A Canção de Morgana

38 Um Adeus à Meia-Noite


Notas iniciais
Considerando que esse cap é praticamente a segunda parte do anterior, resolvi postar enquanto a memória de vocês ainda está fresca ;) Recomendo muito ouvir a música do capítulo: Take on the World — You Me at Six Boa leitura!


Oh
I can see, see the pain in your eyes
Oh, believe, believe me, and I have tried

No, I won't pretend to know what you've been through
You should've known,
I wish it was me, not you


(Oh,
Eu posso ver, ver a dor em seus olhos
Oh, acredite, acredite em mim e eu tentei

Não, não vou, não vou fingir saber o que você passou
Você deveria saber,
eu gostaria que fosse eu, não você)


Take on the World
— You Me at Six

Bervely voltou para a Casa dos Gritos pela rede de flú na manhã seguinte, quando o sol já estava alto no céu de Hogsmeade, brilhando irônico para ela. Remus, a meio caminho para a cozinha, parou ao vê-la chegar através das chamas verde-esmeraldas.

— Não estava esperando que voltasse tão cedo hoje. Draco ficou sozinho?

— Severo está lá — e diante da expressão de confusão de Remus, ela deu de ombros. — Eu sei, também achei estranho.

— E como Draco está?

— Fisicamente, se recuperando bem — ela disse, se jogando numa das poltronas dilapidadas que teria dado um braço para não ter que usar, alguns anos atrás. — Sirius?

A pausa de Remus diante da sua pergunta foi longa demais para que a resposta fosse boa.

— Yas está lá em cima com ele. Estou preparando uma torta de abóbora, você já tomou café da manhã?

Bervely fez uma cara de profundo nojo por sobre a expressão de desconfiança com a evasiva óbvia.

— Mimada — Remus soltou um suspiro e sumiu de volta para a cozinha, deixando-a sozinha na casa pouco iluminada e fria demais, tensa com o que aquela pausa queria dizer.

Enquanto esperava, Bervely ouviu risadas vindas do andar de cima. Risadas de Sirius. Seu coração se contorceu. Num minuto ele estava morrendo, no outro gargalhando. Ela não sabia como era suposta a sobreviver a isso.

O som das risadas de Darkmoon se uniram às de Sirius, e Bervely cerrou os olhos, contrariada.

— Aqui — Remus voltou da cozinha e lhe entregou uma xícara de chá fumegante. — Você tem cara de quem está precisando.

— Desde que não seja de abóbora— ela ironizou. Remus sentou-se na poltrona perpendicular a dela, segurando ele próprio uma xícara de chá.

— Diga logo o que aconteceu — ela pediu, nervosa. Ele tomou seu tempo, no entanto, dando um gole longo em seu chá, observando Bervely por cima da xícara antes de responder.

— Sirius teve uma noite difícil. A dor de cabeça não passou, e foi seguida de náuseas e febre. Eu chamei Andrômeda de novo no meio da noite e ela fez alguns testes adicionais. Parece que o corpo dele está tendo uma reação estranha à magia ao redor dele.

— Por que ele teria algo assim? — Ela estranhou. Nunca tinha ouvido falar de nada parecido em um bruxo antes. — É um efeito dos dementadores?

— Não… bem, mais ou menos. Foi por causa dos dementadores e do patrono que ele fez. Andrômeda pensa… bem, ela está certa de que o patrono usou a última reserva de energia mágica que havia no cerne de Sirius.

Bervely não respondeu imediatamente. Ela ficou encarando Remus, tentando entender o que as palavras implicavam.

— Eu pensei que se isso acontecesse, ele morreria.

— Bem, sim. Ao menos, é o que deveria ter acontecido. É o que aconteceu com Narcissa. Mas, de alguma forma, Sirius sobreviveu. Andrômeda não entende o porquê, não há registro de já ter acontecido antes, na literatura medibruxa.

Bervely olhou para a sua xícara de chá, que esfriava lentamente. O vapor formava desenhos no ar, tão abstratos quanto os pensamentos espiralando em sua cabeça.

— Então isso significa que ele não pode mais… que ele não é mais…?

Mas ela não conseguiu levar a si mesma a falar em voz alta. Viu Remus assentir em sua visão periférica.

— Sirius não pode mais fazer magia. E Andrômeda acha que corpo dele está reagindo à magia ao redor dele, causando os sintomas, e eles só vão piorar se ele permanecer no mundo bruxo.

— Como é? Onde mais ele iria, se não o mundo bruxo? O lugar dele é aqui!

— Eu sei — Remus concordou rápido, como se todas aquelas ideias e indignação tivessem passado pela sua própria cabeça também e sido razoavelmente contra-argumentadas antes de Bervely chegar. — Mas, Bervely, se ele está sofrendo…

— Isso é absurdo. Tem que haver uma cura. Tem que haver um jeito de consertar o que quer que ele tenha! — Ela se irritou. Estava ficando muito cansada daquele jogo do impossível que a sua vida estava se tornando. Cada dia parecia mais intransponível do que o anterior, e nenhum alívio durava o bastante.

— Andrômeda o colocou em uma bolha de isolamento mágico, mas é uma solução temporária. É de Sirius que estamos falando, ele não vai aceitar ficar dentro de uma bolha por muito tempo.

Ele parou, o que forçou Bervely a levantar a cabeça e olhar para ele de novo.

— Andrômeda tem algumas… sugestões — ele completou com reticência.

— Vamos ouví-las — Bervely disse com ácida má vontade, travando os dentes.

— Bem, há a ala de danos permanentes no St. Mungus… — Remus começou, mas parou quando Beverly estreitou os olhos perigosamente para ele.

— Sirius só volta para aquele hospital por cima do meu cadáver, Lupin. Ainda mais para a ala de Danos… — ela engasgou. As pessoas geralmente não saíam da ala de danos permanentes, uma vez que entravam lá. Não vivas, pelo menos.

— Bervely, eu sei. Eu também não gosto, mas se é isso ou…

— Qual a outra opção? — Ela perguntou com rispidez. Remus pressionou os lábios em desagrado antes de continuar.

— Reintegração.

Ela riu irônica pelo nariz.

— Me desculpe, você está dizendo que quer apagar o que resta da memória do seu melhor amigo, implantar nele as memórias de uma vida falsa, e mandá-lo para viver com os trouxas?

— Eu não gosto de nada disso mais do que você, Bervely! — Remus explodiu, seu tom equilibrado finalmente dando lugar ao desespero que estava borbulhando dentro dele desde que soubera da notícia. — Mas se for para dar a Sirius uma vida segura e sem dor, eu faria, eu abriria mão dele, para a segurança e felicidade dele! Você não?

