A Colecionadora de Almas - Interativa
5 Chapter IV - By Glory and a Million Dreams
Notas iniciais
Chapter IV — By Glory and a million Dreams
Liusbe Bellrith
Aprese-se, a voz de Apqua apitou em minha mente enquanto empurrava com força a porta dupla do Taco’s, caminhando apressadamente até o beco entre dois prédios, agachando-me e desenhando uma runa de impulso no chão, pisando sobre ela e sendo jogado bruscamente para cima, pousando de maneira suave enquanto observava Apqua pressionando o pé esquerdo sobre as costas de uma garotinha. É incomum vê-la daquela forma, principalmente contra uma adversária tão pequena – não sei ao certo como devo classificá-la, no entanto, é melhor assim do que chamá-la por qualquer outra coisa -, o olhar sério e carrancudo no rosto, a mão levada à espada, desembainhando-a a qualquer movimento que a outra ousasse realizar, confesso desenvolver certa confusão em meu interior.
— A bruxinha está te vigiando desde que passamos por Ohio. – Apqua começou, estava claro que sentia uma pitada de raiva – Deixei com que passasse achando que seria algo breve, no entanto, ela vem nos perseguindo desde então e ao que parece não irá parar tão cedo.
— Bruxa? – a palavra escapa, não podia negar que não estava surpreso, para a pouca idade a pequena aparentava possuir mais poder do que aqueles de sua idade, mas ainda assim é fraca para me enfrentar.
O céu rugiu com um trovão, relâmpagos brilhavam a leste enquanto o vento cortante trazia nuvens negras e carregadas do sul. Tudo indicava que uma tempestade estava por vir, possuíamos pouco tempo antes de o sereno passar a despencar acima de nós, era preciso procurarmos por um abrigo próximo ou utilizarmos uma runa de teletransporte para o apartamento.
— Trabalhava em um símbolo de invisibilidade quando a encontrei. A julgar pela situação, ela já havia feito um, mas acabou se desconcentrando no momento em que me aproximei. – Apqua continuou – Não deve ser capaz de invocar o seu demônio ainda, mas é preciso sermos cautelosos, uma runa destas acaba por absorver grande mana e sendo capaz de desenhar duas seguidas...
Pisco algumas vezes, devia reconhecer que a garota não se tratava de uma bruxa em treinamento qualquer, mas a julgar pela situação em que me encontrava agora – fugindo de um lugar para o outro antes mesmo que respirasse direito -, ela poderia ser muitas coisas, porém principalmente algo relacionado a meu pai, uma espiã ou algo do gênero. Dou alguns passos ficando bem próximo de seu rosto, segurando seu queixo entre meus dedos enquanto a analiso, encarando-a fixamente.
— Ela não emana muita aura – aprecio a fina camada de energia quase transparente que se formava ao seu redor -, sua mana só deve ser absurdamente alta para sua idade. Pode levá-la se quiser, fica sob seu critério interrogá-la ou não, mas está proibida de utilizar quaisquer métodos demoníacos ou mágicos. – esclareço ao final, conhecendo Apqua ela a levaria para interrogatório e a enfeitiçaria para dizer a verdade, feitiços realizados por demônios sempre levavam a alguma morte. E estava cansado de ver pessoas morrendo ao meu redor, mesmo sendo completos desconhecidos.
— EU JÁ DISSE! – a voz da menina retumbava pelo galpão, aquele era um local que descobrira há pouco tempo atrás enquanto seguia Apqua mapeando o perímetro de uma área próximo ao apartamento em que nos alojamos – ME TORTURE O QUANTO QUISER! ESSA É A VERDADE! Ele... ele está com a mamãe!
Eram essas as mesmas frases que saiam todas as vezes que Apqua tocava a lâmina de sua espada na pele da garota, que revelara um pouco mais tarde chamar-se de Ágata. Vários e pequenos cortes se distribuíam ao longo de seus braços e pernas, nada perigoso o suficiente para fazê-la sentir uma real angustia, no entanto... Ágata parecia sentir uma dor imensa, ou não passava de uma excelente atriz. Sabia que Apqua estava se contendo e, sinceramente, a cena já estava me dando certo tédio. O demônio moveu a ponta da lâmina prateada mais uma vez, fazendo com que um ligeiro filete de rubro escorresse do ombro de Ágata e um grito agonizante fosse produzido pela mesma. Apqua parecia estar prestes a desferir outro corte, porém, sinceramente, a cena já estava ficando muito cansativa.
— Basta. – Apqua pareceu paralisar por um momento com a ordem – Já está me dando dó a forma como ela grita, acho que acabou nos dizendo toda a verdade. – fiz uma pausa, Apqua virou-se para mim – Se não se importa, poderia nos deixar a sós?
