A Canção de Morgana
26 Familia Super Omnia
Notas iniciais
— Os homens esqueceram essa verdade,
— disse a raposa. —
Mas tu não a deves esquecer.
“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.
Tu és responsável pela rosa…"
— Eu sou responsável pela minha rosa… —
repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
(O Pequeno Príncipe — Antoine de Saint-Exupéry)
O início de novembro se desenrolou sobre Hogwarts como o abraço de uma mortalha-viva, instalando o inverno nas frestas que silêncio, do luto e do agouros trazidos pelas corujas abriam a cada manhã. Demorou uma semana para o Profeta Diário se cansar de esmiuçar a morte de Cho Chang, difamar a competência do professor Dumbledore (colocando em cheque a sua capacidade de manter a escola segura) e afirmar que Hogwarts estava “perdendo o caráter” depois de celebrar uma festa de Halloween trouxa.
A nova notícia preferida do Profeta era o novo e controverso programa de formação “relâmpago” de aurores que o Ministério da Magia estava promovendo, para contrabalancear as perdas de contingente recentes. Após perder metade dos aurores recém-formados durante o verão, as dezenas de aurores sênior cuja alma fora sugada no último levante de Azkaban, e todas as baixas em missões anti-comensais da morte, o departamento de execução das leis mágicas estava capengando. O anúncio de uma página dizia em letras garrafais “O DELM QUER VOCÊ”, sobre a foto de um bruxo de expressão dura em roupas formais de auror, a varinha em guarda em uma mão e a outra mão apontando para o leitor. O subtítulo dizia: “Você é um bruxo maior de idade e quer fazer a diferença? Auroria pode ser a sua vocação, nos envie uma coruja.”.
A rotina de aulas aos poucos retornava ao normal, embora as bandeiras negras de luto no Salão Comunal não tivessem sido retiradas, servindo como uma constante lembrança de que Cho não estava mais entre eles. Por conta do desfalque ao time de Quadribol da Corvinal, do qual Cho fora apanhadora, a casa tinha sido dispensada de jogar a próxima partida contra a Lufa-Lufa, e seria substituída pela Sonserina. O ganhador dessa partida enfrentaria a Grifinória depois do feriado de Natal.
A detenção por ter esmurrado Draco consistira em polir sozinho todas as vassouras da escola, trabalho que Harry acolheu com satisfação. Ele nunca tivera qualquer problema com trabalho manual, que em sua infância lhe mantivera longe de problemas e costumava deixar os Dursley satisfeitos. A mecânica repetitiva da atividade lhe propiciava um torpor meditativo, além de lhe dar a oportunidade de passar algum tempo sozinho. Esses momentos eram apreciados; com a exceção de seus amigos próximos, ficar ao redor de pessoas vinha se tornando cada vez mais desconfortável. Harry notara que, desde que os jornais insistiam que ele era o Escolhido, a maioria dos colegas lhe encarava como se ele fosse parte de uma espécie diferente; os que acreditavam que era o seu destino derrotar Voldemort se referiam a ele com uma deferência silenciosa, carregada de expectativa ou pena, e os que achavam que ele estava alimentando os boatos porque queria ser o centro das atenções lhe lançavam olhares de desdém e criticismo. Era muita pressão, de toda forma, a qual Harry preferia evitar sempre que possível.
Então haviam os pesadelos, tão regulares como as batidas de um relógio. Vinham em três sabores: no primeiro, Harry sonhava com Cho sozinha na casa de barcos, chorando. Em seu sonho ela caía na água, gritava por ajuda, mas ninguém vinha. Ela afundava no lago, mas de alguma forma olhava direto para Harry através da água, os olhos opacos e acusadores até desaparecer na escuridão. No segundo, Harry se via usando um turbante enorme e fedorento para esconder a bagunça que era o seu cabelo, mas o turbante ficava dando uma risadinha irritante. Quando Harry decidia arrancá-lo, descobria que a cabeça de Voldemort estava atarraxada ao fundo da sua e era por isso que Voldemort sabia de todos os seus pensamentos. Então, o terceiro pesadelo recorrente era o de que ele estava nas masmorras cozinhando uma poção, decidia usar o punhal de Sirius para mexer o caldeirão ao invés da concha e o deixava cair lá dentro; Bervely ou Snape (às vezes uma combinação bizarra de ambos), surgia de algum lugar para lhe dizer que agora estava tudo perdido, que ele nunca poderia derrotar Voldemort.
Os pesadelos se revezavam, às vezes se combinando em vagas e confusas versões (a cabeça de Snape atarraxada à sua, Cho lhe julgando por derrubar o punhal, do fundo do caldeirão…), mas de todo jeito Harry vinha se habituando a acordar por volta das quatro, suando de terror. Não conseguia voltar a dormir; se dava por vencido e pegava a Firebolt, indo voar por duas ou três horas antes do café da manhã. Estava desenvolvendo olheiras crônicas; agora quando Hermione olhava para ele, havia um franzido permanente de preocupação na testa dela. Ela nem lhe enchera o saco por esmurrar Malfoy, só tinha dito “tenho certeza que ele mereceu” e voltado a falar sobre a pesquisa para Transmutação Humana Avançada, a tarefa para Transfiguração que tinham dali a dois dias.
Quando a sexta-feira chegou, Harry se arrastou de má vontade para as masmorras. Poções passara a ser a sua primeira aula da segunda-feira e a última da sexta, desde que McGonnagal decidira que ele se beneficiaria de uma jornada dupla para recuperar o tempo perdido na matéria. Não era a pior das coisas, agora que tinha o antigo exemplar da mãe para lhe guiar. Tinha folheado o livro nos intervalos entre as outras aulas ao longo da semana; o mantivera na mochila desde segunda-feira, gostando de desvendar a caligrafia difícil de Lílian e ter vislumbres de sua personalidade espirituosa transparecendo através das suas notas.
As anotações da mãe às vezes lhe causavam sorrisos inesperados. Descobrira que Lílian gostava de desenhar no canto das páginas quando estava entediada. Ela tivera uma fase de obsessão com coelhos que durara três capítulos. Os rabiscos de orelhas longas saltitavam entre os parágrafos, às vezes roendo notas de rodapé desnecessárias do autor. Eram adoráveis.
— Potter — Bervely disse quando ele entrou na sala de poções anexa que usavam para as aulas, que ele agora entendia ser o laboratório dela. Estava mais organizado desde a última vez que Harry estivera ali, os frascos mais alinhados nas prateleiras, o balcão de trabalho mais limpo. Ela continuava verde da cabeça aos pés; ele se lembrava de que Bervely era metamorfomaga, como Tonks (nunca ia se esquecer aquela dia em que ela se transfigurara em Bellatrix Lestrange bem diante dele, no hospital St. Mungus), mas porque alguém escolheria ficar verde de propósito? Harry ouvira alguns colegas da Grifinória zombando dela mais cedo, dizendo que parecia uma cópia alienígena de Snape. Eles tinham parado de falar quando perceberam que Harry estava olhando.
— Professora Black — ele cumprimentou, largando a mochila de qualquer jeito no chão e puxando o livro de Lílian de dentro dela.
Bervely fez uma cara de quem tinha sido beliscada. Olhou feio para a mochila largada no chão e pareceu que ia falar alguma coisa, mas mudou de ideia assim que seus olhos pousaram em Harry.
— Você parece péssimo, Potter.
— Oh, obrigado. Você também — ele disse com cinismo. Bervely franziu o cenho, mas resolveu deixar passar.
— Página quarenta e dois, poção reestabelecedora. Mas antes de começar, você fez as tarefas que passei na segunda-feira?
Harry tinha feito. Ele puxou os dois pergaminhos de dez e doze centímetros da mochila, meio amassados porque tinham ficado debaixo do livro de herbologia, e entregou para ela.
— Muito bem, vou corrigir enquanto produz a sua poção. Não esqueça de lavar as mãos antes de começar.
