A Bruxa de Neiphrite
2 Duradouro
Notas iniciais
Ele estava vagando pelos portais desertos novamente, cada um deles continha um simbolo e isso o ajudava a não se perder ou a voltar para o mesmo local. Todos os símbolos eram escrituras, menos um, o pequeno portal ficava escondido entre as portas de duas cidades, era pequeno e ele teria de se encolher para passar mas não era isso que o diferenciava, e sim o corvo empoleirado acima de um cabideiro a sua frente. Um símbolo palpável, cantava uma linda melodia sem letras apenas cantarolava. Dhangi, sim, esse é o nome desse homem, estava curioso, intrigado talvez, então se aproximou do corvo estendeu a mão e, quando estava a milímetros de distancia o corvo grasnou.
– O que você deseja? — Perguntou como um gênio, com a voz rouca de um homem se fosse um corvo. Dhangi ficou impressionado.
– Você fala? — Ele disse sorrindo não crente.
– Você é surdo? — Respondeu seco. — Isso não me interessa, veja bem não são todos os que encontram o portal para Neiphrite, então você deve ter algo que ela quer. Venha comigo. — Ele ordenou.
Dhangi já havia visto muitas coisas em diversos portais, mas um corvo falante e mal-educado era algo inimaginável, mas ele não estava disposto a seguir o corvo então lhe deu as costas. Ele deu apenas um passo, apenas um passo naquela terra vazia que era chamada de "corredor" por viajantes, e de repente não havia nada. Não haviam mais portais, símbolos ou até mesmo chão, Dhangi agora se encontrava flutuando acima de um branco nada.
– Você acha que pode recusar minha hospitalidade assim? Quem você pensa que é...? — O corvo grasnou. — Você nunca iria conseguir fugir tão facilmente nesta terra.
– Me tire daqui. — Dhangi disse calmo, mesmo estando tremendo levemente. E encarou o corvo sério.
– É uma pena... — Grasnou rindo de alguma piada interna. — Mas eu não posso tirar você daqui, até que você fale com a bruxa. — O corvo continuou rindo, porém dessa vez Dhangi sabia que aquele corvo estava zombando dele.
– Tudo bem, eu não quero ter que degolar você, então apenas me leve a essa bruxa antes que eu o mate galinha preta.
– Quem você está chamando de galinha preta? — O corvo perguntou indignado. E Dhangi sorriu levemente por isso. — Cale a boca ser inferior e apenas me siga! — O corvo grasnou alto e abriu as asas. Com um leve agitar das asas ele abriu o portal e então saltou do cabideiro e adentrou a porta negra. — Ande logo! — Ele gritou, e sua voz ecoou nas sombras que a cada segundo pareciam adentrar no branco daquele nada.
Dhangi ficou parado durante um minuto a espera de que os outros portais reaparecessem sem a presença do corvo, mas nada mudou, as sombras que saiam do portal apenas pareciam aumentar e agora o nada antes branco começava a ficar cinza. Ele não queria ficar preso ali para sempre. Então sem nenhuma consciência verdadeira do que estava fazendo ele entrou, não precisou abrir portas ou nem sequer pensar, em menos de um segundo ele já estava lá. A sua frente não havia ninguém, estava descalço com os pés na areia, o forte cheiro de maresia ardia em seu nariz, haviam blocos de sal na areia e na água. Ele estava no Mar Morto.
– Você sabe por que ele se chama Mar Morto? — Uma voz feminina perguntou de suas costas.
– Por que o sal não deixa nada viver aqui. — Ele disse automaticamente se virando.
– Então porquê você gosta desse lugar? — A garota a sua frente parecia curiosa, era pequena e tinha penas cinzas nos braços que camuflavam com sua pele. Ela tinha as pernas de um pássaro.
Se Dhangi havia ficado impressionado com um corvo falante, agora ele estava perplexo.
– Me responda, por favor. — Ela implorou como uma criança, e Dhangi respondeu com dificuldade, tentando pensar.
– E-Eu não sei... — Ele gaguejou, aquilo tudo era muito para ele, nunca havia visto uma criatura tão estranha. Era algo bonito porém de um jeito diferente. Ele não sabia o que dizer sobre aquela garota de olhos vermelhos e cabelos azuis.
– Hum...- Ela disse perdendo o interesse. — Dhangi não é? — Ela perguntou e estendeu as asas cruzando as pernas, logo o corvo estava empoleirado sobre seus ombros.
– Sim.
– Você sabe o significado do seu nome? — Ela perguntou virando o rosto para observa-lo, como um pássaro, e assim que ele abriu a boca ela o interrompeu. — É duradouro. Eu gosto do seu nome, então talvez você me seja útil. Ouça bem, Haydan andou me contando que você é um pouco surdo... — O pássaro em seu ombro grasnou o que pareceu ser um riso. — Vamos dizer que eu possa realizar seu sonho, seus desejos...
