A Canção de Morgana

23 Verde é a Cor do Carma


Notas iniciais
Seguindo minha nova resolução de meio de ano, atualização em tempo record :) Nem vou colocar resumo hoje, que o cap anterior deve estar fresco! Boa Leitura!

— O seu cabelo! Como fez isso? – Draco saiu do personagem, olhando para ela impressionado.
Bervely puxou uma mecha de cabelo do topo da cabeça e a trouxe até a frente dos olhos.
Para a sua surpresa ele estava amarelo, da cor exata de uma pétala de girassol.
— E a sua pele! Uau! — Draco exclamou de novo, se equilibrando em cima do tronco para vê-la melhor.
Bervely olhou para baixo e deu um gritinho horrorizado.
Acabara de assumir o tom esverdeado que tinham as fadas de companhia.
Draco se assustou com o grito e caiu do tronco, desabando no meio do lago com um grande splash e encharcando todo mundo.

(Indigna Rosa Negra, capítulo 11)



O dia seguinte à festa do S.E.M.T.A.H. aconteceu de ser um sábado. Harry acordou cedo, antes mesmos dos outros colegas de dormitório, com o peito leve de um jeito que ele não vinha sentindo há muito tempo.

Desde que Sirius voltara do véu e lhe entregara o punhal, percebeu. Fazia tempo que não pensava na coisa – decidira mantê-lo bem guardado em um esconderijo seguro enquanto não sabia o que fazer com ele. Vez ou outra ainda tinha os pesadelos perturbadores em que precisava usá-lo para apunhalar Voldemort, e acabava coberto por um sangue negro como tinta, mas também esses aconteciam de forma cada vez mais esparsa. Por fim, ele comentara com Dumbledore sobre a visão de Anne, e sua opinião de que o punhal fora enviado pela feiticeira Morgana há mil anos, e o diretor não tinha parecido preocupado ou impressionado, o que fez Harry deixar o assunto de lado por hora. Como bem sabia, esse tipo de resposta tinha um jeito de chegar até ele eventualmente; enquanto isso, ia continuar vivendo a sua vida.

Aprendendo sobre o passado de Voldemort, por exemplo. Tentando entrar em termos com a sentença da profecia, “um não pode viver enquanto o outro sobreviver”. E nas horas vagas, estudando para os testes e tentando ganhar a Copa de Quadribol aquele ano. Ao que tudo parecia, ele estava “vivendo” em concomitância com a sobrevivência de Voldemort. Em manhãs ensolaradas e bonitas como a daquele sábado, Harry se perguntava se a profecia poderia estar errada. Talvez profecias prescrevessem se não eram cumpridas depois de um certo período de tempo. Talvez elas mudassem de ideia…

Não era como se ele tivesse desistido de combater Voldemort, nem nada assim. Mas desde o verão, quando o bruxo pareceu desistir de capturá-lo, Harry tinha a impressão de que ele estava seguindo agenda própria, e deixado-o um pouco de lado. Será que se Voldemort desistisse de acreditar na profecia, a profecia desisitira deles?

Todas essas eram perguntas que ele não fazia em voz alta. Os seus amigos não tinham a resposta, e além do quê, tinham reações específicas toda vez que Harry mencionava a predição de Sibila. Hermione tentava colocar panos quentes nos fatos. “Sabemos como profecias são imprecisas, Harry”, ou “vai ver as coisas se resolvam de outro jeito e essa parte não precisa ser cumprida, não é como se estivesse escrito em pedra, na verdade nem está escrito em lugar nenhum, não é mesmo?”

Rony tinha outro tipo de reação à profecia: ele ficava calado, mas um horror e incômodo crescente se acendia em seus olhos quando Harry persistia no assunto. Sempre que tinha a oportunidade, mudava o assunto para qualquer coisa que fosse, até mesmo dever de casa.

Harry também não voltara a discutir a profecia com Dumbledore, temendo que o diretor viesse com mais analogias esportivas sobre o destino, nem com Sirius, a quem queria preocupar o menos possível com assuntos incômodos. O padrinho parecia estar se recuperando do véu, ainda que lentamente, e Harry imaginava que o retorno de Bervely estivesse ajudando nisso, ao menos lhe dando um pouco de paz. E depois, parecia que ele estava tendo alguma coisa com a bonita dona do Três Vassouras, Mme. Rosmerta. Ele a tinha visto ao visitar a Casa dos Gritos depois do retorno de Bervely, e na festa da noite anterior, os dois pareciam bem cúmplices dividindo o serviço de bebidas n’O Aspirador. Bem, melhor para ele, não era? Não conseguia pensar em ninguém que merecia um pouco de diversão do que Sirius.

Acordado antes dos colegas e relativamente feliz para a média dos últimos meses, o garoto vestiu um dos suéters Weasley da sua coleção (o que tinha um leão estampado no peito) e decidiu ir até o corujal antes de descer para o café da manhã. Queria enviar uma carta à Gina para perguntar como ela estava indo, pois já não tinha notícias da sua recuperação há algumas semanas. Em sua última correspondência, ela tinha mencionado um tratamento com saliva de dragão que parecia promissor para curar os ferimentos do seu acidente no verão, e Harry queria saber se tinha funcionado e se a garota estaria de volta em breve. Ele sentia um frio na barriga ao pensar nela, algo no meio termo de ansiedade e excitação, e ainda não sabia como ia explicar a Rony que gostava da sua irmã caçula. Talvez devesse esperar para ter Gina ao seu lado quando desse a notícia ao amigo, afinal ela era muito boa naqueles feitiços que faziam crescer tentáculos e Rony pensaria duas vezes antes de partir para o lado físico.

Depois de passar um tempo coçando as penas de Edwiges e lhe dando petiscos de uma lata que ele tinha comprado em Hogsmeade na última visita, Harry amarrou sua carta para Gina no pé da coruja e a assistiu voar para o oeste. Dali de cima ele avistou a fumacinha saindo da cabana de Hagrid e fez uma nota mental para passar lá mais tarde; vira o amigo fantasiado de hobbit na festa, mas não tivera muito tempo para falar com ele antes de seguir à casa seguinte.

Harry decidiu que, ao invés de ir para o café da manhã, ia desviar do seu caminho até os terrenos da escola e aproveitar a calmaria para voar. Como esperava, o campo de quadribol estava vazio num sábado tão cedo, e ele tinha uma reserva para o treino no resto daquela manhã, o que significava que ninguém deveria incomodá-lo.

Era uma típica manhã de início de dezembro: o céu estava esbranquiçado e o sol, claro e alto, não provia muito aquecimento a quem estava no chão. Mas, depois de semanas de ventania, o ar parado favorecia o vôo, de forma que Harry conjurou a sua Firebolt usando a varinha e esperou que ela deslizasse do dormitório masculino da torre da Grifinória até as suas mãos.

Ainda hoje, a Firebolt era um dos seus pertences mais preciosos. Não por causa do valor, embora custasse uma pequena fortuna, mas pelo que significava. Fora o primeiro presente que se lembrava ter ganhado de Sirius, antes mesmo de saber que ele era o seu padrinho. Era uma vassoura excelente, mantendo sua precisão, estabilidade e velocidade mesmo após aqueles três anos de constante uso. O último lançamento da Nimbus, a Nimbus 2007, nem chegava aos pés da Firebolt. Harry lera uma comparação entre as duas na última edição de O Balaço e ficara bastante satisfeito com o resultado, embora não surpreso.

Ele subiu na Firebolt e deu o leve impulso de costume, como sempre tendo a impressão de que a vassoura lia seus pensamentos. Após anos voando juntos, sentia que a Firebolt aprendera a antecipar seus movimentos, porque parecia que ela era ainda mais precisa do que quando a ganhara em seu terceiro ano. Os arcos, desvios e espirais que ele fazia no ar se desenhavam com precisão tamanha que era como se a vassoura fosse sozinha, acostumada aos ângulos e comandos das mãos e do corpo de Harry. Às vezes o garoto achava que não havia ninguém que o compreendesse tão bem quanto a sua Firebolt. Devia ser interessante ter aquele nível de intimidade com uma pessoa, ele pensou. Conhecer tão bem os movimentos e intenções um do outro que, quando estavam juntos, era como se fossem um só. Ele se perguntou se era algo como dançar, quando um casal era realmente, realmente bom nisso… conhecendo-se tão bem que deslizavam como um só por um salão, do mesmo jeito que ele costurava o ar com a Firebolt…

Lá no alto e tão perdido nos próprios pensamentos, Harry demorou a se dar conta de um pontinho negro atravessando o gramado. Ele estreitou os olhos para identificar quem estava perturbando a sua paz às oito da manhã de um sábado, e percebeu que era Anne, a reconhecendo pelo balanço do cabelo negro quando ela o puxou para cima do ombro. Ela olhou para cima e sorriu para ele; estava sem os óculos escuros, os olhos refletindo o sol.

Ele acenou de volta mas continuou costurando o céu do gramado, repetindo manobras, curvas fechadas e súbitos desaceleramos como os que precisava fazer durante os jogos, só para se manter aquecido. Com o canto dos olhos, viu que ela tinha se acomodado em um dos bancos de madeira que ficavam à beira do gramado e acompanhava seu ir e vir lá no alto. Harry só parou quando estava suando dentro do suéter, que se tornara quente demais com todo aquele exercício. Ele inclinou a vassoura para baixo e desceu na direção de onde ela estava, pousando a alguns metros do banco.

— Bom dia, Harry — ela disse sorridente. Usava em torno do pescoço um cachecol azul e bronze, as cores da sua antiga casa. Ela viu o suéter dele e achou graça — Hum, parece que alguém ainda não superou seu momento leonino da noite passada.

