaram a um pequeno porto desgastado na costa do Pacífico. Duas lanchas balançavam na água azul, com os motores já roncando. O sol do fim da tarde brilhava nas ondas, e o ar tinha um forte cheiro de sal e diesel.

Chantelle foi a primeira a descer do ônibus. Não olhou para as câmeras nem para as outras equipes. Com determinação, passou por duas duplas que hesitavam no cais e entrou direto na lancha da frente.

BETTY: Nossa, que moça mal-educada!

RAYMOND: Se fosse nossa filha, levaria uma bela bronca! Hmph!

Mona embarcou atrás de Chantelle, com uma expressão de profunda resignação, como se preferisse estar em qualquer outro lugar do mundo. Na beira do cais, os irmãos caubóis, Hank e Clint, trocaram um olhar.

HANK: Se continuar assim, vai se esgotar rapidinho. Não duraria um dia no rancho.

CLINT: Nem me fale. — Ele cuspiu nas tábuas de madeira com ênfase exagerada. — Que garota bizonha.

A primeira lancha arrancou do cais, levando Chantelle e as outras cinco duplas que haviam subido atrás dela. O vento espirrava água sobre a proa, mas Chantelle apenas ajeitou os óculos de sol.

***

Lucina aparece diante de um fundo tropical, coqueiros ao vento e uma tartaruga-gigante passeando lentamente atrás dela.

LUCINA: As Ilhas Galápagos! Lar de tartarugas do tamanho de sofás, pássaros estranhos e turistas que ignoram todas as placas de “não toque nos animais”. É um paraíso… se você não se importar com o cheiro de peixe e com o fato de que a internet aqui é mais lenta que um caracol cansado.

Corta para imagens rápidas: leões-marinhos dormindo no meio da rua, iguanas tomando sol, e uma placa de “proibido nadar” com um turista ao fundo fazendo exatamente isso.

LUCINA: Vamos ver a chegada dos nossos corredores?

***

A primeira lancha encosta no píer. Chantelle salta como se estivesse descendo de um iate particular. Mona segue, carregando a bolsa de Chantelle e a própria mochila.

As duplas saem correndo pela passarela até uma pequena praça, onde um standee de papelão de Lucina sorri com a mão na cintura. Ao lado, uma caixa de correio e uma placa amarela com letras garrafais dizendo “NÃO ALIMENTE OS ANIMAIS. Ou alimente, vai trazer audiência!”

As gêmeas analisaram bem o standee.

MIKAYLA: Isso é… assustador. Ela tá nos olhando nos olhos. Tipo aquelas pinturas que não importe o ângulo, sempre está nos espiando…

MACKENZIE: É só papelão, mana. Relaxa. Agora se fosse um standee de acrílico… esses sim espionam as pessoas!

Em tempo, as duplas chegam e leem a pista. Exceto pelos amigos da robótica, atrasados. Finalmente, Nick chega primeiro e abre a caixa. Puxa um envelope grande, rasga e lê em voz alta.

NICK: “Bem-vindos às Ilhas Galápagos! Para o primeiro desafio da temporada, vocês têm uma escolha…”

Faz uma pausa dramática. Logan se aproxima para ouvir melhor.

NICK: “Opção 1: montar um quebra-cabeça 3D de uma tartaruga-gigante… sem manual e com peças praticamente iguais…”

LOGAN: Ou…?

NICK: “…ou carregar uma réplica, pesada, de uma tartaruga até um ponto no alto da ilha.”

As duplas trocam olhares. Chantelle ergue uma sobrancelha.

CHANTELLE: Óbvio que não vou suar carregando um bicho falso. Quebra-cabeça é coisa de salão com ar-condicionado. É mais meu estilo.

MONA: Com todo respeito, a senhorita sabe montar quebra-cabeça?

CHANTELLE: Mona, querida… eu organizo minha coleção de maquiagem por ordem alfabética e escala cromática. É claro que eu sei. — Então ela fecha a cara. — E nunca mais me desrespeite.

Mona abaixou a cabeça, acatando. Maria e Peter se aproximam.

MARIA: Eu voto no quebra-cabeça. Não por preguiça… mas porque meu ombro vai deslocar se eu tentar carregar uma tartaruga pesada.

PETER: É claro que vamos fazer o quebra-cabeças. Não é óbvio? — Ele riu.

Raymond já pega o papel e lê de novo.

RAYMOND: “Até um ponto no alto da ilha…” — Suspira. — Quão alto é o “ponto alto”, eu me pergunto.

Betty dá tapinhas encorajadores no ombro do marido. Enquanto isso, Becky tira o papel com força das mãos de Danny para ler uma informação adicional.

BECKY: “E não se esqueçam: A primeira equipe a chegar no Tapete Dourado de Conclusão ao fim da etapa, ganha o Passe Livre, válido até o fim da quinta etapa.” — Ela leu. — Bom! Nós temos nosso objetivo. Pronto?

Danny assentiu.

E então, cada dupla correu para sua área designada para completar seu desafio.

***

O sol das Galápagos não perdoava. Luz branca refletida no mar, calor subindo das pedras. O caminho para o alto da ilha era uma trilha estreita, cercada por arbustos secos e rochas irregulares. As réplicas de tartaruga eram blocos de cimento pintados, pesados o suficiente para transformar qualquer subida em tortura.

