Notas iniciais
Olar! Não vou fazer recap, mas se você não lembra do que aconteceu antes, o cap em si vai fazer um bom trabalho em retomar a coisa toda, pois começamos exatamente de onde paramos! Eu peço desculpas, pois ando sem tempo de responder comentários. Apesar disso, eles são muito importantes para a minha motivação em continuar escrevendo CDM, então por favor não deixe de enviá-los! Sério, um dos pontos altos da minha vida é ler comentários *.* Não me negue essa alegria! Sem mais delongas, boa leitura!


Just say the word

We’ll take on the world

Just say you’re hurt
We’ll face the worst

(Apenas diga a palavra
nós tomaremos o mundo

apenas diga que você está ferido
enfrentaremos o pior)


Take on the world

You Me at Six

— Expecto Patronum! — gritou Sirius mais uma vez, correndo em direção à Bervely, que era arrastada pelos três dementadores até um foco denso de mais uns duzentos deles.

Uma luz lancinante fluiu da sua varinha, tão intensa que cegou Remus temporariamente. A próxima coisa que ele viu, quando os pontos pretos pararam de dançar em suas retinas, foi Sirius caído no chão, os dementadores mergulhando sobre ele como se sua alma possuísse uma força magnética irresistível.

— PAI! — Bervely chamou, invisível dentro do cerco que as criaturas formavam ao seu redor. O patrono de Sirius, uma luz brilhante disforme, e o dela, o vigoroso cão prateado, tentavam ajudá-la, mas Remus sabia que as criaturas eram muitas e dois patronos não seriam o bastante.

— LÁ! PARA Sirius! — ele ordenou ao seu próprio patrono, mas a coruja, sobrevoando-os no alto e impedindo que mais trinta ou quarenta dementadores os alcançasse por cima, não lhe obedeceu.

Ele assistiu, impotente, uma das criaturas forçarem a mandíbula de Sirius a se separar, e outra, pairando por cima dele, deixar cair a capa e revelar o rosto sem feições. O dementador escancarou o buraco no centro de sua face, que usaria para sugar a alma de Sirius, o interior tão escuro quanto a própria morte.

No fundo de sua cabeça, Remus ouvia os seus próprios gritos. Gritos que saiam de sua garganta quando o lobo, crescendo dentro dele, quebrava os seus ossos, usava o seu coração quando chegava a lua cheia…

— REMUS! — Nymphadora chamou de algum lugar ao seu lado. Ela tinha avançado para chegar à Bervely que esperneava, resistindo aos dementadores que tentavam dominá-la. — PRECISAMOS…

Mas os gritos em sua cabeça eram mais altos e Remus nunca soube o que eles precisavam fazer. Olhou para cima, desorientado, e não viu mais o céu. Os pássaros da morte cobriam cada centímetro da outrora luminosa manhã de inverno, deixando-a da cor do crepúsculo.

E então ele pensou: é assim que nós vamos morrer.

Ele sentiu o frio alcançar os ossos quando o seu próprio patrono começou a falhar, nenhum pensamento feliz restando para alimentá-lo. Sirius era a sua última família, e em pouco tempo ele estaria morto também.

— NÃO! — alguém gritou atrás de Remus, a voz tão abafada que ele poderia muito bem estar imaginando-a. — FIQUEM LONGE DO MEU PADRINHO!

Um animal prateado enorme passou a galope ao lado de Remus, quase o derrubando. O veado abriu uma clareira ao redor de Sirius, afastando os dementadores para longe, um patrono muito mais intenso do que Remus jamais conseguira conjurar. Harry ajoelhou no chão, sacudindo Sirius vigorosamente.

O mundo de repente voltou a ter som. Os gritos de Harry quase explodiram nos tímpanos de Remus.

— SIRIUS! SIRIUS! REMUS, ELE NÃO ESTÁ SE MEXENDO!

— Harry, aqui! — Nymphadora tinha retornado, arrastando Bervely com ela, tão pálida que poderia já estar morta, se não fossem os olhos abertos, cheios de pânico. O seu lobo-patrono as seguia, protegendo-as, embora fosse o veado luminoso de Harry que mantinha os dementadores afastados agora. Nenhuma das criaturas ousava se aproximar da clareira que a sua luz cegante demarcava. — Vocês precisam voltar para a Casa dos Gritos. Agora! Bervely?!

Bervely não reagiu. Seus olhos estavam pregados na figura de Sirius inane no chão.

— Você precisa levá-los daqui — Nymphadora insistiu, sacudindo-a com urgência. — Minha mãe vai estar esperando na Casa dos Gritos, leve Harry com você também.

— Não! — Harry resistiu, de joelhos no chão, os olhos verdes queimando de decisão. — Eu vou ficar! Eu quero lutar!

Remus e Nymphadora se entreolharam, uma decisão tomada rapidamente entre os dois, sem que nenhuma palavra fosse proferida. Remus se aproximou de Bervely e a segurou pelos ombros, forçando-a a encará-lo.

— Sirius talvez ainda esteja vivo, mas se você não levá-lo daqui agora, vamos perder a chance de salvá-lo. Você me entendeu?

Bervely assentiu, parecendo de volta à si mesma. Ela ajoelhou no chão e entrelaçou os dedos na mão inerte de Sirius, firmando a sua varinha na outra.

Quando eles desapareceram com um estalo alto, Remus ficou aliviado de que nenhum pedaço visível de um dos dois ficou para trás. Ele puxou Harry para si, dando uma boa olhada no garoto.

— Você está bem? Onde está Anne?

— Ela desaparatou — o garoto respondeu num fôlego. — Eu estou bem. Você acha que Sirius vai ficar…?

— Precisamos ir para a entrada da cidade— Tonks se voltou para os dois, apontando para o início da rua. Temos mais chance de combatê-los se formarmos um cerco ao redor deles, junto aos outros aurores.

— Entendido — Remus assentiu, reprimindo a vontade de implorar para que ela também desaparatasse para a segurança da Casa dos Gritos. Conhecia Tonks bem o suficiente para saber que o pedido seria infrutífero e apenas os atrasaria. — Harry, fique atrás de mim. Coloque o seu patrono na nossa retaguarda. Se concentre em alimentá-lo e mantê-lo corpóreo por todo o tempo, entendeu?