Harry fez uma careta, mas seguiu as instruções em silêncio. Abriu na página quarenta e dois e foi buscar os ingredientes e utensílios de que precisaria no armário; descobriu que era muito mais fácil achar o que precisava ali do que no armário de Snape, que era organizado por categoria, e que os utensílios que Bervely separara para ele eram os mais polidos e limpos que jamais usara em poções.
Ela lia o seu primeiro relatório, olhando de vez em quando pelo canto de olho na direção dele, sem interferir. Logo Harry esqueceu que Bervely estava ali, envolvido pelo processo. As instruções para aquela poção estavam cheias de notas de Lílian, feitas com diferentes cores de tinta, provavelmente em diferentes momentos. Ela havia mudado de ideia e sobreescrevido em algumas. Nas bordas da página haviam comentários e instruções para variações da poção original, específicas para certas situações. Parecia que ela tinha produzido aquela receita muitas e muitas vezes, e não só na escola. Bem no canto da segunda página, Harry viu um asterisco em um ingrediente (raiz de licorice) e no rodapé uma nota correspondente: “James é alérgico. Substituir por figo-do-reino.”
Harry sentiu os olhos embaçarem, ao mesmo tempo que um sorriso se formava em seu rosto. Limpou o rosto com a manga da camisa, o óculos entortando no rosto, mas quando o ajeitou, percebeu que Bervely estava lhe encarando.
— Algum problema, Potter?
— Ahh, não. Acho que a raiz de licorice está me fazendo lacrimejar.
— Talvez você seja alérgico — ela disse com um sorriso atravessado, voltando para a leitura.
No fim de uma hora e meia, Harry produzira o que parecia uma versão decente, senão levemente mais opaca, do que devia ser a poção reestabelecedora que o livro descrevia. Às últimas instruções, para verificar se a poção era segura para consumo, Lílian adicionara: “Não tem perigo, o pior que pode acontecer são gases.”
Ele deu risada, chamando a atenção de Bervely. Ela tinha acabado de ler a sua tarefa de casa há mais ou menos uma hora e estava folheando um livro do tamanho e formato de um tijolo que parecia ser tão velho quanto as suas idades combinadas.
— Terminou?
Harry assentiu, se afastando do caldeirão. Ele estava seguro de que tinha feito um bom trabalho, talvez pela primeira vez sob aquela masmorra, se não contasse com a aula da segunda feira. Bervely deu uma olhada rápida e confirmou o que ele pensava:
— Muito bem, Potter, parece decente. Talvez você mesmo deva tomar um gole? Parece que está necessitado.
— Mas e se eu for mesmo alérgico a raiz de licorice?
— O pior que pode acontecer é um ataque de gases — ela disse com um sorriso maldoso. Harry decidiu que não valia o risco, então foi engarrafar as amostras e guardar o restante do material.
— A pesquisa também não está mal, mas da próxima vez quero que inclua a sua opinião no final.
— A minha opinião? — Harry estranhou. — Pra quê?
— Você pesquisou de diferentes fontes, se baseando em vários pontos de vista para responder as perguntas, alguns até controversos. Tanta pesquisa deve ter suscitado alguma avaliação crítica da sua parte. Quero achar isso da próxima vez. Acha que Lílian Potter ficou tão boa em poções sem criticar o que lia? Ou qualquer pocionista, à propósito?
Harry ficou olhando para ela sem saber o que dizer. Nenhum professor nunca tinha pedido que escrevesse a sua opinião em uma tarefa de casa. O mais perto que chegara disso fora nas aulas de Remus, nas quais ele sempre encorajava os estudantes a questionarem as informações que os livros traziam e nunca assumir que tudo que liam era a nua e crua verdade.
— Você já decidiu que poção quer fazer como projeto final esse ano? — ela quis saber, ao mesmo tempo fazendo um sinal para que ele prosseguisse com a arrumação dos materiais.
— Uh… ainda não.
— Se apresse, dependendo da poção vou precisar pedir autorização para obter os ingredientes.
— Certo — ele assentiu, levando o caldeirão sujo para a pia.
Alguém bateu na porta naquela hora, ao que Bervely respondeu com um autoritário “entre”. Às vezes ela soava exatamente como Snape, Harry pensou. Era de arrepiar.
Anne enfiou a cabeça para dentro da sala, localizando a irmã e depois Harry.
— Ah, que bom, os dois ainda estão aqui. Já acabou a aula?
— Não consegue desgrudar de Potter por nem mais um segundo além do necessário? — a mais velha criticou em desaprovação.
Anne corou, desviando rápido o olhar de Harry.
— Na verdade vim falar com você. Mas é bom que Harry esteja aqui — acrescentou, vendo que o garoto se apressava para sair. — Almofadinhas mandou uma carta. — Ela estendeu o pergaminho que segurava.
— Feche a porta — o rosto verde de Bervely ficou sério de repente.
Anne obedeceu, fechando a porta atrás de si e entregando o pergaminho para a irmã mais velha.
— “Jantar em família hoje à noite. Usem a passagem do Salgueiro. Tenho uma novidade.” — Ela leu em voz alta, seu rosto se franzindo.
— Precisamos de Jinx para apertar o nó do Salgueiro e deixar a gente entrar na passagem. Harry, você também. Se não tiver treino hoje, quero dizer.
— Não tenho treino — Harry disse rápido, feliz de ser tão prontamente considerado família, e mais ainda com uma chance de escapar de Hogwarts. Tecnicamente essa noite era a última de sua detenção, mas ele já tinha terminado de polir todas as vassouras de toda maneira.
— Divirtam-se — Bervely disse com descaso, entregando a carta de volta para Anne. — Pode usar Jinx, ele deve estar caçando na orla da floresta, mas virá se você chamar.
— Você não vem? — Anne piscou, desolada.
— Não recebi nenhum convite, recebi? — disse ela áspera, arrumando as coisas distraidamente. Harry a viu realocar o pote de raiz de licorice no mesmo lugar duas vezes seguidas.
— Não seja ridícula, você não precisa de convite pra ver Sirius. E você mesma leu, é um jantar em família, ele espera você lá.
— Ele deixou bem claro que não me quer mais como parte da “família” da última vez que nos vimos — ela resmungou, sem olhar para a irmã enquanto falava.
Harry viu Anne pegar ar, nada feliz com a resposta mal-criada da irmã mais velha.
— Bervely Rose Black, eu não sei o que raios está acontecendo entre vocês dois, mas eu não gosto, então pode parar agora mesmo! Vocês têm se tratado como dois estranhos desde que você voltou da prisão! Sirius ficou miserável enquanto você estava presa, e devastado quando viu o estado que você voltou, e agora isso?
Bervely deu uma olhada de relance para Harry, que continuava ali parado, com a impressão de que devia ter ido embora na primeira deixa mas curioso demais para sair agora.
— Agora não, Anne. Discutiremos isso mais tarde.
— Agora sim! — ela teimou. — Ele morreu, se lembra? E voltou! Voltou pra a gente! E se acontecer de novo? Se acontecer alguma coisa com ele, como é que você vai ficar, sabendo que desperdiçou tempo precioso por causa de alguma birra sem sentido?
— Não vai acontecer nada com ele! — Bervely rosnou, e depois, se recompondo, ainda de cara feia: — Você não entende. Há razões — ela soprou no ar. — Você é nova demais para entender certas coisas, Anne.
— Oh, sim, vamos usar a carta do “você é nova demais” para fugir de explicações sem sentido, que, realmente, eu sempre serei “nova demais” para entender, até quando eu tiver cem anos! — ela se revoltou, fazendo aspas furiosas no ar. Harry nunca a vira daquele jeito; era um pouco assustador, na verdade. — Quer saber, eu me recuso a entender. Quando conheci vocês, parecia que um estava disposto a morrer pelo outro. Agora parece que um prefere morrer a ficar no mesmo lugar que o outro. Então que seja. Vamos, Harry.