Becky e Danny foram os primeiros a segurar as alças de corda da sua réplica. Becky tomou a dianteira, corpo inclinado para frente. Danny ajustou a posição para que o casco não batesse nas pernas.

DANNY: Ugh… affz… essa coisa é mais pesada que eu esperava. — Reclamou entre arfadas.

BECKY: Reclamando tão cedo? Não era você a superestrela do triatlo? — Ela riu debochada. — Vamos, frangote, vamos correr!

Agora com fogo nos olhos, Danny e Becky começaram a subir a trilha com um trote rápido.

Até que Danny tropeça numa pedra solta e vai direto ao chão, com a traseira da tartaruga caindo nas suas costas.

DANNY: AAAAGH!

Becky freiou, mas ao invés de empatia, ela fechou a cara e franziu o cenho.

BECKY: O que foi agora?! Levanta desse chão sujo, Danny!

Danny grunhiu, meio de dor e meio de incredulidade.

DANNY: O quê? Você está com cegueira seletiva? Não tá vendo que essa coisa de concreto caiu em cima de mim?

BECKY: Eu tô vendo, e também estou vendo que você é um fracote. Simplesmente use sua força e se levante!

DANNY: Você acha que eu não tô tentando? Você tá com sorte, eu tô levando a parte mais pesada desse bicho.

BECKY: Sorte? Eu estou guiando o caminho, eu tenho o trabalho mais difícil!

DANNY: Mais difícil?! É a coisa mais fácil do mundo!

BECKY: Não é não!!!

DANNY: Só é dificil se você complicar e você adora complicar as coisas! Que nem naquele dia em que…

A discussão acalorada deles virou cacofonia de fundo enquanto Hank & Clint, os irmãos roceiros, passaram pela dupla. Os dois trocavam olhares rápidos para sincronizar os passos.

HANK: Parece que tem problema no paraíso dos pombinhos, né não, mano?

CLINT: É! — Ele riu. — Ainda bem que eu não namoro, mulher é bicho complicado mesmo!

HANK: Não, ‘ocê num namora por quê nenhuma fêmea que preste ia querer ficar com um tongo que nem ‘ocê!

Clint fechou a cara.

CLINT: Cala a boca, sô! Vamos apertar o passo!

E em silêncio, eles continuaram trilha acima.

Mais atrás, Willow e Larry mantinham o ritmo deles. Nem lentos, nem rápidos. Larry levava a maior parte do peso no ombro, como se fosse um tronco recém-cortado. Willow segurava firme, mas com expressão serena. Passaram por Becky e Danny enquanto a dupla ainda discutia.

Quando Danny finalmente retomou a corrida, eles estavam em quarto lugar, com a dupla de Betty & Raymond se aproximando, em silêncio concentrado. Raymond respirava pesado, mas não soltava um único lamento. Betty mantinha o olhar fixo no próximo trecho da trilha.

Após mais minutos de corrida, a dupla de ex do triatlo ultrapassou os lenhadores. O suor aumentava conforme ganhavam altitude. Becky puxou Danny para ultrapassar Hank e Clint numa curva estreita.

CLINT: Ô! Dá espaço!

Becky gargalhou ao passar por ele.

BECKY: Foi mal, cowboy! Isso é uma competição!

Willow e Larry avançaram no ritmo deles, mantendo a distância. Larry aproveitava cada sombra para ajustar a pegada na corda, mas sem parar totalmente. Betty e Raymond, ainda focados, subiam sem desviar atenção tal quase um exercício militar.

***

Enquanto isso, a câmera focou nas duplas espalhadas pela areia escaldante, tentando montar os enormes quebra-cabeças de madeira sob o sol impiedoso. O molde externo da criatura até parecia fácil, mas o centro era traiçoeiro: peças quase idênticas, com pequenas diferenças de encaixe que confundiam até os mais atentos.

Logan e Nick estavam lado a lado, cada um com uma abordagem completamente diferente.

Nick segurava uma peça como se tivesse encontrado a chave da vitória. Encaixou com força bruta, empurrando até o tabuleiro ranger. A peça saltou de volta.

NICK: Ugh… é mais difícil do que eu esperava…

Ele tateia a areia em busca da próxima peça, mas um siri saiu da areia e cravou a pinça em sua mão.

NICK: Ooooogh! Crustáceo maldito!

Nick pulava de dor, sacudindo a mão como se estivesse pegando fogo. Logan observou a cena, mordendo o lábio para segurar o riso.

LOGAN: Bem, você está no habitat dele. — Comentou com diversão.

NICK: Seu traídor! Você deveria estar me consolando, não defendendo este artrópode enxerido!

Logan, se sentindo mais recuado, dá uns tapinhas consoladores no ombro de Nick, o que só irrita mais o garoto.

NICK: Foque nos cálculos, que tal, Logan? — Respondeu ríspido.

Logan acatou, concentrado na tela minúscula de uma calculadora científica.

LOGAN: Estatisticamente, cada peça possui quatro lados possíveis. São setenta e cinco peças. Se retirarmos duas faces de cada peça de borda, reduzimos as combinações em oitenta e dois por cento. Isso, claro, considerando apenas os encaixes com simetria perfeita e…

Antes que pudesse terminar sua análise, um coco despencou do coqueiro acima e acertou direto sua cabeça com um “TOC” seco. A calculadora voou da mão dele e caiu na areia.

