Notas iniciais
Finalmente eu de volta mais uma vez. Gomen por toda a demora e isso realmente me irrita também, mas essa fase passa. Agosto tamos aí mais fortes ok? Espero que gostem do capítulo! Boa Leitura!

-M-Mil N-Novecentos e V-Vinte Nove...

O loiro tremia dos pés a cabeça quase desistindo de falar alto. Cada pergunta parecia arrancar um pedaço de seu cérebro e o Kagamine já nem tinha forças pra ficar de pé. Todos os olhares estavam em si, havia muita pressão e uma concentração brutal e sombria da professora de História e sua ajudante.

Len estava a ponto de chorar. A sala em silêncio observando sua prova oral que tinha começado há meia-hora.

Aria ao fundo ao mesmo tempo que torcia pelo loiro também sentia vontade rir. Os ombros de Len estavam tensos demais e sua voz normalmente aguda afinava ainda mais se tornando um fio nervoso que demonstrava toda sua fragilidade. Que dó.

Uma pessoa do outro lado da sala balançava a cabeça sem estar satisfeita com a situação. A sala olhava de Len e da Professora Yuzuki para a figura rosada sentada ao fundo.

-Por que está aqui, Luki? -perguntava a albina para o rapaz de olhos azuis.

O mais velho deu de ombros, respondendo com a maior calma do mundo.

-Logo depois das atividades do Clube eu fui chamado pelo Len, no banheiro. Ele pediu por que a professora requisitou minha presença. Só isso.

Os olhos azuis de Len engordaram, assustado com o rosto que a ajudante, Mayu, fazia para si. Aquela baixinha tinha algo muito errado; naquele olhar; naquelas roupas; naquele coelho de pelúcia que segurava...

“POR QUE ELA TEM UM MICROFONE DE COELHO DE PELÚCIA?!” Len se assustava cada vez mais vendo as mãos cobertas pelas roupas pretas fofinhas mexendo-se estranhamente pela superfície do boneco que apresentava no topo realmente um microfone (Vide imagens de Mayu pessoal, não é mentira ¬¬­­­). Aqueles olhinhos o fitando com doçura, mas ao mesmo tempo tão sombrios.

-LEN! -a voz da professora cortou sua atenção da menor. Mesmo sendo tão fofa na aparência a voz da professora era madura e agradável, mas mesmo assim, a pressão que Mayu causava era o pior.

-Ahhhh... Por favor, eu desisto! Não consigo mais. -Len infantilmente juntou as mãos e implorou pra professora com os olhos lacrimejando. DEFINITIVAMENTE era impossível sobreviver mais à Mayu ou mijaria ali mesmo, e isso não ia ser nada legal.

-Vamos, garoto, deixe de ser molenga!

-LEN, SEU IDIOTA! NÃO ME DEIXE MAL NA FRENTE DOS OUTROS E RESPONDA ESSAS MERDAS DE PERGUNTAS! -berrou o rosado muito irritado com o procedimento do amigo.

Len choramingou e pediu pra continuar. Enfrentar Mayu ou Luki? Nenhum dos dois era viável. Luki conseguia controlar a bêbada da namorada dele... A Meiko. Já era motivo suficiente para não resistir ao mais velho.

A tortura prosseguiu até o fim das aulas. Len já tinha molhado as roupas com tanto suor e seu nariz fungava numa luta pra não chorar. Mas ele tinha respondido tudo. Errou 9 de 50.

-Você foi otimamente bem, Len, não fique assim. -IA o tocava no ombro.

-E-Eu pensei que f-fosse morrer... -Len tremeu um pouco arrumando a mochila e sentando-se na carteira mal se preocupando com o fato de que iria perder a van.

-Len, vai se atrasar. -Luki tocou o cabelo dourado rapidamente antes de se virar e ir saindo.

-Talvez eu fique até mais tarde. -Len levantou-se na hora, acenando com a mão para Luki, a expressão um tanto séria.

Luki ergueu uma sobrancelha mostrando-se curioso, mas resolveu não perguntar. Apesar de tudo, Len tinha muitas formas de dizer que não estava a fim de falar sobre alguma coisa em especial e esse era um desses momentos. Len sorriu fraco e disse um “Sore jaa” enquanto Luki ia saindo, então se virou para a amiga. IA agora era uma companheira de sala inseparável, era sua única amiga “amiga” e não amiga “fã louca”.

