A Colheita de Sangue

7 Capítulo 7 - O Encontro com o Passado


Isobel havia combinado de tomar café da manhã na casa de Olivia. Phil também apareceu. Ela não contou que iria encontrar sua mãe em algumas horas, e eles tentavam convencê-la de que era loucura viajar.

— Bel, você conhece esse cara há quanto tempo? Duas semanas? — perguntou Olivia, levantando uma sobrancelha.

— Três — respondeu Isobel, tentando parecer despreocupada.

— Três semanas? Isso não faz muita diferença. A questão é que isso é uma loucura... Você namorou Mathew por quanto tempo?

— Queridinha, Mathew foi o único namorado dela — interveio Philip, sentado à mesa com um café na mão. — E você, Isobel, sempre foi tão cautelosa... “Ai, eu não quero apressar as coisas, eu não quero me machucar.” O que foi que aconteceu? Fizeram uma lavagem cerebral nela, Liv, isso sim.

— Vivi tempo demais querendo controlar as coisas, e as coisas não são bem assim... Nós nos beijamos ontem à noite — confessou Isobel, tentando disfarçar o sorriso que insistia em aparecer.

— Só um beijo? Que coisa sem graça! Você parece aquelas adolescentes de 16 anos — respondeu Olivia, rindo.

— Baby, você só o conhece há três semanas — retrucou Phil. — Eu sei que ele é bonito, aliás, lindíssimo, e que tem algo que encanta as pessoas. Eu adorei o Dean e super apoio vocês saírem, mas vou voltar no X da questão: você só o conhece há três semanas. Não pode pedir licença do hospital para ficar o final de semana inteiro com ele.

— Eu não estou falando de amor, quero dizer... talvez eu esteja me apaixonando por ele. E sabem da maior? Eu vou fazer o impossível para fazer dar certo as coisas entre nós.

— Você ouviu isso, Phil? Ela está louca, é caso de internação! O que será que fizeram com a minha amiga?! — ironizou Olivia, rindo.

— Que tal vocês me darem um tempo?! — indagou Isobel, levantando as mãos em sinal de rendição.

— Amorzinho, não precisamos te dar um tempo, você precisa se dar um tempo — afirmou Phil. — Acabou de sair de um relacionamento de anos, não pode se atirar no colo do primeiro que aparece.

— Já me dei tempo demais. Até quando vocês acham que eu devo ficar em casa chorando por Mathew e pelo fim de nosso relacionamento? É hora de agir como uma mulher adulta e parar de sentir autopiedade — respondeu Isobel, com um tom de determinação.

— Aposto que está fazendo isso para chamar a atenção dele — comentou Olivia. — Aposto que ainda pensa nele todas as noites.

— Chamar a atenção de quem? — indagou Isobel, colocando o dedo indicador na testa como se estivesse tentando lembrar de algo.

— Mathew — insistiu Olivia.

— Quem é Mathew? — questionou Isobel, zombando.

— Vaca! — exclamou Liv, rindo.

— Se vocês soubessem o que eu estou sentindo... É tudo tão bonito! Eu me sinto calma, segura, protegida, desejada.

— Tudo bem, você é quem sabe... Não vamos nos opor à sua decisão, mas lembre-se que nós te amamos e sempre vamos te apoiar, independente de qualquer coisa.

— Obrigada! É bom saber que eu posso contar com vocês. Eu só preciso de um pequeno favor.

— E qual seria? — questionou Olivia.

— Não comentem sobre a viagem com ninguém, nem com o meu irmão e nem com o meu pai. Principalmente com o meu pai. Quando eu chegar, eu aviso o que aconteceu.

— Você não vai avisar nem para o seu pai? — questionou Philip. — É, vejo que as coisas realmente estão mudando.

— Meu pai nem sabe quem é Dean Winchester. Na certa, ele iria falar por horas na minha cabeça. Quando voltarmos, eu pretendo apresentar meu pai a ele... Mas por enquanto é muito cedo.

