A Colecionadora de Almas - Interativa

4 Chapter III - Lamentations of Frozen Souls


Notas iniciais
Yooo! o/ Adivinha quem como um deus ressurge das cinzas? (tá parei... ahuasahsau) Pois é, pois é, bom, chega de lenga-lenga e vamos para um explicação descente! Primeiramente, queria agradecer muito a cada pessoinha que comentou, favoritou e enviou sua ficha, estou adorando trabalhar com os personagens que você me enviam! ^-^ Segundamente, peço desculpas por essas QUASE duas semanas sem capítulos. Na semana passada estive meio atarefado com a escola e tinha MUITOS trabalhos pra entregar, então escrevia pequenos trechos em meus cadernos quando tinha tempo livre, no entanto, nada que desse para montar um capítulo digno de vocês! :3 Terceiramente, nessa semana acabei por ficar sem internet... e como minha semana de provas já passou (graças aos céus só resta um simulado e as notas serão fechadas! Amém!) e entreguei os trabalhos, acabei adiantando os capítulos. Ficar sem internet por esse tempo foi até que bom, adiantei dois capítulos e escrevi a metade de um terceiro! Estarei postando esse hoje e um outro amanhã (pra compensar a semana que não tivemos um). Todavia, acho que é só ^-^ Até lá embaixo! See ya! P.S: Ágata tem as feições mais novas que a garota da imagem.

Chapter III — Lamentations of Frozen Souls

Ágata Vilamesta

— Ora, vamos, Syatar! – começo, erguendo um pouco o pequeno corpo de meu ursinho de pelúcia de modo que pudesse enxergar claramente o alvo. Havia certo tempo que eu e Syatar começamos a persegui-lo por chantagem daquele monstro, mas reconhecia sua habilidade, era um tanto quando difícil segui-lo e manter o outro a par da situação.

Seja cautelosa, Ágata, o demônio está rondando a área, precisamos ser pacientes e aguardar o momento em que estiver distraída, a mensagem telepática ricocheteia no interior de minha mente. A verdade era que estava começando a ficar angustiada em relação àquela situação e temia que com a velocidade que as coisas andavam... mamãe e os outros acabassem por sofrer. Aproximados 200 metros à nossa esquerda, as sílabas surgiram novamente, dessa vez mais alarmadas e de certa forma, “ditas” com o tom alguns níveis acima do normal. Trago Syatar para junto de mim mais uma vez, ajeitando o pequeno corpo de pelúcia abaixo de meu braço.

Precisa ser rápida, pequenina, em poucos segundos você estará no campo de visão da mesma, arrasto a minha mão a poucos centímetros do urso, rumando a meu pulso esquerdo, desenhando uma runa de invisibilidade, destacando-se um pouco em meio à escuridão por seu brilho azulado. Tomo cuidado para não traçar nada errado com a tremedeira de minhas mãos, tentava, com todas as forças, retirar aquele sentimento de nervosismo de meu interior, mas, definitivamente, não conseguia. Apenas transmitia a sensação de estarem tremendo cada vez mais ao invés de dar um fim àquilo.

Fico atenta em relação ao ursinho abaixo de mim, os objetos que tocava enquanto a marca surtia efeito não acabavam por permanecer assim como eu, invisíveis. No entanto, a cor escura que cobria sua extensão – com exceção a barriga, que era coberta por pelos claros – o camuflava no ambiente, principalmente por conta do tempo nublado que acabara de se formar, escondendo a lua. Proteger o corpo de Syatar era essência, acabei por aprender isso da pior maneira possível. A força do demônio selado em mim acabara por ser gigantesca demais para meu corpo pequeno, deixando-me fraca e praticamente sem defesa alguma contra doenças.

Destinada a piorar cada vez mais, mamãe levou-me ao grupo que realizara a Passagem em mim, depositando seus últimos resquícios de esperança em que eles acabassem por possuir uma cura para aquilo, afinal de contas, mais cedo ou mais tarde estaria deixando a terra dos vivos antes mesmo de completar um único ano de vida.

Por dias em um estado crítico, mamãe acabou por decidir por si mesma já que os outros retornavam sempre a estava zero e pareciam não se importar com a situação, realizando um ritual antigo que vovó ensinara a ela, utilizado muitas vezes para exorcizar demônios descontrolados. Porém o risco era grande, Syatar poderia ser retirado de mim, assim como a chance de minha morte ainda permanecia.

