A Canção de Morgana

25 A Rosa e o Mágico de Oz (Bônus)


Notas iniciais
Pra quem esteve se perguntando em que exatamente consistiu a travessura da Srta. Black na noite de Halloween. AVISO: hentai (ou: negritos que não colocarei em negrito, porque ninguém merece um capítulo inteiro negritado). Divirtam-se enquanto o próximo cap não vem :P

31 de outubro de 1996 — Halloween, Hogwarts

— Então parece que eu tenho a noite livre — ele concluiu, exatamente na mesma linha de pensamento que ela. — E pelo que entendi, você me deve uma travessura.

—Por acaso eu conheço um bom lugar no castelo para travessuras.

***

— Bem vindo às masmorras — anunciou Bervely ao pisarem no nível mais profundo, úmido e gelado do castelo de Hogwarts.

Os dois tinham atravessado os sete andares desde a Sala Precisa em relativo silêncio, Bervely concentrada em traçar uma rota que os mantivesse longe do alcance de Filch e Madame Norra, puxando da memória todos os desvios e passagens alternativas que aprendera nas rondas noturnas, em sua época de monitoria em Hogwarts. Sabia que não enfrentariam detenção caso Filch os pegasse “fora da cama”, mas velhos hábitos persistiam, além do mais não queria ter que explicar porque estava circulando pela escola na calada da noite, verde da cabeça aos pés, com um vampiro à tiracolo, considerando que já não estudava ali há dois anos.

A senha ainda era a mesma. Quando a murmurou, apontando a varinha para a maçaneta de ferro porta em forma de serpente, ela estalou e abriu à sua passagem. Bervely entrou e deixou a porta aberta; o Mágico de Oz escorreu para dentro como uma sombra sem substância. Ele se movia num silencio perturbador, seus passos quase sem barulho no chão de pedra. Será que encantara os sapatos com um abaffiato, ou era coisa da sua espécie?

Sem olhar na direção dele, e com mais um aceno de sua varinha, ela acendeu a lareira. Tendo usado aquele dormitório durante o seu último ano em Hogwarts o conhecia como a palma da sua mão, mas era estranho estar de volta: nada parecia ter mudado desde então. Quase como se nenhum dos monitores chefes da Sonserina depois dela tivessem querido se instalar ali, pensou.

A luz laranja do fogo que se estabelecia na lareira iluminou pedaços do seu passado, clareando flashes de lembranças das sombras de sua memória. A mesa de mogno, cheia de marcas de queimadura redondas onde ela apoiara o caldeirão quente, especialmente nos últimos, caóticos, meses antes dos NIEMs. O espelho comprido na porta do armário, onde costumava manter a foto dela, Anne e Sirius após o seu primeiro Natal numa caverna em Hogsmeade. Ela levara a foto consigo, é claro, atualmente morava dentro de um dos seus livros de Alquimia avançada, mas se lembrava perfeitamente do rosto satisfeito da irmã, da língua rosada de Snuffles pendendo para fora e da sua resistência a sorrir, apesar de estar tão cheia de calor familiar por dentro, mesmo após os horrores daquela noite, dos quais Sirius lhe ajudara a escapar. Sirius…

Bervely virou-se para a direção oposta ao espelho. A cama medieval de quatro postes, maior que uma cama de solteiro mas menor que uma de casal, ainda coberta com uma colcha de veludo verde com o brasão da sonserina. Quantas vezes ela se deitara ali com Oliver, quando ele escapava do dormitório da Grifinória para passar a noite com ela? A mesma cama para a qual Tara também corria de vez em quando, e sem falar naquela vez em que os três, Oliver, Tara e ela, a compartilharam juntos…

— Esse quarto costumava ser seu? — o Mágico perguntou, quase a fazendo saltar. Por um segundo Bervely se esquecera que ele estava ali, distraída com o redemoinho de lembranças.

— Por um tempo — admitiu, percebendo que tinha sido um erro trazê-lo ali. Ele era um estranho, um estranho naquele quarto cheio do seu passado, de memórias que ela não tinha se preparado para confrontar. Só tinha querido um lugar em que pudessem ficar a sós, mas porque não considerara as dezenas de salas vazios de Hogwarts? Só teriam precisado transfigurar uma cama, não era grande coisa! E se algum aluno da Sonserina com a senha os pegasse ali? Com certeza o monitor-chefe atual devia estar fazendo a ronda em algum ponto? Oh, e os elfos de Hogwarts a essa altura saberiam que o quarto estava ocupado, ela tinha acendido a lareira, eles tinham um jeito de saber dessas coisas!

