— Harry Potter e minha irmã o quê?

Remus não se deixou intimidar com a nota de perigo na voz de Bervely mais do que se deixara com a sua entrada intempestiva pela lareira da Casa dos Gritos. Ele não tinha se movido grande coisa de onde estava sentado ao responder à sua primeira pergunta: por que Anne nunca chegara em Hogwarts e Potter não aparecera na casa dos Weasley como o combinado?

— Sirius já está trabalhando nisso — ele disse, com pouca emoção. A resposta só serviu para alvoroçar Bervely ainda mais.

Sirius está nisso! Sirius é a última pessoa que deveria estar numa missão de resgate, ele deixou Grimmauld Place mais bêbado do que um cachorro!

Remus olhou para ela, chateado.

— Bem, e de quem é a culpa disso? — acusou, e prosseguiu, sem dar a Bervely tempo para devolver uma resposta ultrajada. — Não tem resgate nenhum, eles estão bem. Sirius já os localizou em Godric’s Hollow.

— Ah, nesse caso — devolveu ela, com ácida ironia. — Eu suponho que Potter vai se safar sem consequências desse sequestro fortuito no meio da noite!

— Na verdade, parece que foi Anne quem o levou, na moto voadora de Sirius.

Bervely parou de esbravejar para tomar um fôlego. A Casa dos Gritos estava escura e quieta; a única luz vinha da lareira, laranja forte, lançando sombras longas em todos os móveis e no próprio Remus. O lobisomem tinha as mãos cruzadas sob o queixo e assistia o fogo queimar. Não parecia excepcionalmente preocupado com Harry e Anne, pelo que Bervely supôs que eles deviam estar em segurança – Lupin tinha muitos defeitos, mas relapso nos cuidados com o Garoto de Ouro e com a afilhada não era um deles.

— Vocês brigaram de novo, não foi? — disse ele, de repente.

Bervely cruzou os braços.

— O seu amigo continua sendo um idiota obtuso.

— Vocês precisam parar com isso — avisou Remus, num tom de aviso sombrio. — Está acontecendo como da última vez, a guerra vai destruindo tudo de dentro para fora, antes mesmo que chegue a hora da batalha.

— Isso não tem nada a ver com a guerra — ela teimou, sem vontade de aprofundar seu argumento, a briga com Sirius ainda ardendo fresca sob a superfície. Remus também não parecia interessado em espezinhá-la, e, ao menos daquela vez, Bervely imaginava o porquê. Ele devia ter os próprios demônios com os quais lidar, depois do anúncio da gravidez de Nymphadora.

— E já que estamos no assunto, você devia ir falar com Dora — ela se ouviu aconselhar. Remus lhe lançou um olhar contrariado, o fogo da lareira queimando dentro de suas íris douradas.

— Você acha que eu não tentei? Ela ignorou todas as minhas corujas. Chamei na lareira pelo menos cinco vezes durante o dia, e também fui ignorado. Até mandei um patrono há algumas horas. Ela não quer falar comigo.

— Bem, e de quem é a culpa disso? — Bervely jogou de volta as palavras dele, de propósito. Viu os maxilares do lobisomem se retesarem e os nós dos dedos se apertarem diante da provocação, mas mesmo assim ele não rebateu, o que a encorajou a insistir. — Você disse a ela que não quer o bebê, o que esperava?

— Eu disse a ela que não posso ter um — ele corrigiu, amargo. Bervely rolou os olhos.

— Bem, obviamente, você pode, ou ela não estaria grávida.

Remus lhe dedicou um dos seus característicos olhares consternados.

— Ela corre risco de vida, Bervely. Se o bebê for… se for um…

Mas se calou, incapaz de dizer em voz alta o que seu filho poderia ser. Então um pensamento novo lhe ocorreu, porque ele se virou para Bervely, dessa vez com uma expressão penosa de esperança.

Você deveria falar com ela. Colocar algum senso naquela cabeça! Ela ouve você.

Não era todo dia que Remus Lupin lhe pedia um favor. Bervely franziu o cenho.

— “Senso”, você diz.

— Sim! Fazê-la entender que todo mundo só está preocupado com a segurança dela, eu incluso!

— Talvez o problema seja justamente esse.

— O quê? — Ele perdeu a linha de raciocínio. Bervely suspirou, sua impaciência crescendo exponencialmente. Lupin podia ser bem obtuso quando se tratava da própria vida.

— Deixa pra lá. Só me avise quando tiver notícias de Anne, ok? Se ela não estiver de volta hoje à noite, eu vou buscar ela pessoalmente. E eu devo lembrá-lo que não faço parte do clube Potter-Sempre-Se-Safa!

***

— Acho que estou preso — Harry anunciou, mais intrigado do que preocupado, com uma mão espalmada contra a barreira invisível.

— Ah, não! — Anne testou o espelho do seu lado; como previsto, também se tornara sólido. — Eu sabia que era uma armadilha!

Harry tirou a varinha do bolso com uma mão, tentando equilibrar o baú na outra, e apontou-a para a barreira.

Alohomora!

Nada aconteceu. Harry testou o verso do espelho com a ponta do sapato: continuava sólido.

Alohomora, sério? Não é uma porta, Harry!

— Bem, se você tiver uma ideia melhor!

Anne investigou ao redor da moldura, percebendo que a poeira acumulada escondia encraves na madeira escura.

— Tem coisas escritas aqui — disse ela, fazendo um novo feitiço de limpeza para conseguir ler. — Não, também está embaralhado… arof arap siod, ortned arap mu?

— Tente ler ao contrário? — ele sugeriu, lembrando-se do espelho de Ojesed.

— Ah, certo! — Ela assentiu, constrangida por não ter pensado naquela solução óbvia. — “Um para dentro, dois para fora”, é o que diz! Uh, não faz muito sentido, faz?

Harry colocou o baú no chão, o braço dolorido por equilibrá-lo, e tateou a barreira de novo, com as duas mãos.

Um para dentro, dois para fora? Não faço ideia do que quer–

Como se a superfície do espelho se dissolvesse no ar, os seus dois braços atravessaram sem resistência para o outro lado e Harry se desequilibrou, quase se chocando de encontro à Anne. Ele se ajeitou e enfiou uma mão de volta, arrastando o baú consigo. O coelho saiu pulando atrás de Harry e sumiu em algum canto empoeirado da sala.

Anne jogou os braços em torno do pescoço de Harry, o que quase o desequilibrou de novo. Após um instante congelado no lugar, Harry fez um dos braços retribuir, reprimindo uma risada. Os dois estavam um pouco ofegantes.

— Estou inteiro, não precisa perder as estribeiras — ele brincou, apesar do calorzinho que voltara a queimar em suas entranhas.

Ela se separou dele, as bochechas num tom de rosa intenso, e Harry sentiu a repreensão em suas próximas palavras.

— Não tem graça. Como eu ia explicar para Sirius que você foi engolido por um espelho?