Harry se moveu, lançando um olhar espantado para traz, onde Bervely ficara paralisada, a boca semi-aberta no meio de uma respiração. Ele seguiu a garota para fora da sala, feliz de deixar as masmorras mesmo que isso incluísse uma Black fumegante.
— Desculpe por isso, Harry — ela disse, depois de alguns passos irritados que Harry se apressou para seguir; Anne andava numa rapidez surpreendente quando estava aborrecida — Minha irmã às vezes… sinceramente.
— Nah, tudo bem — Harry reprimiu um sorriso. — O que está rolando com eles? Porque não estão se falando?
— Alguma idiotice. Se eu tiver que adivinhar, acho que Sirius não ficou feliz por ela vir trabalhar para o professor Snape. Bom, tecnicamente é para Hogwarts, mas tenho certeza que na cabeça dele é para o professor Snape. Deve estar encarando como uma traição ou algo do tipo.
— Acho que eu pensaria do mesmo jeito — Harry admitiu.
— Isso porque vocês são farinha do mesmo saco furado. Anda, vai pegar a sua capa, vamos precisar dela para atravessar os terrenos de Hogwarts até o Salgueiro.
Harry não se moveu; Anne piscou pra ele, impaciente.
— Harry? Que foi, tá esperando o quê?
— Nada. Tenho ela aqui — ele enfiou a mão na mochila e puxou a capa. — Sempre a trago comigo.
— Hum. Esperto — ela resmungou rabugenta.
Eles se esconderam atrás de uma pilastra para se cobrirem com a capa sem serem vistos. Harry tinha um sorriso besta que não conseguiria arrancar do rosto nem se quisesse.
***
Bervely já tinha decretado a si mesma que não ia aparecer no estúpido jantar em família de Sirius.
Eu não vou permitir que você tome uma decisão que vai arruinar a sua vida por causa de Severus Snape, foi o que ele tinha dito. No entanto, já fazia cinco dias que Bervely tinha deixado a Casa dos Gritos e não ouvira mais nenhuma palavra dele. Então, parecia que ele não estava assim tão decidido a impedi-la, no fim das contas. Se aquietara bem rápido… No fundo, e porque sabia que não estava sendo a melhor das companhias desde que voltara de Azkaban, Bervely sabia que a verdade é que Sirius devia estar aliviado em vê-la pelas costas.
Sem falar nas coisas que ela tinha dito para ele. Quando o calor da discussão arrefecera, o fantasma de suas palavras irritadas voltaram para assombrá-la.
Afinal não tem nada nesse mundo que não seja sobre você, não é mesmo?
…há coisas que ele pode me ensinar, coisas que ele pode me proporcionar, que você não pode.
Você não gosta de ouvir verdades, Sirius. É tão cansativo.
Não o culpava por estar aliviado. Agora, ao menos, ele via quem ela era de verdade. Estava destinado a acontecer uma hora ou outra… E ela não estava ali fazendo o que queria, ensinando poções em troca do que quer que fosse que Snape tinha a ensiná-la para sobreviver? Não estava?
Bervely enxugou o canto do olho com raiva, a manga espessa arranhando a pele. Ela colocou a poção que Potter produzira numa das prateleiras, fez uma etiqueta com o nome dele e a data, e colocou todo o resto no seu devido lugar. Havia uma caixa cheia de amostras de poção retardante do quarto ano que ela precisava analizar, e esse era o seu plano para aquela noite. Sirius, seu jantar de família e sua “novidade” que se ferrassem.
Bervely deixou o laboratório, apagou os archotes e colocou a caixa de amostras debaixo de um braço, decidida a ir para o seus novos aposentos de professora-auxiliar terminar o trabalho… mas deu meia-volta e seguiu para o terceiro andar ao invés disso, atrás da passagem da bruxa de um olho só, que guardava a passagem secreta para Hogsmeade.
***
“… é estupido o que eles estão fazendo, ninguém vira auror em um ano, parece mais como um plano de suicídio a longo prazo se quer saber da minha opinião”, ela ouviu Nimphadora resmungar quando estava aparatando na área designada, em frente à lareira da sala de estar.
— Oh, hey, B.! Não sabia que você estava vindo hoje! — a prima a cumprimentou, interrompendo sua conversa. Ela usava (como estava se tornando cada vez mais comum) o uniforme de auror, e o cabelo estava loiro, longo e volumoso, serpenteando em uma trança sobre o ombro. Parecia estar conversando com a única outra pessoa na sala, Yasi Darkmon. — Ainda verde? Nós estávamos nos perguntando esses duas quando é que você vai ficar madura…
Bervely ignorou o comentário, olhando ao redor; ninguém mais estava à vista, mas a casa parecia viva, impregnada com um cheiro de guisado e com muitas luzes acesas. A mesa de jantar fora expandida e estava posta para oito pessoas.
— Onde está todo mundo? Potter e Anne chegaram aqui, certo?
— Sim, estão na cozinha — Dora apontou para trás dela. — Remus está fazendo um cozido capaz de alimentar Hogsmeade inteira e Anne e Sirius estão cuidando da sobremesa. Jesus, o que é isso que você está vestindo, por acaso atacou o guarda-roupas de Snape?
Bervely rolou os olhos; a prima se referia à suas vestes de pocionista padrão, um largo manto de gola alta, mangas compridas e botões do pescoço até o pé. Não era exatamente como a de Snape, mas é claro que Nimphadora ia ignorar as diferenças em nome da piadinha infame.
— Como vai indo, Black? — Yasi Darkmon acenou para ela do sofá. Ela parecia de volta ao mundo dos vivos; tinha cor no rosto e desembaraçara os cabelos, uma juba de cachos escuros ao redor do rosto ossudo. Ela tinha um rosto interessante; Bervely não notara antes. Na verdade esquecera que a garota ainda estava por ali.
— Viva e verde, como pode ver — respondeu de mau humor, olhando mais uma vez na direção da porta da cozinha. Agora podia ouvir as vozes animadas lá dentro; Remus dizendo alguma coisa, Sirius dando risada. Todo mundo estava feliz, ninguém dera pela falta dela. Ela virou de novo para Nimphadora — Então, qual a “novidade”?
— Novidade? Vai precisar ser mais específica — a prima riu com ironia. — Tem lido os jornais ultimamente? Novidade em cima de novidade, uma mais idiota do que a outra.
— Não, a novidade de Sirius — ela disse impaciente. — Ele escreveu na carta para Anne que tinha uma novidade.
— Ahh, não sabemos ainda, parece que ele vai anunciar no jantar — ela cantarolou, e depois abaixou a voz: — Acho que ele vai anunciar o noivado. Temos um prato extra na mesa.
— Noivado? — perguntou confusa, um bolo se formando na garganta.
Os olhos de Nimphadora, castanho-esverdeados aquela noite, se arregalaram de insinuação bem-humorada.
— Noivado com a Rosmerta, bobinha. Parece que a coisa está ficando séria.
Bervely sentiu ânsia de vômito com a possibilidade. Nimphadora devia estar testando os seus nervos, porque nem em um milhão de anos Sirius iria considerar aquela atrocidade. A dona do pub era só… diversão, certo? Um jeito de matar o tédio. Mas havia um prato extra, a prima estava certa.
— É melhor eu ir andando — decidiu. Aquele era o tipo de novidade que preferia não sobreviver para presenciar. — Nem sei porque vim aqui hoje, tenho um milhão de poções para avaliar.
— Espera um segundo aí — Dora fez um aceno com a mão, então pigarreou e gritou: — Sirius, BERVELY ESTÁ AQUI!
— Nimphadora Tonks! — Bervely xingou entre os dentes, mas era tarde. Sirius apareceu no portal da cozinha, confuso, e então a viu e a confusão foi varrida do seu rosto, substituída por… consternação?
— Eu já estava de saída — ela anunciou, virando o rosto.
— Pro inferno que você estava — ele rosnou com a voz grave. — O jantar vai ser servido logo, só estamos esperando mais uma pessoa. Sente.
