A Colecionadora de Almas - Interativa
3 Chapter II - Like Ashes in the Snow
Notas iniciais
Chapter II — Like Ashes in the Snow
Delfin Liberato
Aperto os botões da máquina e espero alguns segundos, escutando a vibração que as engrenagens produziam em seu interior, até a lata de refrigerante cair no recipiente ligado à abertura que me permitia pegar o objeto.
Agarro-a de forma lenta enquanto deslizo a mão em outra direção, ao local cujo algumas moedas despencaram. O material da lata encontrava-se gelado, fazendo com que a temperatura amena ultrapassasse as fibras de minha luva e causassem um pequeno incomodo em minha mão.
Por incrível que pareça, voltar a conviver entre os humanos fora algo difícil, particularmente, pensei que retornar à minha vida antiga – não exatamente da forma anterior, agora haviam as idas ao Vácuo para o “trabalho” de Ceifador – seria como roubar o doce de uma criança. Rápido e sem dificuldade alguma.
Tornamo-nos ceifadores por um motivo, e você, querendo ou não, vai fazê-lo, meus lábios formaram as palavras que me obrigaram a aceitar a realidade um tempo atrás. Louise de fato conseguira me convencer a deixar aquele sentimento de vingança para trás, no entanto, era praticamente impossível retirar aquele resquício que permanecera em meu interior, talvez alguns defeitos humanos ainda continuariam alojados, mesmo após tornar-me um Ceifador.
Tornamo-nos ceifadores por um motivo, e você, querendo ou não, vai fazê-lo.
Um motivo... o que de fato seria ele? Louise costumava ser aquele tipo de pessoa que tem a resposta para seus problemas na ponta da língua, no entanto, algo me dizia que para aquela pergunta, não haveria uma resposta conhecida pela mesma.
O movimento da Time Square me irrita um pouco. Tanto barulho, risadas, cochichos, tudo isso partindo da boca daqueles seres miseráveis, eu realmente não fui feito para habitar lugares agitados, mas não podia evitar. Lucy, a nova líder da Armada, acabaria por se estressar mais uma vez e acredite, aquela garota nervosa não é uma coisa que qualquer um aguente.
Adentro em uma ruela, fazendo uma curva acentuada à direita, esse é um dos poucos becos existentes nessa área da cidade, um pequeno caminho estreito entre um e outro edifício que acabara servindo como lixeira, dejetos eram jogados ali a todo o momento. O cheiro definitivamente não era dos melhores, o chorume, o mau odor dos ratos que procuravam por restos de alimentos por ali, tudo isso se combinara formando uma nuvem de aroma pútrido pairando sobre aquele local.
Prendo a respiração enquanto me movimento entre os sacos jogados no chão, dando passos largos na esperança de ultrapassar rapidamente o mar de dejetos e poder respirar ar puro novamente. Pisco os olhos algumas vezes, meus glóbulos haviam começado a arder bem no instante em que avistei a pequena porta à esquerda, grudada a um dos edifícios.
Tal objeto servia de entrada ao nosso “quartel general”, movo-a enquanto a madeira velha range. Poderia facilmente ser arrombada caso estivesse trancada, no entanto, a porta estava realmente camuflada, um humano não acharia aquele local facilmente. O corredor que se estendia a minha frente era extremamente longo, mais portas se distribuíam por sua extensão, cada uma dando passagem para um cômodo.
O lugar cheira a mofo e umidade, mas com toda certeza era melhor do que o lado de fora. Dou alguns passos e viro à esquerda, a porta escancarada dava passagem a sala de estar do lugar, uma figura se encontrava esparramada em um dos sofás velhos, encarando com certo interesse a tela da TV.
Movo-me para frente, adentrando o mesmo cômodo e deixando a sacola que carregava bem diante dos olhos de Louise, a caixa de leite em seu interior despenca para o lado. Ela exibia um olhar de superioridade enquanto falava.
— Lucy voltou para o Vácuo, deve estar aqui dentro de algumas horas. Não precisa se preocupar, não direi que se atrasou. – aquilo fora o suficiente, dou as costas e retiro-me do local, rumando para meu quarto.
Preciso urgentemente refrescar minha cabeça com uma boa leitura.
۞
Louise PcMangg
Delfin de fato era uma pessoa estranha, quanto mais informação minha cabeça absorvia sobre aquele Ceifador, mais confusa minha mente ficava.
— Lucy voltou para o Vácuo, deve estar aqui dentro de algumas horas. – ele não havia dito nada, mas seus olhos denunciavam curiosidade – Não precisa se preocupar, não direi que se atrasou. – finalizo sem retirar os olhos da TV.