— É melhor acharmos outro lugar — Bervely disse, voltando-se em direção à porta. — Não é seguro aqui, alguém pode nos achar, foi uma má ideia.

O Mágico não se moveu; continuou parado no meio do quarto, entre o espelho e a poltrona de brocados e veludo verde (a decoração da sonserina não era lá muito criativa, era?), olhando para ela com curiosidade.

— Você acha? O quarto não parece estar ocupado. Nenhum pertence pessoal, nenhum cheiro humano recente impregnado no ar. Embora devo admitir que o seu está por toda parte — ele completou como se isso fosse um fato ligeiramente engraçado.

Ela não achou engraçado, na verdade seu coração estava palpitando.

— É Hogwarts, as paredes tem ouvido. E olhos. Muitos ouvidos e muitos olhos.

A lembrança de sua última noite em Hogwarts tinha emergido para a superfície sem ser convidada; ela tinha inundado aquela ala da masmorra ao destruir a parede de vidro da sala-aquário que ficava naquele mesmo corredor. Não tinham lhe deixado voltar para o seu quarto depois que saiu da enfermaria, porque os elfos ainda estavam retirando todas as criaturas do lago que tinham se alojado atrás das mobilias e pelas reentrâncias de todos os cômodos ao longo do corredor. Ouvira dizer de que uma família de Grindylows se alojara em sua banheira e se recusara a sair, até serem chantageados com o equivalente a um mês de atum fresco. Imaginava se essa era a razão pela qual o quarto não voltara a ser ocupado; pensando bem, havia um pouco do cheiro algoso de fundo de lago impregnado no ar, mas então, os quartos das masmorras tinham todos alguma variação daquele cheiro…

— Eu vejo que as coisas não mudaram tanto assim desde o meu tempo — o Mágico comentou, trazendo-a de volta à terra. Agora ele estava caminhando pelo quarto, observando os detalhes: os entalhes do guarda roupas, as marcas circulares no tampo da mesa. As reentrâncias retangulares ao longo da parede de pedra, onde Bervely gostara de colocar os seus livros e os frascos de ingredientes, todos organizados por ordem alfabética. Agora todos os vãos estavam vazios, acumulando poeira e uma ou outra teia de aranha.

A Sra. Calliway… sua aranha gostava de espalhar teias no vão mais alto daquela parede, era a sua área de exercício. Uma linha espessa de teia costumava ligar o nicho à primeira gaveta da escrivaninha, a qual a Sra. Calliway escolhera habitar e Bervely costumava deixar sempre meio aberta. Ela sentiu um aperto inesperado de nostalgia; não pensava em sua aranha há muito tempo, desde que ela morrera de velhice no Instituto Flamel. Tinha sido uma boa aranha, lhe acompanhando por tantos anos, desde a Mansão Malfoy até Blackburn Hall, então de volta à Mansão e então à Hogwarts, elas tinham passado por tanta coisa juntas…

— Tudo bem com você? — ele se virara e lhe pegara no flagra no momento que Bervely secava uma umidade insuspeita no seu olho esquerdo. Ela ficou sem graça.

— Sim — pigarreou, procurando outro assunto assunto — Então você frequentou Hogwarts na sua época? Quanto tempo isso faz?

— Muito tempo. Bem antes de você, pode ter certeza — ele disse misterioso, revelando o peculiar sorriso pontudo. Ela não só teve o vislumbre dos caninos afiados, mas percebeu que os cantos dos lábios dele terminavam num ângulo agudo, como se seu sorriso perfurasse as bochechas ao se expandir. A combinação lhe provocava uma coisa estranha no estômago, misto de atração e agonia.

