A Canção de Morgana

36 A Garota Que Amava Tom Riddle


Notas iniciais
NO CAPÍTULO ANTERIOR>> Harry e Anne visitam o cemitério de Godric’s Hollow, onde os pais de Harry estão enterrados. Anne mostra a Harry uma árvore da memória de guarda lembranças de sua mãe. Bervely vai ao chalé dos Tonks e promete à Nymphadora que vai ajudá-la com o bebê, embora segundo Andrômeda, nenhuma mulher sobreviva à uma gestação como essa. Quando Anne e Harry retornam à casa dos Potter, descobrem um invasor que se parece exatamente com Harry. O garoto o estupora e amarra. Os dois concluem que ele deve ter saído do espelho. Enquanto isso, em Grimmauld Place, Draco recebe uma visita inusitada pela lareira. Harry encontra o manual do espelho duplicador, e eles aprendem as suas regras. O Reflexo diz a Harry que tem uma idéia de onde o livro perdido de Voldemort possa estar guardado. Eles acham o livro dentro do coelho – de fato um diário –, e desconfiam que pode ser uma horcrux. Quando perguntam o nome de sua ocupante, ela se identifica como Hildegard Dumbledore. Aviso importante: esse capítulo contém descrições gráficas de violência e tortura. Se estes são gatilhos para você, eu aconselho parar de ler logo após a aparição de um certo Lord (pode vir me perguntar o que acontece eu faço o resuminho sem dor nem cor). Favor ler as notas finais, que traz outras infos importantes sobre o cap! Sem mais delongas, boa leitura!

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?

E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.

(Amar — Carlos Drummond de Andrade)

“Eu me chamo Hildegard Dumbledore.”

— Dumbledore? — Anne repetiu, intrigada, lendo por cima do ombro de Harry. — Como em, parente do professor Dumbledore?

Mas Harry e o Reflexo estavam um passo adiante – eles já tinham ouvido aquele nome antes. Eles já tinham sido, inclusive, apresentados àquela pessoa. Meses atrás, no escritório do próprio Dumbledore.

— É a sobrinha dele — respondeu Harry, a pena parada no ar, uma sensação de mal agouro arrepiando a sua nuca. — Nós a conhecemos. Ela visitou Hogwarts no primeiro dia de aula, não se lembra?

Anne franziu a testa, então, recuperando a lembrança, seus olhos se arregalaram.

— Mas aquela é a alta Sacerdotisa de Avalon! Não pode ser– ela não pode ter...?

— Feito uma horcrux? — o Reflexo ecoou, com um ar de humor sarcástico.

— Mas se ela fez uma horcrux, isso significa– isso só pode significar…

— Que ela devia estar trabalhando com Voldemort. Talvez ainda esteja — disse Harry, com frieza. Tinha dado a Hildegard acesso à sua mente. Tinha lhe mostrado o punhal. Dumbledore confiava nela, e ele também confiara.

— Dumbledore — arfou o Reflexo ao seu lado, chegando à mesma conclusão que Harry, ao mesmo tempo. — Ele está lá com ela! Ele está em Avalon, agora mesmo!

— Harry, não – Anne gemeu ao lado dele. — Isso não faz sentido, a Senhora do Lago não pode estar trabalhando para Voldemort!

No papel pardo, a caligrafia redonda brotou de novo, uma nova frase se formando:

“Você ainda está aí, Harry Potter?”

Harry prendeu a respiração, e escreveu um “sim” rabiscado.

“Como achou o meu diário?”

“Numa casa abandonada”, ele escreveu. Não era mentira. Também não era a verdade inteira – mas Harry não queria dizer tudo que sabia antes que conseguisse mais do diário.

— Harry — Anne disse, ao seu lado, a voz tremendo um pouco. — Pergunte como eles se conheceram. Ela e Tom Riddle.

Harry rabiscou a pergunta. A resposta veio rápido – a Hildegard do diário parecia ansiosa para conversar.

“Tom e eu nos conhecemos na escola.

Éramos ambos órfãos. Fomos para a mesma casa.

Nos tornamos melhores amigos em pouco tempo.”

E, há quanto tempo você não fala com ele?”

A resposta não veio imediatamente. Harry sentia uma pressão em sua cabeça enquanto esperava.

“Difícil saber. Desde que fui roubada…”

“Roubada?” Harry escreveu rápido.

“Sim, alguém me roubou da posse de Tom. Antes disso, eu era a sua maior confidente, a única a saber de todos os seus segredos, a única à qual ele confidenciava os seus pensamentos. Quem me roubou estava convencido de que poderia usar esse conhecimento contra ele – mas eu jamais trairia Tom.

Suponho que por isso nunca tentou me recuperar.”

— Você ainda acha que ela não estava agindo com ele? — Harry perguntou para Anne, com nojo. Anne estava pálida e não parava de balançar a cabeça em negação. Parecia que alguém tinha movido uma peça fundamental da sua realidade, e mostrado a podridão que havia embaixo dela.

— Não sabemos o que aconteceu. Ela pode ter sido leal a ele quando fez o diário, mas depois mudado de ideia! Ela devia ser uma criança em 1988! Você não disse que Riddle era manipulador, que convencia as pessoas a fazerem coisas ruins? Ele deve ter feito algo assim com ela!

— Ela tem razão — disse o Reflexo ao seu lado, para a grande surpresa de Harry. — Temos que saber mais antes de acusar a sobrinha de Dumbledore de ser uma partidária de Voldemort.

— Certo — Harry concordou a contragosto, molhando a pena no tinteiro de novo e rabiscando:

“Qual a sua idade?”

“Quatorze. Qual a sua idade, Harry?”

“Dezesseis.” , Harry escreveu apressado. “Quantos anos Tom tinha, da última vez que se encontraram?”

“Você parece muito interessado em Tom, Harry Potter.

Ele está em apuros?”

Harry sentiu a mão tremer, ao parar para pensar em sua resposta. Ele queria que o diário confiasse nele. Talvez essa fosse a sua chance de descobrir o que quer que a sua mãe estivera procurando no diário de Hildegard. Harry teve uma súbita inspiração:

“Tom está desaparecido. Todos pensam que está morto. A última vez que foi visto, foi em uma visita à casa de James e Lily Potter. Você sabe de algo a respeito, algo que possa nos ajudar a encontrá-lo?”

O tempo passou e nenhuma outra palavra foi escrita. Até que:

“Tom não pode estar morto.”

“Como pode ter tanta certeza?”, Harry escreveu, sua letra apressada fazendo parecer que ele estava ansioso por acreditar no que ela dizia. O pedaço de alma de Hildegard no diário devia estar medindo as suas palavras.

“Eu apenas sei.

Você deve me levar até onde ele foi visto pela última vez, ele estará precisando de mim.

Eu sei como trazê-lo de volta.”

Anne soltou um gemido de agonia ao lado de Harry.

— Eu não gosto de para onde isso está indo.

— Pergunte como podemos confiar nela — disse o Reflexo. Harry deu a ele um olhar impaciente, mas mesmo assim escreveu:

“Como posso confiar em você?”

“Você não pode. Mas, acho que vai ter que arriscar, não é?”

Harry não escreveu mais. Sentia que qualquer coisa errada que dissesse agora podia arruinar suas chances de extrair um segredo do diário. Novas palavras surgiram:

“Como podemos confiar um no outro, Harry Potter?”

Me dê aqui — Anne pediu, estendendo a mão para o diário e a pena.

Harry entregou o diário para ela, com alguma resistência.

— Não escreva nada, ela vai saber que é outra pessoa pela caligrafia! — O Reflexo a advertiu.

— Não vou escrever nada — respondeu Anne, os dentes apertados, e começou a rabiscar alguma coisa. Uma caveira – não a melhor que Harry já tinha visto, mas os traços eram reconhecíveis. Tinha horríveis olhos ocos e dentes escancarados.

— O quê é que você pensa que est...

Hildegard completou o desenho, adicionando a serpente que, ondulado, saía da boca da caveira que Anne desenhara. Morsmordre.

Eu fui a primeira a receber Morsmordre em minha pele, Harry Potter.

Sua primeira comensal.

É um prazer conhecer outro partidário da nossa causa.”

* * *

— Você fica para o café da manhã, não é uma pergunta — Andrômeda sentenciou, ao encontrar a sobrinha descendo as escadas. — Seu tio está fazendo panquecas.

— É claro que ele está — Bervely suspirou baixo, quando a tia se afastou.

Ted Tonks, a pessoa mais otimista que Bervely conhecia, estava na cozinha do chalé, girando no ar suas famosas panquecas pirotécnicas, o cheiro caramelado da massa aquecida começando a se espalhar pela casa. Ted usava o mesmo avental que tinha usado a vida toda: pintado com impressões das mãos de Nymphadora em cada um de seus aniversários, usando todas as cores do arco-íris e mais algumas.

Por um momento ela sentiu que tinha voltado no tempo, à época de escola, quando a sua maior preocupação era se Oliver ia mandar uma coruja, e se Sirius Black ainda não tinha sido capturado por dementadores em sua fuga pelo país.

Quatro anos depois, lá estava ela, ainda se preocupando com a alma de Sirius, e agora com a integridade do seu cerne mágico também. E então havia Draco, que podia a qualquer momento ser encontrado pelo pai comensal da morte – ou pior – decidir voltar para o pai comensal da morte.

E Anne correndo coxilhas com Potter, o maior imã de problemas que o mundo mágico já vira.

E não podia esquecer de Tonks, crescendo um bebê lobisomem na barriga.

