A Canção de Morgana
28 Um Lugar Seguro no Escuro
Notas iniciais
— Eu disse NINGUÉM entra, nenhum aluno, só em caso de vida ou mort– Minha nossa, Srta. Black, o que foi que aconteceu com você? — Mme. Pomfrey interrompeu sua bronca para perguntar, quando viu Anne ensanguentada em sua frente.
— Ela está bem — Bervely se adiantou, fazendo força contra a fresta da porta que Pomona tinha aberto para dispensá-los. — E eu sou professora–
— Só a garota, entre, querida, o resto–
— Prof. McGonagall nos mandou — Harry se enfiou entre Bervely e Anne para se fazer visto, ansioso para entrar na enfermaria. — Sabemos quem está aí dentro, sabemos que houve um ataque de dementadores, nos deixe entrar!
— Ah, pela varinha de Cacilda, por acaso as paredes de Hogwarts tem ouvidos e eu não estou sabendo? — Mme. Pomfrey reclamou, os deixando passar e enfiando a cara pela porta logo em seguida: — Nick, o que eu disse a você, ninguém deve se aproximar das portas, sem exceções!
O fantasma que guardava o corredor deu de ombros sem jeito, a cabeça sacudido instável em cima do pescoço.
— Mil perdões, Pomona, mas se tratando de Harry Potter, eu pensei…
— Oh, você pensou! — a curandeira praguejou, batendo a porta atrás dela.
Uma enorme parcela da enfermaria tinha sido coberta por uma cortina branca flutuante, deixando uma porção das camas ocultas. No tempo em que ela levara discutindo com o fantasma, Anne, Harry e Bervely já tinham corrido para trás da cortina, sem esperar permissão.
Haviam três camas, todas ocupadas. Harry viu Tonks na primeira da direita, sentada, amarrotada e exausta, comendo uma barra de chocolate que não podia ter fim. Ela tinha um rasgo no braço, do pulso ao cotovelo, mas fora isso parecia bem. Remus, na cama seguinte, estava deitado com os olhos cobertos pelo braço, murmurando, parecendo com dor.
Na cama seguinte, a mais distante da porta, havia uma silhueta negra, mas era difícil entender o que estava acontecendo porque um furioso cão feito de fumaça prateada lutava para manter uma bruxa de jaleco verde-claro à distância.
— Alguém pode POR FAVOR finalizar esse patrono?! Eu preciso examinar o paciente!
Harry reconheceu a tia de Anne, Andrômeda, que tinha conhecido no St. Mungus em setembro, quando o padrinho ficara hospitalizado após retornar do véu.
— Finite incantatem — Bervely desencantou, correndo para onde a tia estava. A silhueta na cama era Sirius, ou melhor, Almofadinhas. Ele estava tão imóvel, que era difícil saber se respirava. — O quê…?
— Ele vai ficar bem — Andrômeda se adiantou, colocando uma mão no ombro da sobrinha para tranquilizá-la. — Chegou aqui consciente, mas desmaiou de exaustão há alguns minutos. O patrono não estava me deixando encostar para lhe dar uma poção fortificante, era seu?
Bervely não pareceu ouvi-la. Ela se debruçou na cama para se certificar que o coração do pai estava batendo, inclinando a cabeça até encostar o ouvido em seu peito, o cabelo negro se misturando com o pelo escuro do cão. Se ergueu de novo, ainda parecendo pouco convencida e em agonia:
— Ele tem uma alma? Você tem certeza que ele ainda, que ele tem–
— Ele está bem, Bervely — disse uma voz rouca atrás dela. Era Remus, que tinha deixado a sua cama para se aproximar. — Eu disse a você que o traria de volta inteiro, se lembra?
— Ele não parece inteiro — ela murmurou, rouca, afagando o pelo macio e sujo de lama no pescoço do cão. Harry viu que as mãos dela tremiam.
— Ele está vivo — Anne disse, a voz distante. Ela olhou para o padrinho, preocupada: — Mas e quanto aos outros…?
Remus balançou a cabeça, pesaroso.
— Chegamos tarde. Parece que a vila já estava lutando contra a invasão há mais de uma hora quando recebemos o chamado; alguém interceptou o primeiro pedido de ajuda. Os dementadores estavam coletando almas, e eles conseguiram um bom número, infelizmente.
— Alguém que conhecemos? — Harry perguntou com a voz fraca. O seu ex-professor anuiu.
— A avó de Neville, Augusta. Ela resistiu por um bom tempo, conjurando um patronos múltiplos para proteger os moradores trouxas da cidade, mas isso a drenou por completo. No fim eles a pegaram, eram muitos. E a sua avó, Anne…
Anne assentiu, dando um passo incerto para trás. Remus estendeu os braços para ela e a puxou para perto. Anne enfiou o rosto no peito dele, parecendo respirar muito fundo.
— Venha aqui. Vai ficar tudo bem. Imagino o quanto ela tenha lutado, também, a sua avó era durona…
— Não tanto depois que vovô se foi — Anne murmurou, a voz abafada pelo paletó de Remus. — E eu a deixei sozinha por todos esses anos.
— Você fez o que foi preciso, querida. Nada do que aconteceu hoje poderia ter sido evitado. — Remus levantou os olhos, pousando-os em Harry — Tudo bem com você?
