Os contos que se escutam depois do jantar, em qualquer casa da cidade, possuem palavras que soam poéticas. Compartilham as histórias de princesas que encontraram o amor de suas vidas, de reis e rainhas que protegeram seus reinos ou canções misteriosas ouvidas à beira mar. O que nunca se pode esperar desses contos é um final feliz.

Faz parte desses habitantes nunca incentivar fantasias que terminam com alegria ou permitir que os jovens acabem imersos em sonhos distantes. Acredite ou não, apesar de toda a cautela que criam e toda a atmosfera da cidade, ainda é um bom lugar para se crescer. Também criam seus contos de fadas e são diferentes dos quais você provavelmente escutou antes de dormir. Nenhuma fada surgindo para conceder desejos do coração e nenhum príncipe em um cavalo branco que te afaste de situações indesejadas. São apegados a realidade que vivem mesmo quando pretendem criar algo bonito.

As histórias reais que a cidade guarda como um segredo precioso são as que importam e permitem seu fortalecimento. Contam, por exemplo, sobre um homem que deixou seu sustento garantido para conseguir vingança aos fantasmas que encontrou em seu caminho. E que por essa razão não devem criar inimigos durante suas vidas, uma vez que o fechar de olhos não significa o fim absoluto de um problema antigo. Falam sobre dois amigos que ingnoraram avisos e se aventuram próximos ao vazio, sendo então levados e testados por um perigo tão enganoso quanto uma rosa delicada. Também contam sobre mim, mas acredito que a essa altura sabe muito bem o que aprendem dessa situação. Essas histórias são ditas à luz do dia, sem o risco de perderem-nas no vazio, e forjam os corações de ferro. Por isso os que nascem nessa cidade, e a deixam em algum momento da vida, são considerados fortes em todo lugar que visitam. Jamais comparados aos cervos fugindo de um leão.

Existe algo que diferencia os habitantes de Volery e os viajantes desavisados. Os que crescem carregando a indolência são prudentes e comedidos. Podem adquirir um tom de frieza, quem sabe se demonstrem nada misericordiosos. Aqueles que recebem a capacidade de indolência em algum momento inesperado da vida se tornam alertas e desconfiados, podendo se tornar mais frágeis do que antes. O que possuem em comum são as perdas e as memórias que preferiam não ter obtido. Por isso compartilham das mesmas palavras e demonstrações de consolo. Afinal, após anos e anos de mortes, dúvidas e segredos, os moradores precisavam de palavras reconfortantes e de algo que trouxesse um pouco de certeza e tranquilidade. Dizem que as estrelas no céu representam aqueles que perdemos e, para alguns, se torna especialmente doloroso quando um agrupamento de estrelas brilha em sua direção.

Aqueles cinco jovens se encontraram reunidos novamente na Biblioteca, um ainda precisava receber sua bagagem que carregaria por anos. Oliver e Percy se agitaram, espiando do alto das estantes para encontrarem a amiga que voltara para um lugar hostil. As lamparinas acessas produziam luz suficiente para que Adelle caminhasse segura em seus primeiros momentos. O detalhe a indicava que havia um culpado dentro da Biblioteca mantendo as luzes acessas.

— O que vamos fazer? — quis saber Beatrice, dando um passo à frente em direação a Vance. — Ela também precisa de um ponto final e imagino que não será o mesmo do homem que veio.

Vance sentia a presença da moça, acompanhava seus passos cuidadosos que seguiram para um corredor de livros. Não poderia dizer com toda a certeza onde ela se encontrava, de tão atordoado que ficara, mas sabia a direção correta. Havia o alívio por não acabar envolvido por uma força maior que o levasse a atacar e isso foi suficiente como adeus.

— Se despeça de Adelle, ela vai perceber que é melhor sair daqui — ele sugeriu com um sorriso infeliz. — A levem até a saída.

Beatrice concordou silenciosamente e sua imagem foi desaparecendo, tornando-se invisível aos olhos de qualquer pessoa. Para o Bibliotecário sua imagem apenas perdeu intensidade e ainda era capaz de vê-la. Os outros fizeram o mesmo e Vance desapareceu nas sombras da Biblioteca quando todas as lamparinas se apagaram no mesmo instante. Nesse momento o barulho das botas contra o piso cessou brevemente, anunciando a hesitação de Adelle, mas retornaram firmes e nada tímidos. Mesmo sozinha em um lugar que se mostrava assustador, a moça não se desprendeu de seu objetivo que encontrava o obstáculo do medo.

A Biblioteca Assombrada encontrou seu estado mais tranquilo e inquietante, como o ponteiro dos segundos de um relógio. Aparentemente jamais existiria momento em que aquele lugar os proporcionaria real calmaria. A noite os trouxera mais uma importante lição sobre o local abandonada há tanto tempo: a biblioteca era lugar de tormento. A motivação que levava os fantasmas a escolherem qualquer outro lugar para morar se mostrou finalmente óbvio. O que acontecia entre aquelas paredes nunca seria feliz ou agradável de presenciar e a alteração de bibliotecário mostrou-se indiferente à força de atrair tragédias.

