A Canção de Morgana
33 Atrás do Espelho Havia um Coelho
Notas iniciais
So what if it's us?
What if it's us
And only us
And what came before won't count anymore or matter?
Can we try that?
(E daí se somos nós?
E se formos nós
E somente nós
E o que veio antes não conta mais ou importa?
Podemos tentar isso?)
Grimmauld Place, n. 12
26 de dezembro — madrugada
Havia um limite para quanto Beatles uma pessoa podia ouvir antes de enlouquecer, Anne decidiu, arrancando os fones dos ouvidos — no pico da sua impaciência
Oliver lhe enviara aquele CD de Natal, e ela vinha ouvindo-o no CD-player trouxa desde que fora mandada para o andar de cima, após Narcissa Malfoy bater na porta da casa, com Draco Malfoy esvaindo-se em sangue nos braços. Era suposta a ignorar o que estava acontecendo lá embaixo – quando tinha tentado retornar até a fonte dos gritos, dois andares abaixo, fora impedida por Monstro, que guardava as escadas como o mais enrugado cão de guarda de que se tinha notícias. “Ordens da minha senhora, ninguém do andar de cima vai ao andar de baixo sem permissão. Monstro tem autorização para morder, se preciso.”
Mas parecia que “ninguém” queria dizer ela e Darkmoon, porque Harry fora conjurado por Bervely mais cedo. Darkmoon se cansara de esperar com Anne na Sala da Tapeçaria, e tinha ido explorar os andares superiores da casa. Já Anne, cansada de encarar as tapeçarias macabras da família Black, subira para o quarto no andar superior, que era suposta a ocupar naquela noite. Era o antigo quarto de Regulus, e ao contrário da sua expectativa, era até agradável, com tons de cinza-iridescente e um verde-azulado veludoso nas cortinas. Sua pilha de presentes fora transferida para o pé da cama, porém, era preciso mais do que um kit novo de poções (de Bervely), um novo caderno de anotações autocorretor (de Remus) e um novo par de luvas (de Sophia) para lhe distrair das vozes agitadas, ordens rápidas e ocasionais gritos que vinham de dois andares abaixo, distorcidos pela escada em espiral.
A certa altura, tivera a impressão de ouvir a voz de sua tia Andrômeda, e mais tarde… Snape? Houvera gritos. Mais ou menos nessa hora ela tinha decidido enfiar os fones de ouvido, escutando o CD de Oliver uma, duas, então três vezes inteiras. Agora que o tirara dos ouvidos, tudo parecia silencioso no restante da casa – um silêncio de mau presságio, se os pêlos arrepiados dos seus braços diziam alguma coisa.
Anne saltou da cama e calçou os sapatos jogados no tapete. No minuto em que abriu a porta, deu de cara com Monstro vindo do outro lado do corredor, resmungando alto. Ele a viu parada ali e lhe dedicou um olhar espezinhado. Antes que algo maldoso saísse da boca do elfo, Anne se adiantou, no tom mais amigável que conseguiu produzir:
— Qual o problema, Monstro? Algo que eu possa fazer para ajudar?
— Se a senhorita Black souber onde o afilhado do filho ingrato da minha senhora foi parar, que não está no quarto como foi ordenado pela Srta. Black! Sumiu das vistas de Monstro como se fosse feito de ar! Monstro não admite tamanha insubordinação…
— Harry sumiu? — Anne repetiu, tentando desvendar as reviravoltas do raciocínio do elfo.
— Potter deveria esperar no quarto como Srta. Black mandou, depois de fazer a poção. — Monstro apontou um dedo, nodoso como um galho ressecado de árvore, para a porta quase alinhada com a do quarto de Anne, do outro lado do corredor. — Mas não está e Monstro não o viu passar! Monstro sentiu cheiro de traidor de sangue no ar, mas a casa inteira está infestada, é difícil saber de onde vem…
— Certo... — Anne tentou conter um sorriso, não achava que era seguro deixar escapar humor na frente daquele elfo em particular. — Desculpe, não sei como ajudar. Não vi Harry desde que fui banida do andar de baixo.
O elfo avançou na sua direção, a testa franzida de desconfiança, e Anne lhe deu espaço para olhar dentro do seu próprio quarto. Quando o elfo se satisfez de que ela não estava escondendo Harry debaixo da cama, ele deu meia volta nos tornozelos ossudos e saiu andando e xingando corredor acima, rumo ao último andar da casa, no qual o sótão ficava.
Ela esperou a voz de Monstro se perder antes de se mover de novo. Tinha mentido – como sempre, sabia exatamente onde Harry estava no momento em que fazia a si mesma a pergunta.
No terceiro andar, as três portas tinham sido encantadas com feitiços de imperturbabilidade. Era conseguia sentir a estática no ar, bloqueando as portas, como cócegas na ponta do nariz quando respirava. O segundo andar estava silencioso, e o ar cheirava a metal. A porta do quarto de visitas estava aberta e Anne espiou lá dentro, mas não havia ninguém. Estava quase certa no entanto de que a maior parte da comoção daquela noite se desenrolara ali. O sangue fora limpo, mas o cheiro metálico, que era quase um gosto, perdurava no ar, deixando-o pesado e nauseabundo. Havia algo mais no ar – o eco de algo horrível, triste e fresco que arranhava as barreiras de sua mente, querendo se fazer visto. Anne resistiu à tentação de tirar a Orbe do seu pescoço e tentar descobrir o que era. Já bastava de sangue derramado aquela noite, não queria adicionar o seu à equação, por maior que fosse a sua curiosidade.
Uma vez no primeiro andar, Anne foi direto para a cozinha. Embora mergulhada num caos de frascos vazios de ingrediente, caldeirões e utensílios sujos de poções largados empilhados na pia, e o mesmo cheiro nauseante de sangue que impregnava o andar anterior, também não havia ninguém ali. Ninguém visível, ao menos.
— Harry?
Silêncio. Do tipo suspeito, de quando se prende a respiração para não fazer nenhum barulho.
— Eu sei que você está aí. Monstro está caçando você no andar de cima. Aparentemente a alta saturação de traidores do sangue empesteando a casa está confundindo o olfato do pobrezinho. Anda, aparece.
Anne viu brotar, do mais absoluto nada, um Harry consternado, completamente vestido, usando sapatos e com a mochila nas costas. Ela ergueu as duas sobrancelhas para aquela visão.
— Você por acaso está indo para algum lugar?
— Eu estava tentando ser discreto — suspirou o garoto. — Você vai me delatar?
Anne cruzou os braços para a pergunta absurda. Ela tentava ficar do lado de Harry toda vez que alguém (normalmente Bervely) o acusava de egoísmo, mas às vezes ficava difícil defendê-lo.
— Como você pode estar tentando escapar sozinho no meio da noite, depois de tudo que aconteceu aqui hoje? Uma cabeça numa caixa, Malfoy sangrando? Por que você sequer quer fazer isso? Está tentando se matar?
— Nada disso foi minha culpa! — ele se defendeu, os olhos arregalados com a pretensa acusação. Anne intensificou sua expressão de incredulidade para ele.
— Eu não estava insinuando que fosse. Mas será que passou pela sua cabeça que todo mundo vai ficar maluco quando o dia amanhecer e você não estiver na casa?
— Ah. — Os ombros de Harry caíram um pouco. Uma expressão de culpa manchou os olhos muito verdes. — Eu deixei um bilhete para Sirius.
— Merlin o abençoe, ele deixou um bilhete! — Ela jogou as mãos para o alto, embora a sua exclamação ácida perdesse um pouco do efeito por ser proferida aos sussurros.
