A Boca do Silêncio

4 A Mulher da Máscara Branca


Durante dois dias, Mizuki não saiu do apartamento.

As cortinas permaneceram cerradas, e a luz artificial era evitada sempre que possível. O espelho da casa de banho fora novamente coberto, desta vez com fita adesiva a segurar o pano como se estivesse a selar uma ferida aberta. Mesmo assim, ela sentia-o. Todos os espelhos. O do elevador. O vidro das janelas. O ecrã negro da televisão desligada. Qualquer superfície reflectora parecia demasiado atenta.

A dor à volta da boca diminuíra, mas fora substituída por outra sensação: pressão. Como se algo estivesse constantemente a puxar-lhe o rosto para um sorriso que não lhe pertencia. Quando falava, o que evitava, sentia a pele ceder com demasiada facilidade, como tecido gasto.

Na madrugada do terceiro dia, acordou com um som baixo.

Rítmico. Ras… ras… ras…

Levantou-se devagar, o coração aos saltos, e seguiu o som até à casa de banho. A porta estava entreaberta. O pano caíra novamente.

O espelho estava coberto de marcas vermelhas.

Não eram arranhões. Eram dedos. Impressões de mãos, como se alguém tivesse pressionado o vidro a partir de dentro, tentando atravessá-lo. No centro, escrito com algo escuro, lia-se uma única frase: “Sai.”

Mizuki sentiu um calafrio profundo, quase reverente.

— Eu não quero… — murmurou.

Mas o corpo não lhe obedeceu.

Vestiu o casaco, colocou a máscara branca e saiu para a rua sem se lembrar de decidir fazê-lo. O ar nocturno recebeu-a como uma velha conhecida. Cada passo parecia mais leve, mais certo, como se estivesse finalmente a caminhar na direcção correcta.

As ruas de Suginami estavam quase vazias. Um gato atravessou-se no seu caminho e fugiu de imediato, o pêlo eriçado. Mizuki percebeu, com um misto de horror e fascínio, que já não era invisível.

Ao aproximar-se de uma rua secundária, ouviu passos. Um grupo de três adolescentes caminhava distraído, rindo-se, alheios à noite que os envolvia. Um deles olhou para Mizuki e diminuiu o passo.

— Eh… — disse. — Está tudo bem?

As palavras surgiram sozinhas, suaves, treinadas por décadas de silêncio forçado.

— Desculpa… — disse Mizuki, inclinando ligeiramente a cabeça. — Posso fazer-te uma pergunta?

Os adolescentes trocaram olhares nervosos.

— Sou bonita?

O rapaz riu-se, desconfortável.

— Sim… claro.

A mão de Mizuki subiu lentamente até à máscara.

Flash.

A mãe, diante do espelho, a limpar sangue do lábio com um pano.

— Não chores assim. As pessoas vão pensar que és fraca.

A máscara caiu. O grito ecoou pela rua como algo arrancado do fundo da garganta humana. Um dos adolescentes caiu para trás, outro fugiu sem olhar para trás. O terceiro ficou imóvel, paralisado pelo horror.

Mizuki aproximou-se. Não sentia prazer. Nem raiva. Apenas uma estranha sensação de equilíbrio, como se o mundo estivesse finalmente a funcionar como devia.

Quando tudo terminou, o silêncio voltou a instalar-se.

Mais tarde, a polícia registaria o incidente como um ataque violento por um agressor desconhecido. As descrições coincidiam: mulher alta, máscara branca, boca deformada. A lenda espalhou-se rapidamente pelas redes sociais, acompanhada de vídeos tremidos e relatos contraditórios.

Kuchisake-onna voltou.

Nessa mesma noite, Mizuki encontrou-se num local que não visitava há anos: Niigata.

A casa da infância permanecia abandonada, as janelas partidas, a madeira apodrecida. Entrou sem dificuldade. O cheiro era o mesmo. Mofo, humidade e memórias não resolvidas.

No antigo quarto, encontrou um espelho rachado pendurado na parede. Desta vez, não desviou o olhar.

O reflexo mostrou-a inteira. Completa. A boca rasgada não parecia uma mutilação, mas uma correcção.

— Foi aqui que começou. — disse, para ninguém.

Por trás dela, no espelho, surgiram duas figuras desfocadas. Um homem e uma mulher. Os pais. Silenciosos. Imóveis.

— Nunca me perguntaram se eu estava bem. — continuou. — Só se eu estava apresentável.

O reflexo sorriu mais ainda. Um som seco ecoou pela casa, como madeira a partir-se.

Na manhã seguinte, a casa ardera até às fundações. Os bombeiros encontraram apenas cinzas e um espelho derretido, distorcido num sorriso permanente.

Em Tóquio, novos relatos surgiam. E Mizuki compreendeu algo essencial: já não podia parar.

Porque a pergunta precisava de ser feita. E alguém precisava de ouvir a resposta errada.