Quanto mais Adelle caminhava olhando para os lados, semicerrando os olhos, os fantasmas sentiam por ela. Por mais que decidissem se mostrar e arriscar condenar a cidade ao seu pior a longo prazo, jamais estariam acessíveis a amiga. Nenhum abraço ou segurar de mãos seria suficiente. Adelle sempre olharia a morte enquanto eles contemplariam a vida.

O Bibliotecário, subitamente agitado depois de algum tempo, caminhava pelo lugar sem almejar chegar a nenhum ponto específico. Nem mesmo cogitava alcançar a moça que vagava aflita, em busca daqueles que se perderam e viraram seus fantasmas em uma única noite. Uma noite entendiante que deveria ter se tornado divertida. Aquela deveria ser uma lembrança para garantir risadas, porém, fora arruinada. E Vance sabia que jamais se esqueceria.

Seus movimentos eram omitidos pela biblioteca inteira, proporcionando o que seria considerado vantagem caso estivesse em uma caça. Jamais a feriria e, com sorte, a neve caindo intensamente estaria impedindo mais pessoas de passearem. Quando Adelle saísse ninguém veria que existia uma pessoa que deixou aquele lugar sem correr risco algum. Apesar de não pretender fazer nada além de apagar as luzes, o rapaz sentiu um aperto no peito por deixá-la no escuro e temerosa com aquele sinal inexplicável.

— William? — ela chamou.

Vance soube que esse era o nome do fantasma que em algumas horas surgiria no andar acima. Adelle repetiu o nome mais algumas vezes, se apressando nos passos e seu desespero era quase palpável. Imaginou que ela estivesse lidando com a culpa de ter incentivado alguém a seguir diretamente para a morte. Seria mais uma perda que pesaria no travesseiro dela em incontáveis noites, juntamente a dúvida que continuamente traria indignação por ter entrado e saído da Biblioteca sem qualquer impedimento. Imaginando os vários cenários em que Adelle se encontraria no futuro, e nenhum deles sendo inteiramente feliz, o rapaz sentiu as lágrimas ameaçando a trilhar caminho abaixo pelo seu rosto.

Escutou seu nome sendo pronunciado por ela, como um teste direto para aquele quem decidiria se haveria uma chance de restabelecer a mínima das conexões. Aquele momento significava mais do que parecia, pois não estava deixando somente uma amiga para trás. Ela teria de dar explicações às famílias de todos os quatro amigos, explicações que seriam vazias e com um tom estranho para que não procurassem por eles. Vance não se despediria dos tios, assim como Oliver não veria mais seu irmão ou o pai. Retesou-se quando a vontade de responder se fez tão presente quanto a necessidade de manter mais pessoas além dela segura. Seu nome sempre soou muito bem na voz de Adelle, não responder parecia mais do que uma desfeita.

Soltou o ar pela boca e voltou a andar para tentar se manter ocupado com algo. Escutou Beatrice sendo chamada em seguida. Sabia que ela estava sentada em uma das estantes, com as pernas cruzadas e procurando se manter distante de Adelle por enquanto. Vance tinha consciência de que a espera exigia esforço, e deveria ser ainda mais doloroso ter de aguardar por algo que causava um sentimento ambíguo. Se despedir era necessário ao passo que causava a vontade de evitar o máximo que conseguisse aquele último momento. A demora era angustiante com a voz dela repetindo seus nomes na mesma ordem. Vance, Beatrice, Oliver e Percy. Nunca uma resposta, somente o vazio como um lembrete de que o retorno não passaria de um sonho.

Adelle continuou firme em sua procura, assim como Vance permaneceu distraído para com seu caminho entre os livros. Não saberia dizer quanto tempo tinha se passado, talvez por uma hora completa ela estivesse andando em círculos ao procurar incansavelmente por um deles enquanto ele mesmo fugia de suas emoções. E ciente de que se encontrava em um vazio dedicado a ferir quem o habitava ou visitava, soube que não possuía o controle de absolutamente nada quando a encontrou em sua caminhada sem destino. O Bibliotecário entendeu a coincidência como uma retribuição por ter decidido ignorar e não adquirir conscientemente para si o conhecimento de quem caminhava tão livremente por ali.

