A CAÇA Adaptada
6 Capítulo 06
Sara cometeu todas as infrações de tráfico possíveis no caminho de volta à Universidade de Montana State, em Bozeman. Detestava a idéia de ter que contar aos voluntários que tinham encontrado Rebecca morta.
Nick tinha razão. Necessitavam os recursos do FBI se queriam lidar com o Açougueiro. Entretanto, de todos os agentes do FBI ao longo do amplo país, por que tinha que ser precisamente Gil Grissom?
Sara acreditava ter superado sua traição, um episódio ocorrido fazia muitos anos. Agora lhe agradava seu trabalho, tinha uma casa bonita, uma família que a queria e amigos fiéis.
E então viu ele. Em seu ser mais íntimo, em alguma recôndita dobra de seu coração, que ela acreditava endurecido fazia tempo contra o amor, soube que ainda tinha saudades.
Por que não teria que comportar-se ela com a mesma distância e frieza que ele? Estava decidida a demonstrar que não se importava o mínimo que tivesse arruinado sua carreira, além de lhe romper o coração.
Entrou em um dos muitos estacionamentos do campus. Aferrava-se ao volante com tanta força que os nódulos tinham perdido toda sua cor pelo esforço. Com um gesto brusco, deixou a mudança de marchas em ponto morto e apagou o motor. Quis voltar a relegar Grissom ao nicho mental onde tinha permanecido encerrado todos esses anos, mas ele resistia.
Respirou fundo e observou um grupo de garotas que se dirigia ao quartel geral dos serviços de busca no edifício da Associação de Estudantes. Seguia-as um par de garotas. E logo um grupo de professores.
Ninguém ia sozinho. Ninguém se atrevia agora que lhes tinha advertido sobre o Açougueiro. Entretanto, quanto tempo passaria antes que voltassem a baixar a guarda? Um mês? Dois? Um ano? Sara não o esquecia nunca. O Açougueiro vivia com ela cada minuto de cada dia, empenhado em persegui-la e atormentá-la.
O reitor tinha autorizado o uso de uma das grandes salas da Associação Estudantil para que os voluntários das equipes de busca montassem a coordenação das atividades. Embora sara trabalhasse para o departamento do xerife na pequena unidade de Busca e Resgate, não tinham espaço suficiente para instalar o pessoal dedicado a chamar por telefone, a fotocopiar santinhos e distribuir mapas. Como tinha ocorrido durante o desaparecimento das outras estudantes, a universidade lhes proporcionava o espaço que necessitavam, algo com que ajudar. Nos momentos trágicos, os alunos e os professores estavam unidos.
Por que era necessária a morte para que as pessoas entendessem o valor da vida?
Tinham passado três anos do último assassinato. Do último assassinato conhecido.
Sara não podia esquecer às outras garotas desaparecidas. Nessas datas, um ano antes, tinha sido Corinne Atwell. Ninguém havia tornado a vê-la desde que seu carro fora encontrado em uma sarjeta na Rota 191, que dava à Auto estrada de Gallatin. Era uma vítima do Açougueiro? Ou de outro assassino? Ou possivelmente tinha fugido. A sara atormentava a possibilidade muito real de que Corinne tivesse sido uma das vítimas do Açougueiro e que agora seu corpo estivesse apodrecendo em algum lugar dos milhões de hectares de bosque que havia entre Bozeman e Yellowstone, o território de caça deste assassino.
Pensamentos como esse, que se apoderavam de sua mente, provocavam-lhe insônia.
Chas! Chas!
O chicote estalou uma vez, e depois outra, ferindo na carne aberta. Tentou gritar, mas fazia tempo que já não tinha voz. E depois ficou abandonada a suas lágrimas silenciosas e ao eco das implorações de Sharon.
Seus rogos não significavam nada para esse monstro sem rosto que as torturava. O alívio que sentiam quando ele se ia, logo se converteu em terror. Tornaram-se dependentes dele. Ele as alimentava, dava-lhes água. Se ele partia para não voltar, elas morreriam, nuas e acorrentadas ao chão em meio de um lugar perdido.
Mas ele voltou. Para soltá-las. E assim, elas desempenhariam o papel de suas presas em seu jogo desenquadrado. O caçador e as presas.
