Parte II

Ainda não eram sete horas da manhã, e Reiji já estava de pé preparando seu café da manhã. Reiji era animado até de manhã, quando a maioria das pessoas ainda está lenta e preguiçosa. Ele era bem extrovertido e feliz, ouvia música e dançava enquanto se preparava para ir trabalhar. Seu gatinho o observava atentamente, e por vezes corria atrás dele tentando pegar a barra de sua calça, era brincalhão como o dono.

Reiji morava num apartamento razoavelmente grande, com uma sala e dois quartos grandes. Ele não era rico, mas era bem de vida, tinha sua casa própria, um bom emprego e um carro quase novo. Por toda a vida ele sonhou com isso, com essas coisas simples, porém confortáveis, em ter sua vida solitária sem pessoas ao redor para mandar e controlá-lo. Mas ultimamente ele tem a sensação de que aquele apartamento era grande demais para ele e seu gatinho. Um vazio batia.

Ele já tinha tomado café e já tinha se aprontado, tudo isso com o gatinho na barra de sua calça. Agora precisava ir para o trabalho, gostava de sair cedo pra não pegar trânsito até o trabalho, ele odiava ficar preso em engarrafamentos.

Enquanto arrumava seus papéis ele olhava para o gatinho que brincava com a cortina. Ele tinha a alegria nos olhos, em seus olhos verdes e marcantes. Além desse olhar alegre, Reiji também tinha um sorriso encantador que sempre arrancava suspiros das moças por onde passava. Mas agora ele estava concentrado no seu gatinho preto, que se chamava Shi, tinha esse nome por ter quatro listras brancas em suas costas. Ele ria ao ver o gatinho tentar subir a cortina e cair toda hora.

– Ah Shi, hahahaha. Você sempre consegue me fazer rir!

O gatinho olhou pra ele e soltou o seu miado característico, “Mii”, como se estivesse indagando seu dono.

– Agora preciso ir para o trabalho, Shi. Não faça bagunça, okay? – Disse Reiji enquanto pegava o gatinho nos braços e o levava até sua cama.

– Até a noite, Shi! – Deu um beijinho no focinho do gato.

Mais um “Mii” foi ouvido e então Reiji saiu para o trabalho.

Já no carro a caminho do trabalho, Reiji pensava na próxima propaganda que tinha que preparar. Era para uma marca de chocolates. Ele estava tendo dificuldades em entrar em acordo com o dono da empresa. Só que isso não o abalava nem um pouco, apenas o motivava a fazer melhor cada vez mais. Não é a toa que por quatro anos seguidos ele ganha o premio de melhor publicitário oferecido por um grupo de várias empresas. Ele tinha 29 anos e estava muito satisfeito com sua carreira. “Eu preciso melhorar a apresentação do chocolate na campanha, e adequar mais as imagens ao jingle”. Era um de seus pensamentos. Entretanto, não era só isso que ele pensava. Um dos pensamentos que cutucava sua mente era o de que ele já tinha 29 anos e ainda estava sozinho. Isso ficou em sua cabeça por todo o trajeto até o trabalho.

Todo dia Reiji chega com o mesmo sorriso encantador e diz um bom dia muito entusiasta para os colegas.

– Pessoal, um ótimo dia para todos! Estou tão animado hoje! O dia não está lindo?

Um coro uníssono foi ouvido em todo o departamento.

– BOM DIA, REIJI!

Reiji era muito querido por seus colegas de trabalho. Ao fundo podia se ouvir as secretárias cochichando algo como “Reiji-san é tão lindo”, “Será que ele é casado? Ou namora?”. Realmente, Reiji causava uma boa impressão nas garotas. Mas elas não atraíam tanto a atenção dele assim. Outro alguém tinha chamado a atenção dele nos últimos dias, alguém que, parece ter conquistado a simpatia imediata de Reiji.

Hoje o dia de trabalho estava mais calmo, na parte da manhã ele só teria uma reunião pra discutir os rumos da propaganda do chocolate e na parte da tarde apenas ajudaria seus funcionários com alguns detalhes técnicos da mesma propaganda.

