A Canção dos Lobos
1 I - Entardecer
Notas iniciais
A tarde chegava ao fim e o crepúsculo alaranjado pintava o céu, trazendo a divisa entre a noite e o dia. A lua já começava a aparecer no horizonte, oposta ao sol, com seu brilho prateado e puro. Estão chegando, pensou, enquanto fitava o entardecer de cima de um penhasco, acompanhado por todo o seu clã. Sua mãe, Keoni, era a única totalmente branca e possuía olhos azuis, pura da linhagem Lua Cheia. Seu pai, Karius da linhagem Eclipse, era negro como a própria noite, e possuía os olhos mais comuns dos lobos, amarelos como ouro, que contrastavam com sua negritude, dando a impressão de que eram mais dourados que os demais. Usava sua armadura de aço, que refletia a luz do sol poente e tornava-o brilhante como um farol. Sua irmã Kalia, era graciosa com sua pelagem preta, porém mais clara que a do pai, e seu irmão caçula Rori, inspirador em seu cinza escuro. Akira era o primogênito. Quase nada havia puxado à mãe, a não ser sua teimosia e temperamento explosivo. Tinha pelos praticamente tão negros como os do pai, e olhos tão dourados quanto.
–Vejam, os demais clãs chegaram — disse Karius olhando para os demais penhascos da Garganta, que formavam um círculo em torno de uma cratera cheia de água — isso significa que a Canção começará logo.
–Sim, isso é certo como a luz da lua — concordou Keoni.
Estavam todos os clãs ali. Os cinzentos da Lua Crescente, os brancos da Lua cheia, os marrons da Lua de Sangue, os amarelados da Lua Minguante, e os preto-azulados da Lua Nova. Junto com os negros do Eclipse, formavam os Seis Grandiosos, os maiores clãs de lobos das Terras de Lurion. A Canção iniciou-se assim que a noite nasceu por completo e a lua cheia ganhou seu brilho mais profundo.
Todos os lobos fitaram-na. Akira olhou-a e encantou-se. Sentiu seu brilho banhá-lo, sentiu sua majestosidade penetrar em sua alma. Cerrou os olhos e inclinou sua cabeça, uivando profunda e longamente, com toda a emoção da essência se seu ser. Ouviu-se então uma sinfonia de uivos, uma melodia de felicidade, angústia, amor e esperança, a tão esperada Canção, o mais belo dos coros.
Quando os uivos extinguiram-se, começaria então a Batalha da Lua, a disputa entre as alcateias pela supremacia sobre as demais e pelo direito de representar os lobos na Cerimônia Real, que acontecia a cada cinco anos. Assim como os demais primogênitos, Akira usava uma armadura de couro tingido nas cores de seu clã com placas de metal no peito e uma faixa na cabeça com o símbolo do mesmo, no seu caso, uma lua negra cobrindo o sol alaranjado quase completamente, e nas laterais, pelo clã de sua mãe, uma lua cheia completamente branca. Como não eram permitidas transformações por nem todos terem alcançado a ascensão, todos portavam uma espada. Todos, exceto os primogênitos, deixaram os penhascos e afastaram-se para assistir o combate.
–Boa sorte meu filho — disse Karius ao jovem lobo — honre nossa alcateia, honre nossos ancestrais.
–Siga seu coração, e boa sorte — disse-lhe sua mãe, tocando sua testa com o focinho, antes de seu clã também se afastar.
É agora, o momento pelo qual eu esperei tanto, pensou Akira, sorrindo nervosamente e desembainhando de suas costas a espada curva do Eclipse que o ferreiro de sua alcateia havia forjado para ele. Ainda não havia dado um nome a ela. Quando todos os combatentes haviam sacado suas lâminas, um uivo cortou o ar. A luta começou.
Todos deram longo salto para se encontrarem no ar. Akira mirou no primeiro lobo que pôde ver, girou a cabeça e tentou cortá-lo, mas um vulto branco passou entre eles e lhe tirou a oportunidade. Apoiou-se nele rapidamente e usou-o para dar um salto, desviando da enorme lâmina da Lua Minguante que quase o acertou. Assim que pousou, virou-se novamente para a batalha e saltou. Dessa vez acertou uma cabeçada em cheio no lobo da grande espada e o derrubou na água, assim eliminando-o. Desequilibrou-se no ar e pousou na beira do penhasco, quase caindo na cratera.
Resfolegou e virou-se para a batalha, somente para ficar boquiaberto. Saggo, o primogênito da Lua Nova, derrubou de uma só vez dois dos combatentes na água. Sobraram somente na batalha Akira do Eclipse, Saggo da Lua Nova e Maka, a primogênita do clã da Lua de Sangue. Todos se entreolharam, rosnando. Ele é habilidoso, mas eu tenho que vencê-lo.
O pálido brilho da lua era refletido pelo grande lago em que a cratera havia se tornado, iluminando-o. Agora sim começaria a parte mais crucial do combate.
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