O garoto assentiu, ainda com o coração acelerado, toda aquela adrenalina que o preparava para a luta agora circulando em suas veias, sem chances de ser queimada. Era estranho para ele estar à parte da batalha, chegar apenas para ver os efeitos colaterais, estar intacto enquanto gente com que se importava estava se machucando… não era uma sensação de que ele gostava, nem um pouco.
— Aqui, Srta. Black, tome isso, vai ajudar a repor o sangue que perdeu — Madame Pomfrey enfiou um frasquinho na mão de Anne, diligente, passando por eles. — Vou deixá-los com a doutora Tonks, preciso dar conta de um caldeirão enorme de Poção da Euforia para os demais, há limites para os poderes do chocolate contra uma revoada de dementadores.
— Já fizemos um — disse Bervely, que se aferroara ao lado de Sirius, ajudando Andrômeda a administrar a poção fortificante intravenosa em sua pata traseira. — Vai estar pronta em uma hora.
Madame Pomfrey a olhou, ligeiramente impressionada.
— Bom, ótimo. Muito eficiente da sua parte, Srta. Black.
Anne terminou de engolir sua poção de reposição de sangue com uma careta.
— Alguém precisa avisar ao Neville.
— Minerva deve estar fazendo isso agora mesmo — Remus lhe informou com suavidade, um braço ainda sobre o ombro dela. — Na verdade, Anne, acho que vocês devem retornar para seu salão comunal agora. Podemos conversar mais tarde, agora todos precisam de descanso, incluindo vocês. Tenho certeza que não foi uma noite fácil. E Neville vai precisar de todo apoio que puder, também. Eu irei buscá-la amanhã cedo, está bem? Caso queira ir ao hospital com a sua tia.
— Hospital? — ela perguntou, confusa.
— A sua avó será mantida na ala de danos irrecuperáveis, por ora.
— Oh. Certo — ela balbuciou. — Certo.
— Harry, se importa em acompanhá-la? — Remus pediu para o garoto. — Não se preocupem, vocês dois, vamos cuidar bem de Almofadinhas. Tenho certeza que Bervely não vai sair do lado dele até ter certeza de que ele está latindo e abanando o rabo de novo por aí.
Harry assentiu, dando uma última olhada para a cama do padrinho. Anne se despediu deles e foi andando na frente para falar com Nymphadora, que ainda estava em sua cama, anormalmente silenciosa, devorando o chocolate. Ele aproveitou que a garota não estava por perto para se aproximar do ex-professor e perguntar, num tom baixo:
— O que você acha que eles queriam, os dementadores? Foi Voldemort quem mandou eles para St. Sensille?
— Não estou certo, Harry. Desde que se libertaram de Azkaban, imagino que estejam sem rumo. Podem estar procurando um novo ninho.
— Um ninho? — a ideia causou a Harry imensa repulsa. — E por que fazer isso em St. Sensille?
— Dementadores são atraídos por lugares que guardam memórias de desastre e dor — Remus explicou. Suas próximas palavras demoraram um pouco, ele parecia estar analisando se deveria dizê-las à Harry. — Você sabe onde St. Sensille fica?
— Sudoeste da Inglaterra? — o garoto deu de ombros. — A localização é importante?
Remus assentiu, lançando um olhar de esguelha para a afilhada e Tonks, que sussurravam uma para a outra na cama ao lado e não prestavam atenção neles.
— Coisas ruins sempre aconteceram em St. Sensille, é verdade. A cidade tem um histórico assombrado, para dizer o mínimo. Mas há também um fator de proximidade… St. Sensille é vizinha de uma outra cidade onde algo terrível aconteceu quinze anos atrás.
Remus lançou um breve olhar para a cicatriz de Harry, e ele entendeu. Então St. Sensille ficava perto de Godric’s Hollow… a cidade onde seus pais haviam morrido. Ele experimentou um arrepio desagradável em sua coluna, achando que ia passar mal.
— Como vai a sua cicatriz, Harry? — Remus quis saber, cauteloso. — Tem praticado oclumência? Anda tendo aqueles… pesadelos de novo? Do tipo que teve no ano passado?
— Está tudo bem — Harry garantiu-lhe, lembrando-se das palavras de Bervely mais cedo. Precisava que as pessoas parassem de se preocupar em proteger o seu “rabo” se queria que elas fizessem o seu trabalho direito. — As aulas de Sophia tem ajudado.
— Sei — Remus assentiu, sem parecer totalmente convencido. — Fico feliz em ouvir. Mas nos deixe saber se algo estiver acontecendo, ok? Contate um de nós, se qualquer coisa estranha…
— Harry? — Anne chamou atrás dele. — Você vem?
— Sim, já estou indo — Harry disse, e se voltou para Remus com um sorriso fraco. — Está tudo bem, Remus. Obrigado por hoje, por trazer Sirius de volta inteiro.
O lobisomem devolveu seu sorriso, parecendo tão exausto quanto depois de enfrentar um ciclo inteiro de lua cheia, embora Harry achasse que estavam na quarta crescente.
— Por seu padrinho eu faria isso um milhão de vezes, Harry. Não tem do que agradecer — ele lhe deu um tapinha no ombro e indicou Anne com o queixo
— Fique de olho nela pra mim, sim?