Eles se encararam teimosamente por três segundos. Bervely sentou na poltrona à sua direita.
— Ótimo. Que seja.
— Dora, se importa em colocar um lugar extra na mesa?
— Claro que não, primo querido! — a jovem disse feliz, dando uma piscadela para Bervely, ignorando o fato de que ela queria arrancar a sua cabeça.
Sirius sumiu de novo para a cozinha, sem outra palavra. Bervely assistiu a prima acenar com a varinha e expandir a mesa mais um pouco, em seguida transfigurar um porta-guarda chuvas em cadeira e mandá-lo flutuando para o lugar extra que produzira, quase fazendo-a perder uma perna ao se chocar com a pilastra. Então ela fez outro floreio e as portas da cristaleira se escancararam. Yasi abaixou a cabeça bem em tempo de evitar ser decapitada por um prato que Dora mandou voando para a mesa.
— Então, eu ouvi dizer — Yasi ergueu a cabeça de novo, sem grande abalo —, é verdade que conseguiu uma vaga de professora em Hogwarts? Eles não ligaram para os seus antecedentes?
— Eu fui inocentada — Bervely informou. — E Hogwarts tem um histórico de contratações piores, então não é nenhuma novidade.
— Eu acho que você será uma ótima professora! — Tonks disse, ao mesmo tempo em que espatifava um copo contra a mesma pilastra em que acidentara a cadeira. Ela conteve a chuva de cacos de vidro com um rápido “Evanesco” — Ops. Desculpem. Ok, vamos tentar isso de novo…
— E quanto à você? — Bervely perguntou à Darkmoon, depois de dar um olhar desgostoso à prima. — Algum plano para o futuro, agora que não está mais presa?
Ela deu de ombros, o olhar se distanciando em alguma sombra de sua mente.
— Não posso fazer muita coisa, eu não fui inocentada. Sirius e Remus acham que o melhor para mim é continuar fingindo que morri na prisão. Talvez mudar de nome, sumir por um tempo. Mas sair do país não está fácil com toda a fiscalização das lareiras internacionais, e já que não tenho uma varinha, aparatar está fora de questão por enquanto… Eu nunca tive a chance de agradecer você por me tirar de lá, Black. Obrigada.
— Não foi grande coisa — Bervely dispensou, incomodada. Nimphadora conseguira levar o segundo copo até a mesa e manejara um par de talheres sem arrancar o olho de ninguém,. Ainda havia conversa na cozinha, embora Bervely não ouvisse mais a voz de Sirius vinda de lá.
— Você nem mesmo perguntou se eu sou inocente — Yasi continuou; aparentemente tinha esperado para ter aquela conversa com Bervely por algum tempo. — Como soube? Quero dizer, você conhecia Lalau de antes, certo, mas a mim, foi só naquela noite…
— Eu não sabia — respondeu, sob o olhar atento de Tonks, que agora retornava ao sofá e prestava atenção à conversa. — Não acho que ninguém seja inocente, pra falar a verdade.
— Não se importe com a minha prima, Yasi, ela gosta de uma conversa sombria antes do jantar, para abrir o apetite.
Anne surgiu da cozinha, parou ao ver a irmã e sorriu satisfeita:
— Você mudou de ideia! Sabia que mudaria. Sirius mandou perguntar se quer beber alguma coisa.
Veneno de ação rápida, pensou Bervely, mas ao invés disso, disse:
— Uma cerveja está bom. Não vou ficar muito tempo.
— É claro que vai, bobinha.
Ela sumiu de volta para dentro da cozinha. A campainha tocou – o estômago de Bervely se revirou de novo (“acho que ele vai anunciar o noivado”), mas era só Stanislau Shumpike. O rosto dele se iluminou ao ver Bervely:
— Você voltou! Olha, Yasi, nossa heroína de volta, que tal isso?
Bervely rolou os olhos para ele, mas isso não impediu que Lalau viesse lhe cumprimentar como se fossem melhores amigos. Uma frase que tinha ouvido uma vez, de algum livro que alguém (Charlotte, sempre Charlotte e seus livros de histórias trouxas) lhe veio à mente, algo sobre raposas e coisas cativadas. Ela tinha a ligeira sensação de que Lalau e Yasi nunca a deixariam em paz por conta do seu “ato de heroísmo” em Azkaban, e era isso.
Sirius apareceu da cozinha, decepcionado ao perceber que era só Lalau. Ele entregou uma garrafa de cerveja para Bervely, ao mesmo tempo lançando um longo olhar avaliador sobre ela.
— Que roupas são essas? — perguntou em voz baixa.
— São só roupas, não enche.
— Você não me escreveu a semana inteira — ele acusou zangado.
— Bem, nem você — ela rebateu, pipocando raivosamente para fora o lacre da cerveja.
— Cabeça-dura — Sirius resmungou e se afastou de novo.
Mas alguma coisa no peito de Bervely tinha se afrouxado. Ela conseguia respirar de novo, já não parecia que havia um animal do tamanho de um Sinistro pressionava o seu peito.
Remus, Anne e Harry voltaram para a sala, se unindo ao restante, cada um carregando bebidas quentes. Remus se alojou no braço da poltrona que Nimphadora estava e ela passou um braço ao redor dele, tão naturalmente que pareceu à Bervely quase um gesto automático. Harry e Anne ocuparam o sofá oposto, e o garoto foi percebido finalmente por Lalau, que deixou o queixo cair ao ver a sua cicatriz.
— Harry Potter? Você é o Harry Potter? — O ex-condutor do Nôitibus disse com uma voz esganiçada.
— Relaxa, Lalau — Yasi advertiu o amigo.
— E você é Stanislau Shumpike — Harry riu, estendendo a mão — Nós já nos conhecemos antes, eu peguei o Noitibus uma vez, mas eu estava disfarçado.
— Ele sabe meu nome! — Lalau guinchou, vibrando — Harry Potter sabe meu nome!
— Não estava esperando você aqui essa noite — disse a voz de Sirius ao lado de Bervely, distraindo-a da cena sofrível diante dela. Ela se empertigou sem olhar para ele.
— Não estava planejando vir, para falar a verdade.
— E porque mudou de ideia? Tomou umas doses de bom senso? Já não era sem tempo.
— Não force a barra, Black. Eu só queria garantir que Potter e Anne tinham chegado em segurança.
— Sei. — Ele se inclinou para falar do ouvido dela, provocativo. — Mas sabe, você poderia ter mandado uma coruja. Chamado pela lareira. Qualquer coisa.
Bervely se esquivou, os pêlos da nuca se arrepiando.
— Foi você quem insistiu que eu ficasse. Se mudou de ideia é só dizer.
Ele fez uma pausa torturantemente longa.
— Eu nunca quis, como você bem sabe.
O que ele nunca tinha querido não ficou claro; a campanhia tocou mais uma vez, e não só Sirius, mas todo o resto da sala de repente ficou atento, com níveis diferentes de curiosidade. Enquanto Sirius seguiu para atendê-la, Remus se levantou do braço da poltrona com um sorriso de antecipação (o que quer que fosse a “novidade”, ele já sabia, Bervely percebeu) e Harry, Anne e Nimphadora pararam de conversar com Lalau e Yasi. O primeiro estava intrigado, mas Yasi ainda bebericava o que quer que tivesse em sua caneca, ligeiramente entediada.
Não era Rosmerta à porta – e nem faria sentido ser, já que até onde Bervely sabia ela tinha permissão para aparatar dentro da casa – mas uma figura alta coberta num sobretudo azul índigo, pele pálida, maçãs do rosto altas, olhos azuis-água, pupilas fendadas, cachos escuros como a noite do lado de fora.
— Pode entrar, Reg — Sirius deu espaço para que ele passasse, fechando a porta atrás dele. — Família e agregados, esse é o meu irmão, Regulus. Era essa a novidade da qual eu estava falando.
