DEPARTAMENTO DE AURORES, LONDRES – Agora

Curioso como os anos realmente mudavam as pessoas, Harry pensou enquanto os seus olhos pareciam fascinados com a fotografia em preto e branco de Draco Malfoy, sobre a mesa do seu chefe.

O seu antigo rival da escola, estampado na foto, em nada parecia-se com o rapaz que viu pela última vez em uma sessão do Wizengamot, quando este condenou Lucius Malfoy a Azkaban, Draco Malfoy a prisão domiciliar e à Narcisa Malfoy concedeu a liberdade. Na época, Malfoy tinha recém completos dezenove anos, estava pálido, com olheiras, expressão cansada e mais magro do que de costume.

Na foto que Harry possuía extremo interesse neste momento, Malfoy não tinha mais olheiras, não parecia assim tão pálido e muito menos magricela. O formato pontiagudo do rosto havia sumido e dado lugar a traços mais retangulares, e os olhos cinzentos estavam semicerrados enquanto as sobrancelhas estavam franzidas em uma expressão de desagrado, fixados em algo além do enquadro da imagem.

Malfoy hoje era alguém que se Harry cruzasse na rua, levaria algum tempo para reconhecer, talvez fosse por isso que o Ministério ainda não tivesse conseguido capturá-lo.

— Potter! Você ouviu alguma palavra do que eu disse? — Harry sobressaltou e piscou repetidamente, antes de voltar o olhar para Will Sanders, o atual hefe do Departamento de Aurores, e que nos últimos dez minutos esteve discorrendo alguma coisa sobre os Malfoy, alguma coisa que Harry não prestou muita atenção, ocupado demais em surpreender-se com as mudanças que os anos causaram em seu antigo colega de escola.

— Desculpe senhor. — ele pediu, sabendo que ouviria poucas e boas de seu parceiro, cunhado e melhor amigo, Ron Weasley, se a maneira com que o mencionado parado quase em pose militar ao seu lado, o olhava, fosse alguma indicação.

— Como eu ia dizendo, a confirmação da passagem de Malfoy em Meanwood fez o Ministério voltar a dar prioridade um a este caso. — novamente os olhos de Harry foram para a fotografia sobre a mesa de Sanders, que estava acompanhada de vários pergaminhos com informações do referido Caso Malfoy.

O “Caso Malfoty” aconteceu assim que Harry saiu de seu período de experiência, no treinamento de auror. Em uma noite morna de verão, em um céu sem estrelas e sem lua, o Departamento dos Aurores recebeu o alerta, através dos feitiços de vigilância que havia colocado na casa, de que algo tinha acontecido na Mansão Malfoy, algo de grandes proporções. E, ao chegarem lá, os aurores que estavam de plantão naquela noite rapidamente perceberam o que havia ocorrido:

A casa tinha ido simplesmente pelos ares, em uma explosão que arremessou escombros em um raio de quatro quilômetros de distância, e fez o fogo que ardia e consumia o que sobrou das paredes da mansão durar por dois dias, mesmo tendo sido aplicado vários feitiços sobre ele, para apagá-lo. Vítimas foram procuradas dentro do que restou do imóvel, mas com tudo tendo virado cinzas, se havia alguém na casa no momento da explosão, esse alguém literalmente virou pó.

No fim, a única maneira que eles encontraram de saber se houve baixas foi verificar o registro de nascimentos mágicos do Ministério. Quando um bruxo ou bruxa nascia dentro do território do Reino Unido, o Departamento de Registros Mágicos automaticamente detectava a nova assinatura mágica e arquivava o nascimento para assim, no futuro, as famosas cartas de Hogwarts serem enviadas para essas crianças quando elas completassem onze anos.

Quando um bruxo ou bruxa morria, a sua assinatura mágica desaparecia, o que era rapidamente registrado por este mesmo departamento.

Naquela noite, três assinaturas mágicas desapareceram com a explosão da mansão:

A de Astoria Malfoy e seus dois filhos; Scorpius e Nico.

A assinatura mágica de Draco Malfoy permaneceu intacta e ainda operante, o que fez o sangue de Harry ferver ao descobrir a informação e solicitar de imediato a sua transferência para a equipe responsável em investigar aquele caso.

Obviamente que ele recebeu um sonoro não de seu chefe, que dissera que Harry e Ron estavam emocionalmente envolvidos na situação para poder investigá-la de maneira objetiva. A rivalidade da dupla de ex-grifinórios com Draco Malfoy, na época de escola, era conhecida por todos e o fato de Ron e Harry serem pais e haver crianças envolvidas na história, apenas piorava as coisas.

No fim, o caso foi delegado a uma dupla de aurores seniores, e cada nova informação obtida por eles colocava Draco Malfoy ainda mais no topo da lista de suspeitos, a ponto de ter um alerta passado as outras autoridades mágicas da Europa que dizia que Malfoy era um criminoso perigoso e procurado pelo Ministério da Magia britânico.

