A Canção de Morgana
27 A Espera Silenciosa
Notas iniciais
“I told you.
You don't love someone because of their looks,
their clothes or their possessions.
You love someone because they sing a song
only your heart can understand.”
― L.J. Smith [adaptado]
Só se soube que Draco Malfoy não ia jogar como apanhador pela Sonserina naquela partida na hora em que o jogo começou. Ninguém achou grande coisa; desde que o pai de Draco já não atualizava as vassouras do time todo ano, o garoto tinha perdido muito da sua popularidade com os colegas de casa. Além do mais, a grande parte dos alunos de Hogwarts que tinham se aventurado para o campo de quadribol naquela manhã gelada, cachecóis altos nos pescoços e encantados com fortes feitiços de aquecimento, estavam mais interessados na sua substituta de última hora:
— Astoria Greengrass joga como apanhadora pela Sonserina hoje –, anunciou o locutor, que não era mais Luna porque a professora McGonagall perdera a paciência com ela na partida anterior, quando ela interrompera a sua narração para gritar “BORA GRIFINÓRIA, BORA GRIFINÓRIA!” em altos brados. Seu substituto era Smith da Lufa-Lufa, terrivelmente entediado naquela manhã: – Parece que Astória tem treinado como substituta desde o início do ano, mas nunca jogou pela casa antes. Vamos ver que tipo de desastre isso vai ser, mal posso esperar.
— Smith, você não é suposto a fazer julgamentos sobre o jogo, só narrar! — a voz de McGonagall advertiu, zangada o suficiente para ser ouvida pelos grifinórios na sua torre de arquibancada, que ficava ao lado da dos professores.
Alguns colegas riram. Harry mantinha os olhos na coisa pequena e furiosa que era Astoria lá embaixo, montando na vassoura, uma Nimbus 2001 que poderia muito bem ser a vassoura do próprio Draco. Aquela partida era importante para a Grifinória; se a Sonserina perdesse, jogariam contra a Lufa-Lufa nas semifinais, o que significava um treino focado em concentração e resistência. Se a Sonserina ganhasse, eles iam precisar trabalhar na resiliência do time; a estratégia da Sonserina era sempre tirar todos os jogadores do sério e usar a falta de concentração (para não dizer a irritação) do time adversário a favor deles.
Madame Hooch apitou o início do jogo. Quando Astoria subiu no ar, ela era um pássaro. Voou como um borrão, como se tivesse nascido e crescido em cima de uma vassoura. A sua primeira tentativa de capturar o pomo, dali a dois minutos, fez todo mundo prender a respiração e os pêlos do braço de Harry se arrepiarem; a única vez que tinha visto algo assim fora com Krum, na Copa Mundial de Quadribol de 1994. Mas enquanto Krum era experiente, Astoria era crua. Dava para ver que ela não precisava pensar no que fazia. O pomo lhe escapou porque ela precisou desviar de um balaço na sua direção, lançado por Rivers, o novo batedor da Lufa-Lufa; a sonserina mudou de curso em um milissegundo, num giro calculado que a colocou de volta no curso logo em seguida; mas a essa altura o pomo já tinha sumido de novo. Smith deu um grunhido de exasperação ao escape espetacular de Astoria, recebendo outro cutucão de McGonagall.
A partir desse momento, passou a ser difícil tirar os olhos de Astoria para prestar atenção ao resto do jogo. Lufa-Lufa marcou uma, duas, quatro… quatorze vezes, mas o placar não parecia abalá-la, o mundo era só dela, perseguindo um vislumbre da bolinha dourada como se essa fosse a única missão da sua vida. E quanto ela a viu, cintilando perto do terceiro aro da Sonserina…
— … se a Lufa-Lufa marcar mais uma vez, as chances da Sons– GREENGRASS CAPTURA O POMO! — Smith se interrompeu, mais um guincho de surpresa do que qualquer outra coisa. Houve uma pausa engraçada, com Astória lá no ar segurando a bolinha no alto e o resto da escola ainda tentando entender como aquilo tinha acontecido. Smith recuperou o fôlego: — Vitória para a Sonserina, como essa menina fez isso, só o capeta sabe.
— Smith! — McGonagall resmungou, mais transtornada com a vitória súbita da Sonserina ou a língua suja do narrador, era difícil saber.
Harry precisou fechar a boca; seu queixo caíra em algum momento da captura inesperada. Sonserina estava enlouquecida; tinha jogado espetacularmente mal e vencido, apesar da diferença pequena no placar. Eles desceram e carregaram Astoria no ar como se ela fosse feita de vento.
Harry achava que ela bem que podia ser, pelo jeito que voava naquela vassoura.
— Estamos tão ferrados — um Rony mortificado sussurrou ao lado dele, verbalizando o que Harry estava abalado demais para colocar em palavras.
***
Bervely tivera a intenção de assistir a partida dessa vez (só por causa do tédio, já que o castelo virava um deserto em dia de jogo), mas ela mudou de ideia e retornou às masmorras ao saber que o primo não iria jogar.
— Ache Draco pra mim — ela pediu a Jinx, que estava dormindo como uma bola prateada em cima do seu travesseiro. Ele piscou de volta com preguiça e desdém, uma combinação de sentimentos que só gatos conseguiam transmitir pelo olhar com tamanha maestria. Bervely suspirou, enfiando a mão no bolso e tirando lá de dentro um petisco de atum; saberia que teria de convencê-lo, então tinha passado pela cozinha do castelo no caminho.
— Aqui, gato interesseiro. Agora ache o Draco pra mim.
Jinx estirou as patas da frente, depois as de trás, deu um bocejo vagaroso e pulou no balcão para comer o petisco. Só então, sem muita pressa, deixou os aposentos dela para cumprir a missão. Bervely rolou os olhos para a empáfia do animal, mas ele não demorou muito para lhe mandar uma imagem mental de onde o filho de Lucius Malfoy se encontrava. Bervely reconheceu o corredor estreito entre as estantes e a mesa longa de mogno, um lugar suspeito para achar o primo em pleno sábado de manhã, se lhe perguntassem.
Jinx a esperava na porta da biblioteca, sentado ali como quem não quer nada, a cauda prateada balançando de um lado à outro.
— Obrigada, orelhudo — ela disse, se abaixando para coçar suas orelhas. Jinx ronronou e roçou em suas botas antes de sumir para o fim do corredor. Bervely entrou em silêncio, cruzando as sessões cheias de zumbis do sétimo ano, já em ritmo de NIEMs, até o fundo da biblioteca. Agora ela não precisava mais de uma autorização especial para aquela área; bastou bater a varinha (que fora autorizada, como funcionária de Hogwarts) na fechadura mágica e as portas duplas lhe deram passagem. Não foi difícil achá-lo, escondido na última mesa da última sessão da ala-restrita, sentado longe de vista para qualquer um que não tivesse um gato mágico com excelentes habilidades de rastreamento.
— Espero que tenha autorização para estar aqui, Draco.
O garoto ergueu a cabeça tão rápido que ela pensou ter ouvido o pescoço dele estalar. Uma expressão de impaciência e desdém substituiu a surpresa em seu rosto quando viu que era ela.
— Por quê? Vai tirar pontos da minha casa se eu não tiver? Vá em frente, não dou a mínima.
Bervely franziu, tentando descobrir o que ele estava fazendo ali. Havia uma janela bem ao lado de Draco, iluminando a pele branca de leite, quase fantasmagórica que ele tinha herdado de Narcissa; os socos que ele tinha recebido de Potter há um par de semana não tinham deixado rastros, mas Draco tinha olheiras azuis debaixo dos olhos que poderiam ser confundidas com hematomas. Ela não se lembrava de vê-lo com um aspecto tão doente desde que ele tivera febre de dragão aos quatro anos.