Sem conseguir encarar a cara de pau do garoto, ela correu os olhos pelos restos de ingredientes e utensílios espalhados pela cozinha, tentando adivinhar o que Bervely estivera cozinhando.
— Anne — Harry chamou, vindo na sua direção, parecendo mais arrependido de suas pretensões evasivas agora que ela tinha lhe chamado atenção. Anne não esperou que ele completasse o pensamento, cortando-o para perguntar:
— Você faz ideia do que aconteceu aqui essa noite? Por que Bervely quis justo a sua ajuda? Eu a ajudei com poções milhões de vezes, na Academia.
— Ela me ensinou a poção de reposição do sangue há poucos dias, deve ter achado que eu ia lembrar melhor do que… outra pessoa. — Ele deu de ombros, sem graça.
— Reposição de sangue. Para Malfoy? O que foi que aconteceu com ele? Ele– sobreviveu?
— Malfoy sobreviveu — confirmou Harry, o tom tomado de uma quietude estranha. Anne o olhou nos olhos, tentando descobrir qual era o problema. Ela sabia que algo ruim tinha acontecido pela sua impressão ao passar pelo quarto de visitas, mas não fora com ninguém próximo a ela, então não sentira a ligação com ninguém que ela amava se partir…
— A mãe dele — Harry respondeu a pergunta que ela não tinha feito em voz alta. — Narcissa Malfoy. Morreu logo depois que Snape salvou a vida de Malfoy. Não sei bem o que aconteceu, uma hora ela estava chorando, e depois–
— Ah, não... — Anne fechou os olhos, mortificada. Isso explicava os gritos de Bervely, e os que ela achava que tinha vindo de Andrômeda.
— Você a conhecia? Quero dizer, sei que ela era uma Black de nascimento…
— Bervely a conhecia — Anne explicou, sentindo uma dor pungente brotar atrás dos olhos, sinal de que a Visão estava tentando agir através do bloqueio da Orbe. Ela tentou controlar a urgência de alcançar Bervely e descobrir como a irmã estava, forçando a sua atenção de volta para Harry. — Narcissa a criou como sua filha, quando Bellatrix a abandonou para ir estudar arte das trevas.
— Ah. Eu não sabia — disse ele, tentando, ao que parecia, encaixar as peças do quebra-cabeça complicado que era a genealogia da família Black. — Sinto muito…
— Eu preciso ir ver como ela está — Anne decidiu, a dor de cabeça se tornando mais intensa, mas Harry negou com rapidez.
— Melhor não. Ela não, uh… não está sozinha.
Era difícil dizer, sob luz amarelada e fraca da cozinha, mas Anne teve a impressão de que ele estava corando.
— Quem está com ela? Sirius?
— Uh… Regulus. Eu o vi esperando no quarto, antes mesmo de ela voltar lá pra cima.
— Oh. Certo — ela assentiu, transferindo a informação para um canto de sua mente, no qual poderia retornar mais tarde. — E quanto a Sirius, você o viu?
— Também não está sozinho — Harry acrescentou, o tingimento das maçãs de seu rosto se aprofundando para um púrpura. — Eu estava indo falar com ele quando vi Darkmoon indo–
— Certo — ela o interrompeu, prendendo a respiração. Uma coisa era imaginar Bervely e Regulus juntos, mas outra coisa era o seu pai e Darkmoon. Isso explicava todos os feitiços de imperturbabilidade no terceiro andar.
— Não estou dizendo que vi nada demais — Harry se apressou a completar. Anne assentiu para assegurá-lo, embora era óbvio que agora os dois estavam pensando em coisas demais.
— E como você sabe de tudo isso? — ela perguntou, ansiosa para encontrar um assunto que não envolvessem membros de sua família isolados em quartos, imperturbáveis, numa madrugada tão estranha como aquela.
— Bervely me mandou de volta para cima depois que terminamos a poção. Eu subi, peguei a minha capa e desci de novo — Harry admitiu, encolhendo os ombros como quem diz “era o mínimo que eu podia ter feito”.
— Você tem dificuldade em ficar fora do olho do furacão, não tem? — ela comentou com um pouco de veneno. Harry teve a decência de parecer constrangido.
— Só não gosto de não saber o que está acontecendo. Historicamente, informações pela metade já me levaram a decisões estúpidas.
— Argumento válido, suponho — ela assentiu, suavizando a expressão. Não queria que ele achasse que ela falava sério sobre condená-lo. Até arriscou um sorriso relutante. — Mas bem que você podia ter me chamado pra ir espionar junto.
Harry ficou surpreso, depois um sorriso se abriu, brotando no canto da sua boca.
— Desculpe. Vivo me esquecendo que agora você é uma transgressora de regras como o resto de nós.
— Quem anda com Grifinórios… — ela insinuou, fazendo Harry rolar os olhos.
Um ruído do corretor fez os dois se virarem para a porta da cozinha. Era Monstro, seus resmungos ficando mais altos à medida que ele descia as escadas até o andar em que estavam. Anne se lembrou da irritação do elfo há poucos minutos no andar de cima e tencionou-se, imaginando que ele começaria a insultá-los de novo se os achasse ali conversando.
— Venha, rápido — Harry chamou, jogando a capa sobre si mesmo e mantendo-a “aberta” por sobre o braço para que Anne entrasse também. Ela escorregou para debaixo bem no momento em que Monstro enfiou a cabeça pelo portal da cozinha. Os dois ficaram bem quietos, prendendo a respiração, um contra o outro, as costas de Anne tão coladas ao peito de Harry que ela conseguia sentir o coração dele bater. O elfo demorou uma eternidade para ir embora, continuando sua ladainha baixa sobre traidores dos sangues desonrados se arrastando pelos assoalhos da sua senhora.
— Adorável — Harry murmurou.
— Provavelmente devíamos voltar lá pra cima — ela comentou, seu próprio coração disparado.
— Na verdade, eu estava pensando — Harry sussurrou perto do seu ouvido, visto que eles ainda estavam colados debaixo da capa. Anne sentiu os pêlos do pescoço se arrepiarem quando o hálito dele encontrou sua pele desavisada. — Você tem alguma ideia de onde fica guardado o Pó de Flú?
— Harry — ela admoestou, tanto incrédula como começando a se aborrecer — Você ainda está pensando em escapar? Não dá nem pra esperar amanhecer pra ver a sua namorada?
O corpo de Harry se enrigeceu contra o dela sem aviso.
— Ver minha o quê? — ele repetiu, com cuidado. Anne sentiu o sangue sumir do rosto, percebendo o que tinha acabado de dizer em voz alta. Ela se empertigou, tentando soar casual.
— Não é para a Toca que você quer ir, onde Gina Weasley está esperando? Você comentou hoje mais cedo…
Ele demorou para responder. Anne não via o rosto de Harry, então não tinha ideia de que expressão estava fazendo.
— Não é para Toca que eu quero ir. Ao menos, não imediatamente.
***
— Eu vejo.
Eles estavam de volta ao antigo quarto de Regulus Black, de novo falando baixo. Tinham atravessado todos os andares da casa debaixo da capa para não chamar atenção dos adultos ou de Monstro, que prosseguia em sua caçada à Harry.
Anne tinha prometido – ainda sem graça pelo seu comentário impulsivo – que o ajudaria a achar o flú caso ele tivesse uma ótima, completamente aceitável e urgente justificativa para fugir no meio da noite (o que ela estava certa que ele não teria).
Harry acabara de lhe explicar onde queria ir, e porquê. E acabou que ela estava errada. Ou pelo menos, estava considerando que poderia estar. Era importante. E podia ser urgente, se as suspeitas de Harry estivessem corretas.