Ela deixou a xícara de chá no aparador com um baque irritado. Seu chá intocado espirrou para todo o lado.

— Não, Lupin! Eu não vou abrir mão de Sirius e eu não vou mandá-lo para viver com os trouxas, e eu não vou fazê-lo esquecer da família dele, eu não vou perdê-lo mais uma vez!

Eles se encararam duramente. Ela não sabia dizer se Remus estava mais perto de desmoronar ou de uma nova explosão de gritos, mas para Bervely tanto fazia, realmente. Por fim, ele deixou os ombros caírem e desviou o olhar para longe dela. Aquela batalha parecia suspensa, ao menos no momento.

— Sophia mandou uma mensagem — ele disse à contragosto, enfiando a mão no bolso e entregando a Bervely um pergaminho meio amassado. —Anne está com ela, como Dumbledore falou.

Bervely leu o bilhete. “Anne está comigo. Vou mantê-la aqui enquanto ela precisar ficar. Darei notícias regularmente.”

— Pensei que não dava para mandar corujas de Avalon — Bervely disse, devolvendo-lhe o bilhete pouco esclarecedor com insatisfação.

— Ela fez uma aquatransferência. Estava boiando na pia da cozinha quando voltei para casa ontem, depois de ir falar com Dumbledore.

— Uma aqua… deixa pra lá — Bervely balançou a cabeça, cansada das esquisitices de Avalon. — Você confia em Loren? Ela não tinha chutado a sua bunda pra fugir com outro cara, ou algo assim?

— Sophia considera Anne como a se fosse a própria filha.

— Se é o que você diz. Não é como se pudéssemos fazer algo a respeito, se Anne quer mesmo ficar lá. Talvez seja melhor assim, por enquanto — completou, pensando na situação de Sirius.

Remus assentiu, bebericando devagar de sua xícara de chá. Bervely se perguntou se a lua cheia estaria próxima, ou se ele parecia tão exausto por conta dos acontecimentos recentes.

— Dora me contou sobre a conversa de vocês ontem, antes de tudo acontecer. Sobre você ter dito que vai ajudá-la com a gravidez.

— Ah, é — Bervely assentiu, sem olhar direto para ele, concentrando-se no seu chá, agora frio.

— Obrigado.

— Não é por sua causa.

— Eu sei. Mesmo assim, obrigado — ele repetiu, sincero. Bervely, que preferia continuar falando à ouvir a vozinha no fundo de sua cabeça que queria entrar em pânico, retrucou:

— Então você vai parar de ser um babaca, e ficar do lado dela?

— Decidi por uma estratégia diferente. Já devia saber que bater de frente com vocês, Blacks, só leva à minha própria miséria.

Ela ergueu uma sobrancelha cética para ele, sem saber se aquilo era uma tentativa de ofensa ou elogio. Na pausa que se seguiu, eles ouviram mais risadas lá em cima, e então, uns ruídos desafinados de algum instrumento. Bervely ergueu as sobrancelhas para o som. Remus soltou um suspiro.

— Ai meu Merlin, vai começar tudo de novo.

— Tudo o quê?

— A dança do acasalamento de Black e Darkmoon. — Diante do olhar perdido de Bervely, ele explicou.— Há alguns meses, quando Darkmoon começou a se recuperar de Azkaban, ela resolveu ensinar Sirius a tocar o visanto. Ele é muito ruim. Achei que ele ia desistir depois do Natal, quando eles dormiram juntos… mas pelo visto voltamos à estaca zero.

Bervely abriu a boca, mas não soube bem o que dizer, então voltou a fechá-la. Remus olhou para ela, duvidoso.

— Achei que você soubesse sobre eles dois.

— Eu sabia. Só não sabia que houve uma dança do acasalamento.

— É… Sirius estava iludido, achando que ia conseguir manter as duas por perto, Darkmoon e Rosmerta, mas Rosmerta logo percebeu que havia alguma coisa esquisita acontecendo. Ele acha que eu participei da coisa toda, de Rosmerta terminando com ele no Natal, mas a verdade é que só confirmei as suspeitas dela, quando ela me perguntou.

O namorico de Sirius com Rosmerta e a aventura de Sirius e Yas durante o Natal pareciam acontecimentos de uma outra vida. Bervely estreitou os olhos para o comentário.

— Você não gostava de Rosmerta.

— Ah, por favor, quem gostava? Entrando e saindo dessa casa como se fosse a dona de Sirius, quem raios ela pensava que era?

Os sons desafinados continuavam vindo do andar de cima, junto com as vozes abafadas de Sirius e Yas. Bervely podia até imaginá-los, sentados na cama um de frente para o outro, Yas explicando a Sirius como tocar o visanto e ele sendo teimoso, obtuso e ridiculamente charmoso, como só ele conseguia. E ela sentiu um tipo estranho de dor – uma sensação de que fora roubada de momentos como aquele com ele, nos últimos meses e bem… nos últimos anos que tinham passado longe um do outro.

— Sirius vai ficar bem, Bervely. Vamos achar um jeito — Remus disse, a voz se suavizando de novo, trazendo-a de volta para a realidade.

— Você não parece terrivelmente preocupado de que ele não se lembre dos últimos meses — Bervely pontuou. Remus tinha murmurado um “hum”, quando Andrômeda lhe informara da perda de memória do seu melhor amigo, e mais nada desde então.

— Isso é porque não estou — ele admitiu, encolhendo os ombros. — Os últimos meses, desde que ele voltou do véu, foram os mais miseráveis para Sirius. Com você indo para a prisão, e depois Narcissa… você viu como ele estava indo. Nem você estava mais suportando ele.

Ela não protestou contra o argumento, mas se encolheu um pouquinho, bebendo outro gole do chá amargo e frio.

— Vamos ter que contar a ele, eventualmente.

— Sim. Mas não agora. Deixe-o se distrair um pouco, primeiro.

* * *

— Ele está cochilando — disse Yas, aparecendo na base das escadas quando Bervely estava prestes a ir ver Sirius no andar de cima. — Mas ele comeu tudo e repetiu. A bolha está ajudando com o mal estar, e a febre já passou quase por completo.

O brilho nos olhos dela iluminava o seu rosto inteiro. Bervely teve inveja, e tentou se lembrar da última vez que sentira algo parecido. A lembrança de Regulus flutuou para a sua consciência e, como sempre fazia, ela o mandou de volta para o fundo, em nome da sua sanidade mental.

— Ele não para de perguntar sobre Harry e Anne. Quer saber quando é a próxima visita deles à Hogsmeade.