***
— Regulus vem usando outro nome nos últimos anos. Só nos reencontramos há alguns dias — explicava Sirius, enquanto Regulus passava pela sala, cumprimentando um por um com educação elizabetana. — Ele aceitou o meu convite para um jantar essa noite. Queria apresentá-lo ao resto da família.
— Seja bem vindo de volta, Regulus — Remus apertou a mão dele, um sorriso breve. — Passou uma boa semana?
— Não foi das piores. Ainda não consegui a minha reunião — ele disse com brevidade.
— Não estou surpreso. As coisas devem estar bem ocupadas agora. Acho que você não chegou a conhecer Nimphadora?
— Tonks — Dora corrigiu com energia, apertando a mão dele também, seus olhos estreitos com desconfiança. — Você não costumava ser um comensal da morte na primeira guerra?
— Jesus cristo, Dora — Sirius recriminou atrás dela, mas Regulus fez um aceno de “tudo bem” com a cabeça.
— Não tem problema. Você está certa, eu costumava ser. Eu era jovem e estúpido. Aprendi com os meus erros. Eu a conheci quando era um bebê, garota. Já era impetuosa naquela época, devo acrescentar.
Dava pra ver Dora juntando as peças do quebra-cabeça. Os olhos dela correram rápido pelo rosto dele, depois para a boca e de volta para os olhos. Ela chegou a uma conclusão que atenuou o vinco entre as suas sobrancelhas loiras:
— Isso explica as mãos frias — disse finalmente.
— E você deve ter ouvido falar de Harry Potter, meu afilhado — Sirius indicou Harry, que também tinha se levantado, parecendo confuso. Regulus apertou a mão dele, os olhos atentos para a cicatriz e depois os olhos verde-vivo do garoto.
— Ouvi falar, é verdade. A ruína Dele. Você tornou a vida de um bocado de gente mais fácil, Potter.
— Não foi intencional — Harry disse com secura. Parecia que ele ia precisar de mais do que bastara para Nimphadora para aceitar a redenção de um ex-comensal da morte. Harry se virou para Sirius: — Achei que você tinha dito que o seu irmão tinha morrido, Sirius.
Sirius respirou fundo, as mandíbulas tensas e as narinas se inflando; parecia que a sua platéia estava sendo menos cooperativa do que esperara. Nimphadora se inclinou para Harry e sussurrou algo em seu ouvido, e os olhos do garoto cresceram.
— Oh. Desculpe.
— Tudo bem — Regulus estava achando graça. Ele se virou para Anne — E você, quem é?
— Minha filha caçula, Anne — Sirius se apressou. — Com Olívia. Você deve se lembrar dela.
— Eu me lembro de Loren — Regulus cumprimentou Anne, observando-a com atenção. — Nunca achei que você fosse do tipo paternal, Sirius.
— Remus me achou uns livros pra isso — ele disse, soltando sua risada que parecia um latido. Bervely conhecia aquele som; ele estava nervoso. Ela era a próxima na linha de tiro: o irmão pródigo terminou com afilhada número um e virou 45 graus para encará-la. Bervely levantou também, apesar dos joelhos dormentes.
— Bervely Black, primogênita — ela se apresentou com a voz firme.
Seus olhos se encontraram num átimo de segundo e se trancaram um no outro. O zumbido nos ouvidos de Bervely aumentou, dissolvendo o resto da sala. Desde que Regulus aparecera na porta, ela estava lutando contra aquele zumbido, dizendo para si mesma “sua idiota, como você não previu isso?” e então “merda, como faço para sumir antes que ele me veja?”. Nenhuma das perguntas tinha uma resposta satisfatória, então ela decidira que a sua melhor saída seria a fria indiferença. Isso e fingir que nunca o tinha visto antes. Decididamente não numa cama, não nus em pêlo, não…
— Duas filhas — Regulus estalou, suave — Estou impressionado. É um prazer revê-la, Bervely.
A espinha de Bervely se eriçou; ele ia delatá-la. Soube que uma nota de pânico passou pelos seu rosto antes que pudesse evitar, e é claro que Sirius tinha se aproximado, interessado:
— Você já se conhecem?
— Ah, sim, mas tenho certeza que Bervely não vai se lembrar. Ela era muito pequena. Recém-nascida, para ser mais exato. E claro, a vi aqui no domingo passado, bem rapidamente, não foi?
— Oh. Claro. — Uma sombra passou pelo rosto de Sirius e ele não perguntou mais nada.
— E vocês também estavam aqui — Regulus seguiu adiante, se dirigindo à Lalau e Yasi na outra ponta da sala — Mas não acho que fomos apresentados?
Bervely deixou o ar escapar dos pulmões. Colocou as mãos trêmulas nos bolsos das vestes: aquilo era um desastre. Nunca lhe passara pela cabeça que Sirius ia querer esfregar na cara de todo mundo o retorno do seu irmão perdido, ex-comensal, morto-vivo… mas aparentemente havia algo mais que ela tinha deixado passar na coisa toda; Regulus Black era família. Familia super omnia, não era esse o moto da Casa dos Black? Família acima de tudo… mesmo entre os traidores, mortos-vivos e deserdados.
— O jantar está pronto — Remus anunciou, tendo acabado de voltar da cozinha. — Desculpe Regulus, espero que comida cozida não lhe ofenda…
— Não é um problema — ele garantiu com tranquilidade — Já me alimentei hoje mais cedo.
Bervely teve um vislumbre vívido de Regulus bebendo um grande copo de sangue fresco antes de sair. Não o Mágico, não Sanguini, mas Regulus. Irmão de Sirius. Seu tio.
Tinha feito um invejável trabalho, evitando pensar no assunto ao longo da semana (“Você não tinha como saber”, seguido de “Não importa, vocês não vão precisar de ver de novo, tudo isso será esquecido.”) mas agora que o assunto estava bem ali na sua frente, era difícil reprimir as memórias.
— Algum problema? — Anne sussurrou para ela, quando viu que Bervely não tinha se mexido para ocupar um lugar na mesa, seguindo os demais. — Você está com uma cara estranha.
— Acho que perdi a fome — confessou, pelo canto do olho vendo Sirius fazer algum comentário espirituoso e Regulus sorrir, o sorriso pontudo que ele tinha, diferente de todos os outro sorrisos que já tinha visto.
— É porque ele é um vampiro?
— Quê? Não seja ridícula.
“É porque transamos como dois animais selvagens por horas a fio no fim de semana passado.”
— Você também não gostava de Remus quando o conheceu, se lembra? Mas precisa relaxar, Bev. Ele parece ok, e ele é nosso tio. De verdade, de sangue, e tudo.
Anne não sabia, mas estava piorando as coisas. Bervely ficou calada, literalmente não tinha o que dizer. A irmã lançou a última cartada:
— Faz tempo que não vejo Sirius feliz desse jeito.
E diabos, ela estava certa. Por algum motivo obscuro, Sirius estava sorrindo de orelha à orelha lá na mesa, sentando ao lado do irmão. Como ele podia superar tão facilmente o passado e as escolhas de Regulus, e recebê-lo de braços abertos depois de dezesseis anos de ausência, enquanto mal entendia porque ela tomara algumas decisões, e ainda a julgava pelo que ela era de tempos em tempos?
— Bervely, você vem? A comida está esfriando — Sirius chamou da mesa. Ela percebeu que ele apontava para um lugar vazio à sua esquerda. Alguma coisa dentro dela virou líquido.
Bervely se levantou com um suspiro vencido e foi ocupar o lugar ao lado do pai, a irmã ao seu encalço.
***
Pelo que pareceu uma eternidade o assunto à mesa foi comida, encorajada pelo delicioso guisado de carneiro que Remus tinha preparado. Todo mundo — a maioria dos vivos, ao menos — estava se deliciando com o prato e o comparando com os famoso guisado dos elfos de Hogwarts. Isso levou à discussão de seus pratos favoritos em Hogwarts, à qual todos ali tinham a certa altura frequentado.