Bervely se sentou pesadamente em uma das cadeiras desencontradas da mesa da cozinha. O tio olhou para ela, uma de suas sobrancelhas erguidas:

— Permissão para tentar resolver os seus problemas com panquecas? — ele ofereceu, jovial, embora ela pudesse ver suas olheiras e a aparência cansada. Talvez Andie estivesse errada sobre nada ser capaz de perturbar o sono dele.

— Suponho que sim — ela disse, irônica, e completou: —, tem algo no mundo que não possa ser resolvido com panquecas?

— Esse é o espírito. — Ele apontou para ela com a espátula, e a serviu café preto. Ted e Bervely eram as únicas pessoas que bebiam café na casa, mas ela ficou surpresa de que o tio se lembrasse. — E aí, como está indo? Tudo em ordem com o menino Malfoy?

Bervely deu de ombros. Ted não havia ido ao enterro de Narcissa, mas Andrômeda devia ter lhe atualizado dos acontecimentos recentes.

— E Sirius? Aguentando firme com aquele coração asmático dele?

— Rá, engraçado. — Ela estreitou os olhos, bebendo o café forte e sem açúcar.

Ted lhe ofereceu um sorriso de desculpas, depois espiou para fora, através da porta, onde estava Andrômeda. Após obrigar Bervely a ficar para o café da manhã, a tia voltara ao pórtico com outra xícara de chá fumegante. Bervely tinha a impressão de que Andrômeda pedira para ela ficar de forma a ocupar Ted, e lhe dar um pouco de sossego.

— Então — ele veio trazendo para Bervely uma pilha de panquecas coradas e fofas, que fizeram o seu estômago se retorcer. Ela não se lembrava da última vez que tinha comido alguma coisa. — Falou com Dora?

— Sim — ela disse, com economia, inalando a fumaça que espiralava das panquecas até o seu nariz.

— E então…? — ele insistiu. Bervely, que não estava com paciência para meias palavras, colocou a xícara na mesa para olhar para ele com seriedade.

— Ela vai ter o bebê e eu vou ajudá-la. E, se vocês continuarem ameaçando colocar uma auror adulta e capaz no St. Mungus, eu vou me responsabilizar pessoalmente de que ela suma da vista de vocês até tudo isso acabar.

— Quê! — ele exclamou, indignado. — Ninguém ameaçou nada disso! Andrômeda sugeriu interná-la no hospital se ela insistir em levar a gravidez adiante, mas para a segurança dela! Não dá pra saber que tipo de coisa pode acontecer numa gravidez como essa– você sabe que o– bem, foi concebido durante uma lua cheia? Como é que Lupin ousa– eu confiei naquele infeliz, eu confiei que ele colocaria a segurança dela como prioridade!

A essa altura Ted estava rosnando, os punhos cerrados. Como ele esperava parecer ameaçador com uma mancha de xarope de bordo no peito estava fora da compreensão de Bervely.

— Vocês estão tratando Nymphadora como se ela não soubesse o que é melhor para ela. Não acho que ela aprecia a condescendência.

— Bem, ela provou que não sabe! Na lua cheia, pelo amor de M–

— Ignore-o, Bervely. Ele só está indignado porque precisa lidar com o fato de que sua garotinha se deita com lobisomens — debochou Nymphadora, surgindo na porta da cozinha. Bervely notou que ela havia se trocado. A farda de auror retornara ao seu corpo e o cabelo castanho fora preso numa trança embutida no topo da cabeça, deixando o rosto livre. As manchas de lágrimas já não estavam mais lá.

— Para onde você pensa que vai? — Ted quis saber, vendo-a com as roupas de trabalho.

— Como assim pra onde eu vou? Já faltei ao trabalho ontem, se eu faltar mais um dia Moody vai comer meu fígado com uma colherzinha. — Ignorando o olhar discordante do pai e o divertido de Bervely, ela se sentou à mesa. — Vai me dar umas panquecas ou o quê?

— Mas você não está em condições! — ele exclamou.

— Eu não estou doente, pai. — Nymphadora puxou o café de Bervely, dando um gole.— Eca! — Colocou o café de volta, olhando indignada para a prima. — Como você bebe esse troço?

Bervely sorriu para ela, os lábios e o rosto estranhando o movimento depois da tensão dos últimos dois dias. Nymphadora piscou, ainda séria e digna, embora um brilho renovado de obstinação cintilasse no fundo dos seus olhos.

— Edward Tonks, minhas panquecas, cadê? — requisitou para o pai, que parecia indeciso entre colocá-la de castigo, lhe dar um sermão ou comemorar o seu retorno ao andar de baixo da casa. — E me veja em dobro, por favor, que tenho mais uma boca para alimentar agora.

***

Temos que avisar à Ordem — Harry decidiu, enjoado com o que o diário acabara de lhe dizer. — Eles precisam saber que o professor Dumbledore está sozinho em Avalon com a primeira comensal da morte de Voldemort!

— Você acha mesmo que Dumbledore não sabia que a própria sobrinha estava andando com Riddle, Harry? Você mesmo disse que ele era professor de Tom, quando ele estava na escola! Como ele poderia ter deixado isso passar? Além do mais, se ela ainda estiver do lado dele, porque nunca fez nada esse tempo todo? Porque nunca foi atrás de Voldemort para ressuscitá-lo, quando ele estava desaparecido?

— Eu não sei, Anne! Muita gente que estava com Voldemort antes não fez nada quando ele sumiu – por medo, ou, ou… conveniência! Ela tem esse cargo em Avalon, não tem? Talvez não fosse mais interessante para ela apoiar Tom na época, ou se comprometer! Mas, ele está de volta agora, e, dos comensais dos velhos tempos que restaram, quem não está com ele agora está escondido ou está morto! E ela não está nenhuma das duas coisas! Ela disse a Dumbledore que ele a capturou e leu a mente dela à força no verão, mas e se ela mentiu? E se eles se reencontraram, e ela deu as informações a Voldemort sobre a profecia e o punhal de boa vontade? E se ela estiver atualizando-o sobre a localização e os planos de Dumbledore esse tempo todo? E se, juntos, eles planejaram isolar Dumbledore em Avalon agora, só para dar um fim nele?

— É da Senhora do Lago que estamos falando! — Anne exclamou, como se Harry estivesse deixando passar uma grande falha em sua teoria. — Ela é– ela é a alta sacerdotisa do que de mais sagrado e virtuoso existe no mundo da magia! Ela é a guardiã da árvore da vida, do lago do tempo e da ilha do ciclo, Harry! Ela não pode– simplesmente– matar…

Ela matou alguém para fazer essa horcrux — interrompeu o Reflexo, friamente, apontando para o diário. — É assim que se faz uma, sabe. Você mata alguém para partir a sua alma em duas, e coloca a metade dentro de um objeto. E se ela matou uma vez, aos quatorze anos, poderia matar de novo…

— Você não pode pensar que ela esteve esperando esse tempo todo nas sombras, ocupando um dos lugares de maior prestígio que uma bruxa pode ocupar, só para arruinar tudo assassinando o próprio tio e se aliando a um bruxo das trevas!

— Não seria a primeira pessoa. E se ela estivesse exatamente onde Voldemort a queria? Ele quer o Ministério, não quer? E se quiser Avalon também? Seja lá o que Avalon tem de tão importante, deve ajudá-lo a conseguir mais poder e influência. Talvez esse foi o plano dele com Hildegard o tempo todo!

— Eu acho que vou passar mal — Anne gemeu, apertando a barriga. Ela parecia, de fato, muito pálida.

— Devíamos chamar Sirius — disse Harry, preocupado não só com ela, mas como exatamente chegariam à Dumbledore rápido o bastante, se é que ainda tinham tempo. — E pedir pra ele contar à Ordem o que descobrimos…

— Não — o Reflexo insistiu. — Ainda não sabemos porque minha mãe não contou a história toda para Dumbledore. Porque decidiu manter o livro em segredo, ao invés disso.

Harry… — Anne chamou, sem ser ouvida.

— Você leu o que ela disse! — Harry apontou para o livro com uma súbita raiva, que não era dirigida necessariamente ao Reflexo, mas à Hildegard, que ousara enganar Dumbledore e a ele por todos aqueles meses. — Hildegard sabia todos os segredos de Voldemort, até como trazer ele de volta! Minha mãe devia estar tentando fazer ela falar algo primeiro! O tipo de coisa que Hildegard nunca ia revelar para Dumbledore, o bruxo que estava lutando ativamente para combatê-lo!

— HARRYS! — Anne chamou de novo, apertando os olhos. Os dois pararam ao som da urgência em sua voz. Ela ofegava, olhando através da janela suja que dava para os fundos da casa. — Vocês não estão sentindo o ar pesado? Alguma coisa está errada…

***

Não demorou para que a frágil paz que tinha se estabelecido entre os três à mesa do café da manhã fosse interrompida por um chamado na lareira, que ficava na sala de estar.

— Nymphadora! — Uma voz familiar viajou até a cozinha, vinda do fogo. — Alguém em casa? É urgente!

Dora se endureceu em sua cadeira, os nós dos dedos brancos apertando os talheres.

— Ele fez isso ontem, o dia todo.

— Você devia ir… — Ted a advertiu, e Bervely viu os maxilares dele travarem. — Porque se eu for, não vai ser uma conversa bonita.

— Então você devia ir — Dora devolveu, selvagem. — Não me importo se você arrancar a cabeça obtusa do pescoço dele.

— Quanto drama, eu vou — Bervely anunciou, levantando-se. Não que estivesse particularmente ansiosa para mais uma conversa com Lupin, mas ainda não tinha as notícias de Anne e Sirius que pedira e essa era uma das muitas razões pelas quais não tinha pregado os olhos durante a noite.

Achou a cabeça de Remus flutuando na lareira.

— Onde está Dora?