Atrás deles, o reflexo do espelho começara a ondular, feito as águas de um lago calmo em que alguém atirava uma pedrinha.

***

Bervely deixou Remus em paz com seus demônios e foi para a cozinha da casa dos gritos. Estava investigando os armários em busca de alguma comida, já que tinha se esquecido de almoçar, quando ouviu passos às suas costas.

— Achei que tinha ouvido você gritando, lá de cima.

Ela se virou, encontrando Yas Darkmoon parada à porta. Uma memória daquela manhã, da jovem sonolenta na cama de Sirius, queimou fresca na memória de Bervely. Ela se levantou com rigidez.

— Então você continua por aqui?

— Para onde mais eu teria ido? — A outra piscou, inabalada.

— Tanto faz. Eu já estava de saída, de qualquer maneira — anunciou, sem vontade de lidar com o mais novo caso de Sirius Black. Já bastava a overdose de sentimentos com a qual tinha que lidar no momento.

— Black, espera. Podemos conversar um minuto? Se você não se importa.

Eu me importo, pensou, mas não negou. Ao invés disso cruzou os braços, erguendo uma sobrancelha inquisitiva.

— Um minuto, contando.

Yas fechou a porta da cozinha atrás delas, em seguida lançou um feitiço de abafamento. Bervely enfiou a mão no bolso da capa, alcançando a própria varinha, para o caso de precisar sacá-la.

— Eu queria me desculpar sobre hoje mais cedo. Sobre você ter visto o que viu, eu e Sirius–

— As suas desculpas são por ter feito, ou por ter sido pega? — perguntou, com sequidão.

— Eu entendo que esteja chateada — Yas assentiu. — Sei o que deve estar pensando, você salvou a minha vida e a primeira coisa que eu fiz foi dormir com o seu pai.

— Para de repetir que eu salvei a sua vida — Bervely rebateu, cerrando os olhos. — Nunca foi a minha intenção. Eu... Foi um acaso. Eu só queria irritar os comensais levando mais gente comigo, e você e Lalau calharam de serem as pessoas mais próximas.

Yas enrolou o longo cabelo cacheado em cima de um dos ombros pontudos, escolhendo com cuidado suas próximas palavras.

— O meu ponto é, eu entendo se você preferir que eu me afaste dele. Mas eu quero que saiba... Eu gosto de Black. Eu gosto mesmo dele.

— É, todo mundo gosta mesmo dele. — Ela fez um gesto de pouco caso com a mão, cada vez mais desconfortável com aquela conversa.

— Ele foi gentil comigo desde o começo, sabe? Me ajudou a sair do pesadelo em que eu fiquei presa, depois de Azkaban. Não é só sobre sexo, nós temos alguma coisa acontecendo. Antes havia Rosmerta, mas agora que eles terminaram…

— Por favor, não inclua meu pai e ‘sexo’ na mesma frase — ela pediu, pinçando a ponte do nariz, enervada. — Olhe, Darkmoon, o que quer que você acha que vocês tenham, não vai durar. Sirius tem outras coisas com que se preocupar. Caso você não saiba, ele tem tido problemas–

— Com a magia dele, eu sei. Por conta de ter passado um tempo do outro lado do véu, no mundo dos mortos. Ele me contou tudo.

Bervely sentiu as entranhas queimarem de indignação. Como Sirius se atrevia a confiar aquele tipo de informação íntima à primeira estranha arrancada de uma cela que aparecia em sua frente?

— Bem, eu vejo que vocês são bons amigos, vou deixar que resolvam os seus assuntos — ela sentenciou, com desdém, procurando uma saída daquela tortura em forma de conversa. — Boa sorte com tudo: o cerne destruído, a teimosia suicida, e agora essa tendência que ele está adquirindo de usar whisky de fogo como principal fonte de hidratação. Black é um passeio e tanto.

Ela tentou sair, testando a porta atrás de si, que dava para o lado de fora da casa, mas estava trancada. No tempo que tentava puxar a varinha para abrí-la com um feitiço, Yas estava falando de novo.

— Você nunca me perguntou qual foi o meu crime.

— O seu o quê? — Bervely não estava prestando atenção. A varinha tinha se enrolado em uma dobra das vestes e ela tentava soltá-la, sem sucesso.

— O meu crime, a razão pela qual fui parar em Azkaban.

— Ah. Eu não me importo. — Finalmente conseguiu libertar a varinha e a apontou para a maçaneta. — Alohomora!

A porta não abriu. Devia estar encantada com algo mais complexo que um feitiço de tranca, o que, pensando bem, era de se esperar, uma vez que a casa ainda estava sendo usada como sede da Ordem da Fênix. Bervely bufou.

— Qual o diabo da senha dessa porta?

— Foi o Olho de Hórus.

Bervely estancou. Virou-se de novo para Yas, que agora tinha um olhar obstinado no rosto, e cujo peito subia e descia mais rápido do que antes.

— O que você disse?

— O Olho de Hórus, foi por causa dele que acabei em Azkaban.Era a cabeça dele, não era, naquela caixa que você recebeu de Natal?

Bervely já se esquecera do que estava tentando fazer, a mão da varinha caindo ao lado do corpo, o coração acelerando.

— Você conheceu Carmichael?

— Eu não sabia o verdadeiro nome dele até hoje, quando o Remus me contou quem ele era, depois que voltamos da sua casa. Eu sinto muito por tudo que ele causou a você.

Yas acelerava o ritmo de suas palavras, parecendo ansiosa em colocar tudo para fora agora que tinha a atenção de Bervely.

— Toda vez que ele chegava até mim parecia uma pessoa diferente. Se você não acredita, eu tenho uma prova.

Ela puxou para cima a manga da túnica que usava, a fim de revelar o antebraço esquerdo. Bervely viu, marcado em sua pele como uma queimadura a ferro quente, o contorno do olho esquerdo de Hórus, o símbolo egípcio que o bruxo gostava de gravar em suas vítimas. A lembrança da dor ardente que acompanhava aquela marcação fez o seu estômago se apertar.

— Eu cometi o erro de fazer um acordo com ele — Yas continuou, a voz apressada reduzida a um sussurro nervoso de confissão. — Em troca, ele pediu para usar o meu corpo de vez em quando. Ele vinha sem aviso, e eu tenho longas… longas partes daquela época das quais não me lembro. Ele dizia que apagar a minha memória era um ato de misericórdia. — Ela estremeceu.

Bervely não sabia o que dizer. Nunca tinha passado pela sua cabeça que, além dos vários corpos que ela queimara junto com a mansão Romansek, Thor Carmichael ainda teria outros à sua disposição, espalhados pelo mundo.

— Eu pensei que os vasos precisavam estar vazios para que ele os usasse — murmurou, horrorizada.

— Os ‘vasos’, é assim que se chamam? Eu acho que não. Pelo menos por um tempo duas consciências podem ocupar o mesmo corpo. Era parte do nosso acordo que ele nunca ficaria tempo o suficiente para me causar nenhum dano permanente. Quero dizer, nenhum dano aparente — completou, a voz falhando sob a respiração alterada.

