A Canção de Morgana
32 Sectumsempra
Notas iniciais
Under your spell again
I can't say no to you
Crave my heart and it's bleeding in your hand
I can't say no to you
(Good Enough — Evanescence)
Bervely sonhou.
Ela tinha dezessete anos e escapava da escola para dar uma volta no Beco Diagonal, num dia nevoento de dezembro. Procurava uma vassoura – a melhor vassoura do mundo — a pedido de Sirius. Oliver Wood estava no sonho – ele era o especialista em vassouras, afinal de contas. Quando saíam da loja, rindo de alguma besteira, estava tão distraída que esbarrava em alguém. Quando se virava, via Narcissa.
A tia parecia tão surpresa de vê-la ali quanto Bervely estava. Por um momento, ambas ficavam sem ação.
Então Narcissa dava um passo em sua direção. “Bervely?”, ela dizia, a mão estendida como se quisesse alcançá-la, verificar se era real.
Bervely corria, os sapatos de solas lisas derrapando na neve rala, corria para longe de emoções com as quais não sabia lidar naquela época, e com as quais nunca tivera a chance de lidar mais tarde.
Quando despertou, o seu coração estava disparado como se, de fato, tivesse acabado de correr de uma ponta a outra do Beco Diagonal. A impressão de que alguém observava no escuro pinicando-a, ela meteu o braço para fora da colcha e tateou até achar a varinha no criado-mudo.
— Lumus!
O clarão a cegou por um momento; quando conseguiu enxergar, não havia ninguém lá. A fresta da porta entreaberta dava para o corredor vazio, igualmente escuro. Ela fechou a porta com magia, ouvindo a tranca velha girar com um estalo seco. Deitado atrás dela, Regulus puxou o cobertor de volta para o ombro que ela descobrira com o movimento.
— Monstro fica rondando a casa à noite — ele disse baixo, a voz sem nenhum traço de sonolência. — Sempre foi assim, me deixava louco.
Agora completamente desperta, Bervely moveu-se de volta os centímetros que tinha se deslocado, deixando o corpo se encaixar ao dele de novo. O braço de Regulus retornou ao redor da sua cintura. Ela fechou os olhos, desejando que não tivesse acordado.
O sonho fora real. Viera dos confins de sua mente para lhe lembrar que aquela fora a última vez que vira Narcissa antes da noite passada, e que essa fora a última vez que a veria viva.
Estremeceu, absorvendo o tamanho daquela verdade. De algum jeito, nos braços de Regulus, ela tinha conseguido pegar no sono mesmo depois de tudo, como se o seu corpo precisasse de descanso antes de processar por inteiro o que aquilo significava.
Acordara para um mundo diferente. Um mundo no qual Narcissa Malfoy não mais existia.
Ocupada em manter outras pessoas vivas, Sirius e Anne principalmente, pouco pensara em Narcissa nos últimos anos. Parte dela acreditara que um dia, quando as coisas se acalmassem, elas teriam tempo de resolver-se. Poderia explicar porque tinha ido embora daquele jeito, talvez convencê-la de que não era a bastarda ingrata que a tia devia achar que ela era. Que a morte de Hector, no fim das contas, não tinha sido culpa sua.
Agora sabia que nada disso aconteceria.
Um som esquisito escapou de sua garganta; um engasgo que roubou seu ar, resultado de uma pontada de dor muito mais familiar do que ela gostaria. Regulus a apertou mais firme contra si.
— Eu estou aqui — ele sussurrou, a voz perto do seu ouvido. — Vai ficar tudo bem.
Ela assentiu, os dentes trincados. Precisava acreditar, se pretendia continuar respirando.
***
— Preciso ir ver Draco — murmurou um par de horas mais tarde, embora não tivesse vontade nenhuma de se mover.
Os primeiros raios de sol filtravam seu caminho pelas frestas da janela fechada, mas tudo permanecia silencioso nos andares de baixo. Na cama, Regulus arrastava as pontas frias dos dedos pela nuca dela em pequenos círculos, até a base do seu pescoço e de volta, como quem rabisca um código secreto em sua pele. Ela mantivera os olhos fechados, e até então nenhum dos dois sentira a necessidade de falar. Bervely conseguira, por algum tempo, chegar a um estado em que não estava pensando em nada. Com a mente silenciosa, sem questionamentos ou remorsos, o queimor em seu peito era suportável.
— Queria poder parar o tempo, agora — Regulus murmurou. Bervely sentiu uma coisa se enrolar dentro dela, despertando de um sono longo, e que era diferente da dor.
— Eu também.
Ela queria outras coisas, também. Queria não precisar se preocupar com o fato de que alguém poderia pegá-los ali deitados. Queria não ter que contar a Draco que a mãe dele estava morta. Queria que a razão para Regulus ter passado a noite não fosse o fato de que ela praticamente lhe implorara.
— Acho que seria mais fácil se tivesse sido eu, ao invés dela — declarou, sem se importar se soava sombria.
Alguma coisa mais macia do que os dedos dele tocaram a pele exposta do seu pescoço. Eram os lábios dele, ela percebeu, roçando a sua pele, seguidos pela ponta do nariz dele, absorvendo o cheiro dela em uma longa inspiração.
— Fácil de falar, quando se está viva — ele disse, tão perto que ela sentia o ar escapando de seus lábios. — Mas acredite em mim, é melhor sentir dor do que não sentir nada.
— Será? — ela duvidou. — Você não me parece muito incomodado.
Ele não respondeu. Estava ocupado em mover o cabelo dela para fora do caminho, para alcançar outros pontos de sua pele com os lábios. A busca de Regulus pela sua pulsação deixava-a consciente do fluxo lento do seu sangue sob a carne.
— Eu não ligo. Sentir é tão cansativo.
Regulus parou de brincar com seu cabelo e a abraçou de novo, o rosto encaixado na curva de seu pescoço, respirando a pele dela mesmo que Bervely soubesse que ele não precisava de ar. Ela tentou ficar quieta pra ver se conseguia ouvir o coração dele bater, mas só o havia o som do seu próprio.
***
Ruídos no andar de baixo a fizeram, por fim, se levantar. Ela caminhou até o penhoar pendurado em um gancho e o deslizou pelos braços sob o escrutínio de Regulus, que continuava na cama, os cachos negros espalhados pelo travesseiro, preguiçoso mas descansado, feito um gato disposto a tirar mais uma soneca. Não havia nele qualquer sinal de que mal-dormira; mas, ela pensou, será que ele sequer precisava dormir?
— Você vai estar aqui quando eu voltar?
Ele meneou a cabeça em negação.
— Não é uma boa ideia.
Ela assentiu. Ele estava certo, dormirem juntos sob o mesmo teto que Sirius já fora imprudente o bastante. Com um suspiro, Bervely deixou o quarto, ainda descalça e sem a menor ideia, ou interesse, em saber onde tinham ido parar os seus sapatos.
O quarto logo ao lado do seu era suposto a ser o de Sirius, de acordo com o seu remanejamento. Ao se aproximar pé ante pé, ela rezou para que ele ainda estivesse dormindo. Empurrou a porta pesada com cuidado e espiou por entre uma fresta da largura do seu dedo mindinho.
Sirius não estava na massiva cama de dossel duplo do quarto principal que pertencera aos seus pais; o que não significava que estava desocupada. Uma profusão de cachos castanhos se derramavam em um dos travesseiros, mas Bervely, ainda com o raciocínio lento por ter dormido pouco, demorou para entender de quem se tratava. Tempo o suficiente para a dona dos cachos – Yasi Darkmoon, dentre todas as possibilidades – rolar na cama e vê-la ali parada. A jovem piscou, sonolenta.
