A Chave Para O Coração
14 Capítulo 14
Era uma cena tão familiar! Seus lábios se devorando, suas línguas se experimentando, os dedos dele correndo pelos cabelos dela, segurando-a firme para mantê-la perto, as mãos dela deslizando pelos músculos dos braços dele, apertando-os um pouco, e mais a cada segundo. Era uma sensação tão conhecida a do coração acelerando sem controle, dos pelos se arrepiando, da pele se aquecendo, do corpo estremecendo todo por dentro.
Ao mesmo tempo era tão estranho aquilo acontecendo de novo, depois de tanto tempo, depois de tantos anos! Era tão estranho que parecesse bom, certo, necessário, essencial, quando qualquer dado racional que os dois escolhessem levar em conta diria, certamente, que era errado, ruim, precipitado, uma atitude com potencial para o desastre absoluto.
O fato de ela estar usando um vestido simples de algodão, que deixava suas torneadas pernas e seu belo colo à mostra, e de ele estar todo despojado em uma camiseta branca de gola V e jeans de lavagem clara não havia ajudado em nada na tentativa dos dois de se manterem conscientes na presença um do outro. O aroma do creme hidratante de framboesa da Victoria Secret exalado por ela e o cheiro de banho recém tomado que vinha dele, lembrando bem mais o Finn com quem ela tinha convivido quando era mais jovem do que o milionário perfumado com Boss que a beijara dias antes, também não estavam ajudando os dois a recobrarem a razão.
Não que ela não o desejasse enormemente como ele era agora, com suas roupas e perfume caros e elegantes, com os fios brancos que começavam a aparecer em seus cabelos, ou que ele não se sentisse atraído pela mulher que ela havia se tornado, mais sensual e confiante ainda do que já era quando mais nova, espetacular sobre altíssimos saltos e roupas cheias de estilo. Porém qualquer coisa que remetesse minimamente à parte boa das lembranças do passado intensificava o desejo e diminuía as chances de resistência, consideravelmente.
Então, nublado o pensamento, camufladas as condições, esquecido o mundo, seus toques se tornaram mais intensos, mais ansiosos. Finn a puxou e Rachel sentou-se no colo dele, com uma perna de cada lado das suas, sem que os dois deixassem de se beijar por um momento sequer. Enquanto suas bocas continuavam aproveitando ao máximo aquele novo encontro, uma das mãos dele permanecia agarrando-a pela nuca e bagunçando seus cabelos macios, enquanto com o braço livre ele envolvia o corpo dela, puxando-o para mais perto do seu. Ela, por sua vez, passava as unhas, delicadamente, pelo pescoço dele e pelos ombros cobertos por malha fina.
Os dois se separaram, ofegantes, e se sentiram igualmente poderosos ao detectar a intensidade presente no olhar do outro. Ele começou a beijar atrás da orelha dela, ao longo da mandíbula, do pescoço, do colo, e a acariciar esses mesmos lugares com a pontinha do nariz, aproveitando para embriagar-se do cheiro delicioso dela, enquanto as mãos dela procuravam novos músculos para explorar, dentro da camiseta dele.
Os toques de Berry encorajaram Hudson a ir em busca também o contato com novas partes do corpo dela, deslizando suas mãos pelas coxas e costas nuas, e pelos seios cobertos da morena. Através do vestido, ele sentiu como os mamilos dela reagirem à sua provocação sutil, enrijecendo-se, mostrando-se, parecendo pedir por mais.
Não demorou muito tempo para que ele estivesse usando apenas sua calça jeans e, enquanto suas bocas assaltavam uma à outra novamente, sem pudores, deslizasse suas mãos pela barriga e pelo bumbum dela, por dentro do vestido, quase se livrando deste também. A pele dela queimava sob o toque dele e os dois se maravilhavam com o familiar som dos pequenos, mas cada vez mais frequentes, gemidos que ambos emitiam.
De repente, no entanto, como se enviada de um universo alternativo qualquer, a canção Here comes the Sun, dos Beatles, começou a tocar. O som vinha, na verdade, de bem perto, do Iphone que Rachel deixara, minutos antes, sobre a mesinha de centro que havia em frente ao sofá onde eles estavam. Mesmo assim, foram necessários alguns segundos para que os dois se dessem conta de que se tratava de um toque de celular e saíssem da espécie de transe sensual em que se encontravam.
