A Biblioteca Assombrada
4 Rainy Sounds
Vance não saberia dizer quando se afastou da cena que escutou precisamente, com as imagens se formando na mente contra sua vontade, e muito menos Oliver. Ambos podem ter fugido no momento que o som dos ossos sendo quebrados tornou-se mais que incômodo ou talvez tenham escapado ao perceberem a vida se esvaindo quando as palavras de Percy perderam força. A ação das pernas os levou para longe daquilo, embora estivessem compreendendo que não escapariam de verdade.
Os dois corriam no mais completo escuro, como crianças num corredor que procuram qualquer quarto com uma lamparina ainda acesa, e incontáveis foram as batidas contra as estantes pelo trajeto incerto que faziam somente para postergar a dor. Vance descobriu como era cruel a forma como seu corpo reagia com a adrenalina, fazendo com que perdesse parcialmente o controle e buscasse por sua sobrevivência ao mesmo tempo que seus pensamentos, como o ambiente, traziam a certeza de que não haveria fim diferente. Era ilógico tentar escapar naquelas condições, mas continuava.
Ele estava assustado o suficiente para correr e não para se atentar a nada ao seu redor. Tudo adquiriu a menor importância com exceção do sentimento de culpa que se alastrava pelos cantos mais claros e obscuros que existiam dentro de si. O choro ficou preso e engasgado, como se tomasse o ato de chorar muito inapropriado para ser aceito depois da covardia que fizera. Corria desesperado, para o mais distante possível do que ainda não conseguia nomear, e deixara Percy para trás. O rapaz se encontrava desconcertado por impedir Oliver e não ajudado quando o instinto contrário ao do amigo os sentenciou a escutarem parados, totalmente desarmados, até o instante em que não aguentassem mais.
O peso em seu peito pareceu ser capaz de diminuir seus passos que se tornaram lânguidos com o passar do tempo. A quebra na constância da fuga revelou que a pressa o havia tirado algumas percepções momentaneamente. Em seu trajeto não escutara os passos de ninguém, nem mesmo os dele. Desacelerando o ritmo se deu conta do caminhar de Oliver em algum ponto distante assim que parou para retomar o fôlego. Sentiu falta do aperto em seu pulso como a prova final de que haviam, inconscientemente, se separado um do outro. E isso o alarmou inteiramente tirando qualquer chance para que o sangue esfriasse. A vergonha começava a encontrar seu espaço também, nada hesitante em cravar suas garras em feridas anteriormente cicatrizadas.
Eles possuíam a mesma idade, embora houvesse uma diferença de poucos meses. De toda forma, Vance sempre se sentiu muito mais novo pelas inúmeras vezes que o amigo o acalentava. A memória mais vívida, por se fazer presente em alguns momentos, era a de quando completara sete anos de idade. Oliver aguardou sentado, com as pernas encolhidas, e escorado na parede da casa até que Vance abriu a janela e espiou revelando seu rosto inchado com o nariz vermelho. Chovia pouco, uma daquelas chuvas fracas que permaneciam por horas e traziam calma junto ao cheiro de terra molhada. Oliver perguntou se estava chorando, para confirmar o motivo dos soluços que tinha escutado, e Vance cruzou os braços antes de dizer que era o barulho da chuva. Desde então era a desculpa que usavam para quando não queriam conversar sobre o que arrancava lágrimas de seus olhos.
Vance sentiu uma pontada como se uma flecha o tivesse atingido, não seria a primeira vez deixando Oliver sozinho. Inspirou profundamente e apoiou a mão nos joelhos para recobrar alguma energia por alguns instantes. Decidiu que não viraria as costas uma segunda vez. Se tinham encontrado Percy, poderia encontrar Oliver também.
Reuniu forças para voltar a ser o mesmo de antes, tentando dispersar aquelas memórias agridoces que o configurava como um monstro por suas atitudes. Analisou a situação listando suas descobertas: o que vivenciavam não era brincadeira, havia algo misterioso colocando fim em vidas e sem deixar qualquer rastro, provavelmente enxergava no escuro... Recordou-se do boato, da afirmativa que ninguém saía da biblioteca abandonada e essa era a parte problemática. Acabou por considerar a insuficiência de encontrar o amigo para no final permanecerem ali dentro, sem saber como proceder depois de um reencontro. Suas chances eram pequenas, então apenas permitiu-se pensar em um objetivo de cada vez. Sua prioridade era encontrar Oliver e depois disso poderiam pensar em algo.
O vento soprou em suas costas, movendo mechas de seu cabelo e o arrepiando no processo. Se virar não seria uma ação necessária, nada enxergaria, e tinha conhecimento do que causara o sopro improvável em um lugar fechado. Vance endireitou a postura, desolado com a quebra da possibilidade de sequer tentar tirar Oliver daquele pesadelo. Olhou para o alto, respirando pesado, e seus olhos se iluminaram ao encontrar aquele feixe de luz azulado e fraco de antes. Agarrou-se a chance inesperada unida a sorte de existirem frios e misteriosos metros de distância o separando do que considerava correto chamar de morte.
