A Bruxa de Neiphrite
6 Qi 130
Notas iniciais
Os cílios eram longos, e os olhos semicerrados eram um charme, não como sono.
Evangelina Sant Brigeth, era o pesadelo de carreiristas por ter facilidade em resolver a maioria das coisas, era era a primeira opção para uma promoção, mesmo sendo apenas uma secretária. O vestido de veludo azul colado ao corpo e sem nenhum decote, era sofisticado e adequado para uma secretária, mas mesmo assim Evangelina era alvo de olhares e cantadas toscas. Talvez por essa razão ela não tivesse muitas amigas naquele escritório. Seu apelido era "Evangeline a mulher indomável".
– Angie, eu preciso que você cancele o que estiver nessa lista. — Disse Colin jogando uma pequena pilha de papéis sobre a bancada de Evangelina e saindo apressado em direção ao elevador com um guarda-chuva na mão. Ela não gostava que ele jogasse coisas em sua mesa como se fosse uma escrava, mas ele era seu chefe, e de todo o escritório. Ela pegou a pilha de papéis sem questionar e começou suas ligações e a enviar e-mail ao mesmo tempo. As mesmas palavras que eram ditas no telefone eram tecladas apenas mudando de nome e endereço, era algo simples e fácil que ninguém do escritório havia feito antes.
Evangelina acabou o trabalho em uma hora, não estava cansada, apenas entediada, sua mente trabalhava muito rápido de modo que ela não pudesse ficar sem algo para se distrair.
– Esse Colin é um filho da mãe. — Evangeline não havia notado a presença de Josh, um dos funcionários mais ativos do setor da contabilidade, assim como Evangeline ele tinha facilidade em fazer as coisas, mas diferente dela ele conseguia fazer tudo inclusive se enturmar. Ele era o melhor no que fazia, era o chefe no setor de contabilidade, e parecia perseguir Evangeline com suas cantadas sem graças.
Evangeline ficou calada. E então voltou para seu romance com uma protagonista irritante. Josh já estava acostumado com suas investidas, não era nada contra ele, era mais sua aparência. Ele não era feio, e Evangeline não era esse tipo de pessoa fútil, mas todas as vezes que ela o olhava, acidentalmente ela via a imagem de seu tio, seu maior pesadelo e a mancha de sua infância, apenas em um olhar ela podia sentir novamente todas os toques, feridas e olhares. Ela havia ficado anos em psiquiatras, mas nada, as lembranças sempre voltavam mais fortes.
Josh não respondeu, muito menos fez questão de se aproximar de Evangeline, com o passar do tempo ele havia notado que alguma coisa nele a assustava. Ele havia mudado tudo, desde perfume, roupas, cor de cabelo e até mesmo tentara usar lentes. Nada. Ele era a única pessoa que via Evangeline como um animalzinho assustado.
O expediente acabou rápido para Evangeline, o barulho da chuva lá fora era confortável e então ela voltou para casa sozinha dessa vez. Os passos largos e rápidos eram presenteados com poças d'água que Evangeline tentava evitar. Ela andava o mais rápido possível para que chegasse a uma rua antes de sua casa e não ter de encarar os moribundos que ficavam a espera de um bom ponto de venda, mas era difícil andar assim com salto alto. Evangeline podia morar bem, mas não em um lugar seguro. Talvez se fosse uma viciada em heroína ela fosse feliz. Ela estava quase correndo quando sentiu bater o ombro em algo e tropeçar.
– Ei... — Ela ouviu. Foi tudo em câmera lenta, ela segurava o guarda-chuva com a mão direita, mas tentou aparar a queda com a mesma mão. Ela não se machucou, mas acabou suja, encharcada por água da chuva, outros líquidos suspeitos do chão e com o guarda-chuva quebrado de modo magnífico. A garota suja no chão parecia uma versão mais bem vestida da Samara. — Você... Está bem? — Arriscou o homem causador de sua queda. Evangeline o encarou com os lábios trêmulos. Ela tinha vontade de gritar, chorar, espernear, e agredi-lo. Mas apenas disse em tom angelical.
– Estou bem. — E se levantou com o que lhe restara de dignidade.
– Anh... Desculpe tome. — O homem de cabelos negros e pele morena, tirou seu sobretudo e o entregou a Evangeline, que não entendeu muito bem como aquilo poderia ajudá-la agora.
– Eu estou perto de casa, não preciso me secar. — Ela respondeu agradecida.
– Você não precisa se secar, mas precisa se cobrir. — Disse virando o rosto para as paredes de tijolo da rua. Evangeline olhou o próprio corpo e viu o enorme rasgo sobre seus seios, ela conseguia ver claramente o sutiã preto de renda.
