A Canção Permanece A Mesma
1 Prólogo
MANSÃO MALFOY, WILTSHIRE – 4 anos antes
Os uivos seguidos de rosnados fez o coração já acelerado de Astoria palpitar ainda com mais força em seu peito. Os olhos verde oliva da mulher encontraram os cinzentos de Draco e viram refletido nas íris do homem o mesmo temor que ela sentia, temor este que fazia as suas mãos tremerem, um bolo entalar em sua garganta e cimentar ainda mais a sua decisão.
— Astoria... — o que Draco iria dizer foi interrompido por Astoria quando ela depositou os seus lábios úmidos sobre os do marido, em um beijo desesperado e de tirar o fôlego.
Em seguida, os braços dela envolveram Draco pelo pescoço, o trazendo para mais perto de seu corpo, querendo sentir pela última vez o calor dele. E quando ele retribuiu o abraço depois de alguns segundos imóvel, a apertando fortemente contra si, Astoria sentiu o bolo em sua garganta se transformar em um soluço.
Não queria fazer aquilo, não queria desistir daquela maneira, mas era o único jeito, foi a única saída que encontraram. E quando se afastou de Draco e viu as íris cinzentas como tempestade, mais escurecidas que o usual, transmitindo através delas uma mensagem silenciosa de que tudo ficaria bem, Astoria se sentiu um pouco mais corajosa. Corajosa o suficiente para se soltar dos braços do marido no segundo em que a porta da mansão chacoalhou violentamente e os rosnados ecoaram do lado de fora da casa, a única trilha sonora daquela noite que tornava-se a cada segundo ainda mais macabra.
— Eu vou te tirar de lá.
Draco falou com uma convicção que fez Astoria sentir que tudo ficaria bem daqui para frente, mesmo que as chances dele ser bem sucedido em seus planos fossem praticamente nulas.
— Prometo. — ele enfatizou, com uma certeza que Astoria queria ter, e ela sorriu, um sorriso falsamente confiante para disfarçar o pesar que na realidade sentia.
— Você precisa ir. — ela disse no segundo em que a porta tremeu mais uma vez, com um estrondo apavorante. Mais uivos soaram ao longo da propriedade e ela sentiu a mão gelada de Draco envolver a sua em um gesto de apoio e conforto.
Outro estrondo e as dobradiças da porta rangeram em protesto, avisando ao casal que não resistiria ao ataque por muito tempo.
Astoria inclinou-se nas pontas dos pés e apoiou a testa contra a de Draco, apertando com mais força a mão dele entre os seus dedos, enquanto com a outra lhe acariciou a bochecha, ajeitando com suavidade os óculos que repousavam em sua face.
Era tão difícil deixá-lo ir, mas, ao mesmo tempo, sabia que era preciso. O seu tempo tinha terminado e não havia para onde fugir, essa era a única chance deles. Precisava acreditar que o seu plano louco daria certo, precisava acreditar que Draco iria atrás dela quando tudo isto acabasse. Que ele cumpriria o que prometeu.
— Ade... — Astoria quis se despedir, mas as lágrimas afogaram as suas palavras e ela fechou os olhos com força, tentando impedir que elas rolassem pelas suas bochechas, em vão.
Draco a beijou.
Um beijo novamente desesperado e que a fez perceber que ele também não queria deixá-la ali tanto quanto ela queria que ele partisse.
— Você realmente precisa ir. — ela disse com pesar, forçando-se a soltar a mão dele e afastou-se um passo quando novamente as dobradiças rangeram e lascas começaram a soltar da madeira. Mais um estrondo que não só sacudiu a porta, mas a mansão inteira, e Astoria viu nisto o sinal de que a hora tinha chegado.
Recuou mais um passo, e viu no rosto de Draco a expressão de que ele queria segui-la, mas ela o parou com uma negativa de cabeça. Ele estava mais pálido que o usual e os seus olhos brilhavam por causa das lágrimas que insistia em não derramar. Astoria deu à ele outro sorriso confiante, sendo este mais verdadeiro do que o seu antecessor, e recuou outro passo, parando ao pé da escadaria de mármore que levava ao andar superior.
Draco mordeu o lábio inferior e fechou as mãos em um punho quando viu a mulher erguer a varinha e apontá-la para o símbolo sob os seus pés, no mesmo instante em que a porta finalmente perdeu a briga com as criaturas que forçavam passagem.
E antes de desaparatar dali, Draco viu duas coisas através das lentes encantadas de seus óculos:
Um vislumbre de uma fumaça negra e medonha, uma sombra de caninos enormes e cobertos de bada, nos focinhos dos cães mais feios que ele já vira na vida, e a expressão decidida de Astoria quando viu os bichos avançarem sobre ela.
E a primeira coisa que Draco viu ao aparatar na colina atrás da propriedade dos Malfoy, foi uma bola de fogo que iluminou o céu noturno, e chamas consumindo as paredes centenárias da mansão.
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