— Acho que ser leão me cai bem. Vou adotar para a vida — ele brincou, ainda um pouco ofegante pelo vôo, sentando ao lado dela. — Como me achou aqui?

— Por que, você estava se escondendo? — Anne riu. — Você deve saber que voar num campo vazio com um suéter vermelho não é o melhor dos disfarces.

— Ahá. O que é isso? — Harry apontou para uma cesta ao lado dela, sobre o banco, que estava coberta por um guardanapo branco e cheirava deliciosamente. A menina devolveu a pergunta com um sorriso maroto.

— Café da manhã. Quer um bolinho?

— Eu nunca digo não para um bolinho.

Ela dividiu com ele os bolinhos de amora que trouxera dentro da cesta, bem como o suco de maçã fresco dentro de uma garrafa grande de vidro. Harry não tinha notado enquanto voava, mas na verdade estava bem faminto.

— Tem treino hoje? Cadê o resto do time? — Anne puxou conversa.

— Adiei o treino com o time inteiro para mais tarde, vou praticar só com a Katie antes para ajudá-la a voltar a forma.

— O próximo jogo é em duas semanas, não é? Acha que ela vai ter tempo?

— Não tem outro jeito. A Corvinal é um time bem mais competente do que a Sonserina, não podemos nos dar ao luxo de jogar com uma artilheira a menos. — Harry olhou para ela, curioso considerando o sua escolha do dia para cachecol. — Pra quem você vai torcer?

— Ainda não decidi. Quem estiver jogando melhor, eu acho? — Ela deu risada.

— Isso é muito conveniente, não é mesmo? — Harry retrucou em falsa reprimenda.

Os dois estenderam a mão para o último bolinho da cesta ao mesmo tempo, fazendo com que as costas dos seus dedos se tocassem. Harry sentiu os pêlos dos braços se arrepiarem e puxou a mão rápido, mas se arrependeu em seguida porque ela o olhou de um jeito estranho.

— Pode comer o último se quiser.

— Não, come você. Eu insisto.

— Tá certo — Anne pegou o bolinho e deu uma mordida, sujando o canto da boca com recheio de amora, que ela lambeu de forma despreocupada sem se dar conta de que ele estava encarando. Ela mastigou e engoliu, depois continuou a falar — Então, aconteceu uma coisa estranha ontem quando eu estava indo para a festa.

— É mesmo? O quê? — Ele começou a se preocupar. Coisas estranhas eram sinônimo de coisas ruins nos últimos tempos.

— Eu consegui ver a trilha de tijolos amarelos.

— Ah, então apareceu pra você também? Achei que diferentes coisas tinham aparecido para cada pessoa… Neville disse que seguiu um balão vermelho pra chegar lá.

— Acho que vimos a mesma coisa porque nossas fantasias faziam parte da mesma história — ela comentou. — Mas essa não é a questão. Você não estava por perto, chegamos na festa antes de vocês e não nos encontramos até aquela hora n’O Aspirador, lembra? Mas mesmo assim, eu consegui ver a trilha.

— Oh. Oh –– Harry se virou, surpreso. — Então você não precisa mais de mim para…? — ele indicou os olhos dela com um movimento da mão. Anne deu de ombros.

— Parece que não. Hoje quando eu acordei também estava enxergando e continuei enxergando quando passei pelo salão principal, mesmo você não estando lá.

— Hum. Mas isso… isso é bom, não é? Que você está curada mesmo sem precisar de mim.

— É — ela umedeceu os lábios devagar, seus ombros caindo um pouco. — É bom, eu acho. Você não precisa mais fazer plantão na frente da sala de Snape quando eu tiver teste de poções. Nem sentar comigo para ajudar no dever de Defesa quase toda noite.

Harry ficou calado, remoendo aquela informação que o pegara de surpresa com um sabor muito mais amargo do que deveria. Circunstâncias misteriosas à parte, deveria estar feliz por ela ter recuperado sua autonomia visual – e bem, parte dele estava – mas outra a parte dele, a que se sentia importante para ela porque podia ajudá-la com seus deveres, não estava dando pulos de alegria por ter se tornado desnecessária.

— Você falou com Mme. Pomfrey? — Harry perguntou, só porque queria continuar o assunto antes que o silêncio ficasse esquisito. — Talvez ela tenha alguma explicação para sua cura misteriosa.

— Não, ela iria querer saber o que a causou para começo de conversa e seria uma longa história. Vou mandar uma carta para tia Andie, foi ela quem me tratou logo depois do acidente, e vou dizer a ela que a minha visão voltou completamente. Não vou mencionar que você teve parte nisso, se eu falar ela vai querer investigar à fundo e vai acabar fazendo um fuzuê no seu dia.

— Mas eu não tive parte nisso, tive? Não fiz nada demais, só apareci na sua vida — ele retrucou com um ligeiro mau humor. Anne no entanto deu um sorrisinho cínico de lado.

— E você acha isso pouco? Você apareceu na minha vida e dali a pouco eu estava puxando meu próprio pai para fora do véu, sem falar no punhal enviado por Morgana em pessoa, a profecia… a coisa estranha da legilimência entre a gente — completou abaixando a voz. — Você virou tudo ao avesso, Harry.

— Desculpa. Eu tenho esse efeito na vida das pessoas — Harry admitiu com melancolia, pensando nos pais. Será que eles não estariam vivos, se não fosse por ele ser o garoto da profecia? E Sirius nunca teria ido preso… e seus amigos, todos os perigos em que os tinha colocado nos últimos anos só por ser Harry Potter, o planeta em torno do qual todos os problemas, perigos e ameaças gravitavam?

— Eu não quis dizer isso de um jeito ruim — ela corrigiu. — O avesso às vezes era o lado certo o tempo todo.

Harry percebeu que ela sorria marota, mordendo o lábio inferior. Ele não conseguiu evitar sorrir de volta, pego pelo brilho incomum daqueles olhos com aros de prata.

— Você soa como Luna — ele provocou. — Acho que está andando demais com ela.

— Luna me ensina muita coisa. Andar com ela nunca é demais.

Harry riu pelo nariz, assentindo.

— Concordo.

— É bom ver você sorrir — ela disse do nada. Harry se sentiu um pouco sem ar, com o rosto quente, apesar de ter estado com frio desde que sentara ali e o sangue esfriara. Ela ainda sorria lhe olhando com intensidade, o que o deixou sem jeito. O coração dele começou a disparar e a sua barriga foi ficando esquisita.

— Você tem recheio de amora na bochecha — ele se viu dizendo, na falta de algo melhor.

Anne assentiu sem tirar os olhos do rosto dele.

— Obrigada por informar.

— Não, é sério. — Não sabia porque estava insistindo naquilo. Quem se importava? Era só um pouquinho de geleia. Mas ali estava ele, persistindo no assunto. — Bem no canto esquerdo, perto da boca.

Anne suspirou.

— Quem diria, Harry Potter, um recheiofóbico.

Anne ergueu a mão para limpar o rosto, quebrando o contato visual e dando a ele chance para tomar um fôlego. Foi quando Harry avistou Katie se aproximando, vindo da direção do castelo. A garota acenou para ele com energia.

— Hey, Harry! Desculpe o atraso. Trouxe alguém para assistir o treino, espero que não tenha problema?

Logo ao lado dela vinha Oliver Wood, trazendo a vassoura de Katie em uma mão e segurando a mão dela com a outra. Oliver acenou para ele e depois que enxergou Anne sentada logo ao lado, seu sorriso cresceu:

— Jojô!

— Oli! — Anne saltou do banco e correu para abraçá-lo. Oliver soltou a mão de Katie e passou os dois braços em torno dela, plantando um beijo no topo de sua cabeça, o que era fácil já que ele era no mínimo vinte centímetros mais alto que a garota. Harry sentiu uma onda inesperada de revolta. Quem Oliver pensava que ele era para segurar Anne daquele jeito, como se ela fosse da família ou algo assim?

“Mas você também não é”, retrucou a sua consciência ardilosa, aquela que soava como Hermione em seus piores dias.

— Você se importa se eu ficar para assistir, Harry? Katie me pediu para dar uma olhada na técnica de vôo dela e passar umas dicas, não que eu ache que eu vá ter algo a dizer, ela sempre foi uma exímia pilota — Oliver disse ao soltar Anne, mas ainda com um braço sobre o ombro dela como se tivesse o esquecido lá e ela não se importasse.

— Uh… não, tudo bem — Harry assentiu rígido, lutando contra o impulso de chutar o braço de Oliver dali de cima.

— Eu posso ficar com você nas arquibancadas! Assim colocamos a conversa em dia — Anne sugeriu feliz. Oliver assentiu. Todo mundo estava feliz, a não ser por Harry, que via o seu bom humor escorrendo ralo abaixo sem que pudesse fazer nada.

— Ótima ideia — Oliver concordou. — Vamos para o da Grifinória, é o que tem a melhor vista.

— Nah, o da Corvinal oferece o melhor ângulo para os aros — Anne discordou.

— Mas o da Grifinória tem as melhores cores — Oliver disse em tom de fim de conversa, fazendo Anne rolar os olhos. Ele virou para Katie e plantou um beijo em sua bochecha, lhe entregando a vassoura. — Bom treino, amor, vou estar bem ali se precisar de mim. Divirta-se. E Harry, estou curioso para ver a sua pegada como capitão!

— Ah, é. Certo!

Oliver e Anne tomaram o caminho da arquibancada cochichando um com o outro; Harry notou que a garota não olhou para trás uma segunda vez.

— Uh… Harry? Podemos começar? — Katie chamou impaciente.