Draco havia voltado ao livro que tinha nas mãos, decidindo ignorar a sua presença ali. Na pilha de volumes à sua frente, Bervely leu alguns títulos: “Malleus Beneficarium”, “Feitiços estreitos e azarações espreitas”, “Mago Magnus: Manual Magnânimo Mnemônico, vol. XIII”. Ela deu um passo à frente e puxou das mãos dele o livro que fingia estar lendo.
— Bervely! Mas que inferno! — Draco bateu as mãos na mesa com frustração, mas não fez menção de se levantar. Ela o ignorou e deu uma olhada na página aberta.
— “Etapa três: preparando o seu corpo para a transmutação”? O que diabos você está aprontando com isso?
— É só pesquisa — ele disse, olhando através da janela com impaciência, depois cruzando os braços e a encarando de volta. — O que é que você quer?
Bervely fechou o livro (Transmutação Humana Avançada e Altamente Não-Recomendada) e o colocou de volta à pilha de “pesquisa” do primo. Ela puxou uma cadeira perto da dele e o olhou com atenção, procurando uma brecha em sua expressão arrogante e entediada; haviam muitas. O rosto de Draco era um rosto que ela assistira por anos a fio, dos seus cinco anos até os quatorze, e ela sabia reconhecer as rachaduras, a vulnerabilidade, o cansaço, até o medo. Ele não estava dormindo; ele estava se deixando espancar pelo seu arqui-inimigo sem reagir; estava se escondendo em cantos poeirentos da sessão restrita em sábados de quadribol, e se havia algo pelo que Draco costumava ter uma obsessão quase tão doentia quanto por Harry Potter, era o maldito quadribol.
— Eu sei que você está enrascado — ela disse sem cortar caminho. Draco piscou, mantendo uma cara de paisagem, mas a reação dele foi um segundo mais devagar do que a de quem não tinha nada a esconder. Ele ajeitou as costas na cadeira para parecer mais no controle do que realmente estava, e fez um gesto de descaso com o queixo.
— Não sei do que está falando.
Ela já esperava por uma resposta do tipo; assentiu séria, como quem diz “se é assim que você quer jogar”, e tirou a varinha do bolso. Os olhos de Draco se arregalaram em alarme, mas sua intenção era meramente lançar um feitiço de privacidade ao redor deles, para o caso de alguém estar espiando a conversa. Em Hogwarts, nunca se sabia.
— Você e eu sabemos que Cho Chang não cometeu suicídio na noite de Halloween.
Ele piscou de novo, dessa vez parecendo mesmo surpreso.
— Como é? Eu não sei nada de Chang. Eu nem a vi naquela noite, e quem se importa com o que aquela maluca fez ou não fez na casa de barcos? Todo mundo sabe que ela pirou desde que o namoradinho morreu há dois anos.
Do lado de fora da janela, a visão oferecida era o lago de Hogwarts, naquele dia cinza metálico, refletindo um céu mau humorado. Bervely admirou brevemente a forma como o sol embaçado cintilava na superfície da água antes de olhar para o primo de novo, sabendo que as pausas e o suspense tinham o efeito de deixá-lo nervoso. Se quer tirar um Malfoy da zona de conforto, faça-o pensar que você sabe mais do que está contando.
— Eles acharam uma embalagem de drops de limão no bolso do kimono de Chang, quando a encontraram naquela noite. Ninguém achou que era grande coisa, afinal havia outra coisa, a carta de suicídio. Mas você e eu sabemos onde ela conseguiu aquele doce…
— Não! — Draco engasgou, os olhos escancarados agora. — Impossível! Dafne queimou todos, você sabe disso, não seja absurda!
— Eu não sou absurda, mas você e seus amigos são. Chang pegou o doce da cesta de doces de Tonks por engano aquela noite, mas eu vi acontecendo. E eu devo lembrá-lo de que Tonks é uma auror. Se ela juntar um fato a outro vai ser só uma questão de tempo até ela vir atrás de você, e eu não sei, talvez ela já tenha juntado…
Ela parou, porque era óbvio que Draco estava hiperventilando: conseguira o efeito desejado. Pouca gente sabia que Malfoys em pânico ficavam todo manchados de vermelho do pescoço para cima, mais ou menos como Weasleys constrangidos. Era raro encontrar um Malfoy em pânico, mas quando acontecia, a cena era triste de ver (ou gratificante, a depender do Malfoy. Ela ficaria feliz no dia que conseguisse deixar Lucius Malfoy naquele tom…)
— Eu nunca quis… nunca teve nada a ver com Chang, aquela noite! Por que raios eu ia… você mesma disse que ela pegou por acidente! E por culpa da traidora do sangue Tonks que confiscou as balas de mim, então se alguém tem culpa nisso, é ela, não eu!
— Draco, por favor — Bervely bufou, quase com dó da tentativa pobre dele de livrar o próprio couro. — Mas então, quem era o alvo de vocês aquela noite? Potter?
— Pro inferno com Potter, ninguém se importa mais com aquele babaca — ele cuspiu, tentando recuperar a postura de indiferença. Estava falhando, já que o rosto ainda tinha manchas vermelhas irregulares que denunciavam seu estado mental, e as pupilas escuras nos olhos cinza-claro estavam dilatadas, o que era evidente com toda a luz que a janela jogava em seu rosto.
— Quem é “ninguém”? — ela insistiu com suspeita. Até então estava achando que aquela era alguma peça que Draco e os amigos estavam tentando pregar e dera desastrosamente errado, mas algo no rosto dele, mais profundo e carregado de importância, a fez duvidar. — Quem é que se importava com Potter e não se importa mais, Draco?
Ele cruzou os braços mais firme em torno do peito, torcendo o rosto de novo.
— Você sabe quem.
A boca de Bervely ficou seca de repente.
— Isso era uma missão? Para… Ele?
A contorção quase dolorida no rosto de Draco lhe deu a resposta, e ela sentiu uma espécie de comichão venenoso no peito. Draco só tinha dezesseis anos, era uma maldita criança. Como eles se atreviam?
— Draco, não me diga…
— E eu falhei. Não uma, mas duas vezes, ele não está nada satisfeito comigo. Infernos, se ele souber que Chang foi dano colateral… ela não era sangue-puro? Ela não tem um pai no Ministério? — A voz dele foi ficando mais e mais aguda e a respiração curta. — Infernos, ele vai me matar.
— Ninguém vai matar você — Bervely disse, apesar de não ter ideia de se aquilo era verdade. — Mas você precisa me dizer quem era o seu alvo…
— Eu não preciso dizer nada a você! — Ele explodiu, como se ela fosse a culpada dos seus problemas, e não sua própria idiotice generalizada. — Você veio aqui pra me ameaçar, ou o quê? Vai contar o que sabe para Dumbledore? Para a Ordem da Fênix? Ótimo! Mas e a sua missão, Bervely, como é que anda indo, hein?
— A minha o quê? — ela estalou. Draco percebeu que tinha achado um triunfo, um ponto de carne sensível no qual cutucar, e a maldade ferida em seu rosto agora estava voltada para ela.
— Não pense que eu não sei de coisas. Papai mencionou em uma carta como você caminhou feliz para a fila Dele a fim de salvar a sua pele dos dementadores, em Azkaban. Então, não me diga que não recebeu uma também? É por isso que virou professora em Hogwarts? Quem é que Ele mandou você matar?