— Vocês disseram a ele que Potter e Anne estão em Hogwarts? — Bervely condenou, olhando dela para Remus com acusação.

— O que mais eu ia dizer, Bervely? Que Anne está em Avalon se recuperando de um encontro traumático com Voldemort em pessoa, e Harry está entre a vida e morte, só Merlin e Dumbledore sabem onde?

Ela bufou. Não gostava da ideia de mentir para Sirius, mas sabia que se Sirius soubesse de qualquer uma daquelas coisas, nada o manteria quieto dentro de sua bolha de isolamento.

— O que foi que aconteceu com Potter, de toda forma? — Yas quis saber. Bervely se virou também, interessada na resposta. A sua espionagem da reunião da Ordem da Fênix só tornara mais confusas a participação de Potter na coisa toda.

— Dumbledore diz que por enquanto, não pode contar. E ele pediu que eu guardasse segredo também, sobre o que sei. Acho que ele está fazendo o melhor que pode…

Bervely olhou para Lupin com irritação, por ele ser complacente com o que quer que Dumbledore estivesse escondendo sobre o garoto de ouro.

— Melhor eu voltar mais tarde, então. Volto mais tarde, quando Sirius estiver acordado.

— Pensei que você ia ficar mais tempo — Remus estranhou. — Você não disse que Snape ficou em Grimmauld Place com Draco?

— Sim. Mais uma razão para eu voltar lá.

— Sirius vai querer ver você quando acordar. Ele perguntou de você há pouco — Yas acrescentou.

— Volto para o jantar.

— Nesse caso… tenha um bom dia. — Remus ainda a olhava para ela com estranheza. Bervely sentiu de novo aquela sensação penetrante de desespero iminente, ameaçando esmagar o seu peito.

— Igualmente — disse com pressa, se enfiando na capa de viagem e pegando um punhado de flú no console da lareira.

— Avise se precisarem de alguma coisa em Grimmauld…

Ela sumiu entre as chamas verde-esmeralda antes que Remus terminasse a sua sentença.

* * *

Bervely pisou para dentro da sala de estudos de Grimmauld Place aos tropeços, ofegando. O mundo tinha começado a rodar dentro do sistema de lareiras; primeiro ela achou que era o efeito dos rodopios do flú, mas agora sabia que era mais que isso. Aquela sensação de que o ar do mundo estava acabando, de que o seu coração ia explodir… as mãos geladas, a boca seca… ela conhecia muito bem os sintomas.

Você está bem. Você não está morrendo. Ninguém está morrendo. Está tudo bem.

Ela abaixou-se ao lado da lareira e sentou-se no carpete recém-escovado, deixando as pedras frias fazerem contato com o seu braço, se concentrando na sensação áspera contra a pele.

Você está bem. Sirius está bem. Anne está bem. Ninguém. Está. Morrendo.

Não adiantava… seu coração continuava a disparar e o ar tinha sumido do mundo. Ela ia sufocar. Ela ia morrer, afogada no próprio e infundado pânico. A certeza a jogou ainda mais fundo na crise e ela perdeu as sensações físicas nas quais estava tentando se agarrar – o carpete áspero sob as pernas, a pedra gelada contra o braço, não havia mais nada, só o formigamento em suas extremidades, a sensação de pânico apertando o seu peito, o estrangulamento em sua garganta…

— Bervely! — Uma voz grave atravessou a cortina de sua crise, a sobressaltando. — Bervely, o que é que está acontecendo?

Ela tentou respirar, mas só conseguiu emitir um barulho aspirado pela garganta. Segurou na lateral da lareira, tentando não perder o controle, mas não havia nada que podia fazer, o pânico era maior que ela, era maior…

— Preste atenção no som da minha voz, Bervely, nada mais. Respire. Respire. Devagar. Isso. Muito bem, mais uma vez… muito bem.

Demorou algum tempo, mas eventualmente ela conseguiu ver Severus agachado à sua frente, os olhos alarmados semi-ocultos pelas mechas do cabelo, que tinham se desalinhado quando ele tinha corrido até ela.

O sentimento quente de humilhação a inundou, a se somar com a tonteira e a respiração acelerada. Bervely desviou o rosto, incapaz de olhar para ele.

— Eu… era só…

— Não pedi nenhuma justificativa — ele a interrompeu com uma severidade inexplicavelmente gentil. — Aqui. Beba isso.

A entregou um copo cheio de água que tinha conjurado. Bervely tomou goles longos, cada um trazendo-a mais ao presente do que o anterior. Severo a olhava com atenção, como se tivesse medo que ela entrasse em combustão espontânea caso piscasse.

Ele recebeu o copo de volta de sua mão instável e perguntou, como se não fosse grande coisa:

— Quando foi que os seus ataques de pânico voltaram?

— Não voltaram — ela murmurou para os joelhos, incapaz de encará-lo. — Deve ser um resquício do efeito dos dementadores…

Ele a ajudou a se levantar, e Bervely se arrastou até o sofá mais próximo. Se sentia fraca, como se acometida por uma gripe forte e súbita.

— Draco? — perguntou, ela a voz fraca.

— No quarto, suponho. A dose de poção após o café da manhã o deixou sonolento. Tivemos três ou quatro partidas de xadrez antes disso.

— Ah, certo. Que bom — ela assentiu, tentando reunir alguma dignidade, sem muito sucesso.

— Devo supor que isso se deva à Black?

— O quê? — Bervely levantou o rosto, pega de surpresa com a pergunta.

— Se você está tendo ataques de pânico de novo, suponho que alguma coisa aconteceu a Black. Ele piorou durante a noite?

— Ele está bem. Quero dizer… ele perdeu toda a memória dos últimos seis meses e está fazendo um monte de perguntas que não podemos responder sem mentir…

— Sim, isso soa exatamente como a definição de “bem” — Snape ironizou. — Por que não comentou sobre a perda de memória, ontem?

— Eu não achei que era relevante — Bervely disse com secura. Estava se odiando por ter deixado que Snape a visse daquele jeito mais uma vez. Desde a falsa morte de Sirius durante o verão, período em que Snape a vira em seu pior estado, ela tinha jurado a si mesma que não ia acontecer de novo.

Houve um silêncio longo, que para Bervely era um tipo refinado de tortura.

— Ele não pode mais fazer magia — ela revelou, por fim, incapaz de manter aquilo entalado dentro dela por outro segundo. — E agora magia no ar está deixando-o doente. Andrômeda o colocou numa bolha de isolamento mágico.

Ela estremeceu ao o som de sua própria revelação. Sirius se tornara um aborto. Seu Sirius.

— Bem, poderia ser pior. Ao menos ele ainda está vivo.

