A Concubina De Dorian Gray
6 Contos Proibidos
Eu estava na biblioteca pessoal do senhor Gray, organizando algumas coisas que Madeleine me encarregou de fazer, e me distraí no segundo andar enquanto passava por uma fileira de livros antigos de romance. Eu me atrevi a retirar alguns do seu lugar e ler um pequeno trecho para saber mais ou menos do que se tratava já que não possuíam sinopse por serem muito antigos. Pelo ano das capas, eu presumi que eram livros raros e que deveria ter custado um bom preço. Apenas um deles poderia pagar minha casa, e alguns móveis pelo que constatei. Eram livros realmente muito raros e preciosos o que deveria ser mais do que um luxo para o patrão e sim um prazer. Um dos livros me era familiar, e contava pelo que me lembro sobre a estória de uma moça humilde de aparência simples que se apaixonava por um homem rico e extremamente solitário. Seu nome era Walter e possuía muitos bens em seu nome, sendo um herdeiro de uma família renomada da Escócia, mas que apesar de toda a fortuna era um homem depressivo que vivia cada dia na sombra da perda de sua noiva Kelly, e que jamais esperava encontrar nos braços de outra mulher o amor que perdeu quando a vida lhe tomou sua amada Kelly. Porém Walter conheceria uma camponesa muito humilde por quem se encantaria primeiro como uma boa companhia depois como uma possível amante.
Eu conhecia bem aquela estória, pois havia feito um trabalho sobre aquele livro no colegial certa vez e devorei a estória em uma semana, achando encantadora a maneira como era descrita. Mas aquela versão de Dorian parecia ser mais grossa, e conter mais páginas.
- É a versão original. –ele disse ao entrar na sala e quase me matando de susto.
- Senhor Gray. –eu me virei fechando o livro e o encarando. – Me desculpe, eu estava apenas...
- Só existem mais quatro iguais a este. –ele seguiu ignorando minhas desculpas.
- Uma boa razão para que ninguém mexa nele. –disse colocando de volta no lugar.
- Os outros livros publicados não foram tão fieis ao original. –ele dizia enquanto eu me virava e o procurava sem notar que ele subia pelas escadas. – Mudaram muita coisa por causa da censura da época. –disse enquanto andava em minha direção já no segundo andar. – Os livros atuais estão em todas as escolas, sendo usados em aulas de literatura, como um romance meloso pra adolescentes. –ele andou até estar diante de mim e estendeu seu braço para apanhar o livro me deixando praticamente colada contra a estante.
- Eu li esse livro no colegial. –disse sentindo um frio no estomago só por estar tão perto dele.
- E o que achou? –disse me encarando enquanto abria o livro.
- Muito bom.
- Gostou de todas as crises melancólicas que Walter insistia em ter só pra chamar atenção de sua camponesa inocente? –ele dizia aquilo acabando com todo o encanto da estória.
- Felicity não era apenas uma camponesa inocente. Era uma moça inteligente e forte, e ajudou Walter a superar seus medos. –rebati, afinal ele falava da minha estória de amor favorita.
- Eu li uma dessas versões autorizadas pela critica, e achei patético. –disse procurando uma pagina e franzindo a testa.
- Não concordo com o senhor. –disse um pouco ofendida. – A estória de amor que se desenvolve entre eles não tem nada de patético e em nada se compara aos romances escritos para agradar crianças como os de hoje em dia.
- É mesmo? –ele me olhou com certo ar de deboche. – Comparada ao original é historinha pra criança. –ele riu e se virou.
- O que pode ter na versão original de tão ruim que foi censurada? –disse sabendo que ia me arrepender do que perguntei.
- Quer mesmo saber? –ele virou o corpo num ângulo de noventa graus e me encarou.
- É meu livro favorito. –avisei.
- Então vai se decepcionar quando descobrir quem realmente é o seu cavalheiro romântico e refinado. –ele sorriu e se virou carregando o livro com ele.
- Walter era um homem de grande respeito, se existir algo que contradiga isso nesse seu livro então não me interessa em saber. –disse seguindo-o.
- Walter seguiu a doce e ingênua, Felicity pelos campos verdes do povoado naquela tarde sem que ela o visse... –ele começou a ler uma pagina do livro. – “Ela é tão bela, pura e imaculada” ele pensou. “O que um homem não faria para possuir tal perfeição?” –ele dizia descendo os degraus.
- É a cena em que acontece o primeiro beijo de Felicity e Walter. –eu recordei. – Mas as palavras são diferentes.
- Foram trocadas por: Walter acompanhou a dócil senhorita pelos campos verdes do povoado. –Dorian fez uma pausa e depois continuou andando pelo primeiro andar da biblioteca. – A sequencia que consta no seu livro, acaba com Walter declarando seu desejo por Felicity com as palavras: “Você é muito bela, pura e gentil, é valiosa demais para amar alguém como eu”.
- Sim, mesmo sendo um homem muito poderoso ele se declara humilde diante dela. –expliquei.
- Quer ouvir o que realmente acontece? –ele disse erguendo as sobrancelhas.
- Por favor. –pedi sem muita certeza.