Vance enxergava com nitidez naquele ambiente sombrio, por isso observou com atenção cada detalhe da moça. As bochechas coradas pelo frio, os lábios trêmulos e as sobrancelhas finas se encontravam abaixadas, a testa franzida acentuando sua angústia... Ele se perguntou quantas vezes ela tinha repetido cada nome, pois parecia estar em seu limite naquele momento. As lágrimas de Adelle irromperam silenciosas enquanto encarava, imóvel no corredor, nada além de escuridão diante de seus olhos. Mas o Bibliotecário estava a poucos metros de distância, a sua frente, pedindo a si mesmo que jamais esquecesse o castanho escuro que aqueles olhos brilhantes, mas agora entristecidos, carregavam.

— Onde... — ela disse e se interrompeu ao perceber como a voz soou fraca. — Onde vocês estão?

Ele agradeceu internamente pelo autocontrole de Oliver que conteve o movimento de Percy, o qual se preparava para flutuar em direção a amiga. Revelar-se a ela trazia mais problemas que soluções em muitos aspectos. Vance sabia que tomara a escolha certa não pelo nível de dor e dificuldade que encontrava a sua frente, escolhas erradas também poderiam ter essa aparência, mas tinha certeza que era o melhor por não querer fazer. Nenhum deles queria e por isso concordavam relutantes.

Adelle caiu de joelhos, cansada e com medo, e o rapaz sabia que sua presença estava causando uma sensação incômoda ao diminuir a temperatura do ambiente. Ela abraçou o próprio corpo, esfregando os braços como se o sobretudo tivesse deixado de ser suficiente para a proteger do frio que o Bibliotecário transmitia. E mesmo assim, pouco tempo depois, ela apenas respirou fundo e retirou a peça de roupa. Por baixo usava um vestido verde escuro e de mangas longas, de pano apropriado para a estação, mas não seria suficiente para a manter aquecida em seu retorno para casa. Dobrou o sobretudo e o deixou no chão.

— Não seja tola, sentirá frio — resmungou Vance.

O silêncio permaneceu inalterado, porém, ela sorriu como se imaginasse que ele diria aquelas palavras. Seria tudo que teriam pelos próximos anos de suas existências, memórias e imaginações um do outro. Ambos sabiam que era melhor enfrentar um pouco daquele frio temporário do que carregar uma lembrança insistente do que a assombraria em sua mente. Ela estava deixando o sobretudo para trás mesmo sem querer isso, então os ombros de Vance relaxaram ao encontrar uma única motivação para acreditar que ela ficaria bem.

Beatrice surgiu por entre as estantes, percebendo que a amiga havia compreendido que não encontraria nada além da escuridão naquela biblioteca e que o lugar, para ela, seria sempre abandonado. Contudo Adelle não movia um músculo para levantar e se distanciar ou tentar encontrar o caminho de volta para as portas. Beatrice então se ajoelhou e a abraçou. O seu toque em momento nenhum foi realmente sentido ou retribuído. Assim ficaram por alguns instantes, Oliver e Percy observavam e nada disseram porquanto apenas aguardavam o fim definitivo de sua história com ela. A fantasma se afastou da amiga, finalmente com um olhar firme e menos entristecido.

— Hora de ir — sussurrou Beatrice.

Quando a moça respirou fundo, os fantasmas deixaram seus lugares de observação. Adelle se levantou, balançando a cabeça negativamente como se tentasse afastar a impressão de estar ouvindo coisas. Oliver foi o primeiro a chegar a mais perto e, gentilmente, ergueu seu queixo para que encontrasse a luz das janelas que indicaria a saída. Um toque como o vento, parecendo ser instinto, permitiu Adelle compreender e se guiar. Vance poderia acender as lamparinas novamente, mas gostaria que cada um fizesse algo como uma despedida e um aviso silencioso para que não retornasse. Se Percy abrisse as portas e as fechasse, seria a confirmação final de que ela não deveria voltar ou pedir que alguém o fizesse em seu lugar.

Sozinho no corredor, ele caminhou para a peça de roupa deixada para trás e a tomou nas mãos. Sentiu-se grato pela decisão dela em os procurar e tentar se desprender. Entretanto pensava nas diversas maneiras que poderia ter evitado toda aquela situação para que todos pudessem estar juntos naquela casa que tanto detestaram ter alugado. Poderiam estar reunidos com copos de chocolate quente, debaixo de cobertores unicamente para reclamar da situação em que se encontravam. Percy encontraria palavras muito divertidas para descrever a situação nos cartões postais que enviariam para as famílias. Vance respirou fundo e vestiu o sobretudo.

Ele escutou cada passo em direção a saída, cada avanço para a segurança que significava estar fora daquele lugar repleto de livros escritos a mão. Quando o ventou frio novamente invadiu a biblioteca, ele sentiu como se o lugar estremecesse de raiva com a saída de alguém. Os próximos que entrassem não sairiam com vida, era verdade, mas encontrou conforto em contrariar o vazio uma única vez. A presença de Adelle desapareceu, ao mesmo tempo que uma estrela cintilou no céu escuro.



Biblioteca, Volery, dezembro de 1825.
Do seu amigo, Vance Mather.

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