A Biblioteca Assombrada
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A Biblioteca Assombrada aparentou estar intacta apesar das enormes mudanças e decisões impensadas que continuavam sendo tomadas como se o senso de proteção estivesse se perdendo. O trabalho dos investigadores não era preguiçoso, jamais sequer chegou perto de ser a real razão do perigo permanecer inalterável. Eram cautelosos e, portanto, evitavam majoritariamente adentrar em locais onde o vazio habitava e aguardava ansiosamente por quem chegava sem convite.
No início as pessoas se perdiam por nem terem ideia do que poderia acontecer, pouco depois começaram a suspeitar. Com o tempo elas sabiam com muita convicção que não deveriam continuar cometendo o mesmo erro. Isso até que perdessem alguém e buscassem por respostas mais concretas ou tentassem recuperar o que era importante, resultando em mais finais misteriosos deixando um único aprendizado. Um dia todos aprenderam. Por mais de cem anos os moradores deixaram de ir buscar por fantasmas, aceitando a morte e seus segredos com compreensão, e assim não perderam mais ninguém.
Para aquele jovem rapaz atravessando as portas era como se tivesse passado a existir na época errada, pois decidiu finalmente iniciar sua busca por fantasmas com o incentivo de Adelle. De toda forma sempre seria o momento errado para se envolver com segredos obscuros. Podemos considerar ser o pior início de noite para decidir entrar na Biblioteca mesmo que tivesse a chave, pois aquele lugar abandonado havia retornado à vida com alterações ainda desconhecidas.
Vance não despertou com a chegada de alguém como o Bibliotecário anterior teria acordado. Somente deu-se conta daquela presença quando mãos o seguraram pelos ombros, o fazendo deixar a posição em que estava debruçado sobre a mesa. A pessoa tentava o despertar e a voz diferente, mesmo soando distante, foi como um alerta. O rapaz sentiu que algo ruim aconteceria como se ele mesmo estivesse sendo perseguido novamente. Piscou algumas vezes e encontrou um rosto pálido que o observava com atenção e receio.
— Você está bem? Se chama Percy?
O rapaz abaixou as sobrancelhas, sem saber o que dizer por ter sido confundido com o amigo. Não achava que eram parecidos em nada. Mas pouco tempo teve de questionar quem era aquele o acordando de seu descanso. Mal teve a oportunidade de pensar se realmente seria capaz de impedir sua saída com vida da Biblioteca, pois não tinha avaliado suas opções de como eliminaria qualquer um que entrasse naquele lugar. Uma questão urgente o deixou paralisado: o instinto incontrolável do Bibliotecário anterior de obter conhecimento quando tinha a oportunidade. Vance engoliu em seco, aguardando sentir qualquer coisa diferente, e ficou em silêncio. O outro parecia confuso, olhou para os lados com inquietação e tirou o revólver do coldre.
— Eu vim ajudar, não precisa ter medo agora — explicou ainda inclinado sobre Vance, a voz oscilando entre apreensão e o mínimo de confiança que procurava passar. Desferiu leves tapas na bochecha para o despertar realmente. — Talvez esteja em choque...
O desconhecido permaneceu segurando o rosto do rapaz que encontrou, após os leves tapas, para avaliar a reação ainda indiferente e assustada. Essa decisão logo mostrou sua consequência. Vance sentiu aquele toque em seu rosto sumir suavemente, mas em momento nenhum aquela mão tinha afastado do seu rosto. Assistiu, surpreso, o desconhecido se desintegrar transformando-se em poeira escura e brilhante como incontáveis pedrinhas preciosas. A arma na mão do desconhecido se perdeu, caindo no piso gelado, enquanto o corpo se tornava pó e desaparecia. Não restou nada para trás, nenhum indício de sangue ou da poeira. Exatamente como o outro Bibliotecário costumava fazer, não sobrara resquícios do que acontecera.
Vance respirou pesado, assustado com a primeira morte causada sem mover um único dedo. Sem gritos, mas ainda assim tinha encontrado um olhar suplicante nos olhos daquele desconhecido.