Isobel olhou em direção à janela, onde um som rude e uma estridente buzina os incomodaram.

— Bom, eu acho que o seu querido Dean chegou.

— É, ele realmente chegou — comentou Philip, olhando pela janela. — É melhor não se atrasar, já que ele é tão importante assim para você... — prosseguiu, voltando para a mesa. — Eu também estou indo, não tenho a vida feita como vocês, tenho que dar duro para conseguir algo. O café da manhã da Liv não é um dos melhores, mas é sempre bom ter a companhia de vocês. Tenham um bom fim de semana, minha querida, e aproveite o momento.

— Não se esqueça de usar camisinha. Eu tenho umas com sabor em algum lugar nessa casa... — disse Olivia, revirando seus pertences.

— Ok, Liv, nós já entendemos que você gosta do babado. Agora para! — ordenou Phil. — Amiga, aproveite o fim de semana!

— Até mais — respondeu Isobel, se despedindo dos amigos.


Stanford


O céu estava nublado, e a chuva parecia que iria durar eternamente. Jess estava encolhida com seu livro em um pequeno sofá que havia no canto da sala. Ela olhou para Sam, que se aproximou e lhe deu um pequeno beijo na testa.

— O que faz acordada a essa hora? — indagou Sam.

— Eu... Er... não importa. Você também não conseguiu descansar um pouco mais?

— Não; acho que estou nervoso com a proximidade da entrevista. Eu tenho medo de não conseguir a bolsa — respondeu Sam, suspirando pesadamente.

— Você vai se sair bem — disse Jessica, tentando animá-lo.

— Obrigado! — respondeu Sam. — Eu te amo — sussurrou, beijando-lhe a mão. Ele pensou na primeira vez em que disse isso a ela e o quão nervoso ficou.

— Quer comer algo? Eu preparo — falou a garota, levantando e indo para a cozinha.

Do lado de fora, John tentava tomar coragem para encarar Sam. Eles não se viam há mais de dois anos. Ele sabia o quão difícil seria levá-lo embora dali, mas estava determinado a impedir a ruína de seus filhos. Ele deu alguns passos e finalmente bateu na porta.

— Olá! — disse Jess. — Posso te ajudar em alguma coisa, senhor?

— Oi, bom dia! Essa, por um acaso, seria a casa de Sam Winchester?

— Sim, e você é?

— John Winchester — respondeu, estendendo a mão. — Sou pai do Sam.

— Pai? — questionou Sam, surpreso ao se aproximar de Jess. — O que faz aqui?

— Entre, por favor — disse Jessica, sendo cordial. — É um prazer finalmente conhecê-lo. Quer beber alguma coisa? Um café, uma água, ou alguma bebida?

— Não é necessário, amor — interrompeu Sam. — Você nos pegou em um péssimo dia, pai. Jess e eu estávamos de saída e...

— Precisamos conversar — advertiu John.

— Eu acho que vou dar uma volta enquanto vocês conversam — informou a garota, dando um beijo em Sam e saindo em seguida.

— Então, fale logo... o que quer? É sobre Dean? Ele está bem?

— Sim, ele está. Eu não vim aqui para falar sobre Dean, ou sobre mim...

— Fale logo, pai.

— Este é um momento muito complicado para mim, para nossa família, e você precisa saber sobre as coisas que vêm acontecendo. É muito importante, e não há uma maneira fácil de fazer isso...

— O quê? Não vai me dizer que eu sou adotado ou algo assim, é?

— Eu vim falar sobre suas visões e sobre os seus dons.

— O quê? — questionou Sam. — Eu não sei sobre o que está falando.

— É claro que sabe. E você não precisa mentir para mim.

— Quem lhe contou sobre eles? Jess? Ela te procurou?

— Não, a garota não me disse nada.