Evangeline não conseguia ver seu rosto, mas sabia que estava vermelha, ela pegou o sobretudo marrom, agradeceu e correu até sua casa. Ela não sabia se veria aquele homem de dreads novamente, mas o cheiro de café em seu sobretudo era agradável.
A casa era grande e havia sido comprada por um preço acessível, ela havia se arrependido de ter comprado a casa em uma área daquelas, mas ela estava satisfeita por nunca ter sido assaltada antes, então quando ouviu um barulho vindo do sótão não quis acreditar o ignorou indo tomar banho.
Deviam ser três da manhã quando ela o ouviu novamente, e de novo, e de novo, era como se algo se arrastasse por entre a madeira e cada vez que ela o ignorava o som ficava mais alto. Então parou, e ela pode dormir em paz por uma hora, por uma hora não houve barulhos, interrupções ou qualquer animal, não havia nada vivo naquela casa. Mas havia um piano, ele tocava sozinho. Réquiem de Mozart, ela sabia disso pois era a música favorita de seu tio. Ele a deixava tocar enquanto a abusava, era algo como Sade. Aquela música a assustava tanto quanto seu irmão. Evangeline foi até a cozinha cautelosa e tirou uma faca de uma das gavetas, a faca era de carne, então serviria bem para qualquer tipo de ameaça. Ela subiu os degraus sem fazer barulho, como um fantasma e então de supetão empurrou a pequena porta de seu sótão. A música não parou, apenas prosseguiu um pouco mais baixa, era um caminho sem volta, Evangeline continuou. A Janela do sótão estava fechada e apenas uma faixa de luz entrava por ela.
A lua estava nova e seu brilho era mel. Iluminava um par de asas negras e longos cabelos loiros. Suas asas pareciam veludo, ela queria toca-las. A música acabou.
– Por que vocês sempre vem? Eu nunca entendi isso. — Ele estava de costas para Evangeline, mas ela podia perceber que ele apoiava o rosto nas mãos, parecia cansado. Evangeline não estava com medo dele, mas segurou a faca com mais força. — Por que você veio? — Ele perguntou se virando para Evangeline e a mesma vacilou com seu olhar. Olhos cor de sangue. Ela continuou calada o analisando. E ele a ela.
– Essa música não é bem vinda aqui. — Ela finalmente respondeu, e achou que as palavras foram mal ditas, elas simplesmente haviam saído de sua boca.
– Eu também não sou? — Perguntou curioso.
– Depende. — Respondeu cuidadosa. E ele a encarou parecendo se divertir, mas ela nunca saberia dizer com seu rosto mal iluminado.
– Depende de que? — Aquela criatura misteriosa esboçou um sorriso se aproximando e Evangeline se sentiu tremer. Os mesmos traços, de seu irmão e o mesmo sorriso sádico de seu tio. Havia algo de doentio naquela mistura macabra. Ela não iria chorar, mas estava ponderando a hipótese de enfiar a faca em suas mão naquele peito desnudo.
– Depende de quem você é. — Cuspiu. Ela sentia a raiva inflamar-lhe o peito.
– Não, não depende. — Ele disse balançando a cabeça negativamente e espalhando um cheiro diferente pelo ar. — Você vai tentar me matar mesmo que eu diga ser um anjo.
– Anjos não tem asas negras. — Ela o cortou séria. Ele sorriu.
– Você nunca viu anjos Evangeline. — Havia algo em suas palavras que mexeram com Evangeline, seu próprio nome na boca daquele homem, parecia um pecado. Ela sentiu repulsa. — Você não tem escolha, você veio pela própria vontade. — O cheiro do sótão parecia deixar Evangeline lenta, suas pernas pesavam, ela não conseguia mais ficar em pé. Seus olhos semicerrados que já foram um charme agora eram apenas sono. Um sono exagerado, parecia não ter dormido a dias. Ela não queria desmaiar, não queria cair agora.
– Eu não preciso ver anjos para saber que você não é um. — Ela respondeu, e caiu no chão de madeira. Ela não conseguiu dormir, seus olhos ficaram abertos, mas ela não se mexia por mais que quisesse. Ela o viu a pegar no colo, ele foi gentil, ela achou que ele fosse pular a pequena janela e voar, ou rasgá-la e beber seu sangue. Mas não, foi estranho e um tanto assustador, ele apenas a tirou do chão e de repente estavam em um túnel vozes clamando perdão. Havia muito choro e vermelho. O túnel a lembrava um portal para o mundo das almas. E então eles estavam na Tower Bridge acima do Tâmisa, ela estava extasiada com a imagem da ponte a noite, e então o homem a largou no chão.
– Ai! — Ela resmungou, e viu que conseguia se mexer novamente. Ele a olhava cansado como se fizesse aquilo todos os dias.