Harry assentiu, ansioso, fazendo o que Remus mandara. Eles seguiram pela rua num passo rápido, o lobo prateado de Tonks abrindo caminho, a coruja de Remus protegendo as suas cabeças e o veado de Harry assegurando que não seriam atacados por trás. Acima deles, os dementadores estalavam, agitados e impacientes por uma chance de se alimentar.

* * *

Um alarme disparou quando Bervely desaparatou na sala da Casa dos Gritos. O peso morto de Sirius a puxou para baixo, fazendo-a cair de joelhos no carpete puído. O ruído explodia em seus tímpanos, desorientado-a.

— Bervely! — Andrômeda veio ao seu encontro, correndo da cozinha ao ouvir o barulho. O quê…? Darkmoon, me ajude aqui!

Mãos firmes a puxaram do chão. Bervely teve um vislumbre rápido do rosto de Sirius, semi-oculto pelo cabelo longo, antes de ser colocada no sofá.

— Finite! — Andrômeda apontou para o ar e o alarme anti-invasores silenciou. — Bervely, que exatamente…?

— Ajude-o — ela murmurou, a voz trêmula. — Ele fez um patrono e depois caiu… os dementadores o pegaram, ele não está se mexendo...

Andrômeda já avançava para Sirius, se abaixando para verificar a sua pulsação, colocando dois dedos bem abaixo da sua mandíbula.

— Darkmoon — disse ela, sua voz endurecendo. — Pegue a poção da Euforia de que lhe falei, no armário de mantimentos — Ela olhou de novo para a sobrinha. — Onde está Nymphadora? Remus?

— Ficaram para defender a cidade — Bervely arfou, pressionando a palma das mãos sobre os olhos. Sua cabeça doía, uma pontada firme atrás dos olhos como se ela tivesse aspirado água. — Mas, Sirius….

— Eu sei, querida, eu sei — Andrômeda assentiu. Darkmoon voltou com um frasco grande de poção, que serviu num copo conjurado da cozinha. Andrômeda o recebeu e o enfiou nas mãos de Bervely.

— Beba. Eu vou cuidar dele, enquanto isso. Não se move daqui até se sentir melhor.

— Mas… — ela protestou, mas Andrômeda já se erguia, envolvida pela eficiência da medibruxaria de urgência que Bervely vira possuí-la há apenas alguns dias, quando Draco chegara sangrando em Grimmauld Place número 12.

— Darkmoon, me ajude a levitá-lo ao andar de cima! Proteja a cabeça dele na subida.

O cabelo longo e embaraçado de Sirius pendeu da sua cabeça frouxa, quando Andrômeda o levitou no ar usando a varinha. Bervely sentiu um frio aterrador se instalar no fundo do estômago diante daquela visão.

Bervely assistiu, paralisada, Yas e Andrômeda levarem o corpo inerte de Sirius pelas escadas. Não foi até os três sumirem no andar de cima que ela percebeu que havia mais uma presença na sala. Um miau agudo a fez olhar para baixo, achando o gato prateado perto dos seus tornozelos.

— Jinx — ela murmurou, surpresa.

Deixara-o em Hogwarts para o Natal, mas ele devia ter ido até ali procurando por ela. O gato pulou em seus joelhos quando Bervely lhe deu espaço, e investiu em sua barriga uma cabeçada afetuosa. A preocupação do gato ecoou em seus pensamentos num tom de pergunta.

— Eu estou bem — ela disse, raspando uma mão trêmula em suas costas macias. A cabeça de Bervely não parava de latejar e ela tentava não ouvir os ruídos urgentes de Andrômeda se movendo no andar de cima, a voz da tia anunciado ordens abafadas para Darkmoon.

Bervely deixou o copo de poção de lado e enfiou o rosto nas mãos, tentando se controlar, os gritos de Potter ainda ecoando em seus ouvidos. Ensaiou se levantar, mas as pernas moles não lhe obedeceram.

Com uma contração inesperada do seu estômago, ela se inclinou para o lado e vomitou as panquecas pirotécnicas de Ted, que viraram uma poça de massa indistinta e grumosa espalhada no tapete.

Bervely voltou as se encostar no sofá, gemendo, e encarou o teto lascado. A sua visão foi embaçada por lágrimas quentes.

Não o deixe morrer. Por favor, por favor, não o deixe morrer.

* * *

— Bervely, você consegue me ouvir?

Bervely piscou, um gosto amargo na boca, a cabeça ainda latejando como se um erumpente tivesse pisoteado seus miolos.

— Sim. Acho que sim — confirmou, abrindo os olhos. Tinha desmaiado?

Darkmoon a observava com ansiedade, agachada na frente dela.

Jinx se moveu do seu colo quando Bervely tentou se ajeitar. Cada músculo do corpo dela doía. Os lugares onde os dementadores haviam lhe agarrado, nos seus braços e pernas, latejavam com o fantasma do aperto de seus dedos férricos.

— Ah, graças à Merlin — Darkmoon soltou um suspiro de alívio. — Você realmente devia beber isso. A sua tia falou que vai ajudar você a se sentir melhor.

Bervely aceitou o copo cheio de poção pela segunda vez, olhando ao redor e percebendo que ainda estavam sozinhas na sala. Supôs que devia ter perdido a consciência por muito tempo.

Ela bebeu um gole generoso da poção, que a aqueceu por dentro de imediato, instalando uma falsa sensação de alívio em seu peito. Uma sensação úmida inesperada em sua calça a fez olhar para baixo.

— Oh, merda.

Tinha derrubado a poção na calça, com as suas mãos ainda instáveis.

— Aqui, eu seguro para você — ofereceu Darkmoon, tirando o copo das mãos dela.

Bervely fechou os olhos, respirando fundo. Quando os abriu, a jovem ainda estava lá, observando-a com preocupação.

— Sirius? — Bervely perguntou, apesar do medo que tinha da resposta.

— Ainda lá em cima. Do mesmo... do mesmo jeito que chegou.

Bervely sentiu um calafrio varrer sua espinha. Quando aquele pesadelo ia terminar?