— Indisponível. Vai ter que ser comigo mesmo, lobo bobo — ela disse, se agachando em frente ao fogo. — Então, os rebeldes transgressores voltaram? E sim, eu estou incluindo Sirius nessa lista.

— Bervely — ele disse, num tom urgente que a fez perceber que algo estava terrivelmente errado. — Peça à Nymphadora para contactar os aurores! Já mandei mensagem para a Ordem e eles estão a caminho, mas não acho que vá ser o suficiente…

— Suficiente para o quê? — Bervely se agarrou às grades da lareira, quase queimando os dedos no processo. — O que foi que aconteceu?

— Outro ataque de dementadores, muito maior que o anterior…

Onde? — exigiu, o coração desenfreado.

— Godric’s Hollow. Sirius acabou de me mandar um chamado pelo espelho comunicador.



Harry achou que Anne estava passando mal como previra, até que notou ao que ela se referia. Um frio maior e mais enregelante tomara a sala, se instalando através das frestas da janela fechada. Harry sentiu um súbito e desolador arrepio varrer seu corpo, vindo de um abismo escuro. Uma desesperança oca tomou sua mente de assalto, tirando o chão debaixo dos seus pés e o ar dos seus pulmões…

— Dementadores — reconheceu, ajeitando-se devagar. Puxou a varinha do seu bolso. O Reflexo fez o mesmo, tirando do bolso uma varinha que era idêntica à sua.

— Como fomos idiotas. St. Sensille está cheia deles — Anne gemeu, a respiração acelerada, tentando ver alguma coisa pela janela, mas só havia o jardim selvagem nos fundos da casa. — Devem ter sido atraídos para cá por… alguma coisa — completou, olhando de relance para Harry.

— O quê, por mim?

— Luto e perda são sentimentos irresistíveis para dementadores — ela disse, baixinho.

Harry os viu. Vindo do alto, sombras ondulando no céu cinza-grafite, numa nuvem crescente que se aproximava da cidade rapidamente.

Quando estava prestes a conjurar o seu patrono, ouviram a voz de Sirius chamando-os da sala.

— Harry? Anne? Precisamos ir! Onde é que vocês estão?

Harry olhou horrorizado para o Reflexo, ao mesmo tempo em que conseguia ouvir os passos de Sirius se aproximando pelo corredor.

— Harry, Anne!

— Se esconda — ele disse para o Reflexo. Sem discutir, o sósia sumiu sob a capa da invisibilidade, bem na hora em que Sirius entrou.

— Aí estão vocês! Não me ouviram? Precisamos ir, há uma nuvem de dementadores se aprox–

O barulho de vidro estilhaçando em algum lugar interrompeu Sirius. O frio se intensificou, bem como o peso pressionando o peito de Harry.

— Conjure seu patrono, Harry — Sirius instruiu, a própria varinha em punho. — Anne, você já aprendeu a conjurar–?

— Não — ela negou, pálida e sem graça. — Bervely tentou me ensinar, mas nunca consegui conjurar nada corpóreo…

— Não tem problema, o de Harry vai nos dar tempo. Harry? O que você está esperando?!

Harry estava olhando para o livro largado no chão, mas desviou o rosto rápido e se concentrou na primeira memória feliz que conseguiu encontrar. Era dele e Anne mais cedo, enroscados sob a árvore no cemitério, beijando-se como se não houvesse amanhã.

Expecto patronum!

O veado fluiu de sua varinha para o meio da sala, tomando a dianteira deles. Atrás e acima da casa, visíveis através do vidro empoeirado, a massiva e ondulante nuvem negra se adensava. Mais dementadores estavam chegando de todas as direções, como se brotassem do ar para fechar um cerco no céu.

— Vão para o casebre nos fundos da propriedade — Sirius os ordenou, urgente. — No minuto em que chegarem lá, Anne, quero que aparate você e Harry direto para a Casa dos Gritos.

Sirius os enxotou em direção à porta. Harry olhou para o chão, mas o diário de Hildegard tinha sumido.

— Não seria melhor aparatar daqui? — ele perguntou, tentando ganhar tempo, olhando desesperado para todos os lados, se perguntando se o tinham chutado por acidente.

— As barreiras anti-aparatação estão fechadas em torno da cidade inteira, num raio de dez quilômetros — Sirius explicou, enxotando-os para o corredor. O frio agora era denso, impedindo o seu avanço, o ar difícil de respirar. O patrono de Harry brilhava na frente deles, guiando o caminho, mas não parecia suficiente para mitigar o efeito colateral dos dementadores se acumulando no céu, que eles podiam sentir na medula dos ossos. — Os bruxos locais fecharam tudo depois do ataque a St. Sensille.

— Isso é tão estúpido — Anne xingou, apressando-se a acompanhá-los.

— Vai atrasar ajuda, isso é certo — Sirius disse, abrindo a porta da casa. — Eu já avisei à Ordem, e a essa altura Remus deve ter sinalizado o Ministério, mas não sei quanto tempo vai levar para…

— PAI! — Anne gritou, quando uma sombra negra mergulhou através da janela aberta da cozinha, em direção a Sirius, numa velocidade estonteante. O veado prateado saltou contra o dementador bem a tempo, afugentando-o de volta para fora. Tinham chegado à porta, mas Sirius recuou: a casa estava cercada. Uma revoada de dementadores descia sobre o pequeno chalé por cima e todos os lados como se fosse um único organismo, movendo-se lentamente, embora alguns dementadores se destacassem da massa, mergulhando para alcançá-los e sendo espantados de volta pelo patrono de Harry, que os afastava com galhadas.

— Para trás de mim, deem a volta na casa e vão até os fundos! — Sirius mandou, empurrando-os, ao mesmo tempo erguendo sua varinha.

— Não, pai! Você não pode–

— Eu disse PARA TRÁS, vocês dois! Expecto Patronum!

Uma fumaça prateada sem forma fluiu da varinha de Sirius, sumindo no ar logo em seguida, feito um suspiro quente no ar frio.

— EXPECTO PATRONUM! EXPECTO–

— Sirius — Harry pediu, vendo-o bambear sobre os pés com o esforço para lançar o feitiço. — Leve Anne com você, eu posso ficar e ganhar tempo!

A ideia de deixar Harry para trás lhe causou óbvia resistência. Naquele momento, uma luz emergiu no fim da rua, por trás da qual eles divisaram uma silhueta vindo de encontro a eles, voando em uma vassoura. Harry viu uma coruja das torres enorme, prateada, batendo suas asas e protegendo o perímetro em torno daquele que se aproximava. Ele reconheceu Remus quando o seu antigo professor saltou na frente da casa dos Potter, a varinha em uma mão, a vassoura na outra, uma expressão de grande alívio ao vê-los vivos.

— Os aurores já estão lá fora, tentando derrubar a barreira anti-aparatação — Remus informou, ofegante e enérgico, ao mesmo tempo que seu patrono voava círculos amplos sobre eles, mantendo as criaturas longe. — Alguns membros da Ordem ficaram para trás para ajudar. Vocês estão bem?

— Sim, tudo bem! — Harry assentiu, a cabeça pulsando. — Por que é que eles estão atacando? Será que Voldemort sabe que eu estou aqui?

— Acho que não — Remus disse rápido. — Ninguém pode controlar essa quantidade de dementadores, nem mesmo Voldemort! Mas vocês precisam sair daqui! Nossos patronos não vão segurá-los por muito mais tempo!

— Eu vou ficar — Harry anunciou. — Meu patrono é tão bom como qualquer outro! Ainda mais se Voldemort não tem nada a ver com isso, não tem porque…

Harry — Anne pediu ao lado dele, apertando o seu pulso. Ela não disse nada em voz alta, mas soou clara e urgente dentro da sua cabeça:

“Não podemos deixar o seu Reflexo lá dentro!”

Harry não pretendia. Ele olhou de volta para casa… e viu um par de tornozelos sumindo na esquina, em direção aos fundos.

O Reflexo não tinha alma.

— Tudo bem, eu vou com você — ele lhe disse, para o alívio dos dois adultos e a surpresa de Anne. — Vamos!

Sirius se apressou a enxotá-lo na direção dos fundos, onde ficava a área de aparatação.

— Vão para a Casa dos Gritos, vamos encontrar vocês lá mais tarde!

— Certo — Harry ofegou, puxando Anne pelo braço. Quando mais rápido fosse…

O patrono de Harry os acompanhou, trotando de um lado e de outro, afugentando os dementadores que tentavam alcançá-los, enquanto os dois corriam abaixados, tentando não escorregar na neve derretida, nas raízes crescidas e em sua própria agonia.

— Vá com eles! — Remus pediu para Sirius, quase implorando. Sirius o encarou com seriedade solene.

— É Godric’s Hollow, Aluado. De James e Lily. De Harry.

— Eu sei — suspirou Remus. — Eu sei, mas, Sirius…

Estalos fortes anunciaram a chegada de mais duas pessoas na rua. A cúpula que se adensava acima deles obscurecia o dia, mas era impossível não reconhecerem as silhuetas que se aproximavam correndo de onde estavam, seus patronos brilhantes lhes acompanhando, correndo lado a lado – um enorme cão e um massivo lobo, ambos prateados e brilhantes contra a neve e o caos.

— O que diabos vocês estão fazendo aqui?! — Sirius perguntou, olhando irritado de uma para a outra, à medida que elas avançavam na direção deles dois. — Tonks, você não devia nem estar aparatando, na sua condição! E, Bervely, você…

— E eu o quê? — ela rosnou de volta com ferocidade, desafiando-o a dizer porquê ela não devia estar ali, quando ele era a última pessoa que devia. Pai e filha sustentaram uma olhar cheio de farpas afiadas pela sua última discussão, em Grimmauld Place.