— Claro que vou ficar.
***
O dia seguinte foi um daqueles dias – cada vez mais frequentes desde o retorno de Voldemort – que o mundo se achou coberto por um véu negro de medo.
Havia uma reportagem de capa no Profeta Diário a respeito do ataque à St. Sensille na noite anterior. A foto na primeira página era macabra: uma nuvem negra formada por milhares de dementadores pairava sobre uma pequena cidade entre duas colinas, como uma revoada de abutres circulando os restos moribundos de uma batalha. A dança lenta de suas capas negras, ao mergulharem para a cidade em busca de almas, era de enrolar o estômago.
Muito pouco se comeu no café da manhã. Os nomes das famílias bruxas que tinham sucumbido aquele ataque circulavam na boca dos alunos, mas além deles, centenas de trouxas também tinham sido desalmados sem nenhuma chance de defesa.
De acordo com a reportagem, parecia que parte dos dementadores haviam se estabelecido na Floresta Branca, outra parte tinha sido espantada pelo Esquadrão de aurores (e pela Ordem da Fênix, embora essa segunda não fosse citada na reportagem), mas de toda forma os dementadores ainda haviam feito um extenso banquete. O grande problema do Ministério no momento parecia ser o que fazer com as centenas de pessoas sem almas deixadas para trás.
— Isso é terrível, um caos completo — Hermione disse desgostosa, lágrimas no rosto contorcido, empurrando o jornal e o próprio prato para longe. — Como pode ser possível que ninguém saiba o que fazer com os dementadores? Temos o patrono para espantá-lo, certo, mas nada que os controle ou os impeça de ficar vagando por aí, devorando almas?
— Papai me explicou uma vez — disse Rony, que também não estava comendo aquele dia. — A família Shadowtamer, que gerenciava Azkaban por séculos, era uma das únicas capazes de controlar os dementadores na Inglaterra. Eles tinham métodos mágicos secretos que nunca aceitaram revelar ao Ministério, porque queriam continuar administrando a prisão sem interferência. Mas agora não restou nenhum Shadowtamer, os últimos morreram no levante da prisão mês passado, incluindo o diretor. Nem os aurores sabem o segredo…
— Não é possível que ninguém mais saiba — enfureceu-se Hermione para quem a monopolização de conhecimento podia ser classificado como crime hediondo.
— Opa, eu conheço esse olhar — Rony notou, preocupado. — Pressinto uma temporada na biblioteca… sessão restrita, talvez?
— Não tem graça, Ronald — ela rebateu, as narinas inflando. Além disso, não acho que a biblioteca de Hogwarts, nem mesmo a seção restrita, vá ter esse tipo de informação. Se algo assim existe, deve estar guardado à sete chaves, talvez no próprio acervo da família Shadowtamer.
— Rony acabou de dizer, Hermione, estão todos mortos — Harry a lembrou, preocupado com aquela resolução que ele via se formando por trás dos cachos da amiga. — A não ser que você já tenha descoberto como falar com os mortos…
— Deve haver outro jeito — ela insistiu, mas como nenhum dos dois tinha uma resposta para ela, precisou dar o assunto por encerrado, por hora. — Onde é que está Anne? Eu não tive a chance de lhe dar meus sentimentos pela avó dela essa manhã.
— Ela saiu cedo com Remus e a professora Neveu para visitar a avó no hospital — Harry explicou. Só sabia disso porque Neville, que também estava indo com eles para contar aos seus pais a notícia da morte da avó, lhe informara antes de sair. — E depois eles vão ao enterro da Sra. Longbottom…
— Isso é tão triste — Rony suspirou. — Lembro quando vovô Gabriel morreu de varíola de dragão, eu tinha sete anos. Mamãe estava acabada, mas acho que foi também porque ela precisou comprar sete pares de roupas pretas para a gente, foi um monte de grana de uma vez só, um desastre.
— Oh, Rony — Hermione suspirou, embora sem muita energia para brigar com a falta de tato do namorado. — Ah, Harry… não acha que devia estar lá pra ela? Se Almofadinhas ainda está se recuperando, e imagino que a irmã dela tenha que ficar aqui por causa das aulas…
— Eu pedi à professora McGonagall para ir, ela disse que achava perigoso e desnecessário me expor desse jeito, depois do que aconteceu no Ministério no verão — ele rolou os olhos. — Como se eu tivesse algo a ver com aquilo. Parece que ninguém entende que Voldemort desistiu de mim…
— Shiu — Hermione o advertiu. Draco, que estava passando por perto da mesa deles rumo à saída, lançou um olhar desdenhoso para o trio. Harry estreitou os olhos para ele; a memória de seu último embate ainda fresca, ele trincou o maxilar, esperando, quase desejando que Draco viesse encher o seu saco para poder lhe acertar mais uns socos. Mas o loiro desviou o olhar, desinteressado. Harry encheu os pulmões para exclamar:
— Hey, Malfoy!
Draco se virou, a sobrancelha erguida, ao mesmo tempo em que Hermione resmungava um “Harry, ficou louco?” e Rony olhava, interessado.
— Só queria agradecer a sua renúncia do time — Harry disse, alto e zombeteiro. — Finalmente você me deu alguém a quem vale a pena enfrentar! Presente de Natal adiantado?