Bervely a encarava sob uma luz completamente diferente. Parecia uma coincidência inexplicável que a bruxa que ela, por acaso, ajudara a escapar de Azkaban era uma vítima do monstro inescrupuloso cuja cabeça sua mãe lhe enviara de Natal.

— Remus me disse que foi você quem o mandou para a prisão — Yas disse, os olhos castanhos brilhando de admiração. — Isso significa que você salvou a minha vida não só uma, mas duas vezes. Eu fui presa porque descobriram as coisas que ele andou fazendo enquanto estava controlando o meu corpo, e, por um tempo, eu achei que ele tinha me deixado em paz porque eu não tinha mais uso pra ele, em Azkaban. Mas foi porque você o mandou pra lá também, e ele não podia mais fazer a coisa– a coisa da possessão que ele fazia do lado de fora.

Bervely notou que estava tremendo, pontos escuros dançando na frente dos seus olhos. Ela enfiou as mãos nos bolsos da capa, mas o seu rosto devia denunciar o misto de horror e náusea que marcavam as suas memórias a respeito do bruxo em questão. Yas deixou a manga da sua túnica cair, entrelaçando os dedos magros. Ela olhava para Bervely com uma espécie de gratidão solene.

— Então, se você quiser que eu me afaste de Sirius, tudo bem. É o mínimo que posso fazer. Se não fosse você, só Merlin sabe o que mais o Olho de Hórus teria feito comigo.

Longos segundos se passaram até Bervely perceber que Yas estava esperando uma resposta. Ela engoliu em seco e negou, devagar.

— Não. Eu não quero que se afaste dele.

Os olhos de Yas se alargaram de esperança.

— Mesmo? Eu–

— Não me agradeça. Se eu me opusesse a vocês dois, ele faria questão de insistir em ficar com você, só para me contrariar. Além do mais, acho que ele precisa de alguém por perto que não o aborreça.

Você não o aborrece. — Ela deu um sorriso de compreensão. — Ele se preocupa com você.

— É. Dá no mesmo. — Ela suspirou. — De toda forma, é melhor alguém manter um olho naquele idiota. E como ele não me quer por perto, você me parece a próxima escolha aceitável.

Yas abriu um sorriso amplo, que iluminou seu rosto de tal forma que Bervely começou a entender como Sirius poderia estar atraído por ela.

— Isso eu posso fazer. Obrigada, Bervely.

Aposto que pode, pensou, contrariada por ter acabado de dar permissão a Darkmoon para manter muito mais que apenas os olhos em Sirius. Mas precisava admitir que uma parte dela também estava aliviada de que Sirius não estaria passando todo o seu tempo a sós com uma garrafa de whisky de fogo, como parecia ser o caso ultimamente.

***

— Ela sabia de tudo. Tudo que o professor Dumbledore me ensinou sobre Voldemort. As coisas que ele fez, os lugares que ele passou, as pessoas que o ajudaram… Está tudo aqui, ela documentou tudo!

Harry tinha trazido o baú para o outro lado do espelho, e agora todas as escrituras dentro do baú tinham se desembaralhado para um inglês legível. Anne, que tinha se sentado perto de Harry para ler por cima do ombro dele o material que ia sendo tirado lá de dentro, aproveitou a pausa para esticar as costas doloridas.

— Talvez ela e Dumbledore estivessem trabalhando juntos. Ele não comentou nada com você?

— Não acho que estavam, veja essas anotações — Harry apontou para um caderno tomado da letra sofrível de Lily —, são de 1978! Antes de eu nascer, antes mesmo da profecia existir! Não sei nem mesmo se ela já estava na Ordem nessa época.

— Bem, mas ela não podia saber da Horcrux, podia? Se nem mesmo Dumbledore tinha certeza antes de ver aquela memória do professor... Como era mesmo o nome dele, Slugcorn?

— Slughorn — Harry corrigiu, enfiando-se de novo na pilha de papéis. Nas últimas horas, ele tinha atualizado Anne de suas aulas com o professor Dumbledore, das suas teorias sobre o que Voldemort andara fazendo na época em que estivera sumido, e o fato de que o diário que Harry destruíra em seu segundo ano era suposto a conter uma parte da alma do bruxo das trevas. — Não sei se ela sabia da Horcrux, mas vai ver é sobre isso que o livro que Regulus roubou fala. Talvez um livro de anotações de Voldemort, com as suas pesquisas para fazer uma horcrux? Ou um livro sobre horcruxes, o manual de instruções de como dividir a sua alma em partes?

— Macabro. — Ela teve um calafrio involuntário que sacudiu seu corpo inteiro. — Mas, então, o quê? Ela começou a pesquisar sobre Voldemort por curiosidade? Ou será que queria lutar contra ele sozinha?

Harry se lembrou de um verso da profecia sobre o qual já tinha pensado um bocado. “…nascido dos que o desafiaram três vezes”. Sempre supusera que os pais tinham desafiado o Lorde das Trevas três vezes juntos, mas e se não fosse isso? E se Lily tivesse, antes mesmo de entrar na Ordem, desafiado o Lorde das trevas com a sua investigação?

Era um pensamento que ia de encontro a ideia que tinha concebido da mãe – uma jovem estudiosa e inteligente, inclinada a passar mais tempo na biblioteca do que desafiando bruxos das trevas por aí –, mas a ideia combinava com a Lily que ele vira na lembrança da Regulus, dentro da penseira de Dumbledore.

— Uma coisa é certa, o tal livro não está aqui — ele declarou, por fim. Chegara ao fundo do baú, e todos os livros que haviam nelas eram manuais de defesa contra as artes das trevas, blocos de anotações e rabiscos de Lily (incluindo mais coelhos roendo rodapés, com os quais ela parecia obcecada), alguns mapas com lugares aleatórios marcados ao lado de anotações miúdas, e uma série de caixas pequenas com objetos variados, incluindo um bisbilhoscópio de prata, um crachá misterioso, púrpura, com as letras INMNVS que só apareciam num certo ângulo, e um estojo comprido, que quando Harry abriu, descobriu ser uma varinha azul índigo muito bem trabalhada, parecendo nova em folha.

Ele pegara esta última nas mãos com visível cerimônia, reparando que não parecia ter sido muito usada. Quando experimentou empunhá-la, ela emitiu faíscas vermelhas que se transformaram em estrelas minúsculas, espalhando-se pelo ar e sumindo no carpete puído.

— Deve ser uma varinha extra. Li que muitos bruxos mantinham uma em casa para emergências, na época da guerra, por garantia.

Anne olhou pela janela da salinha de estudos que, apesar de muito suja, deixava entrever o jardim selvagem nos fundos da propriedade dos Potter. Percebeu que a razão pela qual estava começando a precisar apertar os olhos para ler era porque estava escurecendo; eles tinham passado mais horas do que imaginara em cima daqueles papéis.