O ritual se consistia em expulsar o ser maligno do interior do usuário, forçando-o a habitar um ser inanimado onde poderia facilmente ser derrotado, no entanto, por um ligeiro desvio no momento de sua execução, minha alma fora retirada também, sendo levada, juntamente com Syatar para o interior daquele urso de pelúcia.

Fora difícil se acostumar, no entanto, em campo de batalha – local que normalmente acabo por não frequentar muito -, aquilo se tornara um fardo. Por possuir uma parte importante de mim dentro daquele objeto, qualquer dano causada a pelúcia ricochetearia em meu corpo três vezes pior, assim como qualquer dano causado a mim retornaria ao urso, em uma proporção claramente menor.

MESTRA! a voz ecoa mais uma vez, acordando-me de meus delírios, realmente estava perdida em pensamentos. Arregalo os olhos por um instante ao perceber a situação em que me encontrava. Por conta da minha falta de concentração, o efeito da runa estava a se esvair, tornando-me visível novamente, não sabia ao certo se o demônio do alvo estava próximo ou não, a voz de Syatar fora ignorada nos momentos anteriores. O DEMÔNIO! ELE... levo novamente meu dedo indicador em direção ao pulso esquerdo numa tentativa desesperada de voltar ao estado anterior, porém fora inútil.

Uma pressão gigantesca se iniciou em minhas costas, fazendo com que prendesse a respiração e entrasse em agonia. Movo meu pescoço para o lado, enxergando o demônio que jogara seu pé esquerdo sobre aquela região. A pele cinzenta, os cabelos brancos, os olhos azuis cristalinos, os chifres que brotavam de sua cabeça, tudo se fundia em uma aparência macabra, mas ao mesmo tempo linda de se ver.

Em parte, eu sabia, fora pega, não havia como escapar daquela, no entanto, eu iria lutar. A vida de mamãe estava nas mãos daquele homem e, se desse falta de meus relatórios, a mesma iria escorrer por meus dedos com areia.

Lucy Castellan

Espero alguns momentos antes de finalmente adentrar naquela espelunca fedida a mofo. O corredor abafado transmite certos calafrios enquanto a umidade passeia por sob minha pele, causando certa agonia ao mesmo tempo em que os saltos de minhas botas estalam ao se colidirem com o chão coberto de poeira.

Ignoro a presença de Louise na “sala de estar” realizando outra de suas maratonas de programas estúpidos de mundanos. Murmuro apenas algumas palavras para que seus olhos parassem de me fuzilar com uma essência de curiosidade.

— Considere-se livre para ir, garota – continuo andando, ainda ignorando o fato de ela estar em tal local, no entanto, satisfeita por parar de ser observada, escuto o movimento de seu corpo escorregando do sofá e ficando de pé, dando passos ligeiros em direção à porta ao lado do cômodo em que estava, seu quarto.

Ergo meu braço e empurro com força o objeto que bloqueava a travessia para meus aposentos, fazendo com que as dobradiças rangessem drasticamente. Inalo o ar salpicado com o aroma de incenso, sutil, mas ao mesmo tempo marcante, particularmente, creio que este seja o único local de toda a planta de minha casa que não está impregnado com o fedor da umidade... e isso me acalma um pouco. Olho para os móveis a minha frente, a cama bagunçada, a estante de livros desorganizada e a escrivaninha com embalagens de salgadinhos variados me assustaram um pouco. A forma como estava sendo pressionada nos últimos dias por conta da Grande Armada permitiu com que me tornasse mais desleixada que o normal e deixasse, aos poucos, o quarto em tal situação.

Eu poderia ser ruim e fria, de fato reconhecia isso e tenho orgulho de ser assim, no entanto, querendo ou não, eles eram ainda piores e estavam por me dar nos nervos dizendo aquela maldita frase, Ceifadores como você são apenas um fardo, se não estão aqui para fazer grandes números de coletas, apenas procure pelo humano ligado a sua vida e o mate. Certamente fará com que alguém descente apareça em seu lugar. Era completamente verdade que atualmente minha Armada acabara por coletar pouco pulvis, porém não cabia a eles decidirem se acabo sendo um fardo ou não, de vez em quando deveriam olhar um para o outro e perceber quem realmente são os fardos.

