A Canção de Morgana

35 O Contrário de Harry Potter


Notas iniciais
Sem muitas delongas! Não respondi comentários do cap anterior ainda, mas farei isso em breve, OBRIGADA a tod@s que comentaram, vocês fazem minha vida muito, muito feliz! Boa Leitura !

First comes the blessing of all that you've dreamed
But then comes the curses of diamonds and rings
Only at first did it have its appeal
But now you can't tell the false from the real

Who can you trust?
(Who can you trust)

(Primeiro vem a benção de tudo que você sonhou
Mas aí vem as maldições de diamantes e anéis
Só no começo isso teve um apelo
Mas agora você não pode separar o falso do verdadeiro

Em quem você pode confiar?
Em quem você pode confiar?)

(–Gold, Imagine Dragons)

— Harry, acorda! Tenho uma coisa pra você.

Harry abriu os olhos. O rosto de Anne pairava sobre o seu, um sorriso enorme esticado nos lábios, o que automaticamente o fez sorrir também.

— Eu tive um sonho louco na noite passada — ele disse, a voz ainda engrolada de sono. Anne lhe deu uma piscadela cúmplice.

— Não foi um sonho. Disso eu tenho bastante certeza.

Harry sorriu ainda mais, se sentando no sofá onde tinham passado a noite. A posição desajeitada lhe resultara numa dor no ombro esquerdo, mas ele quase não a registrou, ocupado em observar Anne que, sentada na ponta do sofá, passava o cabelo meio desgrenhado por cima do ombro direito e tentava domá-lo numa trança. Sua bochecha tinha as marcas da uma almofada que ela transfigurara para usar de travesseiro a partir da jaqueta de Harry.

— O que você disse que tinha pra mim?

— Café da manhã. Achei no batente da porta, Sirius deve ter deixado pra a gente mais cedo — ela apontou para um saco de papel pardo na mesinha. O topo do saco tinha uma distinta marca de mordida, que só podia ter sido produzida por um cachorro fora das proporções normais. Manchas escuras de baba a acompanhavam.

— Droga. Esqueci de Sirius — Harry coçou os olhos, tentando se orientar. — Ele ainda está lá fora, vigiando?

— Nós guardando, e sim, ele está. Anda, vem comer. É torta de caramelo, o cheiro está me matando.

Harry não discutiu; pulou do sofá e foi se sentar no tapete com Anne. Tudo na salinha de estudos da casa dos seus pais ainda estava como tinham deixado na noite passada – as notas e materiais de pesquisa de sua mãe à respeito de Voldemort espalhadas pela mesa, os restos do almoço acumulados perto da lareira apagada, e o espelho no qual Harry entrara e depois saíra, ainda embaçado e ondulando, sem refletir coisa alguma. Ao pé do espelho, Harry achou o coelho cinzento, que parou de esfregar as longas orelhas com as patinhas felpudas e olhou para Harry, seus olhos de contas pretas, o focinho cor de rosa farejando o ar, curioso.

Devia ter sentido alguma coisa diferente no ar – Harry também percebia. Era como se durante a noite, um cupido gordo tivesse passado um verniz lustroso no mundo enquanto eles dormiam, deixando as cores mais brilhantes. Harry achava que isso tinha a ver com o fato de ele e Anne terem se beijado e ela não parecer arrependida.

— É esquisito que ele não queira ficar aqui dentro com a gente — disse Harry, aceitando uma tortinha de caramelo que, confirmou, cheirava maravilhosamente bem. Anne se inclinou para pegar outra e ao voltar, sentou-se ao lado dele, ombro com ombro. O cabelo dela cheirava como ele se lembrava, alguma flor silvestre que brotava no fim da primavera. Harry desejou ter a coragem para se inclinar e cheirá-lo mais de perto.

— Acho que é difícil pra ele ter que ver a casa do jeito que está.

— Mas ele já a viu antes. Esteve aqui na noite que os meus pais morreram — Harry se lembrou, dando mais uma mordida na tortinha e mastigando, pensativo. Anne olhou para ele com preocupação. — Para de olhar para mim desse jeito. Eu estou bem. Sério.

Ela assentiu, sem parecer convencida. Lançou um olhar para a pilha de papéis na mesa e soltou um suspiro frustrado.

— Parece que o livro que você quer não está aqui, no fim das contas.

Harry não disse nada. Depois de um dia inteiro procurando, já tinha perdido a esperança de achar o livro roubado por Regulus ali na casa dos pais, mas isso não significava que estava pronto para ir embora. Ainda havia muito para ver, e que explorar a casa estava se tornando um tantinho mais fácil. Além disso, ficar significava mais tempo a sós com Anne.

— Quer ir dar uma volta? — perguntou ela. — Acho que um pouco de ar puro pode nos fazer bem. Debaixo da capa, é claro.

Ele rolou os olhos para a condição.

— Estou cansado de me esconder debaixo da capa como se eu fosse um criminoso.

Harry — ela o advertiu, olhando-o atravessado. Harry teve um ímpeto fora de hora de se inclinar e beijá-la mais uma vez, mas se segurou.

— Desde que você venha debaixo da capa comigo, então. Não acho que Sirius vá gostar de nos ver andando por aí, de toda maneira.

Ele não disse em voz alta a segunda parte: preferia evitar que o padrinho os seguisse, caso aquele passeio tivesse alguma chance de se tornar algo mais… íntimo.

Minutos mais tarde, os dois escaparam da casa pela janela da cozinha, debaixo da capa da invisibilidade, avançando devagar para que o vento não revelasse seus tornozelos. Fazia outro dia seco e luminoso, menos frio que o anterior – mas isso podia ser porque o corpo de Anne irradiava calor ao seu lado, aquecendo o dele quase que por indução. Quando atravessaram o terreno da casa e pisaram na rua principal, Anne encontrou a mão de Harry e entrelaçou os seus dedos nos dele, um gesto que, apesar de estar se tornando hábito, não falhava em lhe causar um comichão de satisfação.

— Vamos subir a rua principal — ela sussurrou, tão baixo que ele mal pôde ouvi-la através dos passos deles, que faziam um ruído de trituração sobre a neve. As ruas estavam vazias, com exceção de um ou outro morador limpando neve da frente de sua porta. Através das janelas, Harry capturava vislumbres dos vizinhos em suas atividades matinais. Uma garotinha e sua mãe comendo panquecas num chalé de portas lilases. Um casal de idosos em torno de uma mesinha redonda, xícaras de chá em uma mão e o jornal do dia na outra, dentro de uma casinha vernacular, pintada de branco e caramelo.

Harry sentiu um aperto estranho no peito – uma saudade de algo que nunca chegara a ter de verdade. Anne apertou a mão dele mais forte.

— Eu gosto de Godric’s Hollow. Seria fácil morar aqui, não é?

— Sim — ele disse, vapor saindo de sua boca e se fundindo à capa na frente do seu rosto. — Seria fácil.

Eles subiram a rua principal até onde ela se bifurcava, de um lado levando a um bosque e do outro, para uma pequena estação de trem mais adiante. Anne indicou a estação, uma casinha de tijolos amarelos, desgastados pelo tempo.

— Parte do sistema magiferroviário bretão, só os bruxos conseguem vê-la. Dá até pra pegar um trem até Hogsmeade daqui, se você souber os horários.

— Tem um que vai para St. Sensille? — Harry perguntou, lembrando-se que a vila em que Anne nascera era vizinha de Godric’s Hollow. Ela negou.

— St. Sensille não tem uma estação, mas é perto o bastante para se chegar andando. — Anne apontou para além dos trilhos. — Tá vendo aquele lago? A vila fica do outro lado.

De onde estavam, do topo da colina, ele viu o lago com formato de foice, a água parada, da cor de uma poça de mercúrio. Harry apertou os olhos, mas não conseguiu ver muito além disso. O que quer que houvesse do outro lado do lago estava oculto por uma densa névoa branca. Não havia nenhum sinal dos dementadores que tinham atacado há pouco mais de duas semanas— ou se havia, a névoa os encobria também. A única coisa visível através da névoa era o topo de uma floresta, à esquerda do lago. Continha as árvores mais incomuns que Harry já tinha visto – altas, branco-translúcidas como fantasmas.

— E essa é a Floresta Branca — Anne disse, seguindo a direção do olhar dele. — Você não iria querer se perder lá dentro.

Ele ia perguntar se aquela era a floresta em que ela havia se perdido quando era mais nova, mas Anne se adiantou, saindo de debaixo da capa e subindo nos trilhos do trem. Ela fez um sinal para que ele a acompanhasse.

— O feitiço glamour que protege os trilhos vai nos esconder também — explicou, com um ar de sabe-tudo que ele estava acostumado a ver em Hermione, mas que em Anne ele achava mais charmoso do que irritante.

Harry não contestou, aliviado de sair de debaixo da capa e respirar o ar puro do topo da colina. Eles avançaram pelos trilhos, Anne tentando se manter na parte alta de ferro, um pé em frente do outro, rindo quando se desequilibrava. O jogo bobo o fez rir também – rir parecia muito fácil aquela manhã.