Bervely lambeu os lábios dormentes devagar, para ganhar tempo. Ela tinha consciência de que todo o sangue tinha ido embora do seu rosto. Felizmente, tinha mais experiência do que Draco em reerguer a expressão de indiferença quando precisava.
— A minha missão vai bem, Draco, obrigada por perguntar. Eu não matei nenhum aluno por acidente porque deixei balas envenenadas circulando por uma festa. Não dá pra reclamar.
Ele fechou a cara, emburrado.
— Eu não preciso da sua ajuda — resmungou, os maxilares travados, tão teimoso quanto costumava ser quando tinha sete anos e não queria tomar banho antes de ir para cama. — Se você não está aqui para ameaçar, e não vai me denunciar, então me deixa em paz. Tenho muito o que fazer, como deve imaginar, se não quero arruinar a minha terceira tentativa. Não vou ter outra chance depois disso.
Bervely ficou olhando para ele puxar de volta o livro que ela arrancara de suas mãos; aquela conversa não estava indo como o esperado. Mas então, ela não sabia o que tinha esperado ao confrontá-lo, ele estava certo, nunca tivera intenção de denunciá-lo para ninguém. Se Draco fosse acusado de homicídio, a vida dele estaria arruinada; depois da fuga de Lucius Malfoy, entre os outros comensais, e da derrocada de Azkaban, o Ministério estava procurando qualquer razão para mostrar serviço, e o filho de um comensal procurado sendo acusado pela morte de uma aluna, filha de um funcionário do próprio Ministério, era uma razão e tanto. Draco seria imediatamente expulso, e provavelmente retido onde quer que fosse que eles estivessem colocando os prisioneiros agora. Era possível que não tivesse chance de um julgamento, se Tonks testemunhasse contra ele. Não seria difíceis de conseguir uma confissão dos seus amigos covardes, Greengrass e Zabine, em troca de absolvição, e Draco jamais veria a luz do dia em liberdade de novo, isso se o Ministério não tivesse conseguido manter uns dementadores para uma sentença rápida…
— Venha para o Natal — ela disse de súbito. As sobrancelhas de Draco se ergueram em dois arcos louros incrédulos, mas ele não afastou os olhos do livro.
— Com os traidores de sangue e corja adjacente? Sob o meu cadáver.
— A sua outra opção é o que, com o seu pai criminoso procurado e a sua mãe covarde e submissa, naquela mansão assombrada?
Draco apertou com força as abas do livro, os nós dos dedos ficando brancos.
— Não se atreva a falar uma palavra sobre a minha mãe, Bervely.
Ela não deixou de notar que Draco não tinha tentado defender o pai, o que já era um avanço. Estaria Lucius destituído do posto de exemplo supremo a ser seguido e exaltado por Draco, depois de ter voltado de Azkaban com os dentes amarelos e os ossos rasgando a pele? Bervely decidiu tentar outra estratégia, apesar de suas poucas esperanças de sucesso.
— Ainda somos família, caso não se recorde. Mesmo com tudo o que aconteceu… Com Hector, e tudo mais... não muda o passado, não muda o fato de que crescemos juntos, como irmãos — ela se forçou a dizer, e prendeu a respiração.
— Engraçado você mencionar Hector — Draco disse devagar. O coração de Bervely deu um giro tenso; essa era a hora que ele lhe lembrava de que ela era a culpada pela morte de Hector, algo em que Draco sempre acreditara e o motivo pelo qual, no fim das contas, eles tinham se afastado. Mas não foi o que ele disse dessa vez: — Tem tido notícias de Charlotte?
Bervely sentiu um amargor de desagrado. Da última vez que vira a dita cuja, chorando a morte de Theodor sobre o túmulo de Hector, ela tinha lhe revelado o que realmente era aquele colar macabro que usava em torno do pescoço. Não era algo que queria voltar a pensar a respeito, se pudesse evitar (e Merlin sabia o quanto vinha tentando).
— Não, não realmente.
— Ela me escreveu, um dia desses. Fiquei um pouco surpreso, achei que ela estava morta, mas parece que ela está indo bem… usando um nome falso, por causa das coisas que o Ministério acha que ela fez, e bem arrasada com a morte de um tal de Shadowtamer, que parece que era o noivo dela ou algo assim. Ah, é, e ela me convidou para passar o Natal. Nos convidou, na verdade. A família inteira.
— Draco — Bervely chamou, a voz tremendo. Agora ela era quem estava à beira de um horror gelado. — Você não pode acreditar nela. Esse noivo que ela está enlutando, ela o mandou para a morte. Ela é uma cobra mentirosa, você precisa acreditar em mim e ficar longe dela.
— Interessante, — Draco virou uma página, displicente. Tendo algo com o que atormentar Bervely, ele parecia ter superado rápido o fato de que causara a morte de alguém por acidente. Bervely precisava admitir, ele tinha mais de Lucius do que poderia ser saudável. — Ela parece ter uma impressão similar ao seu respeito. O que é que há entre vocês duas, afinal? Não se cansam de arruinar a vida de homens que acontecem de se importar com vocês, só pra alimentar essa rivalidade doente que têm uma pela outra? Eu não dou a mínima para quem matou o tal do Shadowtamer — Draco informou. — Mas, sabia que Charlie chamou o cachorro dela de Draco em minha homenagem? Acho que ao contrário de algumas pessoas, ela realmente sente falta de mim.
— Você está sendo idiota — Bervely implorou. — Charlotte destrói tudo em que ela encosta, principalmente aquilo com o que ela diz se importar.
— Que coisa, — ele passou outra página de forma teatral, porque era óbvio que não estava lendo Transmutação Humana Avançada e Altamente Não-Recomendada desde que aquela troca de farpas tinha começado. — Alguém que lhe conhecesse bem poderia dizer o mesmo sobre você.
***
Uma suave fumaça azul, acompanhada de um aroma pungente, vegetal e ligeiramente ardido lhe indicavam que a poção de Acônito não só estava pronta, mas fora realizada com perfeição. A sua produção era ilícita sem a autorização do Ministério, mas com tantas coisas para se preocupar, isso não estava no topo da lista de Bervely naquele momento. Além do mais, ela não precisava do livro de instruções que vinha com a autorização; realizara aquela receita tantas vezes para Lupin em seu sétimo ano, a pedido de Severus, que se lembrava do processo perfeitamente.
As poções mais geniais eram como música; uma vez aprendidas, elas se tornavam uma constante em sua memória; bastava se lembrar do primeiro verso e o resto vinha naturalmente, uma consequência inevitável, como se nada diferente pudesse ser possível. Algumas poções sempre tinham existido, esperando serem cantadas em voz alta (ou rabiscadas no bloco de anotações de algum alquimista). Era a verdade para o Acônito, para A Aurora Boreal, e, ela esperava, para Neverland, a sua criação que lhe garantira uma vaga na Academia Flamel há três anos.
Agora que estava de volta às poções, a ensiná-las e produzi-las, pensava com mais frequência no seu tempo no Instituto. Se não fosse a distância de Sirius e uma solidão constante que a assolava quando não estava trabalhando sobre um caldeirão, aqueles teriam sido os dois melhores anos da sua vida. A única época que ela se sentira realmente protagonizando a sua vida, e não reagindo a acontecimentos desastrosos do melhor jeito que podia, tentando sobreviver.
Agora, é claro, estava de volta àquele modus operandi. Ensinado poções em Hogwarts enquanto lá fora o mundo estava explodindo em caos… Sirius fragilizado, sem poder fazer magia, a qualquer momento em risco de quebrar aquele celibato e se machucar de verdade… Summers andando por aí com um nome falso e o filho de Hector pendurado no pescoço, usando-o, como a parasita que era, para lhe fornecer a magia que não tinha… Snape lhe prometendo ensinar coisas que a ajudariam a sobreviver quando a hora chegasse… e a hora, que hora era aquela?
