A Chave Para O Coração
26 Capítulo 26
Notas iniciais
Espero que curtam... bjão pra todo mundo que acompanha a história!
Finn estava na sala de estar de seu apartamento, lendo o roteiro de um filme de ação que um amigo diretor havia proposto que a GHShow produzisse. Tinha conseguido convencer Artie de que não precisava passar a noite inteira na mansão onde era filmado seu programa, e agora desfrutava, da forma como normalmente fazia, da solidão que estava prestes a perder.
Havia um lado dele que achava isso bom, é claro. Afinal, ele tinha criado o programa porque não estava mais realmente satisfeito com o fato de não ter com quem dividir sua vida, para quem voltar à noite, vozes para encher a casa, grande demais para uma pessoa e alguns empregados apenas. Outro lado, no entanto, tinha dúvidas sobre se seria realmente uma boa ideia ter uma mulher esperando por ele, ansiosa para escutar sobre seu dia e relatar o dela, quando esta mulher não seria realmente aquela a quem ele gostaria de contar sobre todas as suas alegrias, receios, expectativas, sucessos e angústias, e sobre cuja rotina adoraria saber cada detalhe, por mais insignificante que pudesse parecer.
Decidido a não pensar mais nisso, e agradecido pelo fato de ter uma ocupação e não precisar procurar por uma, recorrendo a livros já lidos ou a programas de TV que não distraíam de verdade, Finn se concentrava apenas em ler o longo roteiro e fazer algumas anotações, pois, pelo que estava vendo até aquele momento, o filme parecia se encaixar no perfil de uma das emissoras novas do grupo que ele estava fundando, e precisaria apenas de alguns ajustes e de uma escolha cuidadosa de elenco.
Estava tão envolvido, a uma certa altura, que sua governanta precisou falar o nome dele duas vezes, para que tirasse os olhos dos papéis e se virasse para ela.
"Você tem visita, Finn." Informou a Sra. Glover, chamando-o pelo primeiro nome, como ele preferia que todos fizessem. "O porteiro disse ser uma senhorita chamada Rachel."
"Rachel?" Ele se surpreendeu totalmente. "É... tá... tá, tudo bem, eu... eu mesmo abro. Pode ir dormir. Obrigada." Sorriu, já se encaminhando para a porta da sala principal, enquanto ouvia a campainha tocar.
"Finn!" Rachel disse, logo se jogando nos braços dele, aos prantos, sem dar tempo para que ele tivesse qualquer reação.
A única coisa para a qual tinha tido tempo fora para ver o quanto ela estava diferente das últimas vezes em que tinham se encontrado. Pensando bem, ela estava completamente diferente de quase todas as vezes em que ele a tinha visto, depois de seu retorno da Europa. Usava um vestido simples, seus cabelos estavam molhados e um pouco rebeldes, não havia nenhuma maquiagem em seu rosto, e tinha os olhos vermelhos e inchados, o que demonstrava que ela certamente não tinha começado a chorar naquele momento.
Até os sapatos de salto, que ela sempre usava, desde nova, porque não se conformava com sua baixa estatura, apesar de ele achar que esta era uma de suas características mais adoráveis, tinham sido substituídos por uma sapatilha. Foi impossível não reparar, pela diferença que isso fazia na altura em que os braços dela envolviam a cintura dele e na posição do rosto dela pressionado forte contra seu peito.
"Rachel? Rachel, o que aconteceu?" Perguntou, aflito, afastando-a um pouco de seu corpo, para olhar para ela, enquanto acariciava seus cabelos, tentando lhe dar algum consolo. Era óbvio que alguma coisa séria tinha acontecido, para ela estar tão desprovida de sua vaidade usual e soluçando daquele jeito, enquanto as lágrimas escorriam ininterruptamente por seu rosto. "Aconteceu alguma coisa com a sua mãe, seu pai, o Ravid... o Puck?" Perguntou pelo último realmente temeroso, não só porque Noah era como um irmão para ele, mas porque acabara de se lembrar que o rapaz havia afirmado que jantaria com a irmã.