— Mas você não pode chegar lá usando flú — Anne se ouviu conjecturando, a despeito de si mesma. — E se a lareira não estiver ligada à rede? Quero dizer, mesmo se estava antes, depois de tantos anos…
— Preciso arriscar. Eu pensei em aparatar, ou usar o Nôitibus Andante, mas não sei o endereço, e ainda não sei aparatar, então…
— O Nôitibus foi interrompido, você não viu no jornal? — ela informou, sentida. — O condutor foi atacado, após se recusar a transportar o que parecia ser um grupo de comensais da morte, está no hospital entre a vida e a morte…
Harry engoliu em seco, recebendo a notícia com indignação silenciosa. Anne o observou – ainda de pé no quarto, andando de um lado a outro, enérgico demais para se sentar. Ela já conhecia Harry o suficiente para saber que não conseguiria fazê-lo mudar de ideia, uma vez decidido. Anne suspirou para si mesma, aceitando o fato de que estava mesmo colaborando com os planos de evasão de Harry Imã de Problemas Potter.
— Eu sei como chegar lá.
— Você sabe? Como? Por quê? Não me diga que isso também está em Hogwarts, uma História, era só o que faltava.
— Não, bestão. Esqueceu que eu morava em St. Sensille? Fica do outro lado do lago, fui lá com o meu avô um milhão de vezes quando era pequena.
— Ah, verdade! — ele assentiu agitado, já esperando que ela lhe dissesse qual era. Mas Anne mordeu os lábios, em silêncio. — E então?
— Não é seguro, Harry.
— Não, não é — ele concordou, indo e voltando na pequena área do tapete na extensão das três palavras, deixando Anne tonta. — Sabe o que mais não é seguro? Ficar aqui. Ou em qualquer outro lugar. Olha só o que aconteceu hoje!
Ela rolou os olhos para o argumento pobre – apesar de tudo não tinham estado realmente em perigo, com os adultos ali para protegê-los se algo desse errado. Sair pela noite na caça de um livro que podia muito bem nem existir mais, por outro lado…
— A moto! — Harry exclamou de repente, os olhos acesos e esperançosos, se virando para ela. — A moto, Sirius lhe deu a moto voadora!
— Não. Não, nem pensar, absolutamente não. Ainda preciso ter lições de direção. Sirius prometeu que vamos fazer um intensivo durante o verão.
— Não pode ser muito diferente de voar numa vassoura — Harry tentou persuadi-la, os olhos verde-esmeralda brilhando como os de um cachorrinho manipulador. — Eu posso tentar, não me importo.
— Sirius me fez prometer que eu não deixaria ninguém além de mim mesma conduzir a Dama.
Os ombros de Harry murcharam de novo. Ele parecia um garotinho a quem era negado, repetidamente, o seu brinquedo preferido.
No fundo, Anne sabia qual era a coisa certa a fazer: eles deveriam esperar o dia amanhecer, os adultos acordarem, e então Harry devia pedir a Sirius ou a outra pessoa para levá-los em segurança aonde queria ir. Nada de saídas furtiva na noite, voos em motocicletas voadoras ilegais, nem nenhuma outra loucura.
Em suma: a coisa certa. A que não iria levá-los a uma morte estúpida. Já tinha havido morte o suficiente aquela noite – naquelas últimas semanas, aliás, se ela fosse colocar o ataque dos dementadores à St. Sensille na equação. Bem debaixo do nariz deles, inevitáveis. Mesmo que estivessem fazendo a coisa certa o tempo todo.
Enquanto convencia a si mesma, mastigando o lábio inferior, Harry olhava para ela em expectativa suspensa. Anne bufou, deixando para trás o seguro e racional, ao invés disso atendendo o chamado irresistível impresso no par de olhos verde-esmeraldas.
— Ok, eu levo você até lá, que Cassandra me proteja dessa insanidade.
Subiram no telhado.
A coisa toda era terrível, se fossem parar para pensar. Um desastre de natal – uma pessoa tinha morrido, pelo amor de Merlin! Bem debaixo do nariz deles. O último lugar que deviam estar na madrugada pós-natal era no telhado cheio de neve de Grimmauld Place, tentando não escorregar e quebrar o pescoço.
Harry segurou firme a sua mão enquanto escalavam as escadas de incêndio instaladas “pra trouxa-ver”, a partir da janela do quarto. Mesmo com os feitiços antiderrapantes lançados em seus sapatos, eles não se sentiam estáveis. Anne se achava embriagada – logo ela, que nunca tinha estado bêbada na vida. Sabia que era a adrenalina em seu sangue, fazendo a vida real parecer um sonho absurdo, do tipo que ela teria corrido milhas em seus tempos responsáveis de Corvinal.
— Aqui parece bom — disse Harry, ajudando-a a alcançar uma área plana do telhado que Anne supôs ficar mais ou menos acima do corredor entre os quartos do último andar. A noite acima deles era branca, nevoenta e sem estrelas. Anne se encolheu dentro da sua jaqueta, o feitiço de aquecimento insuficiente diante do vento cortante do auge do inverno, à céu aberto.
— Certo, se afaste. — Ela bateu os dentes. Tirou a motinha em miniatura do bolso e a colocou no chão, em cima da neve fofa, recém caída e imperturbada. Do outro bolso ela tirou a varinha, os dedos rígidos, já em processo de congelamento. — Finite Reductus!
A moto inflou como um balão metálico, rangendo e estalando de volta ao seu tamanho original. Era tudo que devia ser – bem polida, subversiva e descolada, feita de partes, pelas mãos de um adolescente rebelde nos anos oitenta. Como ainda se mantinha inteira depois de tanto tempo escapava do entendimento de Anne, mas o pai lhe garantira que era segura, recauchutada pelo Sr. Weasley naquele verão.
— Parece que o senhor Weasley acrescentou umas funções novas — ela disse, a voz distorcida pela ventania. Harry, que tinha as mãos enfiadas nos bolsos de sua própria jaqueta jeans desbotada e os ombros encolhidos para proteger os órgãos vitais da hipotermia, lhe lançou um olhar de dúvida.
— Da última vez que voei em um veículo que passou pelas mãos do Sr. Weasley, fui parar no topo do Salgueiro Lutador.
— Promissor — ela assentiu, batendo o queixo.
— Bem, devemos…? — Harry fez um sinal geral em direção à moto. Anne assentiu, respirando fundo.
— Sim, sim. Sirius me explicou o que fazer, na teoria.
Ela não viu o sorriso no rosto dele, concentrada em passar uma perna sobre a moto e se acomodar no assento que era quase alto demais, só as pontas de seus pés tocando no chão. Felizmente, a Dama tinha um feitiço de equilíbrio que dispensava a necessidade de Anne sustentá-la por si própria, ou aquilo já estaria sendo um desastre.
Ela colocou as mãos nos guidões acolchoados, dando a partida com uma rotação da mão direita. O motor respondeu de imediato, roncando ansioso entre as suas pernas. Anne engoliu em seco, sentindo o poder da moto vibrar de encontro ao seu corpo. Ela fechou os olhos e respirou fundo – técnica de relaxamento superestimada, em sua opinião – o coração pulsando na garganta. Não era nem um pouco como voar de vassoura.
— Você vai querer estar em cima da moto quando eu decolar — ela disse, ao abrir os olhos e encontrar Harry ainda lhe encarando, um ar de divertimento no rosto que a deixou impaciente. Tentou soar descontraída, mas falhou por conta dos maxilares travados.