Entretanto, um ano se passou, sem a investigação ser concluída, pois Malfoy simplesmente desapareceu da face da Terra. No segundo ano, o Departamento cortou pela metade os esforços em encontrar Malfoy e solucionar aquele caso, pois a cada dia que se passava, as pistas ficavam ainda mais frias. No terceiro ano, Sanders finalmente soltou a ordem de arquivar o Caso Malfoy, pois o Departamento não tinha pessoal e muito menos verba para gastar em uma investigação que sempre levava a um beco sem saída.

E agora, quatro anos depois, a pasta do caso novamente surgia na mesa de Sanders, com o homem chamando Harry e Ron para serem os responsáveis pela reabertura da investigação.

— Esta é a primeira pista concreta do paradeiro de Malfoy, que temos em quatro anos. — Sanders relatou, puxando pergaminhos e fotos em sua direção, os folheando desinteressadamente, antes de enfiar tudo dentro da pasta e estendê-la a Ron. — E eu gostaria muito de ver esse desgraçado apodrecer em Azkaban, ao lado do pai dele.

Azkaban poderia não ter mais os Dementadores como guardas, mas ainda sim era um lugar assustador e deprimente.

— Vocês são a dupla de aurores com o maior índice de casos solucionados deste Departamento, e eu não quero ver o Caso Malfoy tornar-se outro caso unicórnio aqui dentro.

Os casos “unicórnios” eram os casos cuja probabilidade de solução tornava-se rara, quase nula. O Departamento era atolado de casos como esses, o que causava a frustração de muitos aurores.

— Há uma chave de portal esperando por vocês com destino a Meanwood na Divisão de Viagens e Transportes.

Sanders informou em um tom de finalidade e Ron e Harry assentiram antes de darem meia volta para deixar a sala do homem.

— Ah! Potter, Weasley? — ambos pararam e olharam por sobre os ombros para o chefe, quando este os chamou. — Não voltem aqui sem aquele filho da mãe! — ordem mais direta do que aquela não havia e a passos rápidos, a dupla deixou a sala rumo a Divisão de Viagens e Transportes, onde a chave de portal os esperava.

oOo

— Astoria Malfoy, previamente Greengrass. Ela estudou em Hogwarts conosco, dois anos abaixo do nosso, foi da Corvinal. Tinha uma irmã mais velha na Sonserina, Daphne Greengrass que, segundo as anotações, foi extremamente contrária em fornecer qualquer informação para ajudar nas investigações. Disse somente que não tinha contato com a irmã desde que ela cometeu a burrice de se casar com Draco Malfoy. — Ron leu no arquivo em suas mãos, enquanto o elevador fazia o percurso para o andar onde ficava a Divisão de Viagens e Transportes.

— Corvinal? Draco Malfoy, orgulhoso sonserino sangue-puro casou com uma sabe-tudo? — Harry disse com deboche e Ron riu da ironia. Para alguém que possuiu um prazer mórbido em humilhar Hermione Granger pela mulher ser uma sabe-tudo, Malfoy não perdeu muito tempo em casar com uma traça de livros.

— Uma sabe-tudo mestiça, ainda por cima. — Ron completou e Harry arqueou as sobrancelhas na direção do amigo. — Mãe trouxa, pai bruxo. — ele continuou e virou mais uma página do arquivo. — Phillip Greengrass, morto durante a guerra por conceder asilo a nascidos-rouxa e ajudar a retirá-los do país antes que as forças de Voldemort os encontrassem.

— A versão bruxa de Schindler — Harry comentou.

— Quem? — e riu diante da expressão confusa de Ron.

Anos casado com Hermione e Ron ainda não conseguia captar as referências trouxas que Harry e ela soltavam na direção do homem.

— Deixa para lá. — Ron continuou, ignorando aquela breve desviada no assunto. — Eu me lembro dos Greengrass seniores, eles não tomaram nenhuma posição na guerra e preferiram sair do país a fazer parte do conflito, deserdaram o filho Phillip por este ter se casado com uma trouxa.

— Orgulhosos sangue-puros?

— Até o último fio de cabelo.

— E quanto a mãe de Astoria? — Harry perguntou, lançando um olhar para o painel acima da porta do elevador e que havia acabado de acender no número quatro, indicando que eles ainda tinham mais dois andares para subir.

— Sophia Greengrass, nome de solteira; Campbell, voltou para os Estados Unidos, o seu país de origem, após o fim da guerra. Não se ouviu mais notícias dela desde então.

— Morta, talvez? — era uma teoria, Harry pensou. A filha e os netos foram brutalmente assassinados e ela não apareceu nem para o velório, para constar algum registro dela no Reino Unido depois da guerra? Só poderia estar morta.

Um pling fez Harry olhar novamente para o painel e ver que tinham chegado em seu andar. E, assim que as portas se abriram, a dupla deixou o elevador a caminho da Divisão de Viagens e Transportes, com Ron ainda folheando o arquivo em suas mãos.