Era estranho: se ela precisasse adivinhar a idade dele pela sua aparência, não lhe daria mais de vinte anos. A pele era esticada e fresca, o rosto era liso e jovem, algo de juvenil principalmente nos olhos e cachos negro-brilhantes. Mas se ela juntara bem as peças – a sua conversa sobre morte com Cho Chang, os dentes pontudos, as pupilas em fenda, a palidez… então ela achava que a aparência dele poderia estar congelada há muitos anos. A ideia a fascinava mais do que assustava. Jovem para sempre… Ela inclinou a cabeça, curiosa.

— Quantos anos faz que aconteceu?

Ele inclinou a cabeça, uma pergunta nos olhos. Com a semi-escuridão do quarto, as pupilas estavam dilatadas, quase redondas, e eram tão grandes que os olhos pareciam negros, mas ela lembrava de que suas íris eram muito mais claras. Bervely reformulou:

— Quantos anos desde que você morreu?

O mágico não respondeu logo. Ela viu uma inflexão mínima no rosto dele e se perguntou se tinha ferido algum tipo de etiqueta vampírica ao fazer aquela pergunta.

— O que você acha? — ele disse por fim.

Normalmente ela não gostava de ter as suas perguntas devolvidas, mas resolveu entrar no jogo dessa vez.

— Não sei… uma centena? Cento e cinquenta e dois anos?

Ele riu. Sorriso pontudo. Pontada no estômago.

— Estranhamente específico — riu e continuou rodeando o quarto, se aproximando da cama. Ele parecia um gato, ela achou. Triangulando um novo território, decidindo se era seguro, farejando os animais que tinham passado ali antes. Se movia como um; lento e deliberado, elegante e cuidadoso. Bervely não sabia porque, mas isso deixava a sua coluna todo arrepiada.

— Então? — Bervely insistiu, vendo-o se aproximar do canto mais escuro do quarto, o vão entre a cama e a parede. Só podia ver partes de sua pele branca refletida pela luz da lareira, mas quando ele virou para ela sorrindo, os olhos e as presas cintilaram no escuro.

— Perto o bastante.

Então ele não ia lhe dar uma resposta direta; ótimo, porque não importava. Não é como se estivesse morrendo para saber detalhes do passado sombrio dele. Estava muito mais interessada nos detalhes sombrios do presente dele. Como tudo que ele estava escondendo debaixo daquela fantasia antiquada de veludo e linho, por exemplo, e de tudo que ele podia fazer com ela quando a tivesse em seus braços.

— Você tem uns cento e setenta e dois anos, então — ela calculou, achando graça. A ideia era absurda, que ele fosse tão velho como, ugh, Dumbledore (a pessoa mais velha que ela conhecia). Mas o que importava a idade, eram só números, só tempo passando, e quando olhava para ele o que via era uma malícia antiga nos olhos fendados, aperfeiçoada com o tempo, como certos vinhos.

O Mágico a observava atento e intrigado, a cama entre eles. Havia parado ao lado de um dos postes, semi-coberto por sombras como um predador espreitando. Sua lentidão deliberada deixava Bervely tensa; a expectativa crescendo. Seu coração pulsando, e outras partes dela também. A impressão de que trazê-lo ali fora uma má ideia tinha passado.

— A minha idade incomoda você? — ele quebrou o silencio, talvez achando que era nisso que ela estava pensando ainda.

— Não. Acho que tenho uma queda por caras mais velhos — ela disse, pressionando os lábio em seguida.

— Eu não sou um “cara” — ele lhe lembrou, observando com cuidado a reação dela, como se fosse importante que isso ficasse bem claro. — No sentido humano, pelo menos.

— Perto o bastante pra mim.

Ela estava andando na direção da cama, numa decisão inconsciente.

— Então a minha natureza não lhe causa repulsa? — ele insistiu. Não parecia preocupado de que fosse o caso, só curioso. Como se ela fosse tão interessante para ele como ele era para ela; uma espécie nova a se desvendar. Mas, ela pensou, ele já fora humano, certo? Um dia, num passado distante, ele já tinha respirado e sangrado como um. Será que fazia tanto tempo que já não se lembrava?

Ela soltou um risinho zombeteiro para a pergunta, soprado pelo nariz.

— Coisas repulsivas me causam repulsa.