Ele foi para reunião, que começava às 9h, o presidente da empresa e seus diretores estariam presentes, assim como o seu chefe e os outros responsáveis pela propaganda.

Após duas horas de discussões sobre como a propaganda deveria ficar, Reiji surpreendeu todos com uma idéia aparentemente muito eficaz.

– Por que não associamos o chocolate à imagem de uma atriz assumidamente apaixonada pelo doce? – Um nome foi citado por ele mesmo.

Todos olharam Reiji com apreço, era uma idéia tão simples e eficaz, que ninguém ainda havia pensado. A atriz citada era famosa, e tudo o que ela consumia vendia como água. Depois disso, o presidente da empresa veio até Reiji e apertou sua mão com firmeza.

– De agora em diante a campanha do meu chocolate está em suas mãos, você provou saber de verdade o que faz. Eu não me meterei mais nesse assunto – Disse o presidente da empresa de chocolate.

Reiji agradeceu com seu sorriso marcante. Ele havia tido mais um sucesso em sua carreira. Mas e sua vida amorosa? Essa era a pergunta que Reiji fazia a si mesmo durante todo o dia.

Com o fim da reunião, Reiji não tinha mais trabalho na parte da manhã, então resolveu ir almoçar num restaurante do outro lado da rua. O tempo estava frio, era ideal para pedir uma sopa, e foi o que ele fez.

Pensamentos passavam a todo o momento em sua cabeça, mas apenas um ficava. Enquanto tomava sua sopa de carne com legumes, o rosto daquela pessoa que tinha chamado sua atenção alguns dias atrás. Ele sorria toda vez que aquela lembrança vinha a sua mente. Será que ele havia se apaixonado por alguém que ele tinha visto apenas algumas vezes? Sua alma aquecia em lembrar-se do rostinho branco como a neve daquela pessoa, e seus olhos negros que contrastavam com a pele. Tinha um olhar sério, mas transmitia um ar de fofura, algo que Reiji adorou logo de cara. Seu coração começou a bater mais rápido, e sentia como se algo quente envolvesse seu corpo. Ele queria aquele garoto pra si. Sim, As lembranças de Reiji são de um garoto que ele viu há poucos dias.

– Ele vai ser meu — Reiji disse olhando o prato de sopa, já vazio.

Já era hora de voltar ao trabalho, passava da uma da tarde. O período da tarde dele estava tão calmo quanto o da manhã, agora ele ia ajudar seus funcionários a resolver problemas técnicos sobre a propaganda. Reiji era chefe do seu departamento, e todos o adoravam. Ele era prestativo, sempre disposto a ajudar os problemas que seus funcionários poderiam ter no decorrer da produção da propaganda. Sempre atendia a todos com aquele sorriso que encanta qualquer pessoa. Ele era um líder nato, tanto que seu departamento era o que obtinha o maior rendimento para a empresa que ele trabalhava. Sabia comandar sua equipe, conhecia seus funcionários e sabia o que cada um podia ou não fazer. Mas seus pensamentos ele não conseguia controlar. A imagem do garoto sorridente e fofo volta e meia voltava a sua mente.

– Seiji-san? – Sua secretária o chamou. Ele despertou de sua distração.

– Hã? Ah, sim. Desculpe-me, eu estava distraído com alguns pensamentos. Em que posso ser útil? – O sorriso voltou ao seu rosto.

– É que estou com dificuldade de acertar alguns termos no contrato da propaganda. Seiji-san poderia me ajudar?

– Mas é claro!

E foi para a mesa da moça para poder ajudá-la a preparar o contrato da propaganda. Mas ele realmente não estava lá, sua mente estava no garoto fofo de pele branca e olhos negros.