Harry se apressou a montar atrás dela. Com as pernas mais longas e o hábito de subir em sua vassoura, o movimento foi muito mais fluido e confi do que o de Anne fora. Havia espaço suficiente no banco para uma terceira pessoa, mas mesmo assim Harry estava perto o bastante para que ela sentisse o calor irradiar do seu corpo, nos poucos centímetros que os separavam, o que era ao mesmo tempo um alívio e mais uma fonte de tensão.
— Você tem alguma ideia do que está fazendo? — ele murmurou em seu ouvido, tentando falar perto o bastante para não ter que gritar. Anne se ajeitou, alinhando as costas, fingindo que sabia. Finja até virar verdade, não era isso que a sabedoria popular dizia?
— É melhor segurar firme.
Harry passou os braços em torno da sua cintura, as mãos se encontrando na frente da sua barriga, na altura do seu umbigo. Era a segunda vez naquela madrugada, Anne notou, que ficavam colados a ponto de ela não saber se as batidas desgovernadas que sentia vinham do seu coração ou do dele.
— Antes que nos descubram, de preferência — Harry enfatizou, em mais um daqueles sussurros urgentes perto do seu ouvido, para o qual o corpo dela respondeu com um arrepio generalizado. Anne apertou os dentes com força, soltando um grunhido.
— Certo. Não acredito que estamos mesmo fazendo isso. Certo.
Ela acelerou para o nada, sabendo que só tinha uma chance. Quando avançassem além da borda do telhado, ou ganhavam altura, ou estavam acabados…
***
Céu, acima de Brentford
26 de dezembro — algum tempo mais tarde
Quando ganharam velocidade e altitude suficiente, Anne conseguiu relaxar um pouquinho, tomando inspirações profundas do ar gelado que passava através deles a grande velocidade. Graças ao que ela supunha ser as melhorias do pai de Rony, a moto tinha algumas adições, que podiam ser ativadas através de botões no painel. Havia um para deixá-los invisíveis – ou melhor, desiludidos contra a noite cinzenta,confundindo-se com os arredores – e outro que conjurava uma bolha de calor ao redor da moto, e rebatia a temperatura muitos graus mais baixa àquela altura. Também havia uma bússola incrustada bem no centro do painel, que mostrava não só os pontos cardeais, mas também um mapa da área em que estavam, com nomezinhos surgindo à medida que iam atravessando o céu de Londres, na direção ao oeste.
Ela, enfim, parou para apreciar as estrelas, que tinham aparecido após atravessarem a camada de névoa carregada que envolvia a cidade e agora formava um tapete aos seus pés. Mergulhavam no veludo escuro do céu, num mundo do qual eram parte – e não expectadores – das constelações cintilando ao redor deles.
— Frio? — Harry perguntou, de novo sussurrando perto do seu ouvido para fazer frente ao vento, que ainda rugia em seus ouvidos, um monstro feito de ar e velocidade, acelerando com eles na escuridão.
Ela não estava com frio. A única coisa gelada era a ponta do seu nariz, recebendo o vento de frente. Apesar disso, viu-se assentindo.
Harry cerrou seus braços ao redor dela, seus corpos tão próximos que o vento não mais podia passar entre eles. Anne estremeceu, o contato morno do corpo dele espalhando arrepios em seus nervos de um jeito que o frio não poderia fazer.
— Acho que vamos chegar lá em umas duas horas — ela disse, apontando para a bússola no painel. — Espero reconhecer a área quando chegarmos perto.
— Certo — ele respondeu, soando despreocupado. Anne detectou uma energia diferente na voz dele. Excitação, ela achava. Como se estivessem fazendo algo empolgante, não arriscado e condenável. Quanto mais os minutos escorregavam rápido por eles, quanto mais altitude adquiriam – afastando-se dos perigos lá de baixo, da terra firme – mais Anne compartilhava da sensação.
Estavam nas estrelas, voando a cento e quarenta quilômetros por hora, sem saber o que iriam encontrar em seu caminho. Podia parecer loucura, mas ela não se lembrava da última vez que tinha se sentido tão segura.
***
Começou a amanhecer quando sobreavam Bristol. Anne sabia que era Bristol por conta da visão de onde o rio Avon se bifurcava, um dos braços mais sinuoso do que o outro. Estudara a Revolta de Avon no início daquele ano em história da magia, um episódio polêmico em que duas comunidades de sereianos, motivados por divergências políticas intensas no século XV, decidira dividir o rio em duas partes, para a confusão dos trouxas medievais que costumavam habitar o local.
Continuavam seguindo oeste, agora ligeiramente inclinados para o sul. Ela mantinha as mãos firmes no guidão, mas o seu corpo agora se encontrava relaxado contra o de Harry. Em algum momento da viagem – feita, na maior parte, em um silêncio confortável – Anne se deixara recostar no peito dele, e o queixo dele se acomodara perto da sua têmpora direita. Podia jurar que tanto as batidas de ambos os corações, como suas respirações, estavam sincronizadas.
Absorvida pela sensação de calma quase extracorpórea, foi pega de surpresa quando as luzes da manhã começaram a vazar contra as nuvens, tingindo o tapete esbranquiçado em que vinham flutuando até ali em tons de dourado, primeiro pálido e depois intenso como ouro puro, quando o ângulo do sol com as nuvens foi se acentuando. O céu atrás deles ia se tornando cor de rosa e laranja pálido, enquanto que, a adiante, o mundo ainda tingido pela noite, era de um degradê de azuis, rosas e violetas.
Anne já tinha se perguntado como seria morar numa das pinturas espetaculares que encontrava em Hogwarts, vivendo dentro de uma paisagem feita de tons ricos de tinta. Agora ela sabia. Seus olhos ameaçaram transbordar, incapazes de absorver o espetáculo de uma vez só.
— Uau — Harry murmurou atrás dela, a voz carregada de admiração.
— Eu sei.
Eles mergulharam num silêncio reverente, tão habituados com o ronco da Dama da Noite que este já não passava de um ruído de fundo.
— Estou feliz que viemos — ela disse baixinho, completando para si mesma: mesmo que essa decisão acabe me matando.
***
“Bem-vindos a Godric’s Hollow”, lia-se na plaquinha de madeira ao lado da estrada, quando Anne os conduziu de volta para terra firme, com um pouco de solavanco ao encontrar o chão, mas definitivamente inteiros.
Harry estava em silêncio desde a aurora. A viagem tinha durado mais do que duas horas – quase três, pelos cálculos de Anne – e agora que estavam ali, ela estava se perguntando se aquele silêncio todo significava que ele tinha mudado de ideia.
— Vou estacionar na orla do bosque que fica ao pé da colina — ela avisou. Harry ainda tinha os braços passados ao seu redor, mas desde que tinham retornado à terra firme, ela não estava mais apoiando-se nele, preocupada em manter a moto no rumo certo, seguindo a estradinha estreita que os levava em direção ao vilarejo. — Quando chegarmos lá, é melhor você colocar a capa.
— Sim, certo — ele concordou, no que ela julgou ser uma voz tensa. Combinava com a tensão que o abraço dele tinha adquirido desde o pouso.
***
— Você não tem que ir comigo, se não quiser.
Anne, que estava descendo da moto com cuidado para não escorregar na mistura de folhas úmidas e geada fresca, olhou atravessado para ele.
— Esse é o seu jeito de dizer que eu estou dispensada?
— Não. Eu quero que você venha comigo — ele consertou rápido, urgência nos olhos verdes, que brilhavam mais naquele momento sob a luz da manhã do que Anne já havia visto em qualquer outra circunstância. — Só não quero colocar você em problemas. Sirius não vai ficar nada feliz quando souber que você sumiu durante a noite, e muito menos quando desconfiar que fui eu quem trouxe você comigo.