Logan caiu para trás, massageando a testa em silêncio.

Nick, ainda chacoalhando a mão beliscada, olhou para o parceiro caído. Ele nem teve vontade de rir. O quebra-cabeça permanecia praticamente no mesmo ponto inicial.

Poucos metros adiante, Mikayla e Mackenzie já tinham separado metade das peças, mas, rapidamente, haviam perdido o rumo.

MIKAYLA: Essa peça encaixa aqui, eu juro! — Apontou enfaticamente.

MACKENZIE: Não, aí vai a peça verde-água!

MIKAYLA: Esta é a peça verde-água.

MACKENZIE: Claro que não, mana! Essa é a peça azul-petróleo!

MIKAYLA: O quê? Affz, eu disse que você não devia ter me abandonado no oftalmologista naquele dia. O Dr. Isaacs fez um teste de daltonismo!

MACKENZIE: Mas a Lavígnia tava fazendo um desconto relâmpago no site da MyBeauty! Eu não pude perder a live no Penstagram! Eu queria o cupom!

MIKAYLA: E no final qual base te deu uma micose? A da MyBeauty!

MACKENZIE: Não fala assim da Lavígnia! Ela é uma gênia incompreendida!

As duas deixaram as peças de lado, trocando acusações e gesticulando sem parar. O quebra-cabeça à frente delas parecia abandonado.

Do outro lado, Peter e Maria lutavam contra o calor e a própria paciência. Maria pegou uma peça e sorriu, tentando animar o filho.

MARIA: Olha, filho, essa tem o formato engraçado, parece um coraçãozinho! Pode ser um sinal!

PETER: Mãe… isso não é sinal, é madeira cortada errada.

Ele suspirou fundo, já com suor escorrendo pelo rosto, enquanto Maria insistia em ver esperança no desafio.

MARIA: Lembra que você adorava fazer quebra-cabeças? Você vivia me pedindo para comprá-los quando você era criança.

PETER: Sim, quando eu era criança, mãe. Fazem décadas. — Ele limpou o suor. — Vamos só nos concentrar.

Um pouco mais adiante, Mona fazia progresso silencioso. Peça por peça, sua estrutura começava a ganhar forma. Chantelle, porém, de repente largou o quebra-cabeça, ergueu os braços num gesto teatral e declarou:

CHANTELLE: Já chega. Estamos aqui tempo demais. — Cruzou os braços com firmeza.

Mona levantou os olhos, incrédula.

MONA: Tempo demais? Só se passaram dez minutos, senhorita…

CHANTELLE: Exatamente. Dez minutos! Eu já estou me sentindo desidratada. — Se abanou dramaticamente com as mãos.

Sem dar espaço para discussão, a influenciadora se afastou em direção à sombra de um coqueiro.

CHANTELLE: Não estou te ouvindo! Vou proteger a minha pele.

Ela se escorou na árvore e puxou uma lixa de unhas,para “descansar”. Mona suspirou, resignada, voltando sozinha ao quebra-cabeça. Mas o destino parecia zombar de Chantelle: um coco despencou do alto, passando a centímetros de sua cabeça.

CHANTELLE: AAAAAAAAAH! VOCÊS VIRAM ISSO?! EU QUASE MORRI!

Ela entrou em um faniquito digno de novela, correndo em círculos e gritando por proteção da produção. Mona mordeu o lábio para segurar o riso, mas um discreto “pfff” escapou.

CHANTELLE: O que você disse, Mona?! — Os olhos faiscavam de indignação.

MONA: Nada… — Ela tossiu forçadamente. — Apenas… tosse, senhorita.

E voltou ao trabalho, tentando ignorar o drama.

Poucos metros ao lado, Antoine e Martin trabalhavam com uma elegância quase irritante. O quebra-cabeça deles já estava praticamente completo.

Martin ajeitou a última peça com um floreio exagerado, como um maestro finalizando uma sinfonia.

MARTIN: Et… voilá! C’est parfait!

Ele deu dois tapinhas no tabuleiro e abriu um sorriso cheio de vaidade.

MARTIN: Viu? Eu disse, un misè-en-place ben feito é sempre o segredo!

Antoine arqueou a sobrancelha, contrariado, mas não conseguiu esconder o orgulho.

ANTOINE: Tsk. Eu odeio, odeio admitir quando você tem razón… Bon. Allez, vamos ler a próxima pista? Garçon?!

Um surfista local das Ilhas Galápagos, contratado pela produção, aproximou-se com um jeito despreocupado, conferiu rapidamente o quebra-cabeça e fez sinal de OK. Depois entregou um envelope selado aos dois quebecois.

Antoine abriu com um gesto dramático, como se fosse revelar uma carta.

ANTOINE: Hmmm… intéressant. Parece que agora… será um desafio individual.

Martin inclinou-se por cima do ombro do frenemie, arregalando os olhos, intrigado.

***

O som das ondas foi ficando mais distante, substituído pelo farfalhar do vento seco nas folhas. Na última curva antes do topo, Becky apertou o passo. Danny, respirando pela boca, seguiu no embalo. Eles chegaram juntos, colocaram a tartaruga sobre a marca pintada no chão… e congelaram.