Durante toda a tarde foi assim. O corpo dele estava presente com seus funcionários, mas sua mente não. Ela estava junto do garoto. Ele imaginava muitas coisas. Um beijo. Um beijo entre eles, isso seria bom demais. Ele podia imaginar seus lábios tocando os dele, sentir a maciez da pele dele em seus dedos, e na sua própria. Aquilo era excitante, ele queria muito aquele beijo. Ele sentia a língua do garoto acariciar a sua, e com esses pensamentos o corpo de Reiji esquentou. Ele precisou dar uma pausa, saiu dali e foi para rua, seguindo sem rumo, mas o inconsciente dele sabia onde ele estava indo.

Seguia com aqueles pensamentos pervertidos em sua mente, mas ele não fazia força de impedi-los. Junto com os pensamentos perversos vinham também os amorosos. Ele queria aquele garoto para si, para cuidar dele, e amá-lo intensamente. Espera? Amá-lo? Reiji parou por um instante na rua.

– Será possível que eu esteja amando alguém que eu nem conheço? – Disse para si mesmo.

– Vamos descobrir – Ele se respondeu.

Pronto, ele já estava em frente à lanchonete, e podia ver através do vidro o garoto que tanto provocava seus pensamentos trabalhando na máquina de café. Ele era mais lindo ainda do que Reiji lembrava. O jeito sério de ele trabalhar cativou Reiji, o sorriso que ele dava as clientes e seu jeito fofo de atendê-los consumia o coração de Reiji. Ele entrou na lanchonete e foi em direção ao garoto.

– Boa tarde, mocinho, eu gostaria de um café – Disse Reiji com um sorriso lindo no rosto.

O garoto estava olhando para o preparo do café de cliente e ainda não tinha prestado atenção em Reiji. Quando virou para olhar para Reiji, o garoto ficou paralisado olhando para ele, suas bochechas coraram. Reiji adorou isso.

– C-Claro senhor... O senhor deseja mais alguma coisa? – O garoto não conseguia parar de olhar para o sorriso de Reiji.

Reiji adorou a reação do garoto, ele estava se apaixonando cada vez mais, e como era desinibido, resolveu provocar o garoto de bochechas coradas.

– Um sorriso seu seria perfeito para acompanhar meu café – Reiji provocou.

O que Reiji viu a seguir fez sentir vontade de agarrá-lo ali mesmo e beijá-lo intensamente. O garoto ficou extremamente envergonhado e vermelho. Aos olhos de Reiji ele tinha ficado ainda mais bonito e fofo.

– C-Como!? – O garoto gaguejou para Reiji.

Reiji estava completamente apaixonado por aquela doçura de garoto. Então resolveu não provocar mais o pobrezinho.

– HAHAHAHA, brincadeira. Eu gostaria de algumas dessas rosquinhas também – Reiji apontou o balcão logo ao lado onde estavam as rosquinhas.

O garoto deu um sorriso que apesar de demonstrar alívio, demonstrava simpatia.

– Claro, aguarde um minuto que o café já ficará pronto, senhor. – O garoto disse com aquela mesma fofura que ele atendia os clientes.

Reiji riu e foi-se sentar sozinho em uma das mesas vagas. Ele se deu conta que ainda nem sabia o nome do garoto por quem se apaixonara. Para ele isso era fácil descobrir, então não se preocupou com isso, O que detinha sua total atenção no momento era o garoto trabalhando. Ele trabalhava com amor, o que deixava Reiji ainda mais apaixonado. Ele tinha leveza nos movimentos e fazia o café de Reiji com toda dedicação e perfeição, como se fosse para um rei. Reiji não pode deixar de notar que as bochechas do garoto ainda estavam coradas. Será que o garoto tinha gostado dele?

– Aqui está seu café e suas rosquinhas, senhor – A jovem garçonete despertou Reiji de seus devaneios.

– Oh, sim. Muito obrigado – O sorriso de Reiji fez a mocinha corar também.

Reiji provou o café, e era magnífico. Ele nunca havia provado algo tão delicioso em toda sua vida. “Será que quem fez esse café é tão gostoso quanto ele?”. Pensamentos pervertidos voltaram à mente de Reiji. O sabor invadia o corpo de Reiji, ele queria que aquele café durasse para sempre, mas ele acabou em poucos minutos. Enquanto os pensamentos dele viajavam pelo corpo do garoto. Reiji sentia o volume de sua calça aumentar... Ele estava excitado com o garoto.