— Eu trouxe você comigo — ela retrucou. — Não esqueça quem estava dirigindo. Além do mais, não se preocupe, eu deixei um bilhete em meu quarto dizendo que eu voltei para Hogwarts usando Flú. Isso deve me dar algumas horas, pelo menos.
Harry deu um sorriso enviesado. Era o primeiro do dia.
— Os Grifinórios são uma péssima influência para você.
— Não posso deixar de concordar — ela deixou escapar um suspiro teatral. Apertou um dos botões no painel da Dama e a moto se desinflou de novo até o tamanho de um brinquedinho. Anne a pescou no meio da neve e folhas secas e a enfiou no bolso da jaqueta. — Anda, coloca a capa. Não queremos ninguém reconhecendo o Menino-Que-Sobreviveu visitando a sua cidade natal e gerando perguntas que não podemos responder.
Harry obedeceu, tirando a capa da mochila e se cobrindo com ela. Agora que estavam ali, que a magia do voo entre as nuvens e estrelas tinha se dissipado e dado lugar à realidade nevoenta e gelada daquele dia pós-natal, ele se viu apreensivo. Estava prestes a visitar o lugar em que tudo tinha acontecido. O lugar que ele tinha nascido, e no qual ele teria vivido – com seus pais –, não fosse Voldemort.
— Me siga — disse Anne, baixinho, apontando para a silhueta da vila que eles podiam ver entre os troncos das árvores, margeando a colina. Godric’s Hollow ficava encarapitada na face da colina em questão, e pela direção que Anne apontava, eles precisavam subir através da única ruazinha que Harry conseguia divisar daquela distância.
— Como você sabe para onde temos que ir? — ele perguntou por baixo da capa, fazendo o seu melhor para acompanhá-la através da neve imaculada sem que a capa se movesse e mostrasse seus tornozelos. Anne falou sem virar na direção em que a voz dele vinha.
— Só tem um caminho, realmente.
— Hum. Certo — disse Harry, pouco convencido. — O quão perto… o quão perto de St. Sensille estamos?
Remus tinha mencionado a respeito da proximidade do vilarejo em que a avó de Anne morara e Godric’s Hollow, no dia em que os dementadores tinham atacado.
— É logo do outro lado da colina, depois dos trilhos do trem — ela murmurou. Harry se deu conta, tarde demais, que aquela excussão não podia estar sendo fácil para Anne, tão perto de onde a avó dela, tão recentemente, tinha sido beijada por um dementador. Ele quis estapear a si mesmo.
— Sinto muito por ter feito você vir comigo.
— Você não me fez fazer nada, não seja ridículo — ela disse com ligeira impaciência, e ele achou melhor seguirem em silêncio a partir dali.
A orla da floresta não ficava longe da primeira ruazinha, que avançava colina acima, chalés parecidos encarapitados de cada lado. A maioria deles tinha decoração de Natal, enfeites e árvores decoradas no jardim frontal. Harry notou que eles estavam deixando pegadas na neve fofa, mas não se importou muito, inundado com a entorpecência de retornar ao lugar que tinha nascido, ansioso para identificar alguma coisa, sentir algum beliscão de familiaridade que lhe indicasse que era dali que ele vinha. As ruas pelas quais teria andando, casas de pessoas que ele teria conhecido.
— Também tem trouxas aqui? — ele perguntou baixo, esquecendo-se do seu voto de silêncio ao notar a presença de objetos trouxas nas varandas; bicicletas, caixas de correio, postes de luz, um ou outro carro estacionado nas garagens estreitas.
— É um vilarejo misto… um dos mais antigos da Grã-Bretanha. Você não presta muita atenção nas aulas de história da Magia, presta? — ela zombou, virando o rosto para o lado em que ele estava, mas incapaz de localizá-lo. Se alguém olhasse pela janela de um dos chalés, ia achar que Anne estava falando sozinha.
— Devo ter faltado essa — ele disse, apressando o passo para acompanhá-la.
Ao virarem à esquerda no fim da ruazinha que vinham seguindo, deram de cara com uma área ampla que devia ser a praça central da vila. Havia um correio, um pub, uma escola, uma igreja e várias lojinhas; todas fechadas, iluminadas pelas luzes amareladas de um par de postes e por luzinhas vermelhas e verdes da decoração de natal. O vento sacudia um pinheiro triste no meio da praça, ao lado de um monumento de guerra.
— Ah, é. Você vai querer olhar isso mais de perto. — Era para o monumento que Anne apontava.
Ele se aproximou – então o monumento mudou, se tornando uma estátua de três pessoas. Um homem de óculos e cabelos bagunçados, uma mulher alta, de cabelo longo, e um menininho em seu colo. Flocos pequenos de neve iam se acumulando no cabelo deles, dando a impressão de que usavam chapéus fofos de lã. Harry ficou parado ali, encarando seus pais e a si próprio, tão pequeno e sem cicatriz, esculpido em pedra. Nunca imaginara que haveria uma estátua…¹
A mão de Anne encontrou seu ombro e ela lhe deu um apertãozinho de apoio, dissolvendo o clima estranho que tinha se instalado entre eles desde a orla da floresta até ali. Harry sentiu o fundo dos olhos queimarem, grato que ela não podia ver seu rosto.
— Você sabia que isso estava aqui? — ele perguntou, a voz difícil de sair.
— Passei por ela algumas vezes. Fiz meu avô me contar a história.
— Vamos andando — disse ele, sem conseguir ficar ali parado, encarando a sua família e a si mesmo eternizados em pedra.
Eles prosseguiram pela rua principal, que continuava do outro lado da praça. Neve começou a cair em flocos grandes, acumulando-se sobre a capa, que ele sacudia discretamente de tempos em tempos para não dar na vista. No céu, o azul desbotava cada vez mais, dando lugar às cores pálidas de uma típica manhã de inverno. Logo haveria aldeões andando pelas ruas, abrindo as lojas, iniciando o dia, e eles começariam a chamar atenção indesejada.
— Eu não sei qual é a casa — Harry confessou, ansioso.
— Não se preocupe. Vamos saber quando encontrá-la — Anne lhe disse gentilmente, sem diminuir o passo.
A rua principal seguia a colina, inclinando-se para a esquerda. A subida sob a capa, através da neve fofa, estava deixando Harry ofegante. Ao lado dele, Anne tinha a ponta do nariz vermelha, neve se acumulando em seu cabelo preto. De dois em dois minutos ela esfregava as mãos uma na outra para esquentá-las.
Os chalés não eram muito diferentes um dos outros; Harry tinha a impressão de estar em uma cidade de um livro de contos de fadas, do tipo que era forçado a ler na escola primária. Chapeuzinho vermelho poderia morar no chalé da esquerda, e ser vizinha das primas más de cinderela, no chalé logo adiante… E em uma daquelas, tinha havido, uma vez, uma família feliz, até um bruxo das trevas aparecer e assassiná-los, marcando o garotinho deles...
— Acho que a achamos — Anne ofegou sob a respiração, parando em uma das últimas casas da rua, do lado esquerdo. Era difícil vê-la através da sebe alta, que tinha crescido selvagem nos últimos dezesseis anos desde que Hagrid tirara Harry dos escombros ainda espalhados pelo capim, que chegava à cintura, no momento parcialmente soterrados em neve.
A maior parte do chalé permanecia de pé, embora coberto de hera escura e neve, mas o lado direito do andar superior explodira; por ali, Harry estava seguro, o feitiço se voltara contra quem o lançara. Ele e Anne contemplaram, por um momento, as ruínas do que um dia havia sido a casa de Lily e James Potter.¹
— Por que será que ninguém tentou reconstruí-la? — Anne se perguntou, triste.
