Notas iniciais
Obrigada à Meliare, Mika Chan e Makke pelas recomendações!

Christian

Acordei com alguns cutucões desagradáveis, e abri os olhos com um resmungo. Não tive dificuldade em supor que se tratava do meu irmão, Oliver, com quem eu dividia o quarto na universidade.

Oliver também tem descendência japonesa, assim como eu, mas é mais alto e tem um corpo levemente mais desenvolto, por culpa da natação. Ele é parte do time de natação de elite da Ketteridge, tem estranhos olhos azuis densos, como uma água profunda, cujas íris ficam absolutamente grandes nos olhos repuxados. Dezenas de vezes mais atraente e popular do que eu, esse não é o irmão que pedi a Deus. Não mesmo.

“Vamos logo, Chris! Acorda, eu quero o quarto só pra mim.” Ele disse, grosso, puxando o lençol e me fazendo rolar para o chão. Caí com um grito insatisfeito e massageei minha lombar, dolorido.

“Droga, Oli, por que quer o quarto às oito da manhã num sábado? Me deixa!” Tentei segurar o lençol e puxá-lo das mãos do meu irmão. Oliver estava sem camisa, expondo seu corpo esguio e tão branquelo quanto o meu; seus ombros eram mais largos que a cintura. Eu o achava bonito e também o invejava um pouquinho, mas já estava acostumado a ideia de ter um irmão como ele.

Eu sempre havia sido o garotinho nerd excluído e tímido demais, e meu irmão a beldade cheia de amigos que curtia esportes e entendia de garotas. Ele se dava bem com as garotas. Não era nenhum pegador, mas tinha seus rolos aqui e acolá, mesmo com as mãos pequenas, cabelos negros lambidos e aquele rosto de boneca de porcelana, por assim dizer.

“Eu tenho um trabalho importante pra semana que vem, e você no quarto me atrapalha.” Ele disse largando o lençol, e eu de novo caí para trás. Suspirei chateado, coçando os olhos e sentindo falta do meu travesseiro, ou do tempo em que eu tinha um quarto só meu. É certo que estava há apenas uma semana dividindo quarto com meu irmão, e havia ficado três anos sem a presença constante dele lá em casa, mas já estava de saco cheio, Oliver é metódico e espaçoso, não gosta de dividir nada.

“Como que eu te atrapalho se estava dormindo, Oli!?” Eu me levantei, chateado. Oliver foi para a escrivaninha onde havia alguns projetos e maquetes. Ele estudava arquitetura, queria seguir a carreira de nosso pai. Já eu entrei pra Letras, queria me dedicar a traduções, mas também dar aulas.

Oliver deu de ombros.

“Tua respiração me desconcentra, você quase ronca enquanto dorme.” Oliver decretou, de costas para mim, enquanto se sentava à escrivaninha. Eu toquei meu travesseiro na cabeça dele, mesmo sabendo que isso o deixaria furioso.

“Eu não ronco! Por que você não faz esse trabalho de tarde, ou em algum outro lugar?” Perguntei exasperado. Queria dormir, aquela primeira semana fora exaustiva, e eu tive de fazer dois trabalhos nos últimos dias, porque o Andreas não pudera fazer o dele. Não sei por que o ajudei, considerando que mal nos conhecíamos, mas ele era... Inexplicavelmente convincente.

Ele parecia sorrir e olhar para tudo de uma forma que dizia que ele não se importava, mas mesmo assim prestava atenção em todas as aulas. Rapidamente interagiu com vários colegas e, para minha grande surpresa, se interessou em conversar comigo. Alguém como ele – bonito, com jeito de popular e travesso – se interessando em conversar comigo... Isso nunca havia acontecido, pessoas como ele me destratavam e excluíam, principalmente por eu sempre ser o mais novo na minha turma. Era a ordem natural das coisas. Mas Andreas quebrou essa ordem, me tratou bem e me apresentou pros outros colegas, mesmo que todos nós fôssemos meio desconhecidos.

Foi impossível não começar a gostar dele rapidamente.

Distraí-me tanto com meus pensamentos sobre o Andreas que perdi meu irmão se levantando com um olhar tétrico ao se virar para mim. Engoli em seco, meu irmão podia facilmente bater em mim. Eu era uns doze centímetros mais baixo, mais magro, não fazia atividades físicas e nunca havia lutado Taekwondo, como ele que treinara por seis anos quando mais novo. Eu corri para o banheiro, levando junto minha muda de roupa que eu sempre deixava separada para a manhã seguinte, quando ele esbravejou para que eu desse o fora.