O garoto era evasivo, não havia como negar. Delfin acabou por largar a sacola que carregava sob a mesa de centro e seguiu o corredor, certamente indo se trancar em seu quarto e ler as páginas de livro velho. Não sei ao certo o motivo de sua natureza ser assim, talvez seja a sua estupidez que o consome por dentro ou pode ser algo relacionado a seu passado, de toda forma, não posso classificá-lo dessa maneira, afinal de contas, eu mesma deixei moldar-me por conta de meu passado e fui guiada por minha – ainda maior – estupidez em momentos raros.
Levanto-me do sofá, minhas pernas gelam ao ter o sangue circulando por elas novamente, ficar sentada naquela posição havia adormecido-as. Me curvo para frente, agarrando o que outrora Delfin deixara por ali, estava me dando certa agonia o laticínio permanecer naquele local.
Caminho em direção ao corredor, a falta de janelas por aqui faz com que todas as luzes acabem por ficarem acessas, falhando de vez em quando em certos pontos por conta da fiação velha no local, por sorte os custos acabavam ficando a deriva dos Superiores, eles pagavam todas as contas.
A cozinha era um dos últimos cômodos do local, geralmente demorava certo tempo para chegar à mesma, no entanto, ao que indicava, estava perdida demais em pensamentos para ter uma noção. Abro a geladeira, depositando a caixa de leite em seu interior e procurando algo para beliscar, infelizmente, o estoque estava baixo, necessitando urgentemente ser reposto.
De toda maneira, acabo optando por um pacote de biscoitos recheados largados sobre o balcão as minhas costas. Até Lucy retornar procuraria algo para fazer, e nada melhor do que vagar por canais aleatórios em busca de programas de entretenimento sem graça alguma para assistir, sinceramente, não sei ao certo como conseguia assistir a isso antes de me tornar uma Ceifadora.
Mas por mais que negue, sinto falta dessa época. De rir a qualquer momento, de chorar, de possuir aquele sentimento de conquista e até mesmo de minha família e amigos – mesmo possuindo pouquíssimos fragmentos de memórias dos mesmos. Tornando-me uma Ceifadora, acabei por perceber como aqueles mínimos e insignificantes detalhes terminam fazendo falta alguma hora.
Meus lábios se curvam em um sorriso, mesmo sendo um pensamento um tanto quanto angustiante, acabo por me aliviar psicologicamente quando o mesmo me vem à mente. É satisfatório ter algo que possa fazer isso com si mesmo, principalmente no estado em que me encontro atualmente.
Volto a olhar para a TV, ao que parecia, aquele era um momento crítico para o participante do programa. Acertar a pergunta e acabar de uma vez com aquilo, ganhando um total de um milhão de dólares, ou errar e voltar para casa com os bolsos mais vazios do que quando chegara ao lugar em que o programa era gravado.
— Qual a capital da Bulgária? – o apresentador perguntou enquanto as quatro opções surgiam na tela.
O convidado ficou quieto por um instante, era perceptível o suor que se formava em seu pescoço e testa, ele possuía razão em ficar nervoso, afinal de contas, aquela era uma pergunta que acabaria por definir tudo o que lhe restava de vida. Ele abriu a boca, preparando-se para responder a questão.
— Letra C, Moscou.
Ao mesmo instante em que a platéia urrava em êxtase pelo homem ter errado, a porta de entrada se abriu, revelando a silhueta feroz de Lucy, seu cenho franzido indicava que estava de mal humor. As coisas vão ficar sérias daqui em diante, tenho completa certeza disso.
۞
Liusbe Beelrith
Ergo a mão direita para frente, a ponta de meu dedo indicador vai esquentando conforme o movo no ar, a luz vermelha se forma conforme traço o vento. Com um último movimento, toco a runa de explosão formada a minha e, como o próprio nome já dizia, em um piscar de olhos, a área em minha frente explodiu em um show de fogos de artifício, transformando os demônios que anteriormente marchavam rumando a mim em partículas multicoloridas.
Não deixo de sentir certa graça ao assistir aqueles seres insignificantes perdendo a vida diante de meu poder. “Papai” já deveria ter entendido que suas tropas eram a mesma coisa que nada.
— Apqua... acho que vou deixar o resto com você. – as sílabas escapam de minha boca.
— Com todo prazer, mestre. – uma voz sibila as minhas costas ao mesmo instante em que uma nuvem negra surge, tomando forma aos poucos e transmutando-se segundos depois em uma mulher.
Apqua em sua forma material acabara por escolher uma aparência exótica assim como a minha, sua pele cinzenta e os cabelos prateados mesclavam-se perfeitamente com os olhos cristalinos e azuis. Os seios fartos, os quadris desenvolvidos, com toda certeza o demônio era capaz de arrancar suspiros e fazer brotar desejos de perversão dentro de qualquer homem que a visse.