Quando abriu os lábios para falar algo, ouviu a porta ser aberta, fazendo-o ficar confuso e virar-se pra trás pra ver um loiro de olhos dourados.

Não houve nenhuma fala por parte do rapaz na porta. Ele parecia estar ali por um único motivo e Len não teve tempo de chamá-lo de volta. Porque Nero ficou vermelho, desviou os olhos, juntando as sobrancelhas e fechou a porta saindo apressadamente.

-... Droga. -resmungou o Kagamine vendo que agora tinha mais um problema.

Normalmente ver uma pessoa sozinha com outra dentro de um lugar com a porta fechada é bem sugestivo. Não é? Len coçou a testa. “Não é como se eu tivesse que dar explicações pra alguém. Culpa do Luki... Por que ele fechou a porta?”

-Ah... Len-san, eu preciso ir agora. Qualquer coisa você tem meu celular agora. -ela sorriu graciosamente com aqueles olhos gordos e cristalinos brilhando docemente.

Len sorriu envergonhado. Por que aquele olhar era tão maternal?

“Maternal...” Len franziu os lábios sentindo-se internamente grato pelas meninas terem levado IA para o aeroporto para vê-lo. Estava contente por ter alguém tão compreensível como ela ao lado. Ela era o que ele queria como amiga fiel.

-Tudo bem. Eu vou com você até os portões. Vou ter que parar na Sala do Conselho Estudantil na volta e preciso falar com a minha irmã. -ele ajeitou a mochila no ombro e puxou-a pela mão sem muita força, não que tivesse tanto, mas estava com certeza mais forte.

A menina o seguiu, saindo os dois pelos corredores despreocupadamente, conversando sobre o primeiro dia no Clube de Música, o quanto a aula do Professor Yohio era boa.

Os dois entraram no corredor principal da entrada da escola, empurrando-se levemente enquanto discutiam agradavelmente, quando a figura baixa e conhecida apareceu novamente com uma carranca, mas sem a marca de Inspetor de Corredor no braço.

-Ei, ei! O que estão fazendo por aí cheio de sorrisinhos e intimidades numa escola vazia? -Lui lhes apontou o dedo acusador, o rosto meio avermelhado.

Antes que Len pudesse dizer algo, vindo detrás do menor, apareceu aquela ruiva outra vez, dando um salto e abraçando Len com tanto fervor que ele caiu de costas.

-RITSU! -Lui lhe deu um chute, fazendo ela cair distante. -Kagamine-kun, você está bem?! PERDOE-ME!

Len pôs a mão na cabeça e no estômago, sentindo a dor de perder o ar por um breve instante.

-Kamisama... -resmungou colocando a mão no pescoço.

-S-SUA IDIOTA! Você não tem consciência de que poderia tê-lo matado?! -Lui berrou com a ruiva vermelha e chorosa agora.

-D-Desculpa, Len, desculpa!! -ela reverenciou-se umas dez vezes antes de Len perguntar sem jeito.

-Quanto você pesa? Sem querer ofender... -Len arrumou a bolsa novamente.

-I-Isso... Isso não posso responder, eu nunca tive como pesar adequadamente de qualquer forma. -sussurrou a ruiva arrumando suas roupas e parecendo profundamente arrependida por agir sem pensar.

Len coçou a nuca. Namine Ritsu era um garoto que se travestia e tinha seios bem grandes e sensuais mesmo por implante, e agora, acima de tudo, devia ter um peso extraordinário, pois Len se sentiu esmagado por um elefante.

O Kagamine pediu desculpas por perguntar ao notar a falta de jeito da garota com o assunto. Aria parecia tão apavorada quanto, mas apenas respirou fundo.

-Lui-san. Você falou que a escola está vazia...

-Ah, hoje os alunos foram dispensados. À tarde vai ter uma visita do Colégio Kozakura. Inimigos declarados do Colégio Isahara. As competições das escolas vão ter início daqui uns meses e agora no início do ano ocorrem as visitas obrigatórias. Só vão estar presentes os clubes de esportes. -apontou Lui lembrando-se do que ouviu.

