A Chave Para O Coração
15 Capítulo 15
Sozinho no banco traseiro da limousine da empresa, indo para o Prêmio Emmy, Finn pensava nas sete meninas que ainda participavam do programa que ele tinha idealizado. Tentava achar uma maneira de escolher uma delas para a eliminação da noite seguinte, mas, àquela altura, estava difícil demais mandar qualquer uma das meninas para casa. Era realmente complicado estabelecer critérios racionais e deixar de lado o carinho que sentia por cada uma delas.
A eliminação de Nina tinha sido tão emocionante que, quando ele viu as lágrimas escorrendo pelo rosto dela, não hesitou em enxugá-las e quase chorou junto com a bela morena. No dia seguinte, ele se sentira tão mal com a lembrança da garota despedaçada por sua escolha, que pediu à Harmony para lhe enviar flores que não tivessem uma conotação romântica, junto com um cartão de agradecimento pela participação dela no programa, no qual ele também apresentava seus sinceros votos de felicidade, sua sincera torcida para que ela conhecesse alguém muito especial em breve.
O fato de ter estado com Rachel, e quase feito amor com ela, poucos dias antes da eliminação, também fora uma forte razão para que ele tivesse sido tão afetado pela situação. Seus nervos ainda estavam à flor da pele naquela quinta-feira e, mesmo agora, se ele dissesse que estava totalmente recuperado estaria mentindo descaradamente. E o pior de tudo era que, em plena véspera do dia em que teria que se despedir de mais uma garota, ele estava indo a um evento onde, certamente, encontraria a sua criptonita mais uma vez.
Não era só ele, no entanto, quem se sentia enfraquecido pelo que lhe reservava aquela estrelada noite de quarta-feira. Rachel estava nervosíssima com o fato de que o veria de novo, pela primeira vez depois de ter confessado que o desejava, e estando acompanhada do namorado, que os interrompera e sequer desconfiava disso.
Se pudesse, nem mesmo estaria indo ao Emmy, mas quando Sam descobriu que ela havia sido convidada, ele imediatamente alugou um smoking, uma vez que não havia trazido o seu de Londres, e não parou mais de falar sobre o quanto estava animado para ir à premiação e, em seguida, a alguma festa de comemoração cheia de celebridades. Então só restou a ela pedir a Kurt que providenciasse um vestido maravilhoso, marcar hora com Roz e torcer para que a mesa de Finn fosse o mais distante possível da dela.
Contudo, Murphy era um cara bastante sábio e estava muito certo quando disse que, se uma coisa pode dar errado, ela dará. As mesas dos dois não eram realmente próximas, mas ela e Sam foram parados por fotógrafos, dentre os quais os seus próprios subordinados na TVZoom, no mesmo momento em que o Sr. Hudson era chamado para uma série de entrevistas, o que foi mais do que suficiente para que os dois se vissem, e se sentissem mal pelo resto da noite.
Finn sabia muito bem o que era se sentir triste por causa de Rachel, mas aquela noite trouxe uma sensação nova, que ele preferia que tivesse continuado totalmente desconhecida para sempre. É claro que ele já havia sentido ciúmes antes, inclusive no dia em que os dois haviam sido interrompidos pela ligação do namorado dela. Porém, ele jamais tinha visto sua pequena com outra pessoa, e ver era realmente muito, muito pior que apenas saber que ela tinha alguém.
Foi impossível prestar atenção de verdade à entrega dos prêmios. Hudson funcionou no automático a noite toda, batendo palmas quando as pessoas em volta batiam, rindo quando elas riam, fingindo interesse, como podia, naquilo que acontecia no palco.
Logo que a apresentação se encerrou, ele se despediu de algumas pessoas mais próximas e foi direto para casa, onde chorou como criança, pedindo a Deus que, por favor, fosse piedoso e tirasse aquele sentimento de dentro dele. Infelizmente, Rachel, que também precisou se esforçar para ouvir o que apresentadores e premiados diziam, não teve a mesma sorte, e foi arrastada para uma festa, durante a qual usou habilidades artísticas que sequer sabia que tinha, para fingir que estava tudo bem, e muitas doses de bebida forte para afogar a tristeza.
Tanto naquela noite, quanto nos próximos dias, apesar da presença do namorado, Rachel só conseguia pensar em Finn. Mesmo durante o sábado que os dois passaram com a mãe dele em San Diego, na casa onde ele tinha vivido com a, então, Sra. Evans, por alguns anos, ela lembrava do outro rapaz o tempo todo e isso lhe fazia sentir, além de triste, extremamente culpada.
Enquanto a agora Sra. Dumont falava sobre seu desejo em ver os filhos se casando e em ajudar a criar seus netos, Rachel ia ficando cada vez mais desconfortável, e se dando conta, progressivamente, de que não se encaixava na história que a bela senhora estava idealizando, e que fazia o filho dela sorrir de orelha a orelha, e balançar a cabeça, concordando com tudo.