— Hum? Sim! — Harry sacudiu os pensamentos intrusos, cuidando de se focar no treino. Ele estendeu a mão e a Firebolt veio flutuando obediente para a sua palma, lhe consolado um pouco.

— Ótimo — a garota exclamou feliz — Parece que faz séculos desde que subi em uma vassoura!

— BD –

Oliver e Anne pegaram os melhores lugares do camarote vazio, bem no topo onde a professora McGonagall costumava sentar, bem perto do assento do comentarista designado caso precisasse lhe puxar as orelhas. Havia mais vento ali em cima, mas por sorte ela tinha trazido o seu antigo cachecol da Corvinal cujo feitiço de aquecimento ainda estava bom, e era grande o bastante para enrolar em torno dos ombros como uma echarpe. No tempo que tinham levado para subir os oito lances de escada, Harry e Katie já estavam no céu. Harry arremessava a goles em diversas direções para Katie pegar, como parte do aquecimento.

— Então — ela cutucou Oliver no braço, já que o garoto parecia hipnotizado pela visão dos dois voando — Você e Katie-do-time, uh? Desde quando isso tá rolando?

Ele deu uma olhadinha rápida para ela e ergueu de novo a cabeça, ganhando tempo.

— Desde o verão, mais ou menos. Depois do aniversário dela de dezessete. Ela meio que… me pediu em namoro como seu presente de aniversário.

— Ela pediu? Que atrevimento — Anne fez uma careta. — Por que você aceitou?

Ele franziu para a pergunta.

— Sei lá, eu gosto dela, eu acho.

— Uau — Anne estalou, crítica. Oliver soltou um muxoxo e virou o rosto para ela, resistente.

— “Uau” o quê? Ela é legal! Nós somos amigos desde que me lembro. Ela disse que sempre gostou de mim. E ela não tem frescura, bem tranquila de se conviver, temos ótimas conversas…

— Sobre quadribol?

— Sim, também sobre quadribol — Ele estreitou os olhos para a garota mais nova. — Por que você está implicando com a Katie agora?

— Eu não estou! Ok, talvez eu esteja um pouquinho — Anne afastou do rosto um cabelo que tentava entrar no seu olho à mando do vento. Lá no campo, Harry e Katie tinham trocado de lugar e ele agora estava indo defender os aros. — Só que quando você fala nela, não vejo nenhuma faísca em seus olhos.

Oliver ergueu uma sobrancelha para ela:

— E porque você está procurando faísca, hein?

— Você sabe o que eu quero dizer. Quando você falava da minha irmã para alguém, só faltava incendiar quem estivesse ouvindo. E quando estava falando com ela, acho que incendiava mesmo — ela deu uma risadinha, mas viu o ex-capitão da Grifinória cruzar os braços.

— Essa faísca que você via era minha alma sendo queimada em fogo lento, Johanne — Oliver deu uma olhada de relance para ela, como que para averiguar se poderia mesmo falar o que tinha em mente. — Você já é grandinha o suficiente pra entender. Sua irmã é uma montanha-russa. De cabeça pra baixo. Sem barra de proteção e sem carrinho.

Anne torceu a boca mas não teceu comentários à respeito, até porque sabia que Oliver não estava errado, o que quer que fosse uma montanha-russa. Merlin era testemunha de que ele fizera o impossível para ficar com Bervely na época da escola, só para no final ela ir embora da Inglaterra e deixá-lo a ver navios. Não podia culpá-lo por estar com Katie-do-time, em busca de um passeio tranquilo.

Mas ainda assim…

— Posso perguntar só mais uma coisa?

— A última, e vamos parar de falar sobre a minha vida amorosa — ele sentenciou, impaciente. — Há assuntos mais interessantes.

— Você viu Bervely ontem na festa?

— Sua irmã estava na festa? — Oliver piscou com inocência, mas com um olhar severo de Anne, ele arrefeceu. — Sim, lógico que vi. Ela estava verde e fumegando pelas orelhas, impossível passar despercebida.

— E quando você a viu, não sentiu nada? Nadinha? Nem umas cosquinhas debaixo do umbigo?

— Você é impossível — ele fez esforço para não rir. — Eu fiquei bem chocado por ela estar bem, na verdade. A última coisa que soube foi que ela estava desaparecida depois do que aconteceu em Azkaban, dada como morta pelo Ministério.

— Mas e depois que o choque passou? — Anne insistiu, sem deixar que ele fugisse da pergunta. Oliver pensou, esticou as costas para trás, coçou a nuca… e deu mais um suspiro.

— Eu precisava seguir em frente e é o que estou fazendo. Bervely sempre teve e sempre vai ter coisa demais acontecendo e eu… eu não gostava de ser mais uma “coisa” acontecendo. Hey, por que eu estou dizendo isso tudo pra você? — Ele se interrompeu, resignado. — Você é a irmãzinha adorável da minha ex problemática, não devia estar ouvindo nada disso!

— São os meus grandes olhos persuasivos. Faz as pessoas sentirem uma necessidade inevitável de desabafar seus segredos mais profundos — ela lhe confidenciou em tom secretivo.

— Isso, ou você borrifou poção da verdade em cima de mim quando eu não estava olhando. Hum!

Eles pararam para acompanhar a evolução de Harry e Katie lá em cima. Harry estava parado no ar com a varinha em punho, enfeitiçando duas goles para atravessarem os aros em uma sucessão rápida, enquanto Katie se desdobrava para defendê-los ao mesmo tempo. Anne percebeu que ela era rápida, provavelmente porque era leve e pequena, mas também tinha força nos braços para desviar as goles e manobrar a vassoura com precisão, duas qualidades que raramente se acumulavam em uma única artilheira.

— Então você seguiu em frente — Anne concluiu, sem olhar pra ele. — E se a Bervely não tiver seguido?

— Oh, ela seguiu — Oliver retrucou tentando soar casual, mas houve um azedume lá no fundinho de sua voz que Anne captou — Ela arranjou um “amigo” na noite passada.

— Ela arranjou? — Anne se surpreendeu. — Quem?

— Não sei, um cara alto de cartola. Eles saíram juntos da sala precisa logo no começo do show do Toquinho, eu os vi do topo da colina quando olhei pela janela da Casa dos Doces.

— Tem certeza que era ela?

— Ela estava verde, sim, é claro que eu tenho certeza.

— E ciúmes... — a menina completou cantarolando, sorrindo pra ele.

— Rose faz o que quiser da vida dela. Só espero que ela saiba onde está se metendo, era um tipo bem suspeito — ele disse de cara fechada.

Anne ficou pensativa, acompanhando Harry e Katie sem prestar atenção no que via. Nem imaginava com quem a irmã tinha saído da festa, talvez algum conhecido dos tempos de escola? Havia uma meia dúzia de ex-alunos lá na noite passada, pelo que ouvira Hermione comentar. Como Oliver, ela esperava que a irmã soubesse o que estava fazendo e não arranjasse problemas para si mesma, afinal acabara de se livrar de suas acusações e de se recuperar dos danos de Azkaban.

De tão distraída, Anne deu um pulo quando Oliver lhe devolveu o cutucão no braço, em seguida soltou uma exclamação indignada.

— Sua vez de responder ao inquérito. Vai me contar ou não como conseguiu enxergar de novo? Pelo que eu soube, quando você voltou para Hogwarts esse ano ainda estava cegueta.

Ela pensou como poderia explicar para Oliver sem mentir.

— Eu mesma não sei como aconteceu. Primeiro eu comecei a ver só em algumas circunstâncias específicas, então não contei pra ninguém, achei que podia ser temporário. Mas agora parece que voltou em tempo integral…

— Esquisito… Já ouvi falar de traumas mágicos que se curam sozinhos com o tempo, com a mágica da própria pessoa, será que foi isso?

Anne deu de ombros — mas não, não achava que era isso. Tinha bastante certeza que sem um “milagre Potter” ela teria continuado cega como um verme-cego para o resto da vida. E por falar no garoto, ele tinha deixado Katie lá em cima e vinha voando na direção dos dois, a Firebolt tão rápida que ao cortar o ar provocava um silvo. Harry desacelerou no último segundo e posou com precisão ao lado deles, na plataforma da arquibancada. Estava todo suado, o rosto vermelho do esforço, mas parecia tão em seu ambiente natural quanto alguém poderia parecer.

— Oliver, já que você está aqui, não quer se juntar à nós? Se você assumir os aros, eu posso artilhar com Katie e treinar alguns passes.

— Ah, boa ideia, Harry! — O rapaz exclamou sorridente, já se levantando, o que fez Anne imaginar se ele não estava esperando esse convite o tempo todo — Vou pegar a minha velha Shooting Star no vestiário, deixei ela como doação para Hogwarts antes de ir embora, espero que ainda esteja lá! Ah, isso vai ser ótimo, como nos velhos tempos! — Ele ia descer as escadas, mas se virou de súbito para a Anne — Você vem com a gente?

— Nah, vou assistir daqui. Ou então vou voltar para o castelo, está ficando meio frio.

— Não, eu quis dizer jogar com a gente!

Ela negou, achando graça do que só podia ser uma piada de Oliver.

— Eu não vôo desde do meu primeiro ano em Hogwarts, se lembra?

— Lembro, e também lembro que você voava bem e tinha uma pontaria certeira. Não se preocupe, é como andar de bicicleta, uma bicicleta sem rodas e voadora, mas ainda assim. Anne queria competir por uma vaga de artilheira da Corvinal no segundo ano — ele disse para Harry à guisa de informação — Eu estava disposto a treiná-la mesmo ela sendo da outra casa. Se não fosse o acidente…

— Oliver — Anne chamou, começando a ficar sem graça especialmente porque Harry estava fazendo uma cara estranha. — Tudo bem, eu vou só ficar assistindo. Não quero estragar o treino de vocês. Sério.