— Bervely...?
— Onde está Sirius? — Ela quis saber, a voz cheia de aspereza.
— Lá embaixo, eu acho. Eu não sei, faz tempo que ele levantou. Bervely, espera um seg–
Mas ela já tinha batido a porta com força, o que fez Darkmoon sumir da sua frente, mas nada pôde fazer para impedi-la de imaginar os acontecimentos que a tinham levado até ali, para começo de conversa.
***
— Eu não faria isso se fosse você — Uma voz brotou de algum ponto da sala, fazendo Draco congelar no lugar. Ele não tinha percebido, ao se esgueirar para a sala mais próxima do quarto que acordara, que havia mais alguém ali, sentado na penumbra.
Era Black. Eles se encararam, o bruxo adulto com os braços firmemente cruzados, sentado numa poltrona gasta de veludo, e Draco metido em um pijama de gola dupla cuja origem ele desconhecia, já a meio caminho da lareira, um punhado de flú roubado em uma mão e o endereço da mansão na ponta da língua.
Draco tentou engolir a surpresa de achar Black ali, quando os jornais diziam que ele estava morto, e projetar uma voz de quem sabia o que estava fazendo.
— Não tente me impedir, Black. Não sei o que diabos estou fazendo aqui, mas meu pai está me esperando. Se eu não voltar para casa ele vai vir atrás de mim, e acredite, isso não vai ser bom para nenhum de vocês.
Black soltou uma risadinha de escárnio pelo nariz.
— Você acha que seu pai está atrás de você? — Ele perguntou com comicidade. — Ele deve estar. Para terminar o que começou, imagino.
Draco não sabia do que o traidor da família de sua mãe estava falando. Mas não se importava, porque tinha coisas mais importantes para resolver no momento. Como descobrir o que diabos tinha acontecido na noite anterior, porque ele se sentia como se estivesse pegando um resfriado forte, e porque tinha acordado na decrépita casa da família de sua mãe, sem a sua varinha. Mas se Black tinha algo a ver com aquilo, não ia lhe dar o prazer de achar que ele, Draco, estava com medo.
— Você parece bêbado — o garoto notou com desprezo, vendo que Black segurava uma garrafa quase vazia do que lembrava uísque de fogo vagabundo. — Quem se embriaga a essa hora da manhã?
— Comecei ontem à noite — Sirius disse brandamente. — Tenho meus motivos.
— Ao inferno com os seus motivos — Draco decidiu, se virando para a lareira, mas cambaleando no processo. Ele se apoiou no console, surpreso com a tontura súbita.
— Eu me sentaria — Sirius recomendou.
— O que vocês fizeram comigo, seus degenerados? — Draco guinchou, resistindo a se sentar, apesar das manchas negras pipocando em sua visão. — Onde… onde está minha mãe? Eu me lembro que eu estava… eu estava com ela, nós aparatamos– Foi ela quem me trouxe aqui?
— Sim — uma disposição sombria surgiu no rosto de Sirius, fazendo imediatamente com que ele parecesse mais perigoso.
Draco nunca tinha entendido como as pessoas, Potter incluso, podiam ter ajudado Siriu Black a escapar do beijo do dementador. Para Draco, pouco importava se Black era inocente antes de Azkaban; treze anos lá dentro e ele com certeza já não era mais ao sair. Draco vira com os próprios olhos o que Azkaban podia fazer, no que tornara Lucius em poucos meses, e só de pensar no efeito de passar anos naquele lugar...
— Onde ela está? — Ele exigiu, cuidando para a voz não tremer. — O que vocês fizeram com a minha mãe?
— O que foi que a gente fez? — Black repetiu com descrença. — O que é que a gente ia fazer com a sua mãe, garoto? — o bruxo balançou a cabeça, desviando o olhar para longe dele. — Andie a levou, durante a noite.
— Ela não me deixaria aqui com vocês, com… com… traidores do sangue e escória, se não tivesse um bom motivo!
Agora, Draco percebeu, Black estava lhe olhando direto de novo, com uma expressão que parecia pena. Não era confortável – Draco não admitia que um homem decadente como Black tivesse pena dele. Além do mais, não tinha tempo para aquilo; podia descobrir onde sua mãe estava depois. Agora, precisava retornar para Lucius e esclarecer que não fugira da cerimônia de marcação por vontade própria, que ainda queria a marca negra, que ainda era merecedor…
Uma tontura maior que o mundo o tomou, deixando suas vistas escuras. Quando voltou à tona, Black estava em cima dele, lhe arrastando para uma poltrona. Ele lutou, mas não tinha força nos braços nem nas pernas. O que quer que o afligisse naquele momento, era muito pior do que um resfriado, isso era certo.
— Minha varinha… – murmurou. – Quero a minha varinha, devolva– tire as mãos de mim, Black, ou eu juro…
Draco perdeu a consciência no momento em que Bervely entrava na sala. Sirius levantou o rosto e quando a viu, desviou o olhar com rapidez, voltando-se para Draco.
— Ele estava tentando escapar — explicou, resignado.
—O que você disse a ele?
— Nada. Ele desmaiou antes que eu pudesse–
— Ele precisa voltar para cama e tomar outra dose da poção repositora de sangue — ela decidiu, também se ocupando de Draco ao invés de olhar na direção de Sirius, o que descobriu ser algo difícil de fazer naquele momento. — Vou levá-lo para o quarto livre no segundo andar, é mais confortável que o de visitas.
— Me deixe fazer isso – Sirius se ofereceu, mas ela já tinha sacado a varinha e levitado o corpo inerte de Draco, guiando-o em direção à porta.
— Não precisa — disse com brusquidão, escapando com o Draco levitante o mais rápido que pôde.
Sirius ficou encarando a porta por um tempo, depois se lembrou que ainda havia uísque de fogo na antiga cabine de bebidas de Órion, e foi buscar mais uma garrafa.
***
Depois de colocar Draco na cama que pertencera à Narcissa, Bervely sentou no colchão, ao lado dos joelhos do primo, e chamou Monstro. O elfo aparatou quase no mesmo segundo, fazendo uma reverência teatral de quase 180 graus.
— Em que Monstro pode serví-la, srta. Black?
Ela não fazia ideia do porque o elfo a obedecia de bom grado, mas achava que tinha a ver com o fato de que o seu nome agora estava na árvore genealógica dos Black. Não que estivesse reclamando.
— Preciso de mais da poção que está no caldeirão da cozinha, e quero que prepare alguma coisa para Draco comer quando acordar. Ah, e não deixe ninguém entrar nesse quarto para incomodá-lo sem a minha permissão.
— Monstro fará, e Monstro não deixará — o elfo sacudiu o narigão feio em concordância. — Monstro deve preparar algo para o desjejum da Srta. Black também?
— Não estou com fome.
O elfo desapareceu e voltou em poucos minutos com a poção, que Bervely despejou devagar entre lábios quase brancos do primo. Na época em que tinha se infiltrado em Azkaban, precisara aprender uma coisa ou outra sobre medibruxaria, e ainda se lembrava que feitiços usar para checar os sinais de desidratação, aferir a pressão e a frequência cardíaca. Ela fez cada um deles em Draco, anotando os resultados como Andrômeda lhe pedira.
Antes de ir embora, a tia lhe chamara num canto e lhe dera um abraço forte. Bervely nunca tinha visto Andrômeda com o olhar tão opaco, mas nem a morte da irmã sob os seus cuidados minara a sua disposição para garantir que tudo que precisava ser feito naquela noite, seria.