"Não." Ela conseguiu controlar um pouco os soluços, para poder responder. "Não... tá tudo bem com eles. Tudo... normal, eu acho."
"Então, o que foi? É... você..." Engoliu seco e com força, sentindo um pânico maior do que ele podia se lembrar de jamais ter sentido antes. "Você não tá... doente, tá?"
"Não, não." Falou, chorando mais ainda. Tudo ficava ainda mais duro, ao ver o homem que ela tinha abandonado, sem que ele tivesse merecido nada diferente de todo o amor que ela pudesse lhe dar, sendo, mais uma vez, doce, amoroso e cheio de zelo. "Eu to bem. Fisicamente... eu to bem."
Ele a abraçou forte, passando uma das mãos em suas costas, com carinho, deixando que ela chorasse um pouco mais. A intensidade do pânico que ele tinha sentido, que felizmente tinha durado apenas alguns segundos, foi a mesma do alívio em saber que ela não estava passando por nenhum problema grave de saúde. Se não se tratava de morte nem doença, qualquer coisa que ela estivesse passando, poderia ser resolvida de algum modo, ou amenizada pelo tempo.
Se ela estivesse com problemas no trabalho, ele mesmo teria um novo emprego para ela, e não era só porque ele a amava, mas também por saber de sua competência. Se ela estivesse desiludida com algum amigo, iria doer por um período, mas depois ela se conformaria, e viveria com os bons amigos que ainda tinha. Se fosse alguma questão financeira, ele a ajudaria a resolver, sem problemas.
De repente, passou pela cabeça dele a possibilidade de que ela estivesse apaixonada por alguém, e de o idiota ter-lhe partido o coração, mas seu lado racional lhe lembrou que ele seria, provavelmente, a última pessoa a quem ela iria querer se mostrar destruída, desiludida romanticamente, principalmente quando ela tinha amigos e um irmão visitando a cidade, com quem poderia conversar sobre o assunto sem constrangimentos.
Foi então que Finn se deu conta de que, qualquer que fosse o problema que a estava perturbando tanto, não fazia sentido algum Rachel ter escolhido ir até ele. Imaginou que talvez o assunto tivesse a ver com ele, mas não conseguiu decidir se isso era bom ou ruim, sem ter uma explicação, sem que ela se abrisse.
"Rach?" Falou, se afastando e vendo que ela chorava bem menos. "Rach, vem cá." Pediu, levando-a até um sofá. "Eu to muito aliviado que não tenha acontecido nada com ninguém da sua família... e que você não esteja com nenhum problema de saúde. E... eu nunca me negaria a consolar você, a te abraçar, te ajudar num momento difícil. Mas eu to confuso! Você precisa se acalmar e me dizer por que eu. Por que você veio até aqui... em vez de, sei lá... falar com o seu irmão, com um dos seus amigos..."
"Eu precisava te ver." Interrompeu, respirando fundo e lutando contra o nó em sua garganta. "Eu preciso te dizer tanta coisa! Eu preciso que você saiba que..." Não conseguiu terminar a frase, pois voltou a soluçar, e ele se levantou, decidindo que ela precisava de alguma coisa que a ajudasse a se acalmar. "Onde você vai? Fica aqui... fica perto de mim, Finn... por favor, fica perto de mim!" Disse, um pouco mais desesperada do que gostaria, reagindo a torrente de emoções que se formava dentro dela a cada minuto, desde o momento das revelações do irmão.
"Calma." Disse, sentando-se novamente e secando as lágrimas dela com os polegares, delicadamente. "Calma, eu to aqui. Eu não vou a lugar nenhum." Deu um sorrisinho e obteve um muito tímido de volta. "Eu só acho que você precisa de algo que te acalme, pra conseguir me falar todas essas coisas que você disse que precisa me falar." Apertou a mão dela, que assentiu. "Apesar de eu mesmo estar ficando meio nervoso." Confessou, levantando do sofá outra vez e passando uma das mãos pelo cabelo.