Harry ofereceu a mão para ela como um cavalheiro, e Anne a aceitou. Eles caminharam assim por um tempo. Ele apreciou a sensação de que só eles existiam eles dois, o topo da colina e a vista desimpedida de campos nevados, tomados aqui e ali por pequenos bosques, um céu gigantesco, quase branco acima de suas cabeças, e mais nada.

— Se o tempo resolvesse parar agora, eu não ia ficar aborrecida — ela comentou, descendo dos trilhos, o sorriso ainda pregado nos lábios, se recusando a ir embora.

Harry sentiu uma pontada no peito – doía o quanto ele a achava linda. O fato de que nunca tinha admitido isso para si mesmo antes era um ultraje.

— Eu também não ia ficar nada aborrecido — concordou ele.

— Tem outra coisa que quero mostrar a você — Anne disse, seu sorriso esmorecendo um pouco, o que o preocupou. — É bem ali adiante.

Ela apontou à sua direita, onde começava um muro baixo de pedra que Harry não tinha percebido antes. Poucos metros à frente, o muro era interrompido por um portão baixo, de ferro forjado.

— Um dos poucos cemitérios inteiramente bruxos da Grã-Bretanha — Anne explicou, séria de novo, um brilho intenso nos olhos pretos. — Achei que ia gostar de dizer um alô aos seus pais.

Não foi difícil achar os Potter. Eles haviam sido enterrados numa área gramada, sob árvores que deviam prover sombras largas nas outras estações do ano. Naquele momento, a grama seca estava coberta pela neve do dia anterior, e todas as árvores estavam nuas, seus galhos cinzentos espetando o céu.

Anne lhe deu espaço, ficando alguns metros para trás quando Harry se aproximou dos túmulos dos pais, indicados lado a lado por lápides idênticas. A lápide de Lily tinha um lírio entalhado em baixo relevo sob o seu nome. Sob o nome de James, o contorno de um cervo. As datas de seus nascimentos e morte vinham logo em abaixo dos entalhes.

Harry imaginara muitas vezes como se sentiria se um dia visitasse o túmulo dos pais. Ele não previra aquele calor estranho brotando em seu peito, uma sensação inesperada de conforto. James e Lily Potter haviam existido, e ali estava a prova. Depois de tanto tempo sendo uma ideia abstrata em sua mente, estar diante do que de mais real havia restado deles era fonte de um estranho alívio.

— Oi, mãe. Oi, pai — Harry disse em voz baixa. — Eu…

Mas se calou, um nó apertado, do tamanho de um pomo de ouro, fechando a sua garganta. Ele ficou parado ali, olhando o par de lápides, até as vistas borrarem. Depois catou a varinha do bolso e conjurou flores do melhor jeito que podia – nunca tinha dominado de verdade aquele feitiço, achando que não lhe seria de grande utilidade. Deu mais uma olhada para o túmulo dos pais, sem saber quando teria outra oportunidade de vê-los no futuro – e se virou pra trás, onde Anne o esperava.

Ela sorriu afetuosa para ele, os olhos cintilando e as bochechas coradas por conta do frio, a trança longa se desfazendo por causa do vento.

— Tem outra pessoa que quero te apresentar.

Eles andaram até uma parte mais alta do cemitério, de onde St. Sensille – ou ainda, a névoa espessa que a cobria – era visível. Não havia túmulos naquela parte, só uma árvore de tronco largo e claro, coberto de ranhuras, a copa baixa extensa como o teto de uma casa. Aquela árvore não havia perdido as suas folhas para o inverno, como as outras do cemitério. Ao se aproximar, Harry notou que as ranhuras cobrindo cada parte do tronco eram palavras, escritas em várias caligrafias e direções… eram nomes de pessoas. Os galhos se esparramavam para as laterais, cada folha verde pálida emitindo um brilho suave, o que deu a Harry a impressão de que eram encantadas. Ele nunca vira uma árvore como aquela nas estufas de Hogwarts.

— É uma árvore da memória — Anne explicou, se aproximando com reverência, fazendo um sinal para ele vir também. — Ela pode guardar as lembranças que não queremos que se percam no tempo.

Harry não disse nada, observando Anne erguer o braço em direção a um dos galhos da árvore, que ela conseguiu tocar com a ponta dos dedos. A árvore se torceu e inclinou, lembrando a Harry uma versão mais gentil do salgueiro lutador. Ao invés de atacá-la, lhe ofereceu um galho cheio de folhas verde-douradas. Anne acariciou uma delas entre o polegar e o indicador.

— Nunca acharam o corpo da minha mãe. O meu avô pensou que seria uma boa ideia guardar algumas memórias dela aqui, assim teríamos um lugar para visitá-la. Quer ver? — Anne indicou a folha que ela segurava.

Harry avançou e pinçou a folha com o indicador e o polegar, com medo de arrancá-la, mas percebeu que era mais firme do que parecia. Ele fechou os olhos. Um curto arrepio da ponta dos dedos, através do seu braço e até a sua nuca, e então, como se recuperasse uma lembrança de sua própria mente, viu o rosto sorridente da mãe de Anne, o mesmo que encontrara no álbum de foto no dia anterior, na foto do seu aniversário de um ano. Ela sorria e acenava para o dono da memória.

Haviam outras, guardadas em outras folhas do mesmo galho. Olívia adolescente, dançando e rindo com uma amiga que, Harry se deu conta, era a professora Sophia, muitos anos mais nova. Olívia grávida, um barrigão enorme, assando bolinhos de amora. Olívia com Anne no colo, conversando animada com o dono da memória, que Harry não podia ver, mas suspeitou que fosse o avô de Anne.

— Obrigado por me mostrar — ele disse, sentindo uma mistura estranha de honra e melancolia. — Eu gostaria de tê-la conhecido pessoalmente.

— Você a conheceu, é claro. No seu aniversário, e obviamente, no seu batismo mágico.

— Sim, mas você sabe o que eu quero dizer. Ela ainda devia estar por aqui, do mesmo jeito que os meus pais deviam.

Eles recomeçaram a andar, procurando um lugar menos exposto ao vento, suas mãos e rostos congelando por terem ficado parados por tanto tempo.

— Você sente falta dela? — Harry perguntou.

Havia uma árvore mais adiante, cujas raízes formavam um pequeno nicho no qual os dois caberiam confortáveis. Harry se sentou entre as raízes, esperando que Anne fizesse o mesmo, mas ela ficou em pé em frente a ele, considerando a pergunta, um olhar distante no rosto.

— Eu não me lembro dela. Acho que essa é a pior parte. Todas as memórias que tenho são de coisas que o meu avó me mostrou ou me contou sobre ela.

— A única memória que tenho dos meus pais é da noite que eles morreram. É o que eu ouço quando vejo os dementadores.

— Mas você se lembrou da canção também, a que Lily cantava para você.

— Acho que sim, um pouquinho — Harry esticou uma mão na direção dela, num convite que ele fez de tudo para parecer casual. — Você não está com frio?

Anne sorriu, enfim se acomodando no espaço entre as pernas dele, encostando-se ao seu peito. Harry passou os braços em torno dela, aconchegando-a melhor contra ele, as peças do mundo se ajustando ao mesmo tempo em que o corpo dela se encaixava no dele.

Apesar de ter acabado de visitar o túmulo dos pais, ele não se sentia deprimido. Respirar era fácil como não fora há muito tempo. Harry finalmente fez o que queria ter feito mais cedo: enterrou o nariz no topo da cabeça dela e aspirou fundo. Anne deu risada.

— Você é só um pouquinho obsessivo com o meu cabelo.

— É bonito — ele se defendeu. — Não deveria ficar preso. Obviamente não gosta de ficar preso — completou, capturando uma das muitas mechas que escapavam da trança e sacudindo na frente dos olhos dela.

Anne deu um suspiro teatral e desfez a trança com os dedos, deixando os fios negros se espalharem pelos ombros e sobre o suéter colorido. Harry passou os dedos por eles também, tão desajeitado quanto ela tinha sido hábil no movimento.

— Desde quando você tem uma queda por mim, Harry?

O garoto achou que devia estar acostumado com a atitude direto-ao-ponto de Anne àquela altura, mas suas entranhas queimaram mesmo assim.

— E quem foi que disse que eu tenho uma?

Anne inclinou a cabeça para trás, olhando-o com deboche através de seus cílios negros. Harry sorriu leniente.

— Se eu for ser sincero, acho que desde que fiz você cair do hipogrifo no verão. Achei que você era…

Ele parou de falar. Não acreditava que quase tinha dito aquilo em voz alta.

— O quê? — Anne deu um pinote para olhar para ele, curiosa. — O que você achou que eu era?

Harry fez uma careta de sofrimento por ter que admitir.