– Você está brincando comigo. — Dhangi a interrompeu sério, o que a fez fazer uma careta, como se estivesse realmente irritada.
– Não interrompa mestiço! — Haydan grunhiu. E logo Dhangi estava com a boca selada por algo invisível, por mais que ele tentasse abri-la era em vão, ele não conseguia emitir nenhum som.
– Pois bem, sou bruxa, eu não brinco. Dhan-gi. — Ela pronunciou as sílabas de seu nome cuidadosamente, como um ideograma diferente. — Eu sei que você quer ser um humano, eu sei que você quer amar alguém. Deve ser difícil para um ser dos portais, um mestiço como você, ter relacionamento com humanos certo? Eu creio que um humano não aguentaria tanto poder. Quantas pessoas você já matou involuntariamente? — Ela disse rompendo o feitiço, a garota mal-dizia de Dhangi com um sorriso de escárnio no rosto. Haydan seu corvo ria parecendo um pequeno demônio, enquanto Dhangi tentava se concentrar em algo ao longe, parecia não ouvi-la realmente. Mas os três sabiam que ele estava ouvindo.
Dhangi tentava realmente ignorar aquela mulher, ele só queria sair dali e ir para qualquer lugar perto de humanos, com uma boa música e pessoas alegres. Aquele lugar talvez fosse o inferno, e agora ele poderia estar pagando por seus pecados.
– Eu não matei ninguém. — Dhangi respondeu frio.
– Mesmo? Você realmente sabe que tipo de raça você é? É preciso ter no mínimo cinco raças poderosas para poder viajar pelos portais. E nenhuma delas é um anjo. Você sabe o que acontece quando algo maligno entra em contato com um humano Dhangi? Eu vou dizer para você, o humano morre. Outros humanos acham que aquilo foi algo simples, veneno, uma doença e até mesmo radiação. Há! — Ela riu. — Me diga Dhangi. Quantas pessoas já morreram ao seu lado? — Ela sibilou venenosa. E as mesmas sombras negras que haviam levado Dhangi até ela, agora pareciam puxá-lo para a água salgada. — Me diga a verdade, e só isso que eu quero ouvir.
– Eu não matei ninguém! — Dhangi insistia. — Eu já disse e vou repetir, eu não matei ninguém! — Ele gritou.
– Matou! Matou! Fale! — Ela berrava, e quanto mais berrava mais Dhangi era arrastado para as águas salgadas. Ele continuou insistindo, até as águas chegarem a seus ouvidos. O rosto virado para cima apenas via a garota acima de um grande bloco de sal a sua frente. A seus pés havia um cachorro, ele olhava triste para a água na direção de Dhangi, tinha o pelo malhado, branco, marrom e preto, e os olhos de uma cor dourada. Então apenas para provoca-lo a bruxa ajoelhou-se ao lado do cachorro, e disse em seu ouvido alto o suficiente para Dhangi ouvir.
– Você é meu.
– Não! Eu matei, eu matei pessoas... — De repente Dhangi gritou. Ele estava esgotado e tentava respirar, mas tinha dificuldade. No mesmo instante a garota levantou-se e com apenas um movimento da asa esquerda Dhangi foi liberado das sombras e agora se via flutuando em um bloco de sal, assim como a bruxa.
– Eu apenas queria ouvir isso. — Ela disse satisfeita. — Eu, Dhangi o mestiço, sou a Bruxa de Neiphrite, eu não caço à toa. O trouxe aqui para te oferecer uma troca, você é uma pessoa forte, forte o suficiente para me ser útil. — A bruxa de Neiphrite sorriu de orelha a orelha como se houvesse acabado de falar algo incrível. Por um momento ela pareceu uma boa pessoa, talvez uma criança inocente.
– O que você quer que eu faça? O que quer de mim? — Dhangi perguntou confuso tentando se equilibrar no bloco de sal.
– Eu não quero muito, digo, eu não peço muito. Eu vou realizar o seu desejo. Vou te transformar em um humano Pinocchio. — Dhangi ainda duvidava, porém não iria contestar aquela mulher agora. — Maas, eu vou querer seus olhos... — Ela falou olhando fixamente para aquele par de olhos dourados de Dhangi.
– Meus olhos?! — Automáticamente Dhangi pós as mãos nos olhos. O cabelo branco molhado cobriu-lhe as mãos.
– Ora, transformar criaturas em humanos não é fácil, e além do mais, vou realizar dois dos seus desejos, você irá virar humano...
– Mas serei cego! — Dhangi a interrompeu pasmo. E novamente o corvo lhe selou com um grasnar furioso.