“Monitore Draco e garanta que ele vai beber a poção repositora de duas em duas horas, a partir de amanhã. Me chame se ele não apresentar melhora.”
Bervely assentira, porque assentir era tudo que podia fazer.
“Vou levar o corpo de Narcissa e cuidar para que seja preparado para o sepultamento. Mando uma mensagem para você quando eu souber que horas será o enterro.”
Enterro.
Bervely não entendera como Andrômeda podia estar pensando em um enterro quando o corpo da irmã mal esfriara. Mas ali, repassando a noite anterior, Bervely se deu conta de que por mais terrível que fosse a morte em uma circunstâncias inesperada como aquela, a situação estava longe de ser inédita para Andrômeda, e o mesmo valia para os demais adultos naquela casa: Remus, Sirius, Snape, mesmo Regulus. Todos eles haviam estado em uma guerra antes daquela, e eles certamente haveriam lidado com a visita da morte vezes sem conta. Mesmo que a dor fosse fresca, nova e única, o que acontecia depois da morte era um processo com o qual eles tinham certa prática.
Os pêlos do braço de Bervely se arrepiaram, uma agonia doente tomando seu corpo. Quantas pessoas mais ela teria de enterrar até que aquela guerra acabasse? Será que, no fim, ela também estaria tão acostumada com corpos e enterros como Andrômeda?
Draco se moveu, murmurando em seu sono dopado. Bervely alcançou a mão dele, encontrando-a gelada.
“Draco vai precisar de você agora, mais do que nunca.”, Andrômeda tinha lhe advertido. “É possível que ele não se lembre do que aconteceu. Você deve contar a ele, se for o caso. Não deixe que seja outra pessoa.”
Bervely não estava ansiosa para tal. Mas quando Draco acordou, dali a algumas horas, ela não estava no quarto – tinha saído para trocar de roupa, tremendo de frio no penhoar fino em que colocara ao sair da cama.
A casa estava silenciosa – nem Sirius, nem Darkmoon, nem Potter, nem Anne à vista, muito menos Regulus. Quando retornou ao quarto no segundo andar, Draco não só estava de pé mas em frente ao espelho, a camisa do antigo pijama de Regulus que Monstro colocara nele, aberta. Analisava as suas novas cicatrizes, três talhos enormes, frescos e cor de rosa, cortando seu peito magro do topo do lado direito até a parte inferior da cintura ao lado esquerdo.
Ele a viu pelo espelho quando ela entrou, mas não se virou. Bervely sentou na cama, ela mesmo se sentindo um pouco dopada. Aquele dia inteiro parecia surreal, acontecendo através do vidro grosso de uma realidade alternativa.
— Sectumsempra — disse Draco baixo, correndo a ponta do dedo por um dos cortes. — Quer dizer “ferida eterna”. Eu era suposto a sangrar até a morte.
— Você quase sangrou. Severus chegou a tempo de fazer o contra-feitiço.
— O professor Snape sabe que eu estou aqui?
Bervely assentiu, sem saber o quanto deveria dizer. Draco parecia distante em seus pensamentos, como se tentasse juntar as peças por si mesmo, orgulhoso demais para admitir que não sabia o que tinha acontecido, então ela esperou. Reparou nas bordas rosadas dos olhos dele, o que durante a infância acontecia quando Draco tentava segurar o choro, porque chorar na frente de Lucius não era admissível.
— Mas se a maldição pegou em mim —, ele enfim perguntou, a voz tremendo — Como foi– como foi que ela morreu?
Bervely o encarou através do espelho, pega de surpresa. Draco fez um gesto errante para a penteadeira, onde havia uma bandeja com um sanduíche, uma xícara de chá e um envelope aberto.
— O elfo passou para deixar a minha comida e uma mensagem para você.
Mensagem que ele tinha lido, ela notou. Bervely pegou o envelope e puxou a carta de dentro, reconhecendo a caligrafia de Andrômeda.
O enterro será hoje às 4:00, no mausoléu da família. Consegui a guarda de alguns aurores para o caso de Lucius aparecer, mas não acho seguro que Draco venha (nem Sirius, caso ele esteja pensando). Se vier, use um disfarce.
Amor,
Andie.
— Draco — ela começou, sem saber o que dizer agora que a carta tinha feito o trabalho por ela.
— Não preciso da sua compaixão — ele a advertiu. Bervely franziu as sobrancelhas.
— Não ia lhe oferecer a minha compaixão.
Eles se encararam por um ou dois segundos, Draco desviando o olhar primeiro, as bordas das pálpebras mais vermelhas do que antes. Ele deu as costas para Beverly e, sem aviso, esmurrou o espelho. O barulho trincou os seus ouvidos e ela se encolheu, mas não se moveu do lugar, nem mesmo quando viu que a mão dele tinha deixado sangue nas rachaduras do vidro.
Sabia como era tentar substituir a dor emocional por uma física. Também sabia que não funcionava.
— Você precisa de repouso — ela disse por fim. — O elfo vai garantir que ninguém venha incomodá-lo. Quando eu voltar, podemos conversar, se você quiser…
— Você não entende — ele a cortou, ofegante. Ainda tentando segurar o choro, ela percebeu.
— O que é que eu não entendo?
Draco balançou a cabeça, negando com veemência para o reflexo estraçalhado de si mesmo no espelho.
— Meu pai… Ele sabe? Sabe que ela…
Bervely deu de ombros. Até onde sabia, ninguém tinha avisado a Lucius Malfoy, e nenhum deles pretendia.
— Eu não posso ficar aqui — Draco disse de repente. — Se eu não voltar, eles vão achar… Vão achar…
— Que você fugiu da cerimônia de marcação?
Draco lhe olhou com um misto de irritação e agonia e deu outro soco no espelho, dessa vez mais fraco e frustrado, fazendo mais dano em sua mão do que no vidro.
— Ele vai vir atrás de mim — sussurrou sob a respiração. — E de vocês também. Se ele achar que vocês estão me mantendo aqui contra a minha vontade…
— Ele deve achar que você está morto, Draco — ela lhe lembrou. — Era a intenção dele matar, quando lançou o feitiço em Narcissa.
Algo em sua voz fez Draco se calar. A tensão retida em seu corpo, e os longos silêncios dele, diziam a Beverly o quanto ele estava contendo, o quanto não queria deixar transparecer do que estava sentindo. Porque não confiava nela. Nao confiava em nenhum deles.
— Não estamos mantendo você aqui — disse, numa voz mais branda. — Pode voltar para Lucius Malfoy e para a sua marca-negra, se é o que quer.
Draco se contraiu num silêncio perturbado. Fora um blefe, e pela reação dele, ela achava que funcionara.
* * *
Aos quatro anos de idade, Bervely comparecera ao enterro de Regulus Black. Narcissa a colocara em um vestido preto que tinha um laço enorme e desconfortável nas costas, por conta do qual ela não podia se sentar. Ela passara a tarde inteira rondando entre os adultos, invisível a não ser quando esbarrava nas pernas de alguém e recebia um olhar zangado.
Os mortos, os mortos, para onde é que os mortos iam?
“Para as estrelas”, Narcissa lhe dissera. E se lembrava de ter ficado aliviada, porque ir para as estrelas era muito melhor do que passar a eternidade em uma caixa, debaixo da terra.
A caixa de Narcissa Malfoy era feita de marfim. Além dela, Andrômeda e Nymphadora estavam de pé no mausoléu, e haviam dois aurores que Bervely conhecia de vista, e que ela achava que eram parte da Ordem da Fênix. Estava mais frio ali dentro do que do lado de fora.
“Ele era um Black, não era? Eu posso vê-lo?”
“Se você prometer não ficar com medo.”