Não eram poucas as coisas repulsivas que tinha visto nos últimos meses, em Azkaban e fora dela, e o Mágico estava longe de ser uma delas. Queria dizer para ele: você é o contrário de repulsivo. É uma das coisas mais fascinantes que já vi; mas não conseguia. Pelo jeito que ele lhe olhava, no entanto, ela achou que ele lia nas suas entrelinhas. Ou talvez estivesse lendo os seus pensamentos? Será que eles tinham essa habilidade? Não se lembrava, aquela fora uma aula muito longínqua em seu quarto ano em Durmstrang, e pra ser sincera nunca achou que encontraria um pessoalmente.

Nunca achou que traria um para o seu quarto.

Bervely subiu de joelhos na cama e chegou mais perto de onde ele estava, a respiração ficando acelerada à medida que se aproximava. Fazia tempo — tempo demais— desde a última vez que estivera com alguém daquele jeito. Depois de Oliver, no Instituto Flamel, ela tivera um ou outro caso, nunca longo, nunca importante. A maioria com colegas que ela admirava mais pela aparência do que personalidade… era mais fácil desse jeito. Pessoas que não a deixavam nervosa, sobre as quais não tinha grandes expectativas. Não como agora; não sentia o seu corpo querendo algo assim desde o verão, quando dera uns amassos em Gui Weasley no telhado do Hospital St. Mungus. Só que, enquanto ela sabia exatamente quem Guilherme Weasley era, a camada de mistério e potencial perigo em torno do Mágico deixava os seus nervos em brasa.

— Mágico de Oz — ela ouviu a própria voz chamar, mais rouca do que o normal. Ele, que não tinha desviado os olhos dela nem por um segundo enquanto se aproximava, reagiu ao seu chamado com uma leve contração das pupilas negras.

— Pois não?

Ela riu para o retorno educado, que era o contrário do que os olhos dele prometiam. O próprio sorriso dela foi mais de malícia do que de humor.

— Posso fazer a minha travessura agora?

Ele abriu outro dos sorrisos pontudos que mexiam com ela e assentiu. Bervely chegou mais perto e se esticou sobre os seus joelhos para ficar da mesma altura dele, se aproximando devagar, o coração tão disparado que parecia um tambor pagão numa cerimônia de sacrifício. Encostou seus lábios nos dele, mantendo os olhos abertos.

Macios, frescos. Frios. Ele fechou os olhos e, para a sua surpresa, aspirou. Ele a estava farejando, ela notou. Será que ele conseguia sentir o cheiro de sua calcinha encharcada? Não duvidava nada, não do jeito que estava…

Se afastou o suficiente para ver a expressão no rosto dele; ilegível. A falta de reação a deixou, de repente, muito consciente de si própria. Do peso que perdera em Azkaban e ainda não recuperara, das sardas no nariz que não podia esconder sem metamorfomagia, e sem falar da pele ainda verde-esmeralda, persistindo mesmo que tivesse se livrado do maldito trouxapéu há quase uma hora.

— A minha natureza lhe causa repulsa? — ela ecoou a pergunta num tom de ironia que esperava encobrir a sua insegurança. O Mágico negou, sem desviar os olhos dos seus. As pupilas dele tinham voltado a se contrair, deixando-lhe ver o formato de foice no centro das íris, quase transparentes à luz do fogo.

— Se quer mesmo saber — ele murmurou, a voz também mais rouca do que antes, arranhando partes adormecidas dentro dela. — Faz muito tempo que estive com uma humana. Mal me lembro da última vez.

— Que jeito de fazer uma garota se sentir especial — zombou Bervely, sem saber exatamente o que fazer com aquela declaração. A excitação começava a se acumular sobre si mesma, se transformando em dolorida ansiedade.

— Não, você não entendeu — ele prosseguiu, usando a ponta frias dos dedos para afastar uma mecha de seu cabelo, ainda longo, da frente do seu rosto. — É algo que eu não faço desde que eu morri.

Ela se afastou das mãos dele, incrédula e começando a ficar irritada também.

— Quer me dizer que na sua centena e meia de anos você nunca se deitou com uma humana? Se está inventando essa conversa para fazer com que eu me sinta especial, pode parar agora mesmo porque eu não vou cair nessa.

— Por que eu precisaria dizer alguma coisa para fazer você se sentir especial? — O Mágico piscou, como se ela não estivesse fazendo nenhum sentido.

— Porque é isso que os caras fazem — ela deu de ombros, impaciente.