Foi por isso que você virou professora em Hogwarts?, Draco lhe perguntara. Por causa da sua missão?
Bervely coçou, impaciente, o braço esquerdo por cima da manga longa das vestes de pocionista. Precisava aguardar a poção esfriar um pouco antes de envasá-la, ou o equilíbrio dos ingredientes estaria comprometido. O problema de fazer uma poção que ela sabia de cor era que a mente ficava livre para divagar por lugares que não deveria…
— Alguém está pensando na morte do bezerro apaixonado — Nimphadora caçoou, lembrando a Bervely que ela chegara mais cedo para buscar a poção de Lupin e decidira ficar por ali esperando,.
A prima estava enfiada em suas vestes de auror, que ultimamente vinham se tornando quase uma segunda pele. Ela tinha um aspecto melhor do que da última vez que Bervely a vira, no fatídico jantar de “introdução” de Regulus irmão-pródigo Black na Casa dos Gritos; o rosto de Dora corado, as olheiras tinham sumido, a pele brilhava viçosa. Ela usava a cor natural do cabelo; um castanho escuro rico e ondulado como o da mãe, Andrômeda, cortado na altura dos ombros. Os olhos também estavam castanhos, o que era pouco usual para a sua natureza exibicionista. Bervely estreitou os olhos para a evidência que tinha lhe escapado numa primeira olhada.
— Qual é a do combo castanho? Está tudo bem com você?
— Ah, isso? Não é nada — Tonks sorriu sem graça. — Minha metamorfomagia anda meio louca ultimamente, acho que é estresse. A sua faz isso de vez em quando também, não é? Tipo quando você ficou verde por uma semana porque Sirius estava chateado com você.
— Não foi porque Sirius… argh — Bervely desistiu, estalando os lábios. Nunca devia ter mencionado aquilo para a prima, ela distorcia tudo com o propósito único de inferniza-la. — Mas, já pediu a sua mãe para te examinar?
— Mamãe anda estressada demais no hospital, não quero piorar as coisas. Além disso, eu não tenho ido tanto assim em casa — ela confessou com um sorriso maroto. — Já disse, não é nada. Não precisa ficar toda preocupadinha com a sua priminha preferida, eu vou sobreviver pra te atormentar até o fim dos tempos.
— Não duvido disso — Bervely rolou os olhos. — Espere aqui.
Ela atravessou a porta que separava o seu laboratório dos seus aposentos pessoais e achou o que procurava em um frasquinho em uma prateleira sobre a pia. Estava cheio de uma poção transparente com cheiro alcoólico que Andrômeda tinha lhe indicado para checar, de tempos em tempos, se estava mesmo curada da pneumonia que pegara em Azkaban. Era um unguento diagnóstico; a depender da cor que que se tornava após receber um pedaço de matéria orgânica da pessoa que se suspeitava estar doente, podia-se atribuir um diagnóstico diferente.
— Cuspa — ela estendeu o frasquinho para Tonks, que fez uma careta.
— Sério mesmo? Você soa exatamente como mamãe toda vez que eu começava a tossir quando era pequena.
— Pare de me elogiar e cospe logo, anda.
A auror obedeceu, deixando claro sua indignação com rufs e pufs, e Bervely deixou o unguento de lado para que o diagnóstico se realizasse, o que levaria alguns minutos. A prima voltou para o banco alto em frente ao balcão e puxou um béquer, que começou girar sobre o tampo de mármore.
— Vai demorar muito? Eu prometi à Aluado que ía para o jantar.
— Só um minuto. Pare, você vai quebrar isso — Bervely advertiu, pressentindo o destino do seu béquer favorito.
— Relaxa, prima. Obrigada por fazer a poção de novo pra ele esse mês. O mês passado a transformação foi bem mais tranquila, e quando ele acordou no dia seguinte, minha nossa, que energia acumulada…
— Me poupe dos detalhes sórdidos entre você e o lobisomem — Bervely pediu, e então, com um bufo: — Nimphadora, você vai quebrar isso.
— Ah, prima, se você soubesse dos detalhes sórdidos, essa sua cabecinha puritana ia precisar de um obliviate para ter paz novamente — ela suspirou dramática, mandando o béquer voando para perto uma das quinas, e o capturando no último momento. — Ops.
Bervely rolou os olhos.
— Você deveria tomar cuidado, há risco de a licantropia ser transmitida na lua cheia mesmo que ele não esteja em sua forma de lobo, sabe muito bem disso.
— Estamos usando proteção, Andrômeda Segunda — ela rolou os olhos. — E não deixo ele me morder muito forte quando estamos nessa época do mês. — A prima lhe deu uma piscadela marota. — E então, alguma novidade no mundo encantado das calcinhas de Bervely? Algum mancebo desavisado que devo estar shippando com a minha prima preferida?
Um vislumbre rápido e não-solicitado de Regulus, elegante em sua capa azul escura na noite do jantar, cruzou a mente de Bervely como uma tentação vinda do andar debaixo. Ela a dispensou com teimosia.
— Não, ninguém. Estou muito ocupada com as aulas e o meu drama familiar particular para pensar nisso.
— Pena — Tonks suspirou. O béquer escapou dos seus dedos e saiu girando pelo ar, se chocando contra o chão e se espatifando. — Ooops!
— Merda, Nymphadora! — Bervely foi pegar a varinha, indignada porém não surpresa. Os béqueres nunca eram tão bons depois de consertados com magia...
Uma coisa enorme e prateada atravessou a parede voando; por um momento Bervely achou que era um dos fantasmas de Hogwarts, mas logo ficou evidente que era um patrono. Seu formato era um gavião enorme; a voz grave que se desprendeu de dentro do bico era familiar, mas ela não se lembrava exatamente onde a ouvira antes:
— Auror Tonks, precisamos de reforço urgente no sudoeste, em uma vila chamada St. Sensille. Parece que a cidade está sendo atacada por um bando de dementadores. Venha rápido!
— Merda — Dora pulou do banco em alerta, catando algo em seu bolso. — Isso foi Kingsley, mas me pergunto porque ele não…
Dora tinha tirado um objeto redondo que parecia ser um relógio de bolso, o qual começou a emitir um silvo agudo. Bervely reconhecia aquilo como um comunicador especial dos aurores, inspirado em algo que os trouxas usavam para se comunicar à distância, o que da primeira vez lhe parecera um fato engraçado. Tonks abriu as duas partes do “relógio” e um zumbido saiu de lá de dentro, como a interferência de um rádio mal sintonizado.
— Preciso ir! Provavelmente eles estavam tentando me chamar mas os dementadores estão interferindo na magia de comunicação.
— Dora, espera — Bervely se apressou para envasar a poção de Acônito, apesar de que teoricamente deveria esperar mais um pouco antes de transferi-la de recipiente. — Você precisa levar isso para Lupin antes, se ele não beber na próxima hora vai perder o efeito!
— Não posso, preciso ir pra St. Sensille, você não ouviu? Faz isso pra mim, certo? Eu prometi a Remus que ia levar essa noite!
— Clar–
— Tchau, foi mal pelo béquer!
Dora sumiu porta afora; Bervely voltou para o caldeirão, nervosa. Dementadores estavam atacando cidades agora? O que é que Voldemort queria com aquilo? Ela terminou de envasar a poção, sabendo que ia precisar levá-la pessoalmente; ainda estava quente demais para que fosse seguro enviá-la por coruja ou por lareira, corria risco de arruiná-la e ao invés de tornar Remus num lobo dócil dali a uma semana, matá-lo envenenado aquela noite.