— Eu não sei você, mas estou morrendo de fome. Além do mais, a essa altura já devem saber que estamos sumidos — Anne bocejou, levantando-se. Suas pernas protestaram, doloridas.

— Você pode voltar para Grimmauld place, se quiser. Eu vou ficar aqui, quero olhar os outros cômodos da casa e ver se não deixei passar nada importante.

— Eu não vou voltar para Grimmauld e te deixar aqui sozinho. — Anne rolou os olhos, ultrajada. — Só vou atrás de alguma comida pra a gente. Me empresta a capa? É melhor que ninguém me veja saindo da casa.

— Claro — ele assentiu, compenetrado em um dos mapas que achara dentro do baú.

Ela suspirou, deixando-o a sós com o coelho, que agora roía distraído o pé da mesa, e foi pegar a capa da invisibilidade na sala de estar. Enquanto atravessava a sala de estar em direção à porta da frente, foi refazendo mentalmente o caminho que tinham percorrido para chegar à casa, tentando se lembrar de onde poderia conseguir comida na vila. Fazia muito tempo desde que Anne viera a Godric’s Hollow pela última vez, mas estava certa de que havia uma padaria na praça principal, que servia uma variedade de bolos e sucos recém-espremidos em garrafas.

Cuidou para estar coberta pela capa que, era impossível não notar, estava impregnada com o cheiro de Harry. Distraída com isso, Anne estancou em horror quando se deparou com o cão negro gigantesco esperando paciente em frente ao portão. Ele farejou na sua direção e as orelhas se ergueram. Ele deu um rosnadinho de reconhecimento, porque é claro que a capa não fazia nada em relação ao seu cheiro, portanto inútil contra o olfato canino.

Almofadinhas! — ela esbravejou, num sussurro, colocando uma mão sobre o peito, o coração a ponto de saltar boca afora.

Ele lhe ofereceu uma espécie de latido rouco de indignação, os olhos negros luzidios se estreitando. Anne atravessou a distância até ele, os pés afundando na neve e ramos emaranhados no caminho, perguntando-se há quanto tempo ele estaria ali esperando – e porque não havia entrado.

— Como nos achou? — ela sussurrou quando chegou perto o bastante. O cão lhe deu outro olhar indignado, e fez um sinal com a cabeça para que o seguisse.

Anne deu um suspiro vencido e obedeceu, tropeçando debaixo da capa, seguindo-o pela esquerda e ao redor da casa, num caminho estreito pelo emaranhado de plantas, e amaciado por pegadas caninas largas, que ele devia ter deixado mais cedo. Quando chegaram aos fundos da casa, ele virou à esquerda novamente, entre troncos grossos, ressecados e antigos de carvalhos, descendo uma ribanceira suave que era encoberta pela vegetação.

Ele deslizava facilmente pela neve, suas patas largas sumindo na neve fofa e emergindo logo em seguida, mas Anne tinha dificuldade para avançar, e seus sapatos e meias estavam ficando encharcados.

— Isso é mesmo necessário? — ela reclamou, mas ele nem mesmo se virou. Anne bufou, erguendo as barras cheias de neve acima dos joelhos, se tornando um par de canelas e pés andantes.

Chegaram a um casebre abandonado, surpreendentemente intacto e quase invisível através de uma cortina de hera. Almofadinhas sumiu pela portinhola e quando Anne entrou também, encontrou-o de volta à sua forma humana. Sua cara não era das melhores. Parecia que podia começar a rosnar a qualquer momento.

— Vocês dois precisam estar de sacanagem comigo!

— Eu vejo porque você possa pensar assim — ela assentiu, resolvendo-se por uma abordagem diplomática. O cheiro de whisky de fogo que emanava de Sirius era um indício que não valeria a pena contrariá-lo.

— Ah, você vê, é? TODO MUNDO ESTAVA ACHANDO QUE VOCÊS TINHAM SIDO SEQUESTRADOS NO MEIO DA NOITE!

— Mas não fomos — ela disse, rápido. — Eu deixei um bilhete…

— Dizendo que tinha ido pra Hogwarts!

— E também dizendo para não se preocupar — acrescentou, num fôlego curto, tentando um sorriso amarelo que morreu logo em seguida. — Pai, escuta, eu sei que parece ruim, mas nós tomamos precauções. Não fomos seguidos. Harry usou a capa o tempo todo.

Sirius fechou os olhos e os manteve assim, enquanto respirava profunda e longamente pelo nariz. Anne esperou, sem saber ao certo se ele ia recomeçar a gritar ou recuperar um pouco de autocontrole. Vinha sendo difícil saber com Sirius, ultimamente.

— O que eu não entendo — ele começou, fazendo um óbvio esforço para manter a voz num tom civilizado —, é porque ele não me disse que queria vir aqui. Qualquer um de nós poderia ter vindo com ele, de um jeito seguro, com uma guarda, a Ordem passou metade do verão montando a droga de um protocolo de segurança pra ele, puta merda!

— Sinto muito. — Anne se encolheu. Aquela bronca não era para ela, mas pelo visto Sirius não se importaria em levar esse detalhe em consideração. — Acho que ele só precisava de um pouco de espaço disso tudo.

— Imagino que você ocupe menos espaço do que o resto de nós, nesse caso — ele ironizou. Anne deu um sorriso fraco, sem saber como responder, o rosto esquentando.

Sirius deixou os ombros caírem, um suspiro longo e exausto escapando pelos lábios.

— Como ele está?

— Obstinado. E fingindo que está tudo bem, apesar de tudo que ele está sentindo sob a superfície.

— Soa como Harry — Sirius concordou, numa tristeza sem tamanho. — Soa um bocado como James, também. Merda. — Ele olhou para cima, os olhos cintilando. — Vocês voaram até aqui na Dama?

— Sim. — Ela abriu um sorriso involuntário. — Foi como você disse, ela praticamente se dirigiu sozinha. Só precisei dar a partida como você me explicou e seguir a bússola no painel.

— Eu não acredito que você não me esperou para o seu primeiro voo — ele suspirou, desolado. Anne se encolheu, a culpa a atingindo com a violência de um soco no estômago.

— Desculpe. Sinto muito, de verdade. Ainda podemos voar antes do feriado terminar.

— Eu suponho que podemos — ele concordou, encarando o chão, pensativo. Anne tentou descobrir pistas de como ele vinha lidando com os últimos acontecimentos, e pelo jeito com que Sirius ainda vestia as roupas do dia anterior, com manchas do sangue seco de Draco Malfoy nas mangas, ela supôs que não muito bem.

— Não pude dizer antes, mas sinto muito pela sua prima.

Sirius assentiu, distante. Ele empurrou o cabelo embaraçado que caía no rosto para trás.

— Cissa cavou o próprio túmulo ao se casar com aquele assassino sem escrúpulos.