Como uma onda aquela correnteza inexplicável em sua mente o arrastou para sua mais nova aquisição. De repente sabia como usar uma arma, os diferentes tipos e como todos funcionavam. Sabia agora muito bem sobre luta corpo a corpo e ainda poderia unir a outros conhecimentos guardados. Viajou por alguns momentos naquele saber, procurando se distrair um pouco para que acalmasse as batidas do coração. Nenhum conhecimento seria mais importante que aquele sentimento pesado em seu peito.
Estava concretizado mais rápido do que havia planejado e o preço estava em torna-se alguém pior que detestável. Achou curioso que agora, quando queria conscientemente proteger mais pessoas além de si mesmo, a resposta fosse justamente a mesma. Afundar na escuridão. Se no momento que decidiu pareceu ser o certo a se fazer, ao acontecer tão rápido e inesperadamente mostrava o quanto doeria novamente. Como antes ele se agarrou naquele pensamento de que estava fazendo o melhor. Antes fazia o melhor para ele, atualmente faria para os outros e sacrifícios continuavam sendo precisos.
Entretanto o que acabara de ter feito deixava um gosto amargo em sua boca. Vance tinha limites, é claro, e sempre se manteve na linha em que o sentimento era o que conseguia ferir em doses controladas. Aquilo que acabara de presenciar seria seu ponto crítico se não tivesse aquele ar menos caótico. Para alguém que vira tanto com pouca idade e aceitara tornar-se o que era, não seria complicado deixar-se afundar um pouco mais. Estava apenas continuando e virando mais uma página de sua história.
O peso de tirar uma vida permanecia sutil em sua consciência, sendo a primeira vez que fazia, mas fora uma decisão tomada horas antes. Assim como aquele de quem tomara o lugar, estaria apto a continuar colecionando fantasmas. As semelhanças inevitavelmente resultavam em seu cerrar de punhos, pois mesmo a única diferença se tornava inválida diante a sua frieza.
Vance tinha um coração.
Em meio os sentimentos tomando espaço em seus pensamentos desordenados, ele fez a única coisa que poderia naquele momento.
— Jacin, Odalis... podem vir aqui?
Ambos os fantasmas seguiram atraídos pela necessidade de estar onde ele quisesse e de pontos diferentes eles apareceram. Odalis atravessou o teto e Jacin ainda preferia usar as escadas e encontraram-se perto da lareira. Se entreolharam quando perceberam a palidez incomum e o olhar quase perdido de Vance, seria estranho que estivesse surpreso com algo em sua própria casa.
— O que está acontecendo? — questionou Odalis, cruzando os braços ao chegar mais perto. — Aqueles três estão agitados pela restrição e não param de falar nisso.
— Contou a eles sobre alertar Adelle para que deixe a cidade o quanto antes? — perguntou Jacin, igualmente curioso.
Vance se inclinou e pegou o revólver no chão, observando aquilo sem ter qualquer dúvida sobre seu funcionamento. De fato, o Bibliotecário simplesmente roubava todo e qualquer conhecimento. Entretanto seus pensamentos não permaneceram nesse detalhe já esperado, havia uma pergunta simples em sua cabeça. Se Odalis havia trancado todas as portas e janelas, era uma preocupação sobre como o desconhecido havia entrado na biblioteca. Os olhos dos fantasmas recaíram sobre a arma que simplesmente não deveria estar ali.
— Uma pessoa entrou. Era do departamento de investigação e creio que fosse um novato, pode ser que tivesse a minha idade ou pouco mais — contou o rapaz, deixando a nova aquisição sobre a mesa. — Eu não senti vontade nenhuma de arrancar informações dele e nem fiz nada contra.
Odalis olhou ao redor, tomando uma expressão confusa.
— Ele se escondeu?
— Não. Se desintegrou quando encostou em mim... Para ser mais preciso, quando tocou diretamente na minha pele — explicou Vance. — Ele me pegou pelos ombros antes, mas foi preciso tocar no meu rosto para que acontecesse sem que eu tivesse controle.
Jacin abriu a boca para falar, entretanto, som algum saiu por entre seus lábios. Sentou-se à mesa também, rígido, mas aparentemente pensativo.
