A Biblioteca do Esquecimento - Dramione

1 Capítulo 1: O Silêncio Branco


O silêncio na Mansão Malfoy costumava ser uma arma, fria e imponente, projetada para intimidar. Agora, na Ala Oeste, ele parecia apenas... exausto. Era o silêncio de um lugar que viu o fim do mundo e não sabia como continuar existindo.

Draco Malfoy estava parado junto à janela alta, observando a neve cair sobre os jardins mortos. Seus pavões albinos não estavam lá; os jardins estavam vazios, um espelho branco e cinza de como ele se sentia por dentro.

Ele girou o anel de sinete no dedo mindinho, um hábito nervoso que se tornara constante desde que enterrara seus pais. Atrás dele, o som de tecido roçando em tecido o fez parar.

Draco não se virou com a postura rígida de um Comensal, mas com a tensão de alguém que esperava por esse momento há dias. Ele se aproximou da cama de dossel devagar, temendo assustá-la.

Hermione Granger estava acordada.

Ela estava sentada entre os lençóis de seda branca, parecendo pequena demais, frágil demais. Seus olhos castanhos varriam o quarto com uma mistura de confusão e medo, parando nas cortinas de veludo verde, na lareira apagada e, finalmente, nele.

Não havia reconhecimento no olhar dela. Apenas uma cautela instintiva.

— Onde... — A voz dela falhou, seca pelo desuso. Ela levou a mão à garganta, tossindo levemente.

Draco agiu antes que ela pudesse pedir. Ele foi até a mesa de cabeceira e serviu um copo de água.

— Aqui — ele disse, a voz baixa e calma, tentando não fazer movimentos bruscos. — Beba devagar.

Ele estendeu o copo. As mãos de Hermione tremiam — um tremor fino e contínuo, sequela dos danos neurológicos da Cruciatus. Quando ela tentou pegar o copo, a água balançou perigosamente, quase derramando.

Draco não a repreendeu. Ele não recuou. Em vez disso, ele suspirou suavemente e segurou o copo junto com ela, seus dedos pálidos cobrindo os dela, guiando a borda de cristal até os lábios da garota.

— Eu ajudo você — ele murmurou. — Está tudo bem.

Ela bebeu sôfrega, os olhos fixos nos dele por cima da borda do copo, avaliando-o. Quando terminou, ela se recostou nos travesseiros, exausta pelo simples esforço de existir.

— Quem é você? — ela perguntou. A voz estava mais clara agora, mas carregada de uma vulnerabilidade que Draco nunca associara a Hermione Granger.

Draco colocou o copo na mesa. A pergunta doeu mais do que ele esperava. Ver a mente mais brilhante de sua geração reduzida a uma página em branco era uma tragédia particular.

— Sou Draco — ele respondeu simplesmente. Títulos e sobrenomes pareciam irrelevantes agora que o mundo lá fora tinha acabado. — Esta é a minha casa. Você está segura aqui.

— Draco — ela testou o nome. Não despertou nada nela. — E eu? Quem sou eu? Eu sinto... eu sinto que deveria saber meu nome.

Draco hesitou. Dizer o nome dela era trazer a guerra para dentro daquele quarto. Mas mentir para ela parecia cruel demais, olhando para aqueles olhos castanhos perdidos.

— Granger — ele disse, optando pela familiaridade distante que usara por sete anos. — Seu sobrenome é Granger.

— Granger — ela repetiu, franzindo a testa numa concentração dolorosa. — Por que estou aqui, Draco? Onde estão meus pais? Meus amigos?

O peso do segredo pressionou o peito de Draco. Seus amigos morreram tentando salvar o mundo, Granger. E morreram na minha frente. A imagem de Harry imóvel nos escombros e de Ron... Draco fechou os olhos por um segundo, expulsando a memória.

— Houve uma guerra — Draco disse, escolhendo a verdade parcial. — Lá fora. As coisas ficaram... caóticas. Eu trouxe você para cá porque era o lugar mais seguro. As estradas estão fechadas. Ninguém sabe que estamos aqui.

Hermione olhou para o braço esquerdo. A manga larga do pijama de seda escorregou, revelando a pele pálida e a cicatriz que nunca desapareceria.

SANGUE RUIM.

A letra irregular de Bellatrix ainda estava lá, vermelha e inflamada. Hermione encarou a marca, a respiração acelerando.

— O que é isso? — ela sussurrou, horrorizada, traçando as letras com o dedo trêmulo. — Dói. Parece... ódio. Alguém fez isso em mim?