— Vocês precisam retornar ao perímetro externo, não é seguro sob a cúpula! — Nymphadora avisou, ignorando a tensão familiar pendurada no ar. Ela era toda eficiência em seu uniforme de auror, a trança longa balançando em suas costas como um chicote. — Onde estão Harry e Anne?

— Desaparatando daqui — Remus informou, sem conseguir tirar os olhos dela. — Dora, eu sinto muito–

Não temos tempo pra isso! — ela exclamou, seu lobo prateado a seguindo e rosnando furiosamente para as sombras negras que tentavam achar uma brecha e atacar. O cão de Bervely se afastou das duas para fazer a cobertura de Sirius e Remus, se juntando à coruja. — Qual a direção deles?

— Atrás da casa! — Remus apontou. Dora assentiu, quase seguindo o caminho, mas girando nos tornozelos para apontar um dedo na cara dele. — Não ouse morrer. Não antes de resolvermos isso — ameaçou, indicando a própria barriga.

Remus assentiu com urgência, ensaiando um sorriso arriscado, muito grato de que estavam se falando de novo.

— Eu não me atreveria.

Foram interrompidos por gritos distantes, vindos de ruas mais abaixo. Bervely torceu o pescoço naquela direção, Sirius e Remus também, mas era impossível ver qualquer coisa de onde estavam.

— Eles já começaram — Tonks murmurou, pálida. — Não vamos ter chance contra eles, é melhor garantir que todo mundo vai conseguir deixar a cidade a salvo.

— Bervely, cuidado! — Sirius gritou. Três dementadores haviam mergulhado por trás dela, suas mãos podres agarrando-a pelos ombros e começando a arrastá-la para dentro do seu cerco.

***

Harry e Anne chegaram aos tropeços no velho casebre detrás da casa. Ela tinha bastante certeza que machucara o tornozelo atravessando a folhagem selvagem do jardim, mas não havia tempo para verificar.

— O que o fez mudar de ideia? — perguntou, sobre a respiração acelerada. Harry estava ofegante também, e olhava para todos os lados, procurando alguma coisa.

— Eu não mudei. Você precisa levar ele com você.

— Quê-?

O Reflexo surgiu do ar, bem perto deles, revelando-se de sob a capa. Tinha a mochila de Harry nas costas, o diário de Hildegard nas mãos e a varinha duplicada de Harry na outra.

— Como sabia que eu estaria aqui?

— Era o que eu faria — disse Harry, com pressa. — E você sabe o que tem que fazer, agora!

O Reflexo assentiu, a expressão séria, esticando a mão para Anne. Seja lá o que fosse que eles queriam dizer, ela não sabia o que estava acontecendo e, acima de tudo, estava apavorada. Os ecos de uma floresta – na qual, há muito tempo, ela tinha visto coisas horríveis acontecerem – se repetiam no fundo de sua cabeça, fazendo com que se concentrar no presente fosse muito difícil.

— Anne, você precisa ir com ele! Vai ficar tudo bem...

Ela percebeu que Harry estava se despedindo.

— Mas você não pode voltar lá!

— Eu preciso. Sirius, Remus, e todo mundo, eles precisam de ajuda.

— Mas, Harry — ela ofegou, segurando o pulso dele, ignorando a mão do Reflexo estendida para ela. — Por favor, não. Eu tenho um mau pressentimento sobre isso, alguma coisa ruim vai acontecer!

— Eu sei, sempre acontece. Confie em mim — E então deu uma olhada rápida para o seu Reflexo —, e achem Dumbledore.

— Harry!

Mas ele já tinha ido, correndo para fora do casebre e de volta para os dementadores e gritos, o seu patrono o seguindo fielmente. O Reflexo jogou a capa por cima deles antes que Anne pudesse raciocinar, e entrelaçou os dedos nos dela.

— Precisamos desaparatar agora, antes que eles nos encontrem aqui. Você sabe como chegar em Avalon, não sabe?

***

Expecto Patronum! — gritou Sirius mais uma vez, com toda a força dos seus pulmões, correndo na direção de Bervely, que era arrastada pelos três dementadores em direção a um bolo escuro de mais uns duzentos deles.

Dessa vez o seu patrono fluiu para fora da varinha, corpóreo e furioso. Sirius sentiu alguma parte dele – uma parte substancial – ser arrancada para fora, ir embora junto com a forma prateada que produzira. Manchas negras piscaram na frente dos seus olhos. Suas pernas fraquejaram.

Ele caiu de joelhos no chão forrado de neve úmida e não sentiu nenhuma dor.

Os dementadores mais próximos farejaram a presa fácil e mergulharam em sua direção.

Houve mais um grito – era Bervely, chamando o seu nome.

Não… não seu nome. Ela tinha dito pai. Mas ela não estava mais à vista.

A revoada de dementadores desabou de uma vez sobre ele, um furacão de criaturas famintas para o qual Sirius para o alvo. Ele ainda segurava firme a varinha, agora caído, de costas, na neve gelada.

Esqueça a minha alma, ordenou ao seu patrono. Salve a dela primeiro.

Mãos podres se fecharam em seu queixo e inclinaram o seu rosto para cima, em posição de colheita. Os dedos ossudos cravavam-se tão fundo em suas bochechas que ele não pode fazer nada senão abrir a boca para a matraca faminta que se aproximava.

Dentro dele, uma luz se apagou, como uma vela que queimava até o fim.

* * *

Foram sugados para o vácuo claustrofóbico da aparatação, então lançados há muitos quilômetros de distância, numa grama amarelo-queimada, num sol ofuscante, num silêncio desorientador.

Anne caiu em cima dos joelhos e das mãos, seu estômago estava se revirando inteiro. Ela vomitou na grama todas as tortinhas de caramelo que tinha comido mais cedo e tossiu de olhos fechados, esperando a ânsia passar. Corvos crocitavam acima da sua cabeça.

— Onde estamos? — perguntou o Reflexo, acima de sua cabeça, mas ela ainda não conseguia falar; a acidez queimando sua traqueia, então não lhe respondeu de imediato.

Anne se levantou, as pernas bambas. Estavam no topo de um monte alto e nevoento, no qual havia uma torre gótica de uns três andares, feita de pedra que um dia fora branca-iridescente e que o tempo manchara de bege-amarelado. A torre possuía uma passagem central em forma de arco pontudo, pela qual podiam ver o outro lado do monte e os campos de Somerset, que pareciam retalhos de pano, e os contornos de uma cidade de telhados vermelhos, que ela sabia ser Glastonbury. Mesmo com a névoa branca que cercava o pé do monte, a vista dos campos era desimpedida por muitos quilômetros, em todas as direções, lhe dando de novo a impressão de que estavam no topo do mundo. Alguns metros adiante se iniciava uma escadaria estreita, incrustada monte abaixo como o esqueleto branco de uma serpente sem-fim.

— Isso foi uma má ideia — disse, a voz tremendo, andando até ele. — Devíamos ter ido para a Casa dos Gritos, como Sirius mandou…

— Está tudo bem — ele lhe garantiu, calmo. Calmo demais para quem havia acabado de escapar de um ataque massivo de dementadores. — Precisamos achar Dumbledore, se lembra? Esse é o lugar certo? É Avalon?

— Não. É o mais próximo que podemos chegar – Anne respirou fundo, indo até ele. — Mas, e quanto ao Harry? Não podemos arriscar que você se machuque, não sabemos o que vai acontecer com ele se você–

Ele se virou para ela sem nenhuma urgência ou desespero, nenhuma parte do pânico que ela sentia no momento. No lugar disso, Anne achou uma obstinação verde-obsidiana cintilando nos olhos dele.

— Sem Dumbledore não há a menor chance de salvarem Godric’s Hollow. E precisamos avisá-lo sobre Hildegard. Eu tenho o diário– com sorte ainda dá tempo de evitar o pior.

Anne percebeu o que estava acontecendo ali, o porquê de ele não parecia nem um pouco abalado pelo que tinham acabado de escapar em Godric’s Hollow.

— Você não sente — ela se interrompeu, tentando reformular a frase — você não sente nada, não é? Você não sentiu os efeitos dos dementadores.

— Não — o Reflexo concordou, pensativo. — Pela primeira vez, eu não me senti miserável diante dos dementadores. Eu não ouvi a minha mãe morrendo. Agora, como é que entramos em Avalon?

Anne tentou não se entregar ao desespero que retornava junto com a ânsia, ao pensar no que poderia estar acontecendo em Godric’s Hollow naquele exato minuto. No momento que desaparataram, ela achou ter ouvido gritos de Sirius. Respirou muito fundo, obrigando a náusea a voltar para os confins do seu estômago, e pegou a Orbe de Parlaisa do seu pescoço. Tinha a recolocado na casa, antes que o eco dos dois Harrys a enlouquecesse.

— Sophia sempre me disse que eu poderia usar isso, caso eu precisasse dela. Acho que se a chamarmos, ela vai nos deixar entrar — disse, incerta. Não estava nos melhores termos com a madrinha e, antes de se despedirem, Sophia tinha lhe pedido para ficar longe de Harry Potter.

— Não sei se devemos confiar em Sophia. Foi Hildegard quem a colocou em Hogwarts, para começo de conversa.

— A Senhora do Lago não está trabalhando para Voldemort, muito menos minha madrinha! — Anne disse, por entre os dentes. — Eu tenho certeza que há uma explicação plausível para tudo isso!

— Vamos descobrir quando falarmos com Dumbledore, não é? — o Reflexo teimou, fazendo um sinal para que ela continuasse.