— Uma ninfa. Uma ninfa da floresta. Você parece muito com uma do livro de criaturas mágicas do quinto ano — ele se defendeu, mas ela não ouviu, porque estava tendo um acesso de riso. Harry a cutucou, tentando parecer ofendido ao invés de constrangido, mas tinha certeza que a cor de suas orelhas o traía.

— E eu pensando que você estava atrás de Gina Weasley. Vocês não se pegaram durante o verão?

Harry evoluiu mais uns três tons de vermelho, sentindo uma pontada de culpa diante a menção da irmã de Rony. Gina devia estar lhe esperando aparecer na Toca, já que ele tinha respondido a sua última carta prometendo que faria uma visita. Nenhum dos dois jamais mencionara o acontecido entre eles em nenhuma das correspondências, mas Harry sabia que o assunto estava nas entrelinhas de cada tópico neutro e perfeitamente amigável que tinham trocado por escrito desde setembro.

— Foi só um beijo — disse, mais defensivo do que pretendera, e com a pungente sensação de que isso seria usado contra ele no tribunal muito e breve. — Quero dizer… eu gosto– gostava dela, na época, mas então…

— Mas então você me fez cair do hipogrifo — ela disse, num tom que Harry não conseguiu decidir se era inocente ou irônico.

— Ela esteve no hospital todo esse tempo. Não tivemos a chance de resolver–

— Está tudo bem — Anne o interrompeu. — Você pode resolver tudo quando voltarmos. E então você me diz… o que vai ser.

A última frase soou um pouquinho fria na opinião de Harry, o que lhe encheu de apreensão. Ele respirou fundo – porque garotas tinham que ser sempre um campo minado? E, porque ele sempre dizia ou fazia a coisa errada e complicava mais a situação?

— Eu gosto de você, Anne — disse, para o caso de aquilo não ter ficado claro. — Gosto um bocado. — E como ela não parecia totalmente convencida, completou: — Mais do que eu achei que seria possível.

— Como assim, mais do que você achou que seria possível? — Ela quis saber. Harry sentiu que ainda estava na zona de perigo, então continuou falando, apesar de cada palavra sair com a facilidade de um dente arrancado. Sua falta de traquejo tinha sido o seu fim com Cho, não queria que o mesmo acontecesse com Anne.

— Você sabe. Essa… coisa entre a gente. Conexão — ele corrigiu. — O jeito que eu me sinto quando estamos juntos. Como… — Harry respirou fundo, esperando que mais ar pudesse lhe prover com as palavras certas e aliviar aquela queimação de nervosismo na boca do seu estômago. — Como se fosse, você sabe…

— Como se fosse certo? — Ela ofereceu.

Harry suspirou de alívio.

— Sim. Como se fosse certo.

— Eu também sinto. Pra ser sincera, me assusta um pouco. Não assusta você?

Harry não respondeu de imediato. Anne se virou, apoiando-se nos joelhos para ficar de frente para ele. Desde que tinham se beijado, Harry sentia umas cócegas engraçadas na boca do estômago quando os seus olhos se encontravam. Quando ele se lembrava de que agora eram cúmplices de algo que só pertencia aos dois. Harry lutou para responder, embora metade do seu cérebro só conseguia pensar em beijá-la de novo.

— Um monte de coisa me assusta. A profecia, e o que eu vou ter que fazer com aquele punhal, quando a hora chegar. Dementadores à solta, atacando vilas e sugando almas inocentes, comensais da morte infiltrados no Ministério… As pessoas com as quais me importo, em perigo por causa de mim. Mas, eu e você? Não. Isso não me assusta nem um pouco.

Anne sorriu para a sinceridade nos olhos dele, tranquilizando-se. Havia um milhão de coisas que eles poderiam fazer naqueles minutos de paz; se preocupar com o que aquilo tudo significava não precisava ser uma delas.

***

Bervely aparatou à borda do pomar, aos fundos da propriedade. Parecia fazer um século desde que estivera ali pela última vez, mas há só alguns meses fora apreendida pelos aurores no pomar dos Tonks e levada para Azkaban. Os cheiros de maçã e pêra madura não estavam mais no ar, o tempo frio congelara os aromas e deixara as árvores nuas, mas ela sentiu um arrepio involuntário e se pegou olhando ao redor, checando se os aurores não estavam à espreita para capturá-la novamente.

O chalé dos tios, entre o pomar e o rio Ottery, permanecia o mesmo, com seu telhado, em formato de V invertido, polvilhado pela neve furtiva do dia anterior. Pássaros invernais faziam uma algazarra do raiar do dia; era bem cedo, mas Bervely não tinha pregado os olhos a noite inteira e duvidava que a tia ou a prima tivessem dormido também. Estava certa: ao contornar a casa, antes mesmo de alcançar a varanda, viu Andrômeda sentada no pórtico, enrolada em uma manta cor de terra, um chá fumegante nas mãos e o olhar perdido no horizonte que iluminava o outro lado do rio.

Era raro achar a tia em casa em uma manhã de semana, a não ser quando ela acabava de chegar de um plantão do hospital, o que não parecia ser o caso. Andrômeda levantou o rosto ao ver a sobrinha, sem demonstrar surpresa à sua presença.

— Como ele está?

Bervely sabia que ela falava de Draco. Deixara o primo adormecido em Grimmauld Place, principalmente por conta de alguns sedativos leves que tinha adicionado à sua poção de reposição sanguínea, que ele precisava tomar de três em três horas. Ela deu um suspiro pesado ao se sentar ao lado da tia.

— Confuso quando está acordado. Vulnerável quando adormecido.

— Dê-lhe tempo. E, ele vai precisar de você também, mais do que nunca — ela disse, os lábios finos apertados em uma linha estreita. Bervely sabia, e sentia o peso daquela responsabilidade.

Andrômeda virou o rosto para olhá-la com muita atenção, através da carapaça de autocontrole de Bervely, como ela sempre fora capaz de fazer em momentos de crise como aquele.

— E você? Como passou a noite? Como se sente?

Bervely deixou escapar um suspiro fraco de desânimo.

— Não tenho certeza — admitiu, olhando para através da sebe, pensando que a sua resposta servia para ambas as perguntas. Seu interior era uma confusão de angústia e distanciamento, devido à irrealidade da coisa toda – Narcissa reaparecendo para ela depois de tantos anos de afastamento, só para morrer bem na sua frente, sem que nenhuma palavra de reparação fosse dita entre as duas. Aquela noite, que por sua vez, passara em um borrão de horas insones, rolando naquela cama estranha, que sem o corpo de Regulus contra o seu, lhe parecera muito menos acolhedora.

— Ela amava você como se fosse dela, a sua tia. Disso eu tenho certeza — disse-lhe Andrômeda. Foi a vez de Bervely apertar os dentes, impedindo aquela queimação no fundo da garganta, e as agulhas por detrás dos olhos, viessem à tona. Ela respirou muito fundo e não disse nada. Andrômeda pegou a sua mão, envolvendo-a, por debaixo do xale de lã. A mão dela estava quente, por conta do chá que segurava.

— Eu sinto muito por não ter podido salvá-la — sua voz tremeu na última palavra. Bervely estremeceu.

— Não foi culpa sua.

— Não. A culpa foi de Malfoy. Mas, a responsabilidade…

Ela se calou. Bervely só podia imaginar o que estava passando na cabeça da tia, naquele momento. Se ela se culpava por erros de omissão muito antigos, por cartas que ela tinha escrito à irmã mas nunca enviara, por opiniões que ela nunca tinha dito em voz alta, ou confrontos que evitara, Bervely sabia muito bem como aquilo se parecia.

O silêncio da manhã ondulou entre as duas, e Bervely não tirou a sua mão da de Andrômeda. O toque fez ela sentir que não estava completamente só – uma sensação que tinha ameaçado engoli-la durante a noite inteira, toda vez que ela se lembrava do enterro de Narcissa, da partida de Regulus, e da sua briga com Sirius...

— E Nymphadora? — Bervely perguntou, depois de um tempo, quando o chá de Andrômeda, abandonado na xícara ao lado dela, já estava frio.

Os lábios da mulher se crisparam em uma linha rígida à menção da filha.

— Lá em cima, agindo como uma criança irresponsável.

— Então ela já contou a você sobre a gravidez — Bervely concluiu.

— Fui eu quem disse a ela. Aquela cabeça de vento estava tão ocupada com o trabalho que nem mesmo se deu conta dos sinais óbvios, mas com o humor em que ela estava, e com a metamorfomagia falhando daquele jeito, só um idiota para não notar.

Bervely, apesar do seu humor sorumbático, conteve um sorriso inoportuno. Andrômeda usava o mesmo tom que usara a vida toda para se referir aos desajeitos da filha, como se a sua gravidez fosse mais um incidente na longa lista que incluía topadas, quedas de escada, testas batidas em quinas e acidentes mágicos involuntários com coisas pontudas e combustões espontâneas.

— E o que a senhora acha?