Len assentiu com a cabeça.

-E vocês vão ficar? -perguntou aos dois primos.

Lui e Ritsu se entreolharam. A ruiva sorriu maldosamente e Lui avermelhou um bocado.

-Bem, eu sou uma estudante do Colégio Kozakura! -ela sorriu apontando para si mesma.

-Ah... -Len *gota*.

-Eu só vou ficar porque a Diretora me colocou no lugar do cara que faz o tour. -Lui se encolheu ao dizer isso. Parecia um pouco bravo até.

-Sabe o que é, Len-kun? O Lui gosta dos meninos da minha escola... -segredou a ruiva passando um braço por cima do pescoço de Len, sussurrando ao ouvido.

O loiro assentiu, cuidando para que Aria não achasse estranha sua reação.

-Ah, entendi.

-ENTENDEU NADA! RITSU, PARE DE FICAR FALANDO BESTEIRAS! -o menor a agarrou no pulso e começou a arrastá-la pelo corredor. -Kagamine-kun, até mais! E nada de ficar perambulando por aí, vá pra casa!

-Você não é monitor agora, Lui! -Len falou alto com um sorriso. -Qualquer coisa converse comigo, tudo bem?

O senpai o fuzilou e deu um beliscão no braço da ruiva ao seu lado que ria constantemente. Corado como nunca, sentindo o restante de sua privacidade sendo completamente destruída com a invasão de Len, por intermédio de sua adorável prima.

-Você ainda me paga, Ritsu! -avisava enquanto sumiam pela porta dos fundos que ligava aos ginásios.

Len ainda riu baixinho. Voltando a caminhar com a albina, meio confusa.

-Seus amigos são bem legais. -ela sorriu.

-Isso incluí você IA. -ele sorriu gentilmente. -Você deve estar atrasada, me desculpe.

-Nada. Você ainda vai ficar por aqui?

Len negou com a cabeça. Não tinha muitos mais motivos, a não ser que ficasse somente para descobrir quem tanto fazia partes dos clubes. Talvez tivesse um conhecido, como Meito, por exemplo, que era um jogador exímio de futebol de salão.

-Eu ainda vou ir no Conselho Estudantil e no Clube de Música ver uns papéis. Depois vou pra casa.

Os dois alcançaram a escadaria e viram o pouco de gente que ainda faltava para ir embora. Len não avistou nenhum rosto conhecido, apenas a garota de óculos de corações distraída com um celular. Len se despediu com um beijo no rosto da menina e ela adentrou o próximo ônibus que apareceu.

O Kagamine respirou fundo, pensando se devia ou não, mas foi. Ao chegar na morena estrangeira, tocou-a levemente no ombro.

-Oi. -ela falou.

-Desculpe-me, você conhece Akita Nero? -Len piscou levemente, sendo casual.

A morena piscou de volta e fechou o celular, colocando os óculos de sol estranhos no alto da cabeça e abaixando-se um pouco para olhar Len melhor.

-Você. O que disse agora mesmo? Você falou estranho, não consegui entender.

Len sentiu uma interrogação estampar seu rosto. “Ela não entendeu?”

-Akita Nero. Conhece?

A morena piscou novamente.

-Nero? O que tem ele?

Len sentiu-se ficar irritado. Ele falava japonês! Por que ela não entendia? Resolveu perguntar em inglês.

-You know Nero? You know where he’s now? -perguntou mais arriscando do que outra coisa (Você conhece Nero? Você sabe onde ele está agora?)

A morena deu uma risada gostosa.

-Pare. Você fica pior falando inglês do que japonês, querido. Nero está lá dentro, ele está no Clube de Vôlei também. Me entendeu, baixinho? -a morena sorriu amigavelmente para Len, que só ficou vermelho por ela falar um japonês legível, apesar de estranho e ele não ser entendido por ela. Será que tinha sotaque do interior ou coisa assim?

-Desculpe por ter “falado estranho”. -falou, meio que irritado, meio que contente por ela ser simpática apesar dela ter zombado dele.