— O que Andrômeda está fazendo com ele?

— Não sei. Ela me mandou aqui para baixo depois que o colocamos na cama. O que aconteceu na vila? Porque os dementadores estavam lá?

— Não sei. Havia… tantos — ela fechou os olhos, estremecendo com a lembrança do momento em que eles tinham lhe agarrado.

— Mais do que em Azkaban? — Darkmoon quis saber.

— Sim. Parece que eles estão se multiplicando.

Bervely sentiu um toque em sua mão e abriu os olhos. Darkmoon lhe estendia outro copo cheio de poção da Euforia. Bervely aceitou, mesmo com o estômago trancado de náuseas e medo.

— É verdade que Sirius lançou o patrono para proteger você? — Darkmoon perguntou. Bervely assentiu, se encolhendo.

— Os dementadores foram todos em cima dele, como se… como se estivessem esperando o tempo todo por uma oportunidade.

— E eles deviam estar — Darkmoon assentiu, a voz oca. — Eles se lembram, os dementadores. Se lembram das almas que foram prometidas a eles e não descansam até que possam reclamá-las.

* * *

Havia uma garotinha de cabelo loiro claro descendo a rua correndo, ainda de camisola. Harry viu quando o dementador no alto a avistou e mudou de curso, mergulhando num ângulo agudo naquela direção.

— … Ali! Ajude ela! — Harry ordenou para o seu patrono, fazendo um movimento imperativo com a varinha. O veado prateado obedeceu, empinando as patas no ar e batendo com a galhada na criatura, a enviando para longe.

A menininha ficou parada no mesmo lugar, tremendo, paralisada de medo. Uma mulher com o cabelo da mesma cor correu até ela e a pegou no colo, procurando quem a havia ajudado.

Os três haviam chegado à rua principal, onde um caos muito maior reinava. Enquanto a maioria dos moradores tinham permanecido em suas casas e tentavam impedir os dementadores de entrar através de portas e janelas fechadas, vários tinham saído para descobrir o que estava acontecendo e agora eram vítimas fáceis para as criaturas.

Harry havia cruzado com algumas pelo caminho – pessoas com olhos desfocados, sentados no chão ou caminhando sem rumo pela cidade, alheios ao caos.

— Harry, por ali! — Remus apontou uma brecha no cerco de dementadores, à esquerda deles, onde poderiam passar dos limites da cidade.

— Mas não podemos deixá-las aqui! — Harry exclamou, apontando para as duas. A mulher devia ser trouxa; agarrada à menininha – que agora gritava à plenos pulmões – ela olhava para cima, sem saber o que fazer.

No minuto que Harry exclamou, outro dementador surgiu sabe-Merlin-de-onde e agarrou a mulher pela jugular, erguendo-a no ar. Ela deixou a criança sem reagir, dopada pelo efeito de desesperança instantânea que inundou o seu sistema.

O lobo de Tonks foi ao seu auxílio, mas isso os deixou desprotegidos. Harry obrigou o seu patrono a voltar para perto deles, com muita dificuldade, pois o veado tentava alcançar o dementador que atacava.

— Vão na frente! — Tonks mandou. — Vou garantir que elas estarão seguras, encontro vocês daqui a pouco!

Vamos — Remus insistiu, empurrando Harry pelo ombro. — Quanto antes encontrarmos o cerco, mais cedo conseguiremos ajudar!

Eles correram juntos, com as cabeça baixas, flanqueados pelos patronos. Correr ficava mais difícil à medida que avançavam. Uma voz no fundo da cabeça de Harry não parava de repetir que não tinha importância… não tinha porque correr… e ele estava tão cansado…

Remus lhe deu o último empurrão através do limite da cidade, que era demarcado por uma placa de boas vindas há poucos metros da estrada que separava a cidade da floresta.

Na borda da floresta, avistaram vinte ou trinta bruxos com as varinhas apontadas para o alto, usando patronos brilhantes e enormes para tentar afastar a nuvem negras e densa de dementadores do céu da cidade. Harry percebeu que muitos tinham uniformes de auror, mas a maioria vestia trajes bruxos, uma mistura de moradores e pessoas que tinham aparatado para ajudar. Ele reconheceu Kim Shacklebolt entre as figuras de uniforme, e o pai de Rony mais adiante, vestindo um suéter Weasley com um grande “AW” bordado no peito.

Remus olhou para trás, mas Nymphadora não estava mais à vista.

— Harry, vá até eles. Eu vou voltar para ajudar Dora, encontro você aqui em alguns minutos…

Mas ao invés de dar mais um passo, Harry cambaleou, seu rosto se franzindo.

— Harry? — O maroto perguntou, alarmado. — O que foi?

— Eu… uh — Harry pôs a mão no peito, onde uma dor aguda o atingira sem aviso. — Acho que…

— Harry! — Remus exclamou, quando viu o garoto perder o controle das pernas e quase desabar no chão, não fosse Remus a avançar e ampará-lo. — Harry, o quê é que você tem?

Harry ergueu a mão no peito e Remus viu um florete de sangue brotar lentamente em seu suéter,, do lado esquerdo, onde ficava o focinho do leão bordado pela Sra. Weasley. Harry arregalou os olhos para Remus, a dor lancinante roubado suas palavras.

— Finite! Finite incantatem! — Remus exclamou, apontando sua varinha para ele. — Finiti Maledictus!

A mancha de sangue continuava a crescer, indiferente aos feitiços. Remus ergueu o suéter de Harry, descobrindo uma ferida em forma de estrela em seu peito, entre a terceira e a quarta costela, da qual sangue vermelho-vivo agora fluía abundante.

Harry fez um barulho molhado engasgo. Remus se voltou para o garoto de novo e viu o sangue manchando seus lábios semi-abertos de surpresa. Sabendo que tinha não mais do que segundos antes de Harry Potter morrer em seus braços, Remus os desaparatou.

* * *

O corpo do Reflexo escorregou da lâmina e caiu no chão, os olhos arregalados pregados em Anne, como se ele não pudesse acreditar que ela tinha mesmo lhe apunhalado.