— Não, pode ser uma boa idéia — disse Harry de repente. — Três artilheiros é melhor do que dois, afinal de contas. Maior flexibilidade de manobras.

Isso a deixou sem fala. Harry queria que ela treinasse com eles?

— Você nunca nem me viu voar — disse baixo pra ele, mas Harry deu de ombros.

— Confio no Oliver, se ele diz que você sabe voar, então você sabe.

— Ótimo! Vou pegar vassouras pra gente, te vejo lá embaixo.

Oliver saiu pelas escadas todo contente, tão feliz de poder jogar com amadores num time de escola que nem parecia que era o goleiro de um time de renome internacional como o Puddlemere United. Quando o som de seus passos ficou abafado, Anne arriscou olhar para Harry, afastando o cabelo que o vento insistia em jogar na frente do seu rosto.

— Não se preocupe! Isso vai ser ótimo — ele disse com um sorriso febril, o verde dos olhos queimando. Ela não tinha certeza se ele estava pensando direito ou totalmente embriagado pela adrenalina do treino correndo em seu sangue, mas Harry parecia elétrico, cheio de confiança, tanto que ela até ousou acreditar nele.

— Ok… capitão Harry — disse, experimentando o título pela primeira vez.

Harry passou uma perna pela Firebolt e deu uma piscadela para ela, depois um impulso com os pés, e saiu deslizando pelo ar:

— Te vejo lá em cima.

— BD –

Havia um peso sobre seu estômago quando Bervely abriu os olhos no dia seguinte à festa secreta de Halloween. O quarto estava mergulhado na mais profunda penumbra, mas ela tinha a sensação de que dormira demais.

O peso em seu estômago era um braço. O dono do braço estava deitado ao seu lado, sem se mover ou respirar.

Vampiros dormiam?

Se inclinando para o lado com cuidado, alcançou a própria varinha que deixara ao lado da cama num montinho junto com as suas roupas. Fez um feitiço não verbal para que a varinha lhe mostrasse as horas: era quase meio dia.

Merda.

No quarto nas masmorras em que passara a noite – o seu antigo quarto de monitora-chefe – não havia janelas para o lado de fora que deixassem a luz da manhã entrar quando amanhecia. Antigamente, ela costumava usar um feitiço-despertador para não se atrasar para as aulas, e mais tarde, quando Jinx se mudara com ela, o gato lhe acordava com lambidas ásperas no cotovelo toda manhã. Na noite anterior não lhe ocorrera programar um feitiço despertador, entretida como estivera com outros assuntos…

Bervely se desvencilhou do braço do Mágico com cuidado e escorregou as pernas nuas para fora da cama. Acendeu uma luz fraca na ponta da varinha e a usou para vestir as próprias roupas, que tinham retornado ao seu formato original em algum momento durante a noite. Ela sentiu que o cabelo tinha voltado ao tamanho anterior, bem curto deixando a nuca exposta, e suspirou aliviada; até cair do sono lembrava de ter estado verde, e temera que o feitiço do trouxapéu ficasse grudado nela para sempre.

Uma vez vestida, ela deixou a cama e foi atrás dos sapatos, tateando pela semi-penumbra do quarto. Achou um perto da porta, outro jogado atrás da poltrona. Se sentou nela para se calçar e arriscou uma olhada para a cama que abandonara.

O Mágico estava deitado sobre a barriga, o rosto semi-oculto pelos cachos negros que ela descobrira serem macios como algodão e carregarem um cheiro almiscarado intenso. Ele tinha a pele tão branca e imperturbada como os lençóis mal enrolados em seu corpo, lençóis estes que mal cobriam a longa linha de suas costas e um braço esguio, dobrado ao lado do torso, a mão pousada logo abaixo do queixo de forma relaxada. Ela lembrou o que aquela mão e a outra tinham feito com o seu corpo ao longo da noite e sentiu um calafrio eletrizado correr pelas costelas.

Deu uma última olhada para ele no escuro antes de sair, tão silenciosa quanto pôde. Sabia que não ia vê-lo de novo, mas não havia nenhum arrependimento em sua decisão. Depois que tivesse a sua reunião com Dumbledore, o Mágico iria embora e tudo que ela guardaria daquele encontro era uma série de lembranças indecentes e uma meia dezena de hematomas que em alguns dias desapareceriam.

Era melhor assim, sem complicação, sem adeus. Sem que soubessem sequer o nome um do outro.

Bervely fechou a porta atrás de si, usando um feitiço de abafamento para disfarçar o estalo de seus saltos na pedra ao ir embora.

— BD –

— Bervely Black em minhas masmorras? Manticores me mordam se eu não estiver alucinando.

Ela estancou como um gatinho pego no flagra, bem na curva do corredor que a levaria para o primeiro andar e fora das masmorras.

Tão perto, suspirou para si mesma. Agora, qualquer tentativa de fugir pareceria ridícula, senão desesperada. Ela suspirou fundo e girou 180 graus, encarando o padrinho que conseguira evitar há semanas.

— Severus.

Snape estreitou lentamente os olhos escuros, como uma ave de rapina analisando o estado de uma presa para decidir se ia comê-la.

— Posso perguntar qual o seu assunto em Hogwarts no meio-dia de um sábado?

— Uh... — Qual era mesmo a desculpa menos suspeita? Bervely se aprumou, tentando usar uma expressão creditável. — Procurando o senhor, na verdade.

— É mesmo? — Severus prolongou a primeira sílaba de ‘mesmo’ para deixar bem claro o seu cinismo em relação ao fato. — Curioso, eu tive a impressão de que você estava concorrendo em uma maratona de ignorar a minha existência nas últimas semanas.

Bervely trocou o peso de um pé para o outro. Não esperava que o padrinho fosse fazer aquilo ser fácil, mas saber não ajudava em nada a enfrentar seu deboche descarnado.

— Eu precisava de espaço — ela disse, empinando o queixo. Sempre tinha vontade de socar gente que usava aquela desculpa, mas ali estava ela, se rebaixando.

— Eu vejo — disse ele, em tom de que de fato via a verdade por trás de sua lorota. — Que sorte a sua, achou o que estava procurando. Me acompanhe aos meus aposentos, mal posso esperar para saber o que de tão urgente anulou a sua necessidade de colocar “espaço” entre nós dois.

Ele girou, a capa negra fazendo um leque em torno dos tornozelos, e tomou o caminho que levava ao seu laboratório. Bervely quis bater a cabeça em uma parede, mas ao invés disso arrastou os pés atrás dele como uma boa garota. Não é como se fosse escapar para sempre…

— E essa nova cor que está usando? É alguma detestável nova moda da sua geração que eu não estou sabendo?

— O quê? — Bervely perguntou sem entender, se esforçando para seguí-lo apesar das pernas doloridas.

— Você está verde, Bervely — ele lhe informou peremptório.

Bervely olhou para as mãos e viu, horrorizada, que sim, ela ainda estava.

— Merda.

— BD –

Bervely correu para um dos caldeirões de prata de Snape assim que entraram no laboratório, recebendo do seu reflexo retorcido a confirmação: inteiramente verde. Cada centímetro de pele visível e, ela podia adivinhar, invisível também. Como não tinha percebido aquilo antes de deixar do quarto estava além do seu alcance, mas suspeitava que estivera tão concentrada em sair de fininho sem acordar o seu parceiro em “travessura” da noite anterior que não se preocupou em dar uma boa olhada no espelho.

— Malditos gêmeos Weasley — amaldiçoou ela por entre os dentes, o canto do seu olho verde tremendo em um espasmo de raiva.

— O que disse? — Severus deslizou para o balcão, onde havia um caldeirão fumegante, repleto de líquido verde-musgo, e começou a mexê-lo em sentido anti-horário.

— Nada — Bervely rosnou, enquanto tentava convencer sua pele a voltar ao normal com metamorfomagia. — Vou dar um jeito nisso.

— Nem vou perguntar — o padrinho devolveu com zombaria desinteressada, enquanto adicionava folhas secas à poção em produção.

Ela soltou um gemido de derrota e deixou a cabeça verde cair nas mãos verdes. Não bastava o caos da sua vida, ainda precisava lidar com efeitos colaterais de um feitiço glamour e com a zombaria gratuita de Severus Snape. Não dava pra descer mais fundo, dava?

— Não tem necessidade de chafurdar no drama existencial — Snape avisou, adivinhando o tipo de pensamento que estava rondando a cabeça da afilhada. — Nada que um chá de bezoar não dê vencimento.

— Mas eu odeio chá de bezoar — ela reclamou, consciente de que soava como uma criancinha.

Snape a ignorou e começou a preparar o dito chá em silêncio. Isso deu a Bervely tempo para colocar os pensamentos em ordem, finalmente reparando no laboratório, que muito pouco mudara desde a última vez que estivera ali em seu sétimo ano. Os vapores escapavam de três diferentes caldeirões, o cheiro remanescente de fluído desinfectante se desprendia do balcão de trabalho, as prateleiras cheias com os jarros, caixas e frascos cuidadosamente etiquetados pela caligrafia vitoriana de Snape, tudo isso lhe provia uma estranha sensação de paz que não sentia desde que saíra de Azkaban.

As coisas que não paravam de se agitar dentro dela finalmente foram se aquietando diante do som das poções borbulhantes, da frieza do balcão de mármore embaixo dos seus braços, enquanto respirava o vapor misturado que vinha dos três caldeirões. Os mil e um ingredientes ao seu redor lhe transmitiam ordem, lhe garantiam que para tudo havia uma cura, que todos os problemas que ela tinha — aqueles que compreendia e os que nem chegava a nomear, podiam ser resolvidos, bastando que soubesse a combinação certa de ingredientes.