-Ah, eu vim da Espanha. Só pra você saber. -ela piscou pra ele com charme. -Sou a Clara. E você é o Kagamine Len que o Nero tanto fala, não é?

Len assentiu com a cabeça, assustado por ouvir isso da boca de alguém. Acenou com a mão, percebendo que estava tendo uns hábitos ocidentais desde que entrou na carreira de músico. Realmente era prático.

-Gracias. -ele arriscou dando meia volta e entrando no prédio.

Ele a deixou lá, rindo consigo mesma pelo jeito do shota que a abordou. Ele realmente era fofinho como Nero tanto falava.

xxx

Estar nos pensamentos de Nero até os dias atuais não era algo nos planos de Len. Ficar sabendo que o loiro falava dele não era algo que fazia bem para seu coração.

“Apesar de tudo, eu ainda gostava muito dele.” Len apertou os olhos antes de bater com dois toques a porta do Conselho Estudantil. A porta abriu, revelando a imagem pequena do Presidente.

-Kaichou*! Len juntou as mãos, contente por vê-lo ainda ali (*Presidente).

-Len-san! O que está fazendo aqui ainda? -o esverdeado deu espaço para o maior passar (se bem que Len poderia facilmente passar por cima do Presidente XP).

O loiro adentrou com um sorriso, lembrando-se da “gentileza” que era o terceiranista. Gacha, mesmo sendo irritado (não tanto quanto Lui), era adorável e não escondia muito bem o quanto era fofo.

-Eu vim ver os documentos que me faltam. Eu queria logo ter meu nome oficialmente no Clube de Música, e me disseram que precisa participar de dois clubes no mínimo para obter a nota semestral que conta na média das matérias. Então eu não tinha todos os formulários completos porque tenho dúvidas na hora de preenchê-los. Pode me ajudar? -Len perguntou meio envergonhado.

-O problema está nos formulários? Qual o problema? Você não sabe o nome do bairro, ou telefone?... -Gacha perguntou curioso se sentando na poltrona que o deixava na altura dos visitantes.

O esverdeado se mostrou prestativo logo de início na visão de Len. Claro, Gacha era extremamente atencioso para quem lhe prestava respeito e o único que o tinha tratado bem até o da anterior fora o Kagamine. Ele não perdeu tempo em aceitar o loiro como uma espécie de “amigo”.

-Não. O problema está na hora de marcar os pais... -Len apontou sem cerimônias.

-Como assim?

Len se apoiou em uma mão, colocando os formulários preenchidos e os em branco, apontando.

-Não sei quem são. Eu sou adotado, mas são como irmãos... Não sei se posso colocar um nome só ou dois.

Gacha abriu a boca sem sacar nadica de nada. Não entendia nada.

-Fale mais claramente. Ou melhor, responda minhas perguntas. Você é adotado oficialmente por duas pessoas?

-Sim e não.

Gacha bateu a mão no rosto (seu gordinho e fofo rosto). Ia ser mais difícil do que imaginava.

-Quais os nomes?

-Kamui Venomania Gackpo e Shion Kyte.

Gacha levantou a sobrancelha.

-Hã? Você foi adotado por um casal gay?

-Por isso que eu disse sim e não. Eles não são um casal. Eu sou adotado oficialmente, mas apenas por um deles.

Gacha segurou o riso. Agora entendia mais ou menos. “Não devia ter levado ao pé da letra, Len-san.”

-Então, quem te adotou?

-Gackpo.

-Então marque o nome dele como pai e o da mãe deixe em branco. Em seguida ponha a idade... Isso mesmo. -Gacha ia guiando o Kagamine todo atrapalhado enquanto preenchia os extensos formulários até a pesquisa econômica.

Com os humores bem melhores com a presença do Kagamine, Gacha sentiu que talvez fosse bom se mais pessoas como Len existissem. Inocentes e simpáticas.

Gacha observou o loiro lentamente, numa letra caprichada, ir escrevendo tudo o que dizia. Em alguns minutos com tudo terminado, os dois bateram os papéis, alguns sendo guardados, outros mantidos em mãos.

-Vamos lá, Len-san, no Clube de Música. Já resolvemos seus papéis lá e podemos aproveitar para te mostrar as salas dos outros clubes e passar nos ginásios. Para sua próxima escolha. -sorriu já se levantando.