— E como Bervely está? Tio Regulus ficou com ela para você vir aqui?

— Não me pergunte — a voz dele se agravou. — Precisei deixar Grimmauld Place para vir atrás de vocês.

— Mas… — Anne notou uma veia saltada no pescoço dele. Não queria que ele começasse a gritar de novo, achou melhor mudar de assunto. — Como nos achou?

— Coloquei um feitiço de localização na moto — Sirius explicou, soando cheio de si de repente.

— Isso é uma clara violação dos meu direito à privacidade!

— Você não vai me fazer sentir culpado por prever que você usaria a Dama em um surto de rebeldia adolescente — ele avisou, inabalável. — Agora ande, vá buscar Harry, tenho que levar os dois de volta à Casa dos Gritos antes que Remus ponha um ovo de dragão.

Anne apertou os lábios.

— Acho que precisamos ficar mais um pouco, na verdade.

— Como é?

— Harry precisa de mais tempo. Ele achou um monte de coisa dos pais e eu só acho… Acho que ele gostaria de passar mais um tempo com eles. Você pode vir para dentro conosco, não acho que ele vai se importar.

Sirius escovou o cabelo para trás de novo, parecendo alguém que é colocado contra a parede, então balançou a cabeça em negação.

— Tudo bem, então. Vou ficar aqui fora fazendo a guarda da casa. Você volta pra lá. Está mais do que óbvio que é a sua companhia que ele quer agora.

— Pai, não é bem assim. — Ela sentiu as bochechas esquentarem de novo diante do comentário.

— Não, isso é bom! — Sirius a encorajou, um sorriso hesitante no rosto. — Ande. Não se preocupe comigo. Caso precisem de algo, vou estar aqui fora.

— E quanto ao tio Moony?

— Vou dar um jeito de convencê-lo a não mandar a cavalaria ainda.

— Mas está frio. Você vai congelar — ela argumentou, de novo, sentindo que devia parar de insistir, mas ao mesmo tempo culpada por não tentar. Sirius achou graça.

— Almofadinhas tem uma camada respeitável de pelos, eu não me preocuparia.

Ela hesitou, então avançou na direção dele, lhe dando um abraço apertado. Sirius a abraçou de volta com preocupação.

— O que foi, passarinho? — A voz dele se suavizou, fazendo com que soasse mais com o Sirius que ela conhecera no passado. Antes do véu.

— Você é o melhor de todos — disse, a voz carregada de uma carga inesperada de emoção. — Acho não lhe digo isso o suficiente.

— Não precisa ficar afirmando o óbvio por aí — ele sorriu para ela com marotice.

Anne rolou os olhos para ele, um aperto estranho na garganta. Pigarreou, piscando rápido para se livrar da inesperada umidade nos olhos.

— Estamos com fome. Eu estava indo ao centro da vila para pegar alguma comida.

— Deixa que eu faço isso, vai ser mais rápido em quatro patas. Me espere aqui.

Ele voltou ao seu formato animago e sumiu pela portinha do casebre. Anne esperou que ele voltasse com dois pacotes grandes de papel pardo nos dentes, cheios de coisas quentes que cheiravam bem. Ela coçou entre as orelhas dele e deu uma lambida nojenta em sua bochecha. Ela se despediu dele e voltou para a casa sem olhar para trás, preocupada em não deixar Harry esperando mais ainda.

***

Foi direto à sala de estudos, mas Harry não estava mais lá. Ela o procurou dentro do espelho, mas era impossível saber, já que desde que ele saíra a superfície continuava embaçada feito um espelho d’água sob a chuva. Anne achava que eles o tinham quebrado. Ela se aproximou e testou o espelho – estava sólido e quente. Anne puxou a mão para longe, inquieta.

— Harry?

Nenhuma resposta.

Se acalme. Você sempre pode achá-lo, lembrou a si mesma. Arrancou o colar do pescoço mais uma vez, tentando proteger a mente de qualquer vibração que não fosse as da mente de Harry, que agora era capaz de identificar com precisão espantosa.

Ela o achou. Sabia onde ele estava, e também que algo estava terrivelmente errado com ele. Harry estava machucado, sentindo dor. Uma dor de tirar o fôlego.

Anne sacou a varinha do bolso, pensando em que feitiço poderia usar, ao mesmo tempo em que corria para uma parte da casa em que eles ainda não tinham ido. A porta do lado oposto da sala de estar – que, como veio a descobrir, levava à cozinha.

— Harry!

Ele estava lá, parado de costas, encarando o balcão alto que fazia as vezes de mesa para três. A mesa dos Potter estava posta. Haviam três pratos, três copos, todos os talheres e guardanapos de pano. Duas cadeiras para adultos, a terceira era uma cadeirinha alta. As travessas também estavam lá, seus conteúdos há muito decompostos, restando só manchas escuras no fundo. Havia uma garrafa de hidromel que alguém tinha aberto, mais nunca bebido. Três velas que tinham queimado até o fim, pequenas poças de desastre cor de laranja grudadas no tampo de madeira.

O último jantar de Lily e James Potter – a refeição que eles nunca tinham terminado, deixada para trás há quinze anos.

Ela entendeu o tipo de dor que ele estava sentindo. Não era de algum dano físico – era muito pior.

— Oh, Harry — ela expirou, erguendo uma mão para colocar no ombro dele. Os ombros de Harry começaram a tremer. Os punhos dele se cerraram, e Anne ouviu ruídos estrangulados saírem dele, uma mistura de gemido e soluço que lhe causou um arrepio.

Anne avançou, passando um braço pelas costas dele, bem na hora que os joelhos de Harry cederam e ele caiu no chão. Era como se o peso da perda dos pais, após uma vida inteira lhe puxando para baixo, enfim se tornasse forte o bastante para derrubá-lo. Anne o acompanhou, ajoelhando-se no chão imundo da cozinha, a mão em seu ombro segurando firme.

— Está tudo bem — ela sussurrou, sem ar diante da dor que ele estava sentindo, que pulsava através dela, vazando pela conexão de suas mentes. — Vai ficar tudo bem.

Harry afundou o rosto no ombro dela, seu corpo inteiro sacudindo e tremendo, embora não fizesse nenhum som.

— Está tudo bem — ela prometeu, sua voz falhando, enquanto tentava ampará-lo o melhor que podia. — Está tudo bem.

Embora os dois soubessem que não estava.

***

— Você não entende — disse Harry, um sussurro sem corpo no escuro da cozinha.

A noite havia caído completamente, mas nenhum dos dois tinha se dado trabalho de acender um lumus. As mãos deles estavam entrelaçadas, as costas encostadas à parede da cozinha. Eventualmente, Harry havia conseguido recuperar o ritmo de sua respiração, então tinha ficado em silêncio por um longo, longo tempo.

Fora ele quem procurara sua mão no escuro, os dedos gelados pedindo ancoragem.

— Então me explique — ela pediu, baixinho.

