A Convocação
2 Coitadinha
Antes de entrar no Salão Celestial, Bella parou ao meu lado e abraçou meus ombros. Seu braços eram quentes e instantaneamente me acalmaram, ela mais do que ninguém sabia como eu estava nervosa e angustiada, eu achei que estivesse pronta para aquele dia. Mas eu não estava. E nem saberia quando estaria. Recusar entretanto, uma convocação como essa era igual a negar um pedido de Deus. ELE precisava de nós para salvação da humanidade, para guiar os caídos para o caminho certo. Aquele era nosso propósito, servir de servos da bondade de Deus.
Nunca eu poderia reclamar daquilo, bem pelo contrário, era mais do que um privilégio saber que o Senhor confiava uma parte essencial da vida das pessoas em nossas mãos. Mas aquilo era diferente, completamente diferente. Não me importaria se passasse o resto de minha imortalidade apenas flechando as pessoas, pois por algum motivo eu estava terrivelmente aterrorizada com aquela convocação. Na noite anterior, eu e meu pai tivemos uma pequena discussão nada rentável para mim, – porque eu iria recusar a convocação – mas meu pai abriu meus olhos e me explicou como era a vida daqueles que recusavam a missão. Certamente eu nunca mais seria selecionada e teria que me conformar com o pouco que eu podia fazer com um arco e flecha. Que ao meu ver era um dos maiores privilégios dos celestiais, espalhar amor nos corações das pessoas. Porém ele estava certo, eu não iria me contentar com pouco, logo mais adiante eu iria querer estar presente nas orações das pessoas, e de alguma forma estar presente em suas vidas, iluminando caminhos e abençoando. E quem sabe um dia me tornar uma Serafin, o sonho de todo celestial. A classe mais difícil de conseguir chegar. Nos corredores do meu antigo colégio, eu ouvia histórias entre um cochicho e outro de como era a prova final para virar um Serafin. Meu coração quase saiu do peito quando imaginei, por isso logo tratei de me acalmar, A Convocação não deveria ser algo tão difícil. Eu esperava.
Papai beijou minha teste e me abraçou fortamente. Seu olhar estava cheio de orgulho e confiança, ele sabia que eu iria conseguir e estava feliz por mim. Se pôs nas minhas costas, e depositou em meu pescoço uma gargantilha com um pingente de prata, era um par de asas.
– Isso é para você não esquecer de sua casa, e de onde veio. – ele disse com um sorriso sincero.
– Quando estiver com dificuldade ou apenas sentir saudades, segure firme o pingente próximo a seu coração e saberá que estaremos olhando e orando para você. – completou minha mãe.
Assenti sentindo as lágrimas embaçarem minha visão, inspirei fundo e soltei o ar ao entrar no Salão. As contruções em Eros eram bem parecidas com as da terra, e o Salão Celestial quase assemelhava-se às igrejas. Tanto do meu lado esquerdo, como direito haviam arquibancadas tão altas que eu mal conseguia enxergar o fim, e milhares de celestiais da Primeira, Segunda e Terceira Ordem estavam sentados esperando o inicio da celebração. Meus pais juntaram-se aos outros pais, e, eu esperei na fila com os outros cupidos. Eu sentia meu sangue percorrer meu corpo inteiro e com ele um leve tremor, olhei ao redor à procura de algum conhecido, encontrando apenas Bree e Angela sorridentes e meus avós Esmee e Carlise.
Uma luz muito clara iluminou o salão me fazendo espremer os olhos para não ficar cega, quando um Serafin desceu através do teto do Salão e pousou graciosamente na tribuna de pronunciamentos. Ele usava uma túnica branca com ornamentos dourados parecidos com aqueles que tinha na carta, os cabelos negros estavam perfeitamente penteados para trás destacando seus lindos olhos azuis. Atrás dele estavam sentados um Regente de cada Classe, começando pelos Querubins, Ofanis, Dominações, Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos e por fim um Anjo. Um silêncio se instalou no local quando o Serafin ergueu as mãos.
