Notas iniciais
Eu não sei o que eu estava pensando quando escrevi esse cap, mas ouvi uma música que me deixou meio deprê, desculpem se joguei merda no ventilador. Agradecimentos a I Kill The Barbie, minha amiga pentelha luvluv

– Evan. — O nome mais parecia um gemido e aquilo excitou Evan um pouco. Ele sabia que não deveria ter deixado a garota entrar em seu apartamento, ou "cubículo". — Eu preciso de ajuda aqui... — A garota de olhos claros e lábios vermelhos era a exata imagem da luxúria. As pernas estavam cruzadas de modo que sua saia levantasse o suficiente para ver o que havia ali em baixo, a alça fina caia de seus ombros delicados. Ela o olhava com o rosto sonso. — Eu não consigo desenhar direito. — Falou com uma falsa chateação, que Evan decidiu ignorar.

– Qual o problema? — Disse aproximando-se e lançando olhares para o relógio, ele estava atrasado. A garota o estava atrasando. — Eu estou atrasado. — Falou a olhando sério e ajeitando a mochila.

– O meu boneco. Eu não consigo desenhar o corpo dele. — Ela mordiscava o lápis A2 e o
passava pelos lábios de forma sensual. Evan tentava ao máximo ignorá-la.

– Acho que você está mais preocupada com outra coisa. — Murmurou Evan.

– Oi? — Ela o encarou confusa.

– Acho que você está mais preocupada com o rosto do seu personagem. — Disse esquivando-se, e apontando para o desenho acima da mesa. — O cabelo dele está perfeito, bagunçado — Riu, aquele penteado parecia o cabelo de Evan pela manhã e o resto do dia. — Os olhos são um tanto triste não acha? — Ela havia pintado os olhos de marrom leve. Desenhava bem, tinha traços precisos e detalhados. Parecia profissional nisso. — Você não precisa de aulas de desenho.

– Ah, eu preciso sim, esse é o meu problema. Eu consigo desenhar bem o rosto, mas não o corpo. — Ronronou a última frase.

– Não acredito nisso, a base dele está perfeita. — Ela já havia desenhado a parte superior do boneco, uma camisa comum e uma chave presa ao pescoço por uma corrente. Assim como Evan. Ele tinha esse hábito pois sempre esquecia de onde a colocara. — O que você não consegue desenhar Helena? — Perguntou batucando a mesa com os dedos impaciente.

– Essa parte aqui. — Disse apontando para a virilha do boneco. — Você me ajuda? — Ela se inclinou sobre Evan e pressionou sua mão sobre a virilha dele. — Humm, tem uma montanha aqui. — Disse ronronando. Evan soltou um suspiro de surpresa e jogou a garota sobre a mesa.

Sofia olhava o relógio constantemente, o pátio estava vazio exceto por Sofia e Anabelle.

– O que foi? — Anabelle perguntou virando e curvando a cabeça como um gato curioso.

– Eu estava esperando o Evan. — A menina respondeu suspirando.

– Quem é Evan?

– Ah, eu esqueci que você não sabe. Ele é meu amigo, vem aqui todo dia, mas as quatro horas... — Ela dizia triste olhando o relógio, e Anabelle seguiu seu olhar.

– Já são cinco e dez. Eu acho que ele tá atrasado. — Disse óbvia, e Sofia não fez questão de responder.

Sofia estava distraída, decepcionada. Evan não era uma pessoa que descumpria suas promessas. A garota andou até a entrada do orfanato acompanhada de Anabelle logo as suas costas.

– Você não vai esperar ele Sofia? — Perguntou confusa.

– Não. — A menina respondeu irritada e tentando conter as lágrimas. Mexia nos cabelos negros de pontas azuis impacientemente. Ela não aguentava esperar mais. — Ele devia estar aqui agora comigo... — Falou baixinho.

– Sofia? — A voz familiar soava grave e preocupada. Evan.

– Evan! — Sofia virou em direção a voz e pulou em seus braços, ela nunca esteve tão preocupada e tão alegre antes. — Por que você demorou tanto? — Perguntou o encarando com os olhinhos brilhantes e inocentes.