Sentadas na sombra de uma palmeira, Hikari e Yumi já estavam lá. A tartaruga delas estava perfeitamente alinhada na marca. As duas olhavam para o horizonte, imóveis, sem qualquer sinal de suor ou cansaço.

DANNY: …Como?!

BECKY: Elas nem… ofegam?

Nenhuma resposta. Apenas um leve piscar de olhos sincronizado.

Becky e Danny se entreolharam, recuperando o fôlego, enquanto o som distante das outras duplas subindo ecoava na trilha.

Hank e Clint finalmente chegaram à caixa de pistas, e Hank pegou a próxima instrução, lendo-a em voz alta.

CLINT: "Para o próximo desafio, dirijam-se à Playa del Pescados, no lado oeste da ilha, um local conhecido por seus grandes cardumes de peixes. Este é um desafio individual: um membro de cada equipe deve surfar até uma área marcada no mar, onde uma grande rede cheia de peixes de mentira estará esperando. Cada participante deve pegar três peixes e trazê-los de volta para a praia. Cuidado: misturados aos peixes, há objetos aleatórios que servirão como obstáculos."

Os olhos de Clint brilharam ao terminar de ler, um sorriso se espalhando por seu rosto. Hank apenas cruzou os braços, com a testa franzida em pensamento.

HANK: Bem... ‘ocê quer fazer essa, ou faço eu?

Clint estufou o peito, irradiando confiança.

CLINT: Deixa comigo!

*ENTREVISTA ON*

Hank e Clint estavam sentados lado a lado no confessionário. Hank ajeitou o chapéu, soltando um longo suspiro resignado.

HANK: Olha... é difícil para mim dizer isso em voz alta, mas quando se trata de pescar, eu confio no meu irmãozinho. Ele sempre foi... bão demais nisso.

Clint abriu um largo sorriso convencido.

CLINT: Com certeza! Lá no rancho, no açude, eu já pesquei de tudo. Enguia, bagre, arraia... até um jacaré, acredita?

Hank deu uma risadinha, balançando a cabeça.

HANK: Você quer dizer aquela vez que você "pegou um jacaré" que acabou sendo o gato do vizinho?

Clint pareceu ofendido por um segundo, depois se defendeu com entusiasmo inabalável.

CLINT: A culpa não é minha se aquele diacho de gato malhado tinha a pele mais áspera que escamas de carpa!

*ENTREVISTA OFF*

A cena cortou para um segmento pré-gravado. Lucina caminhava por uma praia intocada, o vento bagunçando seus cabelos enquanto ela se dirigia diretamente para a câmera.

LUCINA: As Ilhas Galápagos abrigam mais de quinhentas espécies de vida marinha. Infelizmente, para este desafio, fomos obrigados a usar peixes de madeira. Algo sobre "preservar o ecossistema" e o governo ameaçando "nos processar por crimes ambientais". — Ela fez um som de desdém. — Tanto faz. Deixei os advogados da emissora resolverem isso. Eles nem sabem que o desafio original envolvia atirar em pássaros locais. Enfim! Vamos ver como nossos competidores se saem.

***

De volta à praia do desafio, Antoine e Martin já estavam em movimento. Os chefs quebequenses haviam escolhido pranchas de surfe reluzentes. Martin, sem cerimônia, tirou o dolmã, ficando pronto apenas com uma sunga justa. Por um breve instante, Antoine pareceu avaliar o físico do seu parceiro de cozinha mais do que a tarefa em si, antes de tossir bruscamente e desviar o olhar.

Enquanto Martin remava em direção à área demarcada com uma graça surpreendente, Clint correu atrás dele, batendo na água com as mãos como se estivesse numa corrida olímpica frenética.

Logo, ofegante e espirrando água, Clint tentou puxar conversa.

CLINT: ‘Ocê é bom nessa coisa de pescar, uh… Marcel, não é?

Martin virou a cabeça, estreitando os olhos por causa do sol e do insulto.

MARTIN: É Martin! Mar-tã! — Corrigiu com irritação palpável. — E é claro que sou bon! Que chef que se preze não sabe pescar o próprio poisson?

Para provar seu ponto, Martin deu um puxão certeiro na linha. Um instante depois, um peixe de madeira pintado de forma berrante pendia do anzol.

MARTIN: Et voilà! É simples, non?

Ele soltou uma risada orgulhosa e arrogante. Clint, lutando com seu próprio emaranhado de fios, só conseguiu franzir a testa e tentar esconder sua frustração.

***

Um pouco mais atrás, Larry já se prontificava para representar sua dupla, tirando os sapatos e entrando na água com entusiasmo. Becky e Danny, por outro lado, continuavam rodadas intermináveis de jokenpô, cada um recusando-se a perder.

Finalmente, Raymond apareceu, carregando sua prancha com calma serena.

BETTY: Vai lá, Rayray! Mostra pra eles como se faz na terceira idade!

Raymond sorriu com humildade, ajeitou os óculos e entrou na água. Em vez de remar de peito aberto como os demais, avançou devagar, nadando de cachorrinho até a zona demarcada, arrancando risadas discretas da equipe de produção.