Cinco minutos ali sentava e já estava se sentindo otimista. Era como se o tempo todo estivesse respirando o tipo errado de ar e só agora seus pulmões encontrassem o tipo de oxigênio de que precisava.

Snape pousou um medidor de liquor de latão em sua frente, dentro do qual fumegava um líquido amarelado ralo, coado do Bezoar, uma pedra que vinha do estômago de um bode. Cheirava exatamente como soava. O estômago da própria Bervely deu uma embrulhada forte.

— Ainda não tomei café da manhã — murmurou, a garganta travando em protesto, mas ele fez um aceno desdenhoso com a mão.

— Ótimo, funciona melhor ainda com a barriga vazia.

Ela tomou um gole com relutância. A persistência da pele verde podia ser muito bem um castigo do carma, e se fosse o caso, não ia ser lavada com uma poção de pedra digestória de ruminante.

— Estou no aguardo — Snape lhe informou. Ele se sentara do outro lado e apoiara uma palma na outra, os cotovelos no balcão, o olhar de ave de rapina a especulando.

Bervely encarou o balcão, se sentindo fraca. A razão pela qual vinha evitando o padrinho era nada menos do que vergonha; quando ele visse essa sua versão pós-Azkaban, sabia que ele veria o quão fraca ela estava sendo. De novo. Severus já a vira aos frangalhos no verão, quando Bervely acreditara que Sirius estava morto. Ele juntara os seus cacos como pôde, mas desde então a tratava mais como uma criança instável do que como uma igual, como já fizera um dia. Se ela ainda tinha chances de reconquistar a admiração dele, não era perdida num corredor das masmorras no meio do dia, verde dos pés a cabeça como agora.

— Muito bem, eu começo então — decidiu ele, mais intimidador do que pretendia por conta do timbre grave da voz — Você é uma terrível mentirosa.

Não era uma pergunta, então Bervely não se dignou a responder. Já bastava estar verde, não precisava de mais humilhação. Snape continuou, suas narinas inflando ligeiramente:

— Você mentiu para o professor Dumbledore sobre como escapou de Azkaban. Ele sabe disso.

Ela se mexeu desconfortável no banco alto.

— É por isso que o senhor estava atrás de mim? Para arrancar a verdade que Dumbledore não conseguiu?

— Que ele não quis arrancar — Ele a corrigiu com acidez. — Você não estava em condições de ser submetida à legilimência, e aparentemente o professor não acha que o verdadeiro motivo seja um problema. Pessoalmente, eu discordo dele.

Bervely cruzou os braços na frente do corpo e ergueu uma sobrancelha para o padrinho:

— E o senhor vai me submeter à uma sessão de legilimência, então? Para ter certeza que eu não sou “motivo de problema”?

— Eu não preciso — disse Severus muito prático. — Sei que escapou porque a sua mãe assim o permitiu. Foi ela quem lhe deu a varinha de volta, não foi? Você não a “recuperou da sala de arquivos”, como disse para o professor Dumbledore.

Bervely selou os lábios, mas soube que a sua palidez estava lhe denunciando. Snape não precisava de legilimência para lê-la, nunca tinha precisado, realmente, o que era uma das coisas mais perturbadoras ao seu respeito.

— O que ela lhe pediu em retorno, Bervely? — Ele inquiriu, sério.

— Perdão?

— O que Bellatrix Lestrange exigiu em troca da sua liberdade? Não se faça de desentendida, nós dois sabemos que ela não o faria se não tivesse uma agenda.

Bervely apertou ainda mais os lábios, com raiva dele por saber tanto.

— Ela não me pediu nada. Só me deixou ir.

— É mesmo? Pela compaixão em seu coração? Oh, talvez em nome do amor materno que ela nutre por você, sua querida filha bastarda que abandonou ao nascer? — Ele disse cruelmente. Bervely se encolheu, cada uma daquelas opções lhe alfinetando mais em voz alta do quando ecoavam em sua própria cabeça.

— Bellatrix está lhe usando para espionar a Ordem da Fênix através da marca da rosa? — Ele perguntou, incisivo. Bervely arregalou os olhos para ele, pasma.

— Não!

— Tem certeza? Como pode saber? Quando ela pode se esgueirar para dentro da sua cabeça e controlar a sua mente sem que perceba, quando se distrai, quando cai no sono… tudo que você perceberia é que não se lembra do que fez nas últimas horas, mas isso não seria de muito alarde, não é, afinal você está confusa, acabou de passar por um grande trauma…

— Não, pare com isso! — exclamou, indignada — Bellatrix não está dentro da minha cabeça! Não tem ninguém dentro da minha cabeça!

Snape parou com as insinuações, seu olhar ainda atento, as sobrancelhas grossas se encontrando no meio da testa.

— Eu saberia se ela estivesse — ofegou Bervely, ansiosa para que ele acreditasse. — Eu posso sentir quando a conexão está ativa, ela queima através de mim. A rosa tem estado quieta desde Azkaban — prometeu, colocando a mão no braço onde todos os cortes provocados pelos espinhos já tinham se curado, deixando cicatrizes brancas para trás que ela não podia esconder sem a sua metamorfomagia nem se quisesse. Aquela era a verdade: não houvera nenhum contato, ou tentativa da parte de Bellatrix, desde que deixara Azkaban. Suas constantes visitas à sua cela, que agora Bervely sabia terem sido reais (embora acontecessem só dentro da sua cabeça), tinham parado por completo após o Banquete. Bellatrix lhe enviara em uma missão misteriosa e jamais retornara para checar o seu andamento.

Era meio… decepcionante.

Bervely tomou um gole de seu chá, observada de perto pelo padrinho. Ele parecia ter esgotado as perguntas por um momento, o que ela aproveitou para levantar uma questão:

— Como pode saber de tudo isso? Como sabe que foi Bellatrix quem me deixou escapar? Você não estava lá em Azkaban quando tudo aconteceu.

— Oh, eu não precisei estar. Quando sua mãe faz qualquer coisa que deixa o Lord das Trevas satisfeito, ela se vangloria à respeito. O tempo inteiro. É extremamente irritante.

Ela ficou olhando para ele sem entender. Então ela entendeu.

— Espera, o senhor é um… o senhor está trabalhando para ele de novo?

Ela bateu a mão sem querer no medidor de chá, derramando um bocado no balcão limpo. Nenhum dos dois fez um movimento para limpar o rastro amarelo de chá que agora escorria lentamente para o chão.

Ela sabia que Snape um dia fora um seguidor do Lord — afinal, o Lord em pessoa o apontara para ser seu padrinho, para a indignação de Bellatrix. No entanto, Bervely sempre supôs que ele tinha mudado de ideia após a queda de Voldemort, após as consequências da guerra… após a perda de alguém que importava muito para ele.

— Mas você trabalha para a Ordem da Fênix — ela voltou a falar, porque ele ainda não tinha dito nada.

— Eu classificaria os meus dois “empregos” como complementares, nesse caso. — Severus finalmente declarou, secretivo.

Bervely não sabia bem o porquê, mas estava se sentindo traída. Por que o mundo precisava ficar dando voltas o tempo inteiro? Bellatrix salvando a sua vida. Theodor sendo devorado vivo bem diante dela. Charlotte lhe dando indícios de que seu filho com Hector estava vivo. Oliver pedindo aquela completa perda de tempo em forma de gente em noivado…. e agora, seu padrinho lhe informando que era, continuava sendo, um servo de Lord Voldemort.

Ela ficou olhando para ele, tentando decidir qual pergunta fazer primeiro, ou ainda, como controlar a bile que estava ameaçando subir pelo seu esôfago. Snape aguardava paciente, seu rosto uma máscara sem emoção.

— De que lado você está? — ela perguntou por fim.

Snape não respondeu logo. À Bervely parecia uma pergunta bem simples, mas aparentemente ele precisava de uma reflexão profunda à respeito da coisa toda. Engraçado.

— Do meu — ele disse por fim. — Do meu próprio lado, do lado da minha sobrevivência.

Bervely se levantou; ela sentiu que era isso, tinha terminado ali. Mais uma camada de complexidade e ambivalência moral em sua vida e a sua cabeça explodiria. Entrara ali achando que ele se sentiria decepcionado com ela, mas estava saindo porque mal podia olhar para o rosto dele, para aquela resposta… covarde dele, sem ter ânsia de vômito.

Talvez estivesse mesmo andando demais com Grifinórios. Deu um sorrisinho cínico para si mesma, perto de partir.

— Bervely, espere.

Ela respirou com agressividade e não se virou.

— O quê?

— Estamos no olho do furacão. Ficar indiferente não é uma possibilidade. Acredite, eu tentei.

— Oh, é mesmo? — Ela se virou com os dentes apertados. — Então é melhor mentir para todo mundo? Sobreviver às custas de serviço duplo sujo? Ser tão covarde a ponto de sequer ser capaz de decidir de que lado está a sua lealdade? Você fala de sobrevivência, mas a sua situação parece bem cômoda, bem confortável, professor Snape. Alguns até chamariam de conveniente.

Ele assentiu, paciente.

— A sua reação não me surpreende. Você soa exatamente como o seu pai. Na verdade, o que ele me disse quando descobriu o meu papel na Ordem da Fênix tinha uma linha de raciocínio similar, embora com um vocabulário mais rude e com mais ofensa à honra da minha falecida mãe.

— Bem, ótimo — ela cuspiu. Em qualquer tempo a comparação com Sirius a teria inflado de orgulho, mas vinda de Snape e num momento em que estava irritada com o pai, tinha um sabor agridoce e passado do ponto.