— Eu não sei o que os “caras” fazem — declarou o Mágico —, só estou dizendo a verdade.

— E que diferença isso faz para mim? — perguntou, seu corpo ainda queimando e pedindo por ele, os dois perto e distantes demais, aqueles dez centímetros entre os seus corpos lhe matando, fazendo com que toda a conversa parecesse fora de propósito.

— Achei que poderia querer repensar. Não está com medo?

Ela deu uma risada vacilante.

— Meu bicho-papão é tudo, menos um mago fictício da literatura trouxa com dentes afiados e cachos de querubim. A não ser que você queira que eu esteja com medo? — ela reconsiderou, provocando. — Podemos jogar esse jogo.

— Não, sem jogos — ele disse. Se ela não soubesse que ele não respirava, poderia ter achado que perdera sem fôlego. — Venha aqui.

Não teve tempo de responder; o Mágico enrolou as mãos frias em seus pulsos e a puxou para perto, capturando seus lábios com a devida fome com a qual ela tinha ansiado ser beijada desde que pousara os olhos nele, naquele beco da falsa Hogsmeade. Ela abriu a boca, deixando que a língua dele entrasse. Esperava que fosse fria como os lábios e se surpreendeu quando a achou quente, se enrolando na sua com provocação.

Ela se desvencilhou dos pulsos dele para poder passar os braços em torno do seu pescoço e trazê-lo mais para perto, colando os seus corpos. Ele a agarrou pela parte inferior das coxas e suspendeu seu corpo, encorajando-a a enrolar as pernas em torno de sua cintura. Ele podia não ter estado com humanas, mas certamente estivera com mulheres, porque parecia saber o que fazer com ela. Não havia nada de relutante na forma como a deitou em sua antiga cama e a cobriu com seu corpo rígido e quente, mais quente do que ela tinha esperado, duro nos lugares certos, e Merlin abençoasse, especialmente duro na pressão que fazia entre as suas pernas.

Ele a deixou por um segundo para subir na cama e se posicionar melhor, dando a Bervely a oportunidade de vislumbrá-lo sob a luz da lareira, que agora incidia em seu rosto e peito. A cartola fora embora, deixando livres os cachos negros, e as pupilas eram fendas estreitas. Ela ficou surpresa em descobrir que ele ofegava, seu peito subia e descia como se de repente oxigênio fosse uma necessidade. Ainda era mais pálido do que a maioria dos vivos que ela conhecia, embora a luz alaranjada do fogo lhe desse um banho de dourado.

Ela o ajudou a se livrar do colete de veludo azul e da camisa de botões, curiosa para saber o que encontraria por baixo. Encontrou um peito largo e liso, cujos músculos eram moldados mais para agilidade em detrimento de força; longos e flexíveis, se relevando sob a pele quando ele se movia. Não havia sombra de pêlos em sua pele impecável, que lembrava mármore polido, especialmente onde ela podia ver ondulações de veias azuis sob a superfície.

Ela percebeu que ele lhe pegara admirando e sentiu o rosto esquentar. Ele se inclinou perto do seu ouvido:

— Minha vez, eu acredito.

Bervely deixou que ele puxasse o seu suéter – um dos que Nymphadora arranjara para ela, em listras de dois tons de cinza, os dedos frios dele se arrastando pela pele de seu pescoço quando a ajudou a se livrar da gola. Ela usava uma blusa de botões por baixo, a qual ele abriu escorregando os botões de madrepérola para fora de suas casas com facilidade. Então ajudou-a a se livrar das mangas e ela ficou semi-nua, apenas o sutiã preto de algodão contra a sua pele ainda verde-esmeralda. Ela imaginou o que ele devia estar vendo, o pensamento a fazendo se retrair; suas costelas aparentes, talvez até a reminiscência de algum hematoma mal-curado da prisão; deixara de usar as poções de ditamno há algum tempo, por causa do cheiro. Mas quando esquadrinhou os olhos dele, percebeu que o foco do seu interesse era o seu braço esquerdo, as espirais negras que os ramos da rosa faziam ao subir pelo seu pulso até a base do pescoço.

Ela notou pela expressão dele que o Mágico sabia que eram mais do que uma tatuagem.