-M-Mas hoje não é a visita do Colégio Kozakura? -perguntou com o nó do dedo sobre os lábios, pensativo.

-Não tem problema já que eu sou o Presidente. Vamos. -ele praticamente ordenou com um sorriso de neko :3 presunçoso e tomou a frente.

Len apertou a mão na mochila imaginando que inevitavelmente ia encontrar umas pessoas conhecidas. Nero estava entre elas. Com certeza.

“Se Kamisama é bom, não sei... Mas alguém me salve dessa, por favor!”

Os passos dos dois cobriram um espaço de quase metade do Colégio Isahara. A sala de Gacha ficava muito longe das salas dos clubes, separadas pelos jardins, em seguida os dois imensos pátios e finalmente os prédios de aulas, que eram divididos em 3 categorias: classes, clubes e laboratórios, sendo que cada categoria cobria uma quantidade de no mínimo 20 salas cada.

Len e Gacha iam sem pressa, em direção ao Clube de Música que era um dos últimos, do 3ºPrédio, nas salas acústicas.

O caminho todo foi feito sem ter nenhum sinal de outros alunos. Gacha tocou a maçaneta e pos a chave que tinha de reserva, girando.

-Are? -soltou um som de questionamento. Pareceu confuso.

-Gachan? Algum problema? Emperrou? -Len perguntou se aproximando.

Em vez de dizer algo, simplesmente abriu a porta.

-Tá destrancada... -o esverdeado adentrou, vendo o local escuro, como deveria estar. -Entre, Len-san.

-Por que está destrancada? -Len perguntou seguindo o pequeno senpai.

-Alguém deve ter entrado. Quem está aí, por favor, não me faça perder meu tempo procurando.

Len ficou atento, notando que o motivo de Gacha ter tanta certeza sobre isso era porque alguns instrumentos estavam bagunçados, como se alguém tivesse esbarrado e porque o Presidente simplesmente tinha ele próprio trancado as salas dos clubes ao fim das atividades.

Len e Gacha permaneceram parados, esperando uma resposta.

-Gachan, será que a pessoa não entrou aqui e saiu depois?

Gacha bufou, parecendo irritado e pediu ao Kagamine para que acendesse a luz. Obedecendo, o loiro começou a ajudar Gacha, arrumando todos os objetos desorganizados.

Len empurrou uma caixa cheia de pastas velhas para um canto onde se amontoavam as caixas de som grandes usadas nos eventos. Eram enormes.

Len invadiu um pouco mais atrás delas, ao lado tinham cadeiras de plástico brancas umas em cima das outras, olhando atrás das duas caixas grandes, onde se formava um escurão assustador e um cheiro de pó bem claro, o local ali iluminado apenas por uma fresta de luz vinda de uma brecha na parede de trás.

Len arregalou os olhos, vendo uma pessoa encolhida soltando sons quase inaudíveis. Len olhou pra trás, vendo Gacha ocupado com seus papéis do Clube, assinando-os e escrevendo uma mensagem para o Professor Representante, Roido Yohio e para a Vice, Yuzuki Yukari.

(Kiri: Eu precisava de um sobrenome para o Yohio. Como Yohioloid é temporário, eu resolvi fazer que nem Gackpoid: Gack+po= Gakupo, então modifiquei e peguei o nome “original” Yohio e o sobrenome ficou Roido de Loid. Mas sabem, o nome de verdade do voicer é Johio.)

Len abaixou-se um pouco, apertando-se entre as caixas que impediam a entrada ali e se agachou o suficiente.

-Ei. -sussurrou, assustando a pessoa, que levantou a cabeça num ímpeto e escondeu o rosto.

-V-Vai embora... -pediu uma voz chorosa.

Estava tão escuro que Len não conseguia ver, mas se assustou um pouco. A pessoa se encolheu mais ainda no escuro.

“Que reação anormal...”

-A gente vai te trancar aqui se você não sair agora. -Len falou, não com um tom ameaçador, mas tentando se fazer compreender. Sua mão tocou o braço da pessoa, que pareceu um menino e bem franzino.

Len olhou para Gacha.