— Ninguém mais sabia sobre isso. Quem foi que lhe contou? — indagou o rapaz, nervoso. — Eu não quero que ninguém saiba disso. Não quero que me achem uma aberração.

— Eu entendo o quanto isso é difícil para você, entendo bem mais do que você pode imaginar. Mas você não deve usá-los... seus dons vão ser a sua ruína.

— Papai, eu não estou entendendo. — Respondeu Sam.

— O demônio que matou a sua mãe está planejando contra nossa família novamente. Ele quer destruir você e quer destruir Dean. Você precisa ir embora comigo.

— Não, eu lhe disse anos atrás que estava fora! Eu vou me formar, vou casar com uma mulher maravilhosa, vou ter uma vida normal. Longe de toda essa história de demônios. Se o Dean gosta, por mim tudo bem, é um direito dele, mas eu não vou voltar... Falando em Dean, onde ele está?

— Está resolvendo um caso.

— Dean anda resolvendo casos sozinho? — questionou Sam. — Quanta responsabilidade de sua parte. Mas, isso já é de se esperar.

— Foi o Bobby que passou o caso para ele. Eu não sabia.

— É, problema é exatamente esse. Você nunca sabe nada dos seus filhos.

— Leia essa carta — disse John, tirando-a do bolso. — E você entenderá o que eu estou dizendo.

— Não me leve a mal, pai, mas eu não estou interessado neste assunto. Se veio só para isso, já pode ir embora.

— Está sendo egoísta como sempre. Acha mesmo que pode abandonar essa vida? Não dá, é impossível! Essas coisas virão atrás de você e das pessoas que você conhece apenas por diversão.

— Se elas vierem, eu saberei me defender. Acho que anos de prática me dão alguma vantagem, não é?

— Tudo bem, só não diga mais tarde que eu não avisei.

— Bata a porta quando sair — respondeu Sam.


Dakota do Sul

Dean dirigiu por três horas até finalmente chegar a seu destino. Ele deixou Isobel em um hotel e foi para o endereço que conseguira no banco de dados da polícia.

Ao chegar, foi surpreendido pela visão de uma luxuosa casa rodeada apenas de árvores. Tocou a campainha e, ao ser atendido, entrou calmamente na casa e logo foi recebido pela anfitriã.

— Isabele Fretcher?

— Sim.

— Sou Dean Winchester, agente federal — respondeu, estendendo a mão e vendo-a engolir em seco.

— Bom dia, agente Winchester. Em que posso ser útil?

— Bom, em muita coisa... Soube que abandonou sua família repentinamente. E que recentemente passou algumas propriedades para o nome do prefeito — Isabele o olhava friamente, mas não pôde deixar de lhe dar um sorriso trêmulo.

— Eu não passei as minhas propriedades para o prefeito. Apenas lhe dei uma procuração para que ele pudesse usá-las como bem entender.

— E por que fez isso?

— Sempre participei de programas sociais. Eu deixei as propriedades para que eles pudessem usar em benefício da população de Cotton Ridge.

— Claro, o assassinato de jovens para que vocês continuem vivendo de forma plena.

— Eu não sei sobre o que você está falando.

— Dez garotas foram mortas nos últimos meses em sua propriedade.

— Eu não faço ideia sobre os acontecimentos daquele local. Então, se era só isso, já pode ir embora. Não tenho interesse naquela cidade.

— E por que odeia tanto assim Cotton Ridge? Me parece um bom lugar para viver.

— Um dia, aquela cidade foi um bom lugar para se viver... Talvez se eu tivesse nascido em outra família.

— Eu não entendi.

— Nem vai entender... Você não precisa entender.

— Isobel está na cidade. Será que você ainda consegue se lembrar da garotinha que abandonou quando tinha apenas 9 anos?

— Eu não lembro e não faço questão, rapaz. Se é mesmo do FBI, por que trouxe minha filha até aqui?