— Aparentemente não importa o que eu acho — Andrômeda retrucou, deixando óbvio que aquela conversa já acontecera entre ela e a Nymphadora. — Não estou autorizada a ter opinião sobre o fato, mesmo que a vida da minha única filha esteja em risco. Mesmo que eu saiba exatamente do que estou falando, porque tenho anos de experiência! Ah, não, é claro que eu estou me metendo no que não é da minha conta.

Andrômeda fez um movimento brusco com a mão enquanto falava, e um pouco de chá quente espirrou da xícara, quase respingando em Bervely, que se esquivou a tempo. Ela esperou a tia tomar uns dois goles, antes de perguntar:

— Quantas mulheres grávidas de lobisomens você já tratou antes?

— Inúmeras. A maioria, casos de abuso sexual durante a lua cheia, infelizmente.

— E quantas delas ficaram bem, depois da gravidez?

Andrômeda deu uma risada oca.

— Nenhuma, Bervely. Nenhuma.

***

Nymphadora não estava, como Bervely supôs, em seu quarto no segundo andar do chalé. Foi quando ela percebeu que o alçapão para o sótão estava mal fechado, o que costumava acontecer quando a portinhola era puxada pelo lado de dentro. Sabia disso, já que por dois verões de sua adolescência, o sótão fora o seu quarto.

Após sua partida para o Instituto Flamel, supusera que o sótão tinha voltado a ser um depósito para as coisas da família, mas percebeu que estava errada. A massiva cama de ferro ainda estava lá, o guarda roupas feito à mão por Ted, com portas entalhadas em flores e vinhas, o espelho antigo e manchado sobre o móvel de gavetas. A janelinha que dava para o pomar, diante da qual Bervely ficara muitas vezes sentada, esperando alguma coruja de Sirius para saber se ele estava bem, nas semanas após a sua fuga de Azkaban.

Nymphadora olhou para ela da cama quando Bervely entrou pelo alçapão. Estava sentada, as pernas puxadas contra o corpo, um livro de lombada verde-musgo entre os joelhos. Vestia um pijama que Bervely reconheceu como seu, da época em que Andrômeda fizera compras para ela. Era cinza grafite, com estampas minúsculas de losangos cinza claro, porque Bervely não tinha aceitado nenhuma das cores vibrantes que a tia estava acostumada a comprar para a filha.

O cabelo de Nymphadora estava em seu castanho original, mais longo do que Bervely se lembrava de já ter visto antes, quase chegando à cintura. Achá-la em pijamas era estranho, desde que tinha se acostumado em vê-la com as suas vestes de auror, mas o cabelo em uma cor pertencente à paleta humana, sim,, era causa verdadeira de alarme.

Dora tinha o rosto inchado, sinal de que andara chorando. Aquilo também era novo, já que, no geral, Nymphadora era a pessoa tentando levantar a moral quando tudo ia pro saco.

Não havia resquício de humor em sua voz quando ela cumprimentou Bervely, daquela vez.

— Hey. Achei que você ia aparecer uma hora ou outra. Espero que não se importe que eu esteja usando o seu quarto, o meu tem muita… cor.

— Não é mais o meu quarto — Bervely negou com a cabeça, se aproximando da cama.

— Não deixe Andrômeda ouvir você dizendo isso, ela vai ficar toda ‘sobrinha-ingrata’ para cima de você.

Bervely não deixou passar o tom ríspido que a prima usara ao mencionar a mãe. A conversa entre as duas deveria ter sido tão ruim quanto imaginava.

— Você também veio me dizer que eu estou sendo irresponsável e louca? Não se incomode. Entre Remus, minha mãe e meu pai, já ouvi todas as versões possíveis desse sermão.

— Lupin bem que insinuou que eu poderia colocar algum ‘senso’ em sua cabeça.

Dora a olhou atravessado, sua mandíbula se endurecendo com a sugestão.

— Foi ele que mandou você aqui?

— Ele achou que você me ouviria. Mas ele não me ‘mandou’ aqui, está pra chegar o dia em que um lobisomem obtuso vai me dizer o que fazer.

A prima lhe olhou com uma ponta de esperança. Bervely suavizou a sua expressão.

— Eu só vim saber como você está, sua cabeçuda.

— Engraçado justo você ser a única pessoa que me perguntou isso até agora — Dora riu pelo nariz, sem alegria. Bervely se empertigou, ofendida.

— Que quer dizer com ‘justo eu’?

— Ah, você sabe — Dora deu de ombro. — Você não é exatamente a pessoa mais atenciosa com bem estar dos outros. Desculpe — ela acrescentou rápido, os olhos se arregalando ao perceber como soara. — Isso saiu errado. Eu não quis dizer–

— Tudo bem — Bervely dispensou com impaciência. — Você tem razão. Mas aqui estamos, então, se não se importa, como você está?

Tonks considerou a pergunta com cuidado. Bervely viu a mão dela se afastar do livro e tocar o ventre, esfregando-o como se quisesse desfazer uma tensão acumulada lá dentro.

— Com medo — confessou. — Tendendo um pouco para aterrorizada, se eu for ser sincera.

— Por causa do que o bebê pode ser?

— Não — ela girou o rosto para Bervely, irritada. — Por causa do que a minha família está fazendo! E Remus. Estão todos agindo como se eu estivesse fora de mim por querer proteger uma vida inocente!

— Certo — Bervely ajeitou as costas, fazendo um esforço para manter a expressão neutra. — Mas eu achei que você nem quisesse filhos. Você e Remus nem estão sérios, estão? Toda a coisa entre vocês sempre me pareceu meio instável.

— Porque ele é um idiota. Mas nós somos feitos para ficar juntos, e eu sei, eu sei que ele sabe, no fundo! — Ela olhava para Bervely com uma expressão intensa, quase obsessiva. — E agora… um filho. Um filho de Remus. Se você soubesse como é amar alguém como eu amo o Remus, entenderia porque eu não posso me livrar de alguma coisa que nós fizemos juntos.

— Mesmo se isso matar você? — Bervely insistiu. Para ela, arriscar a própria vida por conta de algo que não tinha nem nascido ainda estava fora da sua compreensão. — Se fosse entre mim e a coisa, acho que eu pensaria duas vezes, pelo menos.

Nymphadora respirou fundo, a intensidade do fôlego fazendo seu peito tremer. Ela fungou, enxugando as maçãs do rosto molhadas.

— E você acha que eu já não pensei? Eu estou pensando nisso desde que mamãe me disse que eu estava grávida. E não importa o quanto eu pense, só consigo chegar à uma conclusão: não é o meu papel decidir se ele vive ou não, eu sou só… a hospedeira.

Bervely fez uma careta de desconforto.

— Essa é a coisa mais macabra que eu já ouvi.

— Talvez — Tonks deu um sorriso oco. — Mas é o que eu sinto. Ouvi minha mãe falando sobre me internar. Não sei bem, mas acho que ela se referia à ala de loucos do St. Mungus.

— É “ala de cuidados intensivos”, e não seja absurda, ela não faria isso.

— Algumas mães fazem coisas loucas pela vida dos filhos.

Bervely se levantou da cama, inquieta, caminhando pelo sótão pequeno, e que não era iluminado o suficiente pela abertura da janelinha. O engraçado era que, segundo Andrômeda lhe contara, ela própria tinha nascido naquele sótão. Bellatrix dera à luz ali, bem naquela cama onde agora, Tonks tentava defender o destino de seu filho ou filha.

Algumas mães faziam coisas loucas pela vida dos filhos.

Algumas mães se sacrificavam para salvar a vida dos seus filhos. Outras abandonavam seus bebês recém-nascidos para seguir bruxos das trevas. Outras, ainda, podiam acolher uma criança que não crescera em seu ventre, e tratar-lhe com a mesma devoção que lhe devotaria se o tivesse.

Ela a amava como se fosse dela, a sua tia.

Bervely voltou para a cama, um peso se instalando em seu peito com a decisão. Tinha a impressão de que era um daqueles momentos que mudavam tudo. Se ia se arrepender amargamente, só o tempo diria.

— Se é mesmo o que quer, eu vou ajudar você.

Nymphadora demorou a registrar as palavras, perdida em pensamentos de novo, mas quando seus olhos voltaram ao foco, cresceram numa esperança incrédula.

— Você vai me ajudar a ter o bebê?

— Eu vou fazer tudo ao meu alcance para garantir que você sobreviva ao processo.

Os olhos de Dora se inundaram de lágrimas mais uma vez, o que para Bervely era um tanto assustador.

— Você não sabe o quanto isso significa pra mim, B!

Dora saltou da cama até onde Bervely estava e a abraçou, um mau hábito que uma adolescência inteira convivendo com a prima não tinha mitigado.

* * *

Era difícil decidir se o fato de eles terem conseguido sair e voltar da casa sem que Almofadinhas percebesse era sorte, ou motivo de preocupação. Se Sirius o estava vigiando, como podia ter deixado passar que a casa estivera vazia pelas últimas duas horas? Ela e Harry estavam atentos para qualquer sinal do enorme cão negro se esgueirando pelas sombras em seu caminho de volta, mas não houve nenhum sinal até retornarem à entrada castigada da casa dos Potter.