-O que foi? Encontrou alguma coisa aí atrás? -o esverdeado sorriu debochadamente.

-N-Na verdade sim.

-Tudo bem. -Gacha suspirou indo até Len e tocando a barra de sua blusa, já que não alcançava o ombro do mais novo. Isso o irritava um pouco, parecia uma criança, mas Len não se importava. -Eu sei quem é, mas ele não fala comigo.

-Como você sabe quem é?

-Ele deixou a carteirinha escolar em cima da mesa. -disse mostrando zombeteiro. Len ficou com uma gota.

“Quer dizer que esse garoto apenas cometeu uma furada e deixou a carteirinha ali na mesa antes de se esconder?”

-E por que não conversam? -Len pegou a carteirinha da mão pequena do senpai e soltou um “AH!!” incrédulo. -LUI?!! Lui, é você?

Len afastou as caixas rapidamente adentrando no escuro atrás das caixas e se aproximando do corpo do mais baixo encolhido.

-Que houve? Por que está aqui? Há pouco tempo mesmo você estava com a Ritsu. -Len lhe tocou o ombro, mas recebeu um tapa na mão, o garoto o afastando toda vez que se aproximava, com a oz embargada demais para falar.

-S-Sai, L-Len... -Lui fungou colocando as mãos nos ombros de Len para longe.

-Eu só quero saber por que está assim. -Len tocou a mão nas do senpai, mãos ainda menores que as suas, mas não tanto quanto as de Gacha. Estava gelado.

-Len...

O moreno fungou novamente, não dava pra ver sua expressão. Len levantou uma mão, tocando a nuca do menor e o puxando, fazendo o rosto repousar em seu peito. Instantaneamente os braços finos envolveram suas costas e o Inspetor de Corredor começou a chorar copiosamente, com direito a gemidos doloridos e com lágrimas tão grossas que molharam toda a camisa de Len.

As mãos quentes do loiro acariciaram os fios castanhos claros, docemente, num gesto confortável, buscando acalmar seu amigo. Gacha voltou para a mesa.

-Deixo ele com você então.

-Hai. -Len falou baixo, sentando-se e apoiando Lui mais rente ao corpo somente para acomodá-lo o quanto tempo o mais velho desejasse.

Lui ficou ali sem dizer nada, envergonhado por abusar de Len dessa forma. Mas em um momento como esse quem poderia servir como amigo? Quem mais além do loiro? Antes era apenas ele e seu canto escuro atrás de caixas de sons e músicas fúnebres nos fones de ouvido.

Agora ele não tinha como fugir. Havia alguém ao seu lado que iria ouvir e saber o que fazer. Por isso suas mãos apertaram forte na camisa do uniforme, o único uniforme que Len tinha, e limpou o rosto na área do peito, acalentado por um cheiro maravilhoso e um amor fraternal livre e de graça. Com mãos tão carinhosas e um sorriso tão gentil, Lui engoliu os soluços e ficou apenas sentindo as sensações até perceber que o sono estava chegando.

-Ah... Desculpa. -se afastou devagar, ainda arrependido por não poder ter adormecido. Era simplesmente muito bom para ele estar ali. Mas Len não tinha todo o tempo do mundo.

-Ah, que isso! Você melhorou? -Len perguntou alegremente, vendo que o senpai tinha melhorado um pouco sua feição.

Lui avermelhou assentindo com a cabeça enquanto coçava o olho, secando as pálpebras. Em seguida foi se afastando, sentindo o calor se afastar também.

-Você é muito legal, Len-kun. -Lui falou baixo, segurando as mãos de Len. Ele sorriu levemente. -Tinha uma pessoa que era igual a você.

Len piscou os olhos apenas ouvindo. Para Lui agora tanto fazia se Gacha estava ouvindo logo atrás na mesa do professor, ele apenas queria dizer logo para o loiro algumas coisas que o perturbavam.

Todas as pessoas tem algo pra dizer, que estão tristes com algo ou com alguém. Sempre tem alguma coisa que elas vão guardar que elas precisam comentar com alguém. Mesmo que seja uma lembrança distante ou um recente acontecimento que a marcou muito. Os jovens têm muito disso, mas normalmente seus sentimentos são confusos demais para se deixaram abalar por muito tempo.