Seus olhos se cruzaram. Ela achou que ele ia perguntar e advertiu com o olhar que não o fizesse. Essa noite não era sobre a maldição que ela carregava desde os cinco anos de idade. Não era sobre o seu destino vendido, nem sobre os pesadelos que vinham no escuro.

Ele entendeu, sua expressão se suavizando. O Mágico se inclinou e beijou o seu ombro, roçando os lábios frescos sobre os nós dos ramos, que se enrolaram satisfeitos diante dos arrepios que ele provocava. Bervely arrastou as mãos pelas costas dele, sentindo a maciez da pele e a consistência dos músculos, até encontrar seu pescoço e a nuca, deixando que os dedos se entranhassem nos cachos macios. Os beijos dele subiram o seu pescoço, o seu queixo e encontraram a sua boca de novo, brincando com seu lábio inferior, usando os dentes e depois a língua. Sua provocação era calculada, provando-a, descobrindo as reações que causava nela a cada um de seus movimentos.

Em algum momento ela quis acreditar que ele estava falando a verdade; que era a primeira humana com que que ele ia para a cama em muito tempo. Pelo jeito com que ele parecia beber as suas reações. O modo como arrastava as mãos pela sua pele, como se o calor que ela irradiava, a textura que tinha, fossem fascinantes para ele.

O magico enterrou o rosto em seu cabelo como se não pudesse ter o bastante do seu cheiro. Olhou com atenção para o seu rosto, bebendo as suas expressões enquanto a tocava, primeiro nos seios, massageando devagar, besliscando-lhe os mamilos, depois com mais força, torcendo quando descobriu que ela gostava. Depois por sua barriga, percebendo o arrepio que provocava, os pelinhos finos se eriçando, as terminações nervosas sensíveis respondendo. Brincou, contornando os dedos pelo seu umbigo e a barra da calça até que ela se contorcesse, resmungando, apertando as coxas uma na outra.

Sem pedir, ele abriu os botões de sua calça e a escorregou pelas pernas dela. Nesse ponto, Bervely já se esquecera de que estava verde, não parecia mais importante, não do jeito que ele lidava com ela, como se nunca tivesse tido nada mais interessante em suas mãos.

O Mágico puxou a sua calcinha para baixo sem demora, correndo as palmas por debaixo de suas coxas e fechando os dedos a um palmo de seus joelhos, afastando as suas pernas. Ela só teve um segundo para achar o fôlego e antecipar o que viria, antes de sentir sua língua — molhada, quente — escorregando pelasua intimidade, bebendo a umidade acumulada ali pelo que já parecia uma eternidade. Ela se contorceu e choramingou, mantida no lugar pelo aperto firme do Magico. Ele lhe deu um segundo para respirar, depois voltou a lamber, devagar, como quem tem todo o tempo do mundo.

Ele tinha todo o tempo do mundo, Bervely pensou em meio à espiral de prazer pela qual deslizava mais e mais fundo, a cada contato daquela língua com seu ponto mais sensível.

Ele tem o mundo inteiro nas mãos. Juventude eterna e imortalidade, e essa noite escolheu passar o tempo entre as minhas pernas. O pensamento a fez sorrir. Ela se inclinou, se apoiando nos cotovelos para vê-lo em ação. Era uma imagem e tanto, o corpo longilinio e grande curvado sobre ela, os dedos se afundando em sua carne para mantê-la ali, para que pudesse continuar devorando-a devagar. Seus ombros largos e seus cachos escuros era tudo o que ela podia ver dali, pelo menos até ele levantar a cabeça e lhe olhar nos olhos.

Bervely perdeu um fôlego; o Mágico parecia entorpecido, as pupilas tão estreitas que eram só dois riscos verticais dividindo as íris claras. Através dos lábios entreabertos, ela viu as presas protuberantes, maiores do que caninos normais, como se projetadas para fora. Sua primeira reação foi susto; ela se contraiu para se afastar, mas ele a segurou firme, sem deixar que ela se movesse, os olhos presos no dela.

— Esta tudo bem — prometeu, a voz macia e rouca. Se inclinou, se aproximando devagar do interior das suas coxas. Bervely se viu muito consciente dos seus batimentos cardíacos. Seu corpo inteiro pulsava, como se o seu coração não estivesse só no peito mas em todas as veias do seu corpo.