Tinha uma vaga lembrança do túmulo de mármore negro no meio do mausoléu, e de ver dentro dele o rapaz pálido deitado, como se estivesse tirando uma soneca.
Uma das coisas que ela aprendera em sua breve estada em Azkaban, é que não tinha medo da morte – não da sua morte. A dos outros, no entanto...
Quando conseguiu convencer as pernas rígidas a se moverem, Bervely se aproximou do caixão marfim de Narcissa. A tia estava com os olhos fechados. No rosto, a mesma expressão resignada que ela fazia quando ficava impaciente com os elfos da mansão – o cenho ligeiramente vincado, os lábios contraídos em desaprovação. Uma centena de narcisos brancos com miolos azuis adornavam seu corpo.
Bervely tocou as mãos da tia, cruzadas na altura das costelas. A pele estava gelada e rígida. Ela parecia uma boneca, a réplica perfeita de Narcissa Malfoy, feita de cera. Por um momento, quis acreditar naquela insanidade. Talvez pudesse, se a tia não tivesse morrido diante dos seus próprios olhos.
Se você prometer não ficar com medo.
Alguém chamou seu nome, mas Bervely já estava saindo. Precisava de ar, do tipo que não ia conseguir ali, na atmosfera impregnada do mausoléu da família Black.
Ninguém a impediu; ela caminhou através das lápides que brotavam da neve, ecoando as sombras de um cemitério que ela amara num sonho, embalada no vazio da perda de algo que não se dera conta de possuir, de tudo que Narcissa significara em sua infância.
Narcissa, que adiara a vinda do seu herdeiro por anos para cuidar dela, arriscando a ira de Lucius e a estabilidade do próprio casamento. Que lhe contara histórias de uma bruxinha emprestada para colocá-la para dormir, e que, quando Bervely precisou, esteve lá para buscá-la em uma estufa fria, e levá-la de volta para casa.
Uma silhueta a observava a poucos metros dali. O sol ia embora, precoce em sua despedida invernal, mas ela não teve dificuldade em identificá-lo na pouca luz, sua silhueta já tão familiar a essa altura, apesar do pouco tempo que se conheciam. Ela se aproximou, desbravando a neve fresca e úmida debaixo dos sapatos.
— Não achei que você viria — disse quando chegou perto o bastante.
Regulus deu de ombros, as mãos nos bolsos. Ele usava o sobretudo azul de sempre e um cachecol quadriculado de cinza e preto em torno do pescoço pálido.
— Eu queria entrar, mas… – Regulus encolheu os ombros com evidente desconforto. — Não sei lidar muito bem com velórios.
Ela notou que ele estivera observando um túmulo esculpido em mármore, escuro e bem polido, que dizia:
Regulus Arcturus Black
Toujours pur
1961–1980
— É esquisito — comentou ele, pensativo. — Não me ensinaram a etiqueta social a seguir quando diante do meu próprio túmulo.
— Eu vim ao seu enterro — ela comentou. Agora que tinha retornado aquele cemitério, as lembranças lhe viam com bastante clareza. Regulus sorriu, lhe olhando de relance.
— Eu sei. Eu me lembro de você.
— Como assim você se lemb– Você estava consciente?
— Mais ou menos, é difícil de explicar. Meu corpo estava morto, mas alguma parte de mim estava lá. Eu me lembro de você espiando, do colo de Cissa. Mas eu nunca percebi quem você era. Agora que sei, consigo ver que você não mudou tanto.
— Eu gosto de pensar que mudei um pouco. Aquele vestido não me cairia bem nos dias de hoje.
Regulus sorriu; um sorriso de vida curta. Quando ele se virou para ela, deixando de lado a sua lápide, estava sério de novo. Com brancos muito puros e negros muito densos, ele parecia a ilustração de si mesmo, a versão feita para um quadro. Às vezes, quando Bervely olhava muito para ele, tinha vontade de fazê-lo sangrar só para ver se era real.
Enquanto o observava, Regulus desenrolou o cachecol do próprio pescoço e enrolou em torno do dela, protegendo-a do vento impiedoso que espiralava pelas lápides e estátuas de mármore do cemitério. O toque da lã raspando em sua pele era reconfortante, mas foi o raspar gentil das pontas dos dedos dele em seu queixo que a fez cerrar os olhos.
— Bervely — ele chamou, percebendo-a longe. — Você vai ficar bem, não vai?
Então ela percebeu sobre o que era aquilo. Por que ele estava ali no cemitério, mas não fora até o mausoléu da família. Não tinha ido para se despedir de Narcisa; estava ali para se despedir dela.
— Você está indo embora.
Ele assentiu, os olhos fendados desviando-se para outro ponto que não a decepção que ela falhava em esconder.
— Eu preciso. Essas últimas semanas… rever Hogwarts, fazer as pazes com Sirius, conhecer você – foram uma experiência e tanto. Mas isso não é mais quem eu sou, existe outra vida para a qual eu tenho que retornar.
— Tem alguém esperando você, nessa outra vida?
Ele assentiu. Parecia desconfortável na própria pele, algo que até agora ela não tinha presenciado até então.
— Não é um adeus – disse, medindo bem o peso de suas palavras antes de continuar. — Quero que saiba que pode contar comigo, se um dia precisar.
Ela riu, incrédula. Fechou as mãos geladas, cruzando os braços, se sentindo ainda mais vulnerável do que estava quando tinha chegado naquele cemitério para velar Narcissa. Era como se ele, ao vir lhe dizer adeus, tivesse conseguido arrancar a última camada de resistência que ela nem sabia que estava ali.
— Mas eu preciso de você agora — ouviu a si mesma dizer, numa voz quebrada que nem reconhecia.
— Não… Você tem Sirius, a sua irmã, Andrômeda, Nymphadora. Está em boas mãos.
— Regulus – Bervely começou com intensidade, olhando para ele com insistência muda.
Em troca, recebeu um pedido silencioso. Não faça isso ser mais difícil do que já é.
Ela desviou o rosto, encheu os pulmões do ar gelado de inverno e aprumou as costas. Sabia que os olhos diziam outra coisa, mas eram as palavras que iam contar, no fim das contas.
— Não se incomode em voltar. Essa família precisa de gente que fica quando as coisas ficam difíceis.
Ele assentiu, parecendo triste.
E também parecendo um garoto perdido, do tipo que roubava o coração dela, ou do tipo que já tinha roubado.
***
— Onde estão Harry e Anne? — A cabeça de flutuante de Remus quis saber. Sirius deu de ombros, sem disposição para bater papo com o amigo na lareira.
— Harry foi para os Weasley hoje cedo. Não posso culpá-lo, o clima aqui está uma merda. Anne deixou um bilhete, ela decidiu voltar para Hogwarts até as coisas se acalmarem.
— É mesmo? — Remus estranhou, os olhos cor de avelã se estreitando com suspeita.
—Sim, por quê? — Sirius inquiriu de mau humor.
Ele tinha uma garrafa de uísque de fogo pela metade na mão, e Remus não tinha dúvidas de que o amigo a encontrara cheia, e que não era a sua primeira. O lobisomem achou melhor tornar aquela uma conversa curta.
— Nada. Andrômeda chamou há pouco, o enterro de Narcissa ocorreu sem maiores intercorrências. Ela quer registrar uma queixa contra Lucius no DELM, mas eu pedi que ela esperasse ao menos Dumbledore voltar, e mandei um patrono para ele explicando a coisa toda. Ele tinha mencionado que mensagens dificilmente chegariam até ele até o fim do feriado, então acho que vamos ter que esperar. Enquanto isso, o melhor lugar para manter Draco é aí em Grimmauld, eu penso.