Reiji terminou seu café e suas rosquinhas, então se levantou e foi pagar sua conta com o garoto. E aproveitou para provocara mais um pouquinho.

– Seu café é delicioso. Eu não esperaria menos, algo feito por alguém tão bonito tinha que ficar muito bom.

O garoto ficou rubro na hora, olhou fixamente com seu olhar doce para Reiji, engoliu seco e gaguejou:

– O-O-Obrigado, s-s-senhor!

Reiji ficou apreciando a situação e a fofura do garoto, mas ao mesmo tempo aproveitou para ler o crachá dele, onde estava escrito “Shion”. Reiji deu o seu marcante sorriso lindo para o garoto e foi embora.

– Shion, é? É um lindo nome para uma linda pessoa. Acho que estou te amando, Shion — Disse ele para si mesmo quando já estava na calçada.

A noite já havia chegado, e Reiji estava em sua sala pensando no seu Shion. Sim, ele dizia para si mesmo que o Shion era o garotinho dele, e de mais ninguém. Nesse momento ele pensava em ir chamar Shion para sair. Levá-lo para algum lugar que ele gosta conversar e rir muito com ele. Reiji já imaginava o rostinho lindo de Shion sorrindo para ele, e seu coração estava completamente acelerado. O desejo de ter Shion em seus braços o consumia de certa forma, que o volume em sua calça aumentava de novo. Ele se decidiu, vai voltar até a lanchonete e conversar um pouco com Shion, ou seu peito iria explodir. E sua calça também.

Já estava quase na hora da lanchonete fechar, Reiji não queria chegar atrasado. Acelerou o carro o quanto pode para chegar o mais rápido possível. Reiji estava eufórico como sempre, não via a hora de poder conversar com Shion. Mas o transito não estava ajudando. Primeiro um trecho lento na auto-estrada, depois o caminho que ele usaria para chegar até a lanchonete estava impedido devido a um acidente que ocorrera. Quando conseguiu chegar à quadra da lanchonete, não havia vagas próximas, teve que deixar o carro longe e ir a pé.

Estava indo em direção a lanchonete pela calçada, quando vê alguém sair correndo de lá vindo em sua direção. Reiji tromba com a pessoa, ele percebe que era Shion.

– Desculpe senhor. Eu preciso pegar o metrô. – Disse Shion e saiu correndo.

Reiji chamou a atenção de Shion, mas ele não ouviu, já estava bem à frente. Algo brilha no chão perto de Reiji. Era uma chave, que ele pega imediatamente, era a chave da casa de Shion. Ele precisava dela, então Reiji tinha que devolver de alguma forma. Foi até a lanchonete onde apenas um senhor de idade estava.

– Por favor, o senhor pode me ajudar?

Satoshi observou atentamente Reiji

– Claro, com o que posso ser útil?

– Um funcionário seu, Shion, perdeu a chave de casa. Eu gostaria do endereço dele pra ir devolver.

– Você conhece o Shion?

Reiji não podia dizer que não o conhecia, senão o homem não lhe daria o endereço.

– Sim, somos amigos. Eu estava falando com ele. Deve ter derrubado a chave e eu só percebi quando ele saiu. Mas não sei exatamente onde ele mora.

– Nesse caso eu posso lhe passar. Só um momento.

– Muito obrigado.

Reiji saiu dali com o endereço em mãos, correu até seu carro animado com a idéia de que iria até a casa de Shion. Quem sabe ele não o convidaria pra entrar? Os dois ficariam a sós e então mais íntimos. O volume em sua calça aumentou e as batidas do seu coração aceleraram.

Reiji estava dentro do carro, em frente ao endereço de Shion. A ansiedade o consumia, mas não havia sinal do Shion.

O tempo passou e passou, uma hora e meia havia se passado. Quando de repente Reiji vê Shion correndo em direção a casa, parecia assustado.

O que houve com Shion? Reiji se perguntava.