— Eu não sei o que fazer — ela disse, lutando para segurar o choro que agora queria lhe inundar, porque Slytherin a ajudasse, ela preferia morrer queimada a chorar na frente de Snape. — Eu não posso deixar ele sofrer. Não depois de tudo que ele passou, depois de tudo… que eu passei.

Snape suspirou, como se a coisa toda fosse muito trágica e sem sentido.

— Então não deixe.

As palavras dele ficaram penduradas no silêncio seco da sala de estudos da família Black, até Bervely erguer o rosto de novo. O padrinho a olhava com mortal seriedade.

— Não existe cura para o que ele tem — ela murmurou, balançando a cabeça. — Andrômeda nem sabe explicar como ele pode estar vivo sem um cerne mágico.

Bervely achou, num momento de insanidade, que ele ia tentar consolá-la, com batidinhas no ombro ou algum outro gesto constrangedor. Ao invés disso, Snape encheu o copo com mais água. Entregou nas mãos dela e esperou que Bervely bebesse tudo, antes de recomeçar a falar.

— Bervely, a posição vitimista em que você está se colocando no momento não é de nenhuma utilidade. Eu estou farto de ouví-la choramingando por Black, enquanto Black corre de um lado para o outro sem nenhuma consideração pela própria integridade ou a sua sanidade mental. Eu a vi quase destruída, quando achou que ele estava morto. E quando de repente ele não estava, isso continuou machucando você. Algumas pessoas sempre serão a nossa ruína, justamente porque faríamos de um tudo para mantê-las seguras, até mesmo colocar a nossa integridade em risco.

— O que você sugere, então? — perguntou ela, rouca e exausta, certa de que Snape ia sugerir alguma coisa extrema e cruel, como arrancar o mal pela raiz, e poupar Sirius da sua miséria.

— Proteja-o. Faça o que for necessário, o que estiver ao seu alcance, para mantê-lo seguro de uma vez por todas. Garanta que ele é inalcançável, pela sua própria paz de espírito. Se eu pudesse voltar no tempo, era o que eu teria feito.

Ela foi pega de surpresa com a resposta. Snape nunca falava a respeito mas ela sabia, tinha visto a foto desbotada da bruxa sorridente dentro de um livro de poções antigo, quando ficara em sua casa durante o verão.

— O que estiver ao meu alcance — Bervely repetiu, um sentimento de inevitabilidade se apoderando dela. Snape e Remus estavam, ela sabia, defendendo o mesmo argumento. A única opção que eles tinham para salvar Sirius era colocá-lo num lugar seguro, do qual ele não pudesse voltar nem se quisesse.

Reintegrá-lo. Apagar o mundo bruxo de sua memória, de forma que ele pudesse ficar seguro e não se meter em problemas de novo…

Bervely não voltou para a Casa dos Gritos naquele dia. Ela não sentia que podia assistir Sirius rir com Yas, ou mentir para as suas perguntas sobre Potter e Anne, sabendo o que teriam que fazer com ele em breve. Ao invés disso, ela se trancou em seu quarto e ignorou as batidas de Monstro para o almoço, e pelo que pareceu uma eternidade mais tarde, para o jantar.

Não foi até muito tarde na noite, quando Bervely estava rolando na cama, insone e agoniada, que a sua mão se enrolou em alguma coisa debaixo do seu travesseiro, algo que ela não se lembrava de ter colocado ali.

Bervely puxou o cachecol cinza, a lã macia deslizando pelos dedos e lhe lembrando de uma promessa feita há apenas três dias – embora parecesse ter sido muito mais do que isso.

Quero que saiba que pode contar comigo, se um dia precisar.

Um sentimento impossível de esperança inflou-se dentro dela, empurrando para os lados a escuridão densa de seu desespero.

Acabara de ter uma ideia.

* * *

— Precisamos conversar sobre Sirius — disse Bervely à Lupin no dia seguinte, ao chegar na Casa dos Gritos. Ela antecipava uma conversa complicada, com muitos protestos e talvez até algumas acusações de sua insanidade por parte do lobisomem.

— Certo. Vamos dar uma volta — disse ele, pressentindo a seriedade do assunto. Apesar de estar congelando do lado de fora, Bervely concordou, sem querer que Sirius os ouvisse por acidente. Passara em seu quarto para lhe desejar bom dia e o encontrara num ótimo humor. Tinha lhe perguntado se ela sabia quando Andrômeda ia passar para tirar a bolha, porque ele já estava se sentindo melhor e queria ir dar uma volta, quem sabe até fazer uma visita à Harry em Hogwarts.

Ela tinha lhe dado um sorriso forçado, pedindo-lhe um pouquinho mais de paciência.

Remus e Bervely deixaram a casa, ambos enrolados em seus respectivos casacos enfeitiçados para auto-aquecer. No caso de Bervely, uma velha jaqueta de Sirius que ela roubara do guarda-roupas dele em seu antigo apartamento em Londres, e que ajustara para o seu tamanho.

Eles começaram a descer o morro em direção ao vilarejo. Fazia outro daqueles dias úmidos de inverno que doíam nos olhos e nos ossos. A nevasca dos últimos dois dias havia derretido, deixando o chão escorregadio e traiçoeiro. Bervely seguiu olhando para o chão, prestando atenção onde pisava.

— Alguma novidade a respeito de Potter?

— Nenhuma, infelizmente.

— Não acha essa história estranha? Anne ter chegado até Avalon e Potter ter sido visto lá com ela, ao mesmo tempo em que ficou em Godric’s Hollow?

— Acho — ele admitiu. — Admito que é estranho. Dumbledore deve saber algo que não sabemos. Provavelmente algo que é mais seguro não sabermos.

— Eu nunca entendi essa confiança cega de vocês em Dumbledore — ela resmungou, lançando um olhar para a rua principal e achando-a quase vazia. Com a exceção dos fins de semana em que os alunos de Hogwarts visitavam o vilarejo, os dias eram bem parados em Hogsmeade.

— Não é confiança cega, é só… confiança. Mas não vamos falar demais sobre isso. Como estão Draco? Snape?

— Ambos vivos e obnóxios como de costume — ela disse, mas sem uma nota de aborrecimento. Ela contou sobre a sua estranha experiência no café da manhã, com o primo e o padrinho comendo torradas à mesa da cozinha, e Monstro cantarolando enquanto fazia waffles de caramelo para o mestre Draco.

Remus soltou um riso meio incrédulo pelo nariz.

— Nem posso imaginar a cena.

— E quanto ao Sirius?