- Walter se aproximou do lago enquanto Felicity depositava sobre a grama a cesta com roupas que ela levara para lavar, como sempre fazia a pedido de sua mãe. –ele seguiu. – Depois de observá-la minuciosamente por algum tempo apenas em silencio ouvindo a melodia cantarolada pela suave voz da bela senhorita, Walter resolveu mostrar-se, e declarar seus sentimentos pela mesma, mas antes que ele desce o primeiro passo em direção ao lago sua doce Felicity, a menina de longos cabelos cacheados e louros de aparência angelical começou a despir-se diante de seus olhos lenta e graciosamente até que seu corpo não estivesse coberto por mais nada além de seus p...
- Tudo bem, pode pular essa parte. –interrompi antes que ouvisse algo que não queria.
- Qual o problema Anna? –ele me encarou sério.
- O seu livro diz que ao invés de se aproximar dela e confessar seu amor, ele a observou como um canalha se aproveitando da inocência de Felicity? –minhas palavras saíram mais indignadas do que eu pretendia.
- Walter viu uma bela mulher se despindo ao ar livre, e decidiu apreciar o momento. –Dorian andou até a mesinha e sentou-se sobre ela cruzando as canelas uma sobre a outra.
- Imagino que considere essa atitude muito honrada para um homem daquela época. –disse erguendo uma sobrancelha confrontando-o minha colocação.
- Uma mulher que se diz pura e inocente decide tirar a roupa em um lugar aberto onde provavelmente era frequentado por muitas pessoas...
- Moças... –interrompi. –Era um lago frequentado por moças, qualquer homem que se aproximasse só poderia estar procurando ver algo interessante aos seus interesses perversos.
- Que seja, mas isso não muda o fato de que Felicity estava sabendo do risco que corria.
- Ela era uma menina, estava apenas querendo se refrescar provavelmente em um dia quente. Não me admira que tenham censurado essa versão... É totalmente deturpada.
- Se me deixar terminar...
- Não. Este é o meu livro favorito, e eu não vou deixar você estragar com essa leitura maldosa, senhor Gray.
- Qual o problema em um homem se sentir sexualmente atraído por uma mulher Anna?
- Nenhuma, desde que ele não haja como um perfeito canalha.
- Walter não forçou Felicity a fazer nada que mesma não desejasse. Ela também o observava quando este não estava atento. –disse se afastando da mesa e andando em minha direção com o livro fechado. – Ela o analisava, milimetricamente coisa que uma mulher daquela época não deveria fazer. –Dorian passou por mim, e seguiu andando ao redor de meu corpo estático. – Ela deseja que ele a possuísse. –a voz de Dorian começava a soar como um mantra na minha cabeça. – Provavelmente ela sabia que ele estava olhando pra ela quando ela se despiu.
- Ou talvez ela apenas achasse que estava segura. –eu rebati me lembrando da noite em que achei estar sendo observada no meu banho.
- Nenhum lugar é totalmente seguro, ela deveria saber. –ele passava diante de mim.
- Ele não deveria estar lá. Ele estava invadindo a privacidade dela.
- E será que ela não queria que ele invadisse? –ele continuou andando ao redor de mim.
- Ela só queria sentir a liberdade natural sem ser violada. –cerrei parcialmente meus dentes ao sentir Dorian passando pelas minhas costas.
- Eu acho que ela queria ser violada. –disse ele em um sussurro ao meu ouvido.
- Eu vou voltar ao meu trabalho senhor Gray. –disse sentindo aquele arrepio atravessando meu corpo e me afastei.
- Anna? –ele disse antes que eu chegasse a porta.
Eu parei, respirei fundo fechando os olhos e então me virei devagar o encarando com a face firme. Dorian estava de pé onde eu estava e me olhava de lado com o livro em sua mão direita.
- Leia o livro. Eu não dei a ele a você pra deixá-lo na gaveta do seu criado mudo. –ele se referia ao livro que me dera dias antes.
- Como sabe que ele está no meu criado mudo? –cerrei os olhos o interrogando.
- É onde eu costumo deixar os meus. –ele respondeu com um ar superior e obvio.
- Eu vou ler quando tiver tempo.
- Comece hoje. Até o final da semana eu quero discutir sobre ele com você. Você me parece uma boa companhia para debate...
- Claro. Como quiser...
- Agora pode ir.
- Obrigada.
Respondi de maneira seca e logo me virei seguindo porta a fora. Pelo corredor, eu respirei ainda mais profundamente agarrando meus braços e tendo a leve impressão de que Dorian estava tentando me provocar com aquela cena de leitura. A maneira como ele falava enquanto andava ao redor de mim como um lobo acuando a caça, só me fez temer que era ele naquela noite me observando no banho. A ideia de que Dorian começava a me ver como uma das personagens de seus livros começou a me deixar assustada, e os segredos guardados pelas outras empregadas apenas motivaram ainda mais o meu medo de Dorian. Havia algo muito sombrio naquele homem, e eu senti que estava prestes a descobrir o que era da pior maneira. Três meses...
- Três meses Anna... –eu disse pra mim mesma. – Se não der certo, você vai embora.
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