Draco sentiu uma onda de náusea e culpa. Ele se lembrava do dia. Ele se lembrava de estar parado na sala de estar, ouvindo os gritos dela e não fazendo nada.

Ele não podia mudar o passado, mas podia mudar o agora.

Draco estendeu a mão e, com uma delicadeza hesitante, puxou a manga do pijama para baixo, cobrindo a cicatriz. Cobrindo a vergonha de sua família.

— Foi um acidente antigo — ele mentiu suavemente. — Já acabou. Não vai machucar você de novo. Não enquanto eu estiver aqui.

Hermione olhou para ele, procurando a mentira, mas encontrou apenas um cansaço profundo nos olhos cinzentos dele.

— Você parece triste — ela observou, com aquela percepção afiada que nem a amnésia conseguira apagar.

Draco deu um sorriso triste, sem humor.

— É um tempo triste, Granger. Para todos nós.

Ela tentou se sentar mais ereta, mas fez uma careta de dor.

— Minha cabeça... parece vazia. É aterrorizante.

— Eu sei — Draco disse. — Mas talvez, por enquanto, seja melhor assim. O esquecimento pode ser um tipo de descanso. Você precisava descansar.

— Você vai ficar? — ela perguntou subitamente, quando ele fez menção de se afastar. Havia um pânico infantil na voz dela. — Não me deixe sozinha no escuro.

Draco parou. Ele olhou para a garota que fora sua inimiga, sua rival, e que agora era a única pessoa viva que compartilhava o mesmo teto que ele.

— Eu não vou longe — ele prometeu. — Estou no quarto ao lado. A porta vai ficar destrancada. Você não é uma prisioneira, Granger.

— Obrigada — ela sussurrou, fechando os olhos, vencida pelo cansaço.

Draco a observou por mais um momento, certificando-se de que a respiração dela estava regular. Ele a cobriu melhor com o edredom, um gesto que jamais imaginaria fazer anos atrás.

Ele saiu do quarto silenciosamente, deixando a porta entreaberta, apenas uma fresta, para que a luz do corredor pudesse entrar e afastar os pesadelos dela.

No corredor, Draco encostou as costas na parede e escorregou até o chão, escondendo o rosto nas mãos. O silêncio da casa voltou a envolvê-lo, mas agora, pelo menos, havia o som de outra respiração no quarto ao lado. Ele não estava totalmente sozinho. E, por enquanto, isso teria que bastar.

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A manhã seguinte trouxe uma luz pálida que mal conseguia penetrar as cortinas pesadas da Mansão Malfoy. Draco estava sentado na cabeceira da longa mesa de jantar, um móvel de mogno escuro projetado para acomodar trinta convidados, mas que agora servia apenas a um.

O lugar à sua direita, onde Narcissa costumava se sentar e descascar laranjas com uma elegância silenciosa, estava vazio. O lugar à esquerda, onde Lucius presidia com sua postura rígida e autoritária, estava empoeirado.

Eles se foram. Draco olhou para o prato de torradas intocado à sua frente e a realidade bateu nele novamente, como fazia todas as manhãs. Não houve funeral. Não houve enterro no mausoléu da família nos jardins. A Batalha de Hogwarts tinha sido um moedor de carne, e seus pais, pegos no fogo cruzado entre a fúria final de Voldemort e a resistência desesperada da Ordem, haviam caído juntos. Draco os encontrara nos escombros do Pátio de Entrada, de mãos dadas na morte, algo que raramente faziam em vida.

Ele era o último. A linhagem Malfoy, que se orgulhava de séculos de pureza e poder, agora se resumia a um rapaz de dezoito anos bebendo chá frio em uma casa grande demais, assombrada demais.

— Mestre Draco? — A voz guinchada de Tinky, a elfa doméstica mais velha, veio da porta da cozinha. Ela torcia as orelhas, nervosa. — A... a hóspede. Ela está acordada. Ela está andando pelo quarto. Tinky ouviu barulhos.

Draco suspirou e passou a mão pelo rosto. Hermione.

— Leve o café da manhã dela, Tinky. Nada pesado. Mingau e frutas. E chá. Muito chá.

— Sim, Mestre.

Draco se levantou. Ele não podia deixá-la sozinha. A curiosidade de Granger sempre fora sua característica mais definidora, e se havia algo que aquela casa continha em abundância, eram armadilhas mágicas para os curiosos.

Ele subiu as escadas de mármore, sentindo o peso da mansão sobre si. Ele não se sentia um senhor feudal; sentia-se um zelador de ruínas.

