A Bruxa da Noite
2 A floresta sombria
Notas iniciais
A floresta sombria
11 anos depois
Ermos do norte – Colina de Ferro
Ela acordou com os primeiros raios de sol que lhe queimavam a face. Abriu os olhos com dificuldade e por fim lembrou que acabara dormindo na própria floresta. Ao se mexer, na relva úmida pelo orvalho da manha espantou um esquilo e sorriu ao observar o pequeno animal correr para longe.
– O Sol vermelho sobe, sangue foi derramado. – murmurou para si mesma.
Ao levantar e rumar para sua cabana de pedra deixou que algumas folhas seguissem grudadas em seu vestido negro. Seus cabelos róseos que outrora foram curtos agora também carregavam folhas e gravetos.
Todas as manhas fazia o mesmo ritual: preparava chá de ervas vermelhas, beliscava um pedaço de pão e acendia vários incensos. Sua mãe sempre fazia aquilo, aquele cheiro lhe trazia uma doce lembrança de casa, dos dias que ela era fora doce.
A cabana em que morava era pequena, possuía uma cozinha atulhada de objetos que usava para suas receitas deliciosas, uma sala adjacente com uma lareira para os dias frios, uma estante cheia de livros antigos, um sofá puído com o pano marrom e pesadas cortinas vermelhas que mantinham tudo em segredo. Uma pequena escada em espiral levava para o andar de cima onde havia um quarto e uma sala onde ela fazia seus experimentos, poções e afins. Todas as janelas da casa possuíam aquela pesada cortina vermelha, ela riu sozinha ao pensar na necessidade dos vastos panos, ninguém ousava entrar naquela floresta mesmo.
Logo a frente de sua cabana havia um pequeno lago onde ela pescava nos dias de sol, possuía uma jangada velha e gostava muito do gosto dos peixes.
Lembrou-se então da noite em que chegara as Colinas de ferro. Fazia frio e chovia muito, ela estava faminta e seu pobre cavalo, falecido no ano anterior também não aguentava mais o peso do próprio corpo. Fora recebida com desconfiança – e odiou aquilo – o guarda do castelo de pedra a levara pela cozinha até a dona da casa, Mikoto Uchiha. A mulher era muito bonita e justa, a tratou com total atenção e se mostrou preocupada com as palavras da menina. Como Sakura lhe pediu, mandou que fizessem uma casa da floresta, durante a confecção da mesma a menina permaneceu isolada no castelo, não quis se misturar, não quis conhecer ninguém. Só queria digerir a própria dor e próprio medo.
Os anos se passaram e raramente Sakura saia do seu refugio, que agora fora apelidado de Floresta Sombria pelos moradores da região. Todos tinham medo de se aproximar e eram raros os que recorriam a ela em busca de magia. Ela não se considerava uma mulher ruim, pelo contrário, ajudava os moradores que lhe pediam, mas, o preço era alto. Usava o dinheiro que conseguia para comprar seus desejados livros e fazer viagens a lugares longínquos em busca de mais conhecimento e poder.
Suspirou quando viu o corvo pousando em um galho próximo a sua janela, ele a olhou fixamente nos olhos e crocitou alto.
– Certo, teremos visita hoje.
***
Descampado dos mortos
O homem capinava tranquilamente naquela manhã. Sua roça, um pouco distante do vilarejo em que residia ficava na cabeceira do velho rio Anuí e lhe proporcionava água em abundancia e terras férteis. Estranhou que pelo segundo dia a cor do céu possuía algumas manchas vermelhas, para ele, não era um bom presságio.
Deixando suas crendices de lado Inoichi Yamanaka prosseguiu retirando as ervas daninhas que lutavam para sufocar sua plantação de milho. Aquele fora um inverno difícil e rigoroso, agora que a primavera avançava ele rezava para fazer uma boa safra.
O silencio matutino o qual estava tão acostumado foi quebrado pelo som de cascos de cavalos e gritos guturais, levantando a cabeça se deparou com uma horda de Orcs negros ao longo da linha do horizonte, sem pensar duas vezes, largou suas ferramentas e correu em disparado para sua vila.
Na pequena casa de pedra a garota de longos cabelos louros dobrava carinhosamente o vestido que ganhara da avó. Iria usa-lo na próxima festividade da cidade onde todos celebrariam o inicio da primavera e dos bons ventos. Seu ritual fora interrompido por gritos vindos de todas as partes da vila, arregalou os olhos quando percebeu o que eles diziam.
– Orcs? – falou quase para si mesma ainda em estado que choque.
– Ino! – ouviu a voz do pai a chamar na cozinha e correu em sua direção.
–Pai! – falou assustada enquanto via a mãe chorando com as mãos no rosto.
– Ino, pegue o cavalo e corra até o Vale da Prata! Avise Minato que Orcs negros atacaram nosso vilarejo, rápido! – dizia ele enquanto tirava a velha espada de cima da lareira.
Os gritos ficaram mais altos e o homem a segurou com força pelos ombros.
– Entendeu o que eu disse? Vá agora!
E como se sua vida virasse uma piada em câmera lenta, correu. Viu aquelas criaturas vis e nojentas invadirem sua casa, seu lar e só pode montar em seu cavalo malhado e correr o mais rápido possível. Era uma viagem curta e ela tinha pressa.
– Pai e mãe, aguentem firme – sussurrou enquanto corria como o vento para o Norte.