– Queridos irmãos, quem vós fala é Dionísio e estamos aqui hoje para presenciar o fruto dos esforços de nossos amados cupidos. Hoje, esses jovens sairão dos portais do céu e darão sua graça na terra. – Dionísio estampava um sorriso irritante nos lábios, levando muitos outros a sorrirem com ele. É claro, não seriam eles a ter que passar 6 meses na terra como humanos, e eles podiam estar feliz pela gente, mas eu não estava.
– A Convocação é um passo muito importante para um celestial. Mais uma vez seu dever com Deus e seus esforços serão colocados em prova. E quando eles retornarem do mundo carnal poderemos lhes agradecer por salvarem centenas de vidas perdidas. – agora ele olhava diretamente para nós que estavamos esperando – Cupidos, Deus está em divida com vocês. Ele lhes deseja boa sorte e os está abençoando para que tenham sucesso na missão. E para aqueles que acharem que estão fracassando, NÃO TENHAM MEDO, E NÃO DESISTAM, — ele exaltou a voz para chamar atenção – Deus continuará amando à todos igualmente independente do resultado.
Aos olhos daqueles que já passaram pelo teste, ele até parecia ser fácil. Mas não para aqueles que estavam começando a sentir na pele o que aquilo realmente significava. Flechar as pessoas era extremamente fácil, eu descia a terra de forma invisível, decidia se aquela pessoa merecia receber o amor em seu coração naquele momento e lhe flechava. Nada complicado, não é? Entretando, A Convocação funcionava um pouco diferente, até demais. Após eu retirar um nome de dentro do grande Cálice de Deus, eu rapidamente seria transportada até onde essa pessoa estava e assim começaria minha tarefa. Eu teria o tempo estipulado de 6 meses para fazer aquela pessoa se apaixonar por alguém. Uma tarefa extremamente árdua, mas fazer uma pessoa amar outra em seis meses até que era fácil, mas não para os caídos. Os caídos eram seres humanos cruéis, não amavam o próximo – apenas à si mesmos — e geralmente estavam metidos em problemas barra pesada. A única pedra no caminho, era que teríamos que ir para terra e viver durante esse tempo como pessoas normais, humanos. Iriamos precisar de dinheiro, moradia, comida, amparo e não poderíamos pedir ajuda a nenhum celestial. Apenas algumas portas seriam abertas para a gente, senão a procura por sobrevivência acabaria atrapalhando o real motivo da missão.
A fila andou, fazendo a armadura dos cupidos tilintar em conjunto. A armadura que costumavamos usar era mais simplória que aquela usadas pelos Anjos das outras ordens quando estavam à trabalho. Meu ombros estavam um pouco pesados por causa das ombreiras de metal, que eram presas no corpete também de metal. Arabescos emolduravam meus seios e cintura, enquanto a saia rodeava meus quadris em camadas de tecido vermelho vinho, prendi no alto meus cabelos e botei uma bota baixa que ia até meus joelhos. Eu não entendia o motivo daquela armadura, mas diziam que ela representava a luta por qual iriamos passar, e o amor que iriamos levar conosco para o planeta terra.
– Quentin Alexander Venet! – anunciou Dionísio, e o cupido deu um passo a frente, colocando a mão dentro do grande Cálice e retirando logo em seguida a mão em chamas e entre seus dedos um papel dourado com um nome escrito dentro. Ele entregou o nome para o Serafin.
– O Caído de Quentin Venet, é Louis Russeau. – Quentin andou para o final da outra fila, aquela que estava virada para o portão de saída de onde iriamos partir.
Serafin Dionísio anunciou o cupido a minha frente, era Quitéria Marques, uma moça baixinha de pele morena e cabelos negros curtos. Devia ser um ano mais velha que eu, e parecia estar extremamente feliz por aquele momento, estampando um sorriso cheio de dentes brancos. Deu um passo a frente e enquanto ela pegava o nome, senti meus pés formigarem, limpei minhas mãos suadas na saia e engoli em seco esperando minha vez. Quando Dionísio fez o pronunciamento do Caído, e Quitéria foi para o final da fila, eu jurava que se pudesse sairia voando de lá.
– Renesmee Carlie Cullen.