Finalmente, Danny venceu o interminável jogo de pedra-papel-tesoura e correu até a água, jogando-se de cabeça. Becky, emburrada, cruzou os braços e encarou a câmera com um olhar dramático.

BECKY: Pois muito que bem! Que ele faça bom proveito! Eu não preciso disso pra provar minhas habilidades. Só espero que não estrague tudo… como sempre!

As outras duplas, pouco a pouco, concluíam seus quebra-cabeças de tartaruga e já se juntavam na praia para o desafio da pesca. Mackenzie, Maria e Nick se apresentaram como representantes de suas duplas.

Peter, confiante, falava com os braços cruzados, enquanto observava a mãe se preparar.

PETER: Ainda bem que a mamãe aceitou pescar. Ela nasceu numa ilha, sabe? Obcecada por peixe! Então, se alguém aqui entende disso, é ela. Mesmo que sejam peixes… de madeira.

Logan, ao lado, parecia menos convicto sobre o próprio parceiro.

LOGAN: Não sei se o Nick algum dia pegou numa vara de pescar. Mas… hm… ele pode analisar a movimentação das ondas e calcular o melhor ponto de captura.

Peter arqueou uma sobrancelha.

PETER: Você sabe que não são peixes de verdade, né?

LOGAN: Eu só… estou tentando viver no mundo da ilusão, pode ser? Não é muito científico, mas é o que tenho.

Peter suspirou, sem jeito, e se afastou.

Na água, Nick balançava a vara de pescar com uma mistura de ansiedade e entusiasmo de alguém que claramente não fazia ideia do que estava fazendo.

Pouco depois, Chantelle e Mona surgiram correndo pela areia, ofegantes.

CHANTELLE: Mona! Vai pra água já! Estamos atrasadas! Até os nerds já estão lá dentro!

MONA: Bem, pelo menos eles ainda não pescaram nada…

A câmera foca em Nick no exato instante em que ele sente algo pesado no anzol. Ele puxa com força, a expressão iluminada de esperança… até que surge um pneu velho preso na linha. Seu rosto desaba.

MONA: Viu? Além disso, as meninas japonesas ainda não chegaram!

De repente, um som discreto de tosse interrompeu a conversa. Yuki estava logo atrás de Chantelle, imóvel e calma como sempre. Ela apenas levantou um dedo e apontou para o mar, onde sua parceira Hikari já estava sentada na prancha, tranquila, com dois peixes falsos balançando no anzol.

CHANTELLE: O quê?! Como ela já pegou dois peixes? Te dou três meses de produtos Milky Rose se contar a técnica pra Mona!

Yuki piscou lentamente, quase em câmera lenta, e sem dizer nada se afastou da cena, deixando Chantelle bufando de frustração.

CHANTELLE: Mona, apenas vá pra água logo!

Mona respirou fundo, rolou os olhos e, resignada, entrou no mar.

***

O sol castigava a praia, refletindo nas ondas como se zombasse dos competidores. As duplas remavam, cada um tentando provar sua habilidade de pescador.

Nick, como sempre, estava tendo dificuldades. Sua vara tremia de repente, e ele gritou empolgado.

NICK: É isso! É agora! Eu sinto, Logan, eu sinto!

Ele puxou com todas as forças… e de dentro da rede veio uma bota velha e encharcada. Ele a ergueu como se fosse um troféu.

NICK: A-ha! Ah… tá. Isso não conta, né?

LOGAN: Estatisticamente falando, a probabilidade de fisgar calçados em alto-mar é de 0,002%. Então parabéns, você é oficialmente uma anomalia estatística.

Nick resmungou, mas não desistiu. Mais alguns minutos de tentativa, outra fisgada forte! Ele quase caiu da prancha tentando puxar… até que emergiu um piano de cauda, completamente intacto.

NICK: Mas… como?! COMO ISSO PAROU AQUI?!

LOGAN: Bem, a pista disse que teriam objetos aleatórios como obstáculos. — Ele apontou.

Nick, suado e confuso, jogou o piano de volta à água, fazendo um “SPLASH” dramático que assustou até alguns pelicanos voando ao longe.

Enquanto isso, Maria puxava calmamente seus peixes de madeira, sorrindo como se estivesse em casa.

MARIA: Viu, filho? É como no quintal da vovó! Só que com menos mosquitos!

Peter observava da areia, ainda franzindo a testa.

PETER: Eu não sei, mãe. A vovó morreu antes de eu nascer. — Cruzou os braços, indiferente.

Maria apenas piscou de volta, sem perder o ritmo.

Mona, ainda sem fôlego, conseguiu fisgar um peixe depois de muita luta, o que fez Chantelle dar pulinhos na areia como se tivesse ganhado um reality show sozinha.

CHANTELLE: Sim! É isso, Mona! Finalmente você prestou para algo!

De repente, mais uma fisgada na vara de Nick. Ele arregalou os olhos, puxou com toda sua força, suando, gritando, bufando… até que uma bigorna emergiu da rede e despencou de volta no mar, fazendo a água espirrar com uma onda.

LOGAN: Uh… eu…

NICK: Por favor, só fique em silêncio. — Bufou com extrema frustração.

Clint, por outro lado, já surfava com tranquilidade, fisgando peixe após peixe como se fosse fácil. Hank observava da areia, batendo palmas orgulhoso.