Berry estava exausta, quando eles chegaram de sua viagem de volta a Los Angeles. Há muito tempo não sentia um cansaço tão grande como aquele. Tudo que queria era tomar um bom banho, pedir uma refeição em um restaurante próximo, comer rapidamente e dormir até o dia seguinte, sem interrupções, apesar de não ser ainda nem oito horas da noite.
"Rachel, babe... eu tenho uma surpresa... um jantar especial, preparado pra gente." Sam afirmou, enquanto ela secava o cabelo com uma toalha.
"Sam, desculpa, mas... será que a gente não pode deixar isso pra amanhã? Eu não queria sair de novo... eu to tão cansada." Ela não queria ser rude, mas a última coisa que ela gostaria era de se arrumar toda, ir para um restaurante chique e continuar fingindo que tudo estava em ordem.
"Nós vamos jantar aqui mesmo." Ele explicou. "Eu pedi que a sua funcionária organizasse tudo. Só veste algo confortável e me encontra na sala, ok?" Pediu, dando um beijo no rosto dela.
Minutos depois, a morena chegou à sala da sua própria casa e encontrou o jantar servido para dois, em uma mesa arrumada como se fosse dia de festa, e o cômodo iluminado apenas por duas velas. Sam tinha feito uma seleção de músicas dos Beatles, que tocaram baixinho enquanto eles desfrutaram de uma comida deliciosa e conversavam trivialidades, por mais ou menos meia hora.
"Eu adorei nosso jantar... o fundo musical, as velas..." Rachel sorriu, mas sentia como se algo não se encaixasse também no comportamento dele. "...mas por que tudo isso, Sam?" Perguntou, delicadamente. "Você nunca fez isso, antes. Nada disso é muito a sua cara."
"Eu achei que era adequado."
"Adequado?" Franziu a testa.
"É." Ele riu. "Eu achei que seria adequado ser um pouco romântico essa noite... considerando o que eu tenho pra te dar." Ela sentiu um frio na espinha, quando ele enfiou a mão no bolso da calça e tirou uma pequena caixa muito característica. "Acho que já é hora de começarmos a planejar tudo para que você seja, finalmente, a Sra. Evans, babe. Preparada?" Brincou.
Rachel pensou em como aquilo era irônico. Era uma ironia do destino que ele estivesse fazendo aquela pergunta justamente naquele momento! Meses antes, talvez até dias antes, ela teria dito sim, sem hesitar. Aquele teria sido o rumo perfeito para a relação deles, casar com Sam teria parecido a coisa certa, a coisa perfeita a se fazer.
Agora, todavia, não. Agora, parecia errado... era errado! Ela não poderia fazer isso consigo mesma ou com Sam. Se ela dissesse sim, ela estaria dando um passo sem chance de retorno, ou pelo menos sem chance de retornar sem provocar danos mais graves.
Ele não merecia ser um prêmio de consolação, um step, um refil. Merecia se casar com uma garota que quisesse ser mulher dele e de mais ninguém.
Ela, por sua vez, merecia ter a chance de ficar sozinha para, quem sabe, conhecer alguém, além de Finn, que fizesse o mundo dela virar de cabeça para baixo de um jeito bom. Não tinha nem vinte e sete anos ainda! Não era justo desistir de amar e, simplesmente, escolher o caminho seguro.
Sam exibiu o conteúdo da caixinha azul da Tiffany, um anel de noivado em platina e diamantes lindíssimo, que encantaria qualquer mulher, mesmo que não houvesse qualquer "mise-em-scéne" envolvida em sua entrega. Entretanto, não se tratava de usar um belo anel, mas de assumir um compromisso.
"Me perdoa, Sam. Me perdoa, mesmo... mas eu não posso. Eu... não posso aceitar." Afirmou, engolindo seco e fechando os olhos, com medo da reação dele.
"Como assim não pode aceitar?" Ele riu de puro nervosismo. "Nós estamos juntos há mais de dois anos... morávamos juntos em Londres. Esse pedido de casamento foi mais um ritual de passagem, pra oficializar os meus planos de voltar pros Estados Unidos e viver com você aqui e..."
"Não, Sam. Você não pode voltar pra cá por minha causa... deixar Londres pra se casar comigo... eu... não posso me casar com você, Sam!" Repetiu séria, olhando nos olhos dele. "A gente começou a namorar porque você é lindo, bem sucedido, espirituoso, inteligente... uma garota não tem como não gostar de estar perto de você! Aí vieram os 'Deixa uma roupa aqui pro final de semana', 'Traz o seu aparelho de barbear pra cá', 'Eu comprei uma escova de dentes pra você'... e acabou sendo natural a gente morar junto, entende?"