– De todos os lugares do mundo, Londres? — Uma voz feminina a perguntou a sua frente. Ela também parecia cansada.
– Vocês fazem isso todo o dia? — Perguntou Evangeline um tanto ácida, se estavam tão cansado dela, aquele homem podia não tê-la trazido. Por mais que ela amasse Londres. A mulher tinha olhos vermelhos assim como o outro, carregava um falcão ou águia de asas negras nos ombros que quase se camuflava com seu cabelo.
– Sou a bruxa de Neiphrite, e esse — Disse apontando para a ave — é meu falcão-sombrio, Evan. De todos os lugares do mundo, por que Londres? — Perguntou novamente. Mas logo desistiu ao ver o rosto sério de Evangeline. — Evangeline... É um lindo nome, mas não é seu nome que eu quero. — Ela observava profundamente os olhos lilases de Evangeline.
– Eu não vou te dar nada. — Respondeu. E a bruxa pareceu ficar azeda.
– Você não tem que querer, QI 130. — Evangeline ficou alarmada, aquela mulher não deveria saber disso. A bruxa sorriu a surpresa da garota. — É isso que eu quero, sua inteligência.
– Eu não vou te dar isso, é impossível.
– Não para mim. — Ela levantou um dedo e Evangeline sentiu, como se estivessem tirando uma sutura da testa. Ela não queria acreditar nisso.
– Eu tenho uma troca melhor para você. — Disse fingindo calma. — Meu irmão Nathan. — A bruxa pareceu se interessar e isso a fez continuar mais confiante — Ele é tão inteligente quanto eu, é ardiloso e poderia ser de muita utilidade. Pense em quantas coisas você poderia fazer com ele. — O homem loiro pareceu se incomodar um pouco, mas também aceitou facilmente a ideia. — Então o que me dizem? — Ela os olhou esperançosa. Mas logo seu olhar foi transformado em desespero, nenhum deles sorria ou muito menos pareciam realmente interessados. Eles a encaravam divertidos.
– Você deve ser mesmo muito má para oferecer seu irmão. Ou quem sabe tenha sofrido muito em suas mãos. O que seu coração sente agora? — Perguntou o homem alado.
– Espere, eu posso oferecer meu tio como um bônus. — Completou rápido. E agora eles pareciam realmente interessados. — Ele é realmente uma pessoa horrível.
– O que ele fez? — Perguntou a bruxa curiosa. E Evangeline ficou um tanto receosa de dizer.
– Ele me estuprou quando eu tinha onze anos. — Ela apertava as mãos. Relembrava de todos os detalhes novamente. "Seus gritos combinam muito com Mozart Evangeline."
– Seus gritos ficariam lindos com Mozart Evangeline. — Ela ouviu duas vozes em uníssono, eles a olhavam com o mesmo olhar impiedoso de antes. — Não tente prolongar seu tempo de vida aqui, isso pode acabar com ele. Quando eu te trouxe aqui eu apenas planejava roubar sua inteligência, agora eu quero sua dor. — Disse a bruxa. E então sombras pularam em cima de Evangeline, ela lutou e conseguiu ilogicamente ferir algumas, seus pontos fracos eram nos olhos e ela percebeu isso rapidamente.
Pena que o homem que os controlava também, as asas negras expulsaram as sombras e isso confortou Evagenline. Ela iria viver pensou. Mas foi acertada com uma rajada de penas cortantes como vidro. Seus ombros estavam rasgados, mais ela só via sangue.
– Você deveria ter aceitado não ser tão inteligente assim Evangeline... — Ele parecia um deus da perdição, com seu cheiro de rosas enganador.
– Mas por que eu? — Perguntou Evangeline.
– Algumas pessoas simplesmente nascem com certa magia interior, eu preciso disso para viver Evangeline e para o seu azar você é assim... — A bruxa estava contente. Mas ao mesmo tempo sem emoção, era como sorrir sem estar feliz.
– Eu sou o que sou e ninguém vai me mudar! — Ela disse soluçando, não estava chorando, mas estava assustada, aquele rosto era demais para sua mente. Talvez o melhor fosse realmente morrer. Mas não por aquelas mãos. Ele apenas a olhou com um olhar cansado novamente, e ela viu, não era cansaço, era culpa. Ele parecia triste ao fazer aquilo, jogá-la aos demônios e vê-los roerem sua carne. Evangeline não conseguiu morrer até que arrancassem seu cérebro. E antes de morrer, ela teve um colapso, não eram memórias, eram sensações e a mais forte era o cheiro de café de um homem gentil. Talvez por que ninguém nunca havia sido realmente gentil com ela antes, apenas sua tia, mas tudo o que é bom acaba ou morre.
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