— Isobel é importante para mim. E eu sei o quanto ela te procurou durante todos esses anos. Mas começo a pensar que essa foi uma ideia estúpida...

— Eu também acho, rapaz... E acho melhor você ir embora da minha casa. A conversa já passou do âmbito profissional para o pessoal, e eu não tenho o menor interesse de saber sobre essas pessoas.

— Quem perdeu foi você. Isobel é uma garota maravilhosa, é bonita, é inteligente... E ela vai ser muito feliz sem você.

— Feliz? Quem vai fazê-la feliz? Você?

— Eu realmente não sei. Mas isso não é da conta da senhora, é assunto meu e dela. Tenha um bom dia.


Cotton Ridge

— Olha aquele vestido... É incrível! Por que não entramos? — questionou Liv a Megan.

— Olivia, estamos andando há umas duas horas. Estou entediada. Por que não chama a sua amiguinha sem sal?

— A Bel não pode vir, ela estava muito ocupada hoje — mentiu a garota. — Mas vamos, Meg, hoje é sexta-feira, e você precisa se animar.

— Animar perdendo o meu precioso dia em lojas para garotas frescas?! Fala sério.

— Por favor...

— Tudo bem, Olivia. Entre e experimente quantas roupas você quiser.

Liv atravessou a rua correndo e entrou na loja. Ela analisava minuciosamente cada peça da boutique, que era separada por tamanhos.

Megan, por sua vez, não disfarçava o esforço que fazia ao tentar ser agradável. De repente, Olivia pegou uma peça e insistiu para que ela experimentasse. Ela resistiu, mas acabou indo para o provador.

— Nada mal, baixinha — ironizou Mathew ao surpreendê-la.

— Ridículo! O que faz aqui?

— Nada demais. E você?! Virou amiguinha da Liv agora, é?

— Liv não é tão chata como sua querida Isobel. Não sei o que vocês veem naquela mosca morta.

— Isobel não é como você — respondeu Mathew, se aproximando dela e apertando o seu queixo.

— Graças a Deus — disse Megan, furiosa, empurrando sua mão.

— Você está cumprindo com sua parte no acordo?

— Claro, Dean e eu estamos bem próximos.

— Então por que diabos ele e Isobel viajaram? — questionou Mathew.

— Como assim?

— Os dois saíram. Foram para a Dakota do Sul, passar o fim de semana como um casal apaixonado.

— De onde você tirou essa ideia absurda? Dean e eu jantamos no restaurante de Graham ontem à noite.

— E logo em seguida ele correu para o hospital e convidou Isobel para viajar com ele.

— Como soube disso?

— Aaron me contou. Olivia acabou comentando com ele... você sabe como ela é fofoqueira.

— Ela é uma sonsa, isso sim.

— Se não cumprir a sua parte no acordo, eu vou contar para todos o que eu sei sobre você e sua família.

— Não me ameace, Walter... você sabe muito bem do que eu sou capaz.

— Exato, Megan, eu sei do que você é capaz, mas e você? Você sabe do que eu sou capaz? Acho que não — disse Mathew, sorrindo de forma sagaz. — Tire Dean Winchester do meu caminho, e não teremos problema, amorzinho.

— Meg, você está... — dizia Liv, que acabara de chegar no provador. — O que ele faz aqui? — questionou ao ver Mathew no provador com Megan.

— Ele está esperando a Senhora Walter, e acabamos nos encontrando por acaso.

— Sei... — respondeu Olivia, desconfiada.

— Como você está, Olivia? — perguntou o rapaz.

— Bem, Mathew, muito bem.

— Soube do seu casamento, e estou muito feliz por você e por meu amigo.

— Mathew, poupe-me de sua hipocrisia. Você sabe que eu só convivo com você por sua amizade com Aaron. Mas para mim, você não passa de um babaca. E quer saber, eu perdi a vontade de ficar aqui. Espero você do lado de fora Meg.