Voldemort assistiu e esperou até ouvir o último suspiro do garoto. Então ele se aprumou, pegou o punhal da mão rígida de Anne e o colocou cuidadosamente no bolso de suas vestes. Então ele ergueu a mão esquerda, que segurava a varinha, e a usou para puxar a manga das vestes sobre o braço direito, revelando um antebraço da cor de papel, em cuja serpente da Marca-Negra ondulava, aguardando. Tocou-a com a ponta da varinha, dizendo algo num sussurro ofídico inteligível.

Outros pássaros negros começaram a surgir ao redor deles. Pessoas mascaradas, com longas capas.

— Milord — disse uma das vozes, que parecia uma lâmina cega, por trás de uma das nove máscaras. O dono da voz apontava para o corpo caído aos pés de Voldemort. — Esse é mesmo…?

— Harry Potter — disse outro comensal, a voz barítona num tom assombrado de reconhecimento.

— E essa aqui, quem seria exatamente? — perguntou outra voz, rouca e desconfiada, enquanto ela cutucava com o pé a cabeça de Hilde, que estava mais perto dela do que do Lorde das Trevas.

— A Senhora do Lago, sua idiota — disse o comensal ao lado dela, que tinha a sua mesma altura, e o mesmo formato rombudo do corpo. Suas máscaras eram quase idênticas.

— Essa noite muda tudo — disse Lord Voldemort, num tom excitado de promessa. — Onde estão os outros? Bella, Lucius?

— Ainda desaparecidos, mestre — disse um comensal de voz suave à direita de Voldemort. — Embora eu imagine que no caso de Bella há uma desculpa perfeitamente plausível...

O ar sob o portal da torre vibrou, atraindo a atenção de Voldemort que, com um aceno, fez o comensal se calar. Era como se alguma coisa tentasse empurrar a realidade em que estavam, rasgá-la de dentro para fora. Voldemort sorriu sem ocultar a sua satisfação.

— Estão todos presos como diabretes numa gaiola — ele celebrou. — Só a Senhora do Lago pode autorizar a abertura do portal para Avalon.

— Mas ela está morta — falou novamente o comensal à esquerda de Voldemort. — Como é que o senhor vai…?

— Tudo se resolve com um pouco de criatividade, Rodolphus — Voldemort recuperou do seu bolso o velho diário de Hilde, que ele tirara de suas mãos alguns minutos atrás, quando ainda estavam quentes. — Cerquem a torre. O nosso objetivo é atravessar o portal para o outro lado, mas devemos esperar alguma resistência. Matem, se preciso for.

Os comensais obedeceram, se posicionando ao redor da torre, suas varinhas em punho, suas máscaras cintilando sob o sol daquela manhã luminosa de dezembro.

— E a garota, Milord? — Perguntou Snape, antes de ocupar o seu posto no cerco. Notara Johanne Black imóvel ao lado do corpo de Potter, os olhos desfocados, o rosto sujo de sujeira e sangue. Voldemort fez um aceno de descaso.

— Ela já serviu seu propósito, mas fique de olho nela, Severus. Pode ser útil para uma barganha. Se eu estou certo, encontraremos a madrinha dela em alguns segundos.

— É claro — Snape aquiesceu, indo até Johanne. Ele pousou uma mão no ombro da filha caçula de Black e a moveu para sua frente, onde poderia colocá-la sobre a mira da sua varinha.

Voldemort avançou, sua capa negra roçando na grama queimada atrás dele. Ao passar pelo corpo de Hildegard alguns metros adiante, ele se deteve. Usou a varinha para fazê-la levitar, colocando seu corpo frouxo na vertical. A cabeça de Hilde pendeu sobre o peito, seu longo cabelo prateado caindo por cima do rosto exangue.

— Aqui, querida Hilde, vai precisar disso — sussurrou Voldemort no ouvido dela, colocando o diário entre suas mãos flácidas, enfeitiçando-as para que o segurasse. Então a mandou, flutuando, para baixo o portal, o cabelo sacudindo no vento gelado. Uma mensageira morta, para a morte que prenunciava.

* * *

— Segure isso pra mim — Andrômeda pediu, lhe entregando uma bandeja com cinco tipos diferentes de fluído restaurador. A medibruxa se inclinou sobre Sirius e começou a lhe aplicar um feitiço intravenoso. Bervely olhou para o outro lado, sem conseguir assisti-la enfiar o tubo no braço dele.

Seu estômago ainda estava sensível e o cheio dos fluidos restauradores não estava ajudando em nada.

— Você está bem? — Andrômeda lhe perguntou pela terceira vez nos últimos cinco minutos.

— Depende. Ele vai ficar bem?

— Eu não sei, Bervely — ela respondeu com impaciência. Também não era a primeira vez que Bervely fazia aquela pergunta. — Estou tentando ver se consigo fazer ele acordar, primeiro.

Já fazia uns quarenta minutos que estavam tentando fazer Sirius acordar. Ele não reagiu a nenhum feitiço, nenhum unguento, nenhum estímulo de Andrômeda. Não fosse a respiração muito sutil e o batimento cardíaco ainda presente, poderia ser facilmente dado como morto.

— Você acha que ele ainda tem uma alma?

— Eu não sei, Bervely. Já disse que não sei.

Passos no corredor interromperam a próxima pergunta no ciclo de Bervely. O rosto afogueado de Nymphadora surgiu no portal segundos depois. Ambas, Andrômeda e Bervely, se aprumaram à sua chegada, aliviadas em vê-la à salvo.

— Está acabado — Dora anunciou. — Em Godric’s Hollow, pelo menos. Menos vítimas do que em St. Sensille, eu acredito, conseguimos afugentá-los depois de uma eternidade… como ele está? — Ela quis saber, indicando Sirius.

— Ainda inconsciente — sua mãe respondeu, deixando Sirius de lado para ir abraçar a filha. Nymphadora retribuiu o abraço quase que em automático.

— E onde estão os outros?

— Que outros? — Andrômeda a deixou ir, franzindo o cenho. Tonks se alarmou com a resposta vaga.

— Remus e Harry…?

— Eles não voltaram com você? — Bervely perguntou. — Eles estavam com você!

— Nos perdemos na confusão — Tonks explicou. — E quando à Anne?