— Talvez não possam. Talvez seja como aqueles ferimentos de magia negra que não podem se curar.
Harry estendeu a mão, tocando o portão muito enferrujado e coberto de neve, sem intenção verdadeira de abrí-lo. Seu toque, porém, ativou alguma espécie de magia dormente. Do emaranhado de urtigas e ervas-daninhas diante deles se ergueu uma placa, e nesta brotaram inscrições douradas que diziam:
Neste local, na noite de 31 de outubro de 1981,
Lily e James Potter perderam a vida.
Seu filho, Harry, é o único bruxo a ter sobrevivido à Maldição da Morte.
Esta casa, invisível aos trouxas, foi mantida em ruínas
como um monumento aos Potter
e uma lembrança da violência
que destruiu sua família.
Anne esticou a mão e cobriu a de Harry, que aparecera de sob a capa quando ele tocara o portão. Apesar de gelado, o toque dela espalhou um inesperado calor pelo seu interior, dissolvendo um pouco o nó em sua garganta.
— Ainda quer entrar? — ela perguntou baixinho, lhe dando a chance de desistir, se quisesse. Mas Harry assentiu, sentindo-se agora mais confiante do que tinha estado por todo o caminho.
— Eu preciso.
O portão não estava trancado; ele cedeu, rangendo, quando Harry o empurrou para dentro, emaranhando-se na erva alta e emperrando na neve. Os dois tinham as varinhas em punho, para o caso de haver um feitiço de proteção contra invasores; mas tudo estava perfeitamente silencioso e quieto – tudo parecia morto ali, pensou Harry, o coração disparando à medida que desbravava a neve alta da entrada para chegar à porta. Ele podia sentir a barra da capa absorvendo a neve e ficando pesada; impaciente, arrancou-a de cima de si, recebendo a lufada de ar frio no rosto com alívio.
— Harry! — Anne protestou, mas ele a ignorou. Não ia entrar na casa dos pais, a casa da sua infância, suando debaixo da capa da invisibilidade.
A porta da frente, ao contrário do portão de entrada, estava trancada. Harry tentou um Alohomora, sem muita esperança. Como esperava, a tranca não cedeu.
— Eles deviam ter uma senha — Anne sugeriu, parando ao lado dele, batendo as botas no chão para se livrar da neve acumulada. — Bruxos trancam suas casas com senhas mágicas.
— Eu não faço ideia de qual poderia ser — ele disse, começando a se irritar consigo mesmo. Não tinha pensado nos pormenores, e agora parecia estúpido que não fossem conseguir entrar na casa só porque ele não sabia a senha.
— Deixa eu tentar uma coisa — ela pediu, fazendo um sinal para que Harry desse espaço. Anne tirou o colar com a Orbe do pescoço e depois de uma pequena hesitação, a enfiou no bolso da jaqueta. Harry pescou um brilho prateado nos olhos dela, como se a luz de algum poste tivesse refletido por um momento em suas pupilas, embora ele soubesse muito bem que não se tratava de um truque de luz.
— Anne, melhor não. Podemos arranjar outro jeito de entrar… — ele tentou. Não queria que ela sangrasse de novo; não queria que ela se machucasse por causa dele e de suas desventuras impulsivas. Mas Anne o ignorou, tocando a maçaneta, os olhos fechados.
Harry assistiu o rosto dela se contorcer, o tipo de expressão de alguém que estava tendo uma súbita dor de cabeça. Poucos segundos ela abriu os olhos – que agora brilhavam prateados como os de um gato – e sorriu para ele, triunfante:
— Abracadabra.
A porta estalou e se abriu obediente. Harry sorriu de volta, embora ainda preocupado.
— Obrigado.
— Você primeiro — ela fez um sinal para que ele passasse na frente. Quando Harry entrou, Anne limpou discretamente o sangue que escorria do nariz, usando a manga da camiseta.
***
O primeiro andar da casa de Lily e James se abria para uma sala de teto baixo, coberta por uma camada espessa de poeira que envelopava cada superfície intocada por uma década e meia. Anne, seguindo o passo de Harry, passou os olhos rapidamente pelos móveis e objetos com um estranho senso de familiaridade. Havia uma poltrona de aparência surrada ao lado da lareira, ao lado de um sofá que poderia ter sido amarelo, um dia. Havia um tapete, uma lâmpada, o esqueleto seco de uma planta em um vaso, e um porta retratos tão cobertos de poeira que as fotos não eram mais visíveis através do vidro. No chão, um andador de bebê de madeira, virado de lado.
Quanto à Anne, uma vez sem a Orbe de Parlaisa em torno do seu pescoço, era impossível barrar a torrente de sensações que fluíam de Harry até ela, carregados pelo ar pesado de poeira e umidade dentro da casa. Ela sentia a inquietude dele, e a ansiedade. A ânsia de reconhecer alguma coisa, e o medo do que sentiria se reconhecesse. Tudo isso embalado em uma dor crônica, amaciada pelo tempo, um tipo de aperto oco no peito que ela conhecia muito bem. Harry estava contemplando o que a vida dele costumava ser e poderia ter sido – não fosse a morte de seus pais. Não fosse Voldemort.
— Estamos procurando um livro — ele disse, de repente, cuidando para que a voz não falhasse. — Capa preta, encadernação de couro, nenhuma inscrição do lado de fora.
— Não vejo nenhum livro aqui — ela respondeu, tentando manter a voz impassível. Seus olhos estavam embaçando, muito mais por conta que vinha de Harry do que por qualquer coisa que ela estivesse sentindo. — Talvez no andar de cima?
— Certo. — Harry encarou a escada do outro lado da sala. Estava coberta de folhas secas e teias de aranha. Por um momento pareceu que ele estava pregado no chão, mas então ele se moveu na direção que ela apontara, devagar, como se as pernas pesassem dez quilos extras.
Anne o seguiu com um aperto quase insuportável no peito. Ela, como todo bruxo vivo durante, e nascido, depois de 1981, ouvira as histórias daquela fatídica noite. Há dezesseis anos, Voldemort subira aquelas mesmas escadas, após matar James Potter na sala de estar. No andar de cima, ele encontrara Lily e o bebê Harry. Ela tentara protegê-lo, tentara trocar a sua vida pela dele. Ambos deveriam ter morrido, mas de alguma forma, Harry sobrevivera.
Harry enfim chegou ao segundo patamar e Anne decidiu lhe dar um pouco de espaço, atrasando seus passos através da poeira espessa. Dali, via Harry empunhar a varinha apontada para baixo, pequenas faíscas azul-elétricas brotando da extremidade, provavelmente sem que ele se desse conta. Anne segurou na parede empoeirada para evitar se enrolar em uma teia de aranha particularmente elaborada no corredor, e sua mente se inundou com um vislumbre do passado, acompanhadas de uma pontada aguda atrás dos olhos. Ela afastou a mão rápido, deixando escapar uma exclamação de dor. Harry se virou num segundo.
— Que foi?
— Nada. — Ela ofegou. — Achei que ia tropeçar.
O corredor superior estava ainda mais sujo; havia mais camadas de folhas secas e sujeira no chão, as paredes descascando, seus esqueletos de madeira expostos pela umidade e chuva que devia ter entrado pela parte aberta da casa ao longo dos anos.
Uma lufada de ar vinda da direita soprou no rosto deles, e nessa direção acharam uma porta através da qual fluía uma luz mais intensa que a que iluminava o resto da casa. Quando chegaram à porta, perceberam que era porque quase todo o telhado e parede oposta haviam sido esmigalhados, dando plena vista para o céu pálido.
