A Convocação
1 A Carta
Corri pelos corredores brancos da enfermaria e de lá pude ouvir uma cupido chorar. Era Bree Tanner, ela tinha 16 anos, apenas dois anos mais nova que eu. Adentrei a sala e a encontrei sentada em cima da maca azul clarinha, tinha o rosto virado para o lado enquanto a enfermeira tirava a bala alojada em seu pescoço. Bree podia não ter fracassado em sua missão, mas foi tirada dela de forma brusca. Chorava baixinho, lamentando o insucesso e a dor que sentia. Bree parecia ser tão nova para o que fazia, mas ainda assim o fazia muito bem. Mas quando foi selecionada para o teste, eu vi que aquele não era seu momento. Fazia pouco tempo que ela flechava as pessoas, menos de um ano. Por isso tinha pouco conhecimento da vida humana e da crueldade que ela pode mostrar quando queria. Eles não eram como nós, que eramos condicionados à amar a todos igualmente. Infelizmente o caído, como eram chamados os casos perdidos que não conseguiam amar — nem levando uma flechada — era barra pesada. Kenny era um garoto de 17 anos que constantemente era preso por roubo. Bree foi acertada por uma bala perdida enquanto a polícia estava perseguindo Kenny.
– Oi Bree – disse pegando em uma de suas mãos e sentando ao seu lado – Está doendo muito?
– A dor do sentimento de fracasso dói mais. – ela respondeu apertando minha mão quando a enfermeira Carmen acabava de retirar o último estilhaço da bala.
– Fica tranquila, daqui alguns anos você será convocada novamente. – eu falei tentanto levantar seu ânimo.
– Deus que me perdoe, — ela disse pulando da maca, olhou para cima e ergueu as mãos – mas não quero passar por essa tortura novamente. A terra é horrível.
– Mas...Você não quer tentar novamente? Se tornar um anjo? – eu falei, sorrindo internamente porque eu sabia que aquela era uma vontade mais minha do que dela.
– Não. Nunca precisei de muita coisa, e estou extremamente bem flechando as pessoas. Pelo menos nisso eu não fracasso.
Abracei seu ombros e fomos andando para fora da enfermaria. Bree estava usando uma calça jeans azul escura, uma camiseta preta e um casaco rosa. Tinha o cabelo puxado num rabo de cavalo alto, e nos pés tênis sujos de barro. Na verdade ela toda estava um pouco suja. A terra nem se quisesse conseguiria ser um pouco mais limpa do que era.
– Pelo menos de uma coisa irei sentir falta.
– Do quê? – indaguei curiosa.
– Das roupas, e dos fast-food. – Bree abriu um sorriso arteiro – Aqui é o paraíso, mas as vezes me cansa os olhos ver tanta gente usando branco, bege e prata. Sem contar que a comida vai do saudável ao extremamente saudável.
– Esses três meses na terra, afetaram sua cabeça. – ri.
– Você vai ver Renesmee, quando for convocada. É assustador no início, mas depois você se acostuma. Só não se desviei da tarefa, apesar das roupas, comidas e garotos serem muito atraentes.
– Como assim garotos? – perguntei baixinho, mostrando meu descontentamento com aquele comentário. Ter qualquer tipo de relacionamento com um humano era abominável.
Não que isso fosse uma regra, mas aqueles que colocavam seus prazeres acima da sua missão, voltavam com a imagem e honra manchada. E raramente conseguiam outros trabalhos como cupidos e anjos.
– É, garotos. Você pode achar um absurdo, mas eu quase caí na lábia de um amigo do Kenny. Felizmente ele não era um caído, como o amigo. Mas graças ao meu bom senso, me concentrei e encontrei meu caminho de volta à tarefa.
– Fico feliz que esteja de volta Bree. – sorri, meio desconfortável pela revelação – Mas isso é estranho.
– Se envolver com um humano? – assenti – É, parece ser. Mas ao mesmo tempo não parece, sabe? – ela parou refletindo um pouco – A sensação que eu tinha quando estava perto dele, é diferente de tudo que já senti. É algo bom Nessie, mas não são para cupidos como nós. Eu não trocaria minha vida aqui, por uma completamente cheia de insegurança e medos na terra. Não mesmo.
– É, nem eu.