Os lábios dele, e suas presas enormes por debaixo, se aproximaram de onde ela sabia que a sua artéria femoral pulsava, responsável por bombear todo o sangue que agora irrigava as suas partes baixas. Ela assistiu o Magico encostar os lábios em sua pele, olhando fixamente para ela e beijá-la docemente, fechando os olhos, inspirando fundo.

Bervely buscou relazar, esvaziando o ar dos pulmões, deixando as costas voltarem à cama, sentindo a adrenalina queimando em sua corrente sanguínea como um combustível. As pontas afiadas das presas roçaram em sua pele quando ele fez o seu caminho de volta para cima, um beijo casto depois do outro. Lhe ocorreu se ele estaria se controlando para não afundar as presas nela, provar do seu sangue quente, inundar a boca do calor que pulsava dentro dela. A ideia de que podia estar estava controlando uma fome tão enorme para estar com ela em um nível humano a fez se sentir mais ainda mais molhada, se é que isso era possível.

O Mágico nivelou os seus rostos de novo, o corpo colado ao dela.

— Você é tão quente — ele murmurou, fascinado. Ela precisou concordar; havia uma fornalha queimando dentro de si, como se as chamas da lareira fossem um reflexo do que ela tinha acontecendo por dentro.

— Você também — ela notou, ainda tonta com todas as sensações que tinham lhe jogando em algum lugar entre o céu e o inferno em sua ação lá embaixo. Do seu primeiro beijo até aquele momento ele tinha ficado progressivamente mais quente, ardendo como uma chama lenta do centro para fora. Calor irradiava do peito dele e das partes baixas, mas o toque ainda era frio, e os lábios, frescos. — Como isso é possivel?

— Metabolismo leniente — ele disse, achando graça da surpresa dela. — Não ensinam isso na escola, não é?

A mão dele estava fazendo círculos pelos seus seios de novo. Os mamilos de Bervely, contraídos com o contato, formigavam em antecipação ao toque que ele prometia com sua carícia errante, cada vez mais próxima. Ela só prestava metade da sua atenção para o que ele dizia, a outra metade perdida em sensações indescritíveis de derretimento e necessidade entre as pernas.

— Não sei o que significa — Bervely disse, mordendo o lábio quando ele finalmente capturou e apertou gentilmente seu mamilo esquerdo. Ela soltou um suspiro indigno. Queria que ele brincasse com o seu corpo até que ela se derretesse inteira, virasse uma poça de tesão naquela cama e esquecesse o próprio nome.

O sussurro rouco dele em seu ouvido a atiçava tanto quanto o jogo de seus dedos:

— Aula de vampiro numero um... significa que eu otimizo o uso de energia de acordo com as situacao, queimando extra quando o momento exige. Meio como fazem certos animais de sangue frio.

— Animais de sangue frio, certo — ela repetiu debilmente. O Mágico estava dedilhando o seu caminho para baixo de novo, e em antecipação ela já pulsava inteira de novo, numa necessidade surda de ser acariciada, esfregada, preenchida por ele.

— É você quem está fazendo isso comigo — ele disse, ao mesmo tempo em que seus dedos encontravam a fenda entre suas pernas e deslizavam para dentro dela, sem pressa. — Fazendo meu sangue correr mais rápido, meu coração bater mais forte…

Os dedos dele voltaram para encontrar a proeminência sensível de seu clitoris. Bervely deixou escapar um gemido longo, movendo-se contra as mão dele, roçando contra seu toque. Pouco lhe importava se ele não conseguisse se controlar, se decidisse que se alimentaria dela, se aquela fosse a última noite de sua vida. Não se lembrava da última vez que tinha se sentindo tão viva, que tinha pulsado tão forte, que tinha respirado tão fundo a ponto dos pulmões quase explodirem, por uma razão que não fosse dor.

Agindo por impulso, Bervely se ergueu de forma a ficar apoiada sobre os joelhos. Seu cabelo, longo e negro, ainda sob efeito do que quer que o trouxapéu tivesse feito com ela, caía em uma cascata desordenada sobre os ombros. Seu peito subia e descia no ritmo dos arquejos, o resto do seu corpo pulsando de desejo faminto.