Havia um berço miúdo no centro; intacto, os lençóis dentro dele ainda revirados. O chão do quarto estava coberto de escombros; pedaços da parede e do telhado, partes coloridas de brinquedos parcialmente soterrados, os restos de um guarda-roupas azul claro. Ervas daninhas e plantas rasteiras haviam se esgueirado através da abertura da parede, mesclando-se ao papel de parede semi-destruído, que poderia ter sido a estampa de um bosque encantado.
Anne olhou para Harry pela sua visão periférica. O olhar dele estava fixo no berço, perdido num passado que ele era pequeno demais para se lembrar, mas de que certamente ainda devia ter memórias emocionais pungentes. Anne teve a impressão de experimentar um flash de luz verde intensa, que fez os seus olhos arderem. Piscou com insistência, dissipando a visão inoportuna, decidida a focar no verde-brilhante dos olhos de Harry ao invés disso.
— Harry… — ela chamou, querendo ajudá-lo de alguma forma. O som da sua voz o arrancou do torpor que a visão do quarto destruído lhe colocara.
— Não está aqui — ele disse, com agitação, girando nos cotovelos. — Vou continuar procurando.
— Harry, espera–
Ele saiu; Anne o deixou ir, com a impressão de que ele queria ficar sozinho. Ela teve quase certeza de que tinha ouvido soluços, abafados pelos passos dele no corredor, o estalo das folhas e da neve sob os seus pés.
De coração apertado, ela se virou de novo para o berço. Sabia que não havia nada que pudesse dizer para aplacar o que ele estava sentindo agora. Além disso, o berço solitário e intacto em meio aos escombros do quarto lhe exercia uma fascinação estranha. Ela se aproximou devagar, sentindo o ar ao redor mudar, denso com um tipo de eletricidade que só magia muito poderosa deixava para trás, um tipo de assinatura.
Se perguntou o que veria se o tocasse. Uma visão do dia em que tudo acontecera – do momento exato em que Voldemort lançara a maldição imperdoável em Harry? Veria o feitiço ricochetear e incapacitar um dos maiores bruxos das trevas que já existira? Veria Harry desamparado ao lado do corpo da sua mãe, a testa machucada, único sinal de que derrotara a morte e o próprio Voldemort?
Ela tocou a borda de madeira cor de caramelo do berço, sua superfície bem polida deslizando fácil sob os dedos. Com o coração batendo na garganta, se preparou para as cenas que inundariam seus sentidos. Os gritos de Lily Potter, pedindo para que poupasse o seu filho, e o choro do bebê Harry, sozinho no mundo, com ambos os pais mortos.
Ao invés disso, o que Anne ouviu foi uma canção.
***
Harry viu o coelho quando estava descendo as escadas.
Era cinza e peludo, com orelhas brancas compridas e um focinho rosa pálido, grandes olhos redondos e pretos. Estava lhe esperando no último degrau, as patinhas no ar, farejando.
Harry apertou os olhos com força e os abriu de novo, convencido de que estava enlouquecendo.
O coelho já não estava mais lá. Saíra pulando na direção oposta, virando um corredor ao lado da sala de estar, o rabinho de pompom sumindo na curva.
Harry o seguiu, intrigado.
***
— Harry? Pelas calças curtas de Merlin, onde você se meteu?
Anne virou o corredor à esquerda da sala de estar, derrapando na poeira ao achar Harry no meio de um cômodo que um dia fora a sala de estudos dos Potter. Uma das paredes era coberta por prateleiras cheias de livros – e mais poeira e teias de aranha do que o resto da casa inteira – mas Harry estava agachado do outro lado da sala, espiando debaixo de um móvel de pernas finas. Um espelho encardido de corpo inteiro na parede oposta à prateleira o refletia, de forma que Anne viu confusão nos olhos dele quando Harry ergueu o rosto.
— Você viu para onde o coelho foi?
— Que coelho?
— Havia um coelho na sala de estar! Eu achei que estava ficando louco, mas então ele correu nessa direção e me mostrou essa sala.
— Um coelho lhe mostrou o caminho? Tipo, um coelho de verdade, duas orelhas e focinho, um coelho aqui dentro da casa?
— Sim! — Harry exclamou, impaciente, levantando-se, os joelhos das calças carimbados com dois círculos de pó. — Mas ele desapareceu no momento que eu entrei!
— É possível que você tenha imaginado? — Anne sugeriu com gentileza. — Tem sido um longo dia, quero dizer, considerando que não dormimos faz quase vinte e quatro horas, ver coisas não está fora de questão a essa altura.
Harry piscou para ela, aturdido. Ele deu outra olhada desconfiada para a quina entre a parede e o móvel, então desistiu, os ombros caindo.
— Devo ter imaginado.
— Você viu todos esses livros? Talvez o que você está procurando esteja aqui pelo meio — Anne sugeriu com esperança. — Como se chama?
— Não faço ideia. Só sei que era importante para Voldemort e que Regulus colocou a vida em risco para entregá-lo à minha mãe.
— Hum. Um livro de magia das trevas, então? Não sei se a sua mãe deixaria algo assim de bobeira na prateleira de casa, ainda mais um um bebê aprendendo a engatinhar com acesso ao perímetro.
Harry demorou a perceber que ela se referia a ele, que ele fora o bebê no perímetro. Sua expressão vacilou.
— Mesmo assim… não custa dar uma olhada. Pode estar disfarçado de outra coisa, com um feitiço de glamour para parecer um livro de receitas ou, não sei, um álbum de fotos…
Harry se adiantou para as prateleiras, mas Anne o impediu antes que ele pudesse puxar o primeiro exemplar, que parecia um volume de enciclopédia.
— Espera, vamos dar uma limpada primeiro, senão não tem nariz que aguente.
Ela apontou a varinha para a prateleira e a girou em movimentos circulares amplos, três vezes. A cada giro, um fluxo contínuo de poeira veio espiralando até a ponta de sua varinha e foi absorvido, como se a varinha fosse o menor aspirador do mundo. Quando ela terminou, eles podiam ler as lombadas da maioria dos volumes, revelados debaixo da poeira. Aos seus pés, diversas aranhas desabrigadas correram para cantos escuros da sala, sumindo de vista.
Harry assobiou com admiração.
— Não me lembro da professora McGonagall ensinar esse feitiço. Teria sido bem útil ano passado, quando estávamos limpando Grimmauld Place.
— Minha avó que o fazia, o tempo todo — Anne murmurou, uma entonação sentida na voz. Ela desviou o olhar para longe de Harry, sem querer que ele visse a umidade que sem aviso tinham brotado no canto de seus olhos. — Que comece a caça ao livro perdido, então?
Eles se ocuparam de retirar, um por um, os livros das prateleiras e os investigar cuidadosamente. Em cada um deles era preciso usar um feitiços de revelação porque, como Harry sugerira, era possível que Lily o tivesse disfarçado com um feitiço de glamour para que se se parecesse com um livro inofensivo.
Procurando pelo livro misterioso de Voldemort, Harry acabou fazendo descobertas inesperadas sobre os hábitos de leitura de seus pais. Parecia que Lily gostava de ler clássicos da literatura trouxa — Oscar Wilde e Shakespeare, edições gastas com a assinatura familiar dela, datas da época de sua adolescência e até infância. Também havia livros de poções, livros de feitiços, livros de quadribol de James e uma prateleira inteira com a coleção de gibis de Martin Miggs, o Trouxa Pirado, que Harry nem imaginava a qual dos dois pertencera.