Os dois pararam lentamente de se beijar e ficaram se olhando por alguns segundos, como se não quisessem encarar o fato de que tinham sido bruscamente interrompidos, mas, no fundo, soubessem que seria inevitável lidar com a inesperada interferência. Rachel permaneceu, ainda, no colo de Finn, mas eles se afastaram um pouco e tiraram as mãos um do corpo do outro.
"Esse toque de celular... é do seu namorado, não é?" Finn perguntou, relutante, e Rachel balançou a cabeça, respondendo positivamente. "É melhor você atender." Ele afirmou, sério, e ela não o questionou, saindo imediatamente de seu colo, sem jeito. O tom dele não era de irritação, mas de quem se mostra compreensivo, o que, de certo modo, a incomodou mais do que se ele tivesse bufado ou gritado de frustração naquele momento.
Enquanto ela alcançava o celular, ele resgatava a camiseta que havia sido jogada no chão e a vestia, observando-a.
"Eu... prefiro ligar pra ele depois." Ela afirmou, fazendo o aparelho ficar mudo. Não tinha condições de falar com Sam na frente de Finn, muito menos depois do que eles estiveram fazendo nos últimos minutos.
"De qualquer forma, é melhor eu ir embora." Ele observou, já se levantando, tomando um bom gole de uísque e se dirigindo para a saída, enquanto ela somente o olhava, sentindo-se incapaz de falar.
"Finn." Finalmente conseguiu dizer, quando ele colocou uma das mãos na maçaneta da porta do apartamento. "Eu sinto muito, de verdade." Sua voz era doce e ela soava sincera. "Eu quero que você saiba que tudo que eu te falei, naquela noite, sobre você ser só mais um cara charmoso e sedutor, e eu estar bêbada e carente... sobre não ter nenhuma atração em especial por você... foi uma grande bobagem! Eu me sinto tão atraída por você quanto eu sempre me senti. Você faz o meu corpo reagir de maneiras que eu só conheci com você." Respirou fundo. "Eu queria poder pedir pra você ficar..."
"Mas você tem um namorado, que você provavelmente ama..." Continuou adotando um tom resignado.
"Não tem a ver só com o Sam, Finn, mas com o fato de que eu me sinto mal por estar agindo pelas costas de uma pessoa que não merece... e, se eu transasse com você, eu iria me sentir pior ainda... eu... eu estaria indo contra convicções minhas, valores..."
"Eu entendo, Rachel. Na verdade, eu fico aliviado que nós tenhamos sido interrompidos. A gente ia passar momentos maravilhosos juntos, essa noite, com certeza... mas ia ser só isso e depois a gente ia se arrepender e... tudo ia ficar ainda mais estranho do que já é." Sentenciou.
Rachel concordou apenas com um gesto e Finn abriu a porta, desejando boa noite e sumindo para dentro do elevador. Ela sentiu lágrimas rolarem por seu rosto imediatamente, sem saber que ele também chorava a caminho da saída do edifício. Ambos foram para a cama, naquela noite, sentindo como se tivessem novamente perdido um ao outro, apesar de saberem muito bem que não eram um do outro, para que isso pudesse estar efetivamente acontecendo.
A garota só telefonou para o namorado no dia seguinte quando, então, ficou sabendo que, um dia depois, ele finalmente chegaria a Los Angeles. Ficou combinado que ela buscaria o rapaz, bem como suas gatinhas que estavam vindo morar com ela nos Estados Unidos, no aeroporto, às sete horas da noite de quarta-feira, e que depois eles iriam jantar na casa de um casal de amigos dele, que ela ainda não conhecia.
Chegado o momento, a garota recebeu o namorado com grande entusiasmo, afinal ele era uma das pessoas mais importantes da vida dela, um grande companheiro, um cúmplice, com quem ela tinha uma história relativamente longa, por quem ela tinha muito carinho e afeto. Não havia, no entanto, em seu peito, a ansiedade que se espera de uma namorada que aguarda a chegada do namorado que não vê há meses. No lugar dela, existia na verdade uma grande culpa por ter ficado com outra pessoa, e por não se sentir realmente arrependida do que fizera. Não em seu coração!
Dentro do carro a caminho de casa, enquanto se arrumavam no quarto, observando a bagunça das três gatas novamente reunidas, indo para a residência dos amigos dele e também durante o jantar, Rachel se divertiu bastante. Sam era sempre capaz de fazê-la rir e gargalhava como ninguém quando era ela quem fazia graça, as conversas entre eles eram sempre longas e fáceis, e ele era gentil, atencioso e cuidadoso, quando estava por perto.