– Um aluno de última hora veio pedir ajuda. — Ele falou mordendo o lábio inferior.

– Aluno? Você é professor? — Perguntou Anabelle curiosa.

– Ele é sim! — Respondeu Sofia animada, parecia falar de algo que realmente amava.- Ele é professor de desenho, ele é incrível Anabelle! — A pequena sorria de ponta a ponta. — Eu estou cansada de ficar no pátio Evan, vamos entrar. O que você fez hoje? — Dizia inocente.

Evan se sentia tão culpado quanto quando aprontava na infância. Sofia perguntava a cada instante sobre o que ele desenhara naquele dia, e quem era seu aluno dessa vez, ele tentava esquivar da segunda parte e isso fazia Sofia o questionar ainda mais. Ele não deveria tê-la acostumado a perguntar sobre sua vida. E para piorar ela parecia dar toda a atenção a Anabelle e isso lhe dava um pouco de ciúmes, mesmo sendo uma criança e ainda menina.

– Evan você faz faculdade de que? — Anabelle perguntou, os olhos negros eram grandes e pareciam engolir Evan.

– Arquitetura. — Respondeu.

– Você consegue pagar a faculdade com o salário de professor de desenho? — Ela parecia não crer.

– Eu tenho muitos alunos. — Tentava não pensar muito nisso, nem ele mesmo conseguia crer que conseguia pagar a faculdade com o salário.

– Você deve ser muito bom mesmo. — Anabelle respondeu, e parecia um tanto cínica, mas Evan pensou ouvir mal. — Ou os seus alunos devem gostar mesmo de você. — Sorriu.

– Talvez seja isso mesmo. — Respondeu vago. Algo em Anabelle o incomodava. Evan estava acostumado a não gostar de pessoas metidas ou que o subjugavam, mas Anabelle não fazia nada disso. Ele pensou ser uma daquelas situações que você simplesmente não gosta da pessoa.

– Se eles gostarem de você como eu gosto, você vai ficar rico! — Disse Sofia pulando em seu colo e o abraçando. Foi algo inocente, mas que mexeu com Evan. — Eu estou com sede. — Disse simples, e então pulou de seu colo e saiu do quarto. Evan estava distraído, ele nunca havia entrado no quarto de Sofia, era um quarto grande, arrumado. Vazio. Ainda haviam oito camas vagas.

– Só eu e Sofia dormimos aqui. — Anabelle falou reparando Evan, enquanto batia seus pés nos pés da cadeira em que estava sentada.

– Só vocês? — Evan não se sentia bem em partilhar o mesmo cômodo que Anabelle, ele se sentia incomodar facilmente, ele não conseguia acreditar que Sofia dividia aquele quarto com ela.

– Sim, nenhuma criança quis ficar comigo. — Seu rosto não demonstrava nenhuma emoção, Evan nunca diria que ela estava triste se não houvesse reparado em suas mãos trêmulas.

– Sofia vai te fazer companhia enquanto você não é adotada. Eu aposto que a família que te adotar vai ser ótima. — Respondeu sorrindo.

– Como você? — Ela o encarou esperançosa, e Evan se sentiu culpado. As crianças o viam como um santo. Ele não sabia o que responder. — E enquanto eu estiver na escola a pessoa que me adotou vai estar comendo uma mulher diferente a cada dia? — Ela cuspiu as palavras e não parecia em nada uma criança ingênua.

Evan a encarou pasmo enquanto ela trançava os cabelos cor de palha como se nada tivesse acontecido.

– A madre Elisa me deu suco! Eu trouxe pra vocês também. — Sofia entrou no quarto carregando um bandeja e rompendo o silêncio, então Anabelle pareceu rê-colocar sua máscara.

– E de uva? — Perguntou roubando um copo da bandeja e o provando antes que Sofia abra a boca. — Eca! E de groselha, você sabe que eu odeio groselha! — Revelou sua amargura a frente de Sofia.