— Não aqui — disse Bervely, em crescente estado de preocupação. — Eu assumi que ela voltou para Hogwarts!

— Por que ela voltaria para Hogwarts?

— Por que ela voltaria para cá?

As duas trocaram olhares alarmados. Em toda a confusão com Sirius, Bervely não fora checar se Anne tinha chegado em Hogwarts a salvo, apenas assumira, tudo tinha acontecido tão rápido…

— Vou chamar McGonagall na lareira — disse Tonks, girando nos calcanhares. — Vou perguntar sobre Anne, e se ela tem alguma notícia de Dumbledore.

— Dumbledore não estava em Godric’s Hollow? — Andrômeda estranhou. Nymphadora negou, apressada para sair, mas a mãe a deteve. — O que quis dizer com “pelo menos Godric’s Hollow?”

— O quê?

— Você disse que estava “acabado em Godric’s Hollow, pelo menos”. O que isso significa?

— Ah! — Tonks entendeu e franziu o cenho. — Recebemos outro chamado, esse vindo região de Glastonbury. Os aurores que puderam, seguiram para lá. Eu vim checar como estava tudo aqui primeiro.

— Mais dementadores? — Bervely perguntou, horrorizada. Tonks negou.

— Não. Pelo que eu entendi, comensais da morte.

* * *

Já passava de meio dia quando Remus retornou à Casa dos Gritos, um olhar grave em seu rosto. Tonks, que vinha tentando chamar em Hogwarts sem sucesso pela lareira, quase pulou em cima dele quando ouviu o estalo que anunciou a sua chegada.

O alarme de invasores disparou de novo, dado que Remus havia aparatado dentro da casa, mas com um aceno irritado da sua varinha o feitiço se calou.

— Estou bem — ele disse a ela, retribuindo o abraço de aço que Tonks fechou em torno do seu pescoço. — Graças a deus que você conseguiu voltar.

— Onde é que você foi? — Ela exigiu, partes iguais de alívio e fúria em seu rosto transtornado. — Onde é que Harry está? E Anne? Ela nunca apareceu aqui!

— Não tenho tempo para explicar. Dumbledore está vindo, reunião de urgência.

— Já não era sem tempo! Mas eu não posso ficar, houve um chamado em Glastonbury…

— Está acabado em Glastonbury também — Remus lhe garantiu. — Dumbledore estava lá. Venha, vamos preparar a sala.

Os dois subiram ao andar de cima, sem reparar o gato prateado que os seguia e que se infiltrou na sala de reuniões, achando um cantinho escuro debaixo da mesa para se instalar sem ser notado.

Ainda à cabeceira de Sirius, Bervely foi atingida pelo som das vozes e ruídos que vinham do outro cômodo. Seus olhos se desfocaram quando a visão de Jinx substituiu a sua, mas tudo que ela podia ver eram os tornozelos em botas de Tonks e os sapatos arranhados de Remus, enquanto eles circulavam pela sala de reuniões, reforçando os feitiços de proteção e imperturbabilidade.

— …Anne está bem — ele disse a Tonks, a voz abafada captada pelas orelhas felinas e transmitidas para Bervely no outro quarto. — Ela ficou em Avalon com Sophia.

— Como ela foi parar lá?

— Dumbledore vai explicar tudo — Remus prometeu, um pouco ofegante com toda a agitação. — Você está bem? Devia ir ver sua mãe, checar se está tudo bem com o…

Outras pessoas começaram a entrar, interrompendo-os. Bervely só podia ver os vários pares de pernas tomando lugares ao redor da mesa de reuniões. Cinco pares, e cinco vozes murmurando em tom de assombro e confusão, até que o sexto par de pernas — oculto por vestes longas roxo-prateadas – entrou na sala, e os demais se calaram.

— Voldemort tentou atacar a ilha de Avalon esta manhã — começou a voz rouca de Dumbledore, abafada pela mesa de madeira acima de Jinx, mas perfeitamente audível à Bervely através da conexão.

— Bervely! — Alguém a chamou, a sobressaltando. A visão da sala de reuniões se dissipou. Bervely focou os olhos em Darkmoon, que estalava os dedos na frente do seu rosto. — O que há de errado com você?

— Não tem nada de errado comigo — ela retrucou, aborrecida com a interrupção. — O que você quer?

— Sua tia pediu que eu trouxesse chocolate quente para você. Por causa dos dementadores — ela se ofereceu um copo fumegante, que Bervely pegou a contragosto. Yas olhou tentativamente para Sirius. — Como ele está indo?

— Irresponsivo — ela repetiu as palavras de Andrômeda antes de sair, tentando calar toda a emoção que vinha com a informação. — Precisamos esperar.

— Será que eu posso… será que eu posso esperar aqui com você?

Bervely se ergueu um rompante, impaciente para “voltar” à reunião.

— Você pode ficar, preciso dar uma volta. Me chame se algo mudar — disse com brusquidão, deixando do quarto.

Ela achou o armário de mantimentos do outro lado do corredor, e se enfiou ali dentro, fechando a porta atrás de si. Sentada no escuro, tentou se concentrar em “achar” Jinx no limbo onde as mentes deles misteriosamente se encontravam. Não fazia ideia de como, mas o gato sim, e logo em seguida Bervely voltou a ver a sala de reuniões novamente, com todos os pés inquietos debaixo da mesa.

— …consequências desastrosas de que tipo, professor? — retumbou uma voz grave, que Bervely reconheceu como a do auror negro que se chamava Shacklebolt.

— A Senhora do Lago está morta — disse Dumbledore.

A mesa caiu em silêncio sepulcral por um longo minuto.

— Albus — ela ouviu Remus se pronunciar, quebrando o silêncio. — Eu sinto muito.

Bervely não fazia ideia de porque Remus sentia muito. Ela ainda estava esperando saber o que sua irmã tinha a ver com tudo aquilo, e felizmente a resposta veio rápido.

— Harry Potter e a Srta. Johanne Black foram até Avalon esta manhã, pouco antes da chegada de Voldemort. Pelo que compreendi, Harry estava tentando chegar até mim. Infelizmente, o seu caminho cruzou com o de Voldemort antes que eu conseguisse chegar até eles.