HANK: Esse é meu irmãozinho! Oia só!

Em poucos minutos, Clint já havia completado a tarefa. Ele remou de volta até a praia, onde uma surfista local de sorriso sereno confirmou a contagem dos peixes e entregou-lhes o próximo envelope.

CLINT: Pronto! Vamos ver o que diz aqui… “Sigam até o fim da praia, onde a Zona de Relaxamento aguarda vocês.”

Os dois se entreolharam com olhos arregalados e, sem perder tempo, dispararam pela areia quente, tropeçando e rindo entre si.

No extremo da praia, a apresentadora Lucina Skye os aguardava com a elegância de sempre e como sempre, uma taça na mão. Ao seu lado, uma linha de chegada ornamentada com bandeirolas coloridas tremulava ao vento, e no chão brilhava um tapete oblongo dourado.

LUCINA: Hank & Clint! Parabéns, vocês chegaram à Zona de Relaxamento e ao Tapete de Conclusão desta etapa da corrida!

Ofegantes, os irmãos levantaram os braços para o alto, comemorando como campeões.

LUCINA: E olha só… vocês são a dupla vencedora desta etapa!

Hank respondeu com um assobio agudo, típico de rodeio, arrancando risos da própria apresentadora.

LUCINA: Como prometido, um prêmio! Vocês recebem um Passe Livre, válido até o fim da quinta etapa, para pular qualquer desafio que desejarem!

Ela ergueu um bilhete dourado reluzente, com a inscrição “PASSE LIVRE” em letras garrafais. Com um sorriso, entregou-o diretamente a Clint, que o segurou como se fosse um cheque milionário.

LUCINA: Façam bom proveito! Mas não acabou… ainda tem mais.

CLINT: Outro prêmio?

LUCINA: Claro! O prêmio surpresa desta etapa está atrás dessa cortina!

Um ajudante de palco surgiu, puxando uma cortina vermelha improvisada. Ao som de tambores rufando, a revelação aconteceu: uma imensa tartaruga de cimento, idêntica à que eles haviam carregado morro acima no desafio anterior.

LUCINA: Tcharããã! Uma tartaruga de concreto personalizada para vocês!

Os irmãos se entreolharam, tentando disfarçar o desapontamento.

CLINT: Onde vamos enfiar essa joça?

HANK: Talvez sirva de enfeite na fazenda… — Ele coçou o queixo, pensativo. — Ou de porta de curral.

*ENTREVISTA ON*

CLINT: Olha, eu não ligo muito pra tartaruga, não. É bonita, mas pesa umas duas toneladas. Não sei nem como nós vai botar no caminhão.

HANK: Mas o Passe Livre? Ah, isso sim é ouro! Agora nós tem carta branca pra escapar de qualquer desafio encrencado. Essa corrida que se prepare, porque os irmãos estão com vantagem!

*ENTREVISTA OFF*

Do outro lado da praia, Hikari já finalizava o desafio com uma leveza quase hipnótica. Equilibrada na prancha como se fosse extensão do próprio corpo, ela fisgava o último peixe com um sorriso discreto. Na areia, Yuki a aguardava com uma toalha dobrada nos braços, oferecendo-a como se fosse sua assistente pessoal e Hikari a pegou com a mesma calma, como se tudo aquilo fosse bem ensaiado.

Enquanto isso, Raymond completava sua pescaria com esforço, mas também com dignidade. Emergiu da água com o envelope em mãos e correu para junto de sua esposa.

RAYMOND: Vamos, Betty! O tapete está logo ali! — Apontou, animado.

Na água, Martin ainda lutava contra a maré e a própria frustração.

MARTIN: O que é isso?! Até os idosôs me passarrón?!

Mas o destino, em um raro gesto de generosidade, decidiu sorrir: ao puxar a vara com raiva, um peixe reluzente surgiu preso ao anzol. Ele arregalou os olhos.

MARTIN: Enfin!

Num disparo apressado, Martin e Antoine correram desengonçados pela areia molhada. Chegaram esbaforidos ao Tapete de Conclusão, mas antes que o casal de idosos pudesse alcançá-los.

ANTOINE: Vive! Nous chegamos!

LUCINA: Parabéns, Antoine & Martin! Vocês são a segunda dupla a chegar ao Tapete de Conclusão desta etapa!

Os chefs, satisfeitos, apenas trocaram um aceno cúmplice e saíram com ares de dignidade, abrindo espaço para Raymond e Betty.

BETTY: Bem… terceiro lugar não é nada mal, né?

Lucina pigarreou, com profissionalismo.

LUCINA: Na verdade, Betty… vocês estão em quarto lugar.

BETTY: Quarto? — Ela arqueou a sobrancelha. — A matemática mudou desde que eu era criança?

A apresentadora apenas virou o corpo e gesticulou em direção a Hikari e Yuki, que já estavam sorridentes atrás dela, prontas para validar sua posição.

BETTY: Oh… claro… — Piscou os olhos com um sorriso resignado. — Preciso trocar essas lentes, hehe. Parabéns, meninas.

Com toda a naturalidade do mundo, Betty abriu a pochete de Raymond, revirou um pouco e puxou um punhado de balas de caramelo, distribuindo como se fosse prêmio de consolação.