– Acho que vou tomar um banho, me sinto suja e fedida. Estou cheirando a enxofre. – ela disse enquanto pegava uma parte do cabelo e passava pelo nariz – A terra esta cada vez mais perto do inferno do que eu imaginava.
– Tudo bem querida, — beijei sua testa – aproveite e descanse também, você deve estar exausta. Quando estiver mais disposta, irei te procurar.
Bree assentiu e dobrou no corredor que ia para a ala feminina. Segui em frente, saindo do prédio e dando de cara com o sol se pondo. Era estranho pensar que Bree tinha quase passado dos limites. Os humanos eram imprevisíveis, ridículos e cruéis. Eu não conseguia me imaginar gostando de um ser humano, isso fugia dos meus preceitos — e da ética de Eros.
Caminhei um pouco pelo parque central, até chegar na estação. Era lá que acontecia o embarque e desembarque dos cupidos. Uma enorme fileira de cupidos com seus arcos em mãos, esperava a abertura dos portões para então descerem a terra, e flechar as pessoas. O ventou bateu forte fazendo as penas de minhas asas balançarem conforme seu ritmo, meus cabelos voaram até meu rosto e quando os tirei da frente dos olhos, obtive a visão que eu mais gostava do dia. Em questão de segundos, milhares de cupidos invadiram o crepúsculo dos céus, com seus arcos dourados. Passaram voando alguns metros acima de mim, e dirigiram-se ao rebastecimento. Lá eles iriam se alimentar, repor energias e flechas para o próximo dia.
Os portões de saída foram abertos quando todos os cupidos diurnos passaram pela entrada. Agora era a vez dos cupidos noturnos adentrarem a terra. Puxei meu arco e flecha das minhas costas, e apressei o passo para entrar na fila. Acima de mim vi Angela Weber passar e acenar com um sorriso bobo nos lábios. Ela sempre exibia esse sorriso quando presenciava amor verdadeiro sem precisar flechar. Os cupidos diurnos recebiam os casos mais fáceis como reconciliar amor entre pais e filhos, casais separados, entre outros tipos casos. Já os noturnos ficavam com os casos mais complicados. As vezes era necessário flechar duas vezes a mesma pessoa para que ela “entendesse o recado”. Geralmente eram jovens e adultos perdidos no mundo proibido, alguns com os corações partidos e outros que apenas queriam ser salvos da depressão de não ter ninguém. Desde os meus 15 anos, que foi quando eu comecei a flechar, minha conta de amor compartilhado havia passado dos mil.
Desci as escadas juntamente com os outros, eram milhões de cupidos saltando no fim da escada e se espalhando pelo milhares lugares do mundo. Impulsionei meu pés e saltei de braços abertos, instantaneamente minhas asas se abriram e me dirigi ao Estado da Califórnia. O vento passava zunindo pelos meus ouvidos, e ao redor de mim vi outros cupidos mergulhando nas luzes da cidade que nunca dormia. Pousei com força em cima de um prédio velho, recolhi minhas asas para que elas facilitassem minha locomoção e desci as escadas de emergência. Notei que não estava num bairro nobre da cidade, onde o trabalho era facilitado pelo comportamento das pessoas.
Depois de caminhar algumas quadras, encontrei a boate Velvet Lounge com as portas abertas. Esse era o lado ruim de ser um noturno, você só podia entrar no lugar quando as portas estavam abertas, ou quando alguém entrasse e saísse do local. As luzes coloridas me fizeram apertar os olhos para enxergar melhor através da espessa fumaça que circulava o local. A música tocava alta, enquanto as pessoas dançavam espremidas uma nas outras e os barman não paravam um minuto de distribuir bebida. No meu canto esquerdo tinha duas meninas segurando os cabelos de outra, enquanto essa vomitava apoiada na parede. Havia uma moça bebendo um drink de cor esquisita sentada nos banquinhos do balcão, parecia estar sozinha, pois a cada minuto olhava para os lados como se estivesse procurando alguém. Ao seu lado tinha um homem com o rosto transbordando desapontamento e tédio. Estiquei o braço esquerdo para frente, e o direito dobrei até minha mão chegar perto de meu rosto, soltei a flecha que acertou em cheio nas costas da moça soltando fragmentos de um pó vermelho brilhante. Ela rapidamente endireitou a coluna, e olhou para o moço ao lado oferecendo uma bebida, que foi aceita de bom grado. Um conversa alegre iniciou-se e logo estavam aos beijos. Sorri contente por ter acertado, e caminhei para dentro da multidão que dançava.