— Vá se foder no cabo de uma vassoura, Potter — Draco disse a esmo e saiu andando. Harry se voltou para os amigos, um pouco sem graça com aquele tiro pela culatra. Hermione o olhava como se a sua cicatriz tivesse se aberto em duas e um chifre tivesse crescido em sua testa.
— Isso foi mesmo necessário?
— Tem algo errado com o Malfoy — Harry disse, brando. — Será que quebrei ele com aqueles socos no mês passado?
Rony deu uma risada abafada, mas Hermione o olhou feio. Nenhum deles reparou o sorrisinho presunçoso de Astória na mesa da Sonserina, após ter ouvido o elogio velado que recebera de Harry Potter em face às suas habilidades quadribolísticas.
***
Bervely estava trabalhando. Trabalhar distraia-lhe dos pensamentos agourentos que urubuzavam a sua cabeça. Trabalhando, ela não precisava pensar o tempo todo no fato de que Sirius ainda não tinha acordado. Pomona lhe expulsara da enfermaria aquela manhã, após descobrir que ela tinha passado a noite ao lado da cama de Almofadinhas, monitorando sua respiração.
Teoricamente ela deveria dar aulas, mas isso não lhe interessava no momento. Seus alunos do quarto ano, além de serem insuportáveis com todos aqueles hormônios adolescentes barulhentos e insubordinados, estavam aprendendo uma chatíssima poção para gripe.
Bervely deixara Jinx os vigiando e viera para o seu laboratório, a fim de cozinhar uma poção para os nervos. Não pretendia bebê-la, pois os efeitos colaterais eram sonolência e ela precisava ficar acordada para o caso de receber notícias de Sirius, mas o vapor que enchia o laboratório a entorpecia. Com sorte, quando precisasse voltar para a sala no fim do período para recolher as amostras dos quartanistas, não ia querer afogar nenhum dos alunos em seus caldeirões incompetentes, como os endiabrados mereciam.
Como Severus sobrevivia? Agora ela entendia todo o mau humor e rabugice do padrinho. Dezesseis anos lidando com adolescentes hormonais com certeza podiam corroer a alma de uma pessoa e tornar seu cabelo oleoso daquele jeito, efeitos de estresse crônico.
Alguém bateu à porta. Ela tinha pedido para Pomona lhe enviar alguém caso Sirius acordasse, então seu coração deu um pulo de esperança com as batidas.
— Entre!
Não era um aluno; era Regulus Black. Bervely deixou escorregar o frasco de dente-de-caveira que estava segurando dentro do caldeirão. Os dentes borbulharam e derreteram como barras de chocolate em café quente.
— Oh, merda — ela olhou para baixo, vendo a poção se tornar turva.
— Uma boa tarde para você também — disse Regulus com ironia risonha, diante da recepção calorosa. Ele entrou e fechou a porta sem esperar convite. Bervely se afastou do caldeirão antes que arruinasse ainda mais a poção e ao mesmo tempo, discretamente, ajeitou a franja suada para fora da testa, usando sua metamorfomagia para sumir com o friz que a umidade do vapor provocava em seu cabelo.
— Black — pigarreou, recompondo-se. — O que está fazendo aqui?
— Procurando você. Fui informado por um de seus alunos da direção dos seus aposentos, quando visitei a sala de aula que a vice-diretora pensa que você se encontra no momento.
— Não, eu digo, o que está fazendo em Hogwarts?— Ela corrigiu, impaciente. Estava ligeiramente sem fôlego, devia ter feito um feitiço de ventilação para dissipar aquele vapor, agora era tarde, iam morrer asfixiados, a não ser é claro pelo fato de que seu tio vampiro não precisava de oxigênio… Ela lutou para organizar os pensamentos, que estavam todos bagunçados. — Pensei que já estivesse bem longe há essa altura.
— Ah, não realmente. Estive esperando para ter a minha conferência com o professor Dumbledore, mas não tem sido possível. Marcamos para ontem a noite, mas ele precisou se ausentar de novo. Estou começando a achar que é pessoal.
Se aquilo era algum tipo de piada, ela não achou graça, em face dos acontecimentos da noite anterior que deviam ter mantido o prof. Dumbledore ocupado, bem como mantivera o resto da Ordem.
— Ele estava ajudando a salvar uma cidade de dementadores. Mas é claro que isso não justifica deixar o grande Mágico de Oz esperando, eu suponho.
— Pois é, foi rude da parte dele, mas eu vou deixar passar dessa vez. Ele prometeu que me veria essa noite sem falta, então resolvi esperar no castelo mesmo. Imagine a minha surpresa quando descobri que um certo parente está se recuperando na ala-hospitalar… acabei passando para fazer uma visita.
— Você viu Sirius? Como ele está? — ela se adiantou, ansiosa. Tinha se segurado a manhã inteira para não ir vê-lo, sabendo que ficar zanzando pela ala-hospitalar só ia enfurecer Pomona, e aparentemente precisava manter uma boa relação com os outros funcionários de Hogwarts, de acordo com a cartilha de professores que recebera ao ser contratada.
— Sinais vitais estáveis, vai sobreviver. Mandou uma lambida.
— Ele está acordado? — ela quase berrou, fazendo com que Regulus abrisse um sorriso divertido.
