A Caverna
1 3 de agosto, 14h33min
Notas iniciais
3 de agosto, Dawson — CANADÁ
O verão estava em seus plenos 32ºC. Sam tinha 14 anos nessa época, cabelos castanhos, bem branco, e vivia bem, até. Morava num casarão com seus pais e sua lúcida avó de parte de mãe. Seu quintal era um enorme bosque como a grande maioria das casas do estado. A dez metros exatamente medidos de distância estava sua casa na árvore que ficava quase oculta pelas árvores, e era lá que passava a maior parte do tempo com seus amigos, e as vezes sozinho lendo revistas que seu pai dava escondido para si, coisa de adolescente em sua idade.
Possuía o costume de chegar em casa, comer o almoço feito por sua avó e sem demora ia a casa na árvore ao qual ficava o resto da tarde, seja rabiscando, lendo, ou jogando. Pensava no que faria, até que fora interrompido por seus olhos atentos e viu uma trilha que de formava a volta da casa da árvore como se algo tivesse ficado a espreita durante a noite, e levado pela curiosidade decidiu seguir os rastros deixados pelo visitante noturno. Pegou uma mochila na casa-na-árvore e colocou o que provavelmente precisaria: garrafa d'água, binóculos, comida bem fechada pra não atrair nada, um livro que ganhara mais novo com pegadas e fotos de vários animais nativos, guardou no bolso o celular e a discreta lanterna que sempre tinha consigo.
E mais ou menos pronto, saiu andando em busca de encontrar o dono daquelas marcas.
Tinha uma bússola no bolso para saber o caminho de volta, e após longos minutos de caminhada a trilha acabava ao fim das folhas secas e arbustos, dando início a uma caverna, de entrada baixa, quase escondida devido as árvores a sua volta. Pela mínima noção de perigo que tinha, resolvia não entrar nela, mas não era isso que o destino lhe guardava, pois quando se virou para voltar pelo mesmo caminho, parou imediatamente porque só percebia agora que estava tudo quieto, quieto até demais. Buscou localizar algo em movimento, mas apenas viu nada em uma imensidão de árvores e arbustos. A grama começou a fazer vários barulhos distintos, desincronizados demais para ser apenas uma brisa, e logo se revelava a sua frente um lobo corpulento de olhos amarelos profundos, . Ele o olhava diretamente sem mover um único músculo. Era um jogo de gato e rato, que logo se desequilibrou pela presença de outros lobos – uns dois ou três – que surgiam da mata densa e uniam-se ao alfa olhando a presa fácil, pequena, mas o bastante para aquele dia. David estava quase congelado de medo na pior hora possível.
Precisava fazer algo que o salvasse, e não algo que o tornasse uma refeição ainda mais fácil. Desistiu logo do jogo “mental” e se preparou para o que viria a seguir, e seu estopim foi a descarga de adrenalina que acelerou assustadoramente o coração do menino, que virou-se repentinamente e começou a correr na direção daquela caverna na maior velocidade que seu corpo poderia oferecer naquele efeito. Olhou para trás para tentar sentir o alívio de ver os lobos deixados para trás foi exatamente o contrário: Eles estavam a menos de uma cabeça de lhe morder as panturrilhas. E foi essa possibilidade que o fez soltar a mochila das costas e ganhou bons metros de vantagem com os animais famintos distraídos rasgando o tecido grosso em busca do cheiro de comida. Não parou de correr nem quando não via mais nada alí dentro, por ouvir o sapatear das unhas de apenas dos lobos atrás de si. Suava frio, estava pálido em meio a escuridão e em taquicardia devido ao pânico de segundos atrás. A bexiga estava agora apertava, causando um desconforto terrível em correr, e vencido por esse fato, buscou algum lugar mais seguro.
Ao menos conseguia ver algumas silhuetas, e conseguiu se enfiar entre estalactites estreitas até um canto da caverna onde seria inalcançável, ao menos para os lobos, afinal ainda era pequeno. Se manteve longe das paredes devido a goteiras constantes, e ficou escutando, imaginando o que acontecia no mundo escuro a sua volta. O lobo ofegava alto a procura de si, parava, voltava, andava e receava em prosseguir. Ouviu algo parecido com um urro, um calafrio correu sua espinha e aquilo ficou mais assustador logo que escutou o lobo correr para longe da caverna, deixando o menino tecnicamente sozinho ali dentro, o que não queria dizer que ele sairia dalí, sabia que os animais o esperariam na entrada da caverna.
Buscou nos bolsos fundos o celular, e pouco antes de o achar encontrou também sua lanterna. Suspirou aliviado e ligou o aparelho: ...Sem sinal. E já passavam das quatro e meia. Logo escureceria e era esperar e rezar que seus pais chegassem mais cedo em casa e fossem procurar por si.
Tentou ser positivo e pensar que a situação não pioraria, mas novamente o pessimismo o machucava quando olhou para a direção da entrada da caverna e viu a luz alaranjada se esvaindo. Urinou em algum canto dalí e guiou-se para um afastado e que achava bem seguro, encolhendo-se com as pernas juntas ao corpo, e ficou assistindo em um silêncio fúnebre as luzes desaparecendo pouco a pouco bem a sua frente. Foi a última coisa que viu antes de apagar, como se a adrenalina passasse e o corpo não aguentasse tudo isso.
Mas era só o começo.
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