Ela faz que sim com a cabeça, porém é perceptível que ainda não fora convencida do que Ágata dissera e desfez-se em partículas negras, evaporando-se no ar como se nunca estivesse ali. Dou alguns passos rumo a Ágata, estendo a mão direita, mirando sua testa e traço uma runa de cura, esquentando a ponta de meu dedo conforme as linhas verdes surgem no ar, os pequenos cortes que se distribuíam pelo seu corpo sumiram um a um, deixando-a suja de vermelho no local onde estiveram anteriormente. Caminho até suas costas, um nó cego prendia seus pulsos à cadeira, tinha certa certeza de que assim que a soltasse ela tentaria algo, mas ficaria a espreita, Apqua retornaria se algo me acontecesse, no entanto, tentaria conter sua passagem.
Num movimento rápido, Ágata levou seus braços para frente, massageando os locais onde a corda estivera os prendendo antes, marcas roxas indicavam a força com que as linhas de fibra a prendiam. A menina me olha, as íris exibiam um brilho de curiosidade enquanto parecia analisar-me de cima a baixo, Ágata leva uma mecha de seus cabelos ruivos para trás da orelha, era evidente que se encontrava aliviada por ser desamarrada.
— Por que fez isso? – sua voz sai falhada, como se estivesse com a garganta seca de tanto berrar. ESSA É A VERDADE! Ele... ele está com a mamãe.
— Essa não é a pergunta, garota. Por que vem me seguindo desde Ohio? Estava ciente que Apqua já havia localizado-a? – ditei as perguntas apesar de achar que já possuía uma resposta formulada em minha mente. Ele... ele está com a mamãe. Ele seria a pessoa a quem meus pensamentos estavam direcionados?
— Com seu demônio me cortando e com meus gritos achei que deixei bem claro o motivo. Surpreende-me não ter conectado as coisas. – ela falou com desdém, a insegurança na maneira como falava denunciava o esforço que fazia para manter seu tom firme.
— Ela pode ser rude de vez em quando... mas não pense que sou idiota a esse ponto. Entendi claramente a parte de sabe-se lá quem estar com sua mãe, no entanto, por que não a salvou e se livrou do mesmo? – pergunto.
— Um demônio de classe Diabla? – Ágata dizia com a voz instável, prestes a ser dominada pelas lágrimas – Seria suicídio para uma Aristocrata. – ela abaixou a cabeça, certamente escondendo os olhos cheios de água.
Aristocrata?! O espanto quase me derruba, uma garota de doze anos sendo uma Aristocrata?! Ou os responsáveis pelo seu ritual tinham minhocas na cabeça para subi-la de ranking ou ela é realmente poderosa e, de alguma maneira, esconde sua aura.
— Quem, exatamente, é esse demônio, Ágata? – não vou negar que começo a ficar ansioso esperando as respostas, a história que se escondia por trás de um rosto inocente poderia ser mais interessante do que o esperado. Ágata não era uma menina qualquer, acabaria por descobrir isso.
A pequena pareceu se segurar por um momento, pensando sabiamente nas palavras que iria proferir em sua próxima fala, Ágata estremeceu um pouco, parecia que finalmente havia cedido à tentação das lágrimas, colocando de uma vez todas para fora. A menina levantou seu rosto novamente, com rastros cintilantes e transparentes descendo-lhes pelas bochechas e fazendo com que seus olhos adquirissem certa vermelhidão, ela declarou.
— O mesmo demônio que o tirou do inferno quando ainda bebê, Liusbe. – meu nome dito por Ágata pegou-me desprevenido, pelo visto, ela sabia muito – Seu pai mantém mamãe presa.
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Ky Armstrong
Era fantástico como as coisas podiam passar de uma simples ida e volta a escola em uma bola de neve que deslizava cada vez mais depressa, ladeira abaixo, tornando-se gigantesca ao final do percurso pelo qual rolara. A garota movera sua foice mais uma vez, acertando-me no peito e fazendo sangue voar para a esquerda, manchando a imensidão branca de escarlate, como se um pintor estivesse prestes a borrar a sua tela com diversas cores.
Esperava por dor, nada mais do que uma dor imensa que me consumiria de dentro para fora enquanto meu corpo despencava para baixo, mas nada disso acontecera. Continuei ali, inteiro, como se nada houvesse acontecido e a poça na qual me encontrava mergulhado não passasse de tinta fresca. Berro. Berro como nunca havia feito na vida, gritando em plenos pulmões, produzindo um estrondo avassalador ao ponto de que a garota com a foice fosse obrigada a tapar os ouvidos.