Sirius fez uma careta, estrangulando a garrafa com os dedos em torno do gargalo.
— Ele é só um garoto — Remus lhe lembrou, com receio de que Sirius deixasse a sua impulsividade levar a melhor, junto com todo o luto e o álcool, e fizesse algo impensado. — Como Harry, ou como você na idade dele… Fazendo o melhor que pode em terríveis circunstâncias.
— Engraçado, eu não me lembro de estar cometendo assassinatos quando tinha essa idade — Sirius resmungou, e diante do olhar confuso de Remus, fez o favor de explicar. — Malfoy Junior tem tentando matar Dumbledore desde o começo do ano. Aquele colar amaldiçoado que colocou Katie Holmes na ala-hospitalar por semanas foi enviado por ele, eu acabei descobrindo com Rosmerta.
— Matar Dumbledore? Mesmo se for verdade, não me parece algo que Draco faria sem estar sendo manipulado. Se foi uma ordem de Lucius ou Voldemort e ele não teve escolha...
— Sempre há uma escolha — o outro resmungou, com uma disposição sinistra que Remus muito conhecia e pouco gostava.
— Apenas lembre-se que a segurança de Draco é prioridade agora. Lucius Malfoy não ficará feliz quando descobrir que Narcissa está morta e que o filho está sob a guarda da Ordem da Fênix.
— Bem, deixe ele vir atrás da cria, então, eu vou estar aqui esperando — Sirius rosnou baixo. Remus sentiu que aquela conversa estava descendo a íngreme ladeira em direção ao desastre.
— Prometa que não vai fazer nada estúpido — ele pediu. — Eu traria Draco para cá, mas não acho que conseguiremos mantê-lo na Casa dos Gritos. Ao menos em Grimmauld Place ele tem alguma referência… Onde está Bervely, por falar nisso?
Sirius deu de ombros com má vontade.
— Como é que eu vou saber? Ela faz o que bem entende, não faz, e dane-se o resto.
— Ok… Ela deve estar de volta em breve. Vou continuar tentando falar com Nymphadora… Acho que ela está me evitando. Me avise se algo acontecer, está bem? Não faça nada estúpido.
Sirius não disse nada, ocupado em ignorar Remus e beber mais um generoso gole de uísque no processo. O lobisomem suspirou.
— Sirius? Você sabe que eu estou aqui, certo? Se precisar conversar.
— Eu não preciso conversar, Remus. Preciso da merda de uma varinha para destruir o filho da puta do Malfoy, mas eu não posso ter uma, não é mesmo? Então não me venha falar em conversar.
— Não vejo como ir atrás de Malfoy e se matar no processo resolveria qualquer coisa. — disse Remus com um suspiro resignado. — Nos falamos mais tarde? Eu chamo você aqui mais tarde. Maneira na bebida, ok? Então, até mais–
— Remus? — Sirius chamou mais uma vez, quando o amigo estava quase sumindo das chamas.
— Sim?
— Sobre Rosmerta me dando um pé na bunda... Não sei o que você disse pra ela, mas sei que tem dedo seu nisso.
— Não faço ideia do que está falando — disse o lobisomem com inocência, antes de sumir para dentro das chamas mais uma vez.
***
Já não havia mais sinal do sol quando Bervely voltou para o número 12 do Largo Grimmauld. O hall de entrada fora limpo, mas ela ainda podia sentir o cheiro de sangue, e quando olhou para a porta aberta, ela pôde ver Narcissa ali parada com Draco nos braços, pedindo a sua ajuda.
A casa estava silenciosa. Bervely não fazia ideia de onde estava todo mundo; deixara Draco dormindo ao sair, e não vira nenhum vislumbre de Harry, Anne ou Sirius ou Darkmoon pelo resto do dia. Supunha que tinham levado o Garoto-de-Vidro para a segurança de Hogwarts e Anne, que agora parecia que virara a sombra dele, devia tê-lo acompanhado. Não se surpreenderia se Sirius estivesse enterrando suas dores no meio das pernas de Darkmoon, em algum lugar da casa… Mas o achou na sala da tapeçaria – uma segunda garrafa vazia ao seu lado, emborcada no tapete.
O cabelo longo e revirado pelos ombros, ainda usando as roupas do dia anterior. Ele fitava o fogo como se esperasse convencer as chamas a engolí-lo apenas com a força do pensamento.
— Como foi o velório? — perguntou quando Bervely entrou na sala, sem olhar para ela.
— Como todos os velórios. Spoiler: a protagonista morre.
Ela queria se sentar com ele no tapete. Se encolher ao seu lado, e quem sabe encostar a cabeça em seu ombro e esquecer que aquele dia tinha existido. Considerou fazê-lo, mas alguma coisa parecia errada com a ideia. Ela se lembrou de como Sirius tinha se comportado no dia anterior, sem fazer nenhum esforço para tornar o natal agradável, implicando com Monstro em todas as chances só para irritá-la, tentando escapar de volta para a Casa dos Gritos na primeira oportunidade.
Não, não podia sentar ao lado dele e fingir que estavam bem. E o jeito com que ele tratara Draco naquela manhã… Ela tinha ouvido a conversa deles através da porta, antes de entrar na sala. Não parecia que ele sequer se importava que Narcissa Malfoy estava morta – sua prima de sangue. Por que depois de tudo, ele não tinha se incomodado em terminar a noite com Darkmoon em sua cama…
Bervely sentou-se na poltrona perpendicular ao sofá e ficou olhando para Sirius, tentando ver nele o homem que ela arrancara de Azkaban há três anos. O homem pelo qual ela tinha arriscado tudo, inclusive – literalmente – a sua alma. Ele deveria estar ali em algum lugar, por baixo do Sirius irascível, teimosos e inconsequente que o véu devolvera no fim do verão.
— E Regulus, onde é que está? — ele quis saber, olhando para o fogo ao invés de encará-la.
A menção do vampiro provocou uma pontada em seu orgulho. Ela apertou os dentes, cansada dos sentimentos, que não acabavam nunca.
— Foi embora. Passou no cemitério para se despedir. Tem… assuntos a tratar em sua outra vida ou qualquer coisa do tipo.
Sirius assentiu, amargo.
— Aposto que você vai sentir falta dele, não vai?
Ela sentiu um desconforto gelado correndo pela sua espinha.
— E por acaso você não vai? O irmão é seu.
— Mas não era a mim que ele estava fodendo, era?
Ela soltou o ar dos pulmões todo de uma vez. Pontos negros dançaram na frente dos seus olhos, e seus dedos apertaram os braços da poltrona com força.
— O... quê?
— Eu os vi na cama hoje de madrugada, então não se dê ao trabalho de desmentir — ele continuou para o fogo, a voz tão dura que poderia ser uma barra de ferro lhe empalando. — Ah, se me permite a pergunta… achou mesmo que podia esconder isso de mim pra sempre?
— Eu não pretendia… nós não… — Bervely respirou fundo. Precisava ficar calma, fazê-lo entender. — Não aconteceu nada, ele só ficou– eu pedi pra ele me fazer companhia.
— Você quer que eu acredite que ele passou a noite agarrado a você na sua cama só pra lhe fazer companhia, e que nada mais aconteceu? Você só pode achar que eu sou idiota.
Bervely mordeu os lábios. Não estava mentindo; nada tinha acontecido aquela noite. Mas entendia porque Sirius não acreditava. Qualquer um que os tivesse visto enroscados na cama do jeito que estavam não acreditaria.