Viro-me e sigo adiante, estava ciente que Apqua faria de tudo para que nenhum daqueles outros de sua espécie me tocassem e, acima disso, realizasse a ordem que lhe foi dada. Afinal de contas, aquele era meu demônio contra inimigos incrivelmente fracos.
Estarei no Taco’s, te espero até que termine com eles, enviei a mensagem telepática a Apqua, tendo alguma certeza de que ela me questionaria mais tarde com os mesmos argumentos que sempre utilizava. Um mestre não deve aguardar por seu servo, nós somos obrigados a realizar a sua ordem e segui-lo até onde estiver, não importando a velocidade e a distância em que estiver, não espere por mim, às vezes acho que ela acaba sendo “leal” demais, uma coisa boa e ruim ao mesmo tempo.
Fico atento em relação se estou sendo observado, paro por um instante antes de finalmente sair do beco, dando de cara com uma das ruas do Brooklyn. A hora tardia da madrugada garantia o pouco movimento do local, mas ainda assim algum carro ousava apontar os faróis, ofuscando a luz da lua.
Lua... penso, sempre que vislumbro aquele corpo celeste a quilômetros de distância da terra, acabo me recordando daquele dia. Pessoas normais geralmente não possuem lembranças do seu nascimento, no entanto, eu ainda guardo-as comigo, por uma incrível falta de sorte.
— JOGUE-O FORA! – a voz urrou, ao que tudo indicava, estava bem próximo a mim. – LIVRE-SE DESTA... ABERRAÇÃO!
Não sabia ao certo onde estava, porém, por mais que quisesse revidar aqueles gritos, não conseguia, era tudo inútil, meu corpo não respondia às minhas ações, a única coisa que parecia saber fazer era chorar, chorar e chorar cada vez mais. Lágrimas escorriam aos montes através de meu rosto gorducho, como se estivesse com medo.
A mulher que me segurava tinha o rosto tapado por uma máscara, não conseguia enxergar nada além de seus lábios pintados de vermelho e a sua pele azul.
— Mas... lorde, e-ele... – a mesma começou, parecia que tentava me defender mantendo a sua voz firme, porém aparentava não conseguir. O som produzido por suas cordas vocais permanecia salpicado com angustia.
— NÃO IMPORTA O QUE ELE SEJA! – os berros retornaram, infelizmente, meu campo de visão privava de ver o rosto do salafrário – ISSO NÃO É UM DEMÔNIO! É UM HUMANO! COMO MEU FILHO PODE SER UM HUMANO?! JOGUE-O FORA! QUEIME! APENAS TIRE-O DE MINHA VISTA!
A mulher que me segurava parecia mais aterrorizada a cada palavra dita pelo outro e, em um ato de impaciência, acabou por se retirar daquele aposento, descendo rapidamente as escadas e rumando a um lugar aberto, dando vista para o céu estrelado e a lua prateada.
— Por mais que queira ajudá-lo, pequeno. – ela começou – Não posso fazer nada. A sua chance de viver será bem maior fora daqui, portanto... – a mascarada deixou-me no chão, rolando de um lado para o outro enquanto desenhava algo no chão de pedra polida.
O giz em sua mão ficava cada vez menor, ela deixava claro em sua expressão que possuía medo de o cutuco em sua mão não ser o suficiente para seu objetivo. Em traçados rápidos, ela acabara por desenhar um pentagrama, gravando runas de teletransporte em cada uma das pontas e distribuindo outras mais em seu interior.
A mulher agarrou-me novamente para não muito tempo depois posicionar-me no centro do símbolo desenhado no solo. Ajoelhando-se diante de mim, ela murmurou algumas palavras em uma língua estranha, olhando para os lados e prestando atenção em espectadores indesejados.
— Et, myon, darky, vhruvni... – as sílabas eram cuspidas cada vez mais rápido tornando-se indecifráveis conforme eram ditas.
— Portanto... VIVA! VIVA, MEU PEQUENO! – ela falou ao mesmo momento em que o pentagrama ardeu em chamas azuis, cobrindo completamente minha visão do mundo exterior.
Era de todas as maneiras possíveis, triste olhar para a lua e recordar-me daquela noite, à noite em que vim parar no mundo dos vivos, à noite após o meu nascimento, à noite em que meu próprio pai me abandonou... a noite de muitas coisas, mas principalmente, a noite em que meu sofrimento começara.
Mestre Liusbe, estou voltando, a voz de Apqua entoou em meus ouvidos, trazendo-me um sentimento de tranquilidade.
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