A Coroa e o Coração

3 A Sombra da Flor-de-Lis



​A felicidade deles foi curta. No dia seguinte, a carruagem real os trouxe de volta ao Palácio de Verão. O clima na capital já não era o mesmo. Havia uma tensão no ar, um silêncio incômodo nas ruas onde antes o povo acenava.

​Ao entrarem no palácio, foram informados de que o rei exigia a presença deles imediatamente na Sala do Conselho. Drake sentiu um aperto no peito, uma premonição sombria.

​A Sala do Conselho estava escura, as cortinas pesadas bloqueando o sol. O Rei Robert Brooke estava de pé diante de um grande mapa da Europa, suas mãos apoiadas na mesa de carvalho com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Seu rosto, geralmente suave quando olhava para o filho e a nora, estava tenso e envelhecido.

​— Pai? — chamou Drake, parando na porta, Analis ao seu lado.

​O rei se virou lentamente. Seus olhos encontraram os deles, e a dor neles era evidente. Ele não fez menção de se sentar.

​— Meus filhos — disse ele, sua voz rouca, desprovida da habitual calor. — Lamento interromper a alegria de vocês. Eu queria ter poupado vocês por mais tempo.

​— O que aconteceu, Majestade? — perguntou Analis, sua voz tremendo. Ela agarrou o braço de Drake.

​O Rei Robert suspirou profundamente, um som que pareceu carregar todo o peso do reino. Ele olhou para Drake, e as palavras saíram pesadas, como sentenças de morte.

​— A França... — ele parou, como se a palavra fosse amarga demais para pronunciar. — A França declarou guerra contra nós.

​O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O rosto de Analis empalideceu instantaneamente, suas pernas fraquejaram e ela se apoiou pesadamente em Drake. Drake sentiu como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés. A notícia era inacreditável, terrível.

​— Guerra? — sussurrou Drake, sua voz quase sumindo. — Mas... por quê? Nós não fizemos nada.

​— O Rei Luís afirma que nossas pretensões sobre as terras do norte são uma ameaça à segurança da França — explicou o rei, com amargura. — Mas nós sabemos que é apenas uma desculpa para expandir seu império. Ele não se importa com a justiça, apenas com o poder.

​— E quando... quando eles atacam? — perguntou Analis, sua voz cheia de terror.

​— As tropas deles já estão se movendo para a fronteira — disse o rei, voltando a olhar para o mapa. — Temos poucos dias para nos preparar. A nossa frota já foi alertada, e estamos convocando as milícias.

​Drake sentiu uma onda de fúria e medo lutar dentro dele. Ele olhou para Analis, para o medo que consumia seus olhos. A felicidade que haviam experimentado na cabana parecia agora um sonho distante e doloroso.

​— O que nós faremos, pai? — perguntou Drake, sua voz agora firme, preenchida pela determinação de um príncipe herdeiro.

​O Rei Robert olhou para o filho, e pela primeira vez naquela tarde, um brilho de orgulho apareceu em seus olhos.

​— Faremos o que sempre fizemos, Drake. Defenderemos o nosso lar. Defenderemos o nosso povo. Mas, mais do que tudo... — ele olhou para Analis — ...defenderemos a nossa família.