Bervely usou o túnel debaixo do Salgueiro Lutador, a opção mais rápida para chegar à Casa dos Gritos à pé. Seu coração estava batendo rápido no peito quando chegou ao alçapão do outro lado; Eles tinham dito St. Sensille, certo? Ela conhecia aquele nome…
— Bervely! — Remus a esperava na sala, como se soubesse que ela estava a caminho; deixara a porta do alçapão aberta para ela e estava agitado.
— Eu trouxe sua poção — ela lhe entregou o pacote onde acomodara o frasco com cuidado. — Dora…
— Foi para St. Sensille, sim, eu sei — ele ofegou. — Kingsley estava aqui quando recebeu o chamado, estávamos prestes a começar uma reunião da Ordem. Na verdade, todo mundo foi ajudar, eu fiquei por conta da poção, mas pretendo ir também assim que tomá-la.
— Onde está Sirius? — Bervely olhou ao redor; a casa estava cheia de um silêncio agourento. Foi quando ela percebeu porque Remus estava tão pálido; não era só porque Nymphadora tinha ido enfrentar um bando de dementadores…
— Eu não pude evitar — declarou resignado. — Ele nem me ouviu antes de aparatar.
— Você não pode estar falando sério! — Ela urrou. — Dementadores, Lupin! E ele nem pode– como ele– quem foi que deu a ele uma varinha?
— E alguém precisa dar a Sirius algum incentivo? Ele arranjou uma, com Rosmerta, imagino — Remus jogou a embalagem de papel de lado, desarrolhando a poção com pressa. Suas mãos tremiam ligeiramente. — Mas não se preocupe, eu vou arrancar ele de lá nem que seja a última coisa–
— Não, você não vai — ela negou, os olhos ardendo, o coração pulsando de medo. — Você sabe muito bem que não vai conseguir convencê-lo a voltar sem lutar. St. Sensille não é a cidade em que…
— Em que Olivia morava, sim — ele disse bruscamente, engolindo a poção com uma careta, os olhos amarelos lacrimejando. Parou para tomar fôlego e tossir. — E a cidade natal de Anne, também. A avó dela ainda mora lá.
— Merda — Bervely murmurou, um nó apertado na garganta.
— Eu quero que nos faça um favor — Remus disse. Ele tinha acabado de engolir todo o conteúdo do frasco e parecia estar lutando contra a queimação em sua garganta. Bervely tinha certeza de que ele no mínimo queimara a língua no processo. — Precisa manter um olho em Harry.
— Como é? Você quer que eu fique de babá de Potter enquanto meu pai–
— Eu vou fazer tudo ao meu alcance para trazer Sirius de volta vivo, mas não podemos ter Harry no meio disso, especialmente se Voldemort estiver envolvido. Já tivemos Harry tentando salvar Sirius no passado, e nós sabemos bem como isso terminou. Não tem como a Ordem ajudar e protegê-lo ao mesmo tempo, alguém vai sofrer as consequências. Pode garantir que ele não se envolva?
Bervely balbuciou alguma combinação de sílabas que pareceu satisfazer Remus. Ele assentiu uma vez e rumou para o ponto de aparatação da sala, um olhar feroz no rosto. Por tudo que Bervely sabia, a poção mata-cão que ele acabara de tomar não fizera nada para aplanar a fera resoluta que ela viu queimando nos olhos dele antes de o lobisomem desaparatar, rumo à batalha.
***
Mais ou menos naquela hora, no salão comunal da Grifinória, Rony Weasley estava desenrolando uma carta de casa, trazida há pouco por um hiperativo (e muito atrasado) Pichitinho. O rosto de Rony se iluminou quando leu as notícias:
— É Gina, ela recebeu alta, está voltando para casa!
— Não para a escola? — Hermione, que estava ali por perto rabiscando correções no ensaio do namorado a respeito dos hábitos culturais dos sereianos do Reino Unido, estranhou. — Seria de se pensar que ela já perdeu aulas o bastante.
— Mamãe diz que ela ainda precisa de um pouco de repouso, mas que está tudo bem. Ah, Harry, ela pergunta se você quer passar o Natal com a gente?
— Desculpe, Rony, prometi que ia passar com o Almofadinhas esse ano.
— Ah, tudo bem. Podemos fazer algo no dia seguinte, acho. A Gina vai ficar feliz em ver você.
Harry deu um sorriso culpado; o assunto Gina tinha sido varrido da sua mente nas últimas semanas, com tudo que vinha acontecendo. As aulas de poções cada vez mais exigentes de Bervely, os treinos dobrados para que tivessem uma chance que fosse contra a Sonserina na próxima partida, depois que tinham visto Astoria jogando, sem falar nos pesadelos, nas aulas focadas nos N.I.E.M.s…
— Oh, ela vai ficar bem feliz, eu penso — disse Hermione maldosamente, fazendo um grande círculo vermelho em uma palavra mal-colocada. Harry deu um olhar de advertência para ela que só fez seu sorriso crescer.
Anne, que estava ali por perto tentando fazer Pichitinho ficar quieto para poder lhe afagar, parou de súbito.
— Anne? — Harry levantou as sobrancelhas. Ele tinha olhado na direção dela para saber se estava ouvindo as insinuações de Hermione sobre Gina, então pegou o momento exato em que o rosto da garota empalideceu e sua expressão ficou tensa e assustada.
Ela tinha se levantado, rígida. Harry pensou ter visto um cintilar prateado nos olhos dela antes que ela virasse para a porta.
— Alguma coisa ruim está acontecendo.
— Como é? — Rony franziu as sobrancelhas.
Jinx entrou correndo pelo buraco do retrato naquele momento, tão rápido que era um risco prateado no ar, e parou aos pés de Anne, miando sonoramente como se quisesse lhe dizer alguma coisa.
— Quê? — Ela indagou, ansiosa, se abaixando para ficar no nível dele. Dessa vez Harry teve certeza, os olhos dela se inundaram de linhas prateadas como se alguém tivesse derramado sangue de unicórnio em suas pupilas negras. — Ah, não. Harry, Bervely está chamando a gente nas masmorras.
— A gente? Tipo nós dois? Tem certeza que não é só você? — Ele quis se certificar. Tinha entregado todas as tarefas daquela semana para a irmã de Anne, que quase tinha afogado a sua sanidade fazendo-o produzir uma poção da Primavera Noturna aquela semana. Preferia não ter que vê-la tão cedo, mas então, o tom de Anne parecia urgente, sem falar naquela coisa assustadora acontecia com os olhos dela…
— Anda logo, acho que é algo com Sirius. Jinx não quer me dizer.
Harry levantou, trocando olhares preocupados com Rony e Hermione.
— A gente tem reunião de monitoria antes do jantar — Hermione se desculpou. — A não ser que você queira que a gente vá com vocês?
— Anda, Harry — Anne guinchou. O que quer que o gato lhe “dissera”, ela parecia prestes a cair no choro.
— Tudo bem, eu aviso a vocês se precisar de qualquer coisa. Fiquem de olho nas moedas.
— Capa — Anne lhe lembrou e Harry arrebatou a mochila, embora eles não precisassem realmente da capa para ir até as masmorras, ainda estavam há horas do toque de recolher. Anne não falou nada no caminho; parecia concentrada em chegar aos aposentos da irmã o mais rápido possível. Harry também, com um sentimento crescente de preocupação à medida que se aproximavam das masmorras. Quando fora a última vez que falara com Sirius? Ele estava bem, certo? No jantar em que tinha apresentado o seu irmão vampiro pra eles. Sirius estava se recuperando do véu, não estava? Devia ter prestado mais atenção, devia ter perguntado…
— Entrem — Bervely disse bruscamente, escancarando a porta na primeira batida. O laboratório cheirava pungente e ligeiramente tóxico, um caldeirão vazio sobre a pira ainda fumegando. Ela trancou a porta atrás deles.