BETTY: Aqui, para vocês. Um docinho!

As japonesas aceitaram com reverência, sorrindo agradecidas, enquanto Betty as observava como uma avó orgulhosa, ainda que não fizesse ideia de quem elas eram.

*ENTREVISTA ON*

BETTY: Top 4! E na primeira rodada! Veja só, Raymond. Quem diria, hein? Pra dois velhinhos, acho que foi um bom resultado.

RAYMOND: Foi mais que bom, foi ótimo. E ainda fizemos amigos novos!

BETTY: Sim, aquelas meninas japonesas… muito boas meninas. Meio quietinhas, mas têm um jeito tão doce.

RAYMOND: Quer apostar que elas gostaram dos caramelos?

BETTY: Quem não gosta de caramelo? — Ela sorriu, oferecendo mais balas para a produção atrás das câmeras.

*ENTREVISTA OFF*

Após alguns minutos tensos, Larry surgiu correndo pela areia, ofegante, mas com um sorriso largo. Com o envelope em mãos, ele se juntou à filha, e juntos cruzaram o Tapete de Conclusão.

LUCINA: Parabéns, Willow e Larry! Vocês são a quinta dupla a chegar!

Willow ergueu os braços com entusiasmo forçado, enquanto o pai mal conseguia respirar, apoiando-se nos joelhos. Mas a comemoração foi logo interrompida por um grunhido indignado vindo de trás.

BECKY: Quê?! Sexto lugar? Isso é um pesadelo!

Danny parou em seco, atônito.

DANNY: Sexto?! Mas… nem top 3? Nem pódio? — Ele gesticulou, incrédulo.

BECKY: Ah, eu sabia! Culpa sua, Danny! Se eu tivesse feito a pesca, já teríamos terminado faz tempo!

Antes que o ex pudesse responder, ela estalou um pescotapa na nuca dele, fazendo-o tropeçar de surpresa.

BECKY: Agora vamos logo, antes que acabemos em último!

Com resmungos e passos apressados, os dois atravessaram o tapete, ainda discutindo.

Poucos minutos depois, uma nova dupla surgiu trotando pela areia, completamente exausta. Maria sorria como se tivesse acabado de ganhar a temporada, enquanto Peter parecia um zumbi em movimento, com os ombros caídos e o olhar vidrado.

MARIA: Conseguimos, filho! Estamos dentro! Não fomos eliminados!

Peter não encontrou energia nem para levantar o braço em comemoração, apenas deixou o corpo desabar sobre a areia, arfando.

LUCINA: Parabéns, Maria e Peter! Vocês são a sétima dupla a concluir esta etapa da corrida!

Maria acenava para a câmera com um brilho quase infantil nos olhos, completamente alheia ao estado moribundo do filho.

***

Na água, a disputa final parecia se arrastar em câmera lenta. Mackenzie, Nick e Mona ainda lutavam contra a maré, cada puxão de vara sendo acompanhado por olhares tensos na areia.

Mikayla torcia com o coração na boca, mãos em concha ao redor da boca.

MIKAYLA: Vai, Kenzie! Você consegue! Só mais um peixinho e a gente tá salva!

Mackenzie, pingando suor e água salgada, cerrava os dentes e puxava a vara com toda a força.

MACKENZIE: Eu não vou deixar a gente perder agora!

Um pouco ao lado, Logan andava em círculos, dedilhando freneticamente sua calculadora de bolso.

LOGAN: Probabilidade de Mona terminar antes da gente: 62%. Probabilidade de Nick pescar algo que não seja sucata: estatisticamente zero. Conclusão: estamos ferrados.

De fato, Nick puxava a linha com todo o entusiasmo, apenas para revelar… uma bicicleta enferrujada.

NICK: Olha só, uma bicicleta vintage! — Apontou impressionado. Então chacoalhou a cabeça lembrando do objetivo. — Foco! Preciso fisgar um peixe e não essas tralhas!

Enquanto isso, ao lado, Chantelle estava de braços cruzados e expressão cada vez mais amarga.

CHANTELLE: Mona! Você está demorando horrores! Quer nos deixar viral por sermos ELIMINADAS? Anda logo, mulher!

MONA: Eu tô tentando, senhorita Chantelle! Não é como se os peixes viessem com GPS! — Ela rebateu entre os dentes, quase afundando a vara de tanta frustração.

O público de competidores já concluídos começava a se aglomerar, torcendo e comentando como numa arquibancada. Betty cochichou para Raymond:

BETTY: Isso é tão empolgante! É como ver uma novela da Manuela Dayze, só que com menos furo de roteiro.

RAYMOND: Hm, eu apostaria metade das minhas balas de caramelo nas gêmeas.

E, de repente, o grito soou:

MACKENZIE: CONSEGUI!

Ela ergueu o terceiro peixe como se fosse um troféu. Mikayla vibrou com um salto.

MIKAYLA: Eu sabia! Eu sabia! A gente não ia sair hoje!

As duas correram até o tapete, molhadas e ofegantes, e pisaram juntas.

LUCINA: Mackenzie e Mikayla, parabéns! Vocês são a oitava dupla a chegar ao Tapete de Conclusão! E mais importantemente, vocês seguem na corrida!