Estatelei no lugar e não conseguia mover meus pés, minha respiração estava muito acelerada e só fui dar um passo a frente quando o garoto atrás de mim me cutucou. O Cálice batia na minha cintura, era parecido com a pia bastimal dos humanos, mas ao invés de mármore ele era de ouro puro. Olhei em seu interior e não vi papel nenhum lá dentro, a não ser uma imensa escuridão que não parecia ter fim. Com a mão tremendo coloquei-a dentro do Cálice a procura de um papel, e não demorou muito para que ele encostasse em mim. Assim que pude, o peguei e tentei puxar para fora da escuridão. Entretanto, a força que aquele nome exercia para continuar lá no fundo era tanta que apoiei minha outra mão na borda à procura de estabilidade. Retirei a mão e aos poucos as chamas foram extinguiram-se; entreguei o papel dourado para Serafin que antes de lê-lo ergueu o olhar para mim. Aquele movimento trouxe calafrios no meu corpo inteiro.
– Parabéns Renesmee Cullen, o Caído Jacob Black agora pertence a você. – seu sorriso era doce, e o papel em suas mãos evaporou.
O mesmo garoto que me cutucou para andar, soltou um suspiro e pude ouvi-lô responder para o cupido ao seu lado, “Sim, é ele. Coitadinha”.
Aquele comentário fez meu corpo endurecer de medo. Não me permiti olhar para trás, apenas segui para o final da fila e esperei os outros nomes serem retirados. Procurei por meus pais e encontrei o olhar compreensivo de minha mãe, dei um sorriso leve para dizer que estava tudo bem. Eu iria ficar bem. Quando os últimos cupidos buscaram por seus Caídos o céu já estava escuro, minha armadura reluzia à luz brilhante das estrelas e me deliciei com aquele momento por alguns minutos. Logo eu sentiria falta de não poder ver as estrelas de tão perto e me sentir revigorada a cada noite.
– Meus queridos cupidos, espero que façam esse trabalho com todo o amor que existe em seus corações. Lembrem-se na terra tudo é permitido. Durante 6 meses vocês não pertencem mais aos céus,e sim à vida na terra. Vivam.
O salão irrompeu em aplausos e gritos de boa sorte. Abanei para meus pais, mandando um beijo para eles e segui correndo juntamente com os outros. Ao chegarmos nos portões de saída, um por um foi pulando e sumindo entre as nuvens. Novamente minhas pernas me impediram de saltar, porque eu não queria aquilo, eu estava morrendo de medo. E principalmente assustada pelo “Sim, é ele”. Olhei uma última vez para os portões do céu, aquilo de alguma forma de enxeu de coragem.
– Eu posso, eu consigo! – gritei para mim mesma.
Então saltei. Atravessei rapidamente as espessas nuvens e estava na escuridão aberta. Fechei os olhos e esperei pelo cheiro de enxofre invadir minhas narinas. Eu não conseguiria abrir os olhos tão logo com medo de perder a coragem, por isso os mantive apertados. Senti as paredes de um prédio passarem através de meu corpo e quando menos percebi uma música alta jorrou em meus ouvidos. A essência doce de cigarro e o cheiro azedo de cerveja espalhado pelo local me atingiu em cheio, minha mão direita e meu joelho esquerdo estavam molhados. Abri os olhos e olhei para cima, eu estava agachada no piso molhado de cerveja e outras bebidas. Se havia algo que eu mais detestasse que o cheiro de cerveja, acho que estava para nascer. Rapidamente caminhei pelo local procurando algum rosto conhecido, mas lembrei que agora eu estava sozinha. Completamente sozinha.
Reparei ao meu redor como as pessoas estavam vestidas de forma engraçada. Logo percebi que era uma festa a fantasia onde todos estavam alteradissímos e eu não sabia o que fazer. Eu não sabia onde ir, com quem falar, e pior, eu não sabia como era Jacob Black. Dizer aquele nome, fez os cabelos da minha nuca arrepiarem. Procurei por algo que pudesse me localizar e encontrei uma placa acima do bar, eu estava no mesmo bar do início da semana, aquele onde eu me deparei com os olhos negros. Corri para a primeira porta que avistei e por sorte era o banheiro feminino. Estava vazio, me permitindo respirar com um pouco mais de calma, apoiei minhas mãos na pia e fique à encara-las por algum tempo.