– Mas. Uma pessoa cega confia em seu parceiro mais que uma pessoa comum você sabia? Pode não parecer, mas você estará mais apaixonado a cada dia, afinal, você não tem nada, nem mesmo visão, qualquer um que se apaixonar por você deve ser louco. Ou é claro, muuito apaixonado, deve te amar loucamente. — Ela disse com ironia. O que irritou Dhangi, mas ele não tinha nenhuma opção a não ser morrer.
– Eu não quero ser cego. — Ele disse desapontado.
– E eu não quero ter penas. — Sacou ácida. — Tudo bem, vamos fazer assim, você parece ser uma pessoa gentil. Eu vou te deixar com um olho. Ser humano não é algo tão especial assim. — Falou como se barganhasse algo imenso.
– Tudo bem. Eu não tenho mesmo opção, tenho? — Perguntou cabisbaixo.
– Não. — Ela disse pondo um fim a conversa.
Aconteceu tudo muito rápido, Dhangi não teve tempo de se preparar, o "Não" absoluto já era esperado, mas ele ainda queria pensar que havia outra chance, então quando ergueu a cabeça a primeira coisa que viu foram os pés do corvo. Aquela criatura apenas depositou suas garras em seu olho esquerdo e com um leve bater de asas o puxou. Dhangi sentiu uma dor imensa, era como se estivesse arrancando uma parte de seu cérebro e crânio, ele viu pontos pretos e sentiu o líquido quente escorrer por seu rosto, em um rápido impulso ele colocou as mão no olho esquerdo. E talvez tivesse sido melhor ele não ter feito isso, agora no lugar do olho havia uma cavidade estranha, era algo extremamente errado. Então sem mais nenhuma opção ele se pós a chorar com o que lhe havia sobrado.
– Não chore Dhangi. Agora você tem o que você queria, eu vou deixar você voltar. — Ela disse gentil. — Veja, agora você é humano. — Ela disse estendendo as asas para o mar, em situações normais Dhangi nunca conseguiria ver seu reflexo naquela água, porém agora ele refletia como um espelho. Seus cabelos antes branco giz agora eram totalmente negros, e seus olhos já dourados agora novos eram castanhos. Ele parecia mais jovem, ninguém nunca diria que ele estava a um mês para completar trinta anos. E mesmo com dificuldades para enxergar com apenas um olho ele sabia que agora parecia o adolescente que já fora um dia. — Está feliz Dhangi? — Ela perguntou sorrindo para ele como uma criança. Até mesmo ela parecia ter mudado, seus olhos antes vermelhos agora eram verdes, e suas penas agora totalmente brancas.
– Me desculpe — Ele começou cauteloso — eu não sei se deveria agradecer a você, mas obrigado. — Então tentou sorrir, mas seu sorriso parecia triste, ele ainda estava fraco, abalado, tanto com sua perda quanto seu ganho.
– Você já pode ir.
– Você deve ir! — Grasnou Haydan que planava nas águas formando um redemoinho. — Pule aqui. — falou e Haydan obedeceu, ele não queria estar ali por mais nenhum segundo. Então olhou de relance para a Bruxa de Neiphrite e notou que o cachorro não estava mas a seus pés. Havia algo triste naquele cachorro que fez Dhangi se preocupar mais do que o normal, poderia ter sido ele.
– Onde está o cachorro? — Ele perguntou para a bruxa evitando olhar em seus olhos. Talvez ele nunca mas encarasse alguém outra vez.
– Eu não sei... Eu queria que ele fosse meu, sabe. — Respondeu de modo vago. — As coisas boas vão embora logo, mas eu espero que esse seja o começo de algo bom para você. — E então ela sorriu para ele.
Dhangi não havia entendido se ela lhe quisera dizer "boa sorte", ou se o estava amaldiçoando. Mas agora ele queria aproveitar ao máximo sua nova vida.
– Esse foi só o começo. — Sorriu e então caiu nas águas.
Dhangi sentiu a água gelada percorrer seu corpo em segundos, e nesse mesmo tempo um calor secou suas roupas, ele estava em algum lugar do verdadeiro Mar Morto, parado na areia em frente a água, haviam pessoas boiando e lendo e outras apenas tentando ser levadas pelo mar. Tudo não pareceu passar de uma alucinação, então ele colocou a mão em seu olho esquerdo e sentiu um pano encobrir aquela cavidade. Ele era humano não precisaria mais se preocupar. Estava a salvo novamente, poderia ter uma família, uma vida normal, e o melhor era que as pessoas não iriam morrer ou chorar em sua presença. Ele se sentia alegre e realmente vivo. Perder um olho não parecia realmente nada comparado a não ser um monstro.
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