Bervely se ergueu num rompante, esquecendo-se de que estava no armário de mantimentos. Bateu a cabeça em uma prateleira alta, a dor ensurdecendo-a por algum tempo. Ela esfregou o lugar do impacto, tentando se concentrar, retornar a sua atenção para a sala de reunião da Ordem da Fênix…

— …foi recolhida pela madrinha e está se recuperado no interior da ilha.

— Então Voldemort não conseguiu seu intento? — perguntou uma voz feminina. Héstia Jones, se Bervely fosse chutar. Ela também era uma auror, como Tonks, embora com muito mais tempo de experiência. Segundo Sirius lhe dissera, tinha perdido a família na primeira guerra. — Avalon não sucumbiu?

— Não, a ilha permanece segura… não sem baixas para o nosso lado — explicou Dumbledore em uma voz pesada. — Eu estive os ajudando a reforçar as suas defesas mágicas logo após o ataque, por isso a minha demora em contactá-los para esta reunião.

— E quanto a Harry Potter? — Quis saber Shacklebolt. — Também ficou em Avalon? Ele foi ferido?

Um silêncio se seguiu à sua pergunta. Era difícil adivinhar o que estava acontecendo pelos pés dos interlocutores, especialmente porque eles não estavam se movendo.

— Não posso dizer muito sobre o estado de Harry Potter no momento. Sinto muitíssimo, mas por enquanto serei forçado a deixá-los no escuro, enquanto eu mesmo desvendo a questão.

— Ele não está morto, está? Oh, Albus, me diga que o Escolhido não foi morto esta manhã!

Bervely ouviu batidas na porta na qual estava se apoiando e a reunião escapou dela de novo, como um lenço de seda deslizando para longe da superfície de sua mente. Ela piscou, atordoada. Potter podia estar morto?

Bervely, você está aí dentro?

Era a voz de Darkmoon. Bervely escancarou a porta, irritada com aquela perseguição sem fim.

— Diabos, Darkmoon, eu disse que precisava de um tempo, você é surda ou quer me enlouquecer?

— Sinto muito — disse Yas com sincero arrependimento, mas também com urgência. — Só achei que gostaria de saber… Sirius acordou.

* * *

— Ele ainda está um pouco desorientado — Andrômeda a advertiu à porta, quando Bervely tropeçou para dentro, depois de ter empurrado Yas da sua frente para alcançar o quarto que Sirius estava ocupando. — Mas já perguntou por você.

— Então ele ainda tem uma alma?

— Veja por si mesma.

Com o coração batendo na garganta, ela se aproximou da cama em que ele ainda estava deitado, parecendo tão pálido quanto mais cedo, quando fora tirado das garras dos dementadores dos quais a salvara.

Os olhos dele estavam fechados, um vinco fundo no espaço entre as suas sobrancelhas espessas. Bervely chegou até o lado da cama e parou, incerta.

— Sirius? — Sua voz era a de uma garotinha assustada. O vinco no cenho dele se aprofundou ao som da sua voz. — Você está me ouvindo?

— Pare de gritar — ele murmurou. — A minha cabeça está me matando.

— Eu não estou gritando — ela retrucou, tomada de um alívio profundo por conta da frase completa que ele havia formado. Ninguém cuja alma fora sugada por dementadores poderia produzir um frase completa.

— O que aconteceu? — Sirius quis saber, ainda de olhos fechados, a respiração superficial. — Eu morri de novo?

— O quê? Você foi… os dementadores pegaram você.

— Que dementadores?

Bervely lançou um olhar incerto para Andrômeda, que estava alguns passos adiante, entre ela e a porta, observando a interação com atenção clínica. Preocupada, ela fez um sinal de cabeça sutil para que Bervely prosseguisse.

Bervely se voltou para Sirius.

— Em Godric’s Hollow, não se lembra? Você lançou um patrono para me proteger, e os dementadores foram todos para cima de você — explicou ela com uma falsa tranquilidade.

— Godric’s Hollow? Mas… eu não vou a Godric’s Hollow há anos.

Bervely sentiu um arrepio gelado de mau pressentimento correr pela sua espinha. Andrômeda se aproximou, colocando uma mão em seu ombro e tomando a dianteira da conversa.

— Sirius, querido, qual a última coisa de que se lembra? — perguntou a medibruxa com a voz neutra.

Ele apertou os olhos, fazendo esforço para responder. Demorou muito mais do que se esperaria, como se as lembranças estivessem enterradas sob uma camada espessa de névoa em sua cabeça.

— Uh… do hospital, eu acho, depois do véu? Por que foi que vocês me trouxeram para cá, aliás? Eu não me lembro…


* * *

— Bervely, é normal, está tudo bem — Andrômeda tentou tranquilizá-la, após tê-la arrastado para fora do quarto com a desculpa de que iam procurar alguma poção de que Sirius precisava. — Pode ser um efeito da exposição excessiva aos dementadores, ou até do dano ao cerne! Não é incomum que a memória seja afetada depois de certos traumas mágicos.

— Ele se esqueceu dos últimos seis meses, Andrômeda! — ela sibilou. — Tudo que aconteceu desde o maldito véu!

— Eu vou pesquisar o que pode estar acontecendo, mas preciso que fique calma — ela pediu, dando ênfase especial à palavra “calma”, porque Bervely não parava quieta. — Eu não quero administrar nenhuma poção mais forte nele antes agora, então talvez tenhamos que esperar para ver se as memórias voltam naturalmente.

— E se elas não voltarem?

— Não seria a maior das minhas preocupações — disse Andrômeda, em seu tom prático de medibruxa que Bervely estava odiando cada vez mais. — Escute, vamos ter que pensar o que fazer com Sirius à longo prazo…

— Hey, mãe, B. — Tonks surgiu do outro quarto, acompanhada de Remus, lhes dando um sorriso molhado. Andara chorando de novo, mas parecia um tantinho menos miserável do que antes. Remus tinha uma mão no ombro dela, o que devia ser um sinal de que tinham finalmente entrado num acordo sobre o seu problema grávido. — Alguma novidade com o Sirius?

— Ele está acordado — ela disse, sorrindo para a filha. — Alma intacta, um pouco confuso sobre os últimos, uh, acontecimentos.