Parei na frente do banheiro com a escova na boca e alguma espuma nos cantos dos lábios. Eu era bem diferente do meu irmão, a começar que pintei meus cabelos de castanho, para combinar com meus olhos, também castanhos. Às vezes achava que eu e Oliver não éramos irmãos biológicos, mas nossa mãe não é oriental e tem os olhos azuis, já nosso pai é um japonês misturado, de olhos castanhos e cabelos pretos, então nós dois na verdade éramos uma mistura louca e desordenada das características dos nossos pais.

Cuspi a espuma e enxaguei os dentes, depois lavei o rosto e então comecei a passar lápis nos olhos. Sem o lápis, achava meus olhos muito apagados. Talvez eu estivesse tentando competir com as escuras esferas de safira do Oliver. Aqueles círculos negros ao redor de meus olhos me davam ao menos um pouquinho a mais de alto-estima, então eu passava todos os dias, mesmo que o Oliver sempre dissesse que eu era ridículo por usar ‘essas coisas de mulherzinha’.

Coloquei uma camisa branca frouxa, uma calça jeans e tênis, e saí de fininho do quarto pegando minha bolsa marrom grande onde carregava meus materiais e livros, não querendo chamar a atenção do Oliver, que já estava debruçado sobre projetos, parecendo imerso em outra dimensão. Oliver também sempre foi muito inteligente, nosso pai exigia isso da gente; porém ele nunca foi taxado como nerd. Era bastante dedicado à faculdade, tirava notas altíssimas, e eu esperava também conseguir manter o ‘padrão de excelência’ de nossa família, os Okubo. Nosso pai é sócio de uma grande empresa de construção, e nossa mãe é uma engenheira de renome. Não era pouco coisa, e eu e Oliver não podíamos ficar para trás.

Fui para cantina pegar algum lanche, querendo meu sanduíche natural de frango e meu café com leite de sempre, e me sentei numa mesa mais ao canto, que tinha uma boa visão das pessoas. Coloquei meus fones de ouvido grandes, não aqueles pequenos que vão dentro da orelha que podem te deixar surdo, e me pus a comer e observar. Eu gostava de observar as pessoas. Como cresci com poucos amigos, me restava observar, e às vezes ficava criando teorias sobre como elas eram através de suas roupas, seus gestos, seus olhares, seus sorrisos e maneiras de comer. Era um passamento divertido, mas me deixava curioso para descobrir se eu estava certo ou não, o que eu quase nunca descobria.

Foi numa dessas observações que vi o garoto de ontem, que estivera conversando com Andreas, entrando na lanchonete junto com outro rapaz alto, de cabelos encaracolados, que eu desconhecia. Ele também iria ao evento de hoje. Minha mãe que o organizara. Mesmo sendo engenheira, ela tinha paixão por animais e ajudava várias ONGs com dinheiro e preparação de eventos. Eu não queria que o Alan – acho que era esse o nome dele – fosse. Ele parecia legal, tinha um ar que transmitia tranquilidade, apesar do jeitão sério, mas eu queria estar sozinho com o Andreas. Havia ficado tão animado por ele ter aceitado o convite! Mas aí ele ia lá e convidava duas outras pessoas.

Foi impossível não me decepcionar, ele em realidade via aquele passeio como algo bobo, quando para mim seria como... um encontro. Corei com o pensamento e comi vorazmente meu sanduíche, de cabeça baixa, não querendo que ninguém visse meu constrangimento que surgira por nenhum motivo aparente. Acabei percebendo a aproximação dos dois rapazes somente quando eles estavam na frente da mesa em que eu me sentava, e a música Dante’s Prayer, da Lorena McKennitt, acariciava meus ouvidos. Ergui o olhar com farelo de pão no canto do meu lábio e os olhos arregalados, meu coração já palpitava de medo. Traumas de escola.

“Oi, acho que conversamos ontem. Podemos sentar aqui?” O Alan perguntou de um jeito que era simpático, ao mesmo tempo em que meio estoico, sério, assim que baixei meus fones. Eu assenti com alguns movimentos nervosos de cabeça, e eles se sentaram. Havia tantas mesas vagas, e eles vinham justo para minha mesa. “Esse é o Derek, um amigo meu.”