Havia livros de contos bruxos e trouxas, alguns de história da magia, volumes do currículo de Hogwarts, alguns dos quais Harry passou um tempo folheando, na esperança de achar notinhas de rodapé como as que Lily costumava deixar em seu livro de poções. Havia livros de arquitetura bruxa, extensivos manuais de poções para cabelos, livros sobre cuidados de plantas mágicas, e em uma prateleira no alto, encadernações bonitas de álbuns de fotos organizados por data e local, todos na caligrafia, que Harry achou que fosse, de James, porque era bem diferente da escrita inclinada e caótica que ele aprendera a reconhecer como da sua mãe.
Harry se viu obcecado com o álbum de 1980. Estava cheio de fotos dele, um bebezinho minúsculo com cara de batata, frequentemente no colo de uma Lily com aparência cansada, porém feliz. A medida que passava as páginas, vislumbrava outros momentos do primeiro ano da sua vida que os pais tinham julgado relevantes o bastante para registrar. Seu primeiro banho, seu primeiro dente de leite, primeiros passos, primeiro voo de vassoura, primeiro aniversário…
Ele parou numa foto que ocupava ambas as páginas e mostrava um grupo considerável de bruxos sorridentes, apesar de, a essa altura, Harry imaginar que seus pais já estavam se escondendo de Voldemort. Lá estava uma versão jovem de Remus, cicatrizes frescas em suas bochechas, parecendo que tinha sobrevivido a mais uma lua cheia. Lá estava Sirius, fresco e bonitão, o braço em torno de uma mulher alta, uma garotinha de cabelos escuros e olhos negros encaraptada entre eles. Harry se surpreendeu ao reconhecê-la.
— Você estava no meu primeiro aniversário! — ele exclamou. Anne deixou uma pilha de livros sobre desgnomização sobre a mesa para vir olhar por cima do ombro dele.
— É claro que eu estava.
— Você esteve aqui antes — Harry percebeu, embasbacado. — Você conheceu meus pais.
— Harry — Anne tinha um meio sorriso divertido no rosto, por conta do espanto dele. — Minha mãe era sua madrinha, você sabe disso?
Os olhos de Harry se alargaram; não, ele não tinha se dado conta, mas fazia sentido. Olhou de novo para a mulher que segurava Anne no colo; ela tinha o rosto sério e estreito, com um longo cabelo cor de mel caindo em ondas sobre o ombro esquerdo.
— Como ela se chamava?
— Olívia. — Anne reparou em seus pais juntos, e também nos pais de Harry, um de cada lado dele, encorajando-o a soprar a vela do seu bolo de aniversário, e seu peito se apertou.
— Parece que eles achavam que tudo ia ficar bem, não é? Pelo jeito que parecem relaxados — Harry comentou, a voz embargada. Anne tirou os olhos da foto, os olhos voltando a pinicar.
— Tudo que a gente pode fazer é acreditar que tudo vai ficar bem, eu acho.
— Mesmo que no fundo a gente saiba que não vai — Harry disse, fechando o álbum.
— Harry... — Anne suspirou, pousando uma mão no braço dele, mas Harry se afastou, com a desculpa de enfiar o álbum de volta onde colocara.
— Isso é perda de tempo. — Ele bufou, olhando ao redor do cômodo. — O livro não está aqui, já reviramos tudo. E depois de tanto tempo, impossível saber se ainda está na casa. Isso é, se ela sequer o guardou aqui, para começo de conversa–
Harry parou de falar; acabara de captar um movimento do outro lado da sala a partir da sua visão periférica. Ele se virou a tempo de ver o contorno do coelho sumir para dentro do espelho encardido pendurado na parede. Harry correu até o espelho, e Anne também, ambos alarmados. Em frente ao espelho, eram perfeitamente capazes de ver o coelho felpudo do lado de dentro, lambendo as patas traseiras, despreocupado.
— O que diabos? — Anne agachou para olhar melhor.
— Acredita em mim agora? Mas como é que ela faz isso?
— Harry, olha — ofegou ela, os olhos fixos não no coelho, mas na estante refletida pelo espelho. — A estante refletida não é a mesma que está do nosso lado. Não são os mesmos livros.
Harry olhou. No reflexo, alguns livros na prateleira de fato pareciam diferentes. Havia um baú no lugar em que, na prateleira detrás deles, estava a coleção de gibis do trouxa pirado.
— Eu vou tentar atravessar — Harry decidiu. — Você fica aqui fora, caso algo aconteça comigo.
— Espera aí. — Anne o segurou pelo suéter. — Você não acha isso estranho? Um coelho vivo, em uma casa inabitada há anos? Não tem como ele ter estado aqui todo esse tempo, como poderia ter sobrevivido? Pode ser uma armadilha.
— Não é uma armadilha, é um feitiço. Um feitiço da minha mãe — Harry disse. Finalmente percebera de onde conhecia aquele coelho cinzento de orelhas brancas. — Minha mãe o criou, ela o rabiscava no seu exemplar de poções que eu estou usando em Hogwarts. Minha mãe o deixou aqui, Anne, eu tenho certeza. Para o caso… para o caso de algo acontecer com ela.
Anne o encarou, incerta, então o soltou e o deixou avançar para o espelho, ao mesmo tempo em que pegava a sua varinha de cima da mesinha de leitura, só para o caso de ele estar errado. Harry estendeu o braço em direção ao espelho – a sua mão atravessou a superfície como se fosse feita de fumaça, aparecendo do outro lado, intacta.
Harry passou o resto do corpo, uma sensação esquisita de formigamento mordendo-o por debaixo da pele. Surgiu numa sala idêntica a que tinha deixado, embora invertida. Virando para trás, ele viu Anne, lhe olhando apreensiva.
— Estou bem — ele lhe garantiu. — Tudo bem.
— Ande logo! — Ela exclamou, indicando a prateleira atrás dele. A voz dela chegou até Harry distorcida, como se ela falasse debaixo d’água. Harry agachou e coçou a cabeça do coelho, que agora estava aos seus pés. O coelho ficou ali por um segundo, depois saiu pulando para algum canto da sala. Harry se adiantou para a prateleira, pensando no espelho de Ojesed onde, um dia, Dumbledore escondera a Pedra Filosofal. Será que tinham encantamentos parecidos?
Não havia nenhum grão de poeira daquele lado, tudo parecia estar tão intacto quanto seus pais haviam deixado há dezesseis anos. Harry puxou da prateleira um dos livros e abriu em uma página qualquer. Descobriu que não conseguia ler nenhuma palavra: o texto parecia escrito em uma língua estrangeira. Ele franziu o cenho, colocou o livro de volta na prateleira e puxou o baú que não existia do outro lado, depositando-o sobre a mesinha de leitura e puxando a tampa para cima.
O baú estava cheio de pergaminhos com anotações, artigos de jornal, mapas, e caixas menores. Harry puxou um dos jornais e descobriu que também não podia lê-lo – a foto no centro da reportagem de capa mostrava uma mansão em Little Hangleton, com a qual Harry tivera uma visão há uns dois anos. A casa dos Riddle…
— Acho que são coisas sobre Voldemort, mas não consigo ler nada. Está tudo embaralhado — ele arfou, olhando para Anne através do limiar do espelho. Ela ainda empunhava a varinha, apreensiva.
— Traga pra cá! Esse espelho está me dando um mau pressentimento.
Harry assentiu, abaixando a tampa do baú e o trazendo consigo na direção onde a superfície do espelho o separava da sala real, onde Anne esperava. No entanto, quando tentou atravessá-lo de volta, seu corpo se chocou contra uma superfície tão sólida quanto uma parede invisível.
(Continua...)
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