— Acho que eu devia ir lá dizer um oi ao Sirius — Harry comentou —, e avisar que vamos partir em breve…

— Harry, espere — Anne colocou uma mão no braço dele, para impedi-lo de dar mais um passo em direção à casa. — Acho que tem alguém lá dentro.

Harry olhou para onde ela indicava – uma sombra acabara de aparecer, e depois sumir, por detrás da janela muito suja da sala de estar. Harry escorregou a varinha para fora do bolso, seu rosto se franzindo.

— Será que o Sirius resolveu...?

— Não é ele — ela disse com muita segurança, tanta que Harry virou o rosto em sua direção. Anne tinha arrancado de novo a Orbe para fora do seu pescoço, e seus olhos cintilavam com a prata líquida de sua Visão. Ela fazia uma careta de dor, tentando descobrir qualquer projeção que fosse daquela distância. — Isso é tão… estranho.

— O que é estranho?

— Se eu não soubesse que você está bem aqui do meu lado, eu teria dito que quem está dentro da casa é você.

Ela viu pelo canto de olho ele se endurecer, os maxilares se travando.

— Espere aqui — ele decidiu, pronto para sair da capa, mas Anne fechou os dedos em torno do braço dele como se fossem garras.

— E deixar você ir lá dentro sem a capa? Nem pensar. Vamos chamar Sirius…

— Sirius não devia usar magia, Anne — Harry murmurou. — Ele não devia nem estar aqui.

Ela cerrou os olhos – ele tinha razão. Chamar Sirius seria colocá-lo em um risco maior do que ele já estava, no momento. Harry, ao seu lado, tomou uma decisão.

— Vamos entrar, com cuidado. Pegue a sua varinha e fique perto de mim.

Eles avançaram devagar, cuidando para que a capa os cobrisse por inteiro a cada passo através da neve do caminho de entrada, que começava a derreter. Anne sentia o coração acelerar a cada passo – ela continuava tentando perceber qualquer vibração do estranho dentro da casa, e continuava com a sensação de que era Harry – só podia ser. Havia um formigamento de familiaridade em seu interior para quando Harry estava por perto, e ela sentia a mesma coisa – ou algo muito próximo, vindo de dentro da casa.

A porta da frente ainda estava trancada, como a tinham deixado no dia anterior. Após checá-la, Harry fez um sinal para que contornassem pela esquerda e voltassem à janela da cozinha, por onde tinham saído mais cedo. Eles a abriram com magia sem dificuldade, mas entrar sem fazer nenhum barulho era mais complicado. O assoalho antigo da cozinha gemeu, quando Harry colocou o seu peso em cima dele.

— Anne, é você? Onde é que você está? — Uma voz perguntou, vinda da sala. A voz de Harry. Tanto Anne quanto Harry congelaram no lugar. Harry ergueu a varinha na direção da porta.

— Harry — Anne arfou, baixinho.

— Não responda. Obviamente alguém está tentando se fazer passar por mim.

— Mas Harry, eu não acho…

Harry lhe deu um olhar insistente, e Anne se calou. Ela estava prestes a dizer eu não acho que alguém pode copiar o seu modo de pensar. Ela tinha certeza que quem estava vindo na direção deles era Harry, só podia ser, apesar do garoto estar bem ao seu lado.

O Harry ao seu lado encheu os pulmões e projetou sua voz para a sala:

— Estamos bem aqui!

Ela se encolheu, nervosa, sentindo o estranho… o outro Harry, se aproximar. Ele apareceu na porta da cozinha, parecendo confuso, procurando a fonte da voz. Ela teve um segundo para olhá-lo – as mesmas roupas que Harry estava usando ao seu lado, o suéter Weasley e as calças surradas, os óculos redondos, a cicatriz, os olhos verdes confusos, e na mão, uma varinha idêntica à sua – antes que o Harry ao seu lado exclamasse: “Estupefaça!” e o outro Harry caísse no chão, desacordado.

***

Assistir ao fogo devorar a madeira estava sendo a coisa mais fascinante do dia, para Draco Malfoy. Há um minuto, ele tivera a impressão de ver uma orelha queimar entre as cinzas. Devia estar ficando louco; ouvira falar de gente que tinha perdido os nervos depois de um trauma e começara a ver coisas que não estavam lá.

Draco sempre achara que não era esse tipo de gente, mas agora não tinha mais tanta certeza.

Tinha, afinal, permitido que a mãe o levasse da mansão Malfoy às vésperas de sua cerimônia de marcação. Enquanto que se colocar na frente dela para barrar o feitiço de Lucius fora um impulso, aceitar que Narcissa o aparatasse da mansão Malfoy tinha sido a sua escolha.

E agora, sua mãe estava morta. Draco estava ali sentado fazia horas, mas não conseguia compreender a extensão do conceito. Nunca tinha perdido sua mãe, antes.
Também estava tentando decidir como aquilo poderia ter sido evitado.

Se ele tivesse sido mais firme sobre querer a Marca Negra.

Se ele não tivesse deixado-a saber que estava com medo.

Bervely saíra cedo pela manhã, deixando ordens para o elfo horroroso da casa servir o seu café na cama. Ela não parecia preocupada que, uma vez sozinho na casa, Draco decidisse ir embora.

Irônico como, depois de tanto tempo se ignorando mutuamente, Bervely ainda o conhecesse melhor do que muita gente.

Não sabia o que impedia Lucius de entrar na casa dos Black – algum feitiço ancestral de imapeamento, provavelmente, o mesmo que usavam na Mansão Malfoy – mas Draco estava grato pelo que fosse. Lhe dava mais tempo…

Tempo para o quê, não estava bem certo.

O fogo da lareira, que até então vinha queimando cor de laranja com um núcleo amarelo claro, começou a esverdear. Draco piscou, achando que estava vendo coisas de novo, quando a cabeça de uma garota apareceu flutuando nas chamas. Ligeiramente familiar, ele achou, sardas pelo nariz e bochechas, e olhos grandes de corça, que se arregalaram com algo próximo de horror ao vê-lo ali sentado.

Ela fez um pequeno barulho de engasgo, recuou depressa e desapareceu.

Draco não se moveu, querendo evitar o repuxão desagradável das cicatrizes do Sectumsempra, cujos cortes quase o tinham fatiado ao meio. Ele afundou os dedos na espuma velha dos braços da poltrona da sala de estudos da casa dos Black e lutou contra a tontura que o perseguia, agora que não estava mais na cama.

***

Quando Harry o estuporou, ele sem aviso bambeou para trás, e Anne precisou apoiá-lo para que o garoto não caísse por cima dela.

— Qual é o problema? — ela perguntou com preocupação.

— Não sei… estou bem. Foi só uma tontura, já passou. Me ajude a levar ele para a sala...

Anne ajudou Harry a carregar o invasor – sua perfeita sósia, agora desacordado no chão da cozinha – até a sala de estar. Escolheram a cadeira de balanço de madeira para colocá-lo, já que parecia resistente o bastante. Anne não conseguia esconder a sua perturbação.

— Ele não é um estranho — ela continuava repetindo, enquanto mantinha o garoto desacordado em posição sentada, para que Harry pudesse atar as suas mãos atrás do apoio para as costas, com um feitiço. — Ele pensa exatamente como você…

— Mas ele não sou eu, sou? — Harry retrucou com impaciência. — Eu estou bem aqui, Anne! Obviamente alguém está usando Poção Polissuco para se passar por mim, ou, ou…

— Eu ainda acho que devíamos chamar Sirius, ou a Ordem… se alguém entrou na casa, Harry…

— Vamos interrogá-lo primeiro — decidiu Harry, que parecia muito ofendido de que alguém estivesse tentando se passar por ele, para racionar com clareza. — Está pronta? Vou retirar o feitiço.

Eles trocaram um olhar, Harry insistente, Anne resistente. Ela bufou, arrefecendo.

— Certo.

— Mantenha a varinha a postos — ele repetiu pela milésima vez. — Aqui vamos nós: Enervate!

O feitiço trouxe a consciência de volta ao impostor, que piscou e abriu seus olhos muito verdes para os dois. Ele viu Anne primeiro – e pareceu aliviado – depois se virou para Harry, de pé, e o alívio se transformou em alarme. Ele tentou se levantar e, ao perceber que estava atado à cadeira, imediatamente se indignou:

— Quem diabos é você? E por que é que eu estou amarrado?

— Eu acho que é bem óbvio quem eu sou, quem diabos você é! — Harry se indignou. — Invadindo a casa dos meus pais e se passando por mim! O que você quer aqui? Como entrou?

O impostor arfou para aquelas perguntas, e olhou dele para Anne, perdido:

— Anne, o que é que está acontecendo?

Ela recuou um passo, os olhos muito arregalados.

— Eu não…

— Não fale com ela como se a conhecesse! — Harry exclamou, irritado com a audácia do estranho. — Eu perguntei, quem diabos é você?