Bervely notou que Regulus tinha se servido de um pouco de guisado, mas não estava comendo. Ele também não estava participando da conversa, embora estivesse ouvindo e rindo nas partes certas. Ela também não estava comendo, tensa demais para tal. Estava ocupada observando Regulus pelo canto de olho; sob a luz que inundava a sala de jantar, ele parecia ainda mais pálido do que ela se lembrava, os lábios embranquecidos, um forte contraste da pele com os cachos negros. As pupilas ovais lembravam as de um gato, se movendo muito mais rápido para qualquer fonte de movimento do que deveria ser possível. Ele parecia relaxado, mas ela podia, ou pelo menos achava que podia, ver tensão no jeito que ele sustentava o pescoço.
Era para os lábios dele que ela voltava, vezes sem conta. A ponta afiada onde eles se encontravam em cada lado da bochecha, os caninos afiados que ela sabia que estavam ali mas mal podia ver, porque ele sorria de lábios fechados, provavelmente de propósito.
— Você está encarando — Nimphadora sussurrou para ela por cima do seu copo de suco.
— Eu não confio nele — Bervely disse só com um movimento dos lábios, à guisa de justificativa. Nimphadora assentiu quase imperceptivelmente.
— Ninguém confia. Relaxe.
Agora eles estavam discutindo o dia das bruxas trouxas do fim de semana anterior; Bervely não percebeu quando a conversa tinha mudado, mas Remus estava explicando à Lalau e Yasi como a festa tinha acontecido, e como funcionava uma festa de Halloween trouxa.
— …e Sirius deu um show, disfarçado de Toquinho — Anne completou, balançando a cabeça, animada. — Ainda não entendi como ninguém descobriu que não era o Toquinho, nem o próprio Toquinho, quero dizer, saiu no jornal e tudo, algum aluno delatou a festa para o Profeta Diário.
— Toquinho Boardman está oficialmente desaparecido — disse Tonks, voltando para a conversa. — Ele registrou queixa de algumas cartas ameaçadoras que estava recebendo pela sua carreira no mundo dos trouxas, mas o DELM não lhe ofereceu nenhuma garantia. Pessoalmente acho que ele fugiu do país antes que a coisa ficasse feia para o lado dele; a distração que Sirius está fazendo deve favorecê-lo, mas se eu fosse você tomava cuidado — ela acrescentou para Sirius.
— Já querem minha cabeça de qualquer jeito, que diferença faz? — Ele deu de ombros. — Ah, Yasi, nunca agradeci a você por aquelas dicas com o violão.
— Sem problemas — disse a garota do outro lado da mesa, sorrindo para o prato.
— Eu o reconheci, na verdade — disse Regulus para Anne, mexendo distraído com o garfo o guisado já frio no prato. — Achei que estava ficando louco, mas pareceu valer à pena seguir a pista.
— Porque você não veio falar comigo na mesma noite? — Sirius estranhou, parecendo só ter lhe ocorrido agora que houvera um intervalo grande entre o momento que o irmão tinha lhe reconhecido e quando havia lhe procurado, quase um dia inteiro mais tarde.
Bervely levantou a cabeça de novo; os olhos dela se cruzaram com o de Regulus por um milésimo de segundo.
— Eu precisei ficar e tentar falar com o diretor; era prioridade. Além do mais percebi que bastava encontrar Remus para achar você de novo, e é claro que farejar Remus é muito fácil. Sem ofensa, Remus.
— Não ofende — Remus respondeu, as sobrancelhas franzidas.
— É verdade que uma garota morreu nessa festa? Eu li no jornal — perguntou Lalau, curioso. O clima da mesa ficou imediatamente tenso, Harry e Anne se entreolharam, Remus se ajeitando desconfortável e Nimphadora pareceu que tinha recebido um soco na barriga.
— Cho não estava na festa — disse Anne rápido, quase que na defensiva. — Uma coisa não teve nada a ver com a outra.
— Mas ela não estava usando uma fantasia trouxa? De gueixa, não é isso? — Lalau insistiu, alheio à comoção que estava causando. — Por que ela estaria vestida assim na escola, se não para a festa trouxa?
— Tudo indica que Cho cometeu suicídio, Lalau — Tonks disse por fim, um ligeiro tremor na voz. — Acharam uma carta de despedida em seu bolso. Foi uma coisa que ela, infelizmente, já estava planejando, com ou sem a festa.
Bervely sentiu uma sensação engraçada e quando ergueu o rosto do prato, percebeu que dessa vez era Regulus quem estava lhe olhando. Ele estivera lá, ela lembrou; ele vira Cho Chang e sua carta de suicídio. Nimphadora também a vira, e Bervely se perguntou porque ela estava encobrindo a informação. Nenhum dos dois, no entanto, podia saber sobre os doces de Draco…
— O jantar está mesmo delicioso, Remus, obrigada por cozinhar — Yasi disse de repente, quebrando o silêncio desconfortável. — Se todo mundo já terminou, posso recolher os pratos? Ouvi dizer que temos sobremesa.
— Ah, sim, claro, claro — Remus a ajudou a recolher os pratos todos e mandá-los flutuando para a cozinha.
A sobremesa era uma torta de maçã e canela desajeitada, mas cheirosa; mais uma vez, Bervely reparou que Regulus se serviu de um pedaço e depois de uma garfada, ignorou o restante. Ele se engajou em uma conversa com Sirius, Remus e Tonks sobre o novo programa de formação relâmpago do DELM, que não a interessava; no oposto da mesa, Anne, Harry, Lalau e Yasi agora enumeravam suas sobremesas preferidas em Hogwarts. Eles tinham atravessado o jantar inteiro sem falar sobre o hipogrifo na sala: todo mundo estava circulando em torno, sem nunca se referir à vida, morte, retorno, suposta redenção e atual estado morto-vivo de Regulus Black.
Como se fosse tudo bem ele aparecer do mais absoluto nada e ocupar o lugar à direita de Sirius, e ninguém ia perguntar como diabos ele podia estar ali, tendo traído Lord Voldemort. Por que, ela sabia, se tornar vampiro era só parte da explicação. O Lord não ia deixá-lo passar só porque ele decidira que morrer era uma boa ideia; se ele era um traidor, um “ex-comensal”, o Lord teria feito questão de perseguí-lo e destruí-lo, fosse ele a criatura que fosse. A explicação tinha satisfeito Sirius, mas ela achava que Regulus dissera o que ele queria ouvir, e não a verdade inteira. Alguma coisa estava faltando; alguma coisa ele não estava contando.
E se ninguém ia fazer a pergunta, ela decidiu que ela mesma faria. Pigarreou:
— Hm. Regulus?
Ele estivera ouvindo a explicação de Nimphadora sobre o longo currículo de três anos da academia de aurores, e como era impossível reduzí-lo para caber em um ano, como o DELM pretendia. Os quatro — na verdade a mesa inteira — se virou para ela. Bervely percebeu que era a primeira vez que abria a boca desde que o jantar começara.
— Pois não?
— Se não se importa que eu pergunte… como você morreu?
Silêncio. Ela achou que ele ficara mais pálido. Se é que isso era possível.
— Bervely, sério mesmo? — Sirius trovejou para ela.
Ela olhou feio para Sirius; achava a sua pergunta perfeitamente legítima, e ele que era louco se não tinha perguntado. O próprio Regulus não parecia ofendido; ao contrário, parecia estar considerando.
— Eu fui assassinado — ele disse por fim, sem nenhuma inflexão na voz. Seus olhos fendados ardiam nos dela, um azul gelado de bordas afiadas como uma lasca de gelo.
— Por Voldemort em pessoa? — ela insistiu. Uma nota de ironia escapou de sua voz. Sabia a resposta, mas queria ouvir dele por alguma razão. Achava que ia desmascarar alguma mentira; Voldemort em pessoa não teria cometido esse erro, teria percebido o que ele era.