— Sempre achei que Malfoy era covarde demais para cometer qualquer tipo de atrocidade, você mesmo me disse que ele não conseguiu matar Dumbledore, mas parece que as aparências enganam. Tal pai, tal filho. Lucius não era santo e era só uma questão de tempo para Draco perder o juízo também. A mulher e os filhos? — Ron fez uma expressão enojada. — O caçula tinha acabado de completar quatro meses quando foi morto. Que tipo de maníaco faz uma coisa dessas?

Harry tinha um nome e sobrenome em mente para responder a essa pergunta: Tom Riddle.

Voldemort matou homens, mulheres e crianças simplesmente por achar que eles manchavam o bom nome da sociedade mágica com o seu sangue mestiço ou trouxa. Hipocrisia com ele realmente reinava.

— Mas por quê? — foi a pergunta que Harry fez no momento em que levou a mão ao puxador da porta de acesso a Divisão de Viagens e Transportes. Ron somente fechou a pasta de papel pardo em um estalo e mirou o amigo com as sobrancelhas erguidas.

— Como?

— Qual foi o motivo? Malfoy matou a família e destruiu a mansão do nada? Os relatórios dos aurores que o visitaram, para fazer as suas inspeções bimestrais, diziam que Malfoy andava cumprindo todas as imposições do Ministério, que o relacionamento dele com a família era normal e que ele era extremamente devotado a esposa e aos filhos. Então, o que o levou a matá-los?

— Surto psicótico? — foi a resposta oferecida por Ron quando Harry abriu a porta e eles foram cumprimentados pelo enorme espaço aberto, assemelhando-se a um ginásio de esportes, que era a Divisão de Viagens e Transportes.

Harry ainda não estava convencido de que Malfoy simplesmente tenha surtado e matado a família. Embora não morresse de amores pelo ex-colega, havia algo naquela história que não batia. E mesmo que, na época, tivesse sido proibido de participar das investigações, ele havia conseguido obter uma informação ou outra sobre o caso, das conversas que ouviu de seus colegas aurores, durante as pausas para o café. E, apesar de todas as pistas apontarem Malfoy como culpado, Harry o conheceu, passou um ano escolar inteiro seguindo o garoto para cima e para baixo, para dizer com uma leve certeza que Malfoy era covarde sim, tomou dezenas de decisões erradas, mas não era um assassino.

Ao menos não o Malfoy de dezesseis anos que empunhou uma varinha com a mão trêmula, na direção de Dumbledore, e que por um segundo quase desistiu de tudo quando as palavras do velho professor foram o convencendo pouco a pouco de que ele tinha chances de salvação. Não o Malfoy magro e pálido que chorou no banheiro feminino do segundo andar e que agarrou-se a Harry, apavorado, enquanto voavam entre o fogo para fora da Sala Precisa.

No entanto, aquele Malfoy em nada era parecido com o Malfoy que Harry viu na recente foto capturada por uma câmera de vigilância, que mostrou um homem de trinta e poucos anos, de expressão fechada e olhar firme.

— Aurores Potter e Weasley? — uma voz esganiçada, vindo de uma bruxa diminuta, rechonchuda e com uma prancheta na mão, chegou aos ouvidos da dupla, e ambos assentiram em confirmação ao chamado. — Encaminhem-se ao supervisor do setor no final do corredor C. — a mulher apontou com a ponta da pena o enorme espaço aberto atrás dela, onde faixas formavam corredores que terminavam em palanques circulares de dois metros de diâmetro, e de onde pessoas sumiam e apareciam, levadas e trazidas por chaves de portais.

Harry e Ron adentraram o corredor C, formado pelas faixas divisórias, sob os resmungos de outros bruxos por eles estarem furando fila, os calando quando mostraram aos insatisfeitos os seus distintivos. A força policial do Ministério tinha sempre prioridade nos transportes.

Quando alcançaram o mencionado supervisor, esse apenas lançou um olhar para a dupla e apontou para a plataforma de onde uma senhora e um adolescente tinham acabado de sumir.

Ambos subiram no pequeno palanque e receberam do supervisor o cartão da chave de portal e aguardaram a contagem mágica no mesmo chegar a zero. Logo em seguida a chave se ativou e Harry e Ron viram o cenário da Divisão de Viagens e Transportes sumir a volta deles, e poucos segundos depois ser substituído pela escuridão.

— Mas o que... — Harry resmungou, remexendo-se no lugar somente para atestar que estava em um espaço muito apertado e que não possibilitava movimentos muito bruscos. Sentiu o casaco de Ron roçar contra a sua calça e em seguida a fraca luz do feitiço lumos banhou o local em um leve tom azulado, revelando que eles tinham sido mandados para dentro de um armário de zelador.

— O Ministério precisa escolher melhor os seus lugares de pouso. — Ron reclamou enquanto girava a varinha ao seu redor, avaliando o local.

A Harry somente restou concordar.