Resignada, Anne puxou a varinha e a usou para explodir a Orbe. Os cacos se transformaram numa fumaça fluída quando em contato com o ar, então ondularam e sumiram. Ela sentiu um arrepio de déjà vu varrer a sua espinha, lhe dando a impressão de que já tinha feito aquilo no passado.

— E agora, o quê? — o Reflexo de Harry perguntou. Ele tinha a varinha em punho e a batia na perna, impaciente. A outra mão estava no bolso, remexendo alguma coisa. Anne percebeu o que era, e seu estômago despencou.

Você trouxe o punhal com você?

— Eu sou suposto a carregá-lo comigo o tempo inteiro, se lembra?

Harry é suposto a carregá-lo, não você! — ela explodiu com indignação. Não sabia de onde aquilo tinha vindo, se é porque estava assustada, porque ainda tinha o resquício do efeito dos dementadores agindo nela ou porque a frieza dele de repente lhe dava arrepios.

O Reflexo a olhou com curiosidade.

— Você não gosta de mim do mesmo jeito que gosta dele.

— Como é? — Anne achou que não tinha entendido direito.

— Eu vi você dois, hoje. Aconteceu alguma coisa, sabe, entre ontem e hoje? Alguma coisa que eu deveria saber?

Ela mordeu o lábio, olhando para o outro lado. O Reflexo soltou um suspiro de conclusão.

— É claro. Como eu sou estúpido. Ele disse a você, não foi? Era tudo que ele – que eu conseguia pensar, desde o nosso vôo de moto. Foi isso? Ele criou coragem e finalmente confessou o que sente por você? Vocês estão juntos, agora?

Anne abriu a boca e a fechou, sem saber o que dizer, uma angústia subindo pela garganta. Não conseguia imaginar um momento pior para discutir aquilo, mas o Reflexo de Harry não parecia pensar o mesmo. Ela olhou para a torre, impaciente, imaginando se Sophia viria logo. Se teria sequer recebido o seu chamado.

— Você sente a mesma coisa, então? Você está– uh… gostando de mim?

— Dele — ela corrigiu, sem conseguir olhar para o Reflexo. — Eu estou gostando dele.

Não tinha dito isso para Harry em voz alta. Ele tinha dito a ela, mas ela não dissera de volta. E agora não sabia se teria a chance.

— Mas somos a mesma pessoa — o Reflexo insistiu, o olhar dele pinicando a lateral da cabeça dela com sua intensidade. — A única diferença é que ele foi mais rápido do que eu.

Anne virou-se para olhar indignada para ele, queimando por dentro.

— Por que isso incomoda você? Se você nem pode sentir coisas? Os dementadores nem viram você. Você está com medo? Agora, você está?

— Não. Só um pouco impaciente, sabe, porque estamos perdendo tempo aqui, quando devíamos estar falando com Dumbledore. Quanto vai demorar para a professora Neveu aparecer, você acha?

Anne pressionou os lábios e cruzou os braços. Não sentia nada da miríade de sensações que costumava receber quando o verdadeiro estava por perto. Havia pensamentos, e eles eram claros, precisos, soavam exatamente como os de Harry soariam, mas pareciam desbotados de toda cor… Um decalque em preto e branco do que a mente do outro Harry podia ser.

Um ruído vindo da torre chamou a sua atenção. Anne virou a sua cabeça e viu o ar se abrir, bem abaixo do arco, como se a realidade se rasgasse e os deixasse entrever uma outra, mais abaixo dela. A grama era verde, o dia brilhante, e havia um cintilar de água – no segundo seguinte uma bruxa alta surgiu, vestida num manto pesado cor de amianto, seus movimentos precisos quando ela cruzou o portal e, com as suas mãos nuas, o fechou atrás de si. A energia mágica opressora de Hildegard Dumbledore flutuou até eles, antes mesmo do que a sua voz.

— Harry Potter, Johanne Loren! Eu não posso dizer que esteja surpresa com essa muito antecipada visita.

O Reflexo se aprumou, muito como Harry teria feito, a varinha segura na mão, os maxilares se travando ao olhar para Hildegard. Alta e imponente como se lembrava, seu ar de arrogância justificada, como se a melhor coisa que ele pudesse fazer diante da sua presença fosse uma reverência.

O Reflexo não se curvou, mas Anne sim. Ela fez uma reverência rápida com os joelhos e com a cabeça, como Sophia uma vez lhe dissera que deveria, prendendo a respiração.

— Senhora — apressou-se em cumprimentar. — Não queríamos incomodar, tínhamos a esperança de contactar a minha madrinha, Sophia…

— Sophia está na casa das moças, ocupada com as suas obrigações de treinamento, mas posso garantir que serei de tanta ajuda quanto ela, ou que tentarei o meu melhor. Em que posso ajudá-los?

— Estamos procurando o prof. Dumbledore — o Reflexo se adiantou, olhando-a como se pudesse fazê-la confessar, com a força de seu olhar, que era e sempre seria uma comensal da morte. — Tenho uma mensagem urgente da Ordem da Fênix para ele.

— Ah, Harry. Eu seria ingênua de acreditar que a Ordem da Fênix mandou seu maior protegido para fazer as vezes de correio-coruja. Por que não me diz, de verdade, o que está acontecendo?

— Eu vou dizer, para o professor Dumbledore. Senhora — acrescentou, apesar de ter a impressão de que não estava se passando por respeitoso. Atrás dele, Anne fez um som de reprovação. Hildegard assentiu, compreensiva, seus olhos de coruja perscrutando Harry, um sorriso quase que distraído surgindo nos lábios estreitos.

— É claro, eu entendo. O meu tio o tem em alta conta, e eu imagino que a sua lealdade seja uma das suas muitas qualidades que ele tanto admira em você. Vocês devem me acompanhar, mas preciso recolher as suas varinhas. Armas não são permitidas na Ilha.

O Reflexo recuou à sugestão.

— Nesse caso, vamos esperar aqui fora. Nesses tempos, não dá pra ficar deixando a varinha fora de alcance. Nunca se sabe quando um comensal da morte vai aparecer — ele acrescentou, com um sorriso inocente.

Hildegard assentiu, estreitando os olhos ligeiramente para a afirmação, e os deixou em silêncio. Ela passou sob o arco, fazendo um gesto imperativo com suas mãos espalmadas em frente do corpo. A vista do outro lado do arco se dissolveu de novo, substituída pelo vislumbre um campo gramado vivo, plano, o brilho súbito de luz refletidas sobre a água – antes que ela sumisse lá dentro e o portal se fechasse, e tudo que eles pudessem ver fosse o outro lado do morro, sua névoa e os telhados das casas, ao longe.

Anne caminhou até a beira de um poço vazio que havia logo adiante – onde alguém instalara uma grade, para evitar acidentes – e se recostou, sentindo o mundo rodar. O Reflexo veio até ela.

— O que há de errado?

Harry tinha lhe perguntado aquilo várias vezes nos últimos meses, sempre com um tom de preocupação que ela, secretamente, adorava saber que estava lá. Não havia nada assim na voz do Reflexo.

— Esse lugar tem tanta magia potencial no ar… Você não sente? Está me deixando zonza, não consigo pensar direito. Parecem mãos empurrando as paredes da minha mente, pedindo passagem, querendo inspecionar…

— Não, eu não sinto. Mas olha, não acho que ela vá voltar com Dumbledore. Devemos nos preparar, é melhor você pegar a sua varinha, para o caso de precisarmos desaparatar.

— Harry — ela chamou, embora a incomodasse cada vez mais chamá-lo assim. — Acho melhor a gente ir embora antes que ela volte, não tenho um bom pressentimento sobre isso.

O Reflexo checou distraído o volume que tinha no bolso direito, que Anne sabia ser o punhal.

— Talvez você devesse ir para debaixo da capa, só por garantia — ele sugeriu, mas não houve tempo de fazer isso. O portal abaixo da torre se abriu, deslocando o ar como um túnel, e Hildegard surgiu lá de dentro de novo, imbuída de uma nova energia. Ela sorriu para Harry e Anne – essa última tinha se aprumado, limpando discretamente o sangue que sentia escorrer da narina esquerda.

— O meu tio está descansando e infelizmente não vai poder recebê-los agora, Harry. Ele tem estado terrivelmente cansado com todas as exigências de Hogwarts. A razão pela qual eu insisti que viesse passar o feriado em Avalon foi justamente deixá-lo repousar. Mesmo um bruxo poderoso como Alvo precisa de descanso, de vez em quando.

— Engraçado — o Reflexo falou, ambas as mãos nos bolsos, agora. O que lhe dava um ar casual, mas Anne sabia que ele tinha uma mão na varinha, e a outra no punhal. — Achei que ele tinha vindo para cá porque você achou que ele ia morrer, se ficasse do lado de fora.

O sorriso tranquilo de Hildegard vacilou.

— Percebo que subestimei o quanto Alvo divide com você. Sim, eu vi nas águas do tempo que a vida do meu tio estava em risco e resolvi interferir em suas chances. Você entende, então, porque não quero perturbá-lo com visitas externas. Nunca se sabe de onde o risco pode vir.

— Não, nunca se sabe — o Reflexo concordou, pensativo. — Eu me pergunto se Dumbledore considerou que o risco poderia estar dentro de Avalon, quero dizer, porque seria mais seguro lá, do que aqui fora?

Anne o puxou pela camisa, sentindo que aquela conversa caminhava na direção de uma completa catástrofe.

— É melhor a gente ir, então. Vamos dizer para a Ordem que… Que o professor Dumbledore não vai poder ajudar dessa vez. Nós sentimos muito por incomodar, Senhora.