"Eu nem sei como começar..."
"Vamos começar tomando um vinho, ok? Nós dois precisamos relaxar."
"Finn, é importante. Eu não vim até aqui pra tomar vinho com você e colocar o papo em dia. O que eu tenho pra te dizer é sério... é grave! É MUITO grave!" Ele desistiu do vinho e ocupou o lugar ao lado dela de novo, que respirou o mais fundo que pode. "Você precisa saber que eu sempre amei você, acima de todas as coisas, Finn. Eu nunca... NUNCA teria deixado você pela Europa, por uma escola melhor, por uma carreira mais promissora." Ela conseguiu falar, enquanto ele a observava, confuso. "Eu AMO ser jornalista... eu gostei de estudar em Londres... mas NADA, nada disso era o que eu mais queria. O que eu mais queria era ser sua mulher!" Voltou a chorar.
"Eu... desculpa, mas eu não to acompanhando, Rachel. Isso foi exatamente o que você fez." Disse, um pouco exasperado, e então pegou uma garrafa de uísque que estava sobre o bar e serviu duas doses, entregando um copo para ela e tomando um bom gole do outro.
"Não." Ela continuou, quando ele já estava sentado de novo e ela também já tinha tomado uma boa quantidade da bebida, com a qual não estava acostumada, mas que era, sim, bem vinda. "Isso foi o que a minha mãe quis que você acreditasse que eu fiz, Finn. Nós dois fomos enganados... caímos numa armadilha. Numa cilada muito bem arquitetada... perfeita... que eu nunca descobriria se o meu primo não tivesse ficado bêbado e contado tudo ao Noah. E se você não tivesse falado pro Noah que a gente tinha se reencontrado..."
"Eu continuo não..."
"Eu sei. Eu sei que você não tá entendendo. Mas eu vou te explicar." Tomou outro gole de bebida, porque só de pensar na história os olhos ficavam marejados e a garganta fechada. "Você se lembra que a minha mãe não queria que a gente se casasse, e tentou me convencer, por muito tempo, a ir pra Londres... não lembra?"
"Claro que sim... eu me sentia super mal, porque ela não fazia questão nenhuma de esconder. Ficava falando, na minha frente e de todo mundo, que uma mulher tinha que garantir o melhor cenário na carreira... que amor era uma ilusão..."
"Que uma mulher não podia tomar decisões baseada em seus relacionamentos." Ela completou, com o mesmo tom de ironia que ele estava usando. "É CLARO que esse discurso dela não me convenceu... nunca me convenceria! Uma pessoa não é nada sem amor, sem família... e eu não sei disso só agora, eu já sabia disso! Eu já sabia que sem você eu nunca seria feliz, nem em NY, nem em Londres, em lugar nenhum do mundo." As lágrimas voltaram a escorrer, mas ela não se deixou abater o suficiente, pois estava ali para contar o que ele tinha o direito de saber. "Ela percebeu que não ia me convencer e fingiu que tinha se conformado. Como ela era minha mãe, eu não desconfiei. Mas ela não se conformaria NUNCA... e faria o que fosse preciso pra que eu fosse pra Londres, pra que eu fizesse o que ELA achava certo!"
"O que ela fez, Rachel? Ela te amarrou e te colocou no avião... e depois foi dizer pra todo mundo no cartório que você tinha ido embora?" Ele não queria ser sarcástico, mas ele ainda não estava vendo nenhuma lógica na história.
"Não. Ela me fez acreditar que você me traiu." Falou baixinho, humilhada.
"O que?" Ele riu, nervoso. "Sua mãe te falou que eu te traí, depois de tudo que a gente viveu, e você acreditou no que ela disse?"
"Não é tão simples, Finn." Voltou a chorar de forma descontrolada. "Eu vi. Eu vi... ela me fez ver! Você... na véspera do nosso casamento... na cama, completamente nu... com a minha prima." Ela viu a testa dele se enrugar totalmente, as sobrancelhas levantadas. "Eu sei! Eu sei que você não fez... que você não transou com ela. Meus primos te drogaram... foi tudo armado. Mas..." Suspirou e enterrou o rosto nas mãos, envergonhada. "Eu vi... como eu ia duvidar do que eu estava vendo?"