— Eu não quero acreditar na profecia. Não quero me tornar um assassino.

— Mas, você não precisa.

Ele soltou um suspiro de frustração e impaciência no escuro, como se Anne estivesse sendo teimosa sem propósito.

— É o que a profecia diz. Ou, ao menos, é o que significa. Por que mais teriam me mandado um punhal? Não um par de algemas, não uma jaula bem grande, mas um punhal. Acho que a mensagem é bastante clara.

Ela mordeu o lábio inferior, sentindo um gosto salgado de lágrimas. Não lembrava de ter chorado também, mas supunha que fazia sentido. À certa altura, a dor que ele estava sentindo tinha se tornado dela também. A intensidade com a qual tinham compartilhado aquilo ainda estava lhe dando calafrios.

— Então agora você acredita que foi Morgana quem mandou o punhal para você?

— Não faz diferença quem foi que mandou. — Ele deu de ombros. Ela soube disso, porque o ombro dele estava bem perto do seu. A perna dele também estava a milímetros da sua. O corpo de Harry irradiava calor o suficiente para que não sentisse frio, apesar do vento encanado que entrava pela cozinha, vindo de alguma janela quebrada no corredor.

— Antes eu não entendia porque é que tinha que ser eu — ele continuou falando, no mesmo tom baixo de quem conversa com si mesmo. — Dumbledore disse que, quando Voldemort escolheu perseguir meus pais, me marcou como a criança da profecia. Mas eu nunca escolhi nada. E se eu me negasse? E se eu decidisse que não sou o Escolhido e ponto final?

Anne ficou quieta. Ela sentia que não lhe cabia responder aquelas perguntas, de qualquer maneira.

— Estou começando a perceber que essa é a pergunta errada. Não importa.

— Não importa se você é, ou não, o Escolhido? — ela repetiu, sem ter certeza que estava seguindo o raciocínio.

— Não importa ficar me perguntando esse tipo de coisa — ele corrigiu. — Por que no fim das contas, eu não poderia apenas decidir o que eu não sou.

— Você é livre para escolher o seu destino — ela murmurou. — Livre arbítrio…

— Olhe o que ele fez — Harry a interrompeu, sua voz se alterando algumas oitavas — Olhe essa casa! Olhe pra mim, Anne! Ele roubou a minha vida. Ele rouba a vida de outras pessoas todos os dias! Para cada pessoa que ele mata, de quantas mais ele está roubando o futuro que elas poderiam ter tido?

— Eu sei, mas… qualquer uma delas poderia ser aquela que vai destruir Voldemort. Não precisa ser você, se você não quiser–

Harry deu uma risadinha incrédula.

— Precisa sim. Aquele punhal, a profecia… acho que não são sentenças. São sugestões — Harry suspirou pesadamente. — Educadas sugestões de que se eu não fizer, talvez não haja outra pessoa. E não podemos arriscar isso, podemos? Não importa o que eu acho. Não importa o que eu quero ou não fazer. Isso é maior do que eu. Maior do que qualquer pessoa. Eu só preciso… ir em frente. Não importa o que vai acontecer comigo, no fim.

A voz de Harry quebrou na palavra ‘fim’. Anne apertou a mão dele com mais força. Ela percebeu que voaria por ele, e cairia por ele também. E, se ele precisava ir em frente, ela ia estar lá para abrir o caminho, com unhas e dentes se fosse preciso.

A sensação era libertadora. Perguntou-se se era assim que os pais dele tinham se sentido, e se era assim que Sirius, Dumbledore e as outras pessoas que se preocupavam com Harry se sentiam. Explicava porque eles estavam dispostos a sacrificar tanta coisa – incluindo suas vidas – por ele.

— Você não está sozinho — disse, tentando conter a intensidade daquele sentimento recém-descoberto, pulsando em seu peito como uma anã-branca. — Eu– nós vamos fazer tudo ao nosso alcance para ajudar você, se é mesmo algo que você precisa fazer; derrotar Voldemort. A Ordem, a Armada, e eu arriscaria dizer, a maior parte do mundo bruxo, está com você.

E eu, completou com fervor. Eu estou do seu lado até o fim e eu não estou indo a lugar nenhum até isso tudo acabar.

— Eu sou grato por isso, de verdade, Anne — Harry suspirou, com melancolia. — Mas, no fim das contas, a profecia só cita uma pessoa, não é? Só há um Escolhido.

— Para com isso! É você, e não a profecia, que tem essa mania de tentar resolver tudo sozinho!

— Por que me aterroriza machucar as pessoas com que me importo. As vezes em que elas estiveram envolvidas tendem a terminar muito mal, e eu sempre me arrependo. — Harry inclinou o rosto em sua direção. Ela soube disso, porque de repente o hálito quente dele estava tocando seu rosto. — Estou torcendo muito para não me arrepender hoje.

Depois da declaração se seguiu outro longo silêncio, que Anne não se atreveu a quebrar, apesar do frio no estômago que a fala dele lhe causara. Não queria estragar aquela oportunidade única de ouvi-lo desabafar.

— Meus pais morreram por minha causa — disse Harry.

A convicção com que ele dizia aquilo fez lágrimas brotarem nos olhos de Anne de novo. Ela apertou as pálpebras e as lágrimas escorreram pelas suas bochechas, misturando-se com a poeira grudada em sua pele. Harry respirou fundo e ela percebeu, pelo tremor de seu peito, que ele também estava chorando em silêncio.

— Seus pais morreram para que você vivesse. Pode parecer, mas não é a mesma coisa.

— Às vezes é difícil perceber a diferença.

Anne se moveu, afastando as costas da parede e se sentando mais reta, para que ficassem frente a frente.

— Há algo que quero lhe mostrar.

Harry meramente virou a cabeça na direção dela.

— Nem consigo ver você.

— Não vai precisar. Me dê a sua outra mão.

Harry obedeceu, sentando-se ereto também e lhe entregando a outra mão. Anne entrelaçou seus dedos do mesmo jeito, encorajando a energia de sua magia fluir entre eles e espalhar aquela, já familiar, cócegas prazerosas em seus nervos.

Ela se concentrou em lhe mostrar a memória que tinha absorvido mais cedo, no berçário. À medida que transmitia a memória para Harry, ela a revisitava. O quarto intacto, todas as paredes e o teto em seu lugar, a luz baixa de uma vela encantada e do luar suave entrando pela janela. Lily, de pijamas, cabelo amarrado de qualquer jeito no topo da cabeça, um bebezinho aconchegado nos braços. Ela o embalava, cantando para que ele dormisse. Sua voz era cristalina, derramando-se através da memória antiga à medida que recitava os versos para o filho:


Eu dei ao meu amor esmeraldas

que eram muito admiradas

Eu dei ao meu amor um cão
que merecia um beliscão

Eu dei ao meu amor um beijo
que não fez nenhum estalo

Então eu dei ao meu amor um relâmpago
que lhe causou certo estrago

Eu dei ao meu amor uma chave
para abrir um esconderijo

Dei-lhe também um passarinho
que em sua cabeça fez um ninho

E eu dei ao meu amor esta canção
para lhe mostrar o caminho

— Eu conheço essa música! — Harry disse, surpreso.