— Essa noite foi mais tranquila. Ele sentiu sua falta ontem. Andrômeda passou cedo para reativar a bolha, mas eu posso dizer que ele está ficando impaciente. E eu notei que ele ainda está meio confuso. A noção de tempo também está bagunçada. Ele fica esquecendo que já estamos no inverno, mesmo depois de ter visto a neve pela janela.

— Isso também é normal? Ele não devia estar ficando menos, e não mais, confuso com o tempo?

— Nada disso é normal — Remus disse, num tom soturno. — Mas eu andei pensando… voltar do véu, e agora isso. É como se tivesse alguma coisa segurando ele aqui com a gente. Alguma coisa mais forte que a lei natural das coisas.

Ela olhou para ele de relance, com uma expressão descrente.

— Pensei que Remus Lupin não acreditava em nada mais forte do que a lei natural das coisas.

— E então temos Sirius Black para desafiar as minhas crenças mais arraigadas.

Eles tinham chegado ao Cabeça de Javali, um pub de procedência duvidosa que ficava à esquerda da entrada na cidade. Se continuassem andando pela estradinha por detrás do bar iriam parar em Hogwarts, mas nem Bervely, nem Remus, pretendiam ir até o castelo naquele dia. Ela fez um sinal indicando para o pub.

— Precisamos voltar em breve para o almoço. Yas está cozinhando, e eu não sei no que isso vai dar, sinceramente.

— Não se preocupe, não dá pra ser pior que Nymphadora, dá?

Remus suspirou à menção de Tonks, seguindo Bervely para dentro do estabelecimento. Escolheram uma mesa grudenta nos fundos do pub quase vazio. O dono, um velho barbudo vagamente familiar, com os olhos azuis mais miúdos e desconcertantes, os serviu cerveja em taças lascadas, sem perguntar o que queriam. Bervely esperou ele se afastar.

—Sobre o que fazer com Sirius… — ela começou, estudando a reação de Remus com atenção. Que, no caso, foi um franzir das sobrancelhas castanho claras.

— Eu sei. Eu passei a noite toda pensando nisso. Sei que a reintegração é uma ideia horrível… mas ao menos ele estará seguro. Quando tudo isso terminar, a guerra e tudo mais, podemos tentar trazê-lo de volta.

Diante do silêncio de Bervely, Remus deixou o rosto cair entre as mãos, o esfregando com frustração. Era o desespero vazando pelas rachaduras do autocontrole, ela percebeu. Não estava muito melhor, realmente. Tentara aparatar naquela manhã, e quase acabara estrunchando.

— Eu não sei, eu só… é isso ou deixamos ele no meio de uma guerra na qual ele não pode mais lutar, vendo gente com que ele se importa se machucando, sem poder fazer nada. Você viu o que isso estava fazendo com ele! Como isso é pior do que…

— Eu concordo que precisamos mandá-lo para um lugar seguro — ela disse, interrompendo-o de sua miséria. Remus olhou para ela, esperando o “mas”.

Mas não vou concordar em apagar o que resta da memória dele. E não temos que abandoná-lo com estranhos.

— Mas, então, o que você sugere? Não acho que eu esteja acompanhando.

Bervely contou a Remus a ideia que tivera na madrugada anterior, sem esperar que seria fácil convencê-lo. Passara a noite inteira pensando em uma série de argumentos. No entanto, quando ela terminou, ele assentiu, pensativo, para a cerveja intocada entre as mãos.

— Como sequer entraríamos em contato com ele?

— Eu acho que sei um jeito — ela se adiantou, de repente ansiosa, agora que parecia que a ideia era uma possibilidade real. — Só queria saber a sua opinião, antes de tentar.

— Por que? — Remus estranhou. — Você nunca se importou com a minha opinião antes.

Bervely deu de ombros, bebericando a cerveja densa e amarga que lhes tinha sido servido.

— Você pode não ser a minha pessoa preferida no mundo, mas sei que Sirius confiaria a você a vida dele. E me parece que é exatamente a vida dele que estamos decidindo no momento.

* * *

De volta à Grimmauld Place, mais precisamente ao “seu” quarto no segundo andar, Bervely recuperou o cachecol de lã cinza de sob o seu travesseiro, e o pressionou contra o rosto, aspirando profundamente o cheiro de seu dono, ainda impregnado na trama.

Sabia que aquilo era sobretudo por Sirius, mas havia uma parte dela que não conseguia deixar de ficar ansiosa pela possibilidade de fazer uma tentativa de contato.

“Quero que saiba que pode contar comigo, se um dia precisar.”

Regulus provavelmente fizera aquela oferta pensando num dia em um futuro nebuloso, e não que ela a cobraria quatro dias depois de deixá-los. Mas o que ela podia fazer se era agora, e não num futuro nebuloso, que precisavam dele?

Ignorando a voz da razão, que lhe dizia que aquela era uma idéia terrível que terminaria em mais dor e desastre, Bervely pegou pena e pergaminho e escreveu uma breve carta, explicando o melhor que podia a situação. Quando estava pronta, ela a enrolou e selou, chamando Monstro em seguida.

— Preciso de um favor — disse ao elfo, estendendo o pergaminho junto com o cachecol. Os olhos verde-embaçados do elfo se arregalaram num horror sem tamanho.

— A senhora está libertando Monstro? O que Monstro fez para merecer…?!

— Não! Não, cruzes, Monstro! O cachecol não é para você, você vai usá-lo para fazer um rastreamento! Preciso que entregue esta mensagem à Regulus.

O horror no rosto enrugado do elfo se transformou em alegria profunda e incontida.

— Acha que pode achá-lo?

— Monstro vai rastrear Mestre Regulus até o fim do mundo se Monstro precisar, e Monstro não vai voltar antes de conseguir entregar a carta da senhorita Black!

— Esse é o espírito — ela tentou sorrir para ele, um pouco nervosa com a resolução férrea de Monstro. O elfo desaparatou, deixando um leve cheiro de forno queimado para trás.

Monstro não voltou por dois longos dias. Na manhã do terceiro, Bervely já estava imaginando se não tinha enviado o elfo para as garras da morte. Mas, Monstro apareceu no café da manhã com um sorriso enorme desfigurando o rosto e uma resposta escrita no verso da carta de Bervely, numa caligrafia deitada e rebuscada que até parecia um pouquinho com a dela:

“Cara Bervely,

É claro que eu posso hospedar Sirius comigo por um tempo. Mandarei uma carruagem para buscá-lo na Casa dos Gritos hoje, à meia-noite. Dois assentos estarão disponíveis, caso deseje acompanhá-lo.