Hilde assentiu, inclinando a cabeça prestativa, como se não tivesse sido nada demais ser interrompida em suas atividades para vir abrir a porta da Ilha Sagrada de Avalon para dois adolescentes não-convidados. Por um minuto de otimismo inconsequente, Anne achou que eles iam conseguir desaparatar em segurança para a Casa dos Gritos e ter notícia dos outros… Mas, então, Hilde fez um ligeiro aceno com a sua mão, para que se detivessem.

— Espere um momento, Harry. Creio que você tem em sua posse algo que me pertence.

O Reflexo estreitou os olhos para a sugestão.

— Eu tenho?

— Imagino que o encontrou nas coisas da sua mãe, o meu velho diário? Se importa? — Hilde estendeu sua mão para ele, a palma branca virada para cima, esperando.

O coração de Anne disparou. Será que ela tinha acabado de admitir…?

Acho que prefiro guardá-lo para mostrar ao professor Dumbledore, se a senhora não se incomoda.

Hildegard sorriu com complacência.

— Acha mesmo que Alvo não sabe que o diário existe? Você subestima o meu tio, logo você, que já teve infinitas provas de sua sabedoria ao longo dos anos em que ele o manteve vivo, contra todas as suas chances! Não, criança, Alvo sabe muito bem que o diário existe, o que é, e mesmo como o fiz.

— Matando alguém. Você o fez matando alguém — o Reflexo precisou, olhando desafiador para ela. Anne desejou que ele parasse de acusar a Alta Sacerdotisa de Avalon de assassinato, se eles queriam mesmo sair dali sem maiores problemas, o que parecia mais improvável a cada segundo que passava.

— Não, Harry Potter, eu não matei ninguém. Há mais de um jeito de fragmentar uma alma. Agora, se importa de me devolver o meu diário? Estive buscando por ele há muito tempo. Não é fácil, nem agradável, manter dois pedaços de uma mesma coisa separadas, quando deviam existir juntas.

— Então, o que foi que aconteceu? Riddle matou alguém para você? Ele possuiu seu corpo, ele a enfeitiçou, obrigou você a fazer uma horcrux?

— Sua curiosidade é compreensível, mas o assunto não lhe diz respeito. Me dê aqui. — Hilde suspirou, como quem está farta dos modos de um garotinho malcriado que não é da sua família, e que ela não podia disciplinar como gostaria. — Accio horcrux!

Só que, ao invés que conjurar o livro com uma varinha, ela o fez com suas mãos. O puxão foi tão forte que derrubou o Reflexo no chão, as alças de sua mochila se partindo dos seus ombros, o zíper se quebrando para deixar o diário deslizar para fora e flutuar até as mãos de Hilde, que o recebeu com cuidado.

— Você não devia deixar os pedaços da sua alma espalhados por aí — disse o Reflexo, levantando-se —, eles tem uma inclinação para dar com a língua nos dentes. Será que o seu tio também sabe que você foi a primeira comensal de Voldemort?

Pela primeira vez, Anne viu um real brilho de perigo cintilar nos olhos de águia de Hildegard. Sumiu tão rápido quanto veio, fazendo-a se perguntar se não fora coisa da sua imaginação.

Hildegard deu um longo, pesaroso suspiro. Parecia que ela estava com pena dele.

— Eu era jovem, Harry. Ingênua, carente por atenção. Tom me ofereceu tudo que eu queria de um amigo, e mais um pouco. Então ele usou da minha vulnerabilidade, como usou a de tantas pessoas, e me fez sua cobaia para os experimentos de magia negra que não queria performar em si mesmo. Ele sabia que eu o amava, e que jamais lhe diria não. E sim, meu tio sabia sobre a nossa relação. Quando ele descobriu o que Tom estava fazendo, me mandou para longe. Para cá — ela indicou a passagem sob a torre. — Avalon. Fora do alcance dele, e do resto do mundo inteiro. É claro que ele nunca conseguiu recuperar a minha outra metade, que Tom preferiu guardar consigo — disse ela, num suspiro triste, indicando o diário que acolhia no braço esquerdo, como um bebê recém-nascido.

— Eu disse a você que havia uma explicação — Anne murmurou para ele, por entre os dentes, resignada.

— Você está sangrando — o Reflexo lhe avisou à guisa de resposta, olhando para o espaço entre o seu nariz e lábios. Mas Anne sabia, pois sentira o gosto acre na língua, mas não havia nenhuma dor.

— Quando Sophia me contou sobre você, Johanne, eu não achei que seria possível. Mas, agora, faz perfeito sentido — comentou Hilde, olhando curiosa para Anne, dessa vez. — Mas então, diziam o mesmo de Morgana Le Fay. Boatos, no caso dela… Morgana era uma Vidente. Não uma infalível, mas autêntica. O devido crédito precisa ser dado.

Anne não fazia ideia do que a Senhora do Lago estava falando. O que ela poderia, em nome de Merlin, ter em comum com Morgana Le Fay?

— Você colocou Sophia Neveu em Hogwarts para me vigiar, não foi? Bem debaixo do nariz de Dumbledore! E com todo o acesso à minha mente, ainda por cima! — o Reflexo interpelou, decidido a cavar fundo na questão.

— Não para vigiar você, é claro que não. Para mantê-lo seguro, Harry. É claro que Sophia não precisou fazer muito, afinal Johanne já estava lá para você. Pronta para ocluir sua mente tão hermeticamente que nem mesmo eu posso lê-lo, agora.

O Reflexo olhou para Anne, questionador – ele não sabia, é claro, que ela vinha fazendo a sua oclumência por meses. Anne tinha dito aquilo para Harry depois que ele saíra do espelho, portanto o Reflexo não carregava as memórias daquela conversa. Ela meneou a cabeça.

— Não é nada importante–

— Felizmente, a sua própria oclumência não é infalível, Johanne — continuou Hildegard. — Eu imagino que, a essa altura, vocês já ouviram a Canção?

O Reflexo se virou para Hildegard tão rápido que seu pescoço estalou.

— Nós já ouvimos o quê?

— A Canção de Morgana. Não é essa a verdadeira razão pela qual veio aqui? Contar ao meu tio que você ouviu todos os versos?

— Eu não sei do que você está faland–

— Sim — Anne o interpelou, perdendo o fôlego. — Nós ouvimos a Canção. A Canção inteira. É por isso que precisamos falar urgente com o professor Dumbledore, antes que a informação chegue nas mãos erradas! E, enquanto estamos aqui conversando, há um ataque...

— Um terrível ataque de dementadores à Godric’s Hollow — Hildegard assentiu, a voz sentida. — As pobres criaturas já não sabem o que fazer com si mesmas, a fome é tão grande… É terrível. — Ela cerrou os olhos, como se a fome dos dementadores fosse demais para suportar, mas os abriu de novo para afirmar: — Vocês estão enganados sobre a Canção, ela não é a resposta. Morgana jamais deveria tê-la cantado.

— A senhora sabia sobre a Canção e não contou a ninguém? — Anne perguntou, chocada. O Reflexo lhe olhou com renovado questionamento e Anne tentou silenciosamente adverti-lo a não interromper, do melhor jeito que podia, mas com medo de falar na mente dele e ser captada pela legilimência de Hildegard. — Como… como soube?

— Nas águas do tempo, é claro. Quando procurei o futuro de Harry Potter, logo após Alvo me falar da profecia que o Ministério guardava. Eu jamais esperava que houvesse uma Canção, imagine, para um garoto de quinze anos sem nenhum talento especial. Uma Canção cantada pela própria Morgana Lefay! Mas lá estava. Eu não pude ouvir os seus versos, mas eu vi os seus ecos… Eu vi suas consequências. Percebi que não posso deixar a Canção se cumprir…

— Mas, e se Morgana tiver feito a Canção para derrotar Voldemort? — Anne insistiu.

Hilde negou, tristemente.

— Não se pode derrotar Lord Voldemort. Morgana estava errada. Felizmente, hoje eu terei a chance de evitar o desastre que a sua Canção teria causado.

Com um aceno suave das mãos de Hildegard, ela fez um círculo amplo no ar, na direção deles, e magia invisível os atingiu. Anne sentiu o corpo endurecer, ao mesmo tempo que perdia o controle dos seus músculos. Pelo ruído de surpresa que ela ouviu escapar da garganta do Reflexo, o mesmo tinha acontecido com ele.

Houve um som – como um farfalhar de asas. Um sopro de folhas secas, um sussurro no vento… Quando olhou para frente, Anne viu algo surgir do éter, se materializando diante deles, e ela soube, soube sem nunca tê-lo visto antes, que estava diante de Lord Voldemort.

* * *

— Tom — Hildegard inclinou a cabeça para o Lord das Trevas, como se não acreditasse no que os seus olhos lhe mostravam, e logo em seguida os voltou para o chão. – Você veio.

Voldemort sorriu em retorno, um sorriso que era mais como um corte afiado em seu rosto ofídico do que uma demonstração de emoção.

— Eu lhe disse que retornaria ao seu chamado, quando cumprisse a sua parte no nosso acordo.

Seus olhos vermelhos varreram o perímetro, e ele registrou os dois adolescentes paralisados em frente ao poço. O sorriso perturbador se alastrou mais largo pelo rosto pálido.

— Ah, Potter. Potter, Potter. E pensar que eu não esperava encontrá-lo até o fim do ano. Quem é essa que você trouxe para morrer dessa vez, a sua namorada?

— Essa é a garota sobre a qual eu lhe falei, Tom — Hildegard disse para ele, de repente sem fôlego. Sua voz soava diferente – reverente e doce, ao invés de altiva e arrogante. Ela parecia menor. Pequena, ao lado de Voldemort. — Aquela que vem protegendo a mente dele da sua legilimência.