Bervely abriu a porta do laboratório, provocando o deslocamento do ar gelado do lado de fora para dentro, o que arrepiou os seus braços verdes.

— Então você vai escolher um lado? Ou já escolheu? — Severus perguntou como se ainda estivessem conversando. Bervely soprou impaciente.

— Eu não quero escolher merda nenhuma. Só quero fazer o que todo mundo faz, tomar péssimas decisões, acordar de ressaca, me arrastar numa vida medíocre e odiar gente mais medíocre do que eu, como deve ser! Será que é pedir demais?

— Do ponto que vejo, nada a está impedindo de fazer tudo isso — ele deu uma risadinha debochada, e ela soube que ele estava se referindo à sua condição verde e ao fato de que a achara se esgueirando para fora de Hogwarts de forma suspeita. Severus continuou, no entanto, num tom mais sério — Mas está bem, digamos que você possa. Qual é o seu plano?

— Por que eu iria discutir o “meu plano” com um agente duplo que só se importa consigo mesmo? Que diferença isso faz para o senhor, saber do “meu plano“?

— Eu nunca disse que não me importava — ele respondeu severamente. Snape ergueu a varinha de uma dobra da capa e fez um floreio; a porta voltou a se fechar na frente de Bervely. Ela girou de má vontade. — Vamos lá, me entretenha, entretenha a minha existência miseravelmente conveniente, se por nada, em retribuição ao chá que vai lavar essa sua cor de cobra criada. O que pretende fazer à partir de agora? Se não quer se envolver, dificilmente pode ficar morando no quartel general da Ordem da Fênix, uma hora ou outra isso vai implicar no seu engajamento, queira você ou não. Essa estadia tem um preço, você deve imaginar.

— Eu não sei. Talvez eu volte ao Instituto Flamel, ainda não terminei a minha graduação.

— Eu vejo — ele assentiu muito cínico. — Vai levar irmãzinha e papai na sua mala? Ou vai largá-los aqui para a própria sorte, um com a magia aleijada, mas pouco se importando em não se meter em problemas, a outra se associando com Potter, o maior imã de desastres de que já se teve notícias?

Ela abriu a boca, mas fechou de novo porque não tinha nada a declarar, a não ser que é claro que não, não seria capaz de deixar Anne e Sirius para trás por mais dois ou três anos enquanto se enterrava em caldeirões e livros e ervas em algum Instituto de Alquimia no meio do nada.

— Se não isso, qual a outra opção? Voltar para a casa da sua tia medibruxa, que é uma auto-declarada ativista contra o Lord das Trevas, e com sua prima auror? Ou quem sabe voltar a buscar abrigo com os Malfoy, cuja imagem está terrivelmente comprometida pela prisão e fuga do agora publicamente reconhecido comensal da morte Lucius? Não, vejamos, talvez você pense que pode se virar sozinha! Usar os seus N.I.E.M.S. para aplicar em alguma vaga de emprego medíocre no Beco Diagonal, trabalhando como auxiliar de boticário, talvez? Cozinhando poções para verrugas e febre de dragão em um laboratório improvisado nos fundos de um apartamento trouxa de subúrbio? Aplicando para uma vaga no Ministério que nunca vai contratar uma bruxa com passagem em Azkaban, sem referências políticas, filha de dois comensais da morte?

— Ok! — Bervely exclamou, tremendo da cabeça aos pés a cada sugestão mais decadente, porém muito realista, que saía da boca do padrinho. — Eu não sei o que diabos vou fazer da minha vida! Eu não sei nem o que vou fazer amanhã. Eu não sei–

Ela parou de falar, porque sua voz estava ficando mais e mais aguda e seus olhos mais e mais embaçados. Ele fizera nada mais do que esfregar em sua cara que ela não tinha escolha: podia estar “livre” após ter as queixas retiradas pela carta de Theodor, mas isso não significava um futuro brilhante pela frente, nem mesmo um futuro neutro. Estava diante de uma encruzilhada e qualquer passo que desse teria uma implicação grandiosa para o resto da sua vida, dali em diante. Não era a toa que se sentisse paralisada.

— Eu só quero sobreviver — ela disse baixo, lutando contra lágrimas intrusas que queriam deslizar pela sua bochecha verde e fazê-la de idiota na frente do padrinho.

— Então voltamos ao princípio dessa conversa. Devo lembrá-la que é exatamente o que estou fazendo, e com sucesso, nos últimos dezesseis anos?

Ela o olhou com mágoa.

— Mas para o senhor é fácil, você tem a confiança do professor Dumbledore na qual se fiar. E eu, o que eu tenho?

— Você tem a minha.

Bervely o olhou com confusão. Tinha a impressão que Snape estava tentando lhe dizer alguma coisa, mas ela tinha a cabeça cheia demais para perseguir as entrelinhas dele ou jogar aquele jogo de charadas que ele gostava.

Foi então que Snape pôs as cartas na mesa, lhe fazendo uma proposta.

— BD –



Harry desceu para o Salão Principal na hora do almoço, depois de passar na torre da Grifinória para um bom banho; após o treino com Katie, que se tornara uma partida informal incluindo Oliver Wood e Anne, o resto do time os tinha encontrado no campo, ao que passaram o resto da manhã treinando estratégias específicas para combater a Corvinal no último jogo antes do Natal.

Harry estava satisfeito com o desempenho do time — que treinava confiante desde a última vitória —, e com a recuperação de Katie, que logo voltaria ao ritmo anterior, se ele podia tomar como indício a precisão dos seus lançamentos ao longo daquele treino.

Ao entrar no Salão Comunal, Harry procurou Rony e Hermione e os localizou engajados em uma conversa animada com outros dez ou doze colegas; alguns deles nem eram da Grifinória. O assunto parecia ser a festa do dia anterior; eles discutiam as próprias fantasias, comentavam sobre os doces ou bebidas trouxas, perguntavam quando seria a próxima festa de temática trouxa que celebrariam; talvez o Natal?

Hermione trocou um sorriso com ele quando o garoto sentou, ambos pensando a mesma coisa: aquilo era bom. Fazer estudantes falarem sobre a cultura trouxa era bom, apresentá-los as diferenças, excitá-los com as particularidades da comunidade que tinham aprendido a ignorar, desprezar ou temer. Curiosidade seria o primeiro passo, depois haveria empatia, depois respeito. E com sorte eles estariam ajudando a diminuir o preconceito dos alunos puro sangue com os mestiços e nascidos trouxas dentro de Hogwarts e fazendo alguma diferença para do lado de fora.

Antes que os elfos servirem a sobremesa, o Prof. Flitwick bateu um garfo em uma taça de vidro para chamar a atenção deles. Harry deu uma olhada para a cadeira do prof. Dumbledore e viu que ela estava vazia, mesmo que eles fossem supostos a ter mais uma aula de Voldemort aquela noite, segundo um bilhete que Harry recebera ao sair do banho.

— Atenção, atenção aqui — o professor minúsculo chamou, esperando que os alunos se calassem para prosseguir. — Eu acabei de receber a notícia de que uma colega de vocês, a Srta. Chang da Corvinal, está desaparecida. Ela não é vista por seus colegas de casa desde ontem à noite e não parece ter retornado ao seu dormitório depois do jantar. Se alguém tem alguma notícia à respeito da Srta. Chang, ou se a viu ao longo desta manhã, favor se pronunciar agora.

Os alunos se entreolharam em um silêncio atordoado. Harry ergueu as sobrancelhas para Hermione e Rony, que deram de ombros. Não, não tinham visto Cho. Harry nem se lembrava da última vez que vira Cho, afinal eles não tinham aulas juntos, a garota estando um ano acima deles, e não faziam uma reunião da Armada já há algum tempo.

— Muito bem. Não penso que há motivo para alarde, mas por favor fiquem atentos. Caso encontrem a Srta. Chang ou tenham alguma informação sobre o seu paradeiro, por favor informem ao diretor da sua casa ou diretamente a mim. Caso ela não apareça até o jantar, precisaremos tomar medidas mais urgentes — disse Flitwick, ligeiramente trêmulo com a possibilidade.

O jeito com que ele disse “medidas mais urgentes” provocou um arrepio de mau presságio na espinha de Harry. Quando o professor desceu da cadeira, se apoiando no ombro da professora Trelawney, os burburinhos recomeçaram, não no tom animado e relaxado de antes, mas em um tenso e especulativo que parecia prever catástrofe.

— Ela foi à festa ontem à noite? — Perguntou Rony a Hermione, cujos lábios estavam pressionados em uma linha rígida.

— Não sei. Ela assinou a lista, mas não cheguei a vê-la. Será que devíamos… sair procurando?

— Vai ver ela só está em uma das quatrocentas e esquinas ocultas da biblioteca — Rony disse — Merlin sabe como já perdemos você lá dentro dezenas de vezes, Mione. Além do mais esse castelo enorme, pelo menos uma vez por dia algum estudante se perde e demora umas horas para achar o caminho de volta. Ela vai aparecer para o jantar contando que descobriu algum lugar secreto de Hogwarts, quer apostar quanto?

Mas ele não parecia relaxado, e nem estavam Harry e Hermione. Eles tinham prometido visitar Hagrid aquela tarde, mas antes disso voltaram à torre da Grifinória, discutindo de cabeças juntas os vários lugares onde Cho poderia estar. Harry pegou o mapa do maroto e fez uma busca completa, andar por andar, procurando pelo balãozinho com o nome “Cho Chang” se movendo em algum corredor, dentro de alguma sala vazia ou, como Rony sugerira, em algum canto da biblioteca, mas não encontrou nada. O mapa não era infalível, no entanto, pois como Harry bem sabia, só mostrava os lugares que os Marotos tinham conhecimento, o que não incluía, por exemplo, a Sala Precisa.