— O que-? — Anne começou, mas a irmã lhe fez um aceno para se calar.
Bervely respirou fundo e fechou os olhos, concentrada. Harry reparou que ela segurava a varinha, devia estar prestes a fazer alguma magia quando eles chegaram. Fez um floreio familiar com a varinha e, pouco a pouco, uma nuvem prateada fluiu da ponta e tomou a forma de um enorme cão, muito parecido com o animago de Sirius, a cauda enorme e peluda sacudindo excitada, deixando um rastro prateado no ar.
— Ache ele e o mantenha seguro — Bervely instruiu. O patrono deu um latido enérgico e saiu correndo, atravessou a parede de trás do laboratório e sumiu. Só então ela olhou para os dois, os olhos escuros nebulosos.
— O que aconteceu com Sirius? — Harry se adiantou antes mesmo que Anne pudesse falar alguma coisa. — Ele está bem?
— Eu não sei — Bervely estava lívida. Harry nunca a vira daquele jeito; ela parecia vulnerável e a ponto de quebrar. Nenhuma parte da arrogância automática que ela gostava de cultivar ao seu entorno parecia ter restado. — Há uma vila sendo atacada por dementadores, os aurores foram chamados e a Ordem se juntou para ajudar, incluindo... incluindo Sirius.
— Mas ele não pode fazer magia! — Harry exclamou, consciente de que estava afirmando o óbvio, o que Bervely confirmou com um olhar irritado.
— É mesmo, Potter? Me conte mais, por que você acha que isso é um agravante, caso se lançar numa nuvem de dementadores já não fosse ruim o suficiente? Seu padrinho é um irresponsável filho de uma–
— Não desconte em Harry — Anne reclamou. — Quem deixou ele ir? Pensei que Remus era suposto a ficar de olho nele!
— Ahá, você já foi apresentada à Sirius Black? — Bervely guinchou seca, seu estado de nervos vazando em forma de sarcasmo — Além do mais, por conta da vila em questão… — ela suspirou exasperada, depois seu rosto se suavizou ao olhar para a irmã. — É St. Sensille, Anne.
Anne arfou, seus olhos crescendo em compreensão.
— Ah.
— Remus falou que a sua avó ainda mora lá.
— Sim… eu acho — ela balbuciou. — Não falo com ela faz muito tempo, desde que eu fugi de casa para ir passar o verão com você e Sirius e depois ir para o Instituto Flamel.
— Ela vai ficar bem — Harry lhe assegurou, inquieto com o olhar perdido que viu no rosto de Anne. — Você ouviu, os aurores e a Ordem estão lá. Provavelmente Dumbledore…
— Precisamos avisar a Neville — Anne se lembrou. — A avó dele também mora lá. Eu posso ir procurar ele, acho que estava no Salão comunal… — ela se dirigiu para a porta, mas Bervely negou com a cabeça.
— Não, ninguém sai daqui até termos mais notícias. O que Longbottom não sabe não vai incomodá-lo.
— Então por que você chamou a gente aqui? — Harry perguntou, zangado com a postura indiferente dela em relação ao amigo. — Por que não esperar por mais notícias antes de “incomodar” a gente?
— Harry — Anne chamou baixo, colocando uma mão no braço dele. Harry se virou, zangado.
— O quê?
“Eu acho que ela nos chamou aqui pra não ficar sozinha”, ele ouviu a voz de Anne sussurrar em sua cabeça, acompanhada da insinuação em seus olhos. Ele se virou de novo para Bervely, que tinha ignorado a sua pergunta e estava andando de um lado para o outro do laboratório, catando ingredientes aleatórios nos braços a partir de seu acervo, e percebeu que Anne devia ter razão. Bervely parecia à beira de um ataque de nervos, aquela palidez em seu rosto e a veia pulsando em sua têmpora não podiam ser saudáveis.
— Tem alguma coisa que a gente possa fazer? — perguntou ele, que também não gostava da ideia de não fazer nada enquanto sabia que a Ordem lutava, mas entendeu que estava preso naquele laboratório abafado, ao menos por hora.
— Bom que você perguntou, Potter — Bervely despejou os ingredientes que tinha reunido da frente deles, e puxou de uma prateleira um caldeirão tamanho 32, que cabia um primeiranista dentro. — Elixir para Induzir Euforia. Não só um ótimo antídoto contra a ação dos dementadores quando fresca, mas também assunto do currículo do sexto ano que eu estava esperando cobrir com você nas próximas aulas.
— Quê? Você vai me fazer trabalhar enquanto todo mundo lá fora está correndo o risco de ter a alma sugada, incluindo meu padrinho, seu pai?
Anne deu a Harry um olhar de “melhor não contrariar”, mas ele estava revoltado demais para acatar. Bervely não se abalou, puxando um livro que parecia produzir poeira, e o colocando entre eles.
— Vou, é como eu me mantenho calma em tempos de crise. Podem começar, as primeiras etapas são fáceis o bastante, me chamem quando adicionarem o bicórneo. Anne, não deixe Potter meter os pés pelas mãos, você já me viu fazer essa poção antes do Instituto.
— Sim, claro — a menina murmurou, e então baixinho para que a irmã não ouvisse: — Há mil anos atrás e eu estava cega.
— Eu vou estar nos meus aposentos se precisarem de mim.
Ela sumiu pela porta adjacente, deixando Harry e Anne diante do caldeirão jumbo e da poção milenar.
— Pena que eu não trouxe o livro de minha mãe, acho que vi essa poção lá. Aposto que ia ajudar um bocado — ele suspirou, puxando o volume para perto. Anne continuava olhando na direção da porta por onde Bervely sumira, as sobrancelhas arqueadas juntas num franzido preocupado. — Você pode ir atrás dela, se quiser. Ela não parece nada bem.
— Eu sei que ela não está. Mas também sei que ela quer ficar sozinha — disse com conhecimento de causa. — O melhor que podemos fazer agora é seguir a receita e preparar a poção direitinho. E torcer para que todo mundo que foi para St. Sensille essa noite tenha a chance de tomá-la.
Harry assentiu, indo fazer a conferência dos ingredientes que precisariam. Havia um frasquinho em cima do balcão que não parecia fazer parte da lista; na verdade, parecia ter sido esquecido ali mais cedo. O conteúdo do interior, que um dia fora translúcido, se tornara um rico tom de púrpura, mas Harry não poderia fazer ideia do que a mudança de cor significava, de forma que o levou para a pia, para ser lavado com o restante das coisas que precisavam de limpeza antes de começarem a trabalhar.
***
O Elixir para Induzir Euforia não era difícil, mas exigia atenção: cada etapa era demorada e chata, e o processo e a espera estão deixando Harry agoniado. Porque eles precisavam fazer uma enorme quantidade da poção — supostamente suficiente para todos os membros da Ordem que tinham ido combater os dementadores em St. Sensille — eles precisavam recalcular todos os ingredientes e converter os valores e os tempos usando uma escala especial, pois a receita era para um caldeirão tamanho 12. Uma hora tinham se passado desde que tinham começado; uma quantidade imensa de água havia sido fervida, as folhas de carvalho tinham sido adicionadas, e agora precisavam mexer sem parar a mistura até que o cheiro de jasmim exalasse do vapor.