— A oclumente — Voldemort sibilou.

Ele usava, Anne registrou, vestes negras e compridas sobre a sua estrutura magra, mais alta do que a de um homem comum. Era horroroso, fascinante e terrível, de um jeito que fez com que ela quisesse vomitar de novo. O sentia diante dela, sua magia acídica, perfurante, e o sentia também nas bordas de sua mente, deslizando em torno de suas defesas, forçando a passagem quase que com doçura, quase como se quisesse fazê-la querer deixá-lo entrar.

— Devo supor pelo seu chamado que tem todos os versos da Canção profética de Morgana LeFay?

— Sim — Hildegard assentiu, ainda sem olhar para ele. — Eles a tem. Achei que gostaria de ouví-la em primeira mão. Mas, Tom, por favor… Não os machuque. Depois de hoje, nenhum dos dois será uma ameaça para você.

Voldemort ignorou os dois adolescentes, que paralisados pelo feitiço da Alta Sacerdotisa, não lhe preocupavam. O Lord das trevas se aproximou de Hildegard, devagar. Ela se retesou.

“Harry” Anne chamou mentalmente, se esquecendo por um momento que aquele não era mesmo Harry. Não tinha tentado aquele tipo de comunicação com o Reflexo até então, e não sabia se funcionaria.

“Não diga nada” ele respondeu de pronto. “Não pense nada. Não dê nada para ele. Nada.”

Ela sentiu a ansiedade crescer, indefesa e congelada, sem conseguir nem mesmo vê-lo, por conta do ângulo da sua cabeça. A voz dele em sua cabeça era, ao mesmo tempo, familiar e estranha. “Vamos achar um jeito de sair daqui.”

Mais adiante, Voldemort não parecia tão preocupado em forçar as suas mentes. Ele pinçou o queixo de Hildegard com seus longos dedos brancos, o indicador e o polegar, e fez com que ela o encarasse.

— Você fez bem. Boa garota.

— Tom — ela murmurou, desviando os olhos no minuto em que o rosto foi erguido por ele. — A sua parte do acordo, não se esqueça...

— Shiiii — ele sibilou, calando-a. — Olhe para mim. Tem nojo do que eu me tornei? Olhe para mim, querida Hilde, olhe.

Ela abriu seus olhos, muito devagar e a contragosto, e olhou para Voldemort. O sentimento em seu rosto era difícil de interpretar – dor, repulsa, admiração e compaixão… Estava tudo lá, como uma paleta de várias cores que se misturam num tom escuro de tinta. Tom Riddle sorriu para aquela expressão – parecia diverti-lo.

— Eu estou bem aqui. Sob todas as camadas do que me tornei, está o Tom que você adorou um dia.

Ela assentiu, desviando o rosto de novo, olhando por cima do ombro dele.

— Eu quero acreditar que sim. Eu realmente quero, Tom. Me deixe ajudar. Quando vier comigo, vai ficar tudo bem. Quando toda essa dor for embora... Você não precisa mais sofrer. Eu irei… Avalon vai curar você.

— Me curar? — ele repetiu, deliciado. Seu rosto ofídico, sua face branca, sua língua bifurcada e seus olhos em fendas serpentinas. — Me curar?

— Eu disse a você… As coisas que eu posso fazer, se você me deixar. Posso colocá-la no lugar, a sua alma, posso consertá-la, e tudo estará bem. O poder que eu tenho em minhas mãos agora, Tom, você não pode nem imaginar…

Voldemort sorriu, deliciado.

— Oh, eu posso imaginar, minha querida Hilde. Desde que o vi em sua mente quando nos encontramos, não há muito mais em que consigo pensar, se eu estiver sendo sincero.

Hildegard arfou, olhando para ele com renovada persuasão.

— Então ouça a Canção por si mesmo, e depois, venha comigo. Eu vou mostrar a você…

“Anne” o Reflexo a chamou em pensamento. “Você está segurando a sua varinha? Acha que consegue se desaparatar?”

Ela piscou, incapaz de desviar os olhos de Voldemort e Hildegard, daquela estranha dinâmica que se desenrolava diante deles. Duas criaturas poderosas gravitando uma em torno da outra, era impossível dizer onde terminava a mentira e a verdade começava.

“Não, não acho que consigo”— ela pensou de volta para ele. “Nao sem poder mover a minha mão...”

— Sinto muito, mas acho que mudei de ideia — disse Voldemort à Hildegard, num pretenso tom apologético.

Ele olhou ao redor, entediado. Não viu a expressão no rosto de Hildegard desabar, como se, com aquelas oito palavras, tivesse derrubado a vida dela inteira.

— O que achou que ia acontecer aqui hoje, Hilde? Que quando eu chegasse, e você me entregasse Harry Potter, eu ia ficar tão agradecido que ia deixar você me remendar, com o seu poder extraordinário, e salvar o dia? Me salvar? Você sempre teve essa ideia… Essa obsessão em me salvar. Tão parecida com o seu tio, no fim das contas.

Ele estava ocupado investigando o ar, farejando-o com sua língua bipartida.

— Onde é que está Alvo? Não está esperando detrás de uma moita, está, para fazer uma entrada? Eu não estou com paciência para espetáculos, hoje.

— Meu tio não vai ser um problema para nós. Confie em mim, Tom. Alguma vez eu menti pra você?

— Nunca. — Voldemort sorriu, complacente. — Por outro lado, você sempre foi muito estúpida.

Houve uma pausa – o tempo parou, suspenso na surpresa de Hildegard, enquanto Voldemort olhava pensativo para a torre de Tor. Então a Senhora do Lago se aprumou e fez um som mínimo de pigarro, como que tentando remover as falsas expectativas entaladas em sua garganta.

— Eu não entendo — disse ela. A voz não estava mais cheia de mel e deferência, e, Anne achou ter visto a mão dela tremer num espasmo, magia fluindo entre os seus dedos.

— Vai ter de ser mais específica sobre a que parcela da sua ignorância precisa de esclarecimento — ele acusou, maldosamente, inclinando a cabeça lisa e letal na direção dela.

— No verão… Você pareceu ansioso pela minha ajuda. Você estava sofrendo – você me implorou, Tom. As coisas que eu fiz desde então, para que pudesse ajudá-lo! Depois de todas as atrocidades que você cometeu, e ainda assim, eu aceitei ajudá-lo, não só para o seu bem, mas o de todo o resto, das pessoas…

— Pelo bem maior, sim, sim. – Voldemort fez um aceno impaciente com a mão comprida e pálida, que parecia uma aranha albina de cinco pernas deslizando pelo ar entre os dois. — Hilde, minha Hilde… eu vejo que recuperou o seu diário. Como isso aconteceu?

— Harry o trouxe — ela se apressou em dizer. — Parece que estava esse tempo todo escondido na casa abandonada dos Potter.

— Bem debaixo do nariz de Alvo, quem poderia imaginar. — Voldemort riu com satisfação, o que era mais horrível do que quando ele estava sério. — Posso ver?

Hildegard hesitou. Voldemort estendeu uma mão, paciente e indefectível, até que ela deslizou o diário para ele, o mais leve dos tremores em sua mão quando a recolheu de volta para perto do corpo.

Voldemort acariciou a lombada com o dedo comprido, deitando os olhos vermelhos pelo couro envelhecido e rachado.

— Senti a sua falta, quando você foi tirada de mim — ele disse, casualmente, sem nenhuma nota de sentimento na voz.

— Eu também, Tom. Mas–

— Você vê, o caminho da grandeza é, muitas vezes, solitário. Na época eu acreditei, ingênuo, que você estaria à minha altura. Mas, você deixou o seu tio levá-la embora… e nunca tentou voltar para mim.

— Eu era uma criança — ela justificou, a voz persuasiva. — Mas olhe para mim agora, Tom. O que eu me tornei, tudo que eu tenho ao meu alcance. Eu posso ajudar você. Eu posso…

— Venha aqui – Tom Riddle a interrompeu, estendendo um braço num arco em sua direção. Hildegard olhou para o gesto um longo tempo, no qual ele esperou, a olhando nos olhos, mesmo que ela evitasse encará-la.

Então ela andou, devagar, para o arco do braço que ele lhe estendia.

— Muito bem, minha garota. Muito bem — ele murmurou, encorajando-a, até que ela estava a centímetros do seu corpo. Tom fechou o braço comprido e branco em torno do corpo dela. O outro, que segurava a varinha, veio pousar em seu rosto, quase que carinhosamente. Anne conseguia ver a tensão no corpo de Hildegard, a respiração momentaneamente suspensa. Voldemort aproximou a boca do ouvido dela.

— Eu tenho uma novidade para você — ele confidenciou, baixo o suficiente para soar como um segredo, mas ainda audível o bastante para que Anne captasse. — Não preciso de nenhum conserto.

Aconteceu rápido demais para os olhos registrarem. Ouve um estalo seco, então o corpo de Hildegard despencou aos pés de Voldemort, como se ela fosse uma boneca de trapos sem nenhum osso. O rosto da bruxa caiu virado na direção de Anne – os olhos abertos, os lábios separados, uma expressão de surpresa congelada. Pelo ângulo de sua cabeça, as vértebras do seu pescoço tinham sido partidas.

O coração de Anne despencou. Estavam mortos. Ainda estavam respirando, mas estavam mortos.

Vamos ver o que temos aqui — disse Voldemort, tranquilamente, passando uma perna, depois a outra, por cima do corpo de Hildegard, sua capa cobrindo-a e depois revelando-a, por detrás dele. Chegou perto de onde Anne e o Reflexo estavam. Olhou nos olhos do Reflexo, vermelho rubi no verde esmeralda, e tentou entrar.