Vermes insignificantes!, penso, Irão pagar na mesma moeda. Um fino sorriso se forma em meus lábios enquanto arrumo a bagunça, faltavam poucos detalhes para por a situação nos eixos, bastava brincar um pouco com os fios que controlavam a situação e aquelas marionetes da Grande Armada estariam na palma de minha mão, sendo jogados bruscamente para baixo e pisoteados logo em seguida, bastava esperar um pouco mais.

Antes mesmo que notasse, percebo que estava prestes a finalizar a limpeza de meu quarto, com toda certeza, necessitava de uma noite de sono, meus neurônios já haviam feito esforço o suficiente para um dia inteiro. Largo a sacola com as embalagens de salgadinhos em um canto qualquer e direciono os pratos à louça, Delfin cuidaria deles mais tarde.

Jogo meu corpo sobre o colchão e espero que a vontade de sonhar venha até mim. Uma das desvantagens de ser uma Ceifadora – mesmo após exercer por anos a função – era isso, coisas mundanas, como dormir, acabam fazendo muita falta. Apesar de que ainda possuíssemos sono, mas este vinha uma única vez a cada duas semanas e o meu estava longe de se apoderar de meu corpo.

Outra coisa a qual sinto a ausência é o fato das emoções “exageradas” e da liberdade, na época vitoriana, século em que ainda era viva, matar coronéis e torturar aristocratas era um passa tempo divertido, lembro-me claramente do rosto da última que tirei a vida, Madame Meredith Bouv’lere, incrivelmente bela, mas uma cobra de duas caras preparada para dar o bote em sua próxima vítima. O cliente ofereceu-me ouro o suficiente para viver três vidas caso tirasse a dela... e assim o fiz. Se não fosse aquela imundice de família de bruxos, eu provavelmente ficaria viva a ponto de gastar uma parte do dinheiro e aproveitar o que viesse pela frente.

Forçada a ficar presa em um quadro por centenas de anos por conta da maldição, me enojando com o rosto de homens ricos me encarando, oferecendo fortunas para comprar-me. A verdade era que o pintor desmiolado acabou por negar todas e, num acidente doméstico, incendiou-me, permitindo com que finalmente morresse. Devo confessar que foi um alívio não ver mais aquele rosto rugoso que, mais tarde, acabou entrando em desespero, apreciando a obra que dedicara sua vida toda sendo destruída. Do Vácuo, eu assisti repintando o quadro e, com toda certeza, a pintura deveria continuar como cinzas, até hoje tento entender como chegarem a oferecer bilhões de moedas por aquilo.

Tenho saudades de como as coisas funcionavam quando ainda não passava de uma mundana, como bastava dormir ou tirar a vida de meliantes por dinheiro para resolver qualquer problema... ser uma Ceifadora é como um castigo. Não importa como você tente voltar a viver como antes, nunca conseguirá, simplesmente não fará mais sentido conforme for tentando. Não é possível matar humanos, caso isso aconteça, bem... um estado de quase morte o aguarda, mas mesmo assim você continua com sua recente vida.

Mas isso pouco importava, ao menos pouco importaria se a carruagem continuasse caminhando conforme os cavalos. Faltava pouquíssimo e brevemente todo o sistema seria desmoronado, inclusive a liberdade privada dos Ceifadores. Estejam preparados, Grande Armada, você e seus superiores acabarão por curvarem-se diante de mim e beijarão meus pés.

Louise PcMangg

O fato de Lucy ter aquela personalidade egocêntrica era algo incrivelmente bom. De início acabara por ser um incomodo, mas agora, notei uma grande vantagem. Por ela pensar em si mesma a todo tempo nos deixa de lado, eu e Delfin somos como um grande nada diante dela e, por isso mesmo, Lucy acaba nos ignorando, dando apenas ordens para que façamos algo que deixe de irritá-la. Ela pode se achar manipuladora ao ponto de seduzir todos a realizarem suas façanhas, no entanto, ela própria acaba sendo a mais manipulada, induzida de forma discreta a seguir o que quer que os outros digam para fazer, basta escolher as palavras certas.