Rachel tinha tido vários namorados, ao longo dos anos passados em Londres, nunca tinha ficado realmente muito tempo sozinha. Sam, contudo, havia sido o único com quem pensara em construir um futuro, formar uma família, ter filhos. Era o único que conhecia a verdadeira Rachel, que sabia o que ela pensava sobre as coisas, quais eram os seus desejos e medos, ainda que, mesmo para ele, ela nunca tenha tido coragem de falar sobre Finn.
Com o primeiro namorado londrino, Joe, presidente do Centro Acadêmico da Faculdade, ela tinha ficado apenas alguns meses, durante a fase em que adotara um estilo hippie, terminando o namoro no mesmo momento em que decidiu parar de fumar maconha, depois de quase ter sido pega com cigarros de baseado dentro do campus universitário, o que só não ocorreu graças a um aviso da colega de turma Mercedes, de quem se tornou, então, amiga.
Depois veio Jesse, um veterano do curso dela, que a ajudou bastante com os estudos e a apresentou a pessoas realmente interessantes profissionalmente, mas que queria controlar tudo, desde a roupa que ela vestia, passando pelos lugares que eles frequentavam, e culminando nos amigos que ela deveria cultivar. Depois de pouco mais de um ano, a gota d'água que levou ao fim do relacionamento foi a tentativa dele de afastá-la de Mercedes, a única pessoa com quem ela era verdadeira o tempo todo.
Vieram, então, Paul, Bob e George, muito diferentes uns dos outros, mas todos típicos ingleses, cheios de formalidades, que acabaram se tornando muito chatos e cansativos quando ela os conheceu melhor. Depois, conheceu Jean-Pierre, com quem se relacionou por quase tanto tempo quanto viveu na França, fazendo um curso, e, imediatamente antes de Sam, o irlandês Rory, que terminou com ela apenas porque queria retornar a seu país. Nenhum muito importante, nenhum muito excitante, tudo muito tranquilo, confortável e conveniente, até que deixasse de ser.
Sam sempre fora diferente dos outros. Ele era alguém que, finalmente, ela pensara que tinha as características certas para um marido. Ele era o único namorado com quem ela jamais se sentira usando ou sendo usada para algum propósito e, perto dele, ela deixava caírem grande parte de suas barreiras. Ele era importante para ela, ela confiava nele, se preocupava com ele e sabia que ele se importava de verdade com ela também. Entre eles, nunca existira uma relação interesseira ou conveniente, mas uma relação de muito amor.
No entanto, naquele momento, naquela madrugada de quarta para quinta-feira, quando eles voltaram de um agradável encontro com um casal inglês estabelecido nos Estados Unidos, e se deitaram juntos na cama em que ela vinha dormindo sozinha, tudo pareceu estranho. Sam ficou, de repente, muito parecido com alguém como Mercedes, só que do sexo masculino e com o status de namorado. Sam se parecia mais com um amigo. Um amigo que não sabia que ela tinha redescoberto o que é se sentir atraída, de verdade, por alguém. O que é sentir desejo em sua mais perfeita forma, como é viver uma paixão avassaladora!
Rachel não conseguiu evitar a aproximação de Sam e os dois fizeram sexo, naquela madrugada. Entretanto, ela não conseguia parar de pensar em Finn e sabia muito bem que era ele quem ela queria em sua cama, sobre seu corpo, beijando sua boca, invadindo sua intimidade e fazendo com que sentisse prazer. Era inegável que ela amava Sam, que eles tinham uma história bonita, mas também era impossível esconder de si mesma que sua grande paixão, o amor de sua vida não era ele e nunca seria.
Aquela, porém, era uma revelação triste, afinal ela não teria Finn a seu lado nunca mais. A chance deles havia passado e, apesar de seu amor por ele e do desejo dos dois, havia mágoa demais para ser ignorada. O que ela precisava era reestabelecer o seu vínculo com Sam, de alguma forma, juntar os próprios cacos e seguir sua vida com ele. Afinal, não devia ser tão ruim assim compartilhar a vida com um amigo, construir uma família pautada em respeito, carinho, cumplicidade, zelo, em projetos que as duas pessoas tem em comum.
Ela precisava retomar a estrada que seguia antes de Finn reaparecer. Só não sabia como, mas talvez uma boa noite de sono fosse capaz de ajudar.
Notas finais
Bjos!
Fale com o autor