Finn se levantou, tomando mais uísque, e por alguns minutos ficou andando de um lado para o outro da sala, registrando o que ela tinha acabado de dizer: ele tinha sofrido todos esses anos por causa de uma armação!
Rachel realmente tinha achado que ele não merecia se casar com ela, que ele não merecia o seu amor, porque pensara, por todos aqueles anos, que tinha sido traída por ele, pouco antes do momento em que se tornariam marido e mulher. E a mesma pessoa que fez com que ela acreditasse nisso, e fosse embora por isso, fez com que ele acreditasse que ela não o amava o suficiente, que o havia trocado por outros sonhos, maiores que a história dos dois.
Era muito irritante pensar que Shelby tinha sido tão mesquinha, e manipulado pessoas, incluindo a própria filha, apenas para conseguir que ela tomasse a decisão que ela achava ser a correta. Porém, enquanto o uísque ia entrando no sistema, e Finn ia quase formando um buraco no chão da sala, ouvindo o choro contido de Rachel, que ainda escondia o rosto, encolhida no sofá, o lado bom de tudo aquilo apareceu, como um raio de sol invadindo um cômodo por uma brecha entre as cortinas.
Rachel não era uma mulher egoísta, que o abandonara e ainda o acusara de ter merecido, só porque achava que ele tinha que ter seguido os passos dela, aonde quer que ela fosse. Ela era a sua doce, delicada, carinhosa e apaixonada Rachel, que fora, como ele, vítima da tirania disfarçada de uma pessoa sem escrúpulos e muito inteligente.
"Eu sei que eu devia ter confiado em você, Finn. Eu sei!" Rachel disse, de repente, tirando Finn de suas elucubrações, e fazendo com que ele parasse de caminhar feito um doido."Eu fui burra, ingênua, precipitada... e eu entendo se você não me perdoar nunca pelo sofrimento que você passou. Mas eu precisava... eu realmente PRECISAVA que você soubesse que eu te amava. Que eu não te troquei por nada... que eu... nunca te trocaria."
"Rach..." Ele se aproximou, ficando bem perto dela e tomando suas pequenas mãos nas dele. "Você tinha dezoito anos... e, como você mesma disse, você VIU. Eu acho que, se eu visse você dormindo na cama com outro cara, eu também não ia esperar explicações. E, se você tentasse se explicar... negasse o que eu VI... eu, provavelmente, não acreditaria em você." Secou, de novo, as lágrimas dela com seus dedos. "Eu nem tenho do que te perdoar!" Deu de ombros, e ela começou a chorar descontroladamente de novo, se jogando em seus braços.
"A minha mãe é um monstro, Finn! Isso... não é uma mãe." Afirmou, com repulsa, se afastando para olhar nos olhos dele. "Mas... eu devo ser um pouco egoísta também... ter um pouco dela. Porque não deve ser normal o que eu to sentindo, Finn. É normal eu estar um pouco feliz porque foi ela quem me traiu e não você?" Questionou, envergonhada.
Ele deu um tímido sorriso e a abraçou de novo, ficando com ela recostada em seu peito por algum tempo, sentindo o delicioso e suave perfume de shampoo, nos cabelos dela. Com o conforto do corpo dele junto ao seu, ela adormeceu, então ele a levou até seu quarto, colocando-a na cama, para que descansasse, depois das fortes e dúbias emoções que tinha vivido naquela noite.
Quando ele ia sair, e deixa-la à vontade, ela pediu que ele se deitasse com ela, e, por mais alguns minutos, eles ficaram ali, apenas deitados, tão agarrados um ao outro que pareciam até um só.
Ficaram em total silêncio, acalmando os seus corações, sem saber exatamente qual seria o próximo passo, e em que medida as revelações sobre o passado iriam afetar o futuro de cada um.
Fale com o autor