A Casa Das Máscaras
7 Capítulo 7
Alan
Eu sabia que não deveria ter feito aquilo com o David. Agora ele mal olhava na minha cara, e eu tinha consciência de que merecia esse tratamento. Havia mentido para ele e depois o tocado contra vontade. Eu era um filho da puta desesperado mesmo.
Aquela sexta eu percebi o quanto ele estava contente, nas nuvens até, mesmo que não houvesse vindo falar comigo em nenhum momento.
“Há algo de errado contigo, cara?” Derek perguntou ao me ver com aquela expressão de enterro.
“Nada.”
“Você e o David brigaram?” Ele insistiu. É claro que o Derek perceberia, nós três éramos como unha e carne há muitos anos, ainda que ele o David fossem mais próximos, com uma afinidade ímpar.
“A gente se desentendeu numas paradas aí. Nada de mais, logo estamos de boa de novo.” Desconversei.
Depois do almoço, fui atrás do David, querendo conversar e resolver nossa situação, mas acabei o seguindo até uma das muitas bibliotecas da universidade, a menos frequentada, enorme, repleta de estantes inacabáveis e cheias de livros, onde ele se encontrou com o Andreas. Fiquei afastado, atrás de uma estante, ouvindo a conversa dos dois.
Era evidente que o David havia se apaixonado por aquele loiro sedutor.
“O que foi?” Andreas perguntou. “Por que me chamou para te encontrar aqui?”
David abraçou Andreas, beijando-o com vontade. O loiro se rendeu de imediato, abraçando-se ao David, parecendo ronronar, mas se afastou algum tempo depois. Meu sangue ferveu pelo ciúmes, mas eu tentei ignorar isso. Não tinha direito nenhum de me intrometer.
“Só estava com saudades.” David falou, divertido. “Está melhor agora? Hoje de manhã você estava todo manhoso...”
“E você queria o quê?! Depois do que você fez ontem comigo, eu preferiria dormir até o final dos tempos.” Andreas cruzou os braços sobre o peito. “E sim, eu estou melhor, mas fico dolorido quando sento e tenho que me esforçar para não mancar, seu animal. E não vou poder trabalhar por uns dias...”
“Você não vai morrer se ficar sem trabalhar.” David resmungou, puxando-o de novo para roçar a boca contra o pescoço exposto do loiro.
Andreas tinha uma maneira de se vestir bastante casual e cheia de estilo. Eu tinha de admitir que ele ficava uma gracinha com aquele colete preto sobre a camiseta azul-claro de mangas dobradas, e com a boina preta meio torta na cabeça, num forte contraste com os cabelos dourados. A calça jeans escura era justa na medida certa, ele tinha uma bunda linda.
Confesso que transaria com ele de novo, se não fosse pelo David...
“Eu não. Mas pessoas podem morrer se eu não trabalhar...” Andreas falou sombrio. David não levou a sério, começando a agarrá-lo mesmo sob os protestos do loiro, e eu concluí que ele talvez não soubesse sobre a irmã doente do Andreas. Os deixei, não querendo assistir à sessão de amassos.
A sexta-feira passou voando. Durante o treino de natação, David continuou sem olhar para a minha cara e eu nem tentei puxar papo, apenas me restava observar o corpo absolutamente bem proporcionado e perfeito dele, enquanto algo em mim ainda rosnava por tê-lo visto com Andreas.
Às vezes eu imaginava um ménage entre nós três, e passava o resto do dia me martirizando por esses pensamentos insanos. Eu precisava extravasar, então mais tarde, após os treinos, nos quais aconteceu a escolha das duplas e quadras para os campeonatos, fui até a sala do treinador Muller. Geralmente, era ele quem me chamava quando estava a fim de sexo, mas eu não estava em condições de esperar.
Ele estava sentado à mesa dele, lendo alguns papéis, e ergueu o olhar assim que entrei no recinto sem bater. Chaveei a porta às minhas costas, o que o fez erguer uma sobrancelha em desconfiança, com aquele olhar severo que ele parecia ostentar a todo minuto. Ele era um homem bastante atraente, a despeito do temperamento difícil. Eu bem que gostava quando ele perdia a pose enquanto eu me movia dentro dele.
“O que quer comigo tão ansiosamente, Sr. Garbet, que não pôde nem se dar ao luxo de bater, antes de invadir meu escritório?” Ele perguntou, ácido e nada receptivo. Não era como se eu não estivesse acostumado com isso. Soltei uma risadinha irônica.
“Sr. Garbet.” Zombei. “Acho que com a nossa intimidade, você já pode começar a me chamar de Alan.” Falei calmamente.
Seu rosto de pele clara ficou vermelho, provavelmente de indignação. Ele espalmou as mãos sobre a mesa e se levantou de supetão. Não era muito alto, talvez 1,72m de altura. Era incrível como parecia mais alto apenas por culpa de seu olhar penetrante e rígido. Ele conseguia meter medo em caras muito mais altos e fortes do que ele. Na verdade, perto de mim ele era um tampinha loiro. Eu tenho 1,94m de altura e, ainda que ele tivesse um corpo ótimo, de atleta mesmo, eu tinha o dobro da definição muscular dele.
“Sr. Garbet. Independentemente do que eventualmente acontece entre nós, eu ainda sou seu treinador e você me deve respeito, a começar por bater na minha porta antes de entrar e não-“ Eu me aproximei enquanto ele soltava o sermão, contornei a mesa e, agarrando-o pela bunda, o sentei sobre ela. Ele perdeu a fala, o queixo caído pela minha ousadia, e eu o puxei pelas coxas, me encaixando entre suas pernas.
“Já comentei que adoro esse teu jeitinho arredio?” Perguntei com um sorriso e, antes que ele se recuperasse, me inclinei e afundei a boca na dele. No início, há dois anos, eu cheguei a me apaixonar por ele, a ponto de esquecer os sentimentos que nutria pelo David, mas então descobri que ele era casado, com dois filhos, e acabei tendo de me conformar que aquilo sempre seria apenas sexo casual.
Trace tentou me empurrar, mas eu o segurei firmemente pela nuca, invadindo sua boca ácida, forçando-o a se render. Quando dei por mim, ele já estava deitado sobre a mesa, parte dos papéis e outras tralhas jogados ao chão, e eu arrancava a calça dele sem muito cuidado.
“Você é um abusado, Alan...” Ele murmurou ofegante, quando consegui livrá-lo de todas as roupas. O corpo dele era incrível. Tinha a maturidade de um cara mais velho, ele tinha uns 32 anos, somada a uma juventude que permanecia em todos os seus traços. Eu me inclinei para chupar um dos mamilos rosados, também envolvendo seu pênis com a mão para terminar de endurecê-lo. Trace gemeu languidamente. Como eu adorava quando ele fazia isso.
“Você estava há quase dois meses sem me procurar... Por quê? Arranjou outro aluno para te foder nas horas vagas?” Perguntei debochado, internamente incomodado que fosse essa a verdade. Geralmente não usava esse palavreado, mas hoje eu estava chateado e com um humor sombrio, precisando descontar um pouco de minha frustração em outra pessoa. Trace me deu um chute que me arrancou o ar, e eu ofeguei pela dor.
“Cala a boca, moleque. Olha como fala comigo.” Ele rosnou, irritado. Assim que me recuperei, tirei minha camiseta e voltei a cobrir o corpo dele com o meu. Prendi seus pulsos contra a madeira e o encarei bem dentro dos olhos.
“Então o que foi?”
Ele desviou o olhar, mordendo o lábio. Nunca o havia visto com uma expressão tão vulnerável, o que o deixava ainda mais bonito.
“Estava tentando me manter fiel à Samantha.” Ele murmurou, tentando se soltar, talvez com algum súbito peso na consciência. Eu o impedi, é claro. Precisava de alívio e não sairia dali sem isso.
“Sua mulher?” Eu ri. “Você a trai há anos, porque isso agora?”
“Ela engravidou de novo...” Isso quase me fez broxar. Quase. Eu voltei a tocá-lo entre as pernas de novo, e beijá-lo no pescoço para distraí-lo da mulher grávida. Ele havia casado cedo demais, aos 18 depois de emprenhar acidentalmente a primeira namorada. Pouco tempo depois, ele percebeu que gostava mesmo era de homens, pensou em se separar, mas a mulher engravidou pela segunda vez.
E agora engravidava uma terceira.
“Você é um idiota.” Murmurei, enquanto mordiscava um mamilo, e depois o outro. “Está há 14 anos preso num casamento infeliz e, em vez de se separar, ainda embucha de novo a chifruda da tua esposa. Talvez esse filho nem seja teu, considerando o quão ruim você deve foder uma mulher.”
Eu estava sendo maldoso. Eu não era assim, sempre fazia tudo que ele queria e era até bastante comportado. Talvez por isso ele me usasse, por saber que eu seria seu fantoche pelo tempo que ele desejasse. Trace ficou furioso, começou a me xingar, se debater, ameaçar me colocar fora do time de natação, mas o mantive bem preso abaixo de mim e o beijei rudemente, masturbando-o com mais entusiasmo, até que ele se rendesse.
E quando se rendeu, o virei num movimento rápido, colocando-o de quatro sobre a mesa. Minhas mãos seguraram com força as nádegas perfeitas e eu as afastei, expondo à minha boca seu buraco comprimido. Trace soltou um gemido baixo e suas costas ondularam quando minha língua deslizou pela pele pregueada, forçando a penetração. Eu estava apertando seus glúteos e coxas tão forte, que a pele já ficava vermelha, e ele gemia alto, fazendo com que o receio de que alguém nos ouvisse aumentasse minha excitação. Meu pênis latejava dentro da calça, comprimido e duro.
Fiz Trace gemer ainda mais alto ao começar a masturbá-lo enquanto o lambia e penetrava com a língua. Seu corpo tremia, com dificuldade de se manter de quatro na mesa, e eu sentia que ele estava perto de gozar. Parei o que fazia para invadi-lo com dois dedos, mordendo sua bunda e então deslizando minha língua pelas costas contraídas, explorando cada músculo da região.
“É disso que você gosta, Trace. De um cara mais forte e de pau grosso te comendo de quatro. Não de precisar foder uma boceta e fingir que é um bom marido.” Falei, movendo meus dedos no interior dele, até encontrar a próstata. Tapei a boca dele quando encontrei, evitando um possível grito, que saiu abafado contra a minha mão, em sequência de outros. “Fecha a boca, treinador, se não quiser que alguém bata na porta e te flagre de pau duro por causa de um aluno.”
Tirei a mão da boca dele e o puxei pelo pescoço, colocando-o de joelhos sobre a mesa, de costas para mim. Minha língua foi parar na nuca suada dele, minha mão livre no pênis louco para gozar, e continuei metendo os dedos até que ele ejaculasse sobre os papéis que lia previamente. Ele mordeu o lábio com força para evitar o grito, e eu ri de seu esforço. Quando o soltei, Trace praticamente despencou sobre a mesa bagunçada, e acabou por apoiar as mãos sobre a própria porra.
“Já chega, Alan. Isso já passou dos limites!” Ele disse, ofegante, virando-se para mim e tentando se recompor. Eu o encarei junto a uma risada divertida.
“Ficou louco? Eu ainda nem comecei. Vim aqui para gozar também, não só te dar prazer.” Informei tranquilamente, enquanto abria meu zíper e expunha meu pênis ereto, pronto para a ação e nada satisfeito com as palavras dele. “Vem cá, treinador, me dar prazer com essa tua boquinha azeda.”
“Você vai sofrer nos treinos por isso, Alan.” Ele avisou, cruel.
Eu o trouxe para perto pela nuca. Ele ficou novamente de quatro sobre a mesa, com a boca próxima ao meu pênis. Trace ergueu os olhos e dava para ver que brilhavam de indignação, mas ele gostava mesmo era de pau, não colocava um na boca há tempos, então acabou por fechar os olhos e engolir todo meu volume. Joguei minha cabeça pra trás, soltando um gemido baixo pelo súbito aperto e calor daquela boca. Minha mão automaticamente foi para os cabelos macios dele, acariciando-os e o incentivando a continuar, enquanto a outra passeava pelas costas definidas.
Olhei para ele, de quatro me chupando com vontade. Era uma visão linda, erótica e sensual. Senti que poderia gozar naquele exato momento. Rápido demais, então o afastei e puxei, abraçando-o e beijando-o na boca com furor, roubando o ar dele enquanto o deitava novamente sobre a mesa e, assim que meu corpo comprimia o dele contra a madeira, afastei suas pernas e ergui um pouco o quadril. Fiz um malabarismo para colocar a camisinha que tinha no bolso e aí comecei a penetrá-lo.
Ele estava receptivo, então entrei fácil, soltando um suspiro de puro prazer assim que me afundei naquele corpo delicioso, toda a tensão que inundava meus músculos se esvaindo junto com os meus pensamentos ruins, sobrando apenas o deleite de ter meu pênis espremido pela cavidade quente do meu treinador. Muller soltou um gemido sofrido, abraçando-me e enlaçando meu quadril com aquelas belas pernas que ele tinha.
“Se você largasse a tua mulher, eu ficava contigo. Casava contigo e te dava uma vida muito melhor, até aturava teu filho adolescente e o outro pivete de sete anos.” Murmurei, investindo contra ele, fazendo a mesa ranger em sintonia com o gemido que ele tentou conter. Quando passei a me mover a valer, colocando toda a minha frustração e desejo naquele ato, nossos corpos começaram a se chocar tão forte, que o barulho parecia ecoar por todo escritório.
“Não seja estúpido... Ah...! Isso nunca vai acontecer, eu já te disse isso.” Ele apertou os olhos e deixou a boca entreaberta, numa exclamação silente quando o atingi em cheio na próstata. Ofegou alguns segundos, até conseguir continuar. “Você pareceu entender isso da primeira vez...”
Eu o beijei com raiva. Eu havia me declarado uns quatro meses depois da primeira vez que transamos, e ele me disse tudo que e mais um pouco possível para me deixar arrasado. Ficamos quase dois meses sem nenhum contato além dos treinos, até a tensão sexual nos levar a transar abruptamente no ginásio, quando este esvaziou num final de tarde.
Depois disso, mantivemos a relação fria de nos encontrar, transar e fingir que nada acontecia na frente dos outros, ainda que às vezes conversássemos após o sexo. Eu não sabia por que me submetia a isso, ainda que o sexo fosse maravilhoso. Eu gostava dele e ficava irritado por ele não ter coragem de largar sua ‘família perfeita’. Nessas horas eu me sentia como um cara meio confuso... Talvez tudo que eu quisesse fosse alguém para gostar de verdade. Pelo caminho acabei me apaixonando pelo David, depois pelo Trace, e agora eu apenas sentia uma raiva terrível por não ter nenhum dos dois.
Segurei meu orgasmo até o último minuto, querendo que aquilo durasse ao máximo. Agarrei Trace pelos glúteos firmes e o ergui da mesa, virando-me com ele dependurado no meu corpo e me sentando na mesa. Beijávamos ainda, eu havia achado sua próstata e a atingia repetidamente, movendo o quadril ao mesmo tempo em que o forçava para cima e para baixo, com minhas mãos agarradas à cintura esbelta. Olhei para baixo, para ver meu pênis surgindo e desaparecendo a cada vez que eu o erguia e fazia descer rápido contra ele. Trace rebolava o quadril, ondulando o corpo, de uma forma que me deixava completamente pirado.
Perto do orgasmo, ele inclinou o corpo para trás, apoiando uma mão na minha coxa, enquanto a outra segurava meu ombro. Parecia me cavalgar. A ponta do seu pênis teso roçava no meu abdômen conforme se movia, com a cabeça jogada para trás, gemendo de tal maneira que eu não queria gozar só para continuar escutando aquele som. Eu deveria trazer um gravador na próxima vez.
“Ah, Alan... Alan! Nnn...” Falou rouco, querendo acabar com todo meu autocontrole.
Quando ele lançou o primeiro jato de sêmen em meu abdômen, eu o puxei e nos girei, deitei-o novamente sobre a mesa e intensifiquei ainda mais o ritmo. Eu estava delirando, soltando grunhidos roucos que eram abafados pelos baques surdos das estocadas. Trace continuava gozando no meu abdômen, gemendo trêmulo, e nesse meio tempo eu acabei ejaculando também. Abafei meu grito e desabei sobre ele, exausto, suado e ofegante. Meu corpo queimava contra o dele e eu não sentia vontade de nos apartar.
“Já chega, Alan, saia de cima de mim.” Trace demandou pouco depois; pela voz, ainda não completamente recuperado. Eu me obriguei a me afastar, com as pernas fracas, e o observei se levantar e começar a recolocar as roupas. Um sentimento opressivo enchia meu peito, e ele reparou na minha expressão desolada. Me surpreendi quando veio até mim, segurou meu queixo e me beijou suavemente.
“Você merece coisa melhor que um velho preso a uma vida que nunca quis...” Ele disse. Eu o segurei pelo pulso quando ia se afastar.
“Você não é velho. E só continua preso porque quer.” Não sabia por que estava insistindo. Eu nem o amava realmente. Ou achava que não. Mas poderia amar, se soubesse que isso teria algum futuro. “Odeio ser tua amante.”
“Você que me procurou.” Ele rebateu, e eu fechei os olhos, soltando um suspiro.
“Depois de você me viciar no teu corpo, queria simplesmente me descartar?” Eu odiava ser dramático. Trace riu debochado, mas seus olhos continham um brilho raro de diversão.
“Você é hilário. Como se eu não fosse ser descartado no minuto em que o seu amigo David te desse uma chance.” Ele sorriu de lado. Ele sabia sobre David, eu devo ter contado em alguma das nossas sessões de conversa pós-sexo.
“Ele está em outra agora. Se apaixonou por outro cara.”
“E por isso você veio afundar as mágoas comigo. Agora que já se satisfez, pode ir embora, Sr. Garbet. Tenho muito que trabalhar hoje ainda, e preciso arrumar a bagunça que você fez.” Trace se soltou, readquirindo a pose profissional e distante. Eu o encarei por alguns segundos, querendo dizer que a culpa de eu continuar com aquela paixonite imbecil e antiga pelo David era puramente dele, mas não falei nada.
“Ah!” Ele fez, quando eu estava ajeitando minhas roupas. Eu o encarei. “Não quero que isso se repita. Acabou, Alan.”
Apenas terminei de ajeitar minhas roupas e deixei o escritório.
XxX
A sombra sob a figueira que havia num dos gramados do lado de fora da Ketteridge, perto da biblioteca, era um dos meus lugares favoritos na universidade. Era calmo, tranquilo, num caminho que poucos alunos faziam. Costumava ir sentar ali para pensar, passar o tempo e ler, nas poucas horas vagas que eu tinha. Sentado na grama, apoiei as costas no tronco da árvore e fechei os olhos, deixando minha cabeça pender para trás.
O que eu mais queria era apagar os últimos dias na minha mente e parar de pensar nessas merdas de gostar de alguém. Eu era pior do que uma garotinha apaixonada que gostava de vários caras ao mesmo tempo! Era ridículo, para dizer o mínimo.
“Oi, Alan!”
Tomei um susto ao escutar o cumprimento empolgado, e outro susto ao abrir os olhos e ver Andreas sentando-se na grama bem ao meu lado, com um sorriso no rosto e as pernas cruzadas. Apenas suspirei e voltei a fechar os olhos.
“Credo, que antipático.” Ele reclamou. “O que aconteceu? Você parece abatido...”
“Se você estivesse perdendo a amizade de alguém que é seu amigo há anos, por uma burrada sua; relembrasse uma cena que quer esquecer a todo custo a cada meia hora; e ainda levasse um fora do cara com quem você tem um relacionamento bastante estranho há uns dois anos, também estaria abatido.” Desabafei, virando o rosto para encará-lo e soando mais grosso do que gostaria. Esperava que ele não percebesse que a cena que eu queria esquecer era a justamente a de quando eu o fodi na frente do David.
“Caramba, que merda de vida.” Ele falou sincero, arregalando um pouco os olhos. Eu acabei rindo, sem muito humor e desviando o olhar para as folhas que balançavam suavemente na copa da árvore. “Deixe-me adivinhar... O amigo é o David. A cena que você quer esquecer é da noite em que eu te chupei e você me comeu, e o relacionamento... Bem, esse eu não faço a mínima ideia.”
Eu não desviei o olhar da copa, mas meu coração acelerou e minha testa se enrugou em surpresa.
“Como sabe...?” Perguntei baixo. Andreas deu de ombro, estalando a língua e se deitando na grama, com as mãos atrás da cabeça.
“Só um idiota para não perceber o clima ruim entre vocês dois e, além disso, teve uma hora esses dias que eu toquei no teu nome e o David ficou todo calado e emburrado. Eu venho percebendo isso desde aquela noite, então suponho que, sei lá, aquilo tenha sido o estopim para algo mais complicado.” Andreas disse num tom sereno, olhando para cima quase como se conversasse consigo mesmo.
Eu me pus a olhá-lo, reparando em como parecia um gato preguiçoso estirado na grama.
“Desculpe se atrapalhei a amizade de vocês. Não era a minha intenção... Eu não deveria ter ido te chupar.” Falou.
“Esquece. Não precisa se desculpar.”
“Sabe... Eu acho que eu nunca tive uma amizade como a de vocês, antiga, que eu me preocupasse em perder. Eu admiro isso.” Comentou distante, sempre com os olhos pregados na direção do céu. Andreas soltou uma risada breve, deixando um sorriso brincar no canto de seus lábios. “Teve um, na verdade, mas eu e ele tínhamos oito ou nove anos na época. Acabou quando a mãe dele me pegou aos beijos com o garoto.” Riu ainda mais, fechando os olhos como se pudesse relembrar toda a cena. “Ainda lembro dos berros de horror dela. Só não me bateu porque minha mãe apareceu, mas eu acabei levando uma surra em casa. Sempre fui um garoto precoce.”
“Por que está me contando isso?” Perguntei, achando graça. Não era uma história que você sairia contando por aí com muito orgulho.
“Sei lá. Acho que me sinto confortável com você.” Admitiu, simplesmente. “Mas se quiser eu posso apenas calar a boca. Mas não vou sair daqui, porque você está com cara de quem precisa de uma companhia.”
“Você percebeu que você é uma das coisas que eu estou tentando apagar da minha mente?” Perguntei, neutro, até um pouco sarcástico. Mas não queria que ele saísse dali. Andreas abriu os olhos e me olhou, virando a cabeça um pouco de lado para conseguir, já que estava deitado com os pés na minha direção.
“Eu não tinha pensando por esse lado.” Refletiu. “Mas eu acho bobeira, quanto mais você foge, mais o que quer esquecer te persegue.” Ele se impulsionou para sentar, abraçando os joelhos e me olhando de modo travesso. “Façamos assim, amanhã você vai comigo e um amigo meu num evento. É uma exposição de animais, ou algo assim. Talvez eu te compre um gato, ou um cachorro. Acho que um cachorro. Eles são ótimas companhias! Ao menos o que eu tive quando mais novo era; minha mãe comprou para as gêmeas, mas ele gostou mais de mim e vivia me seguindo pra cima e pra baixo. Minhas irmãs morriam de ciúmes.”
Eu acabei rindo.
“Você fala coisas sem sentido.” Sacudi os ombros, balançando a cabeça. Andreas me encarou parecendo ofendido. Abriu a boca para dizer qualquer coisa, mas alguém o chamou, fazendo virar o rosto na direção da voz. Olhei também e vi um garoto japa se aproximando de nós.
“Ah, oi Christian! Senta aí!” Andreas chamou. “Estava justamente falando de você. Ou melhor, do evento de amanhã. Convidei o Alan para ir com a gente!”
Christian não poderia parecer mais desolado. Me olhou por menos de um segundo e então cravou os olhos negros repuxados no Andreas.
“Mas... Eu pensei que iríamos só nós dois...” Murmurou baixo, tentando me impedir de escutar. Era um garoto baixinho, magro mas até que tinha um estilo próprio, diferenciando-o de todos os outros orientais do mundo.
“Está tudo bem.” Intercedi. “Eu tenho compromisso amanhã.”
“Ah, que pena.” Andreas me olhou. “Porque eu acabei falando sobre isso com o David, e ele se convidou para ir. Dá para acreditar em como é cara de pau?” Andreas se levantou, limpando as calças. “Aí pensei em você ir também para, sabe como é, dar uma chance para vocês resolverem os problemas de vocês.” Piscou.
Eu refleti por alguns segundos. Christian voltou a ficar infeliz, mas, como David não iria se compadecer da carinha de cachorro sem dono do oriental, eu ir também não mudaria muita coisa. Era uma chance de ao menos conseguir conversar com o David e esclarecer as coisas. Eu, acima de tudo, não queria perder a amizade dele.
“Ok. Eu dou um jeito de desmarcar.” Concedi.
“Show. Então, até mais, Alan. Tenho que ir para aula.” Ele se despediu. “Vamos, Chris.”
“Tchau.” Christian se despediu com um aceno nada animado, mas pareceu feliz quando Andreas passou um braço pelos ombros dele, levando-o junto enquanto caminhava. Assim que eles se afastaram, eu voltei fechar os olhos e descansar a cabeça contra o tronco da árvore. Ao menos um dos meus problemas eu teria de resolver no dia seguinte.
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