Estavam se revezando para mexer o caldeirão. Harry tinha sugerido usarem um feitiço para isso, mas como qualquer variação na constância ia fazer com que as folhas de carvalho embolotassem a mistura, eles acabaram desistindo.
— Ele vai ficar bem — Harry disse em voz alta, querendo acreditar naquilo. Anne, que estava em sua vez de mexer a poção, comprimiu os lábios antes de responder.
— Eu não sei, Harry. Não acho que ele vai.
— Por que você diz isso? — ele perguntou, estranhando a certeza com que ela tinha falando, e tentando ao mesmo tempo controlar a sensação ruim que essa certeza lhe transmitia.
Anne deu de ombros, sem dizer nada. Harry sabia que ela estava ocultando seus pensamentos dele; era estranho como os sentia na borda de sua própria mente, como sussurros mudos, como se Anne pudesse abaixar o volume para impedí-lo de saber. Harry insistiu:
— No salão comunal antes de o gato chegar, como você sabia que alguma coisa ruim estava acontecendo? Seus olhos fizeram aquela coisa estranha, quando ficam prateados.
Anne puxou ar o segurou nos pulmões, parecendo incerta em como lhe responder. Ela estava inclinada sobre o caldeirão, e as chamas embaixo dele iluminavam seu rosto por baixo, lhe dando uma aparência ligeiramente assombrada. Os olhos dela estavam de volta à cor original, escuros como os de um corvo, mas o círculo prateado que havia em torno de sua íris lembrava-lhe o anel de um eclipse lunar.
— É como… como se houvesse um elástico me unindo às pessoas, sabe? Eu sinto eles meio que se esticarem, quando alguém que eu amo está em perigo. Sempre foi assim, mas demorou um pouco para eu entender o que significava. Quando eu tinha sete anos, a minha melhor amiga da escola de St. Sensille ficou doente e a mãe dela a levou para se tratar. Uma noite eu senti esse… esse estalo, e depois é como se eu tivesse deixado alguma coisa escapar, um tipo de leveza ruim, como quando você cai no vazio… No dia seguinte eu fiquei sabendo que ela não tinha resistido, tinha morrido durante a noite.
“Também senti quando meu avô morreu, mas eu estava dormindo. Acordei achando que era um pesadelo, e só me lembrei quando a notícia chegou para a gente dias depois. Eu senti algo parecido na noite em que Sirius caiu através do véu, mas não exatamente igual. Como se esse elástico estivesse bem esticado, quase se partindo mas resistindo, e quando ele voltou, eu soube porque senti o oposto, senti que ele estava fora de risco e por perto.
“E hoje a noite… — ela levantou o rosto para encará-lo. Harry notou que os olhos estavam cintilando, cobertos por uma camada de lágrimas prestes a transbordar. — Eu não consigo respirar. Eu não posso fazer nada para evitar. É horrível…
Harry pegou a concha da mão dela e a colocou de lado; ele também estava com os olhos pinicando agora, a visão tão embaçada que só via o contorno de Anne. Não havia outra coisa a ser feita – estendeu os braços para ela e Anne se aninhou em seu peito, enterrando o rosto em sua camisa. Harry fechou os braços bem apertados em torno dela. Ela não começou a chorar; só respirou fundo, o corpo trêmulo e quente apertado contra o dele, os braços aferrados ao redor de sua cintura. Ele queria arrancar a agonia dela, mas não podia, porque era dele também.
Foi uma das piores e melhores coisas que ele já tinha sentido. Seu corpo inteiro, desde o coração apertado até a cabeça latejando, estava com medo por Sirius e pelos outros dos quais não tinham notícias até agora, mas ao mesmo tempo ele nunca se sentira tão ancorado. Como se – e era louco pensar – mesmo se o pior acontecesse ele sabia que ficaria bem, e sabia que ela ficaria bem, porque iam dar um jeito, um estava ali para o outro.
Talvez fosse assim que as pessoas se sentiam em relação à família, ele pensou. Talvez era disso que as pessoas falavam quando diziam que “ia ficar tudo bem, desde que estejamos juntos”, em filmes e coisas assim. Harry nunca tinha entendido aquilo completamente até então, com Anne entre os seus braços, esperando que a respiração dela se acalmasse à medida que a sua se aquietava também.
— Imagino que esse cheiro queira dizer que já esteja na hora de adicion– Bervely parou à porta quando viu os dois abraçados. Anne se afastou de Harry quando ouviu a voz da irmã;, não com pressa, como se tivesse algo a esconder, mas devagar e apenas porque tinha pretensão de responder à pergunta dela. Harry se sentiu grato por aquilo.
— Acho que arruinei a poção — Anne fungou, se desculpando. — Parei de mexer faz uns três minutos.
A expressão de Bervely era inescrutável quando ela se aproximou, pegando a concha e mexendo a poção para analisá-la.
— Não, acho que está boa. Já está cheirando a jasmim, onde está o chifre de bicórnio?
Anne apontou a direção geral do ingrediente e Bervely foi buscá-lo. Ela parecia evitar olhar na direção dos dois; Anne se virou para Harry e deu de ombros como quem diz “não sei se estamos enrascados”. Ele deu um sorriso fraco; ainda estava fascinado com aquela nova descoberta; diante dele, Anne tinha adquirido um novo brilho de importância. Ele ainda não sabia o que fazer com isso, mas por enquanto o calor que enchia o seu peito bastava.
Infelizmente, mais de uma hora depois, poção pronta para cozinhar lentamente pelas próximas quatro horas, eles ainda não tinham nenhuma notícia de St. Sensille. Bervely chamara a Casa dos Gritos pela lareira e uma sonolenta Yasi tinha vindo lhes dizer que ninguém tinha voltado. Enviara Jinx à McGonagall e à Dumbledore, mas a primeira lhe informara que ainda não tinha notícias e a o segundo não parecia estar no castelo; por tudo que sabiam, deveria estar igualmente em St. Sensille.
Cansados de esperar nos bancos desconfortáveis do laboratório, eles se refugiaram nos aposentos de Bervely, que não eram como Harry os imaginara. Imaginara um quarto escuro, úmido e sem janelas, com uma cama espartana e um guarda-roupas cheio de várias cópias das vestes de poções que Bervely usava todos os dias; no lugar disso, encontrou um aposento tão amplo quanto o seu próprio dormitório, dividido em uma área de leitura, com uma lareira e uma pequena mesa cavada na pedra, e do outro lado, uma cama alta ao lado de um janelão em forma de escotilha, que dava para o lago negro. A sensação era de estar na cabine de um navio, se navios fossem feitos de pedra escura. Havia também uma estante com mais livros do que Harry teria esperado achar (quase tantos quanto havia na sala de Remus) e uma chaise estofada de veludo verde escuro, onde Anne fora se refugiar, levando Jinx consigo.
Harry tinha ido se distrair com os livros da estante, mas a maioria sobre Poções ou Alquimia; nada sobre defesa contra as artes das trevas, para a sua decepção. Bervely lhe olhou com a sobrancelha erguida quando o pegou remexendo seus livros, mas não falou nada, então Harry continuou a fim de matar o tempo.
Ele abriu “La Voix du Sangue”, um insuspeito volume que parecia cheio de poções feitas à base de sangue, e alguma coisa caiu de lá de dentro. Era uma foto, ele percebeu; Bervely estava nela, usando um vestido dourado de festa com um rasgo no ombro. Parecia bem mais nova e ligeiramente transtornada, não fosse um sorriso no canto de sua boca. Anne, bem novinha, os óculos escuros no rosto, um sorriso enorme, e finalmente Almofadinhas, a língua rosada pendurada para fora, um gorro de papai Noel enfiado entre as orelhas, inquieto e feliz entre as duas filhas.