Quando destrancou a porta da Ala Oeste, esperava encontrá-la deitada ou chorando. Em vez disso, encontrou Hermione Granger em pé, encostada na estante de livros decorativa do quarto, passando os dedos pelas lombadas de couro falso.

Ela se virou quando ele entrou. A cor estava voltando lentamente ao rosto dela, embora as olheiras ainda fossem profundas. Ela vestia um robe de veludo azul-marinho que ele deixara para ela, amarrado firmemente na cintura.

— Bom dia — ela disse. A voz estava mais firme do que na noite anterior, mas havia uma cautela no olhar, como a de um animal encurralado avaliando o predador.

— Bom dia, Granger — Draco respondeu, mantendo a porta aberta. Ele tentou suavizar o tom. Não havia necessidade de ser ríspido; ela não era mais uma inimiga. Ela era apenas uma vítima. — Como você se sente?

— Como se minha cabeça estivesse cheia de algodão e vidro moído — ela respondeu honestamente. Ela apontou para os livros na estante. — Esses livros... são romances trouxas. Orgulho e Preconceito. Jane Eyre. Por que estão aqui?

Draco olhou para os títulos. Eram de sua mãe. Narcissa tinha seus segredos, e a literatura trouxa romântica era um deles, um escape silencioso da rigidez de ser uma Black e uma Malfoy.

— Minha mãe gostava deles — Draco disse, sentindo uma pontada de saudade. — Ela dizia que os trouxas entendiam a tragédia amorosa melhor do que nós, porque não podiam resolvê-la com uma poção.

Hermione piscou, surpresa com a resposta.

— Sua mãe... ela está aqui?

Draco desviou o olhar para a janela.

— Não. Ela morreu.

O silêncio que se seguiu não foi constrangedor. Foi respeitoso. Hermione, mesmo sem memória, parecia entender a linguagem da perda.

— Sinto muito — ela disse suavemente.

— Não sinta — Draco cortou, mas sem agressividade. — Vamos. Você não pode ficar trancada nesse quarto para sempre. Vai acabar ficando louca, e eu não tenho paciência para lidar com histeria.

— Para onde vamos? — ela perguntou, dando um passo hesitante.

Draco a observou. Ela parecia frágil, mas havia uma determinação na forma como ela erguia o queixo.

— Você gosta de ler, não gosta? Mesmo sem memória, suas mãos sabiam exatamente como segurar aquele livro agora há pouco.

Hermione olhou para as próprias mãos.

— Sim. Eu sinto... sinto que os livros são seguros. Que eles não mentem.

— Então venha — Draco fez um gesto para o corredor. — Vou te levar ao único lugar desta casa que não parece um mausoléu.

A caminhada até a biblioteca foi lenta. Draco ajustou seu passo ao dela, notando como ela se apoiava nas paredes quando a tontura batia. A Mansão estava silenciosa. A maioria dos quadros estava coberta com lençóis brancos — Draco não suportava os ancestrais perguntando onde estavam seus pais ou por que havia uma sangue-ruim respirando o ar deles.

— É uma casa muito grande para uma pessoa só — Hermione comentou, sua voz ecoando no corredor de pedra.

— É — Draco concordou. — Costumava ser cheia. Festas, jantares políticos... Comensais.

Ele soltou a última palavra antes de pensar. Hermione parou.

— Comensais? O que é isso? Parece... ominoso.

Draco parou também e olhou para ela. Como explicar o fascismo mágico para alguém que foi vítima dele, mas não lembra?

— Eram pessoas más, Granger. Pessoas que fizeram escolhas erradas. E que pagaram por elas.

Ele abriu as portas duplas de carvalho negro no final do corredor leste.

— Chegamos.

A Biblioteca dos Malfoy era, sem dúvida, a joia da propriedade. Era um salão de dois andares, com estantes que iam do chão ao teto abobadado, acessíveis por escadas de madeira móveis e varandas de ferro forjado. O cheiro era inebriante: pergaminho envelhecido, couro, cera de vela e poeira mágica. A luz entrava por janelas altas e estreitas, criando feixes onde partículas de pó dançavam.

Draco ouviu a respiração de Hermione falhar.

Ela não disse nada. Ela simplesmente entrou, os olhos arregalados, a boca levemente entreaberta. A dor física, o medo, a confusão... tudo pareceu evaporar por um segundo, substituído por uma reverência pura.

Ela caminhou até a mesa central de leitura, passando a mão pelo tampo de madeira polida. Depois, foi até a estante mais próxima. Seus dedos roçaram as lombadas com uma delicadeza que Draco achou perturbadora. Era como ver alguém reencontrar um amante perdido.