“Fala aí, japinha!” Derek me deu um tapinha no braço. Era o total oposto de Alan. “Alan me contou sobre esse evento, parece legal. Vai ser lá no Parque Greywood, com direito até a um pequeno parque de diversões, barraquinhas de brincadeiras e de comida, apresentações, além da parte de doação de animais, certo? Estou pensando em ir também, levar uma lindeza que conheci aqui na universidade.” Ele piscou para mim, cúmplice. Enrubesci por isso, ele era muito bonito, com olhos azul-gelo e cabelos castanho-brilhantes, com algumas mexas mais claras naturais. Ou eu achava que eram naturais. Mas fiquei ainda mais desanimado com a ideia de mais gente ir junto. Esperava que ele levasse a garota e sumisse com ela lá pelo parque.

“Você mal terminou com a Larsa, e já está se engraçando com outra garota.” Alan não pareceu contente com aquilo, parecia ter a tal Larsa em alta conta. Olhei para Derek e achei que ele não fazia o tipo que namorava, não combinava com o perfil e ar galinha dele.

Derek suspirou.

“Que inferno, Alan, pare de me atormentar por causa disso. Por que você não vai e consola a Larsa então? Pegue ela pra você, talvez? Seria pior se eu e ela continuássemos numa relação já acabada, e eu obviamente não vou ficar deprimido pelos cantos, ainda mais quando uma garota bonita dá em cima de mim. Você sabe que não nego fogo.” Ele disse tudo entediado, não parecendo irritado com Alan, apenas cansado dos comentários.

Mastiguei meu sanduíche com vontade e voltei minha atenção para Alan, aguardando pela resposta.

“Você sabe que ela é como uma irmãzinha para mim. Vocês estavam juntos há muito tempo.” Alan falou secamente, ainda sério, mas depois exalou o ar pelos lábios. “Mas você tem razão, não adiantaria de nada continuar numa relação sem amor.” Tais palavras sinceras me surpreenderam, jamais imaginaria que um cara do tamanho do Alan seria capaz de falar coisas como amor. Imaginava que brutamontes como ele – certo, quase todo mundo era brutamontes perto de mim, com meus 1,60m – entendesse alguma coisa sobre amor, ou relacionamentos. Acabei simpatizando um pouco mais com ele, apesar de saber que era o culpado por arruinar meu encontro.

“Bem falado.” Derek ficou satisfeito por ganhar a discussão, e se inclinou para trás, espreguiçando-se por um momento. Tinha os braços fortes, mas não tão fortes quanto os de Alan. Eu me envergonhei novamente por estar notando tais detalhes e retornei minha atenção para a comida. “A faculdade mal recomeçou e já estou de saco cheio.”

“Você deveria encontrar outro curso se acha tudo tão chato.” Alan comentou com descaso, abrindo o sanduíche natural que também comprara. Fiquei curioso sobre o curso, mas não me atrevi a perguntar. Sentia-me sufocado pela presença dos dois. “Então, Chris, você não se importa mesmo de irmos também no evento?” Ele perguntou condescendente.

“N-Não!” Me assustei com a pergunta e não consegui falar a verdade. “É um evento aberto, vai quem quiser...”

“Eu reparei que você pareceu desanimado quando soube, provavelmente está a fim do Andreas, não? Eu diria pra desencanar, porque-“

“Alan!” Derek o interrompeu, enquanto meu coração quase saltava pela boca. Não precisava que dois caras como eles soubessem, ou no caso desconfiassem, que eu era gay. “Não dá pra sair falando essas coisas...” O repreendeu, e depois deu uma bela analisada em mim, me deixando ainda mais nervoso. Derek apoiou um cotovelo na mesa, e descansou o queixo na mão, inclinado na minha direção. “Você não é novo demais para estar na universidade? Quantos anos você tem, japinha?”

Eu não gostava de ser chamado de japinha por inúmeros motivos, mas era mais seguro não expor minhas preferências.

“E-Eu tenho quinze anos.” Admiti, mortificado. Eu deveria entrar na universidade com dezoito anos, como qualquer ser humano comum. Mas ao longo do colégio fui pulando séries por estar num nível acima dos meus colegas. Para começar que entrei na escola na segunda série, nem passei por creche, jardim de infância e primeira série. Meus pais preferiram me ensinar as coisas básicas em casa, desde cedo. Mesmo entrando na segunda série, logo eu já estava no fim do ensino básico, e o ensino médio eu escolhi fazer inteiro, pois já me sentia suficientemente novo perto dos meus colegas. Do contrário, eu provavelmente teria entrado na Ketteridge com uns doze anos.