— Eu não vejo a relevância dessa pergunta — Sirius protestou. Bervely não sabia porque ele estava nervoso, de repente. Parecia com medo do que ia ouvir.
Regulus não estava. Se muito, havia pesar na sua voz quando lhe respondeu.
— Não, não por ele. Ela mandou sua melhor comensal para terminar o serviço, você deve conhecê-la. Bellatrix Lestrange?
***
Estava frio demais para ficar no telhado, mas Bervely não se importava. Quando todos deixaram a mesa, ela escapou de fininho para o segundo andar, passou pela janela do quarto de Sirius e subiu no telhado, o vento gelado da noite cortando as suas bochechas e fazendo os seus olhos arderem. Ela conjurou uma bolha de calor em torno de si mesma, então passou os braços em torno das pernas e ficou olhando as estrelas.
Aquele era o único lugar da Casa dos Gritos que não odiava; passara a maior parte do tempo ali nas semanas depois de Azkaban, porque só ali em cima parecia que havia ar o suficiente. Mas mesmo sabendo que todo mundo no andar debaixo podia imaginar onde ela se enfiara, ninguém a incomodou pela hora seguinte.
Não era idiota; sabia que estava com ciúmes. Ardendo de ciúmes, porque Anne estava certa, fazia muito tempo que não via Sirius sorrindo daquele jeito, e quem costumava fazer Sirius sorrir até parecer dez anos mais novo, parecer com ele mesmo de novo, era ela; mas agora era Regulus, e ela odiava a novidade. Anne, que não tinha um pingo de ciúme em suas veias analíticas, não entendia porque ela não podia dar ao “tio Regulus” o benefício da dúvida. Já o tinham feito por outras pessoas, não tinham? O próprio Sirius, para começo de conversa. E então Snape (embora Anne não devesse saber disso). Mas ,Regulus Black…
Como ela poderia, agora em mil anos, conviver com o fato de que Regulus Black era o Mágico de Oz? Ele, morto como se encontrava, lhe lembrara de uma vitalidade que ela se esquecera possuir desde Azkaban, naquela noite em que tinham passado juntos. Mas quando olhava para ele agora, tinha que ver o irmão de Sirius.
E, Merlin a ajudasse, se Sirius sequer desconfiasse…
Bervely ficou ali parada, pensando, até as juntas ficarem dormentes. Em algum momento um pontinho prateado surgiu na escuridão da noite – Jinx, encerrando a sua caça e peregrinação noturna, vinha se reunir a ela como fazia toda noite desde que retornara. Ele deu seu jeito de subir no telhado e esfregar a cabeça peluda em sua perna, pedindo carinho. Bervely suspirou e coçou a cabeça dele, distraída.
— Acho que estou ferrada, gato — murmurou para o escuro. — Isso é um desastre.
— O que é um desastre? — disse uma voz atrás dela. Bervely se virou; Sirius subindo, mas ali estava ele, enrolado em uma capa, o cabelo longo sacudindo no vento noturno. Ela esperou que ele viesse para dentro da bolha, sentando ao seu lado. Sirius conseguia cheirar à floresta e madrugada, mesmo tendo estado dentro de casa o dia inteiro. Ela notou como tinha sentido falta daquilo; da proximidade. De não estar puta com ele, nem dele estar frustrado com ela.
— Esse jantar — disse à meia voz.
Sirius se inclinou e coçou as orelhas de Jinx, pensativo.
— Eu não diria um desastre, mas preciso admitir que a performance de “Bervely, A Grande Inquisidora das Execuções”, não foi um ponto alto.
— É, acho que eu poderia ter passado sem isso — ela confessou, os olhos perdidos na noite.
— Obrigado por vir — ele continuou, em tom baixo como se tudo aquilo fosse segredo. — Mesmo eu sendo o pior pai do mundo.
— Não tem nada a ver com você ser o pior pai do mundo — ela rolou os olhos. — É mais sobre eu ser a pior filha do mundo.
“… e ter dormido com seu irmão”, completou mentalmente.
Ele soltou uma risada tensa. Oh, se Sirius ao menos soubesse.
— Sinto muito por não ter escrito. Eu teria ido atrás de você naquela noite e lhe arrastado de volta com os dentes, mas Remus me convenceu a lhe dar algum espaço. Aparentemente esse é o tipo de coisa que os “bons pais” fazem — ele fez aspas no ar, sarcástico. — Remus me convenceu de que você não estava em nenhum perigo iminente. Mas agora vejo que você continua verde…
— É só uma reação idiota àqueles trouxapéus. Severo acha que é como uma interação com a minha metamorfomagia, vai passar se eu tomar chá de Benzoar o suficiente.
— Bem, se Severo acha…
— Não comece — ela bufou.
Sirius apertou os lábios em prol da manutenção daquele patamar amigável que tinham conseguido estabelecer.
— Então as aulas estão indo… bem, eu suponho?
— Não são terríveis. Ah, estou dando aulas particulares para Potter.
— Ele me contou — havia um sorriso na voz de Sirius. — E ele me disse que você lhe deu o livro de Lílian para estudar?
— Achei por acaso na biblioteca de Severo, deve ter ficado para trás quando ela estudou em Hogwarts. Imaginei que Potter ia gostar.
— Ele está nas nuvens. O Seboso sabe disso?
— Ele não precisa saber de tudo, precisa? — ela zombou, deixando escapar um sorriso.
O que ela ouviu na voz dele escapou para o rosto, Sirius enfim sorriu para ela. O sorriso dela, o que ela defenderia até a morte se precisasse.
— Sinto muito, filha — disse ele quietamente, a voz arranhando. Ela estremeceu; a bolha de calor que ele fazia se expandir dentro dela era maior e mais poderosa do que qualquer feitiço de aquecimento que pudesse conjurar. — Sinto muito pelo que teve que ouvir no jantar, também.
Ela mandou sua melhor para terminar o serviço, você deve conhecê-la, Bellatrix Lestrange.
— Não é sua culpa. Ela não é sua culpa.
— Eu não sei, sinto como se tudo de errado fosse minha culpa ultimamente — suspirou Sirius com derrotismo.
Então era aquilo, eles estavam tendo A Grande Conversa dos Sentimentos. Ela sabia que era tão ou mais difícil para ele do que para ela; todos os anos em Azkaban tinham lhe roubado a maioria das palavras para descrever o que se passava dentro dele; quanto a Bervely, nunca chegara as aprendê-las, realmente. Mesmo assim, Sirius tentava. Por ela, ele sempre tentava.
— Acho que eu devia ter mencionado sobre Regulus antes de hoje — ele continuou. — Eu sei que parece estranho, ele surgindo assim do nada depois de tantos anos. E um vampiro, ainda por cima… normalmente eu não confiaria em nenhuma palavra do que ele diz, mas tem alguma que me faz pensar que ele está dizendo a verdade.
Esperança, ela pensou. Não disse em voz alta. Ao invés disso, decidiu aplacar um pouco da sua curiosidade sobre o passado deles.
— Vocês se davam bem quando eram crianças? Antes… de tudo, da guerra e coisa e tal?
— Não exatamente — Sirius deu uma risada incrédula, como se a própria ideia fosse improvável demais para ser dita em voz alta. — Ele sempre foi um filhinho da mamãe puxa saco metido a besta. Sempre querendo impressionar nossos pais, ser o preferido. Ele foi mimado, como eu também fui no começo, pra falar a verdade, mas ele gostava disso. Quando nossos pais estavam por perto, ele competia comigo por atenção o tempo todo.
— E quando não estavam? — ela encorajou. Ela estava pensando em Draco, como ele costumava competir com ela pela atenção de Narcissa.
— Quando estávamos sós ele era suportável. Eu sempre quis um irmão. A mansão Black era solitária para mim; as meninas no geral me ignoravam, elas viviam em seu próprio mundo. — Bervely percebeu que ele falava das primas; suas tias Narcissa e Andrômeda e sua mãe eram as “meninas”. Era engraçado pensar nelas assim. — Eu rezava por um irmão para me fazer companhia, e quando Regulus chegou, parecia que o meu sonho tinha se realizado. Na maior parte da nossa infância, até que eu entrasse em Hogwarts, Regulus me seguia pela casa como um cachorrinho. Ele temia os meus pais, e queria impressioná-los, mas a mim… ele me admirava.