Aos poucos fui acertando algumas pessoas com minhas flechas. Era engraçado ver a reação delas quando sentiam aquele sentimento adentrando seus corpos. Algumas riam sem parar, outras botavam a mão no peito, enquanto outras olhavam desconfiadas para trás procurando quem poderia ter lhes acertado. Eu já havia conseguido formar uns 10 casais naquela festa, e ainda tinha a noite toda para perambular por Palo Alto. A música trocou de batida afastando algumas pessoas da pista de dança, abrindo caminho para meus passos cuidados, já que eu não queria esbarrar em ninguém e levar choque. Essa era uma das coisas que Deus havia criado, e que eu não entendia muito bem como funcionava. Eu só sabia que o contato físico entre seres do mundo celestial e humanos era doloroso para ambos os lados. Esbarrões com humanos era frequente, e eu sentia apenas um leve choque na parte tocada. Era claro, que eles não viam minha imagem fisicamente, mas eles também sentiam esses choques. Quando um humano sentia calafrios no corpo costumava dizer que era algum espirito passando por ele, isso gerava muitas risadas em Eros, pois na verdade eram os cupidos passando perto deles. Mas criou-se esse mito de que calafrios não eram algo bom, pois relacionava-se com espíritos.
Procurei por alguém que merecesse ser flechado, e encontrei um casal dançando sensualmente no meio da pista. A moça loira parecia uma minhoca enroscando o corpo no garoto. Ela usava um vestido verde curtíssimo, que quase podia-se ver sua alma. Já o garoto estava de camisa azul marinho com detalhes em vermelho e uma calça jeans, enquanto os cabelos eram constantemente amassados pelas mãos nervosas da loira, o corpo dela era como um baú cheio de tesouros onde o cara moreno parecia querer achar a jóia mais rara. Eles pareciam se gostar, e aquilo só facilitaria meu trabalho. Apontei a flecha na direção do moço que desviava das investidas de beijos da moça, esperei ele estar numa posição certeira e soltei o ar liberando um dedo da corda do arco. Foi quando ele virou o rosto, e olhou diretamente em meus olhos. Meu corpo foi do quente ao gelado em questão de segundos, ele estava me vendo. Mas isso era impossível, humanos não viam cupidos. Não consegui soltar meu outro dedo, pois os olhos negros dele estavam cravados em mim. Minha gargante secou, e ficamos por alguns segundos nos encarando porque eu simplesmente não sabia o que fazer. Os lábios dele eram cheios e convidativos, a pele morena só ressaltava sua beleza, o nariz de tamanho perfeito e os cabelos negros desgranhados formavam a combinação mais harmoniosa que eu já havia visto. Mas as feições de seu rosto não transmitiam tranquilidade mas sim agressividade, parecia que ele sabia o que eu iria fazer. Senti meu coração bater forte no peito, lentamente baixei o arco e flecha e por fim soltei o ar preso em meus pulmões. Os olhos negros se desprenderam dos meus e ficaram sem foco, logo ele voltou a atenção para a dança e eu saí correndo de lá.
Atravessei cinco quadras à passos largos e impacientes. Parei e me encostei num poste de luz, meu corpo ainda tremia devido o susto que levei. Não sei porque fiquei tão nervosa se eu sabia que EM HIPÓTESE ALGUMA ELE PODERIA TER ME VISTO. Mas a forma que ele olhou para mim, o cenho franzido, com o rosto enraivecido, aquele olhar que queimava... A sensação era que ele não queria que eu acertasse ele.
Voltei correndo para Eros, eu não conseguiria me concentrar em mais nada naquela noite, e flechar alguém com a visão perturbada por aqueles olhos seria um fracasso, eu causaria mais estragos do que reparos. Passei pelos portões de entrada e sequer pensei em reabastecer, corri direto para casa, eu precisava conversar urgentemente com minha mãe.