— Essa foi a primeira vez, então? — ele voltou a perguntar, muito cínico. — A noite em que a sua tia morreu, foi a que você achou ideal para foder com seu próprio tio?
— Pare de falar desse jeito! — Ela arfou, sua garganta se apertando. — Não foi desse jeito! Regulus e eu…
— Regulus e você — ele repetiu com veneno, o rosto se torcendo num sorriso de escárnio. — O que é que tem, Regulus e você?
Ela encheu os pulmões de ar, tomando fôlego. Precisava explicá-lo, precisava que ele entendesse que não tinha sido sua culpa, de nenhum dos dois.
— A primeira vez foi na noite de Halloween, em Hogwarts. Eu não sabia quem ele era, e ele não sabia que eu era… Mas nada aconteceu depois que nós descobrimos. Não pretendíamos continuar…
— Agora entendo porque ele ficou rondando — Sirius soprou, atropelando a explicação dela, como quem está orgulhoso em desvendar um grande mistério. — Porra de redenção coisa nenhuma, ele só queria foder você de novo.
— Você quer parar de usar essa palavra, fazendo o favor?
— Ah, por quê? O que é que vocês estavam fazendo, então? — Ele zombou. — Amor? Você acha que o seu tio morto-vivo estava fazendo amor com você?
Bervely fechou os olhos, recebendo as palavras cruéis de Sirius com uma dor similar a um soco na boca do estômago. Ela não podia lidar com aquilo agora – não no mesmo dia que precisara dizer adeus à Narcissa e a Regulus.
— O que é que há de errado com você? — acusou ela, a voz fraca. — Por que, de repente, você me trata como se me odiasse?
— O que é que há de errado comigo? Comigo, você pergunta? Ele é a porra de um vampiro! E a porra do seu TIO! Você não entende o que está acontecendo aqui? NÃO CONSEGUE VER? — Sirius levantou de um rompante.
Bervely teve a impressão de que ele vinha pra cima dela, mas ele passou reto, agarrou a garrafa de vidro no chão e a arremessou na tapeçaria. A garrafa se espatifou na parede, vidro voando para todos os lados.
— É A PORRA DESSA CASA! ESSE SANGUE MALDITO, A MALDIÇÃO DESSA FAMÍLIA DESGRAÇADA!
— Sirius! — Bervely exclamou, se levantando também, o coração palpitando na garganta. — Pare com isso!
— Você me fez voltar aqui — ele se virou, um dedo em riste na sua direção, o rosto colérico e desgostoso. — Pra esse lugar amaldiçoado, o meu inferno particular, e para quê? Pra ver você foder com meu irmão? Pra ver minha prima morrer? PRA QUE PORRA, BERVELY, VOCÊ ME FEZ VOLTAR AQUI?
— Eu só estava tentando consertar essa droga de família — ela sibilou de volta. Estava com medo. Não dele, mas deles. Do que eles estavam terminando de destruir naquela discussão. Porque se Sirius a odiasse… se ele a odiasse…
— O que você precisa entender — ele recomeçou mais baixo, mas não menos cheio de rancor, os olhos furiosos cravados nela feito pregos —, é que essa família está além da reparação. Esse sangue do qual você se orgulha tanto – clamou, agarrando os braços dela pelos pulsos e apertando-os sob seus dedos —, esse é o sangue de assassinos, torturadores, gente intolerante e cheia de ódio, cega de um orgulho vazio, gente imoral e desprezível que destrói tudo o que vê pela frente por um ideal de pureza que só existe no mundo delirante da cabeça deles! Essa família é Bellatrix, suportando um genocida, essa família é Narcissa se submetendo a anos de abuso doméstico e infelicidade por status e riqueza, essa família são meus pais, tão egoístas e emocionalmente deformados que arruinaram a vida dos dois filhos antes que nós tivéssemos qualquer chance!
— Você deveria ouvir a si mesmo agora — ela murmurou, incapaz de se mover sob o aperto firme dele, e sob a firmeza dolorida de suas palavras. — Porque eu não vejo nenhuma diferença–
— O meu maior medo, Bervely — Sirius continuou, incapaz de impedir a enxurrada de farpas que despejava sobre ela. — É que você se torne alguém como eles. E o engraçado é que isso está acontecendo bem diante dos meus olhos.
— Pare com isso — Bervely pediu, os lábios tremendo, os olhos embaçados com uma camada de lágrimas que tentava conter — Eu não estou me tornando…
— Você é uma mentirosa. Mentira após mentira, sem parar — Sirius acusou, ainda à sua frente, segurando-a e perfurando-a com seu olhar e suas palavras e sua voz. — O que foi que aconteceu em Azkaban, Bervely? Como foi que você escapou?
— Eu já lhe disse isso — ela arfou. — Bellatrix me deixou ir…
— A que preço, a que preço ela deixou você ir? Com Bellatrix, há sempre um preço.
Bervely apertou os lábios, impedindo um soluço que queria escapar.
— Você encoberta assassinos — ele acusou, e quando ela ia abrir a boca para protestar, ele a encobriu, furioso. — NÃO minta pra mim! Eu sei, e eu sei que você sabe que Draco foi o culpado pela morte de Chang! E todo esse tempo, você não disse nada.
— Draco é inocente! — Ela defendeu. Não sabia como Sirius descobrira aquilo, mas tinha sido ingênua em achar que alguém, hora ou outra, não juntaria as peças.
— CHO CHANG ERA INOCENTE! Draco é a cria de um comensal da morte!
— Eu sou a cria de uma comensal da morte — ela apontou com rancor. — Caso tenha se esquecido.
Sirius a soltou. O olhar no rosto dele... Como se pela primeira vez ele visse quem ela realmente era.
— Você tem se comunicado com ela? Tem espionado para ela, não tem?
— Ficou maluco? Claro que n–
— Por que outra razão você iria para Hogwarts, ao invés de ficar conosco na Casa dos Gritos? Por que trabalhar com o Seboso, ao invés de retornar ao Instituto e terminar seu curso de Alquimia? Ela está fazendo de você uma espiã…
— Eu não voltei para o Instituto porque não queria ficar longe da Anne e de você, seu imbecil!
De certa forma, estava aliviada de que ele tinha lhe soltado; seus braços latejavam onde os dedos dele haviam apertado. O resto do seu corpo tremia.
— Eu não sei mais quem você é — Sirius murmurou, atordoado.
— Isso faz dois de nós, não faz, por que eu não faço a menor ideia de quem diabos você é, nos últimos tempos.
Sirius desabou no sofá, respirando em fortes arquejos. Deixou o rosto cair nas mãos, os cotovelos apoiados nos joelhos. Os ombros dele sacudiam. Bervely se inclinou para frente, preocupada.
— Você está–?
— Eu estou bem — ele rosnou com rispidez, respirando muito fundo. Mas não parecia bem. Parecia pálido, e parecia doente.
— Por que você não me contou nada disso? — Sirius quis saber, toda a raiva de repente varrida de sua voz. O tom vazio da pergunta foi, de alguma forma, pior ainda. Como se ele estivesse desistindo dela.
— Eu não sei. Eu não sei, eu sinto muito — jurou, querendo ir até ele, mas incapaz de se mover. Não sabia o que fazer.
— Eu costumava ser a pessoa em quem você mais confiava — Sirius lamentou, os olhos brilhantes de decepção. — Agora você me trata como se eu fosse um estranho. O que aconteceu– o que foi que eu fiz?
Ela balançou a cabeça. As lágrimas ainda estavam vazando de seus olhos, não havia nada que Bervely pudesse fazer sobre isso. Odiava chorar. Odiava que ele a fizesse chorar. Odiava que ele estivesse chorando também; aquilo era um desastre completo.