— Sim, desde a hora do almoço.
— Preciso ir vê-lo — disse, acenando a varinha para desligar o fogo da poção. Regulus franziu.
— Você não está no meio de uma aula?
— Ah, é. Droga.
Ele meneou a cabeça, ainda achando graça. Bervely tentou relaxar – Sirius estava bem, tudo ia ficar bem. O que não explicava porque o vampiro tinha vindo atrás dela, percebeu. Não é como se tivessem algum assunto pendente, depois da última vez que tinham trocado palavras no escuro do túnel debaixo da Casa dos Gritos.
— Eu não pude deixar de notar que você recuperou a sua cor original — Regulus comentou, olhando-a de cima a baixo através do vapor que os separava, agora cada vez mais denso por causa dos dentes de caveira queimando. Bervely tinha pouca pele exposta, coberta do pescoço aos pés com as vestes sóbrias de pocionista, mas cada parte que podia ser vista queimou sob o escrutínio atento do vampiro. — Não vou mentir, eu era grande fã do verde-esmeralda anterior, tinha mais personalidade.
— Desculpe a indelicadeza, Black, mas em que posso serví-lo? Há uma razão que o trouxe aqui, além da necessidade de comentar sobre a falta de personalidade da cor da minha pele?
Ele lhe deu um longo, contemplativo olhar. Um comentário malicioso pareceu se formar em sua mente, só para ser substituído por uma resposta educada.
— Achei que poderíamos acertar alguns termos de convivência, já que estou de volta à família. Tenho a impressão de que começamos a nossa relação de maneira um pouco equivocada.
— Você acha? — ela rebateu, sarcástica. — Não estou certa de que precisamos acertar qualquer coisa.
Ele assentiu, esfregando uma palma da mão na outra. Ela se lembrou daquelas palmas frias correndo de cima abaixo pela sua espinha, até encontrar a base de suas nádegas e o interior de suas coxas. Precisou fechar os olhos e respirar fundo para espantar a imagem vívida que sua memória tentava ressuscitar. Ele esperou, olhando-a curioso.
— Acha que podemos relegar o que aconteceu no passado e começar do zero?
Ela inclinou um pouco a cabeça, forjando indiferença.
— O que aconteceu no passado? Não faço ideia do que está falando.
— Esse é o espírito — ele lhe deu um sorriso amplo, fornecendo um vislumbre dos caninos afiados. Os pelinhos do braço dela se eriçaram, mas Bervely ficou firme. Mesmo quando Regulus diminuiu a distância entre eles com seus passos elásticos (ela achou, por um segundo, que ele ia arrebatá-la em seus braços e atacar sua boca), e estendeu a mão para ela:
— Regulus Black. Segundo filho de Órion e Walburga Black, morto e renascido como criatura da noite. Encantado em conhecê-la.
Ela olhou para a mão dele, resistindo em tocá-la. Não sabia como o seu corpo ia reagir, e não sabia o quanto a sua indiferença poderia durar, com ele tão perto. Talvez ele tenha ouvido o seu coração acelerado, porque deixou a mão cair.
— Você ainda não confia em mim, não é?
— Eu não vejo razões para confiar — ela lhe disse, evitando olhá-lo nos olhos, porque novamente, ele estava tão perto, e aquelas pupilas fendadas eram desconcertantes. — Não sei como Sirius aceita cegamente a sua história de redenção. Por tudo que sei, você pode ser uma das muitas criaturas das trevas que tem se aliado ao Lord.
— Por tudo que eu sei, você está acobertando o assassinato de uma estudante — ele lhe devolveu, muito suave. — Mas você não está me vendo esfregar isso em sua cara, está? Eu poderia, hoje mesmo, alertar o professor Dumbledore do que vi na festa de Halloween. Acho que ele ficaria feliz em pelo menos investigar um pouco.
Bervely endureceu, agora de fato encarando-o, mas com raiva.
— Isso é uma ameaça?
— É claro que não, Bervely — Regulus suspirou, negando. — Só estou tentando dizer que pode confiar em mim. Vou guardar o seu segredo. E você, vai me dar uma chance? Ao menos de provar que não sou um monstro, que não estou mentindo para você e Sirius sobre as minhas intenções?
Ela quis lhe dizer que sabia que ele não era um monstro; que ela conhecia monstros de muito perto, e que pela forma que ele lhe tocara e estivera com ela aquela noite, havia algo de fato angelical sobre ele. Ao invés disso, ela soltou um suspiro pesado de resignação e lhe estendeu a mão:
— Bervely Rose Black. Encantada.
Regulus envolveu sua mão com a dele; era fria como se lembrava. Ela ficou consciente da sua pulsação rápida, sabendo que ele também a sentia, mas ficou impassível até que ele a soltasse.
— Fico feliz que resolvemos isso. Eu não estarei na Inglaterra por muito tempo depois de falar com o Prof. Dumbledore, mas me avise caso haja algo que eu possa fazer por Sirius, ou por você — completou numa voz suave.
Bervely mordiscou o lábio inferior; uma ideia vinha se formando em sua mente desde a sua conversa com Draco, e agora percebia que Regulus poderia ser a pessoa perfeita para executá-la, já que ele estava disposto a se provar e tudo mais.
— Na verdade, há sim uma coisa.