Estico meu braço para a direita e realizo uma acrobacia com os dedos, fazendo com que surja uma nuvem de fumaça que moldava a si própria como uma foice, querendo ou não, aquela era uma ação divertida e impressionante de se assistir toda vez que feita. Caminho até o centro do corredor, o papel de parede descascado entre uma porta e outra indicava o local para fazermos o corte. Ergo à ferramenta acima de minha cabeça e rapidamente a jogo para frente, fazendo com que a lâmina arranhasse mais ainda o mesmo produzisse faíscas ao colidir com o cimento que se escondia atrás de sua estampa desbotada.

A princípio, nada acontece, apenas as partículas alaranjadas que se formaram do bater do metal com a pedra caíram rumo ao chão, apagando-se em poucos segundos. No entanto, após breves momentos, uma linha branca surgiu, na mesma medida e no mesmo local onde a lâmina cortara, subdividindo-se em duas partes, desenrolando-se para os lados como se fossem pétalas desabrochando. Seu interior era preenchido por um degrade de roxo, preto e vários tons de azul enquanto tal movimento era finalizado, após, tudo se apagou, ascendendo novamente em um branco que chegava a cegar.

A passagem para o Vácuo estava aberta, um corte dimensional que somente Ceifadores eram capazes de fazer. Dou pequenos passos para atravessá-lo ao mesmo tempo em que a roupa que trajava se desfaz em vários fragmentos que, por si só, também se desfazem no ar, sendo substituídos por outros dos mesmos, formando uma veste de couro negra, que cobre todo o meu corpo e se decota em meus seios.

Inspiro, cheirando o nada e expiro, devolvendo o aroma ao local de onde viera. Meus olhos aos poucos se acostumam com o horizonte claro que preenchia tudo, não importava para onde olhasse, tudo era branco. Branco. Branco. E mais branco. Um espaço. Uma imensidão, era praticamente impossível não ter essa frase circundando por minha mente toda a vez que visitava aquele local. Era desconhecida a lembrança de quando a formulei, mas talvez fosse algum resquício perdido que ainda permanecera de minha memória humana.

Caminho pelas colinas brancas em buscas de um espírito humano para executar, em dias comuns talvez encontrasse Delfin vindo em minha direção e depois seguindo me cumprimentando com um gesto de cabeça, nessas horas fazíamos uma aposta mental, quem fosse capaz de executar mais espíritos teria direito a um desejo que, não importe o que for, o que perdeu deveria realizá-lo.

Era bobo, muito bobo, na realidade, mas deixava o trabalho mais divertido e menos cansativo, além de que nos retirava da realidade cotidiana que éramos forçados a viver. Apesar disso, Delfin ainda era uma pessoa desconhecida para mim e, certamente, não seria tão cedo que conseguiria descobrir algo a mais sobre aquele Ceifador.

Pisco os olhos algumas vezes conforme a silhueta ao longe ia ganhando forma, o corpo caído sobre a poça de sangue parecera tomar consciência aos poucos, olhando as mãos pintadas de escarlate e observando o seu redor, Confusão, a primeira reação após qualquer um vir ao Vácuo, o olhar de curiosidade era costurado em seu rosto, Medo, perguntas como Onde está minha família? O que farei de meu serviço?, o mundano começa a se questionar por conta desses detalhes insignificantes, Conclusão, eu apareço, esclarecendo tudo o que passara pela cabeça do humano anteriormente.

Aguardo até o momento em que as informações seriam transmitidas a minha mente, o nome e a causa da morte sempre eram os primeiros a chegar e lavarem o meu cérebro com outra enxurrada de notícias sobre o mesmo. Porém, nada chega, apenas continuo dando passos e produzindo estalos conforme me aproximo. É estranho, com toda certeza, é estranho. Talvez não passasse de um... erro? De fato era possível perceber a curiosidade e medo com que me fuzilava, no entanto, nada mais faria, se estava no Vácuo, certamente era um espírito.

Ergo minha foice, a lâmina zune no ar com a velocidade e volta a produzir ruídos conforme a desço, cortando o que quer que estivesse a sua frente. Mais sangue jorra, o corte acertara em cheio o seu peito, fundo o suficiente para ter cortado seu coração ao meio. Observo suas íris adquirindo um tom cinzento e sem vida, prestes a rumar para seu destino, fosse ele céu ou inferno... se não fosse a rápida piscada que deu, preenchendo seus olhos com um cintilo de vida mais uma vez e, em questão de segundos, curando o ferimento em seu peito.

