A Boca do Silêncio
5 O Sorriso que Permanece
A cidade começou a adaptar-se.
Em Tóquio, as pessoas aprenderam rapidamente que o medo também cria rotinas. As ruas esvaziavam-se mais cedo. As máscaras deixaram de ser apenas protecção sanitária e tornaram-se uma defesa simbólica, como se esconder o próprio rosto pudesse impedir a pergunta. As crianças eram avisadas para nunca responder a estranhos. Professores repetiam a lenda em tom de aviso, não de folclore.
Mesmo assim, continuava a acontecer.
Sempre à noite. Sempre em ruas secundárias. Sempre a mesma descrição: uma mulher de máscara branca, postura educada, voz calma. Um sorriso que ninguém devia ver.
Mizuki caminhava entre eles como uma sombra consciente de si mesma.
Já não dormia. Não precisava. O corpo mantinha-se num estado estranho, suspenso entre exaustão e vigília permanente. As feridas da boca nunca cicatrizavam totalmente, mas também não pioravam. Eram parte dela agora, uma fronteira aberta entre o que fora e o que se tornara.
Ainda assim, algo a incomodava. Não era culpa. Não era medo. Era a memória.
Numa noite particularmente silenciosa, regressou ao apartamento em Suginami pela última vez. O edifício estava marcado por fitas da polícia, um dos vizinhos fora atacado semanas antes. Entrou sem dificuldade. O apartamento estava como o deixara, mas parecia menor, irrelevante, como um cenário abandonado depois da peça terminar.
Na casa de banho, retirou o pano do espelho. Olhou-se. Pela primeira vez, não viu a Kuchisake-onna. Viu Mizuki.
A menina de Niigata. A adolescente silenciosa. A mulher que aprendera a existir ocupando o mínimo de espaço possível. O sorriso rasgado parecia agora uma ferida antiga, não uma arma.
— É isto que sobra? — perguntou em voz alta.
O espelho respondeu. Não com palavras, mas com imagens.
Flash.
Uma mulher diferente, noutra época. Um marido furioso. Uma lâmina. Dor. A mesma boca aberta à força. A mesma pergunta repetida através dos séculos, como um eco que nunca encontrara descanso.
Mizuki percebeu então a verdade que evitara desde o início: ela não era a primeira. E, se continuasse, não seria a última. A lenda não precisava de corpos. Precisava de continuidade. E isso exigia um fim.
Naquela noite, dirigiu-se ao local onde tudo se tornara inevitável: o parque infantil abandonado de Suginami. O mesmo onde vira a mulher pela primeira vez. O mesmo onde sentira o destino a tocar-lhe o ombro.
Chovia levemente. Os baloiços rangiam como sempre. Mizuki retirou a máscara e colocou-a cuidadosamente num dos bancos, como uma oferenda.
— Chega!!! — disse.
O ar tornou-se pesado. As sombras alongaram-se. No vidro do abrigo do parque, o reflexo alterou-se. A outra mulher surgiu, a original, a lenda pura, o ódio cristalizado.
A Kuchisake-onna inclinou a cabeça.
— Sou bonita?
Mizuki sentiu a boca puxar-se sozinha, exigindo abrir-se mais, rasgar-se mais. Resistiu. Pela primeira vez, resistiu.
— Não. — respondeu. — Não somos.
O reflexo estremeceu.
— Fomos feitas para perguntar. — insistiu a entidade. — Para punir.
— Não. — disse Mizuki, a voz firme apesar da dor. — Fomos feitas para sobreviver. Vocês ensinaram-nos a sofrer.
Deu um passo em frente. O espelho do abrigo estalou, depois partiu-se por completo. Um grito ecoou, antigo, furioso, cansado e dissipou-se na chuva.
Quando o silêncio voltou, Mizuki caiu de joelhos. A dor regressou com força total. Sentiu a pele a fechar-se lentamente, de forma imperfeita, deixando cicatrizes profundas. O sorriso impossível encolheu, tornou-se humano, falível, real.
Na manhã seguinte, encontraram-na no parque.
Viva.
Desfigurada, mas consciente. Incapaz de explicar o que acontecera. As notícias falaram de colapso nervoso, de trauma extremo. A lenda perdeu força. Os relatos cessaram gradualmente.
Mas no Japão, as lendas nunca morrem por completo. Anos depois, numa rua pouco iluminada, uma criança perguntou à mãe por que razão não devia falar com estranhos à noite. A mãe hesitou.
— Porque há perguntas que não querem respostas. — disse.
E algures, num espelho antigo esquecido num armazém, uma fenda quase invisível permaneceu.
Como um sorriso à espera.
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