Onde diabos estou?!, a pergunta não parava de retumbar em minha mente, recordo-me de atravessar uma rua e... luz, branco e a buzina de um caminhão. Eu... havia morrido? Aquilo era uma espécie de paraíso estranho ou um inferno sem chamas? Maldito seja isso! Não há alguém para responder minhas perguntas?! A garota abriu a boca, fazendo alguma coisa além de espantar-me ao me cortar ao meio e tapar os ouvidos.
— Você, definitivamente, não é um espírito. — seus olhos se arregalavam ao mesmo momento em que sua respiração deixava de ser ofegante – Você, definitivamente, não é um espírito. – ela passou a repetir a frase mais vezes, como se estivesse em choque.
— Esperava que fosse o que? – começo – Uma abóbora com um chapéu? – Como posso dizer algo assim depois de ser cortado duas vezes?, penso, as vezes acho que meu senso de humor só é usado nas horas mais inadequadas – Primeiramente... me conte onde estou e por que... cacete! POR QUE EU NÃO MORRI QUANDO ME CORTOU AO MEIO?!
— Você não é um espírito. Você não é um espírito. – era sempre a mesma frase que escapulia de sua boca, como se as engrenagens de seu cérebro houvessem enferrujado e parado de girar, condenando-a a dizer aquilo até que alguém as lubrificasse.
— Ei! – levanto-me rapidamente, a garota parecia perturbada por... eu não ser um espírito? – Ei! Acorde, vamos, eu realmente preciso sair daqui! – agarro seus ombros, minhas mãos a melecam com o líquido escarlate – ACORDE! – por mais que a sacudisse seu “trauma” não tomava um fim e a agonia me preenchia, durante um ato de desespero, estendi as mãos diante de seus olhos e bati uma palma.
O barulho pareceu despertá-la de seu transe, minha pele ardera durante um instante, porém melhorara instantaneamente ao descobrir tal coisa. Em parte era bom saber que a frase que enchera meus ouvidos parara de ser repetida, mas por outra, ela poderia muito bem pegar a foice que jogara no chão e tornar a fazer outro corte, um pedaço de mim sabia que não adiantaria, por algum motivo naquele... sonho eu não me machucava, no entanto, ainda restava uma última centelha que tinha medo de descobrir se isso funcionava ou não. A figura ajeitou os fios de cabelo que lhe desgrenharam com a sacudidela.
— O-obrigada. – algo descente fora formulado no fim.
Passaram-se alguns instantes preenchidos pelo silêncio até que um ruído parecera vir do interior da cabeça da outra, anunciando que seus neurônios voltaram a funcionar de forma correta e, desta vez, sem paradas abruptas. Repeti as perguntas anteriores, a calma começara a preencher o tom de voz dela no instante em que dera as respostas que tanto ansiava.
— Este é o Vácuo. Um lugar para onde o espírito e alma de vocês, humanos, vêm quando morrem para serem levados ao destino que as forças superiores reservaram para cada um. – a maneira monótona e automática como as palavras foram ditas alarmavam que já haviam sido faladas muitas e muitas e muitas vezes antes de chegarem a meu campo de audição.
Mas ainda assim, a frase não fora o suficiente para convencer-me, a situação atual não podia ser real, não fazia sentido algum, com toda certeza, uma fantasia muito bem elaborada, porém se não me firmasse àquele – fosse o que fosse verdade ou não – pedaço distorcido da realidade acabaria por cair num buraco sem fundo. Permiti com que a garota continuasse a murmurar as palavras.
— Particularmente... não sei o porque de estar aqui. – fraquejou por um momento – Como disse, apenas espíritos e almas de humanos partem para esse lugar, basta arrancar suas cabeças e eles caem duros no chão e segundos depois se transformam em milhares de partículas a qual vivo esta segunda vida para coletá-las. – fez um gesto com a mão e uma ligeira pausa enquanto deixava a tensão se acomodar entre nós – Mas você não é um espírito, não deveria estar aqui no Vácuo assim como nunca deveria ter me visto! Querendo ou não sua aparição é um erro e vou corrigi-lo antes que acabe me causando algum problema. – seu tom foi tornando-se frio conforme finalizava sua fala e agarrava a ferramenta no chão.
Ela virou-se de costas, pareceu ignorar o meu sangue que começara a secar em seus ombros, estendeu seu braço e brincou com os dedos, movimento velozes e certeiros que fizeram a foice girar. Movendo-a para frente, a garota passou a lâmina pelo ar, cortando o nada e tornando a mirar sua visão em mim novamente, ela caminha com um olhar vazio no rosto, pressionando algum nervo entre meu ombro e pescoço e fazendo com que caia, assistindo um tênue degrade de roxo e preto surgindo às suas costas.