Não posso negar que certa angustia se implantou em meu interior, e-estava no Vácuo, não passava de apenas mais um espírito e outra alma, por que diabos seu corpo não caíra inerte no chão e se transformara em pulvis? Traço novamente a mesma rota com a foice, desta vez desferindo um pouco mais de força enquanto receio se plantava e floria com velocidade em meu interior.

O mesmo processo se repete. Sangue voando e caindo, seu corpo se regenerando do ferimento e sua face voltada mais uma vez para mim, com uma expressão clara de pânico e prestes a escancarar a boca em um grito. Meus lábios se comprimem e tornam a abrir, murmurando um nome de três sílabas de um ser que jamais deveria ser encontrado vagando por aquela linha dimensional, o Vácuo.

Hu... mano. – meus olhos se fecham em lamúria, certifico de beliscar-me, tendo certeza de que não era um sonho, abrindo minhas pálpebras na imensidão branca mais uma vez e encarando a mesma pessoa abaixo de mim, gritando.

Vikterion Alomar

— Vovó! Quantas vezes já lhe disse? Isso é uma samambaia! – argumento novamente, uma das “qualidades” de vovó era ser incrivelmente insistente quando algo entrava em sua cabeça, ela acabava lutando com qualquer um para mostrar que estava certa.

— Não, não, meu caro. – vovó começou, rebatendo o que acabara de dizer – Isso, com toda certeza, é uma mandrágora, vai estourar seus tímpanos assim que florescer, é melhor cortá-la pela raiz antes que cresça mais um pouco.

Solto um suspiro de derrota, a verdade era que me cansara de continuar com a maldita discussão. Saio da frente da cesta onde vovó guardava seus objetos de jardinagem e permito com que ela agarre uma pequena pá e uma tesoura, rumando logo em seguida para o vaso poucos metros à minha esquerda, levantando as folhas da planta, cavando um buraco e arrancando-a, fazendo voar grãos de terra para o chão.

Parecia que a idade começara a atingi-la, ela não era mais a mesma desde a época em que me adotara no orfanato, quando fazia bolos de cenoura deliciosos e cupcakes com chantilly, estes agora saiam queimados do forno, mas mesmo assim os comia, elogiando a massa torrada para não magoá-la. Apesar de que a personalidade teimosa ainda permanecera. Vovó também passou a esquecer das coisas mais facilmente, as datas de suas consultas no médico humano por conta da diabete, coisas relacionadas a afazeres domésticos e até mesmo certas runas para seus feitiços, eu realmente temia que aquela situação piorasse com o tempo.

— Ora, Vik! – ela olhou para o relógio pendurado na parede – Você está atrasado para a escola! – vovó joga a planta em sua mão dentro de uma sacola enquanto me apressa.

Ela tira as luvas de pano e as deixa largadas no chão, erguendo-se com certa dificuldade e soltando um gemido pela, ao que parecia, pontada de dor em sua coluna. Em passos lerdos, vovó entrega meu agasalho e me acompanha até o portão, o fato de morarmos em um bairro distante da civilização fazia com que as ruas de ficassem desertas, principalmente naquela hora do dia.

Dou um beijo em sua bochecha e parto. Como não havia ônibus escolares que passassem por aquela área, era obrigado a caminhar uma quantidade razoável até meu destino, mesmo com que o prefeito tenha coordenado a construção de uma unidade de ensino por aquelas redondezas, ainda acabara sendo um pouco longe.

A poeira que o vento trazia forçava a fechar meus olhos, dando piscadelas e, de vez em quando, coçando-os, limpando algumas partículas de sujeira que insistiram em entrar produzindo lágrimas. Meus pensamentos são voltados para vovó novamente, realmente me preocupava a sua idade e possuía alguma certeza de que, em breve, ela acabaria por me deixar. Eu a agradecia com todas as minhas forças por ter me tirado do inferno que era o orfanato e preencher o vazio em meu coração que se abrira no acidente em que perdi meus pais, mas da mesma forma, ela era a única pessoa que me restava e sabia que sem a sua presença tornaria a ficar sozinho mais uma vez.