— Isso é... magnífico — ela sussurrou. — Eu sinto que já estive em lugares assim.

— Você vivia na biblioteca da escola — Draco disse, encostando-se no batente da porta, cruzando os braços. — Era impossível te tirar de lá. Às vezes eu achava que você dormia nas prateleiras.

Hermione olhou para ele, um leve sorriso surgindo no canto dos lábios.

— Eu era estudiosa?

— Você era insuportável — Draco corrigiu, mas havia um tom de humor cansado na voz, não de insulto. — A melhor da turma. Sabia todas as respostas antes mesmo dos professores perguntarem. Era irritante.

Hermione riu. Foi um som curto, enferrujado, mas genuíno.

— Parece solitário. Ser a que sabe tudo.

Draco a observou. Sim, era solitário, ele pensou. Assim como ser o garoto que tinha que ser melhor que todos para agradar ao pai.

— Talvez — ele concedeu. — Mas útil. Você salvou a pele dos seus amigos idiotas mais vezes do que eu posso contar com o que aprendeu nos livros.

Hermione pegou um volume pesado encadernado em couro azul. Ela o abriu.

— História das Runas Antigas e seus Efeitos na Transfiguração Moderna — ela leu o título fluentemente, e depois começou a passar os olhos pelo texto em rúnico. — Ehwaz representa movimento e mudança... mas invertida pode significar bloqueio ou estagnação...

Ela parou e olhou para Draco, assustada.

— Eu sei ler isso. Eu não sei meu nome do meio, mas sei ler runas nórdicas do século dez. Como isso é possível?

Draco desencostou da porta e se aproximou. A vulnerabilidade dela o desarmava. Ele estava acostumado com a Granger guerreira, a Granger desafiadora. Essa Granger confusa, que olhava para ele em busca de respostas, despertava nele um instinto protetor que ele não sabia que possuía.

— A mente é uma coisa curiosa, Granger. A maldição... o trauma... afetou sua memória episódica. Quem você é, quem você amava, o que você viveu. Mas sua memória semântica, o conhecimento que você adquiriu... isso ficou. Faz parte da estrutura do seu cérebro agora. Você não lembra de ter estudado, mas sabe o conteúdo.

— É como ter um mapa de um lugar onde nunca estive — ela murmurou, fechando o livro. — É assustador. E fascinante.

— É quem você é — Draco disse suavemente. — Você é a bruxa mais brilhante da sua idade. Todo mundo dizia isso. Até os que te odiavam.

Hermione o encarou. Os olhos castanhos buscavam algo no rosto pálido dele.

— Você me odiava?

A pergunta pairou no ar, pesada e inevitável. Draco poderia mentir. Poderia dizer que eram amigos. Seria mais fácil. Mas ele olhou para as estantes ao redor, para o legado de sua família que pregava a superioridade de sangue, e sentiu o cansaço de uma vida inteira de mentiras.

— Eu fui ensinado a te odiar — ele respondeu, escolhendo as palavras com cuidado. — Fui ensinado que pessoas como você, nascidas de trouxas, não pertenciam ao nosso mundo. Que eram inferiores.

Hermione recuou um passo, abraçando o livro contra o peito como um escudo.

— E você acreditava nisso?

Draco olhou para as próprias mãos. Mãos que tinham a Marca Negra no braço esquerdo, escondida sob a manga. Mãos que tinham falhado em matar Dumbledore. Mãos que tinham puxado Hermione dos escombros enquanto o mundo acabava.

— Acreditei por muito tempo — ele admitiu. — Até ver que o sangue que corria nas minhas veias era tão vermelho quanto o seu quando sangrávamos. E até ver que toda a minha "pureza" não salvou minha família da ruína, enquanto sua "inferioridade" não te impediu de ser mais forte do que todos nós.

Hermione ficou em silêncio, processando. Ela não parecia com raiva. Parecia triste.

— Então por que me salvou? Se fomos inimigos?

— Porque não sobrou mais ninguém, Granger — Draco disse, a voz falhando levemente. — Porque quando Harry Potter caiu e o Weasley morreu... você era a única coisa do passado que ainda valia a pena manter viva. Talvez eu só quisesse salvar um pedaço da minha própria infância. Ou talvez eu só não quisesse ficar sozinho nesta casa com os fantasmas.

A menção dos nomes fez Hermione estremecer.

— Harry Potter. Weasley.

Ela largou o livro de runas na mesa e começou a andar pela biblioteca, agitada. A calmaria dos livros tinha sido quebrada pela realidade.

— Esses nomes... eles ecoam na minha cabeça. Como se eu devesse gritar por eles.