— Então Hogwarts estragou tudo? Quando você foi selecionado para a Grifinória?
— Não Hogwarts, meus pais. Eu me tornei um caso perdido aos olhos deles e Regulus foi eleito para tomar o meu lugar como o herdeiro não-oficial. Isso nos afastou; eu me tornei o “fracasso” que meus pais acreditavam que eu era sem muita dificuldade, e Regulus se aproximou do ideal que eles esperavam que ele fosse. De certa forma, nos tornamos o exato oposto um do outro. Quando eu soube que ele tinha se alistado para ser comensal, nem fiquei tão surpreso. Era só uma consequência, e naquela época, não sabíamos o quão ruim isso realmente era. Só parecia uma ideia muito, muito estúpida. Acho que Regulus também não entendia; ele só tinha quatorze anos, quinze quando recebeu a marca.
— Ele não tem mais a marca — ela disse sem pensar. Ficou gelada; não tinha como saber disso sem admitir que o vira sem roupas, ou que ouvira a conversa deles sem permissão na noite de domingo. Mas Sirius estava distraído o bastante com a sua nostalgia e achou que era uma pergunta, não uma afirmação:
— Pelo que ele disse, a marca se foi quando ele se transformou.
— Não te incomoda o fato de que ele está morto? De que ele se tornou outra pessoa? — ela insistiu. Por que a ela incomodava, lhe dava uma agonia no estômago, agora que sabia quem ele era de verdade.
Sirius pensou por um instante antes de responder.
— Não, não realmente. Acho que só estou feliz de tê-lo de volta, e se ele diz que é uma nova pessoa, certamente é melhor do que a que ele era antes. Quanto a estar morto-vivo… efeito colateral, acho? Não é grande coisa, não é como se ele estivesse se decompondo ou algo do tipo.
— Não, acho que não. — Ela mordeu o lábio, ainda agitada por dentro, sem conseguir aquietar aquela revolução constante em seu peito. Sirius passou um braço por trás da suas costas, pousando uma mão em seu ombro e apertando como um pedido para que ela relaxasse.
— Harry e Anne já foram embora, Regulus também. Nimphadora está passando pelo ritual de fingir que vai para casa mais tarde, quando na verdade vai decidir que está muito cansada para aparatar e vai passar a noite, como se ninguém soubesse que era o que ela pretendia desde o começo; Yasi está ensinando Lalau a jogar xadrez bruxo na cozinha. Você quer ir lá pra baixo? Posso preparar pra nós um eggnog com a devida proporção de rum, e podemos terminar essa conversa na lareira, ao invés do telhado como dois gatos vira-latas.
— Ah, parece tentador — ela suspirou —, mas na verdade preciso voltar para Hogwarts. Tenho poções para avaliar antes de dormir, prometi entregar o relatório para Severo amanhã. Além do mais, estou cansada.
A luz de animação recém-recuperada no rosto dele esmoreceu.
— Então você não vai voltar para casa? Eu posso até engolir a ideia de você trabalhando para o Seboso, Bervely, mas o seu lugar é aqui conosco, não morando naquelas masmorras úmidas e fedidas!
— Eu gosto das masmorras úmidas e fedidas, se lembra? Além do mais, eu já disse a você: esse lugar não é a nossa casa. Não fique puto de novo, eu vou continuar visitando sempre que puder.
Sirius tomou um minuto para morder a língua e engolir seu descontentamento.
— Tudo bem, como preferir.
Ela sorriu; não é que os conselhos do lobisomem estavam fazendo efeito? Precisava lhe trazer um biscoito da próxima vez (ou melhor ainda, um bife cru de cavalo, já que a lua cheia estava se aproximando). Bervely desceu com Sirius para o primeiro patamar, apreciando a casa silenciosa, o aroma remanescente de guisado e torta de maçã com canela, a lareira calorosa crepitando.Ainda assim preferia a ideia do seu quarto nas masmorras, onde ela se sentia segura.
— Quer que eu acompanhe você até Hogwarts?
— Não precisa, Jinx vai fazer a minha guarda — indicou o gato, que descera com eles até ali e estava esperando paciente diante do alçapão. Sirius olhava para ela com uma cara engraçada. — O que foi?
— Parece que você amadureceu — ele indicou os braços dela. Bervely olhou para baixo e, para a sua surpresa, percebeu que o verde se fora; estava de novo da sua cor natural, branca como um copo de leite. Ela se admirou, sorrindo.
— Boa noite, Black.
— Boa noite, Black — ele repetiu com carinho, bagunçando seu cabelo (que voltara a ser curto, do jeito que Nimphadora o cortara na semana anterior). — Se cuida. Não deixa o Seboso morceguificar você.
Bervely escorregou para a passagem escura. Quando Sirius fechou o alçapão sobre a sua cabeça, a lançando no breu, ela soube que não estava sozinha. Não acendeu a varinha; foi andando no escuro, Jinx emitindo uma luminescência prateado aos seus pés, fraca demais para iluminar qualquer coisa adiante. Ela foi tateando a parede para se guiar na sinuosidade do túnel, mas não avançou muito mais de uns dez metros até parar.
Havia uma presença à sua frente, talvez só a alguns centímetros. Não emitia calor nem fazia nenhum ruído, mas ainda assim ela sabia que estava ali. Jinx lhe avisara, ele podia farejar o aroma metálico e ligeiramente adocicado que seu nariz humano não era capaz de detectar.
— Então você não confia em mim? — disse a voz sem corpo na escuridão.
— Acho que eu seria louca se confiasse — ela respondeu, fechando os olhos para apurar a audição. A voz dele era uma carícia afiada, como o contraste dos lábios frios e das presas fora contra a sua pele.
— Não pareceu fazer diferença antes. O que você me deu naquela noite foi confiança cega — ele lhe lembrou. Como se ela precisasse de lembrete.
— Eu não sabia quem você era — A voz de Bervely vibrou. No escuro, privada da visão, estava de novo anormalmente consciente das batidas do seu coração. — Você sabia quem eu era?
— Se eu sabia que você era a filha de Sirius e Bellatrix? É claro que não. Eu jamais teria encostado em você se soubesse.
Ela apertou os olhos; não sabia como interpretar aquilo. Não importava.
— Ele nunca pode saber — ela lhe avisou. Esperava que estivesse soando séria o suficiente. Ameaçadora o suficiente.
— Acredite, eu não faria nada que me fizesse perder o meu irmão de novo.
Assentiu. Estavam na mesma página, então. Ótimo.
— Bervely? — chamou Regulus, a voz já não tão macia como antes. Ela levantou o rosto, tentando achar os olhos dele, mas era impossível. Tinha a impressão de que ele podia vê-la, no entanto. Com seus olhos desmortos, de criatura da noite. — Aquela garota, Cho Chang. Você sabe que ela não se suicidou, não sabe? Quando ela deixou aquele beco, tinha desistido.
Bervely ficou em silêncio; é claro que ele tinha juntando as peças, como ela também havia. Podia presumir que ele tinha visto mais do que ela imaginara. Tinha visto Cho pegar o doce verde na cesta. Tinha visto, talvez, Draco implorar para que Bervely os recuperasse. Regulus estava por perto afinal, sempre estivera na noite da festa, esperando que ela ficasse sozinha de novo, porque não fora só ela que soubera, naquela noite, que acabariam juntos.
— Você sabe quem a matou. Porque o está acobertando?
O coração de Bervely se apertou dolorosamente. Talvez houvesse um limite no número de segredos que ele podia guardar para ela, mas precisava tentar:
— Não conte para ninguém, Regulus. Ele também é família.
(Continua…)
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