As lágrimas que acreditava em boa cobrança voltaram a brotar e apertou a ponte do nariz até que conseguiu as reprimir. Agora não era o momento.
O grito abafado de uma das garotas devolveu sara à realidade.


—Não! NÃO!


Judy Payne, a companheira que vivia com Rebecca, era quem tinha chamado à polícia ao ver que esta não voltava para o apartamento na sexta-feira de noite. Judy não tinha abandonado o centro de busca desde o começo, respondendo chamadas, enviando correios eletrônicos, imprimindo milhares de santinhos. Agora, deixou de pregar cartas e ficou olhando fixamente sara com o rosto desencaixado.


—Judy. — Sara cruzou a sala até onde a garota estava sentada, tremendo.


—Não, por favor. —Judy procurou em seu olhar algo que não fosse a verdade, e umas lágrimas rodaram por suas faces.
Sara se agachou junto à simpática companheira de Rebecca e lhe agarrou as mãos. Com cada ano que passava, Sara acreditava que seria mais fácil. As buscas estavam bem planejadas e executadas, os voluntários tinham formação e eram competentes, a polícia era diligente e atuava com determinação. Mas as coisas não faziam mais que complicar-se. Cada vez era mais difícil. Cada uma das garotas desaparecidas levava uma parte de sua alma à tumba.


—Sinto muito. —O que outra coisa podia dizer? «Sinto muito» parecia tão desconjurado, tão vazio.
Judy se deixou cair nos braços de Sara. Esta a abraçou, balançou-a e lhe murmurou coisas ao ouvido, palavras que não significavam nada, mas que possivelmente trariam algum consolo.
Não precisava dizer nada ao resto das pessoas na sala. A reação de Judy lhes dizia o que tinham que saber. As lágrimas brotaram dos olhos de homens e mulheres que tinham tido esperança, por um tempo, de encontrar Rebecca com vida.
Karl Keen, um jovem assistente, se aproximou. Sara levantou o olhar e viu que ele também tinha os olhos umedecidos. Quis transmitir confiança, a ele e a Judy e a todos, mas não tinha palavras. O peso da dor da Rebecca descansava com toda sua carga sobre os ombros de Sara. A propósito do que queria lhes transmitir confiança? De que desta vez a polícia o encontraria? De que desta vez tinha cometido um engano?


Tinha vontades de gritar ante aquela injustiça de ver outra jovem morta sem que tivessem nem um só indício sobre o assassino.
Limitou-se a dar um apertão no braço de Karl.


—Eu ficarei com ela —disse o menino, e se agachou junto a Judy, que seguia soluçando.


Sara pestanejou querendo reprimir suas próprias lágrimas enquanto via Karl que abraçava Judy e a levava para fora. Por um instante, teve vontade de que alguém a abraçasse. Que alguém a consolasse. Que lhe dissesse que tudo ia se arrumar, embora não fosse verdade. Às vezes precisava acreditar nas mentiras.
Mas Grissom tinha renunciado a ela e ela tinha deixado que Nick partisse. Não tinha ninguém.
Quando os dois jovens saíram, sara percebeu que o resto dos que estavam na sala a olhavam. Esclareceu a garganta e falou, com voz rouca.
—O xerife stokes descobriu o corpo de Rebecca esta manhã a uns seis quilômetros a oeste de Cherry Creek Road e a uns quinze quilômetros ao sul da estrada oitenta e quatro. Os ajudantes do xerife procuram pistas, mas...


— É o Açougueiro?


Sara se virou para olhar à pessoa que a tinha interrompido e depois baixou o olhar. Era Greg Marsh, o professor de biologia de Rebecca, um homem achaparrado e gordo que usava óculos sem marco.


—Não... não posso afirmá-lo, eu... —começou a dizer.


—Sim pode. Você esteve ali —disse, assinalando as botas de sara. Ela baixou o olhar e piscou. Não se tinha dado conta do barro seco aderido às botas.


—Greg, você sabe que não posso dizer nada.


—Não é necessário que o faça —disse, e saiu da sala.


Outros seguiram com o olhar fixo em Sara. Ela precisava estar a sós, mas tinha um dever para com os que ficavam na sala. Embora estivessem vivos, eles também eram vítimas do Açougueiro. Sentiu que a culpa lhe roía as vísceras quando em momentos como esse desejava ferventemente não sentir-se responsável pelas vítimas, estivessem vivas ou mortas. O que podia dizer para consolar Greg, Judy e os outros?


Sabia o que tinha vivido Rebecca. E graças à imprensa, que abundava em detalhes sobre as tragédias cada vez que o Açougueiro saía a matar, outros também sabiam. Não havia nada que fazer. Todos sabiam que Rebecca tinha sido torturada, violada e caçada como um animal.
E todos sabiam que a sara tinha acontecido exatamente o mesmo.
Teve que ocultar toda sua humilhação, a dor, a raiva poluída pelo medo que bulia em seu interior. Eram muito poucos os que ainda falavam com ela sobre seu seqüestro e posterior fuga. Sara sabia que murmuravam coisas a suas costas, mas os ignorava. Tinha que ignorá-los. Pensar ou saber o que as pessoas diziam fazia mais difícil a tarefa de lutar com seus pesadelos.
Sara suspirou, aliviada, ao ver que os voluntários, com expressão chorosa se reuniam em um canto, murmurando. Não esperavam que ela lhes falasse, que aplacasse sua dor. Que lhes dissesse que tudo iria bem quando sabiam que nada iria bem até que encontrassem o Açougueiro.
Sara foi até o mapa que tinha desenhado da área de busca. Tinha dividido o condado de Gallatin em quatro quadrantes, desiguais devido ao terreno montanhoso. Cada quadrante estava dividido em dúzias de segmentos.


Não tinham chegado a cobrir nem dois quadrantes desde sábado passado.
Seis pontos vermelhos, quase invisíveis a simples vista, identificavam os lugares onde tinham encontrado os outros seis corpos. Com mão tremula, tirou uma caneta vermelha do bolso e desenhou um ponto no lugar onde tinha morrido Rebecca. A sétima vítima. A sétima vítima conhecida, repetiu para si.


Sara não necessitava os pontos vermelhos para saber onde tinham encontrado os corpos. Tampouco necessitava os pontos azuis para saber onde as tinham visto pela última vez. Tinha o mesmo mapa, muito mais detalhado, na parede de seu estúdio em casa. Tinha passado muitas noites, sentada na cama estudando a topografia, esperando que os pontos, linhas e tramas desenhadas dissessem alguma coisa, qualquer coisa, a propósito daquele homem que se divertia caçando mulheres.
Sentiu um soluço preso na garganta e tampou a boca com ambas as mãos. Voltou sua atenção ao ponto situado ao sudeste do de Rebecca. Era o ponto de Sharon.