Saudades,

Regulus”

Ela ficou encarando a última palavra do bilhete por tanto tempo que seus olhos perderam o foco, e o papel virou um borrão.

— De quem é? — perguntou Draco, entrando na cozinha naquele momento para o café da manhã.

— Ninguém — ela guardou a carta no bolso das vestes e se levantou, as mãos geladas, o coração batendo rápido. — Coma as suas torradas e não se esqueça da poção fortificante. Monstro, faça com que Draco tome a sua poção fortificante.

— Sim, minha senhora, Monstro vai fazer — disse o elfo, feliz, indo salvar o café da manhã que Bervely tinha começado a preparar com desajeito em sua ausência.

Draco olhou para ela com mau humor.

— Você já vai sair de novo?

— Eu tenho coisas a resolver, Draco.

— Que coisas?

— Nada que lhe diga respeito.

— Você não me conta porcaria nenhuma — ele resmungou, lembrando muito à Bervely o garotinho mimado de cinco anos que lhe infernizava e queria ver feitas todas as suas vontades. — Estou morrendo de tédio nessa casa velha. Não tem nada para fazer. Pior férias de inverno de todas.

— Sim, vamos mandar você de volta para a Mansão então, onde o seu pai deve estar lhe esperando ansioso para terminar de retalhar você.

Draco se calou, ficando pálido e estreitando os olhos cinzas para ela. Bervely se arrependeu imediatamente do comentário.

— Desculpe, não foi o que eu quis dizer.

— Você tem notícias dele, então? Ele está mesmo na Mansão? — Draco quis saber, fitando o prato ao invés de olhar para ela.

— Não, não tenho — Bervely mentiu. — Desde que ele não esteja procurando você, não me importo onde aquele assassino está.

— E se tia Bella pegou ele? — Draco perguntou, baixinho. Bervely pressionou os lábios. Uma lembrança rápida dos gritos de Lucius em seu sonho fizeram eco em seus ouvidos.

— Vou estar de volta para o almoço, ok? Monstro, cozinhe alguma coisa que Draco goste de comer, para ver se ele para de fazer essa cara feia o tempo todo.

— Sim, minha senhora. Monstro vai fazer uma montanha de waffles de morango e chocolate para mestre Draco, isso vai animá-lo.

— Draco? Se comporte. Tome suas poções. Não faça nada que eu não faria, está bem?

Ele rolou os olhos e imitou a voz de Monstro, debochado.

— Mas é claro, minha senhora…

* * *

Bervely passou no Beco Diagonal pela primeira vez em uns três anos, e entrou na sorveteria Florean Fortescue. Depois de pegar o que precisava, usou a lareira do Caldeirão Furado para levá-la até a Casa dos Gritos.

Encontrou a casa silenciosa. Pressentindo que alguma coisa ruim tinha acontecido, subiu para o segundo andar o mais quietamente que pôde, a varinha apertada firme na mão esquerda.

A porta do quarto de Remus estava aberta – ela espiou lá dentro e achou a cama dele vazia, impecavelmente feita. No fim do corredor, a porta do quarto de Sirius estava entreaberta. Bervely se aproximou, mas então se lembrou do que tinha visto da última vez que espiara para dentro de um quarto que Sirius ocupava. Ela pigarreou antes de se aproximar, se anunciando.

— Sirius? Darkmoon? Alguém em casa?

— Estamos aqui — disse Sirius, a voz vindo de dentro do quarto. Bervely soltou um suspiro aliviado e se apressou até o cômodo.

Encontrou Sirius sentado na cama, uma perna longa esticada para frente, a outra dobrada, as costas apoiadas na cabeceira, um bloco de pergaminhos apoiado na coxa e um lápis trouxa em sua mão. Uma bolha semi-transparente envolvia Sirius, parecendo eletrificada e ligeiramente azul.

Yas também estava lá, sentada perto da janela, folheando a edição mensal de Carisma Mágico. Ela sorriu para Bervely quando ela entrou.

— Hey, Black. Já tomou café? Estávamos esperando Remus voltar, mas ele está demorando um século.

— Para onde ele foi?

— Reunião com Dumbledore — ela deu de ombros. — O patrono dele chegou cedo de manhã.

— Ah — Bervely olhou para Sirius, que tinha voltado ao bloco de pergaminhos. — O que você está fazendo?

— Desenhando — ele disse, olhando de relance para ela e voltando-se ao papel, concentrado.

— Desde quando você desenha?

— Desde que Yas me conseguiu um lápis e um bloco de desenhos.

— Ah, que ótimo. Darkmoon, pode nos dar licença?

— Claro — Ela saltou da cadeira e deixou a revista de lado. — Estava mesmo indo preparar um chocolate quente. Você quer?

— Prefiro a morte lenta, obrigada.

— Que tal uma dosezinha de poção de relaxam…

Ela viu o perigo no rosto de Bervely e parou de falar , mas deixou o quarto com um sorrisinho irritante no rosto. Bervely, que nos últimos dias tinha se esquecido da sua vontade de sacudi-la, viu-a reavivar-se de repente.

— Vocês estão se dando bem, então? — Bervely perguntou a Sirius, que assentiu, abrindo um sorriso amplo para ela por cima do seu bloco de desenho.

— Ela é uma ótima garota— Ele baixou a voz para um sussurro conspiratório. — Acho que ela tem uma queda por mim.

— É mesmo? — Bervely disse, sem esconder a ironia na voz. — E você, o que pensa disso?

— A gente só vive uma vez, não é? — Ele lhe deu uma piscadela marota, como se as suas intenções já não estivessem claras o bastante.

Bervely rolou os olhos, deixando a varinha no criado mudo com mais força do que o necessário. Sirius ergueu uma sobrancelha para o movimento.

— Não precisa ficar com ciúmes. Eu sou seu pai, se lembra? Você está encalhada comigo para sempre.

Ela deu um sorriso tenso para ele. Merlin, não estava pronta para aquela conversa. Vendo a expressão no seu rosto, Sirius parou com as brincadeiras.

— Bervely, aconteceu alguma coisa?

Tantas, ela pensou. Você é sortudo de não se lembrar delas.

— Não. Quer dizer, sim. Precisamos conversar.

Sirius franziu o cenho, assistindo-a tirar um pote grande de sorvete da bolsa. Com medo de afetar a bolha de Sirius, ela não tinha usado nenhum feitiço de congelamento no sorvete, que já estava começando a derreter. Bervely tirou do bolso duas colheres que roubara da nova prataria Black antes de sair de casa, e entrou na bolha de Sirius, sentindo a estática em sua pele ao atravessar a barreira mágica. Era claustrofóbico ali dentro, e ela se sentia ligeiramente sem fôlego, mas mesmo assim se sentou à beira da cama, perto da perna esticada dele.