***
A notícia de que a avó de Neville fora uma das vítimas do ataque à St. Sensille se tornou conhecida entre os alunos da Grifinória ao longo do dia; a bruxa era uma espécie de lenda e inspiração para eles desde o terceiro ano, quando Neville usara as suas roupas e chapéu de pássaro empalhado para combater o seu bicho-papão (e acabara colocando seu Snape-papão em uma configuração inesquecível).
Era tarde quando Neville retornou à escola; eles encontraram a maior parte da Grifinória ainda acordada, esperando no salão comunal. Cada um dos colegas usava uma versão espalhafatosa do icônico chapéu de Augusta Longbottom, com um animal diferente empalhado no topo: eles haviam conseguido essa proeza graças aos trouxapéus reciclados da festa de Halloween que Hermione, com a ajuda de Simas e Parvati, conseguiu transfigurar para cada um deles.
Harry e Rony tinham acatado a missão de ir até Hogsmeade escondidos, usando a passagem da bruxa de um olho só e a capa da invisibilidade, e voltar com bebidas e doces da Dedosdemel, que eles ficaram bebendo e mastigando, num clima depressivo, até os colegas voltarem. Quando Neville entrou, metido em vestes negras amarrotadas e parecendo meio sem chão, demorou quase um minuto inteiro para entender o que estava acontecendo.
— Vocês– por que–
Ele passou os olhos do chapéu de Hermione, que tinha uma coruja empalhada, até o de Lilá, que figurava um gatinho filhote empalhado em meio a uma brincadeira com uma bola de lã. A verdade é que um chapéu era mais asqueroso que o outro, mas segundo Hermione, isso era mais sobre a intenção que a execução.
— Nós sentimos muito pela sua avó, Nev — Hermione explicou, se adiantando pra ele. — Sabemos que ela era uma bruxa e tanto, só queríamos prestar uma homenagem…
— Vocês são incríveis — Neville arfou, e seus olhos começaram a lacrimejar. — Ela ficaria… ela ia–
A voz dele quebrou. Hermione correu para abraçá-lo, sua coruja sacudindo precária no topo do chapéu. Enquanto ela dava tapinhas nas costas do amigo, outros foram fazer fila para prestar seus pêsames.
— Sinto muito, cara — Harry deu uns tapinhas desajeitados nas costas do amigo quando chegou a sua vez. Os olhos agora estavam vermelhos como o resto do seu rosto.
— Ela lutou até o fim — ele disse a Harry com firmeza, apesar da voz arranhando. — Foi o que os aurores disseram, ela ajudou a salvar um monte de gente e quando os dementadores a emboscaram ela não deixou eles tirarem a alma dela, preferiu ir com dignidade.
Harry assentiu, sem saber o que dizer.
— Johanne está lá fora — Neville disse baixo. — Ela disse que ia dar uma volta, não queria voltar pra a torre ainda. Mas não acho que ela devia ficar sozinha.
Harry assentiu, e enquanto Neville era acolhido pelo resto dos colegas, ele foi até a sua mochila e puxou o Mapa do Maroto. Não achou Anne nem na enfermaria, nem nas masmorras, os dois lugares que imaginou que ela teria ido, mas viu-a por fim no sétimo andar, mais ou menos onde ele sabia ficar a entrada para a Sala Precisa.
— Vou dar uma volta — Harry avisou à Rony e Hermione, enfiando a capa da invisibilidade sob as vestes da escola.
Hermione lhe lançou um olhar misto de compreensão e advertência, mas acabou assentindo.
— Não se meta em problemas.
— Você sabe muito bem que os problemas que se metem comigo, Mione — ele resmungou, sem esperar que ela terminasse de rolar os olhos antes de sair pelo buraco do retrato.
***
Anne ainda encarava a tapeçaria de Barnabás o Maluco e seus trols dançarinos quando Harry chegou ao sétimo andar. Parecia que ela estava parada ali desde que a vira pelo mapa, o olhar perdido através da “obra de arte” na parede, mas sem realmente vê-la. Ela vestia um a combinação sóbria de vestido negro com botões redondos e uma capa curta. As mãos estavam enfiadas em luvas pretas até os cotovelos, e um chapéu redondo, com um véu de trama aberta por cima do rosto, escondia sua expressão dele.
— Oi, Harry — ela falou, a voz fraca, quando ele se aproximou, apesar de Harry estar perfeitamente invisível.
Ele já desistira de entender como ela sempre sabia.
— Está tudo bem? — ele perguntou com cautela. Não era bom em consolar pessoas… ninguém nunca tinha lhe ensinado o melhor jeito de fazer isso. Agora que pensava melhor, devia ter pedido a alguém para ter ido atrás dela, tipo Luna, ou até Colin. Ela certamente ia se sentir mais à vontade com um deles, numa hora como aquela…
— Eu me sinto à vontade com você – ela discordou.
— Você consegue ouvir tudo que eu penso? — Harry perguntou ligeiramente contrariado, mas ela riu.
— Não, só as coisas que você manda em minha direção.
Harry bufou. Pelo menos aquela habilidade dela ia ser útil pra eles na prova final de Adivinhação Avançada do fim da semana, que eram suposto a fazer em duplas. Se ao menos ele conseguisse ouvir os pensamentos dela tão facilmente quanto ela tinha acesso aos dele, iam garantir um Ótimo naquela matéria.
