A Caverna

2 3 de agosto, 20h17min


3 de agosto, Caverna sem-nome

Os pesadelos assolaram a pobre e frágil alma do garoto até que foi tirado de seu sofrimento por uma grossa gota d’água que caíra da estalagmite pouco mais do que três metros de sua cabeça. Suspendeu a face balançando os curtos cabelos e olhou em volta em um pânico momentâneo por nada ver. Nem um único feixe de luz, nem uma única silhueta das rochas que estavam a sua frente. Mal acordara e o coração já palpitava, as mãos começavam a tremer na segurança de suas pernas aos quais segurava fortemente. Já doía e soltou-se com uma lentidão calculada, buscando sem ironicamente sem pressa a lanterna que estava ao lado de seu corpo junto do celular. Travou o corpo por ouvir estalidos, talvez algum cervo tivesse se abrigado ali, é, um pequeno e frágil cervo.

Acendeu a lanterna logo que conseguira achar o botão próximo ao topo dela e direcionou a mesma para a própria perna, desencorajado de movimentá-la em qualquer direção por receio do que haveria ali. A possibilidade de serem seus pais o procurando foi a força que precisou para levantar-se do chão molhado. Pegou o celular e o colocou de volta no bolso, porque se saísse dali poderia ligar para seus pais e dar fim aquela história. Ergueu a fonte de luz amarelada e buscou pela saída, desorientado parando só ao ver uma silhueta peluda próxima de onde estava.

Tinha pelos grossos e compridos, sujos de esterco dos morcegos que moravam bem no fundo da caverna. Procurou por sua cabeça, porém o que achou primeiro foi traseiro baixo com uma cauda curta e enrolada. O movimento do animal de grande porte o fez seguir em rumo direto a sua cabeça, mas tudo o que via era uma massa de gordura e músculos com um focinho comprido indicando um faro excepcional. Recuou um passo sem saber do que aquilo se tratava, e esquecido da poça d’água que lhe fizera companhia durante a noite pisou nela com todo o medo que sentira e o monstro, se é que podia chamar aquilo assim olhou diretamente para si. Os olhos eram muito pequenos, as orelhas finas e erguidas estavam direcionadas para si e ele começava a salivar. Fedia. Só agora sentia o cheiro de esterco e carne podre que aquele animal exalava.

Já sabia onde aqueles encarares levariam e não seria novamente fruto de um jogo de gato e rato. Simplesmente soltou sua fonte de luz de bateria de longa duração em qualquer canto e correu às cegas, escutando os cascos gastos vindo atrás de si em uma alta velocidade. Chocava-se em pedras mas usava disso para empurrar-se e puxar-se para direções diferentes, sabendo que por seu grande tamanho a criatura também não tinha muitas vantagens nas estactites.Pisou em falso inúmeras vezes até que uma hora a gravidade atuou contra seu corpo frágil e em um vão considerável o corpo do menor pendia sem quaisquer meio de segurar-se, indo declive abaixo ao encontro de uma pequena poça d’água. Rolou por alguns segundos antes de se dar conta que já estático, a criatura o perdera.

Os rosnados coléricos afastaram-se gradativamente para o fundo da caverna até finalmente o silêncio perturbador fazer-se ali. Podia ter saído da água, podia ter saído da cova e usado a luz do celular para se guiar a outro canto mas não se moveu. O choque causava tremores, os olhos estavam bem abertos, a respiração quase não acontecia. As mãos estavam paradas se segurando firmemente no-que-quer-que-fosse e apertou aquilo cada vez mais quando o choque começou a passar. Os punhos doíam e logo o corpo inteiro mostrava resultados da fuga. Pendeu a cabeça sobre o fundo daquele projeto de poça d’água e começou a chorar esvaindo tudo o que acabara de ver e todo o pânico naquele breve momento. Balançou a cabeça tentando voltar ao autocontrole, engoliu as próprias lágrimas e tocou no bolso. “Graças a Deus”, pensava ao sentir o celular ali dentro. Confirmou que a água não havia o acertado e começou a engatinhar na escuridão, colado à parede que era sua única segurança, e foi até o primeiro vão que apenas o garoto passava e enfiou-se ali, sentando o máximo encolhido possível. Novamente baixava a face sobre os joelhos e começava a rezar repetidas vezes em sua mente, desejando do fundo da alma acordar de tudo aquilo.

Notas finais
Want More?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.