Não havia porta para a sua mente. Voldemort olhou então, intrigado, para Anne, que sentia a força da tentativa de invasão dele na própria mente, e a combatia com igual intensidade. Ela segurou a respiração, incapaz de desviar o olhar das suas feições monstruosas. Esperara que o feitiço de Hildegard se fosse, agora que ela estava morta, mas permanecia paralisada.

A única coisa ao seu favor era que não tinha mais porque ter medo, agora que a morte era coisa certa. Então, era isso o que coragem significava...

— Impressionante. Vamos ver quanto tempo você consegue ocluir a mente do seu protegido, enquanto eu e você nos divertimos.

Voldemort fez um movimento de baixo para cima com a sua varinha, que parecia talhada em osso, e libertou Anne do feitiço de imobilidade. Ela perdeu o equilíbrio e caiu no chão, apoiada nos joelhos e nas palmas das mãos, puxando todo o ar que seus pulmões não tinham podido absorver enquanto estava petrificada. Sua varinha tinha caído da sua mão mais adiante e ela engatinhou numa tentativa de alcançá-la.

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— Sabe o que torna oclumência muito difícil de sustentar, menina? — perguntou casualmente o Lord das Trevas, ao mesmo tempo que recolhia a varinha de Anne, antes que ela pudesse alcançá-la. — Dor. Mas não tem porque tomar a minha palavra por verdade, vamos ver o que você me diz. Crucio.

O feitiço a atingiu na nuca. Anne caiu no chão de novo, as costelas contra a grama fria, todos os seus nervos em fogo, invadida pela dor mais horrível que já tinha sentido na vida. Ela nem conseguiu gritar.

Ao lado dela, o Reflexo emitia ruídos estrangulados, mas não podia fazer muito mais do que isso. Não que Anne estivesse ouvindo. Ela estava rolando no chão, afundando suas unhas na terra úmida por debaixo da grama, lágrimas quentes e enormes rolando pelas bochechas.

Voldemort suspendeu o feitiço, deixando-a arfando e gemendo no chão, e tentou invadir a mente do que achava ser Harry Potter de novo.

Nada. O Escolhido o olhava com profundo e pungente ódio, mas era como se no lugar de uma consciência, houvesse uma caixa preta.

— Ok, vamos tentar mais uma vez. Crucio!

Dessa vez Anne gritou – o ar escapando de seus pulmões, o grito arranhando a sua garganta, o gosto de sangue inundando a sua boca. Sua carne estava sendo virada do avesso, perfurada por agulhas, queimada por ácido, tudo ao mesmo tempo.

Ela pensou nos pais de Neville, que tinham ficado loucos por causa daquele feitiço. E ela se perguntou, afogando-se mais e mais na dor, seu cérebro ardendo, se demorava muito para a loucura chegar.

Voldemort se agachou ao seu lado, cobrindo a visão do céu azul-pálido com a sua cara ofídica e com seus olhos vermelhos de fendas negras. Ele acariciou a lateral do rosto de Anne, o dedo gelado e liso feito vidro. Recolheu a umidade de uma lágrima e a sorveu na sua boca sem lábios.

— Seu sofrimento é doce — ele murmurou, deliciado, para os olhos arregalados dela. — Eu poderia fazer isso o dia todo, se já não tivesse outros planos. Que tal entrarmos num acordo? Eu não tenho nenhum interesse particular na mente de Potter. Se você me mostrar a Canção, tudo isso vai acabar logo. O que me diz?

Anne soluçou, apertando os olhos, mais lágrimas deslizando para fora deles, uma mistura de sangue e saliva espessa em sua boca, ameaçando engasgá-la. O corpo todo formigava, e ela pensava em sua mãe, que tinha morrido na floresta, nas mãos de Bellatrix Lestrange. Será que ela também tinha sentido medo? Será que ela tinha implorado para a morte vir rápido, como Anne queria implorar agora?

— Você quem sabe — Voldemort suspirou, entediado, encostando a varinha na têmpora dela, sorvendo o ar para a próxima rodada de tortura mágica. — C…

Anne balançou a cabeça com urgência, antes que ele terminasse o feitiço. Voldemort abriu um enorme sorriso satisfeito, que mostrava os seus dentes curtos e amarelados, e fechou a mão em torno do queixo dela, como tinha feito com Hildegard há poucos minutos. Era gelada como a mão de um morto.

— Eu poderia tê-la arrancado à força, é claro, mas a verdade é que prefiro quando o que eu quero me é entregue de bom grado.

***

O Reflexo achou que Voldemort mataria Anne depois de invadir a sua mente e ouvir dela a Canção, mas não foi o que aconteceu. Do ponto em que ele estava – incapaz de mover qualquer coisa que não fosse os olhos, por conta do feitiço de petrificação, ele só conseguia ver a sombra de Voldemort se movendo na periferia e, bem na frente dele, o corpo imóvel de Hildegard.

Ele não entendia porque ninguém tinha ido atrás deles. Onde estava Dumbledore? Onde estava a Ordem? A verdade é que, ninguém sabia que eles estavam ali. E, com os dementadores atacando Godric’s Hollow, ninguém os procuraria até que fosse tarde demais…

“Imperius”, ele ouviu Voldemort proferir em algum ponto ao seu lado direito. Quando voltou ao seu campo de visão, Anne o acompanhava. Ela mancava, e havia sangue escorrendo do seu nariz e boca, manchando o seu pescoço e a gola de seu suéter colorido. A parte superior do rosto estava manchado de lágrimas e terra. Os olhos, vidrados, o olhavam sem de fato enxergá-lo.

— Harry Potter — Voldemort sibilou para garoto, com alguma coisa que era quase alegria, se não fosse distorcida pela intenção monstruosa do que pretendia fazer. — Consegue conceber o absurdo disso? Uma Canção profética enviada para ajudar você a me destruir! Um pirralho atrevido e inconsequente, sem nenhuma competência mágica especial, contra o maior bruxo que já existiu. E o que ela manda ao seu auxílio? Um par de bichos, quatro ou cinco enigmas e uma faca. E eu perdendo noites de sono por conta disso.

Ele estava tentando acompanhar Anne com o olhar, mais do que a Voldemort. Queria ver se ela estava lutando contra a maldição imperdoável, se havia alguma parte dela resistindo a ser controlada. Era a sua última esperança, realmente…

— Quem diria que, depois de todos os nossos percalços, você seria entregue para mim desarmado, indefeso, desembrulhado como um presente de Natal desleixado. Abençoada seja Hildegard, leal até o fim de sua vida. Ela me entregou as três coisas que eu mais queria, hoje. Você vê, essa Canção profética que vem me perseguindo há anosVocê, e como um brinde, a ilha de Avalon. Se eu acreditasse no que dizem sobre sorte, teria de admitir que ela virou ao meu favor esta manhã, não acha?

Voldemort andou devagar até a varinha de Harry, que estava encaixada em sua mão imóvel, e a recolheu nos dedos longos. Ele a analisou, pensativo, depois a enfiou no bolso.

— Não vamos, nesse caso, dar sorte ao azar, tentando relegar a uma das nossas varinhas o trabalho... Menina, pegue o que Potter tem guardado no bolso.

Anne veio andando na sua direção, devagar como se cada passo lhe causasse enorme dor. Os olhos continuavam desfocados, mas lágrimas escorriam deles sem parar, misturando-se à sujeira e ao sangue em seu rosto. Ela chegou bem perto – ele podia sentir o calor do seu corpo, o cheiro de lavanda do seu cabelo – e deslizou a mão dentro do bolso esquerdo dele, puxando o punhal para fora.

— Engraçado Morgana Le Fay achar uma boa ideia que a sua oclumente fosse a única que pudesse tocar a arma, além de você… Será que não ocorreu-lhe que furo terrível era esse? Agora, querida, faça-nos um favor e me ouça com atenção…

Voldemort se inclinou no ouvido de Anne e lhe disse o que ela deveria fazer. Onde encostar a ponta afiada do punhal, no espaço entre a terceira e a quarta costela de Harry, do lado esquerdo, numa distância suficientemente longe do centro do seu peito para que a lâmina não encontrasse o esterno. Ele disse o ângulo exato no qual inclinar a lâmina, para que, quando a empurrasse, escorregasse até o coração sem encontrar grande resistência.

O Reflexo prendeu a respiração e cravou seus olhos nos olhos vidrados de Anne, quando ela se aproximou para cumprir a ordem de Voldemort, exatamente como fora orientada.

(Continua…)



Notas finais
Olá, primeiro um beijo para cada uma das minhas betas, que fizeram um ótimo trabalho nesse cap, que foi e voltou umas trezentas vezes. Se você está se perguntando porque CDM é foda, é pq é betada por uma professora de história e uma estudante de medicina, e elas são INCRÍVEIS. Note que: o título desse capítulo foi inspirado no título do livro de Stephen King "A Garota Que Adorava Tom Gordon". As informações sobre Avalon usadas nessa história são inspiradas naquelas da obra “As Brumas de Avalon”, de Marion Zimmer Bradley. Tor Glastonbury (o monte) é um lugar real: http://tiny.cc/fdk0dz, com ligações com as lendas do Rei Arthur e Morgana LeFay. Se você gostou (ou odiou) esse cap, deixe um comentário! Eu amo, vivo, e respiro comentários, então essa é uma ótima maneira de me manter de pé e escrevendo ;) Me conta como está o seu coração depois dos baques desse capítulo, dos seus sentimentos sobre Hildegard, e das suas impressões sobre Voldemort, e o que você acha que vai acontecer agora! Adoro ouvir as suas teorias, e mesmo que demore um pouco, respondo todos os comentários com muito carinho! Beijo grande e até o próximo capítulo!