— Estávamos esperando vocês no salão comunal, conseguimos alguns doces e bebidas para uma espécie de homenagem…
— Eu sei. Chapéu legal — ela disse, olhando para ele de relance.
Harry corou; tinha esquecido de se livrar do seu trouxapéu, que tinha uma cobra empalhada. Ele o tirou, tentando salvar o cabelo caótico que estava por baixo – sem sucesso, como era de se esperar.
— Eu não queria agitação. Sinto muito — ela mordiscou o lábio inferior e trocou o peso para frente e para trás, pensativa, ainda analisando a parede vazia.
— Ah, desculpe. Se você preferir ficar sozinha, eu posso ir embora.
— Não seja bobo, Harry. Você não conta como agitação pra mim.
Ele não sabia como se sentir sobre aquilo; não estava certo de que era um elogio.
— Ah… certo.
— Então, como essa sala funciona, mesmo? Sei que sempre a usamos para as reuniões da Armada, mas ela se transformou em uma cidade inteira para o dia das bruxas… ela vira qualquer coisa?
— Hm, sim, qualquer coisa que você esteja precisando, imagino — ele explicou, feliz de que aquela era uma pergunta que podia responder. — Por exemplo, se você estiver apertada e precisar muito de um banheiro… uh, acho que você entende o raciocínio. — ele quis se bater por dar justo aquele exemplo infeliz.
— Entendi. Mas e se eu não souber exatamente o que eu quero?
— A sala é boa em adivinhar. Você só precisa de uma palavra ou… um conceito, acho.
Anne assentiu. Harry sentiu de novo aquela pontada agoniada em seus braços, como um pequena descarga elétrica, que lhe mandava abraçá-la até conseguir arrancar o olhar triste fora do seu rosto. Ao invés de ceder ao impulso, ele enfiou as mãos nos bolsos e esperou, tentando ser paciente.
— Eu só um lugar… seguro, acho. Mas não sei mais que lugar seria esse.
Harry teve uma ideia. Não podia dizer se era uma boa ideia, e nem se iria ajudá-la, mas ele imaginou que na pior das hipóteses poderia distraí-la.
— Há um lugar… o único no qual eu me sentia seguro quando eu era pequeno. Posso te mostrar, se você quiser ver, quero dizer, não precisa realmente… – Já estava se arrependo, porque Anne iria querer revisitar seu passado deprimente, estando ela mesma passando por um dia difícil como aquele?
— Sim, por favor, eu adoraria que você me mostrasse.
Harry suspirou. Tarde demais para recuar, Harry, seu cabeçudo. Ele fez o ritual que a sala requeria, passando três vezes pela frente de onde deveria haver uma porta, recitando mentalmente, e se concentrando em conjurar da memória do lugar que ele não ia desde os seus onze anos.
Uma porta se materializou na frente deles; pequena, feita de madeira, pintada de um branco impecável. O corte da parte superior era inclinado, como se seguisse o ângulo de uma parede também inclinada, mais alta do lado esquerdo que do lado direito. Era bem menor do que Harry se lembrava; pensando bem, não tinha certeza que os dois iam caber ali dentro.
— Isso por acaso é um armário debaixo de uma escada?
— Sim — ele assentiu. Empurrou a porta de leve; ela clicou e se abriu exatamente como Harry se lembrava. Um clique de alívio: o único lugar da casa em que os Dursley não podiam alcançá-lo. Seu único domínio numa casa que, de outra forma, o machucava com indiferença e hostilidade. O único lugar em que, durante onze anos, Harry pudera ser ele mesmo, sozinho com quatro paredes e muita imaginação para preencher o tempo.
— Bem-vinda ao meu primeiro quarto — ele deu um sorriso sem graça. — Acho que você precisa ter uns onze anos ou menos para ser capaz de apreciar o valor arquitetônico.
Anne não disse uma palavra; ela ficou olhando, com a boca ligeiramente aberta, para a portinha. Harry mais do que nunca gostaria de saber que tipo de pensamento ela estava tendo, mas podia imaginar… obviamente ia começar um show de pena, o que não tinha sido a sua intenção a princípio, mas agora percebia o seu erro.
— Sirius mencionou uma vez que eles faziam você dormir no armário sob a escada. Achei que era uma metáfora.
— Ahh, os Dursley não são muito afeitos a metáforas. Eles acham que é coisa de gentinha.
— Posso entrar?
— Você quer mesmo? Não tem se não quiser, podemos pedir literalmente qualquer outro lugar à Sala Precisa.
— Eu quero, se você não se importar.
Harry assentiu, meio embasbacado. Anne se inclinou, a fim de não bater a cabeça no portal e escorregou para dentro do espaço pequeno, onde um dia tia Petúnia tinha feito caber, milagrosamente, uma cama de criança e três pequenas prateleiras na parede. Anne sentou na cama e encolheu as pernas. Ela se inclinou para vê-lo do lado de fora.
— Você vem?
— Eu… claro.