Correu e não hesitou em virar para a esquerda quando teve a oportunidade, sentindo que a mínima mudança de direção era um sinal positivo. Continuar somente em frente parecia ser o caminho certo para o fim. Em nenhum segundo cogitou olhar para trás, sabendo ser inútil, mas se movia com a mesma certeza frágil de antes. Tranquilo ao máximo que conseguia e cauteloso, como quando ele e Oliver ficaram quietos por supor que a moça os seguiria pelo som ou quando um guiava e o outro buscava pela pista que necessitavam. A cada instante ele afirmava irritantemente que poderia ser puxado para trás, como Beatrice e Percy foram, mas o objetivo de fuga permanecia vívido e fazia o sangue fluir cada vez mais.
O que o perseguia não emitia nenhum barulho e isso tornava mais preocupante, contudo, o rapaz formava um pequeno plano. Apertou o passo e forçou aquele nó na garganta se desfazer, permitindo sua voz ecoar pelos corredores. Desejava fortemente que houvesse um limite para a inteligência do adversário escondido nas sombras.
Acredito que, nesse ponto da história, talvez tenha se esquecido pelo que esse misterioso inimigo esteve ávido quando os jovens entraram em seus domínios. Não é diferente do que muitos buscaram na Biblioteca, ou em qualquer outro lugar contendo os mais variados livros, e tinham certeza de que nunca perderiam. Certamente escutou em algum momento da vida para que estudasse com afinco porque o conhecimento é a única coisa que não se pode roubar de alguém. Essa parte não é exatamente importante agora, apenas nos atenhamos no fato explícito que Vance julgou superficialmente quanto o saber de seu inimigo.
Os erros inconscientes são os piores. Ele apostou que aquilo avançando sem gerar som algum poderia ser movido pelo instintivo primitivo de se alimentar ou defender um território, como se tudo o que estivesse acontecendo fosse uma caçada. E, acredite ou não, o outro lado também cometeu esse erro de subestimar muito cedo. Por essa razão a história da Biblioteca Assombrada, diferente das outras contadas em Volery, vai além de narrar os acontecimentos ou de vir acompanhada de uma lição de moral em sua última página. Uma vítima foi subestimada.
Vance chamou por Oliver e em pouco tempo obteve resposta, escutando outra voz de volta, e agora tinha o que precisava. O rapaz esperava que o seu adversário não mudasse de alvo e também não queria confundi-lo com as vozes. Exatamente por isso, além de pronunciar o nome do amigo, também gritou uma frase completa para que parasse de responder. Fixou na memória a direção que Oliver poderia estar, ficando satisfeito internamente por sua decisão de cessar a comunicação houvesse feito o amigo parar de se mover. Escutava apenas os próprios sapatos gastos e, após continuar para outro corredor, puxou dois livros da estante. O sopro gelado desaparecia aos poucos conforme corria o mais rápido que tentara em toda sua vida, embora Vance estivesse certo de que a corrente de ar estranha não desviaria de seu rastro. A cada curva ele pegava um livro e acreditava que obteria sucesso em despistar.
Precipitar-se na expectativa de que o rapaz concluiu bem seu objetivo pode ser uma decisão acertada por alguns instantes. A atitude chegava a ser curiosa para aquele que o seguia, porém, não havia nada que acontecesse na Biblioteca que estivesse oculto para ele. Ouviria o virar de uma página se assim desejasse.
Vance continuou seguindo por corredores que a luz iluminava o topo das estantes, indo diretamente para o local que Oliver estaria por perto. Inspirou profundamente ao torcer para a sorte sorrir uma vez naquela noite e arremessou todos os livros para o lado contrário ao qual seguiria. Escondeu-se atrás de outra estante, rapidamente se inclinando para retirar os sapatos enquanto convencia a si mesmo de que o estranho pensaria que teria derrubado livros do outro lado em uma colisão. Seu coração batia depressa e ele evitou respirar pela boca, temendo que isso emitisse um sinal abafado para ser encontrado.
Aquele frio definitivamente havia se distanciado, o fazendo relaxar um pouco, e então deixou os sapatos de lado e seguiu adiante. Aquela distração era fraca, sabia disso, mas julgava ser suficiente para reencontrar Oliver. A pior parte ainda estaria por vir, pois precisaria se arriscar a falar novamente quando temia que a respiração pudesse ser um sinal de localização para o estranho nas sombras. Apressou-se em pegar mais livros durante a caminhada, agora sentindo o suor escorrer pelo rosto. A possibilidade de dar certo dependeria da velocidade com a qual seu adversário possuía.. Porém tinha conseguido despistar uma vez, então ele se uniu ainda mais a esperança. Seu sangue estava tão quente que a temperatura oposta do piso não fez diferença alguma para os pés descalços.
— Oliver — chamou Vince, baixo e temeroso.
Sem resposta alguma ergueu o rosto para o teto, não havia chegado ao final da estante, e percebeu ter mais um pouco para andar até que pudesse ir para o corredor ao lado. Temia abrir a boca novamente e ser pego no segundo seguinte, pois mesmo usando um tom comedido escutava a si mesmo como se emitisse um grito desesperado. A dúvida que começava a surgir em sua mente também estava longe de ajudar em qualquer aspecto. Realmente estava indo para o lugar certo? Cada passo cauteloso era marcado por essa incerteza criando espaço. Quando se chegava a um destino pela primeira vez poderia vir aquela dúvida se estava realmente no lugar correto e era exatamente como se sentia.
— Oliver.
Parou de andar, o silêncio como resposta parecia rir da sua tentativa. Levemente irritado com o constrangimento, que parecia infundado quando na verdade não era, murmurou consigo mesmo a frase que o ajudava em momentos ruins:
— Não tem nada que eu não saiba, então posso ser capaