A Canção de Morgana
24 Sobre Mortos e Mortos-Vivos
Notas iniciais
A voz de Sirius se desencravou de sua garganta, arrancada de muito, muito fundo, carregada de incredulidade e esperança morta e enterrada a sete palmos do chão.
— Regulus?
Ninguém se moveu. Bervely podia ver a expressão de antecipação ansiosa no rosto de Sanguini, enquanto que Remus parecia preparado para reagir – ele segurava a varinha, os olhos indo do vampiro estranho parado à porta e de volta para Sirius. O pai estava de costas, mas ela lia a tensão em seus ombros, a respiração curta.
Bervely tentou lembrar de onde conhecia aquele nome e a primeira coisa que lhe veio à sua mente foi uma página do Signo Negro, o velho livro-guia da linhagem Black que ela tinha decorado de tanto ler e reler ao longo de sua infância:
Regulus Arcturus Black
Filho de Órion Black e Walburga Black
Nascido em 1961, Londres — UK
Falecido em 1979, local desconhecido.
Havia uma foto para o Regulus do livro, onde ele parecia mais jovem, corado e bem nutrido do que agora. Mas diabos, era de lá que ela o conhecia, não era à toa que o achara familiar na noite anterior.
— Não se mova — Sirius ameaçou, estendendo a mão com a palma para fora quando Sanguini fez menção de dar um passo à frente. Ele congelou. Sirius virou-se para Remus, irritado e alarmado ao mesmo tempo. — Aluado, como pôde deixá-lo entrar aqui? Pelas barbas de Merlin, ele é um comensal da morte!
— Era — corrigiu Sanguini com a voz neutra. Sirius não lhe deu atenção.
— É uma armadilha, só pode ser! — continuou falando agitado. — Bervely, vá lá para cima e sinalize a Ordem da Fênix, mande uma mensagem à Dumbledore. Remus, me dê a sua varinha! — E quando Remus não se moveu, Sirius olhou irritado para ele — REMUS, VARINHA!
— Não — disse Remus com uma estranha calma. — Acho que você deve ouvi-lo primeiro, Almofadinhas.
— O professor Dumbledore sabe que eu estou aqui — informou Sanguini sem se alterar. — Bem, não aqui na Casa dos Gritos, mas você sabe… nas imediações gerais de Hogwarts.
— E você espera que eu acredite nisso? — Sirius rosnou. Bervely viu as mãos dele tremerem, mais ou menos como ela também estava tremendo em algum ponto inespecífico de suas entranhas. — Você morreu, você morreu há anos, como pode estar aqui? REMUS, NÃO ABAIXE A VARINHA! — Sirius exclamou quando Remus veio se aproximando dele, enfiando a varinha no bolso. Sirius parecia convencido de que o amigo não entendia a gravidade da situação, a ameaça que Sanguini representava, o que estava deixando Bervely nervosa. Bom, isso, e o fato de que já o conhecia da noite passada, o Mágico de Oz. Regulus.
Seu tio Regulus morto em 1979, local desconhecido.
Remus foi até Sirius e sussurrou alguma coisa em seu ouvido, sob o olhar atento de Sanguini, cuja única coisa que parecia importar era o veredicto de Sirius ao seu respeito. O que Remus disse aliviou a tensão nos ombros de Sirius. Bervely imaginava o que teria sido.
“Olhe para ele. Não vê que ele não é mais o seu irmão? Olhe para ele.”
Remus se aprumou e Sirius se voltou para Sanguini, desconfiado:
— Você está armado?
— Eu não tenho uma varinha, se é o que está perguntando — disse ele, erguendo as palmas das mãos para frente como quem sinaliza rendição. Sirius fez um sinal para Remus com a cabeça.
— Verifique.
Remus deu um suspiro, mas fez o que foi pedido. Sacudiu a própria varinha e murmurou “expelliarmus” na direção de Sanguini. Nada aconteceu.
— Vamos para a sala de reuniões — Sirius decidiu, depois virou para Bervely zangado, como se fosse culpa dela que Sanguni tivesse entrado na casa. — Você, não se mova daqui, ainda não terminamos. Se qualquer coisa suspeita acontecer, sinalize aos outros.
Ela não respondeu; tinha perdido momentaneamente as palavras. Sirius fez um sinal para Remus e Sanguini indicando as escadas. Os três passaram por ela em direção ao andar de cima; quando o último passou por ela, seus olhares se cruzaram. Havia uma pergunta muda no rosto dele: “o que você está fazendo aqui?”
Bervely sentiu um calafrio e desviou o rosto. Eles sumiram pelas escadas e ela ousou respirar, seus joelhos e mãos tremendo.
— Merda. Merda.
Alguém vinha descendo as escadas de onde eles tinham sumido: Lalau Shunpike, que a viu verde-pálida e congelada ao pé das escadas e franziu para ela as suas sobrancelhas caóticas.
— Hey, quem é aquele cara? O que é que você tem? Parece que viu um fantasma…
A resposta veio de uma voz feminina da sala de estar. Bervely pulou; não tinha percebido que Yasi Darkmoon, que a garota que ela “salvara” de Azkaban junto com Lalau, estivera sentada na poltrona perto da lareira aquele tempo todo, tão quieta que passara despercebida no desenrolar de toda a cena.
— Parece que o irmão de Sirius acabou de voltar dos mortos para fazer uma visita.
— Oh, cara — os olhos de Lalau brilharam, um sorriso contente surgindo em seu rosto — Eu adoro essa casa!
Bervely deixou Lalau e Yasi para trás no primeiro andar, subindo as escadas o mais rápido que pôde apesar das pernas trêmulas. Ela entrou no quarto minúsculo que estava ocupando e fechou a porta atrás de si com um estalo seco.
O Mágico de Oz era irmão de Sirius. Regulus. O irmão de Sirius. Que estava morto. Regulus. Seu tio…
— Merda, merda, merda — xingou para os móveis e para os seus pertences espalhados, sem conseguir pensar em nada mais coerente do que isso.
É claro, era o tipo de coisa que acontecia com ela. A primeira vez que se permitia se distrair um pouco, se divertir apesar de todas as coisas horríveis que tinha lhe acontecido, ela conseguia acabar dormindo com o próprio tio morto. Sirius ia matá-la quando descobrisse… mas ele que se danasse, ela pensou com aspereza. O lugar em que ele lhe apertara o braço ainda estava latejando, e o jeito com que ele lhe ordenara que não se movesse enquanto ele interrogava Sanguini na sala de reuniões ainda queimava numa indignação amarga na boca do seu estômago.
Ela sentou na cama, ainda trêmula e agitada. Regulus Black. Regulus Black estava vivo. Bem, morto-vivo, mas ainda assim, um Black, o irmão de Sirius, seu tio, um ex-comensal da morte, se era verdade o que ele estava falando… ela daria um braço para saber o que eles estavam conversando na sala de reuniões, a portas fechadas. Ela imaginou, por um momento de pânico, se ele comentaria sobre ela. Que a conhecera na noite passada. Que tinham passado a noite juntos…
— Miau?
Bervely pulou de susto pela segunda vez naquela noite, mas era só Jinx, que acabara de saltar para dentro da janela e veio se enroscar nela, pedindo que coçasse as suas orelhas. Quando ele a tocou, lhe enviou também uma pergunta. Queria saber porque estava tão nervosa. Isso deu a Bervely uma ideia.
— Preciso que vá para a sala de reuniões e me mostre o que está acontecendo — disse para o gato, o empurrando em direção à porta — Anda, rápido!
Jinx miou indignado, mas Bervely insistiu, indo abrir a porta para ele. Sabia que o gato podia dar um jeito de entrar mesmo que a porta da sala de reuniões estivesse trancada; gatos eram gatos, e não estava errada. Um par de minutos depois ela sentiu aquela sensação esquisita de que alguém abrira uma janela no fundo de sua cabeça, e logo estava vendo duas cenas; podia ver o interior do quarto em que estava, mas ao mesmo tempo, se se concentrasse, podia ver o interior da sala de reuniões do terceiro andar, de um ponto muito mais baixo do que o de costume, rente ao chão, através dos olhos de Jinx.
O gato saltou na mesa oval, colocando os três ocupantes da sala em sua linha de visão. Bervely conseguia ver Sirius de pé perto da janela, tenso, andando para um lado de outro. Remus, perto da porta, silencioso e com a mão no bolso; e enfim Sanguini, em uma das cadeiras, virado para Sirius, falando numa voz baixa e pausada:
— …surpreso quando reconheci você no palco ontem à noite, anunciando-se como Toquinho para aquela multidão de alunos. Os jornais anunciaram no verão que você tinha morrido no Ministério da Magia, num ataque envolvendo um monte de adolescentes e comensais da morte.
— O jornal diz um monte de bosta — Sirius retrucou com azedume. — Eu estive morto, acho que pode dizer assim, mas acabei voltando. Longa história.
— O que faz dois de nós — disse Sanguini, arriscando um sorriso pontudo. Jinx tinha se aproximado dele, que afagou entre suas orelhas distraidamente. Bervely sentiu o toque gelado dele como se fosse em sua nuca, arrepiando um arrepio coluna abaixo.
— Eu não entendo — Sirius, que não conseguia parar quieto, andou até perto da mesa. Seu rosto era um misto de confusão, desconfiança e relutante expectativa. — Como você pode estar vivo? Eu me lembro de receber a notícia da sua morte quando estava em Azkaban; um guarda trouxe o jornal, veio esfregar em minha cara… Disse que Voldemort mandou matar você quando você se acovardou com alguma missão. Eu nunca soube de nenhum caso em que Voldemort quis alguém morto e não terminou o serviço.
— Com exceção de Harry — Remus, que estivera quieto, comentou suavemente. Sirius lhe olhou com impaciência.
— Bem, Harry é a exceção que confirma a regra, não é? E isso não explica qualquer coisa sobre você — Ele olhou de novo para o irmão — Desembucha, Regulus, como conseguiu se esconder esse tempo todo?
— Eu não consegui — ele suspirou. Se virou para Remus como quem pede ajuda para explicar uma coisa complicada. — Você já percebeu o que eu sou, não é mesmo? Por isso não está preocupado de que eu seja uma ameaça. Diga a ele…
Remus se demorou. Bervely não conseguia vê-lo do ângulo que Jinx estava; o gato continuava apreciando a carícia distraída de Regulus em suas orelhas, de forma que ela só via a ele e uma parte de Sirius agora, suas mãos impacientes se remexendo nos bolsos vazios da calça. Mas ela conseguiu ouvir a voz do lobisomem ao fundo:
— É claro que eu percebi no momento que entrou, o cheiro é inconfundível. Para mim, ao menos. Ele é um vampiro, Sirius.
— Quê? — Sirius estalou do outro lado. — Um… quê? Impossível. Quero dizer, como…?
Sanguini deu de ombros. Sanguini não… Regulus. Bervely precisava ficar se lembrando disso. Regulus, seu tio morto. Morto-vivo. Muito vivo, especialmente sobre ela na noite passada, dentro dela, sussurrando dentro do seu ouvido, mordiscando seu pescoço, provocando-a enquanto a tomava e fazia seu corpo inteiro vibrar e queimar…
Ela apertou os olhos, tentando afastar as memórias intrusas e se concentrar no que estava acontecendo na sala de reuniões. Perdera parte da explicação de Regulus, que ainda falava com toda a calma do mundo, ainda coçando a nuca do gato prateado à sua frente:
— …sabia que ele me caçaria e me mataria para me fazer de exemplo, assustar qualquer outro comensal que ousasse desertar depois de aceitar a Marca Negra, então tomei precauções. Não foi fácil, mas finalmente consegui achar um pouco de sangue de vampiro no mercado negro. Usei parte da minha herança, todo o adiantamento que recebi aos dezessete — ele deu uma risadinha irônica. — Não é como se eu fosse precisar de dinheiro se o meu plano falhasse, não é mesmo? Carreguei o sangue comigo para todo lado enquanto fugia, era o meu último recurso para quando me achassem.
— Isso é loucura! — Sirius exclamou, os olhos arregalados. — Todo mundo sabe que só uma parcela ínfima de bruxos consegue sobreviver à conversão sem que o cérebro vire uma sopa, as chances são quase inexistentes em uma situação ideal, ainda mais com algum sangue velho comprado no mercado negro…!
— Bem, e o que eu tinha a perder? — Regulus riu pelo nariz, achando graça. — A morte já era certa, a diferença era só o que aconteceria depois dela. Bebi o sangue no último momento, quase não deu tempo, e para falar a verdade eu estava certo que não funcionaria. O resto você pode imaginar. Passei pela conversão e por algum milagre o meu cérebro não virou “sopa”. Eu acho. Posso estar enganado.
Sirius puxou uma cadeira, se sentando na frente do irmão. Ele ainda estava agitado, mas Bervely podia ver através dos olhos de Jinx que a incredulidade no rosto do pai era aos poucos substituída por uma esperança dolorosa de que aquela história fosse mesmo verdade.
— E então o quê? Como conseguiu se esconder de Voldemort todo esse tempo? Porque não reapareceu quando ele foi derrotado? Por que só surgiu agora? O que estava fazendo esse tempo todo?
Regulus sorriu para a enxurrada de perguntas, que como Bervely, sabia significar que Sirius estava tentando se agarrar aos fatos, procurando entender como podia ser possível, convencer-se de que podia ser convencido.
— Eu não precisei fazer muito, todo mundo já achava que eu estava morto, só precisei desaparecer. Mudar de nome, viajar para longe. Quando Voldemort caiu pelas mãos de Harry Potter eu pensei em voltar, mas… voltar para o quê, realmente? Não tinha me restado nada aqui. Papai morreu pouco depois de mim, você em Azkaban, mamãe já estava louca… e ficaria mais louca ainda quando soubesse o que o filho caçula dela tinha se tornado; você sabe a opinião da nossa família sobre criaturas. Um vampiro pisar sob o teto da família Black? Isso a mataria do coração, no mínimo. E além disso, eu não sabia como os comensais da morte reagiriam ao meu retorno. Imagino que eles ficaram todos loucos quando Voldemort desapareceu, sem entender o que tinha acontecido. E se eles achassem que eu tinha algo a ver com a coisa toda? Preferi não arriscar, havia mais a perder do que a ganhar se eu voltasse.
— Mas então… o que mudou agora? Voldemort está de volta à ativa, se ele descobrir que você conseguiu escapar, vivo ou morto-vivo ele vai querer terminar o que começou!
— Verdade — Sanguini se aprumou na cadeira, pensativo. — Mas eu não sou mais a mesma pessoa que era antes. Não sou mais Regulus Black, para todos os efeitos. O que ele queria tirar de mim – o meu nome, a minha existência, as pessoas com as quais eu me importava, o meu futuro… ele conseguiu levar tudo isso, de um jeito ou de outro.
Sirius o encarava com intensidade; Bervely se perguntou o que ele estaria procurando no rosto do irmão caçula, do irmão que julgara perdido e que agora reaparecera em sua porta, de fato morto, mas mais do que isso. Procurava algum resquício do Regulus antigo? Uma fagulha de reconhecimento, familiaridade? Ou ao contrário, tentava entender quem era aquele novo ser que usava o corpo e a voz do seu irmão?
— Você disse que Dumbledore está ciente da sua presença aqui — Sirius lembrou, estreitando os olhos, ainda tentando encaixar todas as peças. — Por que está acobertando você?
— Não tenho certeza de que esteja ciente de quem eu era. Eu vim encontrá-lo para tratar de assuntos que não tem qualquer relação com o meu passado humano, e jamais mencionei o meu antigo nome em nossas cartas.
— Eu não vejo como Dumbledore deixaria passar o pequeno detalhe de que você é um ex-comensal da morte, honestamente.
— Então acho que ele não se importa — Regulus deu de ombros. — Isso foi em outra vida, Sirius. Literalmente.
Sirius assentiu devagar, assimilando. Ele trocou um olhar com Remus, que continuava parado em seu posto perto da porta. Bervely não soube que tipo de troca silenciosa eles tiveram, pois Jinx não estava olhando para eles, mas na direção geral de Regulus, que continuava lhe afagando com os dedos gelados. Ela podia sentir a satisfação desavergonhada com que Jinx recebia o afago; gatos não eram supostos a ter algum instinto de autopreservação contra mortos-vivos?
Humanos também, pensou ela, mas não é como se tivesse resistido muito à Sanguni na noite anterior. Na verdade, nenhuma resistência era uma definição mais próxima à realidade dos acontecimentos.
— Levante — mandou Sirius, ao mesmo tempo em que se levantava de sua cadeira e ficava parado em frente a ele.
Regulus se levantou devagar, sem saber o que esperar diante daquela ordem seca. Por um momento longo e torturante, os dois irmãos se encararam, frente a frente. Era impossível adivinhar o que se passava dentro de suas cabeças pelas expressões inescrutáveis em seus rostos. Então, Sirius abriu os braços, ao mesmo tempo em que um sorriso caloroso surgiu em seu rosto, vazando para os seus olhos, o sorriso que Bervely amava, um sorriso que ela não via iluminar o rosto do pai há muito tempo.
— Bem vindo de volta, Regulus. Pro inferno com o passado, bem vindo de volta.
O rosto pálido do mais jovem se abriu em surpresa, depois um sorriso incerto esticou os lábios pálidos, como se ele mal ousasse acreditar. Regulus deu passo à frente e abraçou o irmão mais velho com força. Como se tivesse esperado aquele abraço a vida inteira, como se não fosse irônico demais que só o recebesse agora, depois de sua morte.
— Obrigado, maninho. É bom estar de volta.
Bervely enfiou seus poucos pertences dentro de uma velha mochila que usara nos tempos de escola: umas roupas antigas que Tonks trouxera para ela do chalé dos pais durante a semana, todas as oito poções que a tinha tinha lhe receitado pós-Azkaban, a capa de comensal com que fugira da prisão, ainda com a maçaneta da rosa no bolso… as suas mãos tremiam com a pressa. A conversa na sala de reuniões estava terminando e Sirius, Remus e Sanguini… não, diabos, Regulus estariam de volta à sala de estar muito em breve, onde não a encontrariam.
Bervely não sabia o que ia acontecer agora, mas ela não queria ficar para descobrir. Ela não via como poderia aguentar qualquer variação da cena que incluía Sirius, todo empolgado com o retorno do irmão morto, ‘apresentado-o’ a ela, sua filha pródiga, e ela tendo que fingir que não o conhecia, que não tinha passado a noite em claro com ele fazendo coisas indizíveis, coisas sobre as quais preferia morrer antes que Sirius tomasse conhecimento.
Além do mais, ela não se esquecera da promessa de Sirius de que não a deixaria sair de casa, e a sua distração com Regulus parecia a oportunidade perfeita. Ela vestiu a jaqueta de couro e jogou uma alça da mochila nas costas, deixando o quarto e descendo as escadas com pressa, dois degraus de cada vez, derrapando na sala de estar e quase se chocando contra Yasi, que vinha na direção contrária. A garota estava um pouco mais viva e colorida do que quando Bervely a trouxera, pareceu surpresa com a sua pressa.
— Oi, podemos conversar um minuto? Nunca tive a chance de lhe agradecer pelo que fez por mim…
— Agora não — Bervely dispensou afobada, dando a volta em torno dela — não precisa agradecer.
— Mas você salvou minha vid–
Bervely se evadiu pela porta da frente, perdendo o resto da frase, e sumiu para dentro da escuridão densa da noite de Hogsmeade, esperando conseguir colocar distância suficiente entre ela e Sirius antes que ele se desse conta de que ela tinha saído. A sua esperança era de que, se estivesse fora de vista, Remus o convenceria de que era melhor deixar para perseguí-la no dia seguinte ao invés de fazer uma cena no meio da noite e chamar atenção da vila inteira. Se o lobisomem servia para alguma coisa, era para enfiar um pouco de sensatez na cabeça de Sirius quando ninguém mais podia, e Merlin sabia que ela precisava de tempo para se recompor e descobrir como, em nome de Slytherin, iria conseguir olhar para Sirius de novo, e para Regulus Black, depois de tudo aquilo.
— BD —
Nevermind, it's cool, I'll disappear
I'll surely one day run out of tears
Tell me what went through your mind that day
You left a scar you can't take away
(Não importa, tudo bem, vou desaparecer
Eu certamente vou ficar sem lágrimas um dia
Diga-me o que passou pela sua cabeça naquele dia
Você deixou uma cicatriz que não se pode tirar)
O dia seguinte, primeiro dia de Novembro, um domingo de céu claro e frio mordente, também foi o primeiro em dezessete anos que Cho Chang não acordou.
A notícia de que seu corpo fora encontrado na sala de barcos na noite anterior foi dada pela professora McGonagall para a escola inteira durante o café da manhã, antes da chegada do correio coruja. Havia um brilho mordaz em seus olhos e uma promessa silenciosa em sua voz quando ela os comunicou que as circunstâncias exatas da morte de Cho eram desconhecidas, mas que a situação não indicava que fora um ataque mais do que um acidente.
— Uma carta foi encontrada no bolso da Srta Chang. Os seus pais pediram para que ela fosse lida para os senhores. Eles acreditam que as últimas palavras de sua filha podem servir como algum consolo para os seus amigos.”
McGonagall tirou o pergaminho amassado de uma dobra das vestes e passou os olhos por ele; ela parecia relutante quando começou, a voz numa entonação morna e altiva, um contraste pungente com as palavras simples de Cho. As últimas palavras de Cho.
— “Queridos mamãe e papai, não foi sua culpa, e não há nada que vocês poderiam ter feito.” — A professora pigarreou, engolindo em seco. Todos os olhos do salão estavam presos nela. Ninguém ousava respirar. Os olhos cansados da professora navegaram pela mesa da Corvinal, passando por duas alunas — “Queridas Pam e Marietta, obrigada pela sua amizade e sobretudo paciência nos últimos anos. Desculpe toda a tristeza.” — Então, ela olhou para a mesa da Grifinória e achou Harry. Harry achou que havia um pedido de desculpas mudo no rosto da professora, ou talvez fosse só pena. — “Querido Harry, boa sorte se é verdade o que eles dizem, e você for mesmo o Escolhido. Querido Ced”— Minerva se interrompeu. Respirou. Começou de novo. — “Querido Ced, vai ser bom te encontrar de novo. Com amor, Cho.”
Ninguém disse nada pelo resto do café da manhã. Na verdade, foi um dia bem silencioso, o dia mais silencioso de que Harry se lembrava ter tido em Hogwarts.
Quando a tarde caiu, a Armada se reuniu na Sala Precisa, porque parecia que apesar de não terem muito a dizer, ninguém queria ficar sozinho no meio de todo aquele silêncio estarrecido.
Harry se sentou num canto, quieto e pensativo, Rony e Hermione por perto, às vezes trocando olhares cheios de significado um com o outro que Harry estava feliz em ignorar. Ele sabia muito bem no que os amigos estavam pensando; na mesma coisa que ele não parava de pensar desde que McGonagall lera a carta:
“Querido Harry, boa sorte se é verdade o que eles dizem, e você for mesmo o Escolhido.”
Alguém colocou uma foto de Cho no espelho, ao lado da de Cedrico. Na foto ela sorria amplamente, vestida no uniforme de Quadribol, depois de ganhar a copa das casas no fim do seu quinto ano. Era insuportável olhar para aquela foto sem sentir uma punhalada no peito, então Harry não olhava. O fogo da lareira, estalando, rugindo e destruindo, era mais interessante.
— Pensei que ela estava melhorando — comentou Susan baixinho a certa altura, para ninguém em especial. — Nunca fomos muito próximas mas sei que ela estava melhorando as notas, que caíram um bocado ano passado…
Eles iam e vinham. Alguém trouxe comida da cozinha. Conversavam em voz baixa, Harry pegava comentários aqui e ali, embora não estivesse prestando atenção de verdade.
— Foi aniversário de Cedrico há alguns dias. Teria sido, quero dizer — ele ouviu Padma Patil falar para irmã, a voz rouca.
— …a coisa com Dino sumindo depois de eles terem algo no verão não ajudou em nada — Alicia suspirou por ali, a voz triste.
— Cho não estava de coração partido — Harry ouviu Luna comentar. Virou a cabeça o suficiente para ver os olhos grandes e azuis dela aparecerem em seu campo de visão, cheio de certeza, depois sumirem quando ele se voltou para o fogo — Ela estava com medo.
— Com medo de quê? Os pais dela estava sendo ameaçados ou algo assim? — Susan Bones quis saber.
— Não… medo de continuar perdendo as pessoas que amava — Luna murmurou. Harry não estava mais olhando, mas sentiu uma sensação estranha na nuca e achou que a garota estava olhando para ele.
Mas não adiantava ficar procurando motivos ou respostas ou razões… nada justificava a motivação de alguém tão jovem, tão cheio de futuro e possibilidades, em apenas desistir da vida daquele jeito. Cho era mais uma vítima, como Cedrico fora, como os pais de Harry, como a tia de Susan, a irmã de Hannah… a lista era interminável e continuava crescendo, da mesma forma que crescia a coleção de fotos pregadas ao espelho daquela sala.
A tarde rolou através deles e se tornou noite. Ninguém tinha energia para treinar feitiços de defesa, e ninguém ousou perturbar Harry em seu canto perto do fogo, embora alguns tivessem se aproximado tentativamente para dar os pêsames, como se Harry fosse de alguma forma mais atingido porque saíra com Cho um par de vezes no ano anterior. Ele se sentia especialmente atingido, mas não por isso… Ela tinha, afinal, se dirigido a ele na carta. Ele era parte do que a entristecia. Era parte da lista de coisas que tinham feito a vida de Cho insuportável demais para continuar.
À tardinha, Harry viu Ernie e Hannah chegarem juntos, abatidos. Alguém teve a ideia de conjurar patronos; logo, todos os que conseguiam conjurar um patrono corpóreo materializaram seus animais prateados, de modo que baleias, cavalos, cães inquietos e três tipos diferentes de peixe ficaram circulando pela sala, deixando o ar pesado de luto ligeiramente mais respirável. Quando já estava escuro do outro lado das janelas, Astoria Greengrass apareceu e veio direto até Harry dizer que sentia muito.
— Eu ouvi dizer que ela foi a sua namorada, é verdade? — ela perguntou sem constrangimento, fazendo uma coisa gelada descer e se instalar no estômago já endurecido de Harry.
— Uh… não realmente.
— Que pena. Às vezes com você ela teria ficado mais alegrinha, né? Preciso ir, Harry, só passei para dar meus pêsames. Vamos ter outra reunião para treinar em breve?
— Vamos avisar pelas moedas — interferiu Hermione com secura, de algum ponto à esquerda de Harry.
Astoria assentiu e foi embora, seguida até a porta pelo olhar indignado de Hermione.
— Quanta falta de sensibilidade!
— Está tudo bem, Mione — Harry disse cansado — Talvez ela esteja certa. Não fui um poço de apoio para Cho quando a gente estava saindo.
— Ora, não coloque isso na sua conta! Você também estava lidando com um monte de coisas ano passado.
Em torno da hora do jantar, a maioria dos colegas começou a se despedir, deixando a sala ampla da AD ainda mais silenciosa sem os murmúrios e os patronos para preenchê-la. Hermione suspirou lembrando que tinha reunião de monitoria, que tinha sido adiada para aquele domingo por conta das comemorações de dia das bruxas na sexta-feira.
— Certamente eles vão cancelar a reunião, não? — Rony sondou esperançoso — Quer dizer, alguém morreu, pelo amor de Merlin.
— Isso significa que mais do que nunca a escola precisa de nós, Rony! Monitores não servem só para apontar o caminho para a próxima aula, sabe, somos parte do suporte moral de Hogwarts em momentos difíceis como esse! Harry, você quer ir com a gente? Tecnicamente você não poderia, mas não acho que ninguém vá fazer caso nas atuais circunstâncias…
— Eu vou ficar bem aqui, não se preocupe — ele lhe garantiu. — Rony, Mione está certa. Vocês são monitores, precisam estar lá para a escola agora. Andem, vão logo.
— Você ainda precisa nos contar o que viu na aula com Dumbledore — Hermione sussurrou, lembrando-se que Harry estava na sala do diretor quando a notícia da morte de Cho chegara. — Ele lhe mostrou mais alguma coisa que valha à pena?
— Conto mais tarde — Harry prometeu, sem energia para pensar no passado sombrio de Voldemort naquela hora.
Vencida, ela içou Rony por um braço e se despediu de Harry, ainda com um vinco de preocupação entre as sobrancelhas ao se afastar. Harry deu um suspiro de alívio ao se ver sozinho na sala; como acontecera logo após a (suposta) morte de Sirius e por muito tempo depois, ele se via almejando companhia quando não a tinha, mas sentindo-se abafado e agoniado quando estava entre os amigos, ansiando por solidão e silêncio para colocar a mente em ordem, ou ainda, para navegar no seu caos interior em paz.
Ele deixou-se cair de costas no tapete fofo que cobria o chão, fechando os olhos, respirando fundo, enchendo os pulmões com o ar seco e com cheiro de madeira queimada que vinha da lareira.
“Querido Harry, boa sorte se é verdade o que eles dizem, e você for mesmo o Escolhido.”
O sorriso luminoso de Cho na foto o perseguia mesmo com os olhos fechados, grudado em suas pálpebras. Ele se pegou imaginando como teriam sido os últimos momentos da vida dela, sozinha na casa de barcos onde tinha sido encontrada. Será que ela tinha ficado lá, escrevendo aquela carta, chorando, sozinha, assustada? Será que teria feito alguma diferença se Harry estivesse lá, ao invés de se divertindo em uma festa, completamente alheio ao que acontecia sete andares abaixo?
Será que Astoria estava certa, e Cho estaria viva se ele não tivesse sido um babaca com ela e se recusado a falar sobre a morte de Cedrico no ano passado, ocasionando a ruptura do que quer que eles estavam tendo?
Será que, mais uma vez e sem surpresa, a culpa era sua?
Harry ouviu um assobio ecoar pela sala, como um pipilar de uma ave minúscula. Achou que estava ficando louco, mas o passarinho piou de novo. Harry abriu os olhos e avistou, voando entre ele e o teto abobadado e alto da sala, um passarinho prateado, translúcido, inquieto, deixando atrás de si um rastro de feitiço prateado. Um patrono.
Sob o escrutínio surpreso de Harry, o pequeno pássaro voou em arcos cada vez mais baixos no ar até flutuar bem acima do seu rosto; então ele se inclinou rasante e pousou na ponta do seu nariz.
Harry tentou espantá-lo, perplexo. Ouviu uma risadinha no fundo da sala. Ele sentou, surpreso em saber que não estava sozinho, e viu que Johanne saltava para o chão do parapeito de uma das janelas altas do lado oposto da sala, onde a luz da lareira não alcançava.
— Desculpe, eu não resisti — ela disse, andando até onde ele estava e estendendo a mão. Seu pássaro-patrono voou até ela e pousou no torso de sua mão; Anne acariciou o topo da cabeça dele, e recebeu de volta um piadinho satisfeito. — Eu já estava de saída, só queria ter certeza de que está bem.
Harry caiu de costas no tapete de novo, fechando os olhos, esperando que ela chegasse perto para responder.
— Eu não sei o que eu estou — ele confessou numa voz abafada, surpreendendo a si mesmo. Era fácil falar isso para ela. Ele queria falar isso para ela.
Anne parou de pé ao lado da sua cabeça. O cheiro dela, um frescor de lavanda que ele sabia vir do que quer que ela usasse para lavar o cabelo, chegou até o seu nariz e lhe provocou um arrepiozinho de satisfação.
— Tudo bem não saber, também — ela disse. Mesmo com os olhos fechados Harry sabia, pelo tom da voz, que ela estava lhe dando um sorriso tranquilizador. Ele sentiu um pouco do peso que pressionava o seu peito diminuir.
— Há algo de estranho em toda essa história — ele confessou. Não tinha percebido que isso que o inquietava até dizer em voz alta, mas era verdade.
— É claro que é estranho. Suicídio é sempre estranho, sempre faz a gente achar que o mundo está fora dos eixos.
— Não — Harry meneou cabeça, pensativo — É só que eu não acredito que ela fez mesmo isso.
Harry sentiu Anne se sentar ao lado da cabeça dele. O corpo dela emanava calor, e ele sabia que se movesse a cabeça dois centímetros, o lado do seu rosto encontraria o joelho dela. Não pretendia fazer isso, mas havia algo de reconfortante em saber que a possibilidade existia.
— Você ouviu a carta dela, todos nós ouvimos. É triste admitir, mas parecia bastante com uma carta de despedida.
Harry balançou a cabeça de novo, repassando a carta em sua cabeça, que ele lembrava do começo ao fim e nunca achava que fosse esquecer. “Queridos mamãe e papai… Queridas Pam e Marietta… Querido Harry… Querido Ced, vai ser bom te encontrar de novo.”
— Por que ela teria ido para a Casa de Barcos, entre todos os lugares? — Ele perguntou, mais para si mesmo do que para ela. Ela tinha ido para a casa de barcos quando parte da escola estava de volta às suas camas, e a outra parte bem onde eles estavam agora, na Sala Precisa, comemorando, festejando, se entupindo de doces trouxas, se enchendo de esperança. — Ela tinha assinado a lista do S.E.M.T.A.H., estava planejando vir para a festa, porque mudou de ideia? Por que estava sozinha, porque as amigas não estavam com ela, porque ninguém a viu sair no meio da noite para… para…
Ele parou de falar, um nó travando a sua garganta e engasgando as palavras. Estava protestando para o teto, os punhos cerrados, uma indignação pungente atravessando seu corpo, uma reação que ele tinha segurado até ali, o dia inteiro, conseguindo manter-se apático até aquela hora, até deixar transbordar agora, sem conseguir contê-la. Como aqueles que se julgavam amigos de Cho poderiam ter deixado ela fazer uma coisa dessas? Como podiam tê-la deixado sozinha sabendo que ela estava triste? Será que não tinham visto o perigo? Será que tinham visto e mesmo assim não se importavam? “Desculpe toda a tristeza.” , Ela tinha escrito em sua carta. Sinto muito que a minha tristeza incomode vocês. Já vou dar um jeito nisso. Perdão por existir…
Harry sentiu um toque suave no topo de sua cabeça; Anne estava correndo os dedos gentilmente pelo seu cabelo. Um arrepio prazeroso se espalhou do ponto que ela tocava até os seus braços, e pelo pescoço até a coluna dele, abrindo espaço através da indignação que tencionava o seu corpo. Ele congelou, imóvel. Primeiro surpreso com o efeito do toque dela, depois com medo de que, se se mexesse, ela ia achar que ele queria que ela parasse.
Ele nem ousava respirar, o que acabou lhe distraindo e depois acalmando da agitação anterior. Por outro lado, seu coração estava disparado. Harry ousou abrir os olhos depois de um tempo. Encontrou Anne olhando diretamente para ele, um sorriso pequeno nos lábios, que ela reprimiu quando o pegou encarando, mas que não sumiu de seus olhos.
— Eu sinto muito. De verdade. Eu sei que todo mundo sente, porque ela era amada e não merecia terminar desse jeito. Eu acho que estamos começando a entender o quanto falhamos com ela. Todos nós. — Ressaltou, olhando significativamente para ele, como se soubesse o que estivera pensando antes.
Harry fechou os olhos de novo. Anne continuou mexendo em seu cabelo, quase distraída, sem saber que movia também coisas dentro dele, como que reorganizando os pedacinhos quebrados, virando as pontas afiadas para dentro, diminuindo a dor de cada pequena coisa que o cortava de dentro para fora.
— Harry? — chamou Anne depois de um tempo. Harry estivera flutuando para o limiar entre a consciência e o sono, mas voltou quando ouviu a voz dela e murmurou para sinalizar que estava ouvindo. Anne hesitou, e então, tímida: — Posso tentar fazer você se sentir melhor?
Ele forçou os olhos a se abrirem, sem entender. Será que não era óbvio que ela já estava fazendo?
— Como assim?
— Você sabe, com nossa… uh, conexão? Acho que você pode chamar assim.
— Ah. — Harry se deu conta do que ela queria dizer, sentindo o rosto esquentar. — Uh… tudo bem.
Anne mordeu o lábio inferior, ele achava que ela também estava corando mas era difícil dizer com só a luz da lareira os iluminando. A garota tirou a corrente que usava em torno do pescoço, aquela que Harry sabia que reprimia as habilidades videntes estranhas dela, e o colocou no chão ao lado deles. Ela lhe deu um sorriso diferente, meio embaraçado, meio travesso, e esfregou as mãos como que para esquentá-las. Harry olhou os olhos, mas não conseguiu evitar um sorriso meio sem jeito também.
Ela estendeu a mão para ele e Harry a pegou, respirando fundo. Diferente das outras vezes, Anne dessa vez deslizou os dedos entre os dele, os entrelaçando. A sensação fluiu da palma dela para a dele como uma onda de calor, mágica, morna, poderosa, calmante, eletrizante, tudo ao mesmo tempo. Conforto, felicidade, segurança, casa. Era mais forte agora do que tinha sido da primeira vez que eles tinham aberto a mente um para o outro na aula de Adivinhação Avançada. Era como se a conexão mágica fluísse por um caminho que no começo era um túnel estreito e agora era uma galeria, enorme e luminosa, abrigando os dois num lugar comum, um espaço seguro dentro de suas mentes.
Ocorreu a Harry que deveria se preocupar com aquilo. Uma brecha tão gigante em sua mente, um acesso tão ilimitado à outra pessoa… Dumbledore, Sirius, todos lhe advertiram de que deveria praticar oclumência, aprender a proteger-se contra ataques, mas lá estava Harry fazendo o exato oposto, não só deixando a mente aberta mas entregando todo acesso à alguém que só conhecia há um par de meses, e que por uma centena de motivos poderia colocá-los em perigo, tanto a ele quanto a ela.
Mas Harry não conseguiu se preocupar; não naquele momento, pelo menos. Não quando ele sentia que podia respirar, que havia ar o suficiente, pela primeira vez em muito tempo. E o ar era Anne. Ela sorria amplamente para ele agora, ciente do que ele estava sentindo, inundada com o mesmo tipo de sensação otimista que o preenchia.
E então?, Anne soou em sua cabeça, sem precisar de palavras para se fazer ouvir, fez alguma diferença?
Harry apertou a mão dela mais firme.
Faz toda a diferença do mundo.
— BD —
I don’t know what’s worse
That you did or that you didn’t
I can’t seem to figure out
Who’s the hunter and who’s the hunted
(Eu não sei o que é pior
Que você fez ou que você não fez
Eu não consigo descobrir
Quem é o caçador e quem é a caça)
No café da manhã do dia seguinte, bandeiras negras substituíam as costumeiras bandeiras das casas sobre cada uma das mesas das casas no Salão Principal de Hogwarts. Dumbledore estava lá, e esperou que a maioria dos estudantes estivesse presente para se levantar e pedir silêncio.
— Eu quero expressar a minha devastadora tristeza com a partida precoce da Srta. Chang das nossas vidas. Hogwarts está dando todo o suporte possível para a família da Srta. Chang e está de braços abertos para acolher os seus amigos e colegas, todos aqueles que a amavam e que, nos próximos dias, meses e anos, irão lidar diariamente com a sua ausência.
“Eu peço que procurem apoiar uns aos outros. Sejam gentis e sensíveis. Lembrem-se de que sofrimento se manifesta de muitas formas e que devemos fazer tudo ao nosso alcance para ajudar os nossos amigos nesse momento de terrível tristeza. Não existem culpados individuais, apenas a certeza de que falhamos juntos em antecipar essa tragédia.”
O diretor lançou um olhar um pesado e sentido para os alunos diante dele. Harry achou que ele parecia exausto e muito, muito velho. Sempre soubera que Dumbledore era velho, mas o nunca o vira dessa maneira até então. Tão vulnerável e suscetível ao peso dos acontecimentos dentro da escola que ele fazia de um tudo para proteger.
“A Srta. Chang, como muitos de vocês, estava sustentando pressões muito maiores do que qualquer ser humano deveria precisar suportar sozinho. A nossa única chance de sobreviver em momentos como estamos vivendo é nos unir. Usar amor, sabedoria e tolerância para combater a violência, o preconceito e o caos. Quero que saibam que, embora as aulas seguirão de maneira normal, nenhum aluno será penalizado se decidir não comparecer nos próximos dias. Para alguns a rotina é estruturante e traz um senso de segurança, mas não para outros, e Hogwarts respeita essa individualidade.”
“Antes que eu os deixe continuar apreciando o seu café da manhã, tenho mais um aviso. A Sra. Bervely Black estará se unindo ao quadro de docentes da escola como professora auxiliar de Poções a partir de hoje.”
Harry ergueu a cabeça rápido, pensando ter ouvido errado. Só então ele reparou que a irmã de Johanne estava sentada à mesa dos professores, à esquerda de Snape. Logo ele percebeu que devia estar louco por não notá-la antes, já que ela ainda estava tão verde como no dia da festa de Halloween. Ela mantinha as costas bem retas e olhava para algum ponto além dos estudantes, lá do outro lado do salão; ele achou que ela parecia tensa.
— Ela assumirá algumas turmas de poções para que o prof. Snape tenha mais tempo para se dedicar às aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas — continuou Dumbledore. — Os senhores ficarão felizes em saber que Srta. Black está se especializando em Alquimia pelo Instituto Flamel, um dos mais respeitáveis do mundo em sua área de estudo, e que tem experiência em ensino desde a sua época como estudante em Hogwarts, em que foi monitora de poções. Alguns de vocês se lembrarão dela como a monitora chefe da Sonserina entre 1993 e 1994.
Com exceção de palmas esparsas vindas da mesa da Sonserina, a maioria dos estudantes reagiram com burburinhos sobre o sobrenome e a cor da pele incomum dela. Alguns ainda reconheciam Bervely do jornal, onde ela fora citada na ocasião de sua prisão um mês e meio antes, e de novo na ocasião do levante dos dementadores há algumas semanas, já que o seu nome figurava na longa lista de prisioneiros cujos corpos não tinham sido recuperados, e tinham sido presumidos mortos ou desalmados.
— Oh, isso não vai descer bonito para a imagem de Hogwarts — Rony murmurou à frente de Harry, preocupado. — O que é que Dumbledore está pensando?
— Anne me disse que as queixas contra ela foram retiradas — Harry comentou, não muito surpreso. — Tecnicamente não tem nenhum motivo pelo qual ela não possa…
— Oh, não — disse Hermione, empalidecendo. Ela acabara de desenrolar o Profeta Diário que uma coruja das torres deixara ao lado do seu prato mais cedo.
— O quê? — Harry perguntou ansioso. — Alguém que conhecemos?
— Não alguém… algo — ela passou o jornal para Rony e Harry verem a manchete. — Oh, não, oh não, oh não.
“ESTUDANTE MORRE APÓS FESTA COM TEMÁTICA TROUXA EM HOGWARTS”, dizia a manchete em uma fonte dramática bem na primeira página.
— Mas, quê! Cho nem estava… uma coisa não tem nada— Harry engasgou, indignado. Os três juntaram as cabeças para ler a reportagem:
“Segundo depoimento de um estudante que prefere não ser identificado, uma organização formada por estudantes de Hogwarts que se identifica como S.E.M.N.T.A.H., ou “Sociedade pelos Mestiços e Nascidos Trouxas de Hogwarts”, promoveu neste sábado uma festa de Halloween na qual os convidados foram impelidos a celebrar a referida data de tradição bruxa milenar ao modo “trouxa”. É de conhecimento geral que os trouxas se apropriaram deste evento de grande importância para nós e o adaptaram para uma versão ofensiva, na qual fantasia as suas crianças a partir de versões, frequentemente deturpadas, das nossas criaturas mágicas e de nós próprios, bruxos.
Segundo nossa fonte, o evento teve a aprovação da direção da escola e colaboração de uma iniciativa comercial externa, a Loja das Gemialidades Weasley, que teria fornecido artefatos encantados para ‘fantasiar’ os estudantes com versões ofensivas de elementos mágicos, bem como produtos alimentícios de origem não-mágica para serem distribuídos na dita “festa”.
Não bastasse a evidente depreciação dos costumes bruxos a desenrolar bem debaixo do nariz do diretor da escola, que não tomou nenhuma medida para impedir o evento, uma estudante, Cho Yan Chang, foi encontrada morta no fim desta mesma noite. As circunstâncias exatas que resultaram na morte da Srta. Chang são até o momento desconhecidas, mas, segundo declaração dos seus pais, ela teria sido encontrada em trajes típicos da cultura trouxa japonesa, o que sugere a sua participação no evento. Chang era uma proficiente e bem sucedida estudante do sétimo ano da casa da Corvinal…”
Harry parou de ler quando ouviu um soluço. Ele ergueu o rosto a tempo de ver o rosto de Hermione contorcido e os olhos cheios de lágrimas.
— Mione, sem chance! Isso não tem nada a ver com a festa, por favor.
— Não sabemos disso — ela murmurou com horror. — Se Cho estava usando uma fantasia…
— Mesmo se ela estivesse, não faz nenhum sentido! Não a vimos lá, além do mais a festa não foi nada disso que estão dizendo, estão deturpando tudo…
— Preciso ir — Hermione olhou para a mesa dos professores à procura de Dumbledore, mas ele não estava mais à vista. — Preciso falar com o professor Dumbledore, preciso pedir desculpas…
— Mione, espera! — Rony chamou, mas a garota já estava caminhando apressada para fora do Salão Principal, em direção às portas duplas — Vou atrás dela!
Harry acompanhou com os olhos os amigos caminharem para fora de vista e depois, muito irritado, puxou o jornal para terminar de ler.
A reportagem continuava tentando forçar uma relação entre a festa e a morte de Cho, usando ligações imprecisas e informações que só alguém que estivesse na festa poderia saber, como o tipo de doces eles tinham distribuído, quais professores estavam presentes e até sobre o show de “Toquinho” no final da noite. Em nenhum lugar a carta de Cho era citada, fazendo parecer que a garota tinha apenas caído dura e morta depois de consumir doces trouxas em uma festa “ofensiva para as tradições, costumes e representação bruxa” e “subversiva em seu apoio ao pior lado da intolerância e ódio que os trouxas alimentaram em relação à comunidade mágica durante os últimos séculos”, “manchando para sempre a imagem de um espaço de excelência em ensino mágico tal qual a conhecemos”.
Era tão manipuladora e cheia de ódio que Harry terminou de ler com as mãos tremendo; ele não teria se surpreendido em ver a assinatura de algum comensal da morte no final da reportagem — mas o repórter assinara com um pseudônimo qualquer.
Harry saiu vibrando do Salão Comunal, o jornal todo amassado em uma mão. Não ajudou nada encontrar Malfoy no caminho. Ao vê-lo fumegando, o sonserino achou uma boa ideia se interpor em seu caminho e lhe lembrar de sua infortunada existência.
— Hey, Potter — ele arrastou sua voz para Harry, como se Harry tivesse todo o tempo do mundo para ouvir a sua ladainha. — Vocês devem estar bem felizes agora, hein, a festinha da turma dos sangue-ruins teve cobertura nacional e tudo.
— Péssimo timing, Malfoy — Harry o advertiu sem parar de andar.
— Ah, não me diga que não gostou da abordagem? Quer dizer, o que é que você esperava? Hogwarts é uma escola de MAGIA, é claro que uma subversão dessas não ia passar em branco, ainda bem que Chang morreu para colocar um fim nisso ou então o que mais vocês iam inventar, Natal trouxa? Aulas trouxas? Porque não quebramos logo todas as varinhas e…
Draco foi interrompido pelo punho de Harry, que se chocou contra o seu maxilar esquerdo em um estalo surdo. O loiro desequilibrou e quase caiu para trás, se apoiando na parede no último segundo. Os estudantes que estavam passando por eles a caminho das aulas foram formando um aglomerado ao ver sangue, mas nenhum se deu ao trabalho de intervir. Harry teve um vislumbre rápido de Astória olhando assustada, mas ela também não tentou interceder pelo colega de casa.
— Você ia dizendo, Malfoy?
— Você acabou de provar meu ponto — disse o sonserino com frieza, esfregando o maxilar machucado. — Gente como você, Potter, que usa os punhos no lugar da varinha, não devia ter o direito de usar a magia.
— Engraçado, porque gente como você, Malfoy, não merece ter boca pra falar esse monte de merda. Vamos dar um jeito nisso? — Harry avançou, cego de ódio, pronto para terminar de quebrar a cara de Malfoy sem nenhum pingo de magia, bem como ele merecia. Ele atingiu Draco de novo, do lado direito dessa vez, e ninguém o impediu, nem os colegas, nem o próprio Malfoy. Havia um sorriso irônico, insuportável na boca sangrenta dele, que Harry estava disposto a arrancar de lá fazendo uso de toda indignação acumulada dentro dele naquele momento.
Harry acertou um terceiro soco em Malfoy, que dessa vez caiu, tonto. Harry puxou a varinha, sem pretensão nenhuma de se abaixar para continuar batendo se podia terminar com ele dali de cima mesmo.
— Já chega, Potter. Expelliarmus!
Sua varinha saiu voando de sua mão para a da professora McGonagall, que vinha abrindo espaço entre os alunos para chegar até eles. Harry soube que estava ferrado, mas fervia com tanto ódio que nem ligou. Bervely Black, que acompanhava a professora, olhou alarmada para a massa patética que era Malfoy, caído no chão como um brinquedo quebrado.
— Alguém, por obséquio, leve o Sr. Malfoy para a enfermaria. — Disse a professora Mcgonagall com secura. — Potter, venha comigo.
Harry viu Astoria se abaixar e ajudar Draco a se levantar; esquisito que ninguém mais estivesse ali por ele, nem seus amigos brutamontes nem os inúteis irritantes, Zabine e Parkinson…
Harry seguiu a prof. McGonagall. Bervely os acompanhou, por alguma razão que Harry no momento não podia se importar menos. Ao invés de irem ao escritório da professora, desceram um lance de escadas rumo às masmorras. Harry teve uma sensação de que aquilo seria bem pior do que imaginara quando acabou dentro de uma sala contígua à de poções, que lhe parecia um laboratório individual, ou ainda, o lugar onde seria torturado até a morte.
— Potter — disse McGonagall ao fechar a porta, a voz oca e decepcionada. — Realmente?
— Professora, se a senhora ouvisse o que Malfoy disse sobre Cho…
— Eu sei o que o Sr. Malfoy falou, eu o ouvi perfeitamente.
— A senhora ouviu? — Harry estava confuso. Achara que McGonagall tinha agido um tanto tarde para quem estava lá desde o primeiro soco.
— Sim, não é como se ele estivesse sussurrando, não é mesmo? Caso você não tenha notado, ele também não reagiu aos seus ataques.
— Porque ele é um idiota — Harry rosnou. Não sabia porque Draco não tinha reagido, mas com certeza tinha a ver com o fato de ele ser um idiota.
— Não estou bem certa de quem é o mais idiota nesse caso, para ser sincera — Minerva chispou. — Mas não foi pra isso que o chamei aqui.
— A senhora não vai me punir? — Harry aturdiu-se.
— Evidente que eu irei punir, Potter, o que é que você acha, que pode sair espancando os seus colegas sem nenhuma consequência? Você está detento até o recesso de Natal, vou pedir a Filch uma sugestão de algo bem desagradável para você fazer, não se preocupe.
— Ah — Harry se sentou quieto em um dos bancos altos, satisfeito de que o mundo ainda estava nos eixos. — Certo.
— Dito isto, imagino que tenha ouvido durante o café da manhã que a Srta. Black agora faz parte do nosso quadro de professores, ao menos de forma temporária.
— Sim — Harry não fazia ideia do que aquilo tinha a ver com o fato de estar quebrando Malfoy no corredor.
— O que traz a solução à um dilema que venho tentando resolver desde o começo de setembro. A Srta. Black concordou em dedicar parte do seu tempo a lhe prover aulas particulares de poções, de forma que você possa recuperar o atraso e prestar os seus N.I.E.M.s. no ano que vem, o que em consequência o possibilitará tentar uma vaga na Academia de Aurores quando terminar a escola.
— Ahh… mas eu pensei que precisava ter um “Ótimo” em Poções para continuar esse ano, foi o que o professor Snape disse. — Harry jamais perdoaria Snape por isso, bem como jamais o perdoaria por todo o resto do que o professor era, fizera e existira pelo resto da vida.
— Esse é um critério que a Srta. Black ficará feliz em flexibilizar.
— Ficará? — Harry olhou para a filha mais velha de Sirius com desconfiança. Black estava calada desde o começo da conversa e era impossível ler a sua expressão verde inescrutável. Harry não conseguia dizer se ela concordava com o que McGonagall acabara de dizer ou se preferia comer sapos mortos a “flexibilizar” alguma coisa pra ele.
— Sim, Potter, e você deve ser grato por isso. Eu prometi que arranjaria uma solução para o seu ensino em poções e aqui está a saída! Agora, a Srta. Black precisa saber qual o seu nível atual em poções para fazer um plano de aulas personalizado às suas necessidades, mas que ao mesmo tempo cubra todas as exigências do currículo do sexto ano. Eu vou deixá-los a sós para resolverem isso, mas que fique bem claro que eu espero sua completa colaboração com a Srta. Black durante essas aulas.
— Uh… nós vamos começar isso agora? — Harry hesitou. Ele tinha o horário vago na primeira hora de segunda feira quando o resto do sexto ano era suposto a ter poções bem ali ao lado, nas masmorras fétidas de Snape, e essa era uma pequena felicidade da sua rotina da qual não queria abrir mão.
— Sim, Potter, agora. A não ser que você tenha outro aluno para espancar com os próprios punhos num futuro próximo? — McGonagall o fuzilou através dos óculos retangulares.
— Não… não tenho, professora.
— Ótimo, nesse caso mãos à obra. Me encontre mais tarde para discutir a sua detenção.
Minerva os deixou a sós, fechando a porta atrás dela. A isso se seguiu um longo silêncio, no qual Harry encarava o balcão, as mãos latejando onde tinham se encontrado com o rosto de Malfoy, e Bervely, que usava vestes negras que pareciam uma versão feminina das de Snape, separava algum material nas prateleiras e colocava no balcão à frente deles.
— Eu, uh… vejo que ainda está verde — Harry comentou, na falta de algo melhor para dizer. Ela ergueu uma sobrancelha para ele.
— Bem observado, Potter.
Bervely colocou um caldeirão de latão tamanho 12 , uma edição muito velha de Estudos Avançados no Preparo de Poções e uma série de frascos e latas de ingredientes diante dele. Harry teve um mau pressentimento sobre como as horas seguintes se desenrolariam.
— Por que está querendo me ajudar? Snape não lhe disse que eu sou uma negação em Poções? Um “caso perdido”, como ele gosta de falar?
— Sim, ele disse, mas prefiro constatar com os meus próprios olhos, se não se importa. — Ela lhe indicou a série de elementos diante dele com um aceno da delicada mão verde esmeralda. — Você sabe, olhando para esses ingredientes, que poção é capaz de produzir?
Harry deu uma olhada de má vontade, mas alguns dos rótulos estavam virados para o lado oposto. Quando estendeu a mão para alcançar uma lata de aparência arcaica, sentiu uma dor aguda na articulação dos dedos e soltou um lamento surpreso. Tinha machucado feio a mão na cara de Malfoy; a pele sobre as falanges estava bem vermelha, bem acima da pálida cicatriz que dizia “Não devo contar mentiras”.
Ele tentou ignorar a dor e terminar de virar os rótulos em sua direção. Enquanto os lia, Bervely se levantou de novo e foi procurar mais alguma coisa nas prateleiras detrás dela.
Harry identificou losna, raízes de valeriana, raiz de asfódelo em pó e vagem sudorífera. Já havia usado aqueles ingredientes antes, mas nunca juntos.
— Não faço ideia — admitiu com mau humor. Bervely estava voltando com uma tira de pano branco embebido em um líquido com cheiro ácido e adstringente, que lembrava pus de bubotúberas. Ela colocou a tira sobre a mão machucada dele, apertando os lábios enquanto o fazia. A dor se aliviou de imediato, mas o olhar de Bervely sobre ele era perfurante como um espinho de agulheiro.
— A professora McGonagall estava certa, Draco estava provocando você para que fizesse algo idiota.
— Mas ele mereceu! — Harry reagiu, indignado. É claro que ela ia, como boa sonserina, ficar do lado de Malfoy, já devia ter esperado. — Você ouviu o que ele disse sobre Cho Chang? Você estava na festa também, como pode ficar do lado dele?
Bervely suspirou e se afastou, o deixando com a compressa de ditamno. Ela empurrou o livro na direção de Harry e indicou o caldeirão a sua frente:
— Esses são os componentes para a Poção do Morto Vivo. Ache-a no livro e a prepare-a para mim, você tem uma hora.
Harry rolou os olhos e puxou o livro de má vontade. Não só estava caindo aos pedaços como fora todo rabiscado, notas em todas as partes em que não havia texto impresso e às vezes até sobre próprio o texto. Muitas vezes as instruções originais tinham sido riscadas e “corrigidas” por comentários à mão, o que tornava muito complicado seguí-las.
Ele olhou incerto para Bervely, que havia sentado em outro banco e estava lhe assistindo trabalhar com ar de tédio.
— Algum problema, Potter?
— Não — Harry respondeu, orgulhoso demais para admitir que estava tendo dificuldades em usar o livro. Ela devia ter escolhido lhe oferecer a pior edição que tinha de propósito. Ele continuou lutando contra as instruções do livro e as notas confusas na meia hora seguinte, até que sem querer seguiu uma sugestão ao invés de uma instrução original e percebeu que conseguiu muito mais sumo espremendo, como a nota lhe mandara fazer, do que cortando as vagens sudoríferas.
De novo ele olhou de relance para Bervely, mas ela não esboçou qualquer reação à sua transgressão. Querendo sair logo dali, Harry decidiu seguir todas as notas feitas à mão sempre que elas divergiam das instruções originais. O resultado foi uma poção violeta cristalina de cheiro adocicado, exatamente como o livro descrevia. Bervely veio analisar o líquido e, após colocar uma amostra em um tubo de ensaio e observar contra a luz com atenção, assentiu satisfeita.
— Está impecável, o que prova que você sabe flexibilizar o seu método de acordo com a experiência empírica. Mas não basta saber que um método funciona melhor do que outro, é preciso saber o porquê. Você poderia me explicar, por exemplo, porquê amassar a vagem com uma adaga produz mais seiva, ou porque, nesse caso em especial, mexer uma vez no sentido horário a cada sete voltas no anti-horário faz a poção cozinhar mais rápido?
— Não — Harry disse com sinceridade. Ele não fazia a menor ideia.
— Seguir instruções que você não entende pode ser perigoso — ela o advertiu. — A sua primeira tarefa será pesquisar a explicação por detrás das duas adaptações do método original que você optou por seguir. Você pode manter esse exemplar para usar daqui por diante, acho que vai aprender algumas lições valiosas com ele.
— Certo — Harry deslizou para fora do banco, ansioso para sair dali, embora nem tivesse sido tão ruim quanto imaginara. — Uh… obrigado.
— Espere aí, Potter, ainda não terminei. A sua segunda lição — Harry ia abrir a boca para protestar para uma segunda tarefa, mas ela não lhe deu oportunidade. — …é dar uma olhada no livro e escolher uma das poções do último capítulo como o seu projeto de fim do ano.
— Qualquer uma? — Harry estranhou. — O professor Snape nunca nos deixou escolher que poção fazer nas aulas dele.
— Você deve ter reparado que eu não sou exatamente o professor Snape, que é, para começar, ligeiramente menos verde do que eu.
Harry arriscou um sorriso ao perceber que ela fizera uma piada.
— Agora vá, suma da minha frente. E Potter?
Harry se virou, já com um pé fora da sala.
— Draco é um imbecil — ela disse com uma calma perigosa —, mas encoste um dedo nele de novo e eu vou garantir que faço o triplo de estrago em você. Estamos entendidos?
— BD –
— …ela disse que eu posso escolher uma poção como projeto de fim do semestre entre as que estão no último capítulo — Harry contou para Hermione, com a qual finalmente conseguira sentar no fim daquela noite.
Ele ficara feliz em saber que a amiga estava mais calma; aparentemente o prof. Dumbledore a tinha tranquilizado a respeito da matéria do jornal, garantindo-lhe que ele iria cuidar do assunto pessoalmente e que nenhuma blasfêmia mal intencionada do Profeta Diário poderia mudar o fato de que a iniciativa do S.E.M.N.T.A.H. fora valiosa para diminuir o preconceito dos bruxos em relação aos trouxas, e que não havia nenhuma evidência de que o suicídio de Cho tinha relação com a noite de Halloween, até onde ele soubesse.
Então Harry tinha prosseguido e lhe contado sobre a sua ‘primeira aula’ com Bervely Black, convenientemente deixando de fora a sua pequena discussão sangrenta com Malfoy. Se Hermione ainda não sabia, não era ele quem ia lhe contar, imaginava bem o tipo de cara que a amiga ia fazer para ele e o sermão que ela ia lhe dar.
— Interessante, posso dar uma olhada? — Hermione puxou o livro para perto, folheando-o com crescente horror. — Minha nossa, que estrago fizeram com esse pobre livro-texto. E você disse que as notas lhe ajudaram a preparar a Poção do Morto-Vivo?
— Eu consegui terminar a poção em metade do tempo. Tem outras notas parecidas em praticamente todos os capítulos, o dono anterior deste livro era um gênio em poções ou algo assim.
— E você já olhou de quem era? Talvez haja uma assinatura em algum lugar.
Harry deu de ombros, não tinha achado nada na contracapa, onde havia um espaço para que o dono do exemplar colocasse seu nome. Hermione passou uma página, encontrando a folha de rosto do livro. Logo abaixo do nome do autor, Libatius Borage, havia uma assinatura inclinada, numa caligrafia tão péssima quanto a que se alastrava pelo restante do livro. Um sorriso surgiu no rosto dela quando desvendou a assinatura.
— Quem? Não me diga que é de Snape. Eu não vou ficar surpreso, mas confesso que me irritarei um bocado.
— Não era do professor Snape… dá uma olhada — ela lhe passou o livro com um sorriso misterioso.
Harry leu, um inesperado calor de reconhecimento e afeto inundando seu peito.
LIBATIUS BORAGE
e, logo abaixo, escrito à mão:
“e Lílian Evans”.
(Continua…)
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