Harry entrou no armário; a porta se fechou atrás dele, deixando-os no mais absoluto escuro. Sentou-se ao lado dela, tateando, mas para caberem na cama minúscula precisavam ficar ombro a ombro, seus joelhos também se encostando. Suas cabeças estavam à dois palmos do teto, não havia qualquer chance de ficarem de pé ali dentro. Uma série de traços de luz no teto inclinado indicavam os lugares onde os degraus se encontravam; até isso a Sala Precisa reproduzira com perfeição, ele reparou num misto de espanto e melancolia extrema.
Harry estendeu a mão no escuro. Seu cotovelo bateu no ombro de Anne e ele murmurou uma desculpa, achando uma cordinha que se lembrava perfeitamente de onde ficava; uma luz elétrica amarelada e fraca se acendeu sobre as cabeças dele quando Harry a puxou para baixo. Agora ele podia ver a silhueta de Anne, seus olhos se acostumando com a luz. Pequenas marcas de lágrimas secas cortavam suas bochechas suaves, por debaixo da tela que cobria seu rosto.
— É aconchegante — ela disse baixo, olhando para as prateleiras. — Esses eram seus brinquedos?
Harry sentiu o estômago se apertar de vergonha; ela estava apontando para uma série de soldadinhos desencontrados que Harry tinha catado, ao longo dos anos pela vizinhança, se aproveitando do desleixo dos filhos ricos dos vizinhos.
Ele tinha se esquecido da sua obsessão por aqueles soldadinhos, e da sua alegria toda vez que adicionava um à sua coleção. Quando brincava com eles, às vezes faziam de conta que eram pessoas, pessoas normais. Pais e mães… irmãos e amigos que gostavam dele, tios que lhe traziam presentes em seu aniversário.
— Obrigada por me trazer aqui, Harry — ela disse baixo, deixando os soldadinhos de lado para olhar para ele. — Eu precisava mesmo de um refúgio.
— Está as ordens — ele brincou, mas não conseguia ignorar o olhar no rosto dela. — O que aconteceu hoje? Foi o enterro? Ou ver a sua avó…?
— Foi tudo, acho. — Anne murmurou, ao mesmo tempo em que se livrava do chapéu e do véu, soltando o cabelo, deixando-o escorrer pelo ombro e fazendo com que o cheiro fresco do seu xampú tomasse o ambiente pequeno. — O hospital diz que precisamos decidir o que fazer com a minha avó… não existe magia para trazer a alma de alguém de volta quando ela é devorada, então ela vai só existir. Sem nenhum objetivo, sem nenhuma consciência, nada. Ela ainda pode comer, dormir, e acordar, então ela pode sobreviver… mas não é mais a pessoa que era antes. Sophia acha que devemos colocar um fim ao sofrimento dela. Mas será que é justo terminar uma vida só porque estamos desconfortáveis? E o que nos dá o direito de decidir se alguém sem alma merece ou não continuar existindo?
Harry abriu a boca, mas a fechou em seguida: ele não tinha o que dizer, realmente. Nunca tinha pensado naquilo. Lembrava de ter visto os pais de Neville mais ou menos na mesma situação e pensando que, no lugar de viver uma vida daquele jeito, preferia estar morto. Mas, não cabia a ele decidir o mesmo para outra pessoa…
— Neville disse algo sobre a avó dele não ter sucumbido aos dementadores no fim… o que isso quer dizer? Por que é que a Sra. Longbottom morreu ao invés de ter a alma… uh, retirada?
— Augusta bebeu uma dose letal de beladona quando percebeu que estava encurralada — Anne explicou, a voz distante. — Sempre carregava com ela, para o caso de precisar. Imagino que, depois do que aconteceu com o filho, não queria um destino parecido. E nem queria deixar mais esse fardo para Neville carregar…
Eles ficaram em silêncio. Tudo que Harry pensava em falar não parecia importante, então ele a deixou em paz com os seus pensamentos. Ficou surpreso quando, uns minutos depois, a mão de Anne encontrou a dele no escuro. Os dedos dela se entrelaçaram aos deles, mandando a familiar onda morna de calor e energia mágica do ponto em que se tocavam para todas as inervações do seu corpo.
Harry pensou na sensação de comer uma barra enorme do seu chocolate preferido. Ou de voar, bem rápido e alto, num dia quente de verão, sentindo o vento no rosto e na cauda da vassoura, tão livre quanto um pássaro. Depois ele lembrou da sensação acalentadora que se enrolara em seu peito quando ele e Anne tinham se abraçado, no laboratório de Bervely, na noite anterior.
Anne repousou a cabeça em seu ombro, usando o corpo de Harry como apoio para o dela. Ele aspirou o cheio floral, encostando o nariz no topo da cabeça dela com um tantinho de culpa.
A luz estalou e se apagou; como acontecia com frequência com a luz do seu armário original, que tinha mal contato. Harry sabia o que precisava fazer; achar o bocal e girá-lo até achar um jeito de fazê-la voltar, mas ele não queria desalojar Anne, nem ela parecia se importar em ficarem no escuro.
— Eu queria poder fazer algo para te fazer se sentir melhor — Harry confessou baixo para o escuro, sentindo que era mais fácil dizer isso com a luz apagada. — Como você fez naquele dia, quando eu estava triste por causa da Cho.
— Não se preocupe — ela sussurrou, a voz rouca e vulnerável, apertando gentilmente os dedos dele. — Você já está fazendo.
(Continua...)
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