Ela parou diante de uma mesa lateral, onde uma pilha de jornais velhos estava acumulada. O Profeta Diário. Eram edições das últimas semanas, cobrindo o fim da guerra, as listas de mortos, o caos no Ministério.

— Não mexa nisso — Draco avisou, dando um passo à frente. Ele tinha esquecido de limpar aquela mesa. — Granger, não...

Mas era tarde demais.

A curiosidade dela foi mais rápida. Hermione puxou o jornal do topo da pilha.

A manchete gritava em letras garrafais negras:

O FIM DE UMA ERA: O ELEITO CAI.

Abaixo da manchete, havia uma foto mágica, em loop contínuo. Mostrava Harry Potter, com o rosto sujo de fuligem e sangue, duelando. E ao fundo, correndo em direção a ele, estava um rapaz ruivo. Ron Weasley.

Hermione olhou para a foto.

O mundo parou.

Draco viu o momento exato em que a barreira na mente dela trincou. Não quebrou completamente — a tortura de Bellatrix tinha sido cirúrgica em sua destruição —, mas a imagem visual acionou um gatilho emocional violento.

Os olhos de Hermione se arregalaram. As pupilas dilataram. Ela soltou um som — não um grito, mas um ganido agudo, como se tivesse sido fisicamente golpeada no estômago.

— O cabelo vermelho... — ela sussurrou, a voz trêmula. — Ron. O nome é Ron.

Ela levou as mãos à cabeça, apertando as têmporas. O jornal caiu no chão.

— Hermione! — Ela gritou uma voz que não era a dela. Ela estava ouvindo a memória. — Hermione, corre!

Ela começou a hiperventilar. O ar entrava e saía em golfadas curtas e sibilantes. Ela recuou, derrubando uma pilha de pergaminhos, e caiu de joelhos, encolhendo-se contra a perna da mesa.

— Pare! — ela gritou para o vazio. — Pare de gritar! Ron! Onde você está? Harry! Está tudo escuro!

Draco correu até ela. Ele não pensou na etiqueta, no sangue ou no passado. Ele viu apenas a garota que estava se quebrando de novo na frente dele.

Ele se ajoelhou e tentou segurar os ombros dela, mas ela se debatia, perdida na alucinação da memória.

— Me solta! — ela gritou, empurrando-o. Magia acidental explodiu dela — uma onda de choque pura que jogou Draco para trás. Ele bateu as costas contra uma estante, livros chovendo sobre ele, mas se levantou imediatamente.

— Granger! Olhe para mim! — Draco ordenou, usando sua voz de comando, mas infundindo-a com desespero. Ele se aproximou novamente, ignorando as faíscas de magia que estalavam ao redor dela.

Ele segurou o rosto dela entre as mãos, forçando-a a olhar para ele.

— Hermione! Você não está lá! Você está na biblioteca! Olhe para os livros!

Ela piscava, os olhos fora de foco, cheios de lágrimas.

— Eles estão mortos... eu sinto... eu sinto o buraco no peito. Ron... ele estava rindo e depois... depois só havia luz verde e fogo.

Ela desabou contra o peito de Draco, soluçando. Não era um choro de tristeza; era um choro de horror absoluto. O corpo dela tremia tanto que os dentes batiam.

Draco a envolveu com os braços. Foi um gesto estranho, desajeitado. Ele nunca tinha abraçado ninguém assim, exceto sua mãe. Mas ele a segurou firme, uma âncora no meio da tempestade psíquica dela. Ele sentiu as lágrimas quentes dela molharem sua camisa preta.

— Eu sei — Draco sussurrou contra o cabelo dela, balançando-a levemente. — Eu sei que dói. Respire. Só respire.

— Por que eu sobrevivi? — ela soluçou, a voz abafada contra o tecido da roupa dele. — Se eles se foram... por que eu estou aqui?

Draco olhou para a biblioteca vazia, para os jornais espalhados no chão com as fotos dos heróis caídos. Ele pensou em seus próprios pais. Pensou em como o mundo estava silencioso e quebrado.

— Eu me pergunto a mesma coisa todos os dias, Granger — ele respondeu, a voz rouca. — Acho que somos o castigo um do outro. Ou a salvação. Ainda não descobri.

Eles ficaram ali, no chão da biblioteca, cercados por mil anos de conhecimento que não podiam explicar por que a guerra poupava alguns e levava outros. Draco Malfoy, o último de sua linhagem, segurando Hermione Granger, a garota sem memória, enquanto a luz pálida da tarde começava a desaparecer, deixando-os na penumbra de um luto compartilhado.