O Harry sentado endureceu a expressão, olhando feio para o de pé.

— Eu sou Harry Potter. Você devia saber disso, já que está usando a minha cara e fingindo que sou eu por aí!

Harry deixou escapar um ruído de incredulidade da garganta.

— Eu que estou– como é que você se atreve…!

— Já chega! — Anne interpelou, sua cabeça doendo, o eco de dois Harrys indignados bombardeando a sua visão. — Parem com isso, vocês dois. Harry — ela disse, se dirigindo ao garoto atado na cadeira. — Como você chegou aqui? Como entrou na casa? O que estava fazendo antes de a gente te estuporar?

— Anne, não fale com ele como se– Harry começou a protestar, mas ela fez um sinal com a mão para ele se calar.

— Shiu. Harry?

O garoto atado a cadeira bufou.

— Você sabe como chegamos aqui! Na moto — completou, quando Anne insistiu com o olhar por uma resposta clara. Ele olhou com desconfiança para o Harry de pé, e de novo para ela. — Anne, eu não sei o que está acontecendo aqui, e eu não sei quem é esse com você, mas eu não sou esse cara. Eu não sei o que ele disse a você, mas…

— Pare de tentar enganar ela com essa ladainha! — Harry, de pé ao lado de Anne, esbravejou. — Ela sabe quem eu sou, não vai cair nessa conversa. Anne…

— Depois que chegamos — ela continuou falando com o Harry da cadeira, ignorando o que estava ao seu lado, o único sinal dos seu nervosismo encerrado nos punhos apertados. — O que aconteceu?

— Entramos na casa… você descobriu a senha da porta usando a sua… adivinhação — ele olhou de relance para o outro Harry, inquieto, antes de continuar. — Fomos ao andar de cima, vimos os quartos, o meu berço, e então eu vi o Sr. Orelhas… e o segui.

— O Sr. Orelhas? — Anne estranhou, ignorando Harry fumegando ao seu lado, mesmo que por conta dele a sua cabeça pulsasse.

— O coelho… é assim que eu o apelidei, na minha cabeça.

Anne olhou para Harry de relance, e ele fez um aceno mínimo, contrariado. Não tinha como o impostor saber daquilo, ele nunca tinha dito em voz alta antes…

— E então? — ela encorajou com gentileza.

— Então ele entrou no espelho, e eu o segui. A próxima coisa de que me lembro… é acordar lá dentro, e sair procurando por você. Eu acho que eu… eu desmaiei?

Anne trocou um olhar assombrado com o Harry de pé ao seu lado, cuja varinha tinha abaixado um pouquinho. As sobrancelhas dele estavam muito franzidas.

— Você não pode estar acreditando nessa história — ele disse, mas pelo seu tom, parecia duvidoso também.

— Você ficou preso no espelho — Anne explicou, de volta para o Harry amarrado, sentindo o medo e a confusão dele fluírem para ela e lhe provocarem uma aflição. — Mas isso tudo foi ontem. Já se passou um dia inteiro desde então.

— Pare de dar mais informação para ele — Harry resmungou ao lado dela. Anne suspirou, se agachando na frente do Harry amarrado, para ficar na mesma altura dele e olhá-lo nos olhos.

— Vocês não são… completamente idênticos. Não se olhar com atenção. Venha aqui, Harry. Consegue perceber a diferença?

Harry olhou para Anne com contrariedade, mas fez o que ela tinha feito e se agachou para ver o impostor mais de perto. Não sabia do que ela estava falando – ele era a perfeita imagem que via quando se olhava em um espelho, desde o cabelo indomável, passando pelos olhos verde-esmeralda, a barba falha que tinha começado a surgir na linha do seu queixo desde o último verão, e uma pintinha que ele tinha na bochecha direita…

— Eu não vejo diferença nenhuma — Harry disse com aborrecimento. — Mas então, se ele estiver sob o efeito de uma Polissuco, era exatamente assim que se pareceria!

— Errado – ela sorriu satisfeita consigo mesma, como se tivesse chegado à uma conclusão muito interessante para colocar no seu relatório de Transfiguração. — Ele seria uma cópia sua… não um reflexo. Veja: a sua cicatriz é ligeiramente mais para a direita que para a esquerda, e a dele é o contrário, além de estar invertida. E a covinha que aparece na sua bochecha direita quando você fica irritado, aparece na bochecha direita dele.

— A minha…– e o que é que isso prova, Anne?

— Que ele não é uma cópia sua, provocada por alguma poção ou feitiço... ele é o seu reflexo. Não se lembra do que estava escrito no espelho? Um para dentro, dois para fora. Eu acho que o espelho de Lily duplicou você.

***

A cabeça da garota voltou à lareira pouco tempo depois. Draco não tinha se movido da poltrona ainda, nada melhor para fazer, o corpo pesado por conta da nova dose da poção de reposição sanguínea que Monstro lhe trouxera há pouco. Dessa vez, ele a olhou com interesse sonolento. A garota veio, no entanto, imbuída de renovada resolução.

— Malfoy, o que é que você está fazendo em Grimmauld Place?

Draco piscou lentamente para a menção do seu sobrenome. Ela franziu o cenho para a lentidão dele, insistindo:

— Onde é que está todo mundo? Porque deixaram você sozinho aí?

— Não faço idéia — Draco disse com vagueza. Ela franziu, irritadiça.

— Onde é que Harry está?

— ...Potter? — Foi a vez de Draco estranhar. — Por que é que eu saberia onde Potter está? E quem diabos é você?

Ela olhou para ele com assombro, abriu a boca para falar alguma coisa, mas desistiu em seguida. Resmungou e sumiu de novo nas chamas do fogo.

Draco se esqueceu do ocorrido quase instantaneamente.

***

O espelho tinha lhe duplicado? Era o maior absurdo que já tinha ouvido.

— Como você saiu do espelho? — Harry exigiu para o impostor, a voz acusatória.

— Eu não sei, ok! Eu entrei, e então eu saí!

— Não gosto disso. Se foi isso mesmo o que aconteceu, então temos que colocar ele de volta pra dentro!

— Hey! Ninguém vai me colocar de volta pra dentro de coisa nenhuma! Anne — o Harry ao contrário clamou da cadeira. — Será que dá para me soltar, por favor? Se não for pedir muito.

Anne olhou dele para o outro Harry, conflituosa, mas ele negou com veemência.

— Nem pensar, não estamos soltando ele antes de saber se é confiável.

— Ele é você! Não dá pra ser mais confiável do que isso.

— Não sabemos o quanto de mim ele é — Harry insistiu. — Vou na sala de estudos ver se descubro mais alguma coisa. Posso confiar em deixar você aqui? Não vai soltar ele, vai?

Anne negou, resignada, e um pouco atormentada também.

— Não, claro que não vou.

***

— Eu acho que encontrei uma coisa! — Harry voltou, um pouco ofegante, para a sala de estar, onde Anne e o outro Harry ainda esperavam. Ele continuava amarrado à cadeira e ela tinha se sentado no sofá, a varinha descansada no joelho. Parecia ter estado conversando baixo com o impostor, mas parou quando Harry entrou, levantando o rosto.

Harry tentou ignorar um sentimento ácido em suas entranhas, indicando o caderno de anotações que havia trazido consigo da sala de estudos.

— Eu vi isso ontem, mas não entendi do que se tratava, achei que estava escrito em runas ou algo do tipo. Se chama Manual Doppelgänger.

— Deixa eu ver aqui — Anne pegou o caderno das mãos dele, seus dedos se tocando por um segundo. Harry registrou o contato furtivo, mas ela não pareceu notar. — Você acha que a sua mãe escreveu o manual para o espelho? — Os olhos dela se arregalaram diante de uma ideia ainda mais ousada: — Será que foi ela quem criou o espelho em si?

— Não sei — Harry deu de ombros, ocupado em reparar os olhos do outro Harry indo de um para o outro, curioso com a coisa toda. — Mas honestamente, é quase ilegível, ela usou letra de forma.

— Você não sabe fazer aquele feitiço de leitura em voz alta, que usava quando estava cega? — Sugeriu o reflexo, para Anne.

— Genial, Harry — Anne sorriu para o garoto amarrado na cadeira, fazendo o cenho do verdadeiro Harry se franzir.

— Pare de chamar ele de Harry, não somos a mesma pessoa!

Anne segurou um sorriso, apontando a própria varinha para o livro e dizendo o feitiço em questão, “laudatio recitatus”. Uma voz começou a recitar o texto, vinda do próprio livro, e embora soasse clara e impessoal, era a mesma que Harry vira na memória de Anne, cantando a canção de ninar para ele dormir. A voz de Lily. Era como se ela estivesse ali na sala com eles – como se nunca tivesse ido embora.

“O espelho Doppelgänger duplica tudo o que reflete. Duplicatas permanecem dentro do espelho, a não ser que o encantamento de libertação seja proferido. Duplicatas de objetos inanimados funcionam exatamente como o seu original, embora perfeitamente invertidas. Duplicatas de seres vivos seguem sete regras fundamentais, verificadas após extenuantes testes.”