***
Ermos no Norte – Colina de Ferro
Mikoto Uchiha se dizia uma mulher afortunada. Dentre as muitas mulheres que conhecia fora uma das poucas a conseguir se casar com o homem que realmente amava. Vivia em um lindo castelo de pedra localizado nas Colinas de Ferro e lá cultivava flores, ervas e cuidava da criadagem, era uma mulher doce e assim como seu marido, fizera jus ao nome de sua família.
Mas, ao acordar naquela manhã Mikoto sentiu que havia algo errado. Ao caminhar por entre os jardins muito bem aparados de sua propriedade teve um calafrio, notou então que nuvens se aproximavam e logo enfrentariam uma forte tempestade primaveril.
Pelo resto do dia culpou seus pensamentos escuros àquelas nuvens que não demoraram a açoitar seu castelo com pesados pingos de chuva, porém, ao ver seu velho amigo adentrando pela porta da frente soube que seus maus presságios nada tinham com as forças da natureza.
– Boa noite Minato! A que devemos a honra de sua visita? – disse a mulher docemente indo de encontro ao convidado que se encontrava no batente da porta.
– Querida Mikoto, vejo que continua tão bela quanto da ultima vez que nos vimos.
– Isso faz uma semana Minato – respondeu ela sorrindo.
– Kushina manda lembranças.
– Porque ela não veio me dar o ar de sua visita?
– Você sabe como ela é, não gosta de sair em noites de tempestades.
– Oh, eu sei, também prefiro o aconchego de minha casa.
– Minato meu velho amigo, achei que demoraria mais que uma semana para atravessar o velho Anuí.
O homem de longos cabelos escuros se aproximou e abraçou com força o amigo.
– Temo que o assunto que venho trazer não seja tão agradável, ainda mais em uma noite como essa.
– Mikoto, pode nos servir sopa e um pouco de pão? Acredito que Minato esteja com fome. Chame Sasuke também.
A mulher assentiu e rumou para os seus afazeres enquanto os dois homens sentavam-se em uma enorme mesa de madeira polida no grande salão.
– O que houve irmão? – perguntou Fugaku temendo pela face estranha do amigo.
– Hoje pela tardinha chegou uma menina vinda do descampado, limite com as minhas terras. – falou o outro – ela disse que o vilarejo fora atacado por Orcs negros.
Fugaku estreitou o olhar.
– Orcs? Aqui? É impossível Minato! Há anos eles não vagam por essas terras, muito menos abertamente.
– Eu mandei dois batedores para o local, poucos sobreviventes. Agora chamam de Descampado dos mortos. – disse sombriamente.
– Pai, tio Minato.
O jovem que se apresentara era o filho mais novo dos Uchiha. Usando vestes negras como a noite lá fora, Sasuke cumprimentara o velho amigo da família e sentara junto deles.
– Não tenho certeza que se quero que meu filho escute este tipo de conversa. – disse Mikoto entrando com uma travessa grande de sopa. Uma criada trazia pão e outra, vinho.
– Sasuke já é um homem – disse Fugaku cortando o assunto – Mas Minato, por que eles não avançaram para suas terras?
O homem de cabelos loiros e arrepiados balançou a cabeça enquanto servia uma taça de vinho.
– Os que sobreviveram disseram que no meio da matança eles pararam e recuaram, como se tivessem escutado o chamado de um mestre.
Uma veia saltou na testa de Fugaku.
– Um mestre?
O outro assentiu.
– Sabe em quem pensei não sabe Fugaku.
A chuva batia mais forte nas paredes e o silencio que se formou ali era no mínimo agonizante. Por fim, Mikoto reuniu o resto de coragem que possuía e olhou para os homens a sua frente.
– Acham que ele retornou?
Todos a olharam com medo da terrível possibilidade.
– Ouvi rumores vindos do Sul há uma semana. Um viajante que encontrei na taverna do velho Mirtes disse que estava fugindo para além das terras ermas porque havia fogo na montanha – disse Sasuke.
– Isso são só rumores ... – cortou Fugaku — ele não pode ter sobrevivido a Bruxa da Noite, nós fomos até lá, vimos que só havia cinzas no local.
– Precisamos falar com ela – sentenciou Mikoto sabendo que aquela seria uma tarefa difícil.
– Isso está fora de questão Mikoto. Essa menina não sai daquela floresta a anos, não sabemos o que ela faz por lá.
A mulher suspirou cansada.
– Se ela não sai daquela floresta é porque nunca foi bem recebida nesta casa, e ela precisa saber disso. Além do mais, pode ter alguma informação.
– Itachi não está aqui. Ele é o único que fala com ela. – continuou o homem.
– Eu vou.
Todos olharam para Sasuke que já se levantava da cadeira.
– Não! Ela não o conhece – disse Fugaku ligeiramente irritado.
– Mas vai conhecer. E ela é só uma garotinha assustada, não sei por que a temem tanto.
– Meu querido – disse a mulher emoldurando o rosto do filho com as mãos – seja gentil, Sakura não está acostumada as pessoas daqui e só confia no seu irmão.
Um trovão rasgou o céu fazendo a mulher fechar os olhos com força.
– Espere o dia amanhecer Sasuke, há muitas coisas naquela floresta numa noite como esta. – disse o patriarca da família.
O garoto riu em deboche.
–Eu não tenho medo da floresta, eu vou agora.
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