— Lily deve tê-la cantado para você muitas vezes. Imagino que você dormisse com ela.

— Como você…?

— Como eu a consegui? Foi o que eu vi quando toquei no seu berço. A música está impregnada nele, e por todo o quarto. Mesmo depois de tudo que aconteceu lá, foi isso que restou… A música que ela cantava para você dormir.

— Você não devia ficar usando essa sua adivinhação — Harry repreendeu, disfarçando a voz embargada. — Machuca você.

— Tem coisas pelas quais vale a pena dar um pouco de sangue.

Ele deu um apertãozinho em suas mãos. Anne teve a impressão de que Harry estava sorrindo.

— Obrigado — ele murmurou. — Eu nem mesmo sei como– obrigado, Anne.

Anne sorriu no escuro. Apesar de todos os cacos, dos milhões de pedaços em que aquele dia os tinha quebrado, ainda havia algo de inteiro dentro deles pelo que valia à pena lutar.

***

Sirius conjurou o seu patrono, enviando uma mensagem para avisar a Remus que Harry e Anne estavam a salvo e que iam ficar um pouco mais. Depois, tomado por uma fraqueza súbita que. desde o véu, sempre se seguia a realização de feitiços mais complexos, retornou à sua forma animaga. Por conta da inclinação do terreno, o casebre era invisível da casa principal, mas ele estava perto o bastante para saber se algo de errado acontecesse dentro da casa. Seus sentidos caninos eram capazes de detectar ruídos e cheiros incomuns há muitos metros de distância.

O casebre costumava ser o ponto de aparatação secreto da família Potter nos velhos tempos. Toda casa bruxa em área trouxa tinha um, para evitar que algum vizinho curioso vislumbrasse uma aparatação por acidente, ao espiar por uma janela. Na época da guerra, pontos de aparatação fora da casa haviam se tornado uma das muitas medidas de segurança padrão.

Quando James e Lily começaram a ser perseguidos por Voldemort e tiveram de se esconder, eles haviam coberto o casebre com uma série de feitiços de proteção que disparavam dentro da casa, caso alguém fizesse uma visita sem permissão.

Havia um baú muito antigo no fundo do casebre, que James usava para guardar vassouras. Como seu pai, e seu avô antes dele, James jamais fora capaz de se livrar delas – eram parte da família, ele dizia, ultrajado a cada sugestão de Lily de se livrar “daquelas coisas velhas juntando traças-corrosivas no quintal”. Havia uma coleção infinita de vassouras ali dentro, Sirius imaginava, apodrecendo lentamente, esquecidas no tempo. Mesmo se estivesse em sua forma humana, ele não teria coragem de abri-la.

Do mesmo jeito que não tinha coragem de entrar na casa. Uma vez há quinze anos já havia sido o bastante.

Almofadinhas subiu no baú velho, que estalou com seu peso, pronto para tirar uma soneca até que a sua hora chegasse.

***

— Eu preciso confessar uma coisa.

— Quê? — Harry perguntou, preguiçoso, ao seu lado.

Estavam de volta à sala de estudos nos fundos da casa. Haviam devorado o peixe com fritas que Anne trouxera, e, pelo menos por enquanto, deixado as anotações, papéis e todo o resto do material de pesquisa de Lily de lado. Harry concordara que mereciam um descanso, então Anne aplicara o mesmo feitiço para sumir com o pó de uma poltrona no canto da sala, e juntos eles tinham feito o melhor possível para transfigurá-la em um sofá amplo o suficiente para que ambos pudessem deitar.

A casa estava gelada com a caída da noite, no entanto, acender a lareira estava fora de questão, pois a fumaça saindo da chaminé iria chamar a atenção dos vizinhos. Ao invés disso, Harry tinha conjurado a famosa chama azul de Hermione dentro de um pote de geléia vazio que acharam na cozinha, e este fora colocado aos pés deles, perto do sofá. Estavam deitados ombro a ombro, fitando as teias de aranha no teto. Eram tantas que faziam o teto parecer decorado com babados.

— Duas coisas, na verdade — ela se corrigiu. — Não tenho sido completamente sincera com você.

Harry virou a cabeça para olhá-la, de relance.

— Devo me preocupar?

— Talvez. — Anne deu um sorriso travesso, que instantaneamente desmanchou diante a seriedade dele. — Em primeiro lugar, você deveria saber que Sirius está do lado de fora.

— Quê! — Harry se ergueu, usando os cotovelos, os olhos arregalados — Está onde? Desde quando?

— Num galpão atrás da casa, fazendo a guarda. Eu o encontrei quando fui pegar comida.

— E por que é que ele não entrou? O que ele está fazendo lá fora? Por que você não me disse–

— Relaxa, Potter — Anne debochou. — Ele só queria garantir que estamos bem. Eu falei que você precisava de mais um tempo e bem… de espaço. Ele concordou em acalmar todo mundo e fazer a guarda, enquanto terminamos aqui dentro.

— E o que é que ele acha que estamos fazendo aqui dentro?Harry se esganiçou. Anne, que não tinha visto o garoto naquele nível de pânico antes, achou graça.

“Está mais do que óbvio que é a sua companhia que ele quer agora.”

Ela mordeu o lábio, parando de rir.

Ficava repetindo a si mesma que estar ali com Harry fora mais por acaso e oportunidade do que por opção dela – Anne fora apenas sua carona mais conveniente até o vilarejo. Estava cada vez mais difícil se convencer disso.

— Eu não disse o quê — ela brincou. — Sabe Merlin o que está passando por aquela mente suja dele agora mesmo.

— Precisamos falar que ele pode entrar! Senão ele vai achar que… que…

— Que o quê? — ela perguntou, com inocência. As bochechas de Harry se tingiram de rosa, o que a fez achar ainda mais graça. — Não se preocupe, eu disse a ele que você estava vendo coisas de seus pais. Ele que preferiu ficar lá fora.

Harry voltou a se deitar, com alguma rigidez. Ela ficou ensaiando perguntar por que a ideia do que Sirius estava pensando que eles estavam fazendo lá dentro o deixava tão inquieto, mas não conseguiu arranjar coragem, e Harry já estava seguindo adiante.

— Qual era a segunda coisa?

Anne respirou fundo. A segunda coisa lhe exigia um pouco mais de coragem. Não sabia bem como ele ia reagir.

— Eu tive uma conversa, uh, interessante com Sophia, depois da nossa última aula de Adivinhação Avançada. Ela acha que essa coisa que a gente tem, essa nossa conexão, existe por uma razão específica.

— Por que você contou a ela sobre isso? — ele quis saber, desconfortável.