— Você não fez nada. É só… diferente, eu acho.
— Diferente por quê? Por causa de Azkaban? Porque eu deixei você lá? Eu nunca vou me perdoar por isso, Bervely, mas se houver qualquer coisa que eu possa fazer para tudo voltar a ser como antes…
— Não tem nada a ver com Azkaban, eu já lhe disse mil vezes — ela insistiu. — Foi antes disso.
— O que foi que aconteceu antes? — Ele perguntou, sem entender. Bervely riu sem humor, porque, claro como um lumus brotando no escuro, ela sabia a resposta.
— Você morreu.
Ele ergueu o cenho, ofendido.
— Bem, desculpe por ter morrido, Bervely. Se quer saber, também não foi um passeio no parque pra mim, mas eu voltei, não voltei? Estou bem aqui, então qual o problema com isso?
— Sim, você está bem aqui! Com o cerne bichado, podendo morrer de novo a qualquer momento! A despeito disso, continua metendo o nariz em invasões de dementadores e afins! Qual o problema, não é mesmo?
Sirius pareceu ter entendido, enfim. A expressão de compreensão em seu rosto não era nada feliz.
— É por isso que você tem escondido coisas de mim? Por que eu estou bichado? Por que eu não sou bom o suficiente para ser seu pai, agora que não posso usar a droga de uma varinha?
—Não! Bem, sim! Não tem nada a ver com ser bom o suficiente, mas quando você se aborrece, faz coisas inconsequentemente e coloca a sua vida em risco! Como eu poderia lhe contar o que acontece comigo, quando você iria se doer e sair por aí tentando vingar minhas dores, arriscando torrar o que resta do seu cerne no processo?
Através do ar pesado da sala, ela sentiu que estava respirando a dor de novo; pressionava seu peito como um torno. Sirius permaneceu calado, escutando. Ela continuou, porque se ao menos ele entendesse, quem sabe, poderiam dar um fim naquilo.
— Eu não posso perder você de novo, seu idiota. Não vai restar muito de mim se isso acontecer.
Ele riu com amargor.
— E a sua solução brilhante é mentir e esconder coisas de mim?
— Sim — ela suspirou, exausta. — Se isso vai contribuir para que você fique vivo.
— Eu vejo — ele anunciou com acidez. — Só tem um problema com o seu raciocínio. Eu não vou parar de lutar pelas pessoa que eu amo. Mesmo quando essas pessoas são obtusas e não fazem por merecer.
Ela assentiu sem olhá-lo. Sabia disso. Estava fora do alcance dela, e isso a deixava maluca.
— Quando eu morrer — Sirius continuou, enfatizando o quando de um jeito que sabia que a partia ao meio. — Não vai ser sentado no sofá tricotando um cachecol, enquanto o resto do mundo se explode.
— Eu sei — ela assentiu através dos olhos embaçados, mal conseguindo vê-lo. — Mas, se pelo menos–
— E você vai ter que achar um jeito de sobreviver — ele continuou, sem deixá-la completar seu protesto. — Porque é assim que funciona. Pais antes dos filhos. Às vezes pelos filhos, se estiverem fazendo o trabalho direito.
Ela fungou, a garganta trancada demais para protestar. Sirius se aproximou dela e moveu para trás de sua orelha uma mecha de cabelo que escondia seu rosto.
— Enquanto isso, pense bem em que tipo de pessoa você quer ser — ele pediu, suave e ameaçador em seu ouvido. — Por que eu quero morrer com orgulho de você, e não com desgosto.
Ele beijou o rosto dela, afagando seu cabelo por um segundo. Então caminhou para a lareira e pegou um punhado do flú velho em cima do console. A indignação de Bervely cresceu em espirais ardidas ao perceber que ele pretendia ir embora.
— Para onde é que você vai?
— Qualquer lugar que não seja essa casa. Eu prometi que nunca mais pisaria os pés aqui quando fui embora da primeira vez, mas sabe o que dizem… a terceira vez é a da sorte.
* * *
— Sirius! — Remus chamou quando o amigo entrou pela lareira da Casa dos Gritos, pouco tempo mais tarde. — Onde diabos você estava? Estou chamando em Grimmauld– o que foi que aconteceu?
Sirius encarou para Remus do fundo de seus olhos muito inchados.
— A vida, aluado. A vida aconteceu. Quê, quem foi que morreu agora?
Obviamente ele estava bêbado. Não pela primeira vez, Remus se perguntou se não deveria se preocupar com as quantidades alarmantes de álcool que Almofadinhas vinha entornando nos últimos meses. Mas, naquele momento, tinham problemas maiores.
— Mais cedo, quando você me disse que o Harry tinha ido para a Toca, como foi que você soube?
— Ele deixou um bilhete — Sirius explicou. — Por quê?
— E Anne? — Remus voltou a perguntar, com crescente alarme.
— O mesmo… outro bilhete. O que diabos está acontecendo, Aluado? Desembucha!
— Eu chequei com Molly há pouco— Remus explicou inquieto. — E Harry nunca chegou à Toca. Então eu chamei em Hogwarts, e descobri que Anne nunca voltou para lá também. O que significa que ambos estão sumidos desde cedo, ou por tudo que sabemos, talvez desde a noite passada.
***
Mais tarde naquela noite, após checar os sinais vitais de Draco e lhe administrar uma poção do sono sem sonhos, ela retornou para o antigo quarto de Bellatrix no terceiro andar. Era tarde o suficiente, mas pegar no sono parecia longe da realidade, sua cabeça ocupada em produzir mais pensamentos do que ela se lembrava de já ter acontecido antes.
Draco sangrando sem parar, pintando Grimmauld Place número 12 em vermelho.
A caixa de Narcissa, marfim branco debaixo da terra, seu corpo começando a apodrecer.
Sirius lutando… e morrendo de exaustão mágica, os olhos virados nas órbitas, os lábios azuis.
O corpo frio de Regulus se tornando quente contra o seu, dentro do seu, no escuro doloroso da noite.
O meu maior medo, Bervely, é que você se torne alguém como eles.
Ela jogou os lençóis para longe, se levantando. Estava claro que não ia conseguir dormir e ficar ali deitada estava lhe deixando nervosa.
Depois que Sirius tinha ido embora, e ela se vira sozinha com Draco e Monstro naquela casa enorme, que ainda cheirava a sangue fresco, quando respirava fundo.
Esse sangue de que você se orgulha tanto…
Assassinos. Torturadores. Gente que passa por cima de qualquer coisa para conseguir o que quer.
Bervely se sentou na frente da penteadeira que ficava ao lado da janela; a moldura do espelho coberto de safiras, esmeraldas e ametistas, muito como a que ela um dia possuíra em Blackburn Hall.
Se lembrava do dia em que Bellatrix se sentara atrás dela em sua penteadeira em Blackburn Hall, e lhe penteara os cabelos, olhando para Bervely através do espelho. Aquela fora a única vez que a mãe lhe tocara, nos oito meses que haviam morado juntas. Por todo aquele tempo, Bervely havia admirado Bellatrix como se ela fosse algum tipo de entidade inatingível, mas naquele dia, ela tinha percebido que eram iguais. A mãe a preparava pois quando crescesse, ela seria como Bellatrix. Era por isso que fora prometida a Voldemort e tivera que receber a marca da rosa negra.
Bervely sabia que Bellatrix também vira algo nela, naquele dia.
O meu maior medo é que um dia você se torne como ela.