Quando entrei meu pai notou a expressão em meu rosto, e gritou por minha mãe. Logo os dois estavam do meu lado, me conduzindo para o sofá. Edward, meu pai antes de conhecer minha mãe e ser rebaixado à Terceira Ordem como um Principado, era da Primeira Ordem, composta pelos anjos mais próximos de Deus, mais conhecidos como Ofanins. Já minha mãe era um simplória Arcanjo, da Terceira Ordem. O relacionamente entre celestiais de ordens diferentes era algo proibido, mas quando Deus viu que não conseguiria frear as paixões proibidas, criou a regra de que aquele de posto mais alto deveria se rebaixar até igualar-se a ordem do celestial amado. Então meu pai, antes Ofanins da primeira ordem, agora era um Principado da Terceira Ordem, juntamente com minha mãe, Bella. Ele sempre deixou claro que ser rebaixado nunca fora problema para ele, sendo que Deus reconheceu o amor igualitário entre todos os seres. Apenas os cupidos não tinham ordem, pois para se tornar um anjo – a última classe da terceira ordem era necessário passar por um teste. Aqueles que não conseguiam passar, perpetuavam como cupidos. Assim como todas as outras classes das ordens.
– O que aconteceu minha filha? – perguntei minha mãe passando as mãos em meus longos cabelos.
– Eu...Eu não sei explicar, aconteceu algo estranho hoje. – respondi ainda perplexa. Meu pai pegou meu arco e flecha e o guardou no armário branco que tinha na sala de estar. Agora eu entendi quando Bree reclamou das roupas, a terra era tão cheia de cor, mesmo que algumas muito obscuras, enquanto o céu era, branco, apenas branco.
– Vamos lá minha menina, conte o que aconteceu. – Edward me encorajou.
– Eu acho, não sei bem ao certo, mas acho que um humano me viu! – engoli o nó que estava a horas na minha garganta. Minha mãe olhou um pouco assustada para meu pai, querendo saber também respostas.
– Fique tranquila querida, isso acontece com mais frequencia do que se imagina. – ele beijou o topo de minha cabeça – São humanos complicados de entender, mas só porque ele olhou para você não significa que ele necessariamente à viu. Ele pode sim ter sentido sua presença, mas nada que possa lhe machucar. Tudo bem? — sorriu para mim, e me fez levantar do sofá.
– Mas é que pai, o olhar dele era assustador. Eu não sei como explicar, ele parecia com raiva mas ao mesmo tempo parecia querer ser salvo. Eu apenas entrei em pânico. – dei de ombros.
– Sim minha doce, o importante é que você está bem e foi apenas um susto. Agora quando isso acontecer novamente você saberá como agir. – explicou minha mãe que me acompanhou até o banheiro ligando o chuveiro – Tome um banho e vá se deitar, amanhã você tem mais flechadas para dar.
Beijei o rosto amado de minha protetora e me deliciei com a água quente do chuveiro. Deixei ela escorrer pelo meu corpo, passando por minhas costas e asas aliviando meus músculos atrofiados.
Aquela semana passou voando, evitei de passar naquela boate novamente com medo de reencontrar o mesmo rosto que me pertubou todas as noites. Eu tentei evitá-lo, mas acho que o choque foi tanto que minha mente relembrava o momento constantemente. Era pleno sábado de manhã, meu pai terminava de fazer o café da manhã e minha mãe preparava a mesa quando a campainha tocou. Abri a porta e um Serafin me olhava com incríveis olhos esmeraldas. Sempre disseram que os Serafins eram os mais bonitos, e eu estava comprovando a tese. Os cabelos cacheados e loiros lhe caiam pelo rosto, os braços fortes emolduravam sua tûnica branca e as asas tapavam quase toda minha visão da rua. Elas eram tão enormes que pareciam ter vida própria, o Serafin adentrou nossa casa e entregou à meus pais uma carta bege com ornamentos em dourado que reluziam a luz do sol que insistia entrar pelas janelas. E da mesma forma que chegou, foi embora sem dizer sequer uma palavra. Rapidamente meus pais abriram a carta e me parabenizaram, entregando-em em seguida para lê-la.
“Convocamos a cupido Renesmee Carlie Cullen,
a nos honrar hoje com sua presença ao meio dia, no Salão Celestial,
para realização da Cerimônia de Convocação dos Anjos.”
Ass: Serafins
Olhei para meus pais que radiavam alegria, e eu só conseguia pensar na última coisa que eu queria que acontecesse naquele momento, a Cerimônia de Convocação. Eu estava lascada.
Notas finais
Então meus anjos, espero que gostem desse primeiro cap...logo logo terá mais (E MAIS NAS OUTRAS FICS TBM)
Beeijooos
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