– Com licença moça, — senti algo quente pegar em meu braço – está tudo bem com você? – me virei rapidamente apavorada com o primeiro contato humano. Puxei meu braço bruscamente assustando a moça e tratei de me retratar.
– Oh...Hum...Sim, eu estou bem. – sorri – É que eu caí do céu aqui nessa boate e estou um pouco perdida.
– Que nada, resolvemos isso rapidinho. — a moça tinha os cabelos negros iam ate os ombros, contrastando com os olhos cor de chocolate. Sua pele tinha um tom castanho-avermelhado e trazia nos lábios um sorriso sincero. – Falando nisso, eu me chamo Claire.
– Oi Claire Young, eu sou Renesmee. – apertei sua mão estendida.
– Agora venha, quero lhe apresentar à meus amigos!
Claire pegou minha mãe me puxei para dentro do calor humano. Céus como aquilo era esquisito, era a primeira vez que eu tinha contato direto com um humano, que ele me via e falava comigo. Eu precisava me acostumar logo com aquilo e bolar um plano para achar Jacob. Claire acenou para um cara enorme vestido todo de preto parado na frente á uma corda, rapidamente ele retirou ela e permitiu nossa entrada no local. Lá era menos cheio e estava mais fácil de respirar. Sentamos ao redor de mesa coberta de copos e garrafas de bebidas. Sentado lá estava um garoto, parecia ter a mesma idade que a minha, e também tinha o mesmo tom de pele que Claire. Seu olhar brilhou quando entramos no local e Claire sentou ao seu lado, o garoto abriu um sorriso e olhou para mim com cara de confuso.
– Quil essa é Renesmee, Renesmee esse é Quil. – ela nos apresentou sorrindo.
– Prazer. – respondi à Quil que apenas concordou com a cabeça.
– Então Renesmee, qual é a sua? – ele perguntou.
– Como... Como assim?
– É, o que você veio fazer aqui hoje? Parece não saber onde está.
– Eu...como eu disse para Claire, meio que caí do céu e vim parar aqui por engano. – dei de ombros.
– Não me parece que está aqui por engano, isso aqui é uma festa a fantasia. E bem, você esta vestida a caráter. – disse Quil com um sorriso amigável.
– Falando nisso, adorei sua fantasia. Ela passa coragem e bota medo. – comentou Claire.
– Eu não acho.
Uma voz grossa soou ao meu lado, e logo ele estava a minha frente se sentando. Meu coração pareceu parar de bater por alguns instantes. Era ele, o cara dos olhos negros, da feição furiosa que me atormentou noites adentro durante uma semana. Seus olhos estavam cravados em mim igual aquela noite na boate, mas dessa vez seu rosto era um misto de dúvida e tédio. A camisa branca estava aberta em alguns botões que exibiam seu peitoral, as mangas arregaçadas até a altura do cotovelo só acentuavam seus braços musculosos, dois suspensórios subiam a cintura e sumiam por seus ombros. Ele tirou o chapéu da cabeça e o colocou em cima da mesa, do bolso da calça puxou um papel branco todo enrolado, colocou na boca e o acendeu.
– Você não acha o quê? – perguntou Quil.
– Que ela bote medo. – disse com desdém.
– Tanto faz Jacob. – respondeu Claire de cara fechada.
– Jacob? – minha pergunta foi instintiva, e quando vi estava me debruçando em cima da mesa esperando alguma resposta.
– Black.
Ele respondeu e soltou uma baforada de fumaça da boca, o cheio era doce e invadiu rapidamente minhas entranhas, me fazendo sentir zonza por alguns segundos. Era muito cheiro misturado num lugar só, bebida alcóolica, cigarro, aquilo que ele estava fumando,e um cheiro amadeirado que eu não sabia de onde vinha.
– Então, está perdida garota? – Jacob perguntou com um sorriso sarcástico nos lábios carnudos.
– Não mais.
Notas finais
Enfim, espero que estejam gostando :D
Beijos, logo tem mais!
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