A Canção dos Lobos
2 II - À Luz do Luar
Notas iniciais
À luz da lua, o lago-cratera brilhava como a própria. Os três combatentes restantes se entreolharam cuidadosamente, mas nenhum queria ser o primeiro a se mover. Os clãs estavam assistindo à luta, juntamente com os lobos eliminados que caíram no lago. Tanto eles quanto os combatentes que ainda estavam no embate já haviam sido feridos, seja por cortes ou pancadas. Os olhos dos que estavam nos penhascos brilhavam intensamente com o reflexo da luz lunar. Olhos amarelos de Akira, azul-escuros de Saggo e os profundos e vermelhos de Maka.
Meus maxilares já estão doendo com o peso da espada, pensou Akira suspirando. Não poderia desviar o olhar por um instante sequer, ou perderia o primeiro movimento. O silêncio durou vários minutos, e somente o sopro agudo e frio do vento o cortava. Quando será que os patriarcas vão interferir?, pensou. Sabia que em uma situação de triplo equilíbrio assim, somente uma coisa daria continuação ao combate.
E então Sunno, o grande lobo azul patriarca da Lua Nova e pai de Saggo, deu três passos à frente. Assim como todos os patriarcas, usava uma gloriosa armadura de aço que, cada um com seu formato, refletia a luz da lua. Exclamou:
–Interferência — disse ele, e todos os demais patriarcas exclamaram o mesmo...com a exceção de Karius — O que foi Karius? Tem medo de seu filho não ser bom o suficiente?
Ao ouvir tamanha blasfêmia, o grande lobo negro, que tinha pêlos que pareciam ser feitos da própria sombra, ficou aparentemente furioso. Seu rosnado ecoou pelas planícies ao redor da Garganta, seus dentes, brancos em contraste com si e com a noite, brilharam como aço ao reflexo da lua e seus olhos, amarelos como ouro líquido, foram iluminados por um súbito feixe de luz.
–Interferência...- gritou em voz profunda e firme — ...mas se houver algum motivo para eu desconfiar de você e da sua cria, vão pagar caro.
Akira e Maka se surpreenderam por seus progenitores terem aceitado uma interferência espiritual na luta, pois todos sabiam que seria injusto. Os descendentes da Lua Nova eram abençoados pela própria noite com habilidade exímia em magia. Era a mais clara injustiça. Transformações facilmente poderiam reequilibrar o conflito, porém poucos primogênitos tinham um bom controle sobre ela. Malditos trapaceiros da Lua Nova. Não surpreende serem iluminados pela lua negra.
E então Saggo se movimentou. Pôs-se agilmente em uma posição rígida e ganhou nos olhos um brilho azul, escuro como a própria noite. As sombras começaram a dançar ao seu redor, e ele rapidamente pareceu completamente revigorado, curado e pronto para lutar. Era uma Magia de Aprimoramento.
Maka, vendo a cena, rapidamente saltou em direção a Saggo. No ar, seus olhos brilharam vermelhos como faróis de sangue, e sua fina e longa espada da Lua de Sangue ganhou o mesmo brilho, e imediatamente pôs-se em chamas. Tentou dar-lhe um golpe, mas Saggo o parou com sua lâmina. Lançou-a um olhar de pura troça e deu uma risada sarcástica:
–Ora, vejam só, a primogênita do "grandioso" clã da Lua de Sangue, dos guerreiros que transformam e manejam suas espadas como parte da própria alma, cairá perante a minha magia.
Com uma gargalhada, Saggo afastou-se. Ele moveu-se para trás e desapareceu nas sombras. Isso é impossível, mesmo podendo manejar a escuridão desde simples filhotes, alguém da Lua Nova não devia possuir tanta habilidade nessa idade, surpreendeu-se Akira, antes de perceber o que havia começado a acontecer bem à frente de seus olhos. Saggo simplesmente apareceu atrás de Maka e a golpeou com o cabo da espada no meio das costas. A jovem caiu, e quando se levantou, ele havia sumido novamente. Começou então a golpeá-la de várias direções diferentes, desaparecendo e reaparecendo seguidamente, até que ela ficou tão acabada que quase não conseguia manter-se de pé, e suas pernas tremiam. A mãe de Maka gritou:
–Pare seu filho, Sunno. Ele está passando dos limites, a garota já foi derrotada — mas Sunno limitou-se a dar-lhe um pequeno sorriso.