Abriu o pote de sorvete em silêncio e posicionou entre eles, entregando a Sirius uma colher. Sirius sorriu quando viu de que sabor era.

— Pistache, hum? Pensei que não gostasse mais desse, desde que cresceu e ficou metida à besta.

— Pensou errado — ela rebateu, enfiando a colher no sorvete e trazendo-a à boca.

Tinha gosto de inocência, de surpresa, de risadas com o coração leve. Bervely saboreou por um tempo, em silêncio, enquanto Sirius a observava.

— Me diga o que está acontecendo — ele pediu, olhando-a com seriedade. — Eu não sou idiota, Bervely.

— Eu vou dizer — ela assentiu. Ela fechou os olhos, o gosto de sorvete grudado na língua, tão doce que se tornava amargo. Respirou fundo. — Você… torrou seu cerne, em Godric’s Hollow. Não pode mais fazer magia.

— Eu sei — ele disse com tranquilidade. — Acha que eu não posso sentir? Como aconteceu?

— Dementadores. Você estava tentando me proteger.

— Ainda bem que consegui — ele sorriu, satisfeito com si mesmo. Ela quis olhar feio para ele, mas não conseguiu. Sirius perguntou de novo, com sobriedade — Tem mais, não tem?

— Sim. Andrômeda acha que exposição à magia é o que está provocando a sua dor de cabeça, náuseas e febre. E que se você continuar exposto à magia, você pode piorar. Por isso a bolha.

— Ah — Sirius assentiu, pensativo. — Não achei que a bolha fosse decorativa. Mas hei, pensei que eu era suposto a morrer, se acabasse com meu cerne mágico?

— E de novo, aqui estamos — ela tentou sorrir, como se estivesse fazendo uma piada, como se aquela conversa não doesse. Mas doía, doía em suas entranhas pensar em Sirius sem magia. Pensar que ele nunca mais poderia se transformar no cão negro gigantesco e sair correndo, latindo e abanando o rabo por aí. Que ele estava indefeso, vulnerável, e que não servia mais para o mundo ao qual ela pertencia.

— Está tudo bem, amor— ele a tranquilizou. — Vou ficar na bolha, se é isso que preciso fazer. Não estou sendo um bom garoto, até agora?

Bervely olhou para o alto, seus olhos pinicando. Merlin do céu, como ele era impossível..

— A bolha não é uma solução definitiva. Ela precisa ser renovada todo dia, e qualquer magia externa mais forte pode deixar você vulnerável de novo.

Sirius assentiu com sobriedade quase desdenhosa.

— Então, qual é a solução definitiva?

Ela olhou para ele, porque Merlin, ela o amava tanto. Ela amava a voz dele, e ela amava a barba desmazelada de três dias do mesmo jeito que amava o rosto liso, e os olhos escuros e magnéticos ela amava mais que tudo, e nem podia acreditar que a solução era não poder mais olhar para ele sempre que quisesse – de novo, de novo, de novo...

— Eu mandei uma carta para um amigo. Ele está disposto a abrigar você num lugar protegido de magia, até descobrirmos o que fazer.

Sirius negou.

— Eu não posso ir me esconder como um covarde e deixar você, Anne e Harry e todo mundo para trás, no meio de uma guerra, Bervely.

— Eu achei que você diria isso — Bervely assentiu, tentando soar compreensiva, e não quebrada em cacos muitos afiados.— Mas ficando aqui, o que você tem a oferecer? Você vai piorar, e você não pode mais lutar. Não pode nos proteger.

— Eu sou um inútil, basicamente — ele retrucou, a voz rouca e chateada. Ela olhou para baixo, os olhos ardendo. Achara que o sorvete iria servir para aliviar aquela conversa, mas a verdade é que nem uma poção do morto-vivo poderia diminuir o impacto daquela verdade.

— Eu só não quero perder você de novo, droga — ela murmurou para o pote de sorvete, de novo tão perto de desabar que nem sabia o que exatamente a estava segurando.

Sirius não disse nada. Ela o assistiu enfiar a colher no sorvete e trazê-lo para os lábios, enquanto pensava. O som da respiração dele, o cheiro fresco de sabonete, o jeito como a mão morena e grande segurava a colher e a levava à boca, o prazer com que sorvia o sorvete. Sirius nunca tinha ficado menos fascinante, mesmo depois de tantos anos. Ela achava que ele nunca ficaria. E o fato de que precisava deixá-lo ir, a coisa que ela mais amava no mundo, pareceu-se muito com o fim do seu mundo, naquele momento.

Sirius colocou o sorvete de lado e fez um aceno para si mesmo, abrindo um dos braços.

— Venha aqui, boneca.

Bervely nem pensou duas vezes antes de deslizar para o lado dele. Sirius passou o braço esquerdo em torno dela, e Bervely deixou a cabeça pender no peito dele, cerrando os olhos. Um par de lágrimas quentes deslizaram dos seus olhos para a camisa de Sirius, e desapareceram na trama grossa, seus rastros queimando na pele dela. Bervely escutou o coração dele batendo, devagar, mas firme.

— Você precisa confiar em mim — ela murmurou de novo, sentindo que qualquer tentativa de aumentar o tom de sua voz não era seguro. — Eu vou descobrir como resolver isso, nem que seja a última coisa que eu faça, mas para que eu consiga… eu preciso que você esteja fora do alcance.

— Do alcance de quem? — Sirius respondeu, ecoando uma conversa que eles tinham tido há muito tempo, em papéis opostos aos de agora. — Do seu?

— Também. Só por um tempo.

Ele beijou o topo da sua cabeça.

— Eu vou. Com uma condição.

— O quê?

Ela achou – ela esperou que ele pedisse para ela ir junto. E Bervely sabia muito bem que, apesar de todas as razões pela qual seria absurdo partir agora, se Sirius pedisse, ela iria. Ela iria com ele para os confins do inferno sem pestanejar. Mesmo que isso significasse viver sem magia.

— Você cuida de Anne e Harry por mim. — Ele disse, ao invés disso. — Pode fazer isso? Promete que vai mantê-los seguros, não importa o que aconteça?

As estranhas dela se apertaram. Sabia que provavelmente não ia ser capaz de cumprir aquela promessa. Diabos, talvez nem houvesse mais um Potter para proteger, e quem sabia quando Anne voltaria de Avalon? Mas ela assentiu mesmo assim, prometendo, o coração partido em mais pedaços ainda.

— É claro. Vou fazer tudo que estiver ao meu alcance.

