derrubava. Tinha ido a ele muitas vezes no passado, procurando forças e apoio. Tinha chorado em seus braços e lhe tinha contado tudo o que pensava, sentia e acreditava.


O tinha usado tudo isso contra ela quando a tinham rechaçado na Academia.
Teria tempo para derrubar-se mais adiante. Quando estivesse a sós.


—Conheço esta área melhor que qualquer ajudante do departamento —disse sara, e voltou a lhe tremer a voz, apesar de seus esforços por controlar seu jeito e suas emoções. Com um olhar profundo como uma sonda, Grissom a tinha deixado reduzida a um estado de nervos.
Voltou sua atenção para Nick e recuperou a compostura.


—Terá que começar a procurar provas e a pedir voluntários. Necessita-me, e para mim é uma necessidade estar aqui. Tenho que olhar. Fixarei-me em coisas que outros não vêem. Poderei...


—Basta. — Grissom fechou a escassa distância entre os dois e lhe pôs uma mão no ombro. Ela a olhou, sem saber se o afastava-se com um tapa ou perdia-se em seus braços.
Olhou-o com raiva e ele deixou cair a mão.


—Tem que dormir —seguiu, com voz mais tranqüila—. Passou a semana procurando Rebecca. Quantas horas deu a si mesma? Está vivendo a base de café e comida sem qualidade. Vá para casa.


— Não! Não! — sara se afastou para que ele não a visse, temendo que as lágrimas que tinha reprimido durante toda a manhã agora brotassem sem remédio.
Agora, não. Diante de Grissom, não.


— Sara, vou chamar uma equipe —disse Nick—. Não teremos acabado até dentro de duas horas. O doutor Al tem que certificar a morte. Volta mais tarde.


—Nick, não acredito que... —começou a dizer Grissom, mas sara o interrompeu.


—Direi aos voluntários. Duas horas, e voltarei. —Não quis olhar Grissom, não nesse momento, porque seus sentimentos eram muito transparentes.
Passou junto a Nick e lhe tocou o braço.


—Estou bem. —Não sabia se o dizia para tranqüilizar a ele, a si mesma ou a Grissom, mas pronunciar essa frase lhe permitiu ocultar o medo que tinha aflorado. A presença de Grissom a tinha perturbado quase tanto como o último crime do Açougueiro.


Grissom a viu afastar-se em seu jipe. Tinha-a dirigido mal. Antes não era assim. Antes que ela decidisse converter-se em agente do FBI acreditando que isso a ajudaria solucionar seus problemas, Alfonso sabia exatamente o que lhe dizer, quando tocá-la, quando lhe dar espaço.
Entretanto, assim que chegou a Quântico, sua obsessão pelo Açougueiro se apoderou de sua vida. Ou possivelmente sempre tinha estado ali e Grissom simplesmente não se deu conta.


Por que ela não se dava conta?


—Por que fez isso? —perguntou Grissom a Nick—. Não está em condições de participar da busca de provas. Notou quando olhava o corpo? Estava a ponto de perder os nervos.


Revolviam-lhe as tripas ver a dor no rosto belo e gasto de sara . Como se estivesse vivendo em carne própria os momentos finais de Rebecca Douglas.


—Aí é onde se engana, Grissom. Sara é mais forte do que acredita.


—Está se castigando por ter sobrevivido.


—Disso não estou tão seguro... —começou a dizer Nick.


—Eu sim. Sara é o típico caso do sobrevivente com sentimento de culpa, e se agravou com o tempo. Cada vez que seqüestram outra garota, ela toma sua morte como se fosse culpa dela.


—Sei que tomou como algo pessoal, mas é uma ajuda para a equipe.


— sara não conhece o significado da palavra «equipe».


—Você não passou os últimos dez anos trabalhando com ela. Não virá abaixo. É uma mulher forte.


—Não deixará que sua relação pessoal com ela te tire o bom senso? —disse Grissom. Falava como se estivesse ciumento. Porra, a verdade é que estava ciumento. Inteirar-se da relação entre Nick e sara, doeu-lhe mais do que estava disposto a reconhecer. Depois de tantos anos separados, Grissom teria que havê-lo superado. Entretanto, desde sua ruptura com Sara, as poucas relações que tinha cercado eram aventuras superficiais e breves. No coração de Grissom, sara sempre seria a única mulher.
Nick o olhou de esguelha.


—Não sabe do que está falando. —O xerife se dirigiu para sua caminhonete.


—Não se faça de esquivo comigo, Nick. Esteve muito tempo com sara para não se dar conta. Está jogando contigo. É algo que faz muito bem.


Nick se voltou para olhar Grissom.


— Sara e eu nos deixamos já faz dois anos.
Pela cara de Nick, grissom se deu conta de que não estava nada contente com o assunto, e lhe pareceu que sua voz soava quase acusatória. Grissom estava de uma vez surpreso e agradado de saber que Nick e sara já não eram namorados. E depois se zangou consigo mesmo por preocupar-se. Bem visto, sara jamais cercaria uma relação com ele.


—Não tinha me contado isso


—Por que teria que fazê-lo? Voltaria com ela sem duvidar um instante. E tampouco neste momento existe essa possibilidade —disse, e ficou olhando o caminho por onde partiu sara — . Estando você na cidade, não acredito.


— Sara me odeia. —Ódio possivelmente fosse uma palavra muito suave. Abominar ou desprezar seriam palavras mais adequadas.


—Deveria te odiar —disse Nick, olhando-o de esguelha—. Se me tivesse expulsado da Academia do FBI um dia antes de me graduar, também o odiaria. Mas ela não o odeia.
Grissom não estava seguro disso, mas guardou silêncio.


— Se o odiasse —adicionou Nick—, já teria casado comigo.