— Ah, isso explica — Anne interrompeu o feitiço para comentar. — É um nome engraçado, doppelgängers são criaturas mágicas capazes de copiar a aparência de alguém com perfeição, e depois saem por aí fingindo que são a pessoa imitada. Eles são mais comuns no leste Europeu…

— Certo, mas continuar ouvindo — disseram os dois Harrys ao mesmo tempo. Em seguida, olharam um para o outro com idênticas caretas de desagrado.

— Minha nossa, vocês são intensos — Anne riu, tocando a varinha no papel mais uma vez. A voz de Lily Potter voltou a preencher a sala:

“Regra número um: Reflexos se alimentam de energia proveniente do seu originador. Uso prolongado de um reflexo pode ocasionar exaustão do originador; um período maior do que algumas horas não é recomendado.”

Anne ergueu o rosto para Harry, preocupada:

— Acho que é originador seria você. Se sente cansado?

— Não — Harry disse com certo nervosismo. — Mas eu já estou morrendo de fome, mesmo depois de toda aquela torta de caramelo.

— Eu também estou com fome — disse o outro Harry.

Anne olhou para ele, franzindo o cenho. Era assombroso o quão idênticos eram, mas percebeu que quanto mais o olhava, mais aquela sensação inquietante de que havia algo fora do lugar crescia, por conta da inversão.

“Regra número dois” — a voz de Lily continuou a recitar, através do feitiço. “O reflexo não deve ficar fora do raio de visão do originador. Perder de vista o seu Reflexo pode ocasionar em consequências desastrosas.”

— Não é como se estivessemos deixando ele ir à lugar nenhum — Harry olhou feio para a sua cópia. — Onde está a parte que explica como colocar ele de volta?

— Calma, vamos ter que continuar ouvindo pra saber — ela ralhou, o que fez o Reflexo dar uma risadinha soprada pelo nariz, e o Harry original lhe olhar feio. “Número três: o Reflexo não pode causar danos ao Originador sem afetar a si próprio.” é incapaz de causar danos propositais ao originador.”

— Bem, isso é tranquilizador. Ele não é perigoso!

— Pra mim — Harry insistiu, não totalmente convencido. — E mesmo assim, quem garante que essas regras estão funcionando bem? Esse espelho esteve aqui pegando poeira por quinze anos…

“Número quatro”, prosseguiu o feitiço. “O reflexo é incapaz de desobedecer a uma ordem direta do originador.”

— Bem, isso é consolador — Harry se animou, ao mesmo tempo que o Reflexo bufava.

— Isso é ridículo — disse ele da cadeira. — Eu não vou obedecer nenhuma ordem sua só porque alguma anotação velha está dizendo.

— Uau, dois Harrys, teimosia em dobro — Anne caçoou, se divertindo.

— Acho que vocês já podem me desamarrar agora, inclusive — disse o Reflexo, num tom prático. — Vocês já sabem que eu não sou perigoso, nem sou um comensal da morte disfarçado…

— Calado — disse Harry. O reflexo parou de falar imediatamente, engasgando, os olhos dele se arregalando com o efeito imediato da ordem. Harry olhou-o, espantado. Se esquecera por um momento da regra número 4.

— Bizarro — Anne murmurou. Harry entendeu o que ela queria dizer – submissão mágica compulsória lhe lembrava o tipo de magia que mantinha os elfos domésticos fiéis aos seus donos.

— Pode falar… quando quiser — disse ele para o Reflexo, que respirou fundo, tomando fôlego. Ele não disse nada, mas o olhar em seu rosto deixou Harry inquieto.

— Posso… continuar? — Anne quis saber, indicando o livro. — Ainda tem mais algumas.

Os dois assentiram, e ela reativou o feitiço.

“Regra número cinco: o reflexo porta todas as memórias, experiências, e habilidades físicas e mágicas que o originador possui ao momento da duplicação. A partir do momento em que é criado, o Reflexo passa a gerar novas memórias, experiências e habilidades separadas daquelas do originador.”
“Regra número seis: o Reflexo não porta as emoções e sentimentos do Originador. Também não é capaz de gerar emoções ou sentimentos independentes.”

Anne estava olhando para o Reflexo na cadeira, intrigada. Ele a olhou de volta, e quando seus olhares se cruzaram, ela se desviou de volta para o caderno de Lily, pigarreando.

— Sua mãe colocou uma observação no canto da página. — disse ela, apertando os olhos para ler o texto: — “O espelho replica as coisas, mas não o espírito das coisas.”

Harry tentou entender o que aquela observação implicava. O próprio Reflexo parecia confuso com a informação. Eles provavelmente tinham a mesma expressão no rosto, naquele momento.

— Eu não entendo — Harry disse, virando-se para Anne — Isso quer dizer que ele não tem… uma alma? Como ele poderia falar e pensar sem uma alma, quando as pessoas que são devoradas por dementadores viram vegetais?

Anne se encolheu, uma expressão de perturbação no rosto que Harry só entendeu quando ela respondeu.

— Eu tenho uma teoria… estive lendo sobre o beijo do dementador, por causa do que aconteceu com a minha avó. Eles dizem que alma e consciência são duas partes diferentes, mas que se desenvolvem entranhadas em humanos e outras criaturas. Quando um dementador devora uma alma, perturba a consciência de tal forma que ela não pode mais funcionar sozinha… Eu imaginei um novelo feito de dois fios de lã entrelaçados, um é a alma, o outro é a consciência. Estão tão entranhados um no outro que quando o dementador puxa à força um dos fios, arruína o outro para sempre. Mas — Anne respirou fundo, firmando a voz. — Imagino que se nunca houve uma alma, a consciência pode existir intacta. E se de alguma forma o espelho consegue duplicar só o fio da consciência, com alguma mágica incrivelmente avançada?

Harry sentiu um assomo de assombro com a ideia de que um espelho mágico poderia fazer aquilo. Talvez por isso sua mãe o mantivera ali, fingindo que era só um ornamento da sala de estudos. Um objeto como aquele, se caísse em mãos erradas… Se fosse parar nas mãos de Voldemort, por exemplo…

“Regra número sete”, continuou a voz de sua mãe, sacudindo Harry para fora de pensamentos muito obscuros. “Danos à integridade física do reflexo podem ocasionar danos à integridade física do Originador. Danos à integridade do Originador podem afetar o Reflexo, caso a energia proveniente do Originador já não seja suficiente para sustentar ambos.”

— Isso explica a sua tontura quando você o estuporou! — Anne exclamou, feliz em desvendar ao menos um mistério.

— Então, deixa ver se eu entendi — Harry começou, incerto. — Essa cópia minha tem todas as minhas memórias, experiências e habilidades, mas é incapaz de sentir, e danos a ele podem me afetar. Tem certeza que não diz como colocar isso de volta?

— Não o chame de ‘isso’ — Anne reclamou, escandalizada. — Não é porque ele tem uma alma que não deve ser tratado como um ser humano!

Harry franziu para o Reflexo, que o encarava de volta com resolução renovada.

— Você não vai querer me colocar de volta ainda. Eu posso ser útil.

— Me dê uma boa razão — disse o garoto, com impaciência. O outro Harry sorriu, achando graça de alguma piada interna da qual Harry não fora convidado.

— Eu acho que sei onde está o livro que estamos procurando.

***

— Como assim? Você sabia esse tempo todo? — Harry acusou, apontando um dedo para o Reflexo.

— Não! Acabei de ter um palpite. Enquanto você estava tendo uma crise existencial, eu estava pensando em tudo que lemos ontem nas coisas da nossa mãe. Você notou que ela continua desenhando o coelho em algumas páginas?

É claro que Harry tinha notado – Lily prosseguira obsessiva com o seu personagem após terminar a escola. Agora ele aparecia com menos frequência, mas continuava em suas notas, roendo o texto do canto de alguma página até que o que deixava para trás se tornasse incompreensível.

— Eu acho que o coelho não está lá por acaso — explicou o Reflexo. — Ele está guardando informações importantes.

— Guardando, você diz… comendo? Sim, faz sentido! — Harry entendeu, empolgando-se. — Às vezes quando o coelho, uh, evacua em uma página, as bolinhas se tornam texto de novo!

— Você ‘tá brincando — Anne deu risada. — O coelho come notas de rodapé em uma página e as evacua em outra?

— Às vezes — os dois Harrys disseram em uníssono.

— Isso é interessante! Mas não vejo como pode ter a ver com o livro que estamos procurando… a não ser… você acha que ele comeu...?

— Vamos atrás dele — Harry se animou, já saindo da sala.

— Hey! Será que dá pra me desamarrar agora? — O Reflexo pediu, impaciente. Harry se voltou, incerto em acatar o pedido.

— Pelo amor de Merlin, Harry, desamarra ele, ele é você — Anne rolou os olhos. — Deixa, eu mesma faço…!