As irmãs se abraçaram, enquanto Lucina voltava-se para as câmeras, aumentando a tensão com sua voz de apresentadora experiente.

LUCINA: Restam apenas duas duplas. Uma delas continua na corrida. A outra… será eliminada.

Logan engolia em seco, olhando para Nick, que agora puxava um… sofá inteiro.

LOGAN: Estamos condenados. Totalmente condenados e fadados à derrota estatística.

Do outro lado, Mona finalmente sentiu a fisgada decisiva.

MONA: Peguei! Senhorita Chantelle, PEGUEI!

CHANTELLE: Finalmente! Já era hora!

Com esforço sobre-humano, Mona trouxe o terceiro peixe, quase desabando de cansaço. Chantelle arrancou o envelope de suas mãos e disparou na frente, segurando-o como se fosse uma bolsa de grife.

Quando pisaram no tapete, Lucina abriu os braços.

LUCINA: Mona e Chantelle, parabéns! Vocês são a nona dupla a chegar ao Tapete de Conclusão! Não é a melhor colocação, mas o que realmente importa é que seguem para a próxima rodada!

Mona caiu de joelhos, exausta. Chantelle olhou a assistente de soslaio e fez um muxoxo.

*ENTREVISTA ON*

CHANTELLE: Nono lugar? Não era o que eu planejava. — Ela lançou um olhar rápido e fulminante para Mona, antes de corrigir a postura. — Mas o que importa é que seguimos na competição. Eu me esforcei tanto nesta etapa, então era óbvio que íamos continuar.

Ao fundo, a voz do produtor soou:

PRODUTOR: Mona, você tem algo a dizer?

A assistente cruzou os braços, encarando o vazio.

MONA: Não. Nada a declarar. Pode cortar.

*ENTREVISTA OFF*

O som abafado de passos apressados ecoou pela areia quente. Nick e Logan surgiram ofegantes, roupas desalinhadas, encharcados e com o envelope amassado nas mãos. Quando avistaram a Zona de Relaxamento, o tapete dourado reluzia como um lembrete cruel de que haviam chegado tarde demais.

LOGAN: Acho que… chegamos.

NICK: É. Chegamos. Só não a tempo.

Eles pisaram no tapete juntos. Lucina, com seu sorriso impecável de apresentadora, aproximou-se batendo palmas compassadas.

LUCINA: Gênios da lógica e da estatística, mas incapazes de calcular uma estratégia vencedora. Foi mal, Nick, Logan… vocês estão eliminados de A Corrida Alucinante.

Nick soltou um longo suspiro, enquanto Logan puxava do bolso uma prancheta surrada repleta de rabiscos e cálculos.

LOGAN: Eu tinha tudo planejado. Cada rota, cada variável… para a corrida inteira! Mas subestimei o fator “força física”. Estatisticamente, tínhamos 32% de chance de avançar, só que… eu não incluí no modelo a variável “quebra-cabeças de tartarugas” nem “peixes falsos em alto-mar”. Isso distorceu completamente a curva.

NICK: Em resumo? A matemática nos traiu.

LOGAN: …Ou talvez a gente só não seja tão bom assim nesse jogo.

Eles se entreolharam, resignados, e deram de ombros antes de caminhar em direção à saída.

*ENTREVISTA ON*

NICK: Eu achei que seria a chance perfeita de mostrar que inteligência vence músculos. Mas acho que… músculos e caos, quando juntos, vencem qualquer coisa. Ainda assim, eu não chamaria de derrota. Prefiro “experimento com resultado negativo”.

LOGAN: Também conhecido como derrota.

NICK: É, acho que você está certo. Talvez seja a hora de aceitar que embora sejamos bons na ciência, não podemos ser bons em tudo.

Logan colocou a mão no ombro do amigo, e os dois se abraçaram em silêncio.

*ENTREVISTA OFF*

Lucina virou-se para a câmera, em sua pose de apresentadora dramática.

LUCINA: Hoje vimos que até cérebros brilhantes podem tropeçar... Mas isso é só o começo! A Corrida Alucinante ainda vai passar por locais exóticos, desafios insanos e, claro, muito drama. Quem será o próximo a dar com a cara no asfalto? Descubram no próximo episódio!

Ela piscou, a câmera deu zoom-out dramático.


Notas finais
Espero que tenham gostado da estreia! Nas notas finais, vou comentar os bastidores dos eliminados de cada capítulo. Nick e Logan vieram de uma fanfic de 2013/14, onde eram competidores com personalidades idênticas (meu eu de 12 anos não era criativo). 13 anos depois, reempacotei os dois como dupla: gênios da robótica sem tato social. McConnor, temos visitas! Desta vez, escrevi os dois como "cannon fodder" para risadas físicas e saída precoce. Injusto? Talvez. Mas toda fic precisa de um primeiro eliminado. Quem sabe um dia eles voltam? A locação também veio da minha fic de 2013. Gálapagos será, infelizmente, a única parada na América do Sul (spoiler!), então quis trazer um local icônico e científico para a despedida dos gênios. Irônico, não? Sobre a programação: tenho +6 episódios no backlog. Cada vez que terminar um, posto outro. Quando finalizar o cap. 9, posto o 3, e assim vai. Por hoje é só. Até a próxima!