– Você bebeu antes de que eu falasse. — Respondeu enchendo as bochechas, um gesto que Evan chamava de baiacu, ele segurou o riso. — Me desculpe Ann... — Disse, o que fez Anabelle a abraçar, provocando uma pontada de ciúmes em Evan.

– Tá tudo bem. — Ela disse encarando Evan, com um sorriso provocador. — Eu quero outro suco Sofi. Vamos pegar. — Evan achou que Sofia fosse ficar e contar sobre seu dia, mas isso não aconteceu.

Deviam ser quase seis horas quando Evan sentiu realmente falta se Sofia, as madres do orfanato já começavam a mal encará-lo. O horário de "visitas" já havia terminado a quinze minutos. Então ele decidiu procurar as meninas. Evan nunca havia reparado, mas o orfanato era enorme, a construção vitoriana o encantava. Os corredores altos e estreitos pareciam nunca ter fim, e a cada brecha ele parecia parar em um quarto cheio de crianças assustadas, até que enfim ele achou uma porta iluminada. Mas parou na porta. Haviam três freiras que conversavam animadamente, Evan teve a impressão de ouvir o riso de Sofia, então esperou para ver se ela estava realmente ali.

– Onde estão as meninas Rosemarie e Heloise irmã Cássia? — Uma mulher baixa com um manto de freira perguntou para outra com os mesmos trajes e aspectos.

– A última vez que as vi estavam com Anabelle. — Respondeu.

– Oh, Anabelle tem arranjado muitos amigos ultimamente, é uma boa menina, todos gostam dela. — Disse a terceira freira sorridente.

– Receio que não irmã Marie. — Cássia a olhou desanimada. — Anabelle tem assutado as crianças, eles tem realmente falado mal dessa pobre menina...

– Como assim irmã? — Marie espantou-se.

– Sim é verdade, essa semana ouvi as crianças comentando que Anabelle estava brincando de pique esconde com os outros... — Disse a freira baixinha com os olhos arregalados, aquilo seria engraçado se ela não usasse um tom sério.

– Hora Luana, você está espantada por causa de uma brincadeira? — Marie a criticou ríspida.

– Deixe-me terminar Marie. — Silenciou-a. — O problema não é a brincadeira de criança, e sim o que acontece com aqueles que brincam. Como eu dizia, ela brinca muito de pique com os outros, mas eles nunca voltam entende? Eu achei que as crianças diziam besteiras, a imaginação as levam-nas longe, principalmente por que eu via sempre todos aqueles que brincavam com Anabelle. Mas não é isso que quero dizer, as crianças diziam que aqueles que brincavam com Anabelle nunca mais voltavam os mesmos entende? E quando falei com o pequeno Arthie ontem, notei que eles falavam a verdade, ele parecia tão vazio Marie, tão triste... — A irmã Luana parecia infeliz.

– Luana, não diga bobagens, Anabelle é nova no orfanato, ela apenas deve estar triste por ter perdido os pais e agora quer esquecer, mas é óbvio que não consegue e as outras crianças que percebem isso se sentem triste por ela. Repare que todas as crianças que brincaram com ela eram mais velhas, logicamente que iriam reparar isso. — A irmã Marie a corrigiu e ela encerraram a conversa com descaso. Mas não Evan.

Evan percorreu todos os andares e vasculhou todos os quartos com cuidado para não acordar as crianças. Ele deve ter andado naquele corredor dezenas de vezes, era um grande corredor no segundo andar que ligava a primeira ala a terceira, o tornando mais longo e largo que outros.

– Você está procurando a Sofia? — A voz travessa e infantil automaticamente incomodou Evan. Ao final do corredor a menina apertava suas mãos até que os nós dos dedos ficassem brancos. Ela não o olhou, apenas olhava para o chão.

– Sim.

– Você vai adotar ela? — Anabelle perguntou o encarando rapidamente e logo voltando o olhar para o chão. Algo no olhar de Evan deve ter confirmado seu medo, pois a menina começou a chorar. — Ela é a única que não me evita, mas você quer tirá-la de mim. O que você quer? O que você quer para deixar ela comigo? — Os olhos castanho esverdeados refletiam sua angústia. Evan não sabia o que responder aquela garota, que pensava ser dona de Sofia. — Me responda seu Lolicon idiota!