— O senhor não acordou sozinho quando ele entrou? — perguntou o fantasma.
— Não.
— O outro Bibliotecário era imediatamente atraído para a vítima. Pouco descansava quando não tinha ninguém aqui e ele já havia escrito tudo o que podia, todavia, existiam momentos em que ele acabava sem se mover. Ficava parado como uma estátua e o empurrar das portas o fazia despertar no mesmo segundo — Odalis puxou a terceira cadeira, ajeitando a saia do vestido ao se sentar. — Acho que quando ele não tinha o que escrever, e precisava de mais conhecimento, parava seu trabalho e aguardava. Duvido que estivesse dormindo de verdade como um humano faria, mas ficava imóvel e... desligado do mundo. Ele vivia unicamente pelo que fazia aqui.
O rapaz cruzou os braços sobre a mesa, avaliando sua situação atual. Repassou mentalmente tudo o que sabia sobre si mesmo e o Bibliotecário anterior, chegando a uma possível conclusão.
— Ele despertava quando alguém entrava — repetiu Vance, recebendo acenos positivos como resposta. — Pode ser uma interpretação incorreta, porém a mais credível. Considerando que não me pareço com ele e não preciso arrancar nada de ninguém, talvez eu tenha me sobreposto aos instintos dele e distorcido o que conhecem.
Odalis gargalhou. Ela ainda mantinha sua aparência da maneira que aparecia para os humanos, totalmente azul, mas seus olhos retornaram ao castanho claro com um brilho intenso de sarcasmo. Opondo-se à atitude debochada, linhas de expressão se formaram na testa de Jacin.
— Você sussurrou que sabia tudo. Me perdoe se estiver errado, mas creio que não literalmente — supôs o fantasma e Vance assentiu, o encorajando a continuar. — Se era alguém com traços prepotentes e realmente tivesse um conhecimento maior do que qualquer outro atacado por ele...
— Não brinquem comigo — interrompeu Odalis, batendo a mão fechada na mesa. — O Bibliotecário foi morto por causa de um detalhe tão... abstrato?
A mulher suspirou, deixando transparecer sua indignação. Vance sorriu fraco, notou que compartilhavam de alguns detalhes. Odalis provavelmente não acreditava naquilo que não provassem a ela com argumentos sólidos o suficiente. Por essa razão ele preferiu não concluir todo seu pensamento, que poderia unir-se ao de Jacin, e dizer que provavelmente ele tinha uma necessidade simples desde que chegara ali e ninguém percebera, nem ele mesmo até o momento, que vinha sendo saciada pacificamente todos os dias. Era como se houvesse encontrado um lugar perfeito para seus desejos. Estava rodeado de conhecimento, com milhares de livros a seu dispor, e possuía tempo para ler e escrever. Contudo não admitiria em voz alta, seria como dizer que havia sido feito para aquele lugar.
O lugar do Bibliotecário, um monstro.
Ele respirou fundo antes de continuar o diálogo.
— É uma boa linha de raciocínio, uma vez que não senti vontade nenhuma de obter o que alguém poderia oferecer para virar conteúdo. Considere a opinião de Jacin apenas uma hipótese — tranquilizou o rapaz com intuito de evitar discussões prolongadas. — O motivo dele ter desaparecido não importa muito, o que podemos nos preocupar são como as consequências afetam a mim ou a vocês. Aparentemente não são graves, então não acredito que nada deve mudar.
— As coisas mudaram desde que chegou — revidou Odalis. — O que irá fazer agora?
— Meus amigos não contaram? — ele questionou de volta para a mulher. — Pretendo ser o Bibliotecário.
Surpreendentemente, a fantasma finalmente se revelou. Ele contemplou seu cabelo castanho escuro naquele penteado elaborado, com um coque bem feito e uma trança como tiara. Atentou-se por breves instantes nos lábios vermelhos e sua palidez era disfarçada pelo rosa suave nas maçãs do rosto. O vestido que usava era dourado e com detalhes de renda, a saia alta era chamativa. Odalis parecia saída de um castelo antigo, ele procurou na memória alguma pista sobre. Tudo o que o Bibliotecário sabia sobre economia provinha dela, uma nobre. Odalis sorriu simpaticamente e o deixou sem resposta com a brusca mudança de comportamento. Ainda havia magnificência em sua postura, mas certamente era a primeira vez que ele não sentia aquela indiferença ou insatisfação que a mesma o direcionava desde sua chegada.