"E qual é o problema disso?" Questionou, confuso.
"O problema é que pareceu tão óbvio que nós éramos a escolha certa um pro outro, que a gente nunca parou pra pensar que, por exemplo, a gente nunca disse 'eu te amo' um pro outro." Respirou fundo. "A gente não se ama, Sam."
"Que idiotice é essa, Rachel? São dois anos! É claro que eu amo você."
"Ok, a gente se ama. A gente se ama como amigos... como irmãos..." Parou, vendo o olhar dele, que indicava a estupidez do que ela tinha acabado de dizer. Irmãos não fazem sexo e isso era algo que eles tinham feito com frequência. "Tudo bem, não irmãos." Fez um gesto impaciente. "Vamos dizer que a gente se ama como um casal... só que a gente pulou todas as etapas e começou por aquele estágio em que os casais já tiveram e já criaram filhos... estão fazendo tipo bodas de prata ou sei lá o que." Deu um suspiro cheio de lamento. "Nós nunca fomos apaixonados, Sam."
"Que história é essa de paixão agora, Rach?" Ele questionou, irritado. "Você nunca se preocupou com esse tipo de coisa! Você sempre foi uma mulher moderna, prática, objetiva. Percebeu que nós éramos a melhor opção um pro outro e investiu suas fichas, assim como eu... simples assim."
"Eu sou uma mulher! Eu posso ser uma mulher moderna... prática e objetiva, mas eu ainda sou uma MULHER, Sam Evans. E uma mulher... ela nunca está satisfeita de verdade só com a melhor opção, entende?"
"Eu sou um homem, Srta. Berry!" Debochou. "Eu não entendo." Ele a olhou e ela não disse mais nada, apenas demonstrou, com o olhar, que lamentava profundamente.
Ele jogou em cima da mesa o guardanapo de pano que estivera em seu colo durante o jantar e saiu da sala, entrando no quarto e fechando a porta atrás de si, para ter alguma privacidade, mas sem estardalhaço, sem nenhum gesto furioso.
Ele tinha como certo que ela aceitaria seu pedido de casamento e aquela reação era um balde de água fria, uma surpresa indesejada, sobre a qual ele precisava pensar. No entanto, ele não conseguia sentir raiva, porque ela lhe lançara um olhar envergonhado que ele conhecia bem, que ele sabia ser verdadeiro.
Ela estava sendo sincera sobre seus sentimentos, sobre precisar de um pouco mais do que segurança, estabilidade e conforto para ser realmente feliz, e a parte dele que se importava com ela, depois de alguns minutos de briga, acabou vencendo a parte que se preocupava com seu ego ferido.
"Rachel?" Ele chamou por ela, ao entrar na sala e vê-la sentada no sofá, iluminada apenas por um abajur. Ela chorava, o que era uma novidade completa para ele e, se ele já não estivesse convencido de que ela tinha suas razões para recusá-lo, a expressão dolorida dela o levaria para esta direção, com toda a certeza.
"Sam." Ela respondeu, com a voz bem pequena, enquanto ele ocupava o lugar a seu lado no sofá.
"Você tem certeza que é isso que você quer, Rachel?" Preferiu se certificar.
"Tenho." Ela balançou a cabeça e suspirou. "Casamento é uma decisão muito importante... e a verdade é que nós nos amamos muito, vamos nos amar pra sempre... mas não da maneira como deve ser."
"Eu não vou te dizer que eu entendo completamente ainda... mas, como um bom amigo, eu respeito." Sorriu e segurou uma das mãos dela, apertando-a levemente. "E eu juro que vou até torcer pra esse cara que você conheceu estar apaixonado por você também... e vocês serem felizes." Riu.
"Que... cara?" Ele fez uma careta. Não podia ser sério que ela ia tentar negar a ele que estava apaixonada por alguém! "Ok... tem um cara... mas é... MUITO complicado!"
"Você é Rachel Berry, hum? Nada é complicado demais!" Sorriu e ela sorriu de volta. "Eu vou fazer as malas e passar pro quarto de hóspedes." Informou, se levantando. "Amanhã você me leva pro aeroporto? Não quero perder mais tempo aqui, não. Tenho que encontrar algum dedo lá em Londres em que caiba essa aliança cara pra caramba!" Brincou, tentando descontrair o ambiente ainda um pouco carregado, afinal era uma relação que terminava.
Por volta das dez horas da manhã do dia seguinte, Rachel acompanhou o ex mais compreensivo de todos os tempos até um portão de embarque do LAX, quando um voo para a Inglaterra foi anunciado, dando-lhe um abraço apertado e fazendo com que ele prometesse convidá-la para seu futuro casamento.
Seguiu para o trabalho e teve um dia normal e um começo de semana normal, sem que pudesse sequer passar pela sua cabeça o quanto ela terminaria completamente fora da normalidade.
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