Não tinham sido as exatas palavras de Sirius, mas ela sabia que era o que ele pensava. Uma parte de Bervely sempre seria Bellatrix, e mesmo depois de tantos anos Sirius não conseguia superar o fato, e por isso, nunca confiara nela por completo…
A culpa, sabia, era em parte da rosa. Deixando o penhoar escorregar pelo braço esquerdo, admirou a marca no espelho. Aprendera a conviver com ela, tinha se tornando parte indissociável de quem ela era. A rosa negra lhe avisava do perigo, e, mais de uma vez, salvara a sua vida. Fora conjurada como uma maldição de vigilância mas, com o tempo, se tornara outra coisa…
Mesmo agora, a rosa formigava, dormente, esperando com paciência quando seria útil de novo. Como as rosas esperavam um inverno inteiro sob a neve pela oportunidade de brotar na primavera seguinte. Passando os dedos sobre as linhas negras do desenho, Bervely soube intuitivamente que, em algum lugar do país, a rosa gêmea daquela estava sentindo o seu toque e despertando.
Encarando o seu reflexo, ela tomou uma decisão. Abriu a gaveta e pegou o único objeto que havia ali, enrolado em um lenço de veludo. Sentiu seu peso na palma da mão, a outra rosa, a que fora esculpida numa maçaneta de madeira e que, no dia do seu escape de Azkaban, Bellatrix lhe confiara.
Bervely a levou até um ponto na parede e a parte proeminente de metal atrás da rosa afundou como se a parede fosse feita de manteiga. Uma porta antiga, feita de vidro sujo e esquadria de metal retorcido em vinhas, brotou em torno da maçaneta com a resolução de uma erva daninha. Uma luz suave do outro lado deixou que Bervely visse os contornos do interior da estufa.
A porta estalou sob seus dedos. O cheiro de terra úmida e revirada, vegetal e sumos, ervas e adubo encheu seus pulmões, a transportando para a memória de outro tempo. A terra grudou na sola dos pés descalços à medida que ela atravessava o corredor estreito, vendo todo tipo de planta crescer e se enroscar pelas paredes e teto numa simbiose desorganizada, uma estrangulando a outra em busca de espaço. No fim da estufa havia um átrio hexagonal, onde o teto era mais alto e a luz da lua filtrada pelos ramos deslizava tímida até ela.
Foi ali que a encontrou; de costas, zelava pela a única planta do átrio, uma roseira exuberante que tomava cada espaço das paredes e florescia em rosas brancas grandes, os caules e ramos tomados de espinhos tão finos e longos que pareciam agulhas.
— Você demorou tanto a chamar — disse Bellatrix, a voz branda como se falasse com a roseira —, que achei que tinha se esquecido de mim.
Banhada pela luz da lua prateada e vestida num manto branco dos pés à cabeça, Bellatrix parecia uma aparição. Bervely se perguntou se ela estava mesmo ali ou só dentro de sua cabeça, como em Azkaban. No fim, não parecia fazer grande diferença.
— Foi por isso que me mandou a cabeça de Carmichael? — Bervely quis saber. Nunca duvidara que fora Bellatrix, e quando viu um sorriso surgir no rosto dela, teve a confirmação. — Para me lembrar do que eu devo à você por ter me deixado escapar de Azkaban naquela noite?
— Claro que não, bebê — Bellatrix fingiu-se de ofendida. — O quê, uma mãe não pode enviar um presente para a própria filha no natal sem segundas intenções?
— Não você — Bervely balançou a cabeça, a olhando através das pálpebras estreita de desconfiança. — Você não é esse tipo de mãe.
Bellatrix deu uma gargalhada; ela pareceria estranhamente bem humorada. Ocorreu à Bervely que talvez ela não sabia das novidades. Afinal o enterro fora feito às escondidas, Andrômeda assim garantira.
— O que foi, criança? O que é que tanto incomoda você, a ponto de despertar a rosa no meio da noite para falar comigo?
Bervely estava curiosa sobre como Bellatrix iria reagir. Ela olhou bem nos olhos cínicos da mãe, que ainda aguardava a resposta para a sua pergunta condescendente, e escolheu as suas palavras de forma a causar maior dano.
— Narcissa está morta. Achei que você gostaria de saber.
Bellatrix a ouviu, então soltou um sopro incrédulo e balançou a cabeça em negativa.
— Impossível. Falei com Cissa ontem mesmo. Não seja ridícula.
Bervely sentiu aquele estranho, sádico prazer crescer dentro dela diante da negação despreocupada de Bellatrix. Pela primeira vez, ela tinha o conhecimento de algo que podia afetá-la, e não o contrário. A troca na dinâmica era inesperadamente satisfatória, apesar das circunstâncias.
— É verdade. Ontem à noite ela tentou impedir que Lucius levasse Draco para receber a Marca Negra. Lucius tentou amaldiçoá-la, mas o feitiço acertou Draco. Narcissa os aparatou para Grimmauld Place sem varinha. Não pudemos salvá-la. A enterramos hoje à tarde no cemitério da família.
Enquanto contava, Bervely pode assistir a incredulidade no rosto da mãe ser substituída pela suspensão de sua descrença e então, por um horror inesperado que a pegou de surpresa.
— Não —a comensal expirou a palavra, os olhos arregalados. — Eu me recuso a acreditar–
— Você não precisa acreditar em mim, basta ir ao cemitério. Vai achar um túmulo fresco com o nome dela e a data de hoje.
— NÃO! Oh– Narcissa– Eu disse a ela para não interferir nos planos do lorde para Draco, mas ela me ouviu? — A ira de Bellatrix crescia em ondas, tornando seu rosto lívido e acendendo os olhos escuros — Você disse… Lucius foi o responsável?
— Ele lançou um Sectumsempra, me parece — Bervely ajudou, impressionada e decidida a enraivecer Bellatrix tanto que pudesse, torcendo para que a próxima cabeça que receberia seria a de Lucius Malfoy. — Ele pretendia fazê-la sangrar até a morte. Se Severus não tivesse vindo ajudar, Draco estaria morto.
— Draco — Bella interrompeu sua insanidade crescente para perguntar. — Onde é que ele está?
— Seguro — foi tudo que ela disse. — Estou cuidando dele.
— Eu preciso ir – a comensal declarou, recuando. Ela parecia, Bervely achou, um vulcão prestes a explodir, a lava escura brilhando ao redor das pupilas. Mais crua e perigosa do que jamais a vira, ou talvez como vira apenas uma vez, quando Bervely encontrara Sirius por acidente no Beco Diagonal e passara um tempo com ele.
Mas ela estava escapando do seu alcance, e Bervely ainda não tinha terminado com ela.
— Espere.
Bellatrix se virou com a urgência de alguém que era impedida que coloca o mundo de volta aos eixos.
— Na noite em que você me tirou de Azkaban, você perguntou se eu estava pronta para a minha missão. Mas eu não… — ela meneou a cabeça, contrariada. — Eu não sei do que estava falando. Você nunca me disse o que eu era suposta a fazer.
Bellatrix a encarou com intensidade, o cabelo negro e lustroso por cima do ombro esquerdo como a sombra de uma serpente prestes a atacar.
— Não se preocupe com isso. Sabendo ou não, você fará exatamente o que é suposta a fazer. Não se esqueça da razão pela qual eu a deixei nascer, Bervely. Agora se me dá licença–
Bervely abriu os olhos.
Estava sozinha no quarto, encarando o teto alto da cama de dossel; tinha caído no sono sem perceber. Não havia nenhuma porta na parede, e ela tinha bastante certeza que deixara a maçaneta de rosa em Hogwarts, bem guardada em seu baú, debaixo da cama.
Mas, em seu braço esquerdo, a rosa negra ardia como se pegasse fogo.
(Continua…)
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