Apesar de tudo isso, Lui tinha algo que o atormentava desde sempre e por isso tinha que recorrer ao canto escuro. Não que ele fosse dramático, mas sempre sofreu demais por uma coisa tão pequena. Por que sua habilidade para superar era fraca. Ele era fraco nisso, pois nunca teve coragem de pedir apoio e ninguém nunca o ofereceu.

Len devia ter visto isso no momento em que o viu. Foi isso que Lui percebeu quando abriu os lábios pra dizer.

-Essa pessoa era muito amiga minha. Era uma menina muito bonita e que era como uma irmã mais velha. Eu sempre gostei dela. Gostava. Eu realmente queria me apaixonar por ela, mas eu não consegui.

Len ficou quieto. Mesmo que ele não entendesse bem, sentia que algo mais estava por trás daquelas palavras sem sentido.

-E ela gostava demais de mim também, mas não do mesmo jeito. Nós nos conhecíamos desde pequenos e começamos a namorar no sétimo ano do fundamental. Ela gostava de me fazer vestir as roupas delas e sabe, eu não me importava, eu até gostava. É esquisito né? -Lui começou a chorar de novo, enxugando as lágrimas.

Len tocou a mão do menor, segurando-a enquanto o fitava bem nos olhos castanho mel.

-E-Ela adorava colocar shorts e cosplays de meninas. Ela me fazia vestir até roupas íntimas de meninas. E mesmo assim eu gostava dela. Depois, no nono ano do fundamental, eu comecei a perceber que mesmo namorando eu não sentia nada por ela tão forte a ponto de eu querer beijá-la. Era estranho, eu sentia repulsa. Mas ela só foi perceber um dia quando ela m-me tocou... -Lui ficou ainda mais envergonhado e apertou tão forte a mão de Len que começou a doer.

Len apertou os olhos, sentindo cada palavra lhe soar familiar, mas mesmo assim apavorante.

-Ela me t-tocou... E eu empurrei ela. E-Empurrei com muita força... -Lui pôs a mão na boca. -Ela ficou tão irritada que me deu um tapa. Depois falou que terminou, que eu não gostava dela. Que eu era estranho na hora de nos beijarmos. Ela disse que eu era gay. Ela disse que nós não tínhamos mais nada e depois arrancou a minha roupa e tirou uma foto. Eu não consegui me proteger dela, ela era muito forte pra mim. Ela ficou tão brava que ela postou a foto numa rede social em uma conta fake.

Len sentiu que a respiração do menor ficou muito rápida e ele se encolheu de novo mais perto de si.

-D-Depois dos meus pais mandarem uma reclamação para os donos do site, eles me mandaram dizer quem eram, mas eu não disse. Eu não disse por que eu não consegui pensar em nada, eu não queria que isso chegasse na Polícia. Eu só fui tão idiota... Eu poderia ter evitado tudo. Mas logo depois eu fui na escola e em um dia eu senti muitas coisas horríveis. Muitas. Todos aqueles olhares horríveis em mim... Até os meninos. As meninas riam tanto. E o que diziam e o que fizeram... Eu não esqueci. Até hoje... É-é claro, eu mudei e vim para esse colégio e logo de cara eu recebi a responsabilidade de tomar conta dos corredores. Foi uma forma de eu não precisar voltar pra casa, só pra mim não precisar olhar pros meus pais.

-C-Como assim?! -Len se exaltou, não entendendo porque os pais do garoto iriam ficar dessa forma.

-E-Eu falei pra eles... Eu tinha que explicar... Eu falei que eu estava com um garoto desconhecido.

Len arregalou os olhos. Em sua mente se passava o que levava uma pessoa a mentir desse jeito para os próprios pais, independentemente da situação. Ele não entendia. Para uma pessoa que sequer sabia o que era uma “mãe” em plenos seis anos de idade, ele não entendia nada.

-Mas por quê?

-PORQUE EU NÃO QUERIA ELA BRAVA COMIGO AINDA MAIS! E-e... Desse jeito ninguém ia saber. -o menino berrou segurando a camisa de Len e a cabeça baixa.