— Então… um amigo? — Sirius quis saber, curioso, depois de mais algumas colheradas silenciosas de sorvete de pistache. — De que amigo é que estamos falando?

— Você vai reconhecê-lo quando o vir, não se preocupe.

* * *

Darkmoon interpelou Bervely no corredor, quando ela deixou o quarto de Sirius algum tempo mais tarde. Ficou claro que estivera ouvindo a conversa, mas Bervely nem teve energia para se indignar. Sirius tinha aceitado ir, e seu coração estava, ao mesmo tempo, pesado com a despedida e leve de alívio em saber que em breve ele estaria seguro.

— Para onde vai mandá-lo? — Darkmoon exigiu saber, seguindo Bervely pelo corredor.

— Não é da sua conta — disse ela sem preâmbulos. Tentou se livrar de Darkmoon, mas a garota deu outro passo em seu caminho e a impediu de seguir adiante.

— Me deixe ir com ele.

— Nem pensar!

— Eu posso cuidar dele.

— Ele não vai precisar dos seus cuidados — Bervely deu a volta nela pelo outro lado e continuou andando em direção às escadas.

— Posso fazer companhia a ele — Darkmoon insistiu, acompanhando Bervely pelas escadas. — Vou ser um rosto familiar entre estranhos. Ele vai precisar de alguma coisa familiar…

— Darkmoon — Bervely começou, perdendo a pouca paciência que lhe restava.

— Posso ficar de olho nele para você — disse a jovem. — Posso mandar notícias regularmente. Relatórios até, se quiser. Eu prometi, se lembra? Prometi a você que manteria um olho nele. Me deixe cumprir a minha promessa.

Bervely parou no meio das escadas, encarando Yasi Darkmoon no semi-breu, irritada.

— Por que quer tanto isso? Ele não se lembra de você. O que quer que vocês tiveram antes, está tudo perdido! Além do mais, o que você ganha indo com Sirius? Você não poderia nem mesmo usar magia perto dele!

— Eu não me importo, Bervely. Você não entende! Você quer saber o que eu ganho? Que tal começar pelo fato de que eu vou poder começar de novo, longe daqui? Eu não existo mais nesse mundo, Bervely. As pessoas nem me enxergam. Eu não tenho um nome. Pelo que todo mundo sabe, estou morta, eu morri no levante de Azkaban! A única coisa que fez com que eu me sentisse viva, desde então, foi Sirius. Achei que você poderia se identificar com esse sentimento!

Bervely olhou para ela com relutante ceticismo. Imaginou que o efeito não fosse lá tão impactante, com os olhos cintilando com a camada de lágrimas que ainda persistia após a sua conversa com Sirius.

— Me deixe ir com ele. Se não for para me deixar ter uma vida de novo, por que foi que você me salvou de Azkaban, para começo de conversa?


* * *

Envolvidos em seus casacos, gorros e luvas, Remus, Bervely, Sirius e Darkmoon aguardavam em silêncio diante da porta dos fundos da Casa dos Gritos.

Eles decidiram não dizer a ninguém para onde Sirius estava indo, por enquanto. Não havia tempo para despedidas elaboradas, e Bervely não queria implicar Regulus no paradeiro do fugitivo-dado-como-morto-porém-vivo Sirius Black. Sirius se indignara em não poder se despedir de Anne e Harry, que ele ainda acreditava estarem em Hogwarts – e de Nymphadora e Andrômeda, que não tinham aparecido na Casa dos Gritos naquele dia, mas finalmente fora convencido por Remus de que uma despedida silenciosa chamaria menos atenção, e que ele podia deixar cartas para todos, explicando a sua partida.

A carruagem de Gomorra apareceu no céu meia noite em ponto, puxada pelos maiores pássaros negros que qualquer um deles já vira, com longos e letais bicos cor de osso, olhos fundos e garras que podiam facilmente se fechar em torno de suas cabeças. Eram, no entanto, muito bem treinados. Bervely pensou que Anne teria adorado conhecê-los.

Ela ainda tivera esperança de que alguém estaria dentro da carruagem, mas esta se revelou vazia. Possuía dois lugares, como mencionado na carta. O cachecol cinza de lã fora deixado no assento mais próximo da porta, cuidadosamente enrolado em um círculo que lembrava uma rosa. Bervely o pegou e o enrolou em torno de sua mão, sem conseguir evitar um calorzinho se enrolando nas entranhas.

Houveram abraços longos e apertados, então Remus ajudou Sirius e Yas a embarcarem no interior escuro da carruagem. A bolha seguiu os movimentos de Sirius e preencheu o interior da cabine, fazendo a pequena carruagem parecer uma lanterna de papel acesa.

— Esperem — Remus se aproximou com algo nas mãos, que capturou a luz da bolha quando ele o esticou para Darkmoon. — Levem isso, para dar notícias de vez em quando. Talvez Sirius não consiga mais usar, mas você pode.

Era um pequeno espelho redondo, de aparência ordinária. Yas o guardou no bolso, parecendo saber do que se tratava.

Antes que a carruagem partisse, Sirius se inclinou através do vão estreito da porta e puxou Bervely em sua direção, de forma que a cabeça dela e metade do peito entraram em sua bolha. Ele a abraçou forte mais uma vez e plantou um beijo firme em sua têmpora, a barba áspera arranhando a sua pele.

— Eu amo você, garota.

— Sinto muito por você ter que ir — ela lhe disse num sussurro baixo e dolorido. Seus olhos queimavam e era difícil respirar. Ele lhe deu um sorriso forçado.

— Vou me divertir com Yas, não se preocupe. Vejo você no verão, então?

— É claro — ela assentiu, a voz arranhando. Sirius encostou os lábios no ouvido dela e murmurou, muito suave e muito terno para que sobrasse algum pedaço dela inteiro.

— Fique viva pra mim, certo?

A carruagem começou a se mover, os pássaros gigantes puxando com impaciência, e Sirius teve que largá-la e voltar para a cabine.

— É claro — Bervely prometeu, sem fôlego, enquanto a carruagem se afastava, e então levantava vôo.

Remus e Bervely assistiram a carruagem brilhante virar um pontinho de luz no céu, cada vez mais miúdo, até desaparecer.

(Continua…)



Notas finais
Opa! Para aqueles que estão se perguntando onde diabos o Dumbs meteu o Harry (vivo ou morto), peço paciência, próximo cap cuidará dessa treta! Enquanto isso, o que acharam desse capítulo? Essa despedida às pressas doeu tanto em vcs como na Bevy (e em mim)? Concordam com a decisão dela de tirar Sirius do caminho? E agora... o que acontece? Ansiosa pelos comentários! ;*