– Eu não vou dar ela a você, nem por todas as minhas piores memórias, muito menos por dinheiro. — Ele a encarou com desdém. Ou tentou, Evan não conseguia ser mal com crianças e muito menos mulheres. Aquela era uma menina, que implorava-lhe chorando algo impossível. Anabelle parecia frustrada, o sol estava indo embora e o forte brilho final fazia seus cabelos ondulados parecerem ouro. Ela poderia parecer um anjo em qualquer outro momento não agora.

– Você não sabe quem eu sou Evan. Você me vê como uma criança qualquer, mas eu não sou assim. Eu sou uma bruxa, eu não tenho forma e é isso que assusta as pessoas Evan... Menos a Sofia, a Sofia, ela é incrível. Ela poderia ser uma bruxa incrível, ela poderia fazer um novo mundo ou salvar este, ela poderia ser uma bruxa melhor que eu. E só você me entregá-la... — Ela suplicava.

– Eu não vou entregar ela a você.

– Não vai me entregar por causa do seu egoísmo? — Ela respondeu ácida, Evan não se considerava egoísta.

– Egoísta? — Evan se aproximou de Anabelle e essa tentou fugir, mas ele segurou seu braço firme e a encarou com raiva. — Você não sabe o quanto é errado o sentimento que tenho, você não sabe o quanto eu me seguro todos os dias... — Ele estava angustiado.

– Você é um pedófilo. — Ela cuspiu enojada. E então o sol se pós. Evan não havia visto os lindos últimos três minutos do por do sol com Sofia, o importante não era o sol em si, mas sim as cores que eram feitas no céu. Tudo estava escuro, então ele viu a luz a seus pés, Evan se encontrava a ponta de um prédio altíssimo. Ele já havia visto uma foto daquele mesmo ângulo várias vezes. Tóquio. — Por que Tóquio? — Anabelle, dizia vazia.

– É meu sonho. — Disse no mesmo tom monótono.

– Eu achei que seu sonho fosse ficar com Sofia. — Ela parecia irritada e mais próxima.

– Esse é o meu principal. — Em outra ocasião Evan teria rido ao falar disso, mas agora ele não tinha vontade nenhuma, ele queria chorar por alguma razão.

– Você sabe que eu não vou deixar você ficar com ela.

– Ela é a única coisa que eu quero.

– Não, não é. — Anabelle estava ao seu lado, parecia distraída. Ela pegou sua mão e o puxou em direção aos trinta andares abaixo.

A queda parecia ser algo sem fim, Evan parecia mais leve, se sentia um falcão sombrio planando.

– Você nunca vai ficar com ela. — Ouviu Anabelle dizer e o soltar contra o vento.

A bruxa evaporou como poeira. Deixando Evan sentir-se morrer aos poucos, o chão parecia nunca o alcançar, ele sempre pensou que uma pessoa lembrava de todos os detalhes de sua vida nos últimos segundos, mas não foi assim que ele se sentiu. Ele parecia esquecer de cada momento, de cada rosto ou voz. Seus braços formigavam e seus pulmões doíam, a metamorfose foi chegando aos poucos, em um minuto ele era humano e em outro um falcão. As penas saíram de forma dolorosa, e suas unhas caiam sangrando, dando-lhe espaço para as garras. Ele sentiu mais dores nos pés, parecia um processo infinito mesmo tendo durado tão pouco, o rosto não foi tão doloroso apenas desconfortável, o bico o negava ar e ele negava o bico. Mas o bater das asas foi algo perfeito, ele não sentia mais necessidade de nada. E sua última lembrança foi do sorriso inocente da pequena Sofia.

– Vou viver como nunca vivi antes! — Gritou para a bruxa, antes de nunca mais falar. Ele estava certo.

Notas finais
Eu ia postar um cap extra hoje, mas não deu. :/ Então eu vou postar amanhã. Obrigadinha! ^3^