— Diffindo! — Harry disse, cortando as cordas que havia conjurado e libertando o Reflexo antes que Anne chegasse perto o suficiente. O garoto-cópia se levantou, esfregando os pulsos doloridos.

— Melhor não fazer nada que eu não faria — Harry o advertiu, com cuidado para que não soasse como uma ordem. Eles se encararam muito sérios por meio segundo – depois riram, ao mesmo tempo, da piada ruim.

***

Ao retornarem para a sala de estudos, o coelho cinzento parecia estar esperando por eles, sentado no chão perto da base do espelho, a orelhas em pé como um cachorrinho, o focinho rosa farejando no ar.

— Vocês acham que o livro está dentro dele? — Anne se abaixou para afagar a cabecinha peluda. — Como vamos fazê-lo, uh, evacuar?

— Só dar comida pra ele — disseram os Harrys, naquele assombroso uníssono com o qual Anne ainda não se acostumara. Harry conjurou uma cenoura.

— Como vocês sabem disso?

Foi o Reflexo que lhe respondeu.

— Duda ganhou um coelho quando eu tinha oito anos. Pobre animal, só durou um par de dias.

— O que aconteceu com ele? Deixa pra lá, acho que não quero saber.

O Reflexo deu um sorriso travesso, mas foi Harry que continuou a história, oferecendo a cenoura para o Sr. Orelhas, que a farejou com suspeita.

— Eu abri a porta dos fundos e libertei o pobre coitado. Há um limite para quantas vezes um coelho pode escapar de ser esmagado pelo traseiro de Duda, e eu não queria descobrir qual era.

— Gosto de pensar que ele se encontrou no parque público de Surrey — completou o Reflexo. — Ouvi boatos de que havia uma entidade roubado alface de sanduíches desatendidos por lá.

O coelho comeu a cenoura inteira das mãos de Harry, e os três sentaram no chão para esperar. Anne lançou um olhar distraído para a poltrona na qual eles tinham caído no sono, depois de horas conversando baixinho e reprisando o primeiro beijo. a lembrança a fez sorrir involuntariamente, e o Reflexo pegou o ato pelo canto do olho.

— Do que você está sorrindo?

— Uh? Nada — Anne sentiu o rosto esquentar. Harry, do seu outro lado, tinha recuperado as notas de Lily sobre o espelho e as estava relendo, ou tentando. Ele pegou um vislumbre dos olhos de Anne refletidos no espelho – que voltara a se parecer com um espelho normal, sua superfície imperturbada refletindo a sala em que estavam e a eles três. Lá estava o Harry que ela havia beijado, e para o qual tinha confessado coisas que jamais imaginara confessar, e o outro que era só o seu amigo, a versão do Harry que tinha deixado Grimmauld Place com ela no dia anterior. Num intervalo de poucas horas, duas pessoas completamente diferentes, ao menos no que se referia ao que significavam um para o outro.

— Eu só estava lembrando de uma coisa engraçada — completou, pois o Reflexo ainda a encarava com curiosidade.

O seu Harry ergueu o rosto e cruzou o olhar com o dela. Anne ocultou um sorriso, desviando a atenção para o coelho. Sentiu a mão dele, a que não estava segurando o caderno, discretamente roçar a sua, provocando um arrepio prazeroso em suas entranhas.

— O que aconteceu ontem à noite? — Perguntou o Reflexo para eles, alheio à troca de olhares e ao contato. — Eu não me lembro de nada desde que eu entrei… quero dizer, que você entrou no espelho.

— Ah, não muito — foi Anne quem respondeu, vendo Harry se contrair um pouquinho. — Harry olhou as caixas que ele achou dentro do espelho, com as notas de Lily. Parece que ela esteve pesquisando sobre Voldemort bem antes do que pensávamos. Há, e Sirius está lá fora guardando a casa.

— Ele está? — O Reflexo se espantou. — Por que ele não entra?

— Acho que ele prefere guardar outros tipos de memória dessa casa, ao invés de vê-la como está agora.

— Ah — o Reflexo murmurou, ainda tentando fazer sentido de tudo aquilo.

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Anne imaginou se, sem uma alma, ele ainda seria capaz de sentir empatia. Se ele era afetado pela carga emocional de estar na casa dos pais mortos, como o Harry era. E então ela não pôde evitar de se perguntar – será que o reflexo se importava com ela? Será que, no lugar de Harry, ele a teria beijado, na noite passada?

— Aqui vamos nós — disse o Reflexo, apontando para o coelho, que estava se agachando no canto da sala de forma suspeita. Uns segundos depois ele saiu pulando para longe, deixando uma insuspeita bolinha preta para trás.

Os três avançaram para a bolinha, Harry com a varinha em punho. Não parecia nada fora do normal em termos de excremento de coelho.

— Finite incantatem! — Harry tentou.

A bolinha de cocô de coelho inflou, tomando a forma, aparência e textura de um livro escuro, capa de couro áspera, aparência de que fora muito manejado de um lado para o outro e até um pouco digerido, nas bordas. Os três ficaram encarando o absurdo da coisa. Anne olhou para Harry:

— É esse?

— Sim — os dois responderam juntos, e estenderam a mão para o livro ao mesmo tempo. Após trocarem um olhar, o Reflexo deixou que Harry o pegasse, resignado.

Harry revirou o livro, que parecia mais como um diário que nunca tinha sido usado, cheio de páginas vazias, amareladas pelo tempo.

— Revelio! Finite incantatem! — Anne tentou, apontando a própria varinha para as páginas, mas nada aconteceu, e ela sentiu a sua esperança murchar. Os Harrys, no entanto, trocaram um olhar grave de compreensão.

— O que foi? — Ela perguntou, sentindo a tensão que de repente surgira entre os dois.

— Já vimos isso antes — murmurou o Reflexo. — Se parece exatamente como…

— ...o diário de Tom Riddle — completou Harry num tom conspícuo.

— O diário– a horcrux? Vocês acham que esse é outro pedaço da alma de Voldemort?

Harry o manuseou até a última página, onde ele achou iniciais e uma

“H. D. , 1968”

— Dois anos antes do outro diário. Talvez ele tenha tentado antes… com outro nome?

O Reflexo se levantou. Anne viu ele pegar uma pena em cima da mesa, um tinteiro dentro da mochila, e os trazer de volta. Os entregou para Harry, que já estava esperando com a mão estendida, a respiração suspensa.

— Harry — ela arfou, preocupada. — Talvez seja melhor chamar Sirius. Ou… sinalizar a Ordem? Dumbledore vai querer saber, se for mesmo uma horcrux.

— Não...disse Harry, compenetrado, investigando cada centímetro do diário em busca de alguma outra pista.

— Não estamos em perigo imediato — completou o Reflexo, que parecia querer tranquilizá-la. Ele colocou uma mão em seu ombro, e Anne sentiu um arrepio involuntário descer pela sua coluna. — Só temos que cuidar para não alimentarmos o pedaço de alma com a nossa energia vital.

— Muito consolador — ela murmurou, se inclinando para a frente, fingindo espiar o livro, de forma que a mão dele escorregou para fora do seu do seu ombro.

Harry molhou a ponta da pena no tinteiro e deixou pingar. A tinta foi absorvida, sumindo da página amarelada sem manchá-la. Ele então escreveu:

“Olá. Eu sou Harry Potter.”

As palavras também sumiram. Não demorou muito, outros brotaram no lugar delas, numa caligrafia redonda e cuidadosa.

“Olá, Harry Potter. Nós já nos conhecemos?”

Os três estavam prendendo a respiração. Harry rabiscou de novo:

“Sou amigo de Tom Riddle.”

Os pelinhos do braço de Anne se arrepiaram.

— O que é que você pensa que está fazendo? — ela sibilou, alarmada.

De novo as palavras sumiram, substituídas por outras:

Todo amigo de Tom é meu amigo também. Como ele está? Faz tempo que não conversamos.”

Os três encararam as palavras na página, incertos.

— Dumbledore alguma vez mencionou…?

— Não — disseram os dois Harrys. O Reflexo se virou para Harry: — Diga a ele–

— Eu sei — Harry retrucou, escrevendo rápido:

“Tom deixou o seu diário aos meus cuidados.”

As palavras sumiram da página, que ficaram vazias por um bom tempo. Então:

“Ele deve confiar muito em você, Harry Potter. Eu guardo muitos segredos de Tom.”

Os três prenderam a respiração ao mesmo tempo. Harry molhou de novo a pena no tinteiro, fazendo um borrão na página por conta da pressa.

“Quem é você?”

“Que falta de educação a minha, esquecer de me apresentar! Eu me chamo Hildegard. Hildegard Dumbledore.”

(Continua…)



Notas finais
No aguardo dos comentários, curiosa para saber o que estão achando das reviravoltas! Quais são os seus sentimentos em relação à Hanne (Harry + Anne)? E esse Reflexo do Harry, confiável ou problema? O quanto à Bervely prometer à Tonks que vai ajudá-la com o bebê? E... quem aí se lembra de Hildegard Dumbledore?