— Ah, graças a Merlin — Remus suspirou, um peso parecendo se dissolver dos ombros magros. — E à você, é claro, Andrômeda. Obrigado por vir ajudar tão prontamente.

— É claro que eu eu vim, ele é meu primo — ela respondeu secamente. — Mas como eu estava dizendo à Bervely, ainda quero fazer alguns testes antes de ir embora. E Dora, eu quero dar uma olhada em você, venha comigo.

— Não, vá cuidar de Sirius, eu estou b… — a auror resistiu, mas se calou diante do olhar cortante de Andrômeda.

Agora, Nymphadora.

— Podem usar meu quarto — Remus ofereceu, sendo ignorando por Andrômeda, que já estava empurrando a filha para dentro do cômodo mencionado. Elas desapareceram porta adentro e Remus soltou um suspiro de derrota.

— Acho que ela me odeia.

— Não posso julgá-la. Você plantou um filhote na barriga da filha dela.

— É. No lugar dela eu também… diabos, no meu lugar eu me odeio, quanto mais…

— Lupin — Bervely interrompeu a espiral de auto-piedade na qual o lobisomem estava deslizando. — Ele está vivo. Sirius está vivo. Com alma, e vivo.

— Sim — Remus concordou, arriscando um sorriso vacilante. — Ele está. Isso é bom, não é?

Ela assentiu, com vontade de chorar e de rir ao mesmo tempo. O desespero que ameaçava se espalhar ainda não tinha sido permitido passagem, e pelo menos naquele minuto, Bervely se permitiu desfrutar um momento de alívio.

* * *

Por mais que cada partícula do seu corpo preferisse nunca mais tirar os olhos de Sirius, Bervely sabia que precisava voltar para Grimmauld Place, onde Draco esperava por ela. Ao sair naquela manhã para o chalé dos Tonks, ela tinha deixado um aviso com Monstro, a fim de informar a Draco que ela voltaria a tempo do almoço, e agora já passava da hora do jantar.

Mas ao voltar, encontrou o primo na sala de estudos jogando xadrez com ninguém menos do que Severo Snape. Os dois registraram a sua presença com expressões muito diferentes. Draco, mostrando o leve aborrecimento que precederia uma de suas birras se ele ainda tivesse cinco anos de idade; já Snape, pareceu ao mesmo tempo aliviado e irritado com ela.

— Bervely — trovejou ele, se levantando, a voz grave reverberando pelo cômodo de teto alto. — Onde infernos você esteve o dia inteiro?

— O que o senhor está fazendo aqui? — ela estranhou. Snape usava a sua capa negra de viagem, que tinha um capuz. Apesar de sua postura imperturbável, ela viu um um corte profundo, magicamente remendado, logo abaixo de sua jugular.

— Eu mandei uma coruja para ele — disse Draco, com arrogância magoada. — Contei que você havia me abandonado.

Os dois o ignoraram, Snape olhando para Bervely de cima a baixo, tentando descobrir o que havia de errado com ela, e Bervely encarando-o com suspeita.

— Ouvi dizer que você esteve em Godric’s Hollow, hoje mais cedo? — Ele comentou, estreitando os olhos, a casualidade da pergunta ocultando uma insinuação.

— Ouvi dizer que o senhor fez uma visita à Avalon, hoje mais cedo? — ela lhe devolveu, sem se preocupar em encobrir a sua insinuação clamorosa.

Era só um palpite, mas pela expressão de Snape, Bervely descobriu que estava certa.

— Draco, vá lá para cima, preciso conversar com Bervely em particular.

— Eu não sou um cachorro, para ser enxotado…

Snape olhou para ele uma vez e Draco se calou, as maçãs altas do rosto corando. Bervely o ouviu praguejar baixinho ao sair. Quando os passos dele ecoaram no andar de cima, ela se atreveu a soltar a respiração.

— Você estava lá! Participou do ataque à Avalon ao lado do Lord das Trevas!

— Bervely, não devia ser uma novidade para você que eu–

— A Senhora do Lago foi assassinada!

— Eu não tive nada a ver com isso — ele disse num tom ultrajado. — Não posso discutir os planos do Lord com você, mas…

— Minha irmã estava lá!

A expressão dele se suavizou.

— A sua irmã está bem. Bervely, ouça…

— E quanto aos dementadores em Godric’s Hollow? Uma distração, não é? Um monte de gente foi atacado lá, hoje! Gente que não tinha droga nenhuma a ver com Potter e Voldemort!

— Voldemort não provocou esse ataque — ele disse, muito sério. — Bem, não diretamente. É uma longa história. Mas, você me parece ainda de posse da sua alma, o que é um alívio.

— Ah, bem, nesse caso! — exclamou ela com ironia, e depois com raiva. — O que você está fazendo aqui? Não devia estar lambendo os pés do seu mestre? Ou o chute que Dumbledore e Avalon deram na bunda dele o deixou de mal humor, e ele mandou todo mundo para a casinha?

— Vejo que você está mais bem informada do que eu — Snape pontuou, os olhos negros muito estreitos. — Não pude comparecer à reunião, isso teria me delatado. Quem mais… quem mais nós perdemos?

— Como se você se importasse — ela disse com desprezo, virando-se de costas para ele, porque não conseguia mais olhar para a cara cínica do padrinho.

Bervely já sabia que Snape era um agente duplo desde outubro, mas ainda não estava claro para ela o lado que ele priorizava. Depois de quase perder a sua alma e quase perder Sirius de novo naquela manhã, e de saber que Anne tinha estado frente à frente com Voldemort, ela não estava muito inclinada a dar a Snape o benefício da dúvida.

— Eu me importo — disse ele. Bervely se virou de novo, os lábios apertados.

— Eu ouvi falar de no mínimo quinze vítimas entre os habitantes da cidade. E Sirius… Sirius foi atacado, tentando me proteger.

Ele não disse nada por muito tempo. Quando voltou a falar, a voz estava carregada em uma atonia enervante.

— Eu sinto muito.

— Pro diabo que você sente. Saia daqui. Saia dessa casa. Eu quero ficar sozinha.