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Delfin Liberato
Aguardo os passos cessarem no corredor e o som abafado de um bater de porta ser ouvido. Lucy retornara e, particularmente, isso me alegrou um pouco. Era um fato que sua presença não era de causar conforto a grande maioria das pessoas, no entanto, para mim, acabara por ser divertido tentar bancar um detetive e descobrir o que a Líder tramava.
Mesmo de maneira não completa, devo concordar com o que Louise dissera nas poucas palavras que trocamos ao longo de dias. A personalidade de Lucy a tornava moldável conforme a situação, ela poderia manipular qualquer um fazendo o mesmo questionar o seu subconsciente e usando a sua aparência deslumbrante, mas caso a vítima passar a ser alguém com um pingo de esperteza, pode virar a situação. Coisa que, claramente, não gostaria de fazer, Lucy é interessante do jeito que é, estragar o jogo com uma espécie de trapaça faria o mesmo perder toda a sua diversão, principalmente agora que estou prestes a descobrir o que se passa em sua mente.
Levanto-me da cama. Minha cabeça gira no instante em que me encontro ereto, observando a escuridão de meu quarto enquanto recupero minha sanidade aos poucos, apesar da pouca luz era possível distinguir a silhueta dos objetos que preenchiam a prateleira que se estendia em frente ao colchão em que me deitava e, logo ao seu lado, a porta. Espero alguns segundos antes de girar a maçaneta, me certificando de que o silêncio reinava no restante dos cômodos da casa, abro-a após confirmar a minha teoria.
Agarro uma embalagem de balas coloridas largadas sobre o criado mudo antes de sair, posiciono uma em minha boca ao mesmo momento em que caminho para a esquerda, passando pelo local onde abríamos a fenda para o Vácuo, sentindo uma quentura partindo do lugar, Louise provavelmente partira, tornando a situação ainda mais favorável. Paro logo em seguida, olhando verticalmente para o objeto que dava passagem para os aposentos de Lucy, aquele era um lugar proibido para mim e Louise, não podíamos cruzar aquela marca, mas confesso que certo interesse cresce em meu interior para descobrir o que acontece lá dentro.
Movo minha mão para a porta, sentindo a seca e áspera textura da madeira sobre a palma, fecho meus olhos e concentro na figura de Lucy, provavelmente deitada em sua cama, lendo, escrevendo algo ou realizando o que quer que fosse possível ali dentro, apenas foquei-me em seu rosto no interior do cômodo. Aquele era um novo truque que descobrira há pouco tempo, não sabia se se tratava de uma anormalidade, talento especial ou coisa do gênero, no entanto, apenas surgiu em uma hora inoportuna e comecei a testá-lo com Lucy. Em poucos instantes, a voz da garota retumbou no interior de minha cabeça, como se estivesse sussurrando em meus ouvidos.
A primeira coisa que ecoa em minha mente são os bips de suas unhas batendo na tela de um telefone, ao que aparentava, seus dedos teclavam em um aparelho do tipo, ela sempre enviava uma mensagem por volta deste horário, mas, de vez em quando, áudios eram gravados e podia absorver várias pistas com base no que dissera. Era desconhecido o destinatário do texto, e a pergunta sobre quem era o maldito me assombrava de vez em quando, faltavam muitas peças para completar esse quebra-cabeça, porém sabia que com o tempo acabaria descobrindo, mesmo que este demorasse.
Formulara suspeitas sobre integrantes da Grande Armada, era clara e pública a rixa que Lucy possuía com a mesma, porém o que diria a eles? Mandaria palavras de ameaça torcendo para que causasse alguma irritação? Lucy era mais esperta que isso e, por este fato, acabei por descartar a teoria. As possibilidades eram finitas e praticamente estava chegando ao fim delas, mas, francamente, não me importaria em iniciar tudo de novo, desafios eram empolgantes, principalmente se feitos mais de uma vez.
O bater de passos no chão me faz acordar dos devaneios, pisco algumas vezes para que meu raciocínio tire o rumo dos planos de Lucy e voltem para a situação atual, ainda que esta envolvesse a mesma. Posiciono a bala entre meus dentes e a mordo, um gosto estranhamente forte e ácido predomina minha boca enquanto a porta se abre, fazendo com que retirasse minha mão da madeira e continuasse andando, como se nada houvesse acontecido.
Sinto o olhar da Líder fixado em minhas costas, como se desconfiasse de algo, minhas ações descuidadas levaram a isso, não podia fazer nada além de torcer pelo melhor, apesar de que no fundo, Lucy deixaria passar.
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