Anne viu o que ele tinha achado e abriu um sorriso igual ao da foto.
— Oh, uau! Eu nunca tinha visto essa foto. Tiramos no nosso primeiro Natal em família, não foi? — ela disse, buscando o olhar de Bervely para confirmação. — Fui catar Almofadinhas para salvar você do homem louco do olho e decorei a caverna enquanto esperava. Não sabia que ainda guardava ela.
— É claro que eu guardo — Bervely disse num tom seco. — E você quis dizer, o nosso único Natal juntos. Os outros dois passamos no Instituto — a voz dela esmoreceu e Bervely voltou a fazer o que estava fazendo antes; organizar e reorganizar sua gaveta da escrivaninha, onde todas as penas e tinteiros já estavam obsessivamente alinhados.
— Vamos ter outro esse ano — Anne disse decidida, depois olhando para Harry com um sorriso corajoso no rosto. — Dessa vez com a família completa, não é, Harry?
Ele sorriu de volta pra ela; achava que o coração poderia explodir, e a vontade de abraçá-la de novo, apertá-la, na verdade, deixava seus braços formigando. Mas logo a impotência da espera retornava à sua mente, misturadas com aquela promessa esperançosa de Anne, que ela sabia muito bem que podia não se cumprir dependendo do desfecho daquela noite.
— Devíamos fazer alguma coisa. Já fazem horas. E se eles estiverem precisando de mais ajuda?
— Sim, Potter, porque se a Ordem da Fênix e o esquadrão de aurores não deram conta dos dementadores, vai ser um adolescente magrelo quem vai resolver a história.
— Eu só estou dizendo que…
Bervely fechou a gaveta com um baque. Ela olhou irritada para Harry, que tinha se aproximado, também irritado com a passividade dela. Ele já tinha lutado contra dementadores antes, será que ela não sabia que dera conta de uns cem sozinho quando tinha treze anos?
— Você não entende, não é, Potter. Não é porque você não pode ajudar que não te querem lá. Diabos, talvez você possa, com seu patrono e sua estupidez heróica e tudo mais. Mas a sua presença também torna as coisas mais difíceis pra todo mundo.
— Quê? Eu não torno, não–
— Você é o “Escolhido”, Potter! Se você aparecer lá, será que não entende que todo mundo vai parar de proteger o resto das pessoas daquela vila para se preocupar com você? A esperança do mundo bruxo, a grande salvação? Você quer mesmo colocar todas as pessoas em perigo com a sua arrogância?
— Mas eu não pedi pra ser merda nenhuma! – Harry exclamou, indignado com as acusações sem fundamento. — Eu só quero ajudar!
— Você ajuda mais ficando aqui, onde as pessoas não precisam se preocupar em proteger seu rabo inquieto e podem fazer o trabalho delas em paz.
— Bervely! — Anne exclamou de detrás dela. — Não a ouça, Harry. Ela só está dizendo essas coisas porque está estressada, todos nós estamos.
— Potter sabe do que eu estou falando — disse Bervely, exausta. — Ele sabe que todo mundo ao redor dele se desdobra para ensiná-lo isso e aquilo para que ele tenha a mínima chance de sobreviver, se o que dizem é verdade. O mínimo que você podia fazer é parar de se colocar em riscos desnecessários e parar de dar dor de cabeças para as pessoas, Potter. Só estou dizendo.
Harry engoliu em seco. Todo o calor que tinha tomado seu peito agora tinha se esvaído, dando lugar a uma indignação gelada, bem mais familiar.
— Então é por isso que está me ensinando poções? Para me dar uma chance?
Bervely bufou impaciente.
— Eu estou ensinando poções a você porque essa foi a condição de McGonagall para que eu ficasse com o cargo. Ela é uma das que acreditam que podem aumentar as suas chances de sobrevivência se conseguir enfiar alguma coisa nessa sua cabeça dura.
— E eu estou supondo que você não seja uma? — ele desafiou, num tom tão cortante quanto o dela.
— Eu não acho que você seja o “Escolhido” — Bervely fez aspas de zombaria no ar. — Eu não acho que você tenha a menor chance num embate direto com o Lord. Eu acho que você teve sorte até agora, e sorte tem limite, então eu ficaria na minha, no seu lugar. Essas coisas que eles querem fazer você acreditar, Potter, Destino… isso é pura bosta de hipogrifo. Não existe destino. Merlin sabe que eu estaria em um lugar bem diferente se existisse.
Harry estava perdido – aquela declaração tinha girado cento e oitenta graus e se tornara sobre ela mesma, mas quando estava prestes a rebatê-la, Anne soltou um lamento atrás deles.
— Anne! — Bervely saltou da cadeira, correndo para irmã antes que Harry reagisse. Ele só conseguiu ver um monte de sangue escorrendo pelas mãos dela, com que cobria rosto, antes que Bervely passasse na frente dele, obstruindo a sua visão. — Potter, não seja inútil, vá pegar uma toalha limpa no banheiro, debaixo da pia!
Harry correu para obedecer; quando voltou, Bervely segurava a cabeça de Anne para trás, tentando conter um sangramento profuso em seu nariz. Ela aceitou a toalha que Harry oferecia sem nem olhar na direção dele, e pressionou o nariz de Anne com ela.
— O que ela tem?
— Ela vai ficar bem. Vá ao meu estoque e pegue uma poção com o rótulo “Essência Amarela”. Ande, Potter!
Harry voltou dois minutos depois com a poção; Bervely a abriu e deu para Anne cheirar, afastando a toalha do seu rosto. Ela aspirou como pode, sangue ainda escorrendo pelo nariz, os olhos de novo tomados em prata. A gola da blusa estava empapada de vermelho, mas as duas estavam calmas, a crise parecia contida. Obviamente não era a primeira vez que isso acontecia. Harry se lembrou daquela vez no banheiro do dormitório, no início do ano letivo: ela tentara investigar o passado do punhal usando a Visão, e tivera um pequeno sangramento que limpara com a manga da blusa; nada comparado ao que estava acontecendo agora.
— Esdou bem — Anne declarou, assumindo a tarefa de pressionar a toalha contra o próprio nariz. — Esdou bem, Hawi, não preciba fazer essa caga.
— O que acabou de acontecer? — ele se aproximou, assustado com a quantidade de sangue. Nem era tanto assim, agora que olhava de perto, mas o fato de ter fluído tão de repente e tão rápido parecia aumentar as dimensões do sangramento.
— Essa cabeçuda teimosa insiste em usar essa porcaria — Bervely apontou para o colar em torno do pescoço da irmã, que sustentava a orbe de pedra leitosa.
— Não dem nada a ber com isso, Berbely — Anne suspirou, ou assim pareceu, por baixo da toalha. — Harry, dudo bem com bocê?
Harry assentiu (não era ele com hemorragia nasal afinal); então, reparou que a sua cicatriz formigava. Não tinha percebido antes, com toda a comoção. Além disso, era tão sutil que podia muito bem ser impressão sua, poderia estar imaginando. O olhar que Anne trocou com ele, no entanto, lhe indicou que não era o caso.
— Acho que bamos ter nodícias em b’ebe — Anne se recostou na chaise, a aparência cansada. Bervely deu um suspiro exasperado, deixando as pálpebras pesarem, provavelmente pensando que aquela noite estava sendo muito mais longa do que encomendara.
Minutos depois, McGonagall bateu à porta do laboratório para lhes dizer que estava terminado.
(Continua…)
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