— Não. Eu sinto pelo que aconteceu, mas você deve saber que deixar Draco sozinho aqui foi uma grande irresponsabilidade.

Bervely olhou para ele com tanta raiva que sentiu a sua varinha faiscando no bolso da calça. Ela respirou muito fundo antes de responder.

— Draco parece bem, na minha opinião. A não ser que tédio agora esteja matando.

— Ele andou recebendo visitantes na lareira.

— Quem? — Bervely se alarmou, o coração disparando sem aviso.

— Alguma garota perguntando por Potter, pelo que entendi. Mas, do mesmo jeito, poderia ter sido Lucius Malfoy.

— Não é você que deveria estar mantendo um olho em Malfoy? Ele não é seu coleguinha de time, parceiro de marca negra? Não estava lá com vocês hoje, explodindo o diabo da ilha, como seu mestre mandou?

— Não. Na verdade, Lucius está desaparecido desde a noite de Natal. Não compareceu a última reunião e, hoje, não atendeu ao chamado do Lord.

— É mesmo? — Bervely disse, de repente nervosa. — Ele não tentou fazer contato com Draco, ainda. Você acha que ele vai…?

— Bellatrix também está desaparecida — disse Snape, olhando-a com atenção. Bervely sentiu o coração dar outro giro de cento e oitenta graus no peito.

— Ela está?

— Achei que você poderia saber por onde ela anda, já que vocês duas têm essa conexão estranha.

— Bem, eu não sei. Mas eu espero que ela esteja arrancando e colando e arrancando de novo o couro de Malfoy, até o fim dos dias.

— Eu vejo — Snape assentiu, estreitando seus olhos de besouro para ela. — A crueldade é justificada desde que seja aplicada aos seus termos.

— Nos meus term– aquele desgraçado matou Narcissa, você sabe muito bem disso!

— Eu não discordo da punição, só estou apontando a incoerência das suas regras morais. Ninguém disse que as minhas são melhores. Em todo caso — ele pigarreou. — Voldemort também não está satisfeito com o sumiço de Bellatrix.

— Por que está me dizendo isso? — Bervely reclamou. — Eu não estou escondendo Bellatrix debaixo da minha cama!

— Da última vez que falei com a sua mãe, ela me pareceu muito convencida de que era só uma questão de tempo até você aparecer para, você sabe… se alistar com o resto de nós.

— O quê? — Bervely foi pega de surpresa com a informação. A própria ideia de Snape e Bellatrix falando dela pelas suas costas era surreal demais para ser concebida.

— Ela estava confiante de que você apareceria por vontade própria, eventualmente. Perceberia que esse é o seu destino e “pararia de resistir”. Ela não comentou nada com você? Nenhum bilhete com aquela cabeça que ela lhe enviou de presente no natal?

Bervely estava pronta a negar, mas se lembrou do que acontecera na noite após a morte de Narcissa. Ela tinha conversado com Bellatrix; tinha-na convocado através da rosa, e haviam se encontrado na estufa. A comensal estivera convencida de que Bervely queria agradecer o “presente”, mas a conversa se desviara do curso quando Bervely lhe contara sobre a morte de Narcissa. Ainda assim, Bellatrix tinha lhe dito algo estranho quando ela perguntara sobre a suposta missão que Bervely deveria cumprir após sair de Azkaban.

— Então era isso que ela quis dizer — Bervely percebeu, atordoada. — Era essa a minha “missão”…?

— Que missão? — Snape perguntou, tentando acompanhar o raciocínio que ela não tinha verbalizado.

Mas Bervely negou com a cabeça, atormentada.

— Você parece necessitar de descanso, Bervely. Eu vou ficar e fazer companhia a Draco, e garantir que a casa continua segura. Não faz mal revisar os feitiços de proteção de tempos em tempos.

Bervely assentiu, até se esquecendo de que tinha tentado expulsá-lo minutos antes.

* * *

Se arrastou para o antigo quarto de Bellatrix pouco tempo mais tarde, mal sentindo as pernas. Só queria desabar na cama e esquecer daquele dia horroroso e sem fim. Passou por Draco no caminho, e recebeu dele um olhar cheio de rancor. Prometendo a si mesma que faria as pazes com ele pela manhã, ela desabou no colchão sem nem mesmo trocar as suas roupas. A multitude de pensamentos sobre o dia a atormentou por quase uma hora, antes que o seu corpo exausto sucumbisse ao sono.

Sonhou com um calabouço.

Havia um homem. Seus braços e pernas tinham sido amarrados com correntes mágicas, cujas extremidades estavam presas ao chão e ao teto. As vestes tinham sido removidas, com a exceção de calças de aparência cara, mas que estavam em péssimo estado.

Ele estava descalço. Seu peito tinha cortes profundos, alguns supurados e outros de aparência fresca. O cabelo loiro-platinado estava embaraçado, caindo na frente do rosto, as pontas sujas de sangue. O rosto acinzentado trazia sinais de sofrimento contínuo, insônia e desidratação.

Sons borbulhantes escapavam de sua garganta, como se ele estivesse se afogando. Água vertia do seu nariz e boca, enquanto o homem engasgava e tossia.

Finite — ordenou a voz macia da bruxa que estava com ele, apenas a alguns passos, sua varinha torta como um galho apontada para o seu peito em fatias. Mais água fluiu pelas vias respiratórias do homem, que tossiu e ofegou, recuperando o fôlego e soltando um gemido patético. — Estou quase agradecida por não poder matá-lo, cunhado. Acaba tornando a brincadeira muito mais interessantes.

Bervely se aproximou do par. Ela sentiu o cheiro de rosas podres de Bellatrix antes mesmo de chegar ao seu lado. A comensal virou o rosto para ela e sorriu amplamente, fazendo um aceno convidativo na direção do seu prisioneiro.

— Quer se juntar a nós, Bervely? Você chegou em boa hora, só estamos começando.

(Continua…)



Notas finais
Heya! Para quem está curioso para saber o que aconteceu com Harry, peço paciência! Haverá um cap para isso muito em breve. Mas enquanto isso... O que vai acontecer com Sirius? O que vai acontecer com Bervely? O que vai acontecer com Anne? O que vai acontecer com tudoo? Curiosa para ler seus comentários!