Hermione mudou os dizeres impressos nas moedas da Armada de Dumbledore para “procurem Cho”. Sem muita opção, eles desceram para a cabana de Hagrid, a ansiedade azedando qualquer otimismo que o sucesso da festa na noite anterior pudesse ter causado.

— BD –

Bervely voltou para a Casa dos Gritos só quando estava anoitecendo, e de má vontade. Jinx a encontrou no meio do caminho e lhe fez guarda pela estradinha que comunicava os terrenos de Hogwarts à Hogsmeade, seu pelo prateado iridescendo à medida que a noite caía. Ele tentava apaziguar a agitação de Bervely, lhe enviando algumas ondas calmantes por meio de seus estranhos poderes de gato mágico, mas ela rebatia todas com teimosia.

— Você não entende — suspirou em voz alta para o gato, respondendo à pergunta que ele fizera de forma abstrata, ao lhe devolver uma imagem dela mesma com a cara enfezada para dentro da sua cabeça — Problemas humanos, muito complexos para a sua cabecinha de gato.

Jinx miou ofendido. Bervely sabia que estava sendo injusta, mas não ia colocar o ponto em discussão. Estava reunindo energia para o que sabia que a esperava na Casa dos Gritos: e não estava errada. Ao abrir a porta da cozinha, um cão negro surgiu por detrás da mesa, latindo alto para ela e rosnando.

— Já chega de tanto drama — resmungou ela, fazendo pouco caso dele ao pegar uma garrafa de rum em cima da pia e colocar uma dose em uma das canecas de chá de Remus. Sirius estalou em forma humana, parecendo ainda mais irritado que a sua versão canina.

— Ah, então ela está viva! Não se incomode em avisar, madame sumida, muito melhor deixar todo mundo vivendo um inferno o dia todo, muito obrigado!

Ela se virou para ele com desdém.

— Quem seria “todo mundo”? Até onde eu sei, você é o único desocupado o bastante para notar. Isso quando não está ocupando fodendo a barista do Três Vassouras.

— Onde você estava, Bervely? — Sirius exigiu saber, ignorando o comentário grosseiro dela de propósito. — Não voltou para casa e nem deu notícias desde ontem a noite! Tem uma droga de uma guerra acontecendo lá fora, mas diabos, você se importa? E porque você ainda está verde?

— Eu estava em Hogwarts, ficou tarde pra voltar. Além do mais, arranjei companhia — completou com pretenção. Sabia que ia irritá-lo. Queria irritá-lo.

— Que companhia? Não me diga que foi fazer uma visita ao Seboso. Não dá pra chamar “companhia” o que nem se qualifica na classificação humana, para começo de conversa.

— Não, Black, eu não fui ver o meu padrinho. Embora eu tenha cruzado com ele mais tarde e participado de uma discussão interessante — acrescentou, sem energia. — Qual a razão para o alarde? Foi você quem estava insistindo para que eu me “divertisse” e “aproveitasse a vida”. Não dá pra fazer isso e ficar debaixo das suas patas ao mesmo tempo, dá?

Sirius a encarou com o misto de irritação e mágoa que já estava virando a sua expressão registrada para ela. Bervely virou um gole de rum puro, se arrependendo logo em seguida. A coisa desceu queimando e impregnou a sua língua com um gosto amargo de sumo de folha amassada.

— Tem uísque de fogo no armário debaixo da pia — ele informou secamente.

Bervely se inclinou e abriu o citado armário, achando uma garrafa que reconheceu de imediato.

— Blackburn, sério? Você por acaso sabe de onde isso vem?

Ele deu de ombros.

— A vida é irônica, não é? Acontece de ser o melhor uísque do mercado.

— Também acontece de estar financiando a causa do Lord das Trevas — ela lhe devolveu, irritada. — Minha nossa, quanta hipocrisia para todo lado. Tanta hipocrisia… — ela colocou a garrafa de Blackburn de volta ao armário e empurrou a porta com um baque raivoso. Sirius ergueu uma sobrancelha:

— Por que será que eu tenho a impressão que isso não é mais sobre a garrafa de uísque de fogo?

Ela encarou Sirius com raiva. Mas não raiva de Sirius. Ele só estava sendo o mesmo irritante, sarcástico, infantil filho da mãe de sempre. Ela costumava amar aquilo.

Era ela quem mudara.

— Eu tomei uma decisão essa tarde — anunciou, a voz árida. Era melhor dizer de uma vez, enquanto ainda estava no loop da coisa, antes que perdesse a coragem. — Estou me mudando daqui. Pra mim já deu de Casa dos Gritos.

Ficou claro que Sirius não estava esperando a notícia. Ele piscou confuso, mas sarcástico de novo em um piscar de olhos.

— Ah, é, e para onde é que você vai?

Ela bebeu mais um gole de rum para ganhar tempo, mesmo que o gosto fosse odioso. Sirius deu um passo à frente, usando o tom de “vamos colocar um pouco de senso nessa conversa”, que nunca tinha combinado com ele.

— Bervely, eu sei que esse não é o lugar ideal, a casa está em mau estado e tem todo esse movimento de gente indo e vindo, mas o seu lugar é aqui conosco. Comigo. Não faz sentido ir pra outro lugar e se arriscar sozinha no meio de uma guerra, não seja estúpida.

Ela apertou os olhos, sem paciência. Oh, ele estava começando a soar como Snape, não estava? Na mesma linha de “não há a menor chance para você lá fora”.

— Não estou indo “pra outro lugar” — lhe devolveu com deboche, retornando a sua condescendência. — Snape me ofereceu uma vaga para auxiliar em Hogwarts. Ele precisa de alguém para lhe ajudar com a turma de poções, está tendo muito trabalho agora que assumiu duas disciplinas. Ele vai falar com o professor Dumbledore em meu nome.

Um sorriso de escárnio cresceu torto no rosto de Sirius diante daquela notícia.

— Ah, ele vai, não é? O seu querido padrinho, ele vai salvar o dia agora? Será que você não percebe o que ele está fazendo?

— Não, eu não percebo — disse Bervely com falsa calma, se segurando para não virar o resto do rum garganta abaixo. — Por favor me ilumine, o que é que ele está fazendo?

— Tentando roubar você de nós, obviamente. Levando você para o lado dele — rosnou Sirius com rancor.

Oh, os “lados”. Só Slytherin sabia como ela estava farta de todos os “lados”, para o inferno com os “lados”.

— Sim, o objetivo da vida de Severus Snape é arruinar a sua vida, oferecendo a sua filha bastarda um emprego em Hogwarts. Parece verídico e razoável. Afinal não tem nada nesse mundo que não seja sobre você, não é mesmo?

— Você é cheia de comentários espirituosos, mas será que você sabe qual o papel do seu amado, querido, venerado padrinho na Ordem da Fênix? — Sirius perguntou maldoso, antecipando o que ele achava ser o seu triunfo naquela discussão.

— Por acaso eu sei. Severus me disse que ele é um agente duplo para a Ordem da Fênix.

A surpresa dele passou rápido, enquanto Sirius se movia para a próxima acusação:

— Sim para agente duplo, mas essa é a questão, não é? Pode ser para a Ordem da Fênix, mas pode muito bem ser para Voldemort! Pessoalmente não estou tão certo de que a primeira opção é a verdadeira!

— Nem eu estou — ela anuiu, olhando através dele e deixando um suspiro pesado escapar. — Mas não me importo.

— Não se importa que o seu padrinho seja um servo de Voldemort? — Ele repetiu com desprezo — Quem é você? O que foi que aconteceu com você em Azkaban, pelo amor de MERLIN?

— Isso não é sobre Azkaban! — Bervely alterou a voz, finalmente perdendo a paciência com os ataques dele. — Isso é quem eu sou, quem eu sempre fui e você escolheu não enxergar, papai. Em algum momento você não confiava em mim porque eu decidi libertar você de Azkaban a despeito de você ser, ou não, culpado dos crimes pelos quais foi preso. Eu nunca me importei e você decidiu em algum momento que poderia conviver com isso, porque funcionava para você, e nunca olhou para trás. Até agora. Quando não funciona mais pra você, porque é sobre outra pessoa. Bem, eu ainda não me importo. Eu teria tirado você de Azkaban mesmo se fosse o traidor dos Potter, mesmo que tivesse sido o culpado por deixar Harry Potter órfão. Do mesmo jeito que eu vou aceitar a proposta de Severo, porque seja lá de que lado ele está, há coisas que ele pode me ensinar, coisas que ele pode me proporcionar, que esse lugar não pode — ela indicou a Casa dos Gritos com desprezo, e depois apontou pra ele: — Que você não pode.

Sirius perdeu as palavras, perplexo. Em algum lugar a campainha soou, mas nenhum dos dois deu atenção. Ele parecia ter recebido um soco. Bervely respirava em grandes arquejos, como quando tinha subido a colina debaixo do sol há alguns dias. Nenhum dos dois era capaz de desviar o olhar do outro; ela sentia que tinha acabado de empurrar e quebrar alguma coisa frágil que vinha se equilibrando precariamente entre os dois, na beirada de uma quina, pelas últimas semanas.

— Você não pode estar falando sério — ele disse baixo, ressentido.

— Você não gosta de ouvir verdades, Sirius. É tão cansativo. Sinto muito.

Bervely pousou a caneca na mesa da cozinha e tratou de convencer as pernas dormentes a se moverem. Uma parte dela temia que ele fosse começar a gritar de novo, ou então a pedir desculpas ou recomeçar a perguntar quem ela era. Nada disso podia acontecer, se ela quisesse se manter firme em sua decisão. Havia um limite para a sua resistência aos apelos de Sirius, e embora ela se sentisse forte agora, era porque estava ligeiramente bêbada, inundada de raiva e repetindo para si mesma os argumentos que Snape lhe fornecera para convencê-la de que aquela era sua melhor chance de sobrevivência.