Dar com o Açougueiro era algo mais que justiça. Só ele podia lhes contar a quem tinha matado. A sara pensava que exercesse um controle tão evidente sobre a dor dos vivos.
Rebecca tinha sobrevivido oito dias em mãos desse louco, desse maldito assassino. Quase tinha conseguido escapar. Quase.
Mas como tinha acontecido com Sharon, o quase não valia nenhuma merda se estava morta.
Permaneceu dentro do carro um momento, e respirou fundo. Fechou os olhos e afundou a cabeça nos braços, apoiada no volante.
As lágrimas não demoraram a brotar, e a raiva e a frustração que a embargavam fluíram em fios de lágrimas quentes, salgadas, que lhe banharam as faces. Tinha o corpo moído depois de dias de busca incansável, e sentia a tensão depois do reencontro com Grissom. Os soluços a fizeram estremecer em silêncio, e de sua boca brotava só a respiração agitada e rasgada. Demorou vários minutos em dominar a dor. Inclusive depois de recuperar a compostura, resultava-lhe difícil conservar a calma. Quando se olhou no espelho retrovisor viu a morte.
Tinha visto sete garotas mortas. Mas ainda ficavam outras nove jovens desaparecidas, e seus restos não eram mais que um punhado de ossos pulverizados pelo bosque. Aos ursos e pumas não importava muito a dignidade humana, nem praticavam os ritos de enterro da cultura judaica cristã.
Por que eu?
Por que tinha sobrevivido ela de entre todas essas vítimas? Por que a tinha escolhido, para começar? Por que Rebecca Douglas ou as irmãs Croft? Não tinha sentido. Não tinha tido então e não o tinha agora quando, ao fim de doze anos analisando uma e outra vez tudo o que tinha conduzido a seu seqüestro, todo o vivido naquela choça da tortura de um só infernal quarto e, depois, todo o ocorrido desde sua fuga.
O devia a seu pai, isso sabia com certeza. Se seu pai não a tivesse levado a aquelas expedições de caça que ela detestava, jamais teria aprendido a dissimular seus rastros nem a enganar o caçador. Ela era a presa mas, a diferença dos veados ou os ursos que caçava seu pai, ela era um ser dotado de inteligência. Podia enganar seu perseguidor, ocultando-se e correndo, correndo e ocultando-se, até mergulhar no rio e... Ainda que tivesse morrido na água gélida, teria vencido.
Ele não a teria matado. Ela teria escapado, lhe roubando com isso seu troféu, seu prêmio.
Não só tinha vencido mas também sobrevivido.
Se Rebecca não tivesse tropeçado e nem quebrado uma perna, teria sobrevivido? Teria tido a força necessária para chegar ao caminho? Embora Rebecca não fosse oriunda de Montana, criou-se em um povoado de montanha, em Alfonso, Califórnia. Era um território similar e... Os pensamentos de sara se perderam e divagaram longe de Rebecca.
Grissom. Maldito seja. Não podia escapar dele.
Secou as lágrimas do rosto e voltou a olhar-se no retrovisor. Não estranhava nada que Grissom acreditasse incapaz de seguir participando da busca. Tinha um aspecto horrível. Tinha perdido mais peso do que se podia permitir. Não tinha se detido nem um momento a pensar na maquiagem, e seu cabelo castanho, embora estivesse limpo, tinha perdido aquele brilho de antes.
No que pensava? Por que teria que importar o que pensasse Gil Grissom? Ele tinha destruído o vínculo entre eles anos atrás quando tinha deixado claro que, segundo seu julgamento, sua prudência pendia de um fio.
Disse-lhe que se equivocava, mas ele não fez conta. E bem, o tinha dado razão a ela, não? Era um ser humano sem problemas, levava uma vida normal, e ia perfeitamente bem sem os comentários de grissom.
Ela tinha uma responsabilidade, e nesse momento seu dever era ordenar a quão voluntários pusessem fim à busca. Detestava ter que fazê-lo, mas era uma responsabilidade que assumia sozinha.
Depois de um profundo suspiro, deixou a comodidade de seu jipe e se dirigiu ao quartel improvisado. Havia vários estudantes chamando por telefone, recebendo informação ou dando instruções detalhadas para contribuir na busca. Uma equipe de voluntários acabava de entrar antes de Sara para recolher uma seção do mapa que ela mesma tinha esboçado.
Fale com o autor