— Conte com a minha ajuda, então!
Vance decidiu não questionar o motivo por trás do deleite em assombrar. Sorriu de volta, levemente nervoso, e agradeceu pelo auxílio. Desejava que os amigos tivessem a mesma reação, embora soubesse que fosse algo difícil de esperar ou pedir. A forma como agia era diferente, menos dolorosa e não envolvia ossos ou sangue. Era tranquilo e devastador: silencioso como o assistir de um pôr do sol em Volery, que logo daria lugar ao desconhecido da noite.
A notícia do que ocorrera chegou a todos os fantasmas e nenhum se mostrou animado como Odalis. O ar tenso e palpável que se formava no andar acima era perceptível a Vance, pois ele escutava algumas vozes alteradas. Beatrice estava preocupada que ser o Bibliotecário o prejudicasse algum dia. Percy e Oliver não gostavam de como aquele lugar voltaria a ser como antes, um palco para as piores cenas que poderiam ser assistidas através de percepções que os deixaram atordoados e inseguros um dia.
As horas passaram.
A neve se amontoava pelas ruas e quando o céu escureceu ainda mais, Jacin deixou seus aposentos para cumprir sua tarefa de alertar Adelle. Nesse momento o rapaz escutou uma exigência que, para alguém que ainda se equilibrava entre continuar sendo amigo e um amigo no comando, o fez ceder rapidamente pela falta de direção.
— Vance Mather, é melhor subir aqui ou nos deixar descer agora! — falou Beatrice o mais alto que conseguiu.
Ele deixou um suspiro escapar ao passo que permitiu a passagem deles. Percy caiu como uma folha de papel, dançando pelo ar, o que indicava estar tentando atravessar o piso e fora pego de surpresa com a permissão. Atravessou uma estante de livros, ligeiramente desorientado, e desajeitadamente caminhou como se nada tivesse acontecido.
— Bem feito — comentou Oliver e suavemente flutuava perto do amigo. — Eu avisei que deveria parar quieto.
Beatrice ignorou os dois que trocaram algumas palavras ofensivas, mas sem o teor carregado que poderiam adquirir se estivessem realmente brigando. A moça sobrevoou os livros e encontrou Vance na extremidade esquerda da Biblioteca, parado diante a lareira.
— Conversei o suficiente hoje — ele avisou diante da proximidade que os amigos tomaram. — E sabem o que aconteceu.
— O que aconteceu não é mais importante que o como aconteceu. Você tem mais poderes que eu imaginei! — Falava Percy de forma admirada. — Nem parece justo.
Escutou um “ai” quando Oliver desferiu uma cotovelada em Percy. Aquela frase poderia causar um efeito melancólico no Bibliotecário. Aquilo não era um poder, se assemelhava a um fardo do qual Vance ainda não sabia como se desfazer. Porém ele ainda tinha sua parcela de culpa a, antes de qualquer coisa, ter decidido ser O Bibliotecário.
Os olhares em suas costas poderiam ser comparados às chamas que observava, inquisitivos. Permanecia em sua postura correta, agora mais tensa com a presença dos amigos que não concordavam com sua decisão. Ele possuía seus motivos claros para ser o Bibliotecário por algum tempo. Faria o necessário a longo prazo e evitaria muito mais mortes caso comparasse com o número que talvez viesse a ter em sua responsabilidade se deixasse aquela história se perder.
Antes que qualquer palavra pudesse ser trocada, fosse para julgamento ou algum alento, seu coração disparou quando as portas foram empurradas lentamente. O vento frio entrou junto com ela, protegida pelo sobretudo cinza, e seu cabelo se encontrava úmido dos flocos de neve. Ele virou-se para trás, encontrando os amigos sustentando expressões apreensivas com sua súbita expressão preocupada no mais completo nada após alguns segundos de silêncio.
— Ela veio.
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