Lawrence

Gregor Weneger apoiou os cotovelos sobre sua mesa e entrelaçou os dedos, suspirando. Era um homem na base dos quarenta e tantos anos, e sempre havia sido bastante rígido em relação às normas da universidade, desde que assumira o cargo de reitor. Seus cabelos escuros já se tornavam grisalhos principalmente nas laterais, e as rugas eram visíveis no canto dos olhos. Ainda assim, não era desagradável ao olhar, e mantinha um ar de autoridade que destacava seu físico grande, os ombros largos.

“Nossa universidade prima pela reputação, mantida há tantos anos. Agora, como manter essa reputação quando a história sobre um possível estupro no Lyric Convent se torna fofoca? Algum de vocês dois poderiam me explicar o que aconteceu?” Gregor abaixou o olhar para um papel sobre a mesa e leu o nome do japonês. “Christian Okubo, você sofreu agressão sexual de Andreas Deres no teatro da universidade?”

O garoto japonês era algo lamentável. Pequeno, assustado, trêmulo, com os olhos ainda chorosos e confusos. Fora uma completa confusão, de fato, desde que eu os flagrara no teatro. Eu teria tentado manter sigilo, mas outros dois garotos e uma garota surgiram às minhas costas e também presenciaram o fato. Em minutos, a universidade toda já parecia comentar o caso, apesar de ninguém saber ao certo quem eram os protagonistas daquela peça. Tive de informar o diretor antes que a história saísse do controle. E, se fosse mesmo verdade, Andreas Deres deveria ser punido.

Aliás, ambos deveriam ser punidos de qualquer forma, pelo atrevimento de se agarrarem no Lyric Convent, um lugar considerado sagrado para nós estudantes das belas artes – música, teatro, dança, pintura, escultura eram o ar que respirávamos. E as consequências por quebrar as regras eram altas na Ketteridge. Era a única maneira de controlar esse bando de adolescentes bagunceiros e estúpidos que não pensam antes de agir e não mostram o mínimo respeito pelas autoridades.

Andreas parecia entediado sentado numa das cadeiras em frente à mesa do diretor, enquanto Christian se atrapalhava tentando explicar o que acontecera. Eu, que estava próximo à porta, dei um passo à frente.

“Eu sei o que vi, Sr. Weneger. Não há outra explicação lógica. Christian Okubo estava acuado, com as roupas em desalinho, chorando assustado. O que mais isso poderia significar?” Perguntei, irritado com aquela burocracia. Andreas deveria ser expulso, era uma afronta alguém como ele na nossa universidade.

“Poderia significar que ele estava triste por eu não poder aceitar um pedido de namoro depois de chupá-lo. E, oh, foi isso mesmo que aconteceu. Se você quer uma mamada também pra tirar essa expressão azeda da cara, é só pedir, ruivo, não precisa ficar aí fingindo tanta indignação.” Andreas contrapôs, virando um pouco o corpo para me olhar, cheio de cinismo junto a um sorrisinho malicioso.

Um rubor de irritação queimou em meu pescoço, alcançando meu rosto.

“Andreas Deres!” O reitor exclamou num tom grave, furioso com a falta de decoro do garoto. “Olhe como você fala. Estamos tratando de um assunto sério aqui, e quanto mais insolente você for, pior será seu castigo.”

Andreas ergueu as mãos para o alto, com um suspiro entediado.

“P-Por favor, Sr. Reitor, foi... Foi um mal-entendido. Andreas não me violentou, nem nada. Nós apenas tivemos uma... Uma pequena discussão depois... Depois de ele-“

“Depois de profanarem o teatro com baixarias! Se não houve agressão, o jornal dará um jeito de abafar essa história, mas isso não impede que devam ser punid-“

“Mas será que você não tem mais o que fazer? Ir cantar uma ópera, ou algo assim? É só um estúpido teatro para um bando de virgens com fogo no rabo, mas com dificuldade pra admitir isso. Vamos ser sinceros aqui, está com inveja.” Andreas pareceu também perder a paciência. Eu gostaria de saber da onde ele tirava o descaramento de falar desse modo na frente do reitor, mas minhas orelhas se atiçaram quando ele, com um sorriso provocador, apoiou os antebraços sobre a mesa do diretor, inclinando-se para a frente. “Sr. Gregor, nós dois sabemos o que irá acontecer se você me punir. Mas talvez você não se importe de perder algumas noites de diversão, não é mesmo?”

Eu nunca imaginei que algum dia veria Gregor Weneger corar. Ele pigarreou, e então olhou para mim com seus chamativos olhos cinzentos, sem nem ao menos repreender Andreas pela falta de respeito com que se dirigia a ele.

“Sr. Guerra, por favor, peço que se retire e me deixe lidar com isso. Agradeceria se entrasse em contato com o estudante Lance Harris para que ele publique uma nota de esclarecimento no jornal. Não quero receber telefonemas de pais preocupados por algo que não aconteceu. Quanto à punição de Andreas e Christian por desobedecerem às regras das Belas Artes, pode deixar que cuidarei disso sozinho.”

Era um ultimato para que eu partisse.

Andreas ergueu as sobrancelhas para mim, sorrindo de lado, e Christian abaixou o olhar, ainda mortificado. Eu sentia certa dó do japonês, ele parecia arrependido e envergonhado, sincero em pedir desculpas. Mas Andreas, durante todo o trajeto até a sala do reitor, desrespeitou Donatella Beamount, os estudantes das belas artes, e sugeriu um monte de perversões sussurradas, apenas para me irritar. Era um garoto insuportável e baixo nível demais para nossa universidade.

Forcei-me a um cumprimento ao diretor, e saí dali sem dizer mais nada. Ainda por cima, teria de falar com Lance. Era outro que eu odiava. Manipulava informações, vivia fazendo piadinhas no jornal, sua coluna era lixo e ele era um fofoqueiro idiota, que adorava se intrometer em tudo. Ele e Andreas se dariam bem, eu não tinha dúvidas sobre isso. Mas, eu tinha uma ideia interessante, que deixaria Lance ocupado demais para incomodar a mim e meus colegas, e faria Andreas viver um pequeno inferno na terra. Ou melhor, na Ketteridge.

XxxX

O Roy Byron ficava no prédio onde aconteciam algumas aulas de jornalismo, comunicação, entre outras. Era um andar inteiro, o último do prédio. O jornal da universidade também escrevia matérias sobre a própria Ketteridge ou outros assuntos, geralmente de cunho culto, para jornais de fora, e os jornalistas que se destacavam já tinham emprego certo nos grandes jornais e meios de comunicação do país. Lance certamente era um desses. Ele tinha uma mente cruel e genial, manipuladora e criativa, ideal para o jornalismo.

Eu não o suportava, e quase fiquei feliz quando uma das garotas trabalhando ali me disse que Lance havia saído. Porém antes mesmo que eu desse meia volta e saísse daquele andar desagradável, agitado, desorganizado, cheio de computadores e pessoas malvestidas, alguém tocou meu ombro e sussurrou próximo da minha orelha.

“Que surpresa fabulosa.” Lance disse, irônico. “Veio me dar informações sobre o caso do estupro? O diretor expulsou o estuprador?”

“Não houve estupro.” Eu me virei para ele. “O reitor deseja que você relate isso, e depois abafe o caso. Foi um mal entendido, o próprio japa admitiu.”

“Um japa? Interessante.” Lance levou a mão ao queixo. Isso diminuía as possibilidades dele, não havia tantos japas na universidade, ou ao menos tantos japas gays, e a idiota da Alanne, que flagrara o Christian e Andreas junto comigo, era apaixonada por Lance, provavelmente daria um ‘retrato falado’ do garoto.

“A identidade é motivo de curiosidade. Se me levar até sua sala, posso lhe dar a de um deles.” Falei, cruzando os braços sobre o peito e erguendo um pouco o nariz. Lance era mais alto, aliás, detestavelmente alto, talvez com 1,90m de altura, porém era magro, não malhava muito, tinha uma definição comum que qualquer rapaz poderia alcançar com um pouco de esforço. Não que eu estivesse reparando, mas ele era um tipo simples, e ainda assim tantas garotas babavam por ele, diziam que era charmoso e inteligente, e que suas mãos grandes, de dedos longos, eram uma perdição.

Eu só o achava um babaca.

“Querendo que eu te leve à minha sala assim tão cedo? Talvez eu deva mudar meu conceito sobre os ‘celibatários’.” Ele observou, sarcástico, sorrindo com as mãos no bolso.

“Não seja ridículo.” Cortei.

“Vai querer algo em troca.” Não era uma pergunta.

Ao menos não é burro, pensei.

“Claro que vou, me toma por idiota? Vamos de uma vez.” Eu segui para a sala dele, conhecia o caminho, e ele me seguiu, dando uma ou outra ordem pelo caminho. Dono do mundo, era o que ele achava que era.

Me apoiei à mesa dele, de frente para a porta, assim que entramos, e ele fechava a porta.

“Você sabe que terei a informação que quero cedo ou tarde, ruivo. E não precisaria fazer nenhum favor em troca dela.” Lance falou, apoiando-se à porta e me olhando de maneira astuta. Nesses momentos, ele me lembrava uma raposa sedenta por informação.

“Provavelmente será tarde, e nós dois sabemos que qualquer informação tem um prazo de validade. Se divulgar as identidades daqui alguns dias, ou semanas, será notícia antiga, ninguém dará muita importância. Agora se publicar hoje...” Eu sabia que tinha um trunfo na manga, e não seriam os joguinhos de palavras dele que iriam me ganhar. Eu o conhecia suficientemente bem para saber como sua mente funcionava.

“Você se tornou mais esperto desde que ingressou na Ketteridge, Laurie.” Ele usou o apelido que eu detestava, sorrindo pois sabia disso, principalmente quando ele quem me dera tal apelido, amplamente aderido por todos.

“Você me obrigou a isso.”

“Então eu merecia um agradecimento. Qual seu preço?”

“Quero que pare de insultar os alunos das belas artes no jornal. Essa história de apostas contra nós, de que somos todos santos, ou gays enrustidos, que somos fantoches da Donatella, entre tantas outras bobagens, já está cansando. Vá procurar outros cursos para atormentar com esse jornalzinho sensacionalista.” Falei irritado, não me deixando desanimar pelo riso que ele soltou assim que terminei.

“Isso por um nome? Não está supervalorizado esse tal estuprador? Que nem é mesmo um estuprador, olhe que sem graça.” Sorriu. “Todos se divertem com a coluna sobre as belas artes, tirá-la do jornal atrapalharia os negócios.” Ele se desencostou da porta e começou a se aproximar, deixando-me tenso pela diferença de altura que parecia crescer. “Mas, o mais curioso, vai me dizer que os alunos das belas artes não são mesmo todos virgens e recatados? Não me diga que você andou experimentando alguns prazeres da vida, Laurie. Com quem foi? Com o último garoto que participou da aposta sobre conquistar e foder você em um mês?” Tocou meu rosto, com uma diversão negra no olhar.

Dei-lhe um tapa na mão e me afastei dele, fugindo pela tangente.

“Não seja ridículo.” Rosnei. “É por essas e outras que os estúpidos alunos dos outros cursos ficam fazendo apostas. A idiota da Rebecca caiu numa dessas há três meses, como você fez o favor de relatar no jornal, e está até agora em depressão. Você deveria se envergonhar, ela era uma ótima atriz até isso acontecer, agora sofremos pela falta de alguém para os papéis principais.”

“É tudo uma brincadeira, Laurie. As pessoas levam tudo muito a sério.” Lance falou com descaso e tirou um cigarro do bolso, acendendo-o mesmo que eu estivesse naquela mesma sala fechada, apenas a janela aberta.

“Amor é algo sério! Não se brinca com ele!” Quase gritei. Lance me encarou por alguns segundos, seus olhos arregalados, mas depois tragou e soltou a fumaça vagarosamente.

As apostas geralmente aconteciam como rito de passagem dos estudantes numa das irmandades da Ketteridge. Eu fui descobrir isso um tempo após entrar na universidade. Eram duas irmandades rivais, e eu já havia sido chamado para participar de uma delas, mas me recusei. Não queria perder o foco do teatro numa guerra interna e misteriosa entre estudantes. Eu sabia que Lance era da fraternidade da Casa Sigma. Já a outra era denominada Casa Magna. Cada uma delas tinha suas peculiaridades e modos de agir, mas eu não sabia muito.

“Ruivo, você já deveria saber que o que mais as pessoas fazem é brincar de amor. É perda de tempo levá-lo tão a sério. Agora, vamos aos negócios. Eu prometo um mês de paz para as belas artes, em troca desse nome.”

Bufei exasperado.

Era inútil e uma grande perda de tempo começar uma discussão sobre amor com Lance.

“Três meses e a promessa de que investigará melhor o suposto estuprador. Há... Algo de errado sobre ele. Ele chantageou indiretamente o reitor na minha frente, e Gregor pareceu nervoso e me expulsou do escritório. Ele esconde alguma coisa.” Expliquei, e sorri internamente ao perceber o brilho na expressão de Lance. Qual jornalista que não se interessava por um mistério?

Fofocas e escândalos dentro da universidade eram parte do Roy Byron, todos queriam saber os pontos fracos uns dos outros e principalmente daqueles sob os holofotes. Eu recebia atenção e era alvo de fofocas por ser o melhor ator do Lyric Convent, e por já ter participado de algumas peças fora da universidade ao ser especialmente recomendado por Donatella Beamount. As pessoas adorariam ver-me caindo do pedestal, pela simples diversão que isso lhes causaria, mesmo que destroçasse meu futuro.

“Três meses, então.” Ele disse, e eu sabia que era o melhor que poderia conseguir, mais que isso seria apenas promessa furada, no quarto mês ele já estaria quebrando o acordo. “Então, qual o nome dele?”

“Andreas Deres, entrou na universidade há uma semana, no curso de Letras focado em Literatura. Divide quarto com David Young, o filho de um dos maiores magnatas do país que, estupidamente, faz educação física e já está no time elite da natação e do vôlei. A Casa Sigma o quer como membro, você deve saber, pois um de seus melhores amigos, Derek Mason, é parte da fraternidade. Mais três meses e tens o nome do japa.” Ainda tentei.

“Não force a barra, Laurie.” Ele sorriu indulgente. “Mais um mês pelo nome do japa.”

Suspirei, sabendo que era o máximo que arrancaria, e quatro meses era um bom tempo.

“Christian Okubo. É um tipinho comum, também faz Letras. O pai é um arquiteto renomado, e a mãe uma engenheira bem conceituada com amor por animais. Irmão de Oliver Okubo, que já é mais popular, também faz parte do time elite da natação.” Informei o que sabia. Eu também tinha meus contatos, e havia ligado para um deles para pedir informações sobre os dois.

Lance sorriu.

“Você deveria considerar minha oferta de trabalhar como informante para o jornal. Com isso as belas artes não seriam mais tão atacadas, não é?” Ele se aproximou novamente de mim e, para meu horror, me puxou pela nuca e pressionou nossos lábios por um longo segundo. “Lábios carnudos assim não deveriam se manter em desuso por tanto tempo.” Sussurrou ainda roçando a boca na minha.

“Vá pro inferno!” Dei-lhe um tapa no rosto, mas seu sorriso permaneceu enquanto a bochecha avermelhava. “Não ouse encostar em mim de novo, imbecil. E é melhor manter nosso acordo, do contrário o que vai vazar por aí é a droga da sua orientação sexual.” Ameacei, nervoso. “E me avise o que descobrir sobre Andreas.”

Eu saí antes que ele falasse mais alguma coisa. Somente parei quando entrei no elevador do prédio de arquitetura antiga, mas restaurada, como eram todos os prédios da Ketteridge. Me apoiei à parede de metal e levei minha mão aos lábios, sentindo-os formigar e meu coração bater rapidamente. Aquele estúpido Lance... Não era a primeira vez que ele tentava algo, afinal, ele fora o primeiro a tentar me conquistar e levar-me para a cama, nos meus primeiros meses na universidade, por causa de uma aposta.

E ele teria conseguido, se eu não houvesse descoberto a farsa um dia antes de decidir parar de fugir e me declarar a ele, com a ideia romântica de que nos beijaríamos, eu me entregaria de corpo e alma a ele, e seríamos felizes para sempre depois do inferno que eu havia passado antes de ingressar na universidade.

Dois anos depois, e meu ódio por ele continuava o mesmo. E eu continuava com o valor mais alto entre os apostadores da Casa Sigma e Casa Magna, por culpa dele.

XxxX

Cheguei à república das Belas Artes, que não era mais do que um prédio de dormitórios apenas para alunos desse curso, mas que tinha um salão grande a mais, com sofás e jogos, que outros dormitórios não possuíam. Tínhamos esse privilégio pois precisávamos de um espaço só nosso para treinar, então às vezes havia no salão pessoas treinando peças, recitando poesia, ou realizando apresentações internas de música e canto enquanto outras assistiam e davam dicas. Alguns simplesmente pintavam e desenhavam ali, a despeito do barulho, ou praticavam sozinhos, falando consigo mesmos.

Eu gostava do ambiente, me fazia sentir em casa.

“Onde está a Alanne, o Romero e o Lorenzo?” Perguntei pelos três que haviam presenciado a mesma cena que eu, apesar de eu os ter expulsado do palco poucos segundos depois, impedindo-os de verem com clareza o que se passava. Julian, que era a pessoa que, estranhamente, parecia sempre saber onde todo mundo se encontrava, em cada horário, tocou no lábio inferior a ponta da caneta que segurava. Ele vivia pelos cantos desenhando, observando as pessoas e as captando como fotografia em suas lapiseiras, talvez por isso soubesse tanto, costumava observar para desenhar.

“Alanne deve estar na aula extra de canto lírico para a apresentação de terça-feira, já Romero e Lorenzo devem estar no quarto deles, pois vi o Romero subindo, e pouco depois o Lorenzo. Mas se apresse que ambos irão em quinze minutos, se não me engano, pro clube de balé.” Julian informou, me assombrando um tanto. Se ele trabalhasse no jornal, as belas artes estariam perdidas.

“O-Obrigado.” Falei desconfortável, me perguntando se ele também saberia meus horários de maneira tão precisa. Ele era estranho e quieto, apesar de sempre solícito, e as pessoas costumavam manter distância dele. Julian apenas baixou a cabeça e voltou a desenhar em seu caderninho, e eu rumei primeiro para o quarto de Lorenzo e Romero.

Os dois são irmãos gêmeos, e fazem dança juntos. Costumam fazer apresentações ou em dupla, ou com mais gente, mas sempre estão unidos, literalmente unha e carne, e se completam de uma forma única na dança. Já os havia flagrado dançando balé juntos, com aquelas roupas coladas e as expressões compenetradas e belas, e me perdi sobre quem era quem em alguns momentos. Às vezes Lorenzo quem pegava Romero no ar, outras vezes, o contrário, pareciam fundir-se em um único ser. Eram dedicados e sempre negavam qualquer espécie de encontro, flerte, não tinham interesse em outros seres humanos, me parecia. E eu os admirava por isso, por se dedicarem exclusivamente à paixão pela dança.

Bati na porta do quarto deles no terceiro e último andar de nossa república. Estranhei a demora, bati mais uma vez, e pude ouvir sons indistintos no quarto, mas somente depois de uns cinco minutos Lorenzo apareceu à porta. Eu os distinguia porque Romero tinha olheiras suaves sob os olhos, enquanto Lorenzo não possuía nenhuma. A voz de Lorenzo também era um pouco menos grave que a de Romero. Mas era tudo, até seus corpos pareciam ridiculamente idênticos, de bailarinos – firmes, definidos e magros. Não somente pelo balé, eles também caminhavam, faziam pilates e musculação, além de cuidarem da alimentação um do outro com um cuidado que ninguém em nossa república igualava.

“L-Lawrence! Você... Ah! Você deve querer conversar sobre o que houve lá no Lyric Convent, certo?” Ele perguntou. Suas bochechas estavam coradas, e ele parecia ter recém voltado de uma corrida. Vestia apenas uma bermuda curta e uma camiseta branca bem marcada no corpo. Seus cabelos também pareciam fora do lugar, e algo dentro de mim apitou.

Empurrei a porta e entrei no quarto, em busca de alguma garota desnuda em cima da cama. Muitos alunos me odiavam, pois eu era os olhos e os ouvidos de Donatella, e seguia rigorosamente as leis de que alunos das belas artes não podiam se relacionar dentro da universidade. Nossa rotina e foco deveriam manter-se nítidos, sem distrações. Muitos concordavam, e quem não concordava, mantinha-se em silêncio e agia às escondidas. Mas não encontrei ninguém dentro do quarto, a exceção de Romero, que saía do banheiro com uma toalha enrolada na cintura, após uma ducha.

“O que foi, Lawrence?” Romero me perguntou, erguendo uma sobrancelha. “Algo de errado?”

“Ah... Nada.” Disse, aliviado por não encontrar ninguém e não ter de dedurar nenhum deles. Ou no mínimo repreendê-los. Fui até a cama que parecia mais arrumada e me sentei. “Não contem pra ninguém sobre o que viram hoje mais cedo no teatro. Ordens do reitor.” Informei.

“Nem vimos muita coisa, você nos enxotou antes que mal pudéssemos subir no palco.” Lorenzo mordeu o lábio, em dúvida, antes de dizer. “Quem espalhou sobre isso foi a Alanne.”

“Não seja dedo-duro também, Lorenzo!” Romero o repreendeu, e suspirou. “Não vimos nada, então nem temos o que falar. Porém admito que comentei com o Tristan sobre dois alunos se pegando no Lyric. Mas não falarei mais nada.”

“Bem pro Tristan...” Tapei o rosto com a mão por um momento. Minha relação com Tristan também não era boa, cansei de dedurá-lo por se meter com inúmeras garotas – e até garotos! – da universidade, se atrasando para ensaios e compromissos. Mas ele era fantástico na atuação, no canto e na pintura, um pacote completo, então Donatella sempre acabava dando-lhe uma nova chance.

“Alanne falou que um deles estava chorando.” Lorenzo comentou cuidadosamente, deixando brecha pra que eu explicasse a situação. Suspirei, era melhor acabar com aquele boato besta.

“Foi consensual, mas parece que um deles levou um fora depois, então estava chorando por isso. Não sei de mais detalhes. É melhor não comentarmos mais sobre isso.” Me levantei. “Até depois, boa aula pra vocês.”

“Até depois, Lawrence.” Lorenzo falou com um suspiro um tanto aliviado, que me incomodou, enquanto Romero o olhava repreensivo.

Saí do quarto com uma sensação estranha, de quem sabe que seus amigos estão escondendo alguma coisa. Mas não comentei nada, não tive coragem, por algum motivo. No lugar disso, rumei atrás de Alanne, no prédio BA3 que não ficava muito distante da república.

Ketteridge não dava aulas nos sábados e domingos, deixando esses dois dias especialmente para atividades extracurriculares e descanso, mas quando havia apresentações próximas, alguns professores davam aulas extras nos finais de semana. Ainda assim, o prédio estava sombriamente deserto, me causando arrepios. Sabia que era bobagem, mas filmes de terror me assustavam e eu não gostava de me sentir sozinho em lugares assim, mesmo que bem iluminados e durante o dia.

Quando estava no segundo andar, rumo ao quarto, escutei gemidos abafados. Meu corpo se arrepiou e, por alguma curiosidade bizarra, segui os sons. Na última porta do corredor leste, os sons se tornaram mais vigorosos. Havia vozes ofegantes, gemidos e barulho de cadeira sendo arrastada. Eu tentei cuidadosamente abrir a porta, mas estava chaveada. Então peguei minha chave-mestra, que havia recebido há cinco meses quando virei protegido de Donatella e presidente do conselho estudantil das Belas Artes, e a destranquei.

A porta entreabriu praticamente sozinha, e eu pude vislumbrar o que se passava na sala, os gemidos mais altos agora que a porta estava aberta. Eu não me assustei por encontrar o Tristan – e deveria ser o carma da minha vida flagrá-lo em situações assim – fodendo outro garoto, que estava debruçado sobre a mesa longa do professor. Voltei minha atenção para o garoto, e me surpreendi por ser um japa também. O que estava acontecendo com os japas dessa universidade? Todos decidiram pular a cerca no mesmo dia? E o pior, por que eu tinha de flagrar todos?

Percebi que já havia visto aquele japonês antes, e minha ficha caiu em poucos segundos, pois sempre fui um bom fisionomista. Era Oliver Okubo! Eu já o havia visto nadar em competições na universidade antes, inclusive havia torcido para ele, pois mesmo com a aparência delicada, era um dos nadadores que mais se destacava. Esses Okubos pervertidos, pensei com desgosto, mas não desviei atenção da cena.

Não conseguia.

O cabelo amarelo-queimado de Tristan, que caía até metade dos braços em dreads malfeitos, se sacudia a cada vez que ele se movia contra o corpo de Oliver, segurando-o com firmeza pela cintura e marcando a pele extremamente pálida do japonês com os dentes. Oliver gemia contido, com as mãos espalmadas sobre a mesa, esforçando-se para aguentar o tranco. O esforço se refletia nas bochechas coradas. A mão de Tristan passeou pelo abdômen liso de Oliver, descendo até sumir de minha visão, por trás da mesa, mas pela expressão de prazer surpreso e intensificado de Oliver, era fácil entender onde aquela mão fora parar.

“Gosta disso?” Tristan perguntou de forma lasciva, e chocou-se com mais força contra o quadril de Oliver, que baixou o rosto, puxando o ar, arranhando as unhas curtas na madeira da mesa. “É assim que quer que o Bobby faça contigo? É assim que você gosta?” Ele arremeteu com mais força, suas coxas batendo com violência contra as nádegas do japonês, gerando sons que me lembraram uma salva de palmas.

“Cale a boca, Tristan. Você sabe que não é assim. Eu e o Bobby-“ Oliver foi calado quando Tristan lhe puxou o rosto e o beijou ferozmente. Aquele beijo me tirou o ar, e o corredor de onde eu espiava pareceu tornar-se quente. Eu deveria simplesmente tirar uma foto e então ir relatar o ocorrido. Se eles exigissem provas, eu teria uma bastante comprometedora.

E eu não fazia ideia de quem era Bobby, mas se ele era o namorado do Oliver, estava ganhando uns belos de uns chifres. Tristan saiu de dentro do japa e o virou, erguendo-o e o colocando sobre a mesa, deitado. O puxou pelas coxas e voltou a penetrá-lo, e Oliver abafou um grito, dobrando os braços para agarrar-se à borda da mesa e evitar ser empurrado para trás pelas estocadas exigentes. Meu pênis começou a dar sinal de vida nas calças, e eu guardei meu celular e mordi minha mão, esperando que a dor o impedisse de crescer.

Por que eu simplesmente não ia embora?

Nunca imaginei que Tristan fosse tão selvagem no sexo. Quero dizer, ele tinha um jeito selvagem, libertino e impetuoso. Parecia vestir-se com qualquer roupa: largas, longas, curtas, apertadas, não importava; os cabelos, raramente arrumava, deixando-os com aquele aspecto de dreads, cachos grossos que desciam enrolados como gavinhas. Porém, ao contrário de isso o deixar com um aspecto desleixado, ele sempre parecia casual e estiloso. Quando subia em um palco ele vibrava, e sua energia parecia atingir a todos os espectadores. Eu gostaria dele, se não fosse essa mania de querer foder todo mundo.

Mas seu corpo branquelo era chamativo, magro mas com músculos evidentes, firmes, uma constituição esbelta e atraente. Forte, pelo que eu via agora. Ele parecia querer quebrar aquele japonês em dois. E Oliver era belo também, uma beleza oriental chamativa, delicada, mas de um ar inatingível. Ainda que Tristan o estivesse atingindo bastante, a cada vez que afundava o pênis entre seus glúteos brancos. Oliver apertou os olhos em dado momento, um gemido mais fino lhe escapou dos lábios delicados e avermelhados, e ele jogou a cabeça para trás. Quando abriu os olhos, me viu no vão da porta, e pude notar suas pálpebras se arregalando, revelando o azul denso de seus orbes.

Afastei-me da porta de supetão, sobressaltado, e acabei tropeçando e caindo de bunda. Não deu três segundos, e Tristan escancarava a porta, com as calças ainda abertas e suor escorrendo por seu dorso, contornando as pintinhas cor de chocolate que tinha no tórax, algumas próximas do mamilo marrom-claro. Por que estou reparando nesses detalhes? Perguntei-me incomodado, queimando por dentro. A expressão de Tristan não era boa. E por que seria? Eu havia atrapalhado sua trepada. De novo.

“Você deve ser alguma espécie de Voyer, não é, Lawrence, por estar sempre espionando as minhas fodas. Deve ter alguma fixação por mim, mas esqueça, não suporto um certinho dedo-duro.” Tristan falou e me agarrou pelo colarinho, me erguendo sem delicadeza do chão. Depois me jogou contra a parede, parecendo prestes a me bater. Mas sua mão apenas bateu contra a parede ao meu lado, enquanto ele ainda me segurava pela gola da camisa. “O que vai fazer, huh? Ir correndo contar para a Donatella? Se fizer isso, dessa vez não deixarei barato, Laurie. Acredite ou não, também tenho contatos nessa universidade.”

“Regras são regras.”

“FODAM-SE AS REGRAS!” Ele gritou, me assustando. Apertei os olhos, mas notei nesse meio tempo o japonês se esgueirando para fora da sala e fugindo, não querendo fazer parte daquilo. “Está na hora da Donatella entender que qualquer um fica louco sem sexo, e que não foder uma boceta ou um cu vez ou outra é que atrapalha o desempenho de qualquer um!”

“Então por que se atrasa, esquece as falas, perde compromissos? Se você não fosse tão bom, já teria sido chutado da universidade pelo seu desleixo!” Exclamei.

“Certamente não é por culpa do sexo!” Tristan rosnou irritado e me largou após mais um empurrão contra a parede. Passou a mão pelos cabelos e espiou dentro da sala, encontrando-a vazia. “Porra! Você estragou tudo, ruivo retardado!”

“Retardado é o seu cérebro. A Donatella vai ficar sabendo sobre is-“ Eu puxei o ar com força quando Tristan me empurrou de volta contra a parede, colando o corpo úmido de suor no meu.

“Vai contar pra ela o que andou aprontando também?” Ele perguntou, baixo.

“O qu-“ Fui interrompido por um beijo furioso. Não havia carinho, gentileza, era apenas um gesto bruto que me deixou estático, enquanto minha boca era invadida pela língua agressiva dele. Tentei empurrá-lo, mas foi uma tentativa vã. Tristan era muito mais forte do que aparentava, e eu que achava que tínhamos uma força similar.

Ele agarrou meu pênis, apertando-o sobre minhas calças, e eu gemi assustado, sentindo aquela queimação inexplicável novamente. Há muito tempo alguém não me tocava assim, e fiquei alarmado pela forma que Tristan estava fazendo aquilo. Demorei a conseguir me desvencilhar, empurrando e escapando pela lateral, apoiando-me à parede enquanto limpava meu lábio.

“Filho da mãe! Nunca mais-“

“Ou o quê? Vá e conte para a Donatella, mas veremos o que o resto da universidade irá achar quando sair no Roy Byron que a sua irmã, Jessica Guerra, é uma prostituta na mais requintada casa de prostituição do país.”

Meu queixo despencou. Como ele...? Minha cabeça girou, e eu acabei caindo de joelhos, tremendo. Jessica seria apenas a ponta do iceberg de tudo que havia de errado na minha vida. Minha vontade foi matar Tristan para voltar a enterrar aquele segredo.

Notas finais
Personagens novos! Nyah 'tá regulando a qtidade de coisas que podemos falar por aqui, então, apenas, beijos para vocês!