-Por quê? Seus pais... Acham que você cometeu um erro até hoje. O que eles fizeram pra você quando souberam?

Lui soltou-o.

-Nada, apenas me olharam com... Nojo. Eles me olharam e disseram que era por isso que eu estava vestido em várias outras fotos postadas junto com aquela com a roupa “dela” e que eu ainda tive a cara de pau de roubar. Eles me deixaram de castigo por seis meses, sem sair de casa, sem mexer na internet e sem celular. Era só escola e casa e eu não devia falar com ninguém, nem com os vizinhos. Eles mal falavam comigo.

O garoto deixou sua última lágrima cair.

-Eu continuo sendo lembrado por todos dessa escola também, porque isso virou repercussão no Japão todo. Saiu em todos os noticiários. Foi horrível.

Len parou um segundo. Tentou se lembrar. Naquela época ele estava no sexto ano do fundamental. Se lembrava de ver algo do gênero enquanto assistia TV com Kyte e Rin.

-Eu acho que me lembro. Mas nunca ia imaginar que logo você...

Lui respirou alto, encostando-se ao loiro com um abraço tímido.

-Desculpa. Eu falei tanto já... Eu só queria alguém que pudesse me entender. -Lui.

-Eu não entendo, realmente. Eu também meio que sou assim... Mas eu sempre tive pessoas que me apoiaram, mesmo não sendo meus pais. Eu aprendi que ter amigos que possam ficar do seu lado é o mais importante. Seus pais merecem saber a verdade, você devia contar a eles, mesmo sendo tarde. Eu me arrependeria muito se não contasse ao meu pai que fiz uma coisa e mentisse. -Len falou aquilo sem perceber, mas sua mente deu um estalo incômodo. “Não contar que fiz uma coisa e mentisse.”

Len apertou os olhos.

-Até eu tenho coisas que escondo dessas pessoas, mas planejo contar em breve. Senão que tipo de exemplo eu seria pra você agora né? -sorriu sem jeito para o moreno baixo.

Lui assentiu com a cabeça, sentindo-se bem satisfeito com o que falou. Já era suficiente por um dia.

-Por que estava aqui logo agora? -Len perguntou ajudando-o a se levantar e sair detrás das caixas.

Gacha estava atento à conversa enquanto escrevia umas notas numa folha.

-Se sentem melhores?

-E-Ei, eu não estou abalado aqui. -Len fez um bico, mas por dentro estava tão mole que sentia que ia desabar também.

-Eu entrei aqui por que ela está junto com um dos clubes do Colégio Kozakura. Estão agora mesmo nos ginásios e eu não quero ver ela. Os amigos e amigas dela são os mesmos do fundamental. Mesmo que eles não saibam quem postou, eles viram a foto e agiram todos maldosamente comigo. Ela ficou quieta e não riu, mas não me olhou nunca mais.

-Entendo. Não se preocupe, eu vou apenas andar com o Gacha por lá, eu vou precisar ir mesmo não importa se estão ou não. Só que eu gostaria de saber quem é. -Len falou meio sombrio olhando para o senpai.

O sentido protetor de Len começava a esquentar quase como o de Kyte quando a coisa ficava feia.

-Não é difícil saber. Ela é alta, cabelos lisos e longos azuis claros, olhos da mesma cor. Ela se chama Suzune Ring.

Continua

Notas finais
Tensão. Isso foi uma surpresa? Ficou bom? Ficou grande¬¬.
Ring é a malvada? Gente, por favor me digam o que acharam. Estou realmente me esforçando. Como podem ver: ficou grande *-* -Aw, meus dedos-
(Ah, Ring é uma estudante da escola antiga do Len e ela estava no aeroporto junto com Aoki Lapis, Gumi e IA até!).
Por isso eu digo que o Hibiki Lui é um dos meus favoritos. Todos os meus personagens amados sofrem nas minhas histórias. TODOS. Sofrem de algum jeito, psicologicamente ou fisicamente. Ferimentos são sexys.
Ah, deixa pra lá.
Até o próximo e obrigada por lerem até aqui. O Caso Hibiki Lui se encerrará no próximo capítulo e já darei entrada em Caso Akita Nero no seguinte.
Aguardem. Beijos minna! Mata nee.