— Eu não contei, mas ela percebeu mesmo assim — disse Anne, com resignação. — Ela foi minha dupla para o teste, se lembra? Teve acesso a um bocado de coisas em minha cabeça, quando estava usando legilimência em mim.

— Não tenho certeza se isso é certo, quero dizer, ela é sua madrinha e sua professora…

— Nem me diga — Anne suspirou, sem querer entrar no mérito da questão. Ainda não tinha perdoado Sophia pela invasão não solicitada e por suas opiniões menos solicitadas ainda. — Mas, enfim… Ela acha que está tudo conectado, eu ter voltado a enxergar quando conheci você, e de que a gente sente, uh… se sente bem quando usa legilimência um no outro, e uh– o fato de que sempre sei como achar você.

— Você sempre sabe como me achar? — Harry repetiu, chocado. — Como assim?

— Eu sei, é esquisito. Eu nem mesmo tinha percebido até ela comentar, achava que era eram só palpites que terminavam por estar certos, sabe, todas as vezes que achei você no castelo quando estava lhe procurando. — Ela decidiu não acrescentar que também, quase sempre, sabia quando ele estava chateado ou não conseguia dormir. Harry já parecia tenso o suficiente. — Não é intencional — acrescentou rápido. — Não é como se eu estivesse espionando você, eu juro!

— Eu não entendo porque você pode fazer todas essas coisas, mas eu não posso — ele se queixou, com chateação. — Por que você sempre pode ler minha mente nas aulas de legilimência, mas eu só consigo ver o que você decide me mostrar? Por que você sabe onde eu estou, mas eu não sei onde você está?

— Ah, isso é só porque eu sou uma bruxa muito melhor do que você.

Harry a cutucou na costela com o cotovelo. Anne deu um pulo, quase caindo do sofá, mas ele a segurou com o outro braço, no último momento. Os dois começaram a rir, a tensão anterior quebrada. Harry a puxou mais para perto, e Anne apoiou a cabeça no ombro dele.

— Tem mais — ela disse, depois de um tempo, fechando os olhos para não ter que ver quando ele se aborrecesse com ela.

— O quê mais? — ele quis saber, com um ar de resignação e zombaria. — Vamos lá, esfregue mais na minha cara o quão melhor em magia você é.

— Sophia acha que eu estou protegendo sua mente.

— Como assim? — A zombaria tinha sumido do seu tom.

— Ela acha que estou fazendo a sua oclumência por você, e que é por isso que Voldemort não tem sido capaz de invadir a sua mente nos últimos meses. Porque vamos combinar, você é péssimo nisso. — Anne se encolheu ligeiramente, sentindo que o silêncio dele não era um bom sinal, mesmo que não pudesse ver a expressão em seu rosto. — E porque eu estaria fazendo a sua oclumência, isso me levaria a estar sempre pairando na superfície da sua consciência. O que explica porque às vezes eu sei o que está passando pela sua cabeça, e porque, às vezes, eu... sonho os seus sonhos.

— Os meus son– os meus sonhos?

Os seus pesadelos — ela corrigiu, encolhendo-se mais um pouco. Mal tinha admitido para si mesma até agora, mas no fundo sabia que os pesadelos que a aterrorizavam certas noites não eram seus. Sonhos com Voldemort sangrando tinta negra, Bervely afogando-a no caldeirão, Cho chamando-a do fundo do lago… — Desculpe, Harry, eu juro que não é de propósito. E eu vou… eu vou tentar parar, vou descobrir um jeito. Assim que voltarmos para Hogwarts, vou pesquisar à fundo na biblioteca. Sei que é uma invasão sem escrúpulos da sua privacidade, que é errado, e que me faz um ser humano desprezível...

— E machuca você — ele a interrompeu, pensativo. — Não é? Faz você sangrar pelo nariz, como naquele dia. Foi um monte de sangue.

— Não. Isso só acontece quando eu uso… quando eu tento ver as coisas de propósito.

Ele ficou em silêncio, e Anne esperou. Achava que Harry estava repassando todos os pesadelos e todos os pensamentos que tivera nos últimos tempos, fazendo catalogação do que ela poderia saber sobre ele, e então calculando quão aborrecido ficaria com ela. Sentiu quando Harry exalou o ar devagar, chegando à uma decisão.

— Tudo bem, então. Se você quiser… continuar fazendo. Se não machuca você.

— Tudo bem? Você não se importa que eu esteja invadindo a sua mente sem a sua permissão?

— Eu te dou a minha permissão. Além do mais, antes você do que Voldemort, não é?

— Eu –certo — Anne arfou. — Certo, então.

Harry virou o rosto para ela. Estava muito sério.

— Mas você precisa ter cuidado. Pode ser perigoso.

— Por causa de Voldemort?

— Ah, por causa do tipo de sonho que você pode acabar vendo. Mas é, Voldemort também.

Só então ela notou o brilho brincalhão no fundo dos olhos verdes.

— Que tipo de sonhos eu posso acabar vendo?

Harry deu um sorriso travesso. Ela arregalou os olhos, entendendo o que ele estava tentando insinuar.

— Harry Potter! — Deu um cutucão no pé dele, usando o seu. Harry deu risada sonoramente, parecendo bobo e relaxado.

Ela também se sentia boba e relaxada. Nunca tinha estado tão próxima dele quanto agora – raios, ela nunca tinha estado tão perto de ninguém como estava agora. Os corpos encaixados um no outro, rostos tão próximos que não precisavam de mais do que sussurros para se ouvirem.

— Você acha que Sirius pode nos ver daqui? — ele perguntou, baixinho, num tom conspiratório.

— Não, eu acho que não. Espero que não.

Harry sorriu, os lábios cerrados, olhando para ela com muita atenção. Anne olhou também, o coração decidindo que era uma boa hora para começar a palpitar como louco.

Ele baixou os olhos dos dela para a sua boca. Anne sentiu o estômago se enrolar em si mesmo, em antecipação.

— Obrigado por ficar aqui comigo, hoje — Harry murmurou, a voz rouca arranhando seu caminho para dentro dela, arrepiando os pelos de sua nuca e se enrolando em seu baixo ventre num nó quente de mel derretido.

— O prazer foi meu.

Harry assentiu, muito sério. Então fez um grande favor a ambos, e a beijou.


But what if it's you

And what if it's me
And what if that's all that we need it to be
And the rest of the world falls away?
What do you say?

Mas e se for você
E se for eu
E se isso é tudo que precisa ser
E o resto do mundo que se dane?
O que você me diz?



(Continua…)



Notas finais
Música do final do capítulo: ainda Only Us, da trilha sonora da peça Dear Evan Hansen. Ouça aqui: https://www.youtube.com/watch?v=WJkwjrFbmIs; e quem seguiu o link no último cap já devia saber o que estava pra acontecer :P Ouvi boatos quem: comentários = autora feliz = motivada para escrever = capítulos tem probabilidade de sair mais rápido (não reclamem comigo, é pura matemática!)