Sozinho... a palavra ecoa em minha mente, certamente estar sozinho é um dos piores sentimentos a florir dentro de cada pessoa, após o que passei, não desejo isso para ninguém, nem mesmo a meu pior inimigo. Porém desde aquele dia, em que mamãe e papai morreram, essa coisa passou a se alastrar.

O carro estava andando por volta de uns 100 km/h, o borrão em que a paisagem árida se transformara passara a me chamar atenção, forçando-me a observá-lo enquanto era deixado para trás. Mamãe e papai discutiam sobre alguma coisa, não me lembro o que, mas aumentavam o seu tom de voz a cada vez que abriam a boca, eu simplesmente fingia que não escutava e apenas apreciava as cores alaranjadas e o amarelo indo embora.

Não nego que aquilo me entristecia, ver as pessoas que mais amava em todo esse mundo brigando uma com a outra e eu ali, parado, sem fazer nada. Era realmente lastimoso. Espero até que o carro que estava atrás de nós nos ultrapassasse para que olhasse para frente, a testa franzida de papai indicava sua fúria enquanto os berros de mamãe se tornavam mais evidentes.

A cena me assustava um pouco, mas por mais que tentasse, não conseguia chorar, as lágrimas pareciam ter secado em meio aos gritos que meus ouvidos captavam. Talvez eu estivesse apenas agoniado com a situação ou fosse algo bobo dentro de minha cabeça, porém eu simplesmente não conseguia, elas não saiam por mais que me esforçasse e tivesse medo.

Fecho os olhos e tapo os ouvidos numa tentativa inútil de me esconder do mundo, indo a um lugar privado onde discussões como aquela não existissem, mas era impossível, o som podia ser abafado, mas não silenciado, ao menos até certo ponto. Abro minhas pálpebras, um clarão toma conta de minha visão enquanto sinto meu corpo flutuando, como se meu espírito estivesse abandonando o carro e partindo para longe... e tudo fica escuro.

Não sabia ao certo o que era, mas parecia nitidamente com um sonho. Tento mover meus braços para frente, mas não consigo, meu corpo estava paralisado, ainda sentado no banco duro do veículo de papai, ao lado de outra versão de mim... um Vikterion assustado e que tremia, havia certa possibilidade de ele ser o original e eu mesmo não passar de uma cópia, estava confuso.

As vozes de meus pais haviam se silenciado, suas bocas mexiam formulando palavras, mas são algum saiam delas, como se meus alguém houvesse mutado meus ouvidos. Papai havia tirado os olhos da estrada e erguido as mãos para cima, deixando o volante girar livremente para a direita, seus braços rumavam em direção a mamãe, que cobria a cabeça se defendendo de um tapa que papai desferira na mesma.

A raiva me invadiu naquele momento, por mais que amasse ambos, vê-los se agredindo não era algo que pudesse aguentar, tinha vontade de me mexer e entrar ali no meio, toda minha insegurança e medo foram lavadas por um oceano de sentimentos corajosos, a única coisa que queria naquele instante era colocar um basta na situação, ainda assim não conseguia me mexer.

Mas de nada adiantara. Tudo voltara ao estado anterior quando meus olhos vislumbraram os faróis de um veículo grande vindo em nossa direção, há poucos metros de atingir furiosamente o carro. Não sabia ao certo o que era, no entanto, gritei quando meu cérebro assimilou a situação como um real perigo e, nesse momento, minha voz saiu, cortando a discussão e fazendo com que papai e mamãe olhassem para frente.

Quando acordei, ainda permanecia no carro, preso ao cinto de segurança e de cabeça para baixo, escutava o barulho de sirenes ao nosso redor e uma dor imensa preenchia meu corpo enquanto minhas pernas estavam indolores, eu não as sentia. Meu interior foi preenchido rapidamente com pânico quando detectei o sangue escorrendo quente por um ferimento em minha cabeça. E pus-me a gritar, esperando que alguém viesse a nosso socorro, aguardando que alguém nos retirasse de lá, depositando todas as minhas esperanças de que meus berros dariam algum sinal de que estávamos bem e já podiam nos resgatar.

Porém por mais que meus pulmões ardessem e a falta de ar me dominasse, nada seria capaz de salvar mamãe e papai, o único a ser retirado das ferragens pelas mãos dos bombeiros sou eu, chorando.

Notas finais
Nada a declarar!! ^-^ Vejo vocês no próximo e espero que tenham gostado! See ya! o/