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— Me deixa passar — pediu, uma vez ele estava bloqueando a passagem para a sala, a qual ela precisava ter acesso se quisesse ir até o quarto que estava usando e buscar os seus poucos pertences.

Havia alguma comoção acontecendo na sala. Bervely ouviu vozes, uma delas de Remus; não conseguia escutar o que diziam, mas parecia que tinham visitas. O que era bem estranho, via de regra ninguém usava a porta da frente da Casa dos Gritos. Quando ela passou por Sirius, ele aproveitou a chance para agarrá-la pelo antebraço.

— Eu não vou permitir que você tome uma decisão que vai arruinar a sua vida por causa de Severus Snape.

— Você está exagerando. Só estou indo para Hogwarts, onde é seguro, vou ter um emprego e posso ficar perto da minha irmã. Não é como se eu estivesse tomando a decisão de, não sei, ajudar um prisioneiro de segurança máxima a fugir e com isso ganhar uma condenação eu mesma, passar um mês em Azkaban e ganhar uma série de pesadelos que vou carregar comigo pra sempre.

— Eu sou seu pai. Snape é um comensal da morte filho da puta, fingindo e indigno de confiança.

— Um monte de gente diz isso sobre você, sabia? — Ela lhe devolveu com suavidade venenosa. — Eu escolhi não acreditar neles para o seu benefício, e estava certa daquela vez.

— E está errada agora.

— Me larga.

— Não vou deixar você sair dessa casa.

Sirius tinha os dedos tão cravados em torno do seu braço que estava impedindo a sua circulação; Bervely já sentia os dedos da mão formigarem. Por sua vez, a rosa começava a acordar, insatisfeita com o esmagamento, os espinhos se espigando em sua pele e cutucando os cortes recém-curados.

— Black, você está me machucando — ela disse com falsa frieza, apesar do coração pulsando rápido e das lágrimas aflorando de novo na borda de seus olhos. Não por causa do aperto dos dedos dele, mas porque ele era Sirius e estava tão fora de si que não se dava conta de que a fazia sentir dor.

Ele lhe perguntara quem ela era, mas quem diabos era aquele homem que ela tinha amado cegamente nos últimos quatro anos?

— Sirius? — Uma terceira voz chamou da porta que dividia a cozinha da sala. Os dois se viraram rápido e viram Remus, que os encarava em agudo estranhamento, seus olhos viajando do rosto de ambos para o aperto de Sirius no braço de Bervely.

Sirius abriu a mão e a deixou ir. Bervely cambaleou ligeiramente e precisou se apoiar na mesa para não esbarrar de volta nele.

— O que está acontecendo aqui? — Remus quis saber, alarmado.

— Nada — Sirius disse de mau humor. — O que você quer?

— Você tem uma, uh, visita — disse o lobisomem. Ele disse “visita” de um jeito estranho e parecia um tanto pálido. Como se visita fosse a palavra errada, mas a certa lhe faltasse.

— Certo — Sirius bufou. — Ótimo timing, à propósito. É Rosmerta? Diga a ela que passo no Três Vassouras mais tarde.

— Não é Rosmerta — Remus fechou os olhos por um momento, depois os abriu e puxou ar. — Não é alguém que você vá querer deixar para ver depois, acredite em mim.

— Minha nossa, se você não é o rei do suspense, Aluado — Sirius reclamou, olhando de novo para Bervely. — Ainda não terminamos aqui.

— Não é você quem decide — ela devolveu insolente, resistindo a esfregar o braço que estava pulsando com o fantasma do apertão dele.

Sirius olhou feio para ela, mas Remus soltou uma exclamação de impaciência e ele o seguiu para a sala, resmungando “só diz logo quem é, mas que diabos…”.

Bervely encheu os pulmões um momento, recuperando o fôlego, depois se apressou em seguir o mesmo caminho pelo qual os dois tinham ido, primeiro porque pretendia aproveitar a distração de Sirius para recolher as suas coisas, depois porque estava curiosa para saber quem visitaria Sirius na Casa dos Gritos e deixaria Remus tão inquieto.

Parada na sala de estar estava a última pessoa que ela esperava ver naquele momento. Era o Mágico de Oz, ou Sanguini, ou qualquer que fosse seu nome de verdade. Sem a cartola ou o fraque espalhafatoso da noite anterior, ele ainda parecia mais pálido, mais sólido, mais alienígena do que antes, seus olhos claros de pupilas fendadas bem abertos, as faces cavadas, a postura longilínea e endurecida. Ele também parecia mais jovem e mais familiar do que nunca. Provavelmente a segunda parte era porque tinha estado dentro dela pela noite inteira e ela tocara, beijara e mordera cada parte daquele corpo — a recíproca sendo verdadeira.

Tudo isso não explicava porque ele estava ali para ver Sirius. Será que descobrira que ele era seu pai e estava engajado em alguma missão de honra vampiresca antiquada, em que precisava pedir a mão da donzela que deflorara? Oh, isso seria engraçado. De um jeito perturbador e inconveniente, no pior momento possível, mas engraçado.

Enquanto tudo isso passava pela sua cabeça numa rápida sucessão, ela notou que Sirius tinha congelado à meio caminho. Ele estava de costas para ela, mas parecia vidrado na visão do seu visitante.

O Mágico ensaiou um sorriso inseguro que, como antes, revelou caninos pontudo por baixo dos lábios. Ele estava olhando em expectativa para Sirius, mas quando viu que Sirius não ia se mover, tentou um aceno incerto com a mão pálida.

— Hey… maninho.

A voz de Sirius se desencravou de sua garganta, arrancada de muito, muito fundo, carregada de incredulidade e esperança morta e enterrada a sete palmos do chão.

— Regulus?

— BD –

Harry estava digerindo a lembrança que Dumbledore acabara de lhe mostrar na Penseira. Ela explicava como Voldemort se vingara de sua família trouxa, assassinando seu pai e avós e colocando a culpa em seu tio do lado materno, Morfino Gaunt. Voldemort havia implantado em Morfino a memória de que ele havia cometido os assassinatos e Morfino confessara o crime aos aurores, ganhando uma sentença perpétua em Azkaban. Morfino jamais voltara atrás em sua confissão, até o próprio Dumbledore fazer-lhe uma visita e recuperar em sua memória a lembrança original. Segundo Dumbledore, fora tarde demais para usar a lembrança a fim de absolver Morfino, pois este morrera antes que o Ministério pudesse reconhecê-la como evidência.

— Mas por que o Ministério não percebeu que Voldemort tinha feito tudo isso à Morfino? — perguntou Harry, indignado. — Ele era menor de idade na época, não era? Pensei que fossem capazes de detectar o uso de magia por menores.

— Você está certo… eles podem detectar magia, mas não o seu autor: você está lembrado que o Ministério o culpou pelo Feitiço de Levitação que na verdade foi realizado por…

— Dobby — resmungou Harry; a injustiça ainda o exasperava. — Então, se um bruxo menor de idade usa a magia em um bruxo adulto ou na casa de um bruxo, o Ministério não fica sabendo?

— Certamente não saberá dizer quem realizou o feitiço — respondeu Dumbledore com ar de riso ao ver a grande indignação no rosto de Harry. — O Ministério confia que os pais bruxos exijam dos filhos que moram sob seu teto o cumprimento das leis.

— Ora que bobagem — retorquiu Harry. — Veja o que aconteceu neste caso, veja o que aconteceu à Morfino!

— Concordo. Por pior que fosse Morfino, ele não merecia morrer como morreu, culpado por crimes que não tinha cometido. Mas está ficando tarde, e quero que você veja mais uma lembrança antes de nos separarmos…

Dumbledore tirou do bolso interno outro frasquinho de cristal, e Harry se calou pois lembrou o que o diretor lhe dissera no começo daquela aula que aquela era a lembrança mais importante que ele tinha recolhido.Antes que o professor Dumbledore pudesse esvaziar o conteúdo do frasco na penseira, alguém bateu na porta do escritório em uma cadência ansiosa.

— Entre — disse Dumbledore de imediato, recolhendo o frasco e o enfiando de volta no bolso. Era Filch, com sua cara de desgosto pela vida habitual, embora Harry teve a impressão de que dessa vez que havia algo mais, uma nuance de desastre que ele já vira antes no rosto do zelador, mais especificamente no segundo ano, quando os alunos estavam sendo petrificados.

— Nós a achamos, diretor — ele disse atropelando as palavras em sua pressa de passar a notícia. — A aluna desaparecida, Chang, nós a achamos na casa de barcos.

— Oh, finalmente — Dumbledore se adiantou de detrás de sua mesa em direção à porta — Ela está ferida? O que houve? Alguém já a levou para Madame Pomfrey?

— Não ferida, diretor, em perfeito estado — disse Filch cavernoso. — Embora seja tarde para qualquer providência de Madame Pomfrey.

A lividez tomou conta do rosto do diretor, seguida por uma pungente gravidade:

— Você não estaria implicando que a Srta. Chang foi encontrada…

— Morta, infelizmente. A professora Minerva está no local averiguando como pode ter acontecido. Achamos isso no bolso dela — Filch entregou à Dumbledore um pergaminho todo amassado, que parecia ter passado por maus bocados —, é uma carta de despedida. Parece que ela fez o que fez a si mesma, a pobre criatura.

(Continua...)

Notas finais
A última cena tem trechos de HP e o Príncipe Mestiço. Deixe um comentário para que eu saiba que você está feliz com a att! ;*