–Pare agora! — exclamou Jaiko, o pai de Maka, mas o grande lobo azul nada disse.
Saggo então parou, admirando como havia espancado a loba. Começou a sorrir e dirigiu-lhe a palavra:
–Vamos ver agora como uma grande guerreira consegue lutar sem uma das patas — disse Saggo, olhando-a com desprezo e loucura — Acho que infelizmente você nunca mais vai lutar, hahahahahaha.
Saggo, agora louco com o poder, ergueu sua pálida e grossa lâmina, mirando para decepar uma das patas de Maka. Num piscar de olhos, a lâmina se moveu, rumo ao destino de mutilar a pobre espadachim...até que parou repentinamente, enquanto Saggo urrou de dor, devido a uma mordida de Akira em seu pescoço.
Akira, que havia deixado sua espada longe de si para morder o inimigo, empurro-o para a cratera, esperando afastá-lo da vítima, mas as sombras que envolviam Saggo deram-lhe habilidade o suficiente para alcançar um penhasco próximo.
–Ela já está vencida, seu miserável — exclamou o jovem lobo negro — onde está sua honra?
Saggo começou a gargalhar, com as sombras cobrindo o seu corpo todo:
–Quem é você para falar sobre honra? Vem de um clã que guarda o poder do Eclipse, mas que ninguém é capaz de usá-lo. Vocês são os que menos honra tem entre todos nós, e não ganham nenhuma Batalha da Lua há séculos — seus olhos agora brilhavam mais intensamente, e ele tinha uma expressão de maníaco — acho que vou ter que derrotar o verme antes da guerreira...
Saggo então saltou sobre ele como um raio de sombra. Com sua espada, tentou cortar as quatro pernas de Akira, mas ele fez um movimento rápido e desviou. Seus olhos agora também brilhavam, com uma luz amarela. Como estava desarmado, deu uma cabeçada em Saggo, e enquanto viu-o zonzo, deu-lhe um golpe no lado esquerdo do corpo, e uma marca dourado ali ficou. Essa era a brilhante Magia de Marcação do Eclipse. Akira pôs-se então a desferir-lhe vários golpes, deixando o corpo do oponente cheio de marcações.
–Sua "magia" nada pode contra mim, lobo do Eclipse. Até agora, somente senti leves cócegas — disse Saggo com sarcasmo. Mas notou tardiamente o sorriso brincando nos lábios de Akira, que velozmente pegou Maka, colocou-a em cima de si e correu em direção ao clã da Lua de Sangue. Tentou perseguí-lo, mas estava preso ao chão, e num instante sentiu a magia começar.
Cada marca começou a brilhar e de repente explodiu como um golpe fantasma naquele local. Uma após outra, as marcas golpearam Saggo, e ele foi jogado no lago da cratera quando recebeu o último golpe no peito.
Akira levou Maka para sua alcateia, e todos os demais clãs já estavam lá reunidos para recebê-los.
–Ela está bem, senhora — disse Akira à mãe da jovem, que lhe agradeceu. Mas então, todos ouviram uma risada maléfica vindo da Garganta.
Flutuando em pleno ar, sustentado pela magia de suas sombras, começou a ir na direção dos clãs.
–Chega — Karius gritou. Estava transformado, mesmo ninguém tendo notado sua Transformação. Em um momento estava junto dos outros, e em outro estava correndo, praticamente cara a cara com Saggo, que mostrou surpresa com os olhos.
–Como...? Isso é impossível... — disse, um momento antes do enorme lobo negro com armadura de aço, que após a transformação se tornou bípede, dar-lhe um golpe na barriga. Saggo foi lançado a dezenas de metros de distancia e, quando bateu de costas em uma montanha, abriu nela uma cratera. Abriu os olhos rapidamente, desesperado, procurando por sua espada, mas em uma fração de segundo, Karius estava em sua frente.
–Nunca mais desafie um patriarca — disse, tocando-lhe a testa e deixando nela uma marca. O jovem lobo azul desmaiou instantaneamente.
Akira ficou aliviado, até que sentiu algo de errado. Onde está o clã da Lua Nova? Percebeu tarde demais o movimento de um enorme vulto azulado. Suas vistas se escureceram com o golpe que levou.
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