Ela tinha se esquecido de como querer tanto alguma coisa se parecia. A morte de Sirius a anestesiara de um jeito que o seu retorno não tinha conseguido curar, e entao ela mergulhara num entorpecimento ainda mais profundo dentro da sua cela de Azkaban, esquecendo-se de como era se sentir viva.

Sentiu que estava finalmente acordando. O Mágico, sem querer, lhe lembrara de como era se importar.

Ele a ajudou a passar uma das pernas sobre ele, e quando estava confortável ela sentou nas coxas dele e lhe abriu as calças, libertando a ereção que esperava por ela. Ele não mentira; estava duro como pedra. Ela o admirou só por um momento, tentada em prová-lo com a sua boca primeiro, a língua ansiando sentir a textura e o gosto que ele teria, mas haviam coisas mais urgentes, como o chamado persistente em seu útero.

Ela sentou em seu colo, sentindo-o deslizar para dentro, alargando-a numa extensão que arrancou o ar dos seus pulmões e a empurrou perigosamente para a beirada do êxtase. O Mágico gemeu rouco e a segurou pelos quadris, impedindo que ela se movesse por alguns segundos, os olhos fechados, concentrado. Quando ele relaxou o aperto, ela experimentou mover o quadril para frente e para trás. Ela suspirou, deliciada com a sensação do atrito raspando nas paredes internas, do membro inchado, das coxas firmes dele embaixo dela, a visão dele, os lábios separados e rosados, as presas afiadas por debaixo, os cachos negros sobre o travesseiro… Quis continuar se movendo só para fazê-lo gemer de novo, mas o efeito em seu corpo era tão intenso quanto no dele, e ela precisava trincar os dentes e respirar em arquejos rápidos para não ir longe demais.

— Continue — ele pediu, olhando para ela através de suas pupilas dilatas de prazer. Não importava o quão velho ele fosse… entre as suas pernas, implorando para que continuasse, ele não passava de um garoto… não era o que ela esperava, mas no fim foi o que a enterneceu, perceber que ele estava tão perdido quanto ela estava, que nenhum dos dois estava mais no controle, que se dissolviam juntos, um no outro, apesar da diferença gritante de suas naturezas.

***

Horas sem conta noite adentro, perdidos um no outro, tão afogados nos hormônios do prazer inundando suas veias que agiam sem pensar, seus corpos no controle das mentes, a dança mais antiga da natureza, aquela não precisava de ensaio.

Bervely sentiu que nunca tinha conhecido tão intimamente alguém com quem tinha trocado tão poucas palavras; eles podiam se comunicar com seus corpos com muito mais habilidade do que ela conseguia se comunicar com a maioria das pessoas em sua vida.

Ajudava-lhe saber que não o veria de novo quando aquela noite terminasse. Já tinha decidido isso; ela jamais saberia quantos anos ele tinha de fato, ele jamais saberia seu nome. Era libertador e, de certo modo, fez com que a noite parecesse eterna.

Quando estava exausta demais para continuar, Bervely deixou o corpo relaxar contra o dele, a cabeça sobre o ombro pálido, um braço do Magico ao redor de seu corpo. Ela ardia em lugares improváveis. Haveriam hematomas no dia seguinte, dos apertões e mordidas que encorajara. Não pretendia curar nenhum deles com mágica. Eles seriam a lembrança noite em que ela acordara de volta para si mesma. Quem diria que, para isso acontecer, precisaria de um vampiro vestido de mágico fajuto? A vida era estranha.

Na superfície de Hogwarts, o dia amanhecia.

***

Eu acho que parte de mim sabia, no segundo que eu o vi, que isso iria acontecer.
Não é realmente nada que ele disse ou qualquer coisa que ele fez,
Foi o sentimento que veio junto com isso.
E o mais louco é que não sei se vou me sentir assim de novo.
Mas eu não sei se deveria.
Eu sabia que seu mundo se movia rápido demais e ardia muito forte.
Mas eu apenas pensei, como o diabo pode estar mandando você para alguém
que se parece tanto com um anjo quando sorri para você?

(Eu sabia que você era problema,
Taylor Swift, tradução livre)

Notas finais
Comentários ou travessuras? *Esse capitulo re-editado em 19 de maio de 2020.