Tanto Alan quanto Derek me olharam embasbacados.

“Eu achei que você era novinho, com uns dezessete talvez e uma carinha de pré-adolescente, não que fosse mesmo um pré-adolescente.” Alan comentou impressionado. Não soou rude, ou pejorativo, mas me ofendi. Eu não era pré-adolescente! Isso ia só até uns onze ou doze anos! Ele notou meu olhar ofendido, enquanto Derek iniciava uma gargalhada.

“Que coisinha mais moleque e enfezada essa! Calma lá, jovem, nós só ficamos surpresos!” Derek ergueu as mãos para o alto, ainda rindo abertamente. Se eu poderia ficar mais vermelho do que naquele momento, eu preferia nunca descobrir. Quis fugir daquela mesa, e da risada dos dois. “O que um pivete de quinze anos faz numa universidade? Monta uma brinquedoteca? Chora quando sente saudades dos pais?” Ele riu mais, e eu passei a odiá-lo naquele exato momento, desejando empurrar meu sanduíche natural na garganta dele. Eu tinha certeza de que era mais inteligente do que ele, mas apenas afundei no banco, com vontade de me esconder embaixo da mesa.

“Derek, está constrangendo o garoto.” Alan apontou não entrando na risada. “Christian, é Christian, não é? Eu estou impressionado, você deve ser muito inteligente para ter entrado tão cedo aqui. A Ketteridge aceita apenas alunos de alto nível. Ou bons em algum esporte, como o Derek.” Foi nesse momento que o Derek parou de rir, com uma exclamação de ultraje, e um sorriso fraco brotou nos meus lábios.

“Eu tenho boas notas, ok? Os esportes são um plus. Eu faço administração, só pra você saber, japinha. E você? O que faz? Alguma coisa envolvendo tecnologia, eu imagino.” Ele perguntou. O velho estereótipo de que japoneses estão sempre envolvidos com tecnologia de alta geração. Que bobagem, eu não entendia nada disso, apesar de gostar de videogames e de computador. No entanto, preferia os livros.

“Faço Letras...” Comentei e toquei o pingente que usava no pescoço. Era de metal, e representava o canino de um cachorro. Meu pai havia me dado de presente quando eu era mais novo, dizendo que dava sorte e força. Eu o tocava com frequência, nas mais diversas situações, como se buscasse essas coisas nele. “Quero ser professor.”

“Quero só ver meter ordem numa turma sendo todo pequeno e tímido desse jeito. De certo nem vão achar que o professor que entrou na sala, mas o aluno novo.” Derek implicou de novo, voltando a rir abafado. Alan revirou os olhos, e eu baixei meu olhar, pensando que ele provavelmente não estava errado. Meus pais não haviam gostado da minha escolha, diziam que eu estava desperdiçando meu futuro, mesmo que professores fossem bem pagos e valorizados no nosso país. Eles queriam que eu fosse engenheiro também, ou coisa assim.

“Não dê atenção para ele, é um idiota.” Alan tentou novamente amenizar o deboche do amigo, mas eu não queria continuar ali sendo inferiorizado. Me levantei, peguei minha bolsa e corri dali. Não aguentava esses caras grandes que se achavam o máximo e curtiam desprezar os menores. Não importava que o Alan fosse legal, de qualquer forma ele estragara meu dia com o Andreas. Ou melhor, estragaria.

Eu acho que escutei o Alan me chamar, mas nem prestei atenção. Aquelas risadas machucavam. Eu estava na universidade, não queria que os acontecimentos da escola se repetissem. Assim que longe do refeitório, caminhei a esmo pela universidade. Ketteridge é enorme, e eu não havia desbravado nem metade dela. Havia vários prédios, centros de pesquisa, o hospital vinculado para os cursos da área da saúde, complexos esportivos, anfiteatros, teatros, prédios de dormitórios, bibliotecas, áreas verdes e de lazer, lanchonetes, o lago que serpenteava algumas áreas. A universidade era a maior e melhor do país, um minicosmo independente. Eventos, exposições, palestras, apresentações, congressos, competições esportivas e intelectuais, entre outros, aconteciam ali. Eu me sentia pequeno dentro de algo tão grande.

Acabei próximo da biblioteca central, pois havia ali um centro verde com árvores e bancos, onde era bom sentar para ler, principalmente num sábado pela manhã, em que o movimento era pequeno. Sentei, recoloquei meus fones e tirei um livro da minha mochila. Estava lendo cinco no momento: O mercador de Veneza, Pilares da terra, Os três mosqueteiros, A menina que roubava livros e Marley e Eu. Peguei Marley e Eu, porque estava a fim de sorrir um pouco. Sempre quis um cachorro, mas meus pais nunca deixaram nenhum bicho entrar lá em casa, mesmo que minha mãe adorasse animais, pois meu pai e irmão eram terrivelmente alérgicos.

Me afundei na leitura por não sei quanto tempo, mas dava risadas eventualmente, e me desesperava pensando em tudo que o dono do Marley teria de pagar pelo estrago do cachorro desobediente.

Levei um susto quando alguém sussurrou no meu ouvido:

“Do que tanto ri?” Eu me virei rapidamente, deparando-me com o Andreas, que sorria enviesado. Ele apoiou uma mão no encosto do banco e o pulou, caindo sentado ao meu lado. Pegou o livro da minha mão, enquanto eu pensava no quanto ele era legal. “Marley e Eu? Ah, eu vi o filme, mas chorei no final. Não gosto de chorar, então decidi não ler o livro.” Torceu o nariz, mas me devolveu o livro com um sorriso. “Talvez tenha um labrador arteiro lá no evento hoje. Por que você não adota um? Eu bem que queria.”

“M-Meus pais não deixam.” Falei meio gago, ainda não recuperado da aparição repentina dele. Já eram dez e meia passado, eu havia me perdido na leitura. Andreas se acomodou no banco, colocando os cotovelos sobre o encosto, e assoprou os cabelos rebeldes sobre os olhos.

“Foda-se seus pais. Pegue um e fique com ele aqui na universidade.” Ele soltou uma risadinha, sabendo que aquilo era um absurdo. Animais não eram permitidos nos dormitórios. “Nós poderíamos cuidar de um escondidos, não seria legal? Mas eu prefiro os vira-latas, mesmo que ache os labradores ótimas companhias. Uma das minhas amigas tem um, sabe? Ele adora lamber, mas acho que isso é natural dos cachorros. Eu gosto de lamber também.” Andreas às vezes falava coisas sem sentido. Mas me assustei quando ele se virou para mim, se aproximou com um sorrisinho safado que me deixou nervoso, e lambeu rapidamente meu rosto.

O encarei apalermado.

“Viu?” Ele perguntou. “Obrigado por fazer o trabalho por mim. Irei te recompensar.” Piscou, enquanto eu segurava minha bochecha molhada pela saliva dele. Andreas era tão legal.

Abaixei meu rosto e sorri envergonhado.

“Ok... Mas não precisa, já vamos sair hoje.” Eu o lembrei, pois era parte do ‘acordo’. Frente ao silêncio dele, eu ergui o olhar, notando sua expressão culpada. “Andreas?”

“Chris, olha, eu realmente queria ir...” Ele começou a dizer, e eu senti todo o resto das minhas esperanças se despedaçarem. Ele apenas me enganara para que eu fizesse o trabalho para ele, e lágrimas saltaram dos meus olhos.

“Não! Você não pode deixar de ir!” Falei infantilmente, não querendo admitir aquilo. Era meu primeiro fora, pois eu nunca antes havia tido coragem de convidar alguém para sair comigo. Andreas me olhou assustado, talvez por ver que eu estava chorando. Ele segurou minhas mãos.

“Chris, não fica assim. Eu queria ir, queria mesmo, mas algo surgiu e-“

“O que surgiu?” Eu exigi saber, mas ele apenas mordeu o lábio inferior, desviando o olhar. Eu o empurrei, e me levantei, não aguentando o aperto no peito que estava sentindo, ofegante. Andreas se levantou também, e me impediu de me afastar, me segurando pelos ombros.

“Chris, sério, nós podemos sair outro dia. Por favor, não fica chatead-“ Eu o beijei. Segurei seu rosto com as duas mãos, fiquei na ponta dos pés e pressionei meus lábios nos dele. Quando me afastei, menos de um segundo depois, estava boquiaberto e assustado. Cheguei à conclusão lógica de que havia enlouquecido. Achei que ele iria me bater, mas, no lugar disso, ele pegou minha bolsa no banco, me segurou pelo braço e começou a me arrastar com ele.

“Vamos.” Disse apenas, e eu estava letárgico demais para negar, ou perguntar pra onde íamos.

Chegamos até o teatro da Ketteridge, também conhecido pelos alunos das belas artes como Lyric Convent. Tal nome devia-se à afamada e intransigente professora das belas artes, que já fora uma renomada atriz de teatro e cantora de ópera, Donatella Beamount. Ela proibia qualquer aluno que participasse do famoso grupo de teatro e canto da universidade de manter um romance, e até mesmo uma vida sexual, por isso seus pupilos eram conhecidos também como ‘os celibatários’. Ao que tudo indicava, os alunos dela realmente mantinham-se castos, e apostas para seduzi-los eram constantes.

Dizia-se que Donatella Beamount era o pior carrasco de toda Ketteridge e, acredite, existiam muitos, eu pesquisei nos vários artigos do jornal da universidade, chamado Roy Byron.

“O que viemos fazer aqui?” Perguntei assustado, olhando ao redor. O lugar estava vazio por ser sábado pela manhã, mas isso ainda era estranho. Andreas apenas jogou minha mochila ao chão, enquanto se virava para mim. Estávamos no palco, perto das cortinas recolhidas. Ele se aproximou de mim como um felino astuto.

“Sempre quis dar uns amassos nesse lugar. Manchar esse ar certinho do teatro, entende?” Ele perguntou divertido e, antes mesmo que eu tivesse tempo de esboçar uma expressão perplexa pelo que acabava de ouvir, ele me prensava contra a parede amaciada pelas cortinas grossas de tecido felpudo vermelho, e me beijava.

“Andr-“ Tentei dizer, mas ele afundou mais os lábios nos meus, passou o braço por minha cintura, alcançando minha nuca com a mão. Com a outra mão, ergueu minha coxa, fazendo-me enlaçar seu quadril com a perna. Nossa diferença de altura não era grande, mesmo que eu fosse baixinho, mas mesmo assim me senti instável e me abracei a ele, sem saber como reagir.

Eu não sabia beijar, nunca tinha beijado antes! Porém Andreas parecia não se importar, e guiava minha língua como ele bem entendia. Ele me pareceu além do experiente, o que me deixou nervoso. Pelo jeito confiante dele, eu deveria ter imaginado que ele era experiente, porém, não tinha certeza de que ele era gay e... Eu estava tendo minha confirmação. Pude sentir a ereção dele contra meu ventre e corei, atordoado. Meu corpo inteiro tremia, até mesmo meus lábios, colados aos deles.

“Você é tão fofinho...” Andreas sussurrou contra minha boca, e roçou o nariz no meu, mas não pude ver sua expressão, pois não tinha coragem para abrir os olhos.

Achei que ele fosse me beijar de novo, mas seus lábios atacaram meu pescoço, e eu gemi, sentindo que sua mão, antes na minha coxa, ir para minha bunda, apertando-a e me erguendo do chão por um momento. Sua respiração alcançou minha orelha, causando cócegas. Depois, deslizou a mão para dentro da minha calça jeans, por trás.

“Eu adoraria te foder.” Ele sussurrou roçando os dedos entre meus glúteos, provocando a pele sensível ali, mesmo que fosse por cima da minha cueca. “Você gostaria disso? Que eu te fodesse aqui?” Apertou mais os dedos contra meu ânus.

Eu achei que fosse desmaiar pelo constrangimento de ouvir aquilo. Minha respiração estava tão agitada que não conseguia falar; eu parecia em meio a um ataque de asma, mesmo que eu nunca tivesse tido asma. Ele não esperou resposta, abriu meu zíper com um puxão e desceu minhas calças, ajoelhando-se junto. Assim que ele abocanhou meu membro sobre a cueca, eu gemi alto e gozei, assustado, mas imóvel. Andreas ergueu seus olhos azul-nebulosos para mim, uma sobrancelha arqueada.

“Isso foi rápido, não? Primeira vez?” Sorriu de lado e lambeu a área onde meu sêmen umedecera minha cueca, olhos presos aos meus, deixando-me ainda mais estarrecido, envergonhado e paralisado, a exceção de minhas mãos, que subiram para tapar minha boca. Ele riu da minha vergonha e continuou beijando a região. “Mas com quinze aninhos, a gente endurece rapidinho de novo...” Agarrou minhas nádegas com ambas as mãos e me puxou para ele, para sua boca.

Ele acertou e logo eu estava excitado de novo, e então ele abaixou minha cueca e começou a me chupar. Minhas mãos continuavam sobre a minha boca, e eu só não escorregava ao chão, porque ele segurava minha bunda com firmeza, mantendo-me no lugar enquanto engolia meu pênis com vontade e facilidade. Era pequeno, e eu estava aliviado que ele não comentara nada sobre isso.

“Andreas... P-Para! É m-melhor você p-parar...” Gaguejei com a voz entrecortada pelos gemidos e abafada pelas minhas mãos. Ele sugou com mais força, e eu tive de me segurar à cortina, ou teria caído. Minha outra mão acabou em seus cabelos macios como veludo dourado. Aquilo parecia um sonho insano, mas era tão bom que eu não conseguia, nem queria, acordar.

Com uma das mãos, Andreas ergueu minha perna, colocando-a sobre seu ombro, e começou a me massagear novamente no ânus, roçando dois dedos nas pregas da região por longos minutos, enquanto ele mantinha meu membro na boca, beijando-o e sugando-o das mais variadas maneiras. Eu olhei para cima, para o teto alto do teatro, e minhas costas arquearam pelo prazer, pouco antes que eu gozasse pela segunda vez, exausto.

Andreas se ergueu e me abraçou antes que eu caísse, ajeitando minha cueca, e riu ao afundar o rosto no meu pescoço e puxar o ar profundamente.

“Eu poderia te devorar, sabia? Não deveria mexer comigo se não está preparado pra lidar com as consequências.” Ele murmurou num tom sedutor, repleto de malícia. Era um lado dele que eu desconhecia por completo, mas também, eu mal o conhecia de qualquer forma. Me abracei a ele, encabulado ao extremo. Ele não devia falar esse tipo de coisa! “Você ‘tá mais calmo agora?”

“Não.” Eu disse rápido. “Estou mais assustado.” Apertei os olhos.

“Você não tem que ficar... Desculpe se fui além do que você queria. Você não me quer?” Ele perguntou, de uma maneira meio perdida. Talvez estivesse acostumado que as pessoas pedissem por mais, simplesmente. E o pior, eu queria pedir por mais, mas ao mesmo tempo, sentia-me estranho. Acontecera tão rápido! Como eu havia permitido isso? Eu nunca tinha beijado até minutos atrás, e agora já havia recebido uma... o-oral.

“Eu q-quero.” Murmurei, sabendo que ele agora me olhava atentamente, mas mantive o rosto contra seu peito e a camisa preta descolada que usava. “Mas só se f-formos namorados. O-Ou algo assim. E-Eu deixo você me f-foder.” Falei vexado, não acreditando nas minhas próprias palavras. Estava apenas sendo sincero, eu queria ele. Andreas era tão perfeito... “Namora comigo.”

Mas Andreas se afastou, quase me fazendo tropeçar para frente.

“Chris...” Ele parecia perdido. “Eu não posso namorar. Você é uma delícia, e nós nos damos bem, mas eu... Não posso. Não fui feito para namorar, e nem sinto vontade. Sendo sincero, se eu tivesse um namorado, o trairia na primeira oportunidade. Desculpe.”

Tive vontade de chorar novamente, e realmente chorei. Nunca fui bom em refrear o choro. Andreas tentou se aproximar de novo, com uma expressão arrependida, mas eu empurrei sua mão. E foi essa cena que um aluno das belas artes flagrou: eu sem calças, sujo de sêmen, debulhado em lágrimas, afastando Andreas de perto de mim.

“O que está acontecendo aqui?” O rapaz ruivo, de cabelos cacheados, perguntou.

Notas finais
Olá! Olha que cara de pau eu! A questão é a seguinte, resolvi me dedicar a essa história porque ela não será tão grande. Resolvi postar, mesmo não tendo-a pronta, porque estou com a cabeça em Good Riddance (mesmo já tendo-a terminado), e aí só iria conseguir escrever outras fics depois que terminasse de postar lá! O tempo de atualizações não será rápido, é indeterminado, mas essa história não está mais em hiatus. Obrigada a quem quer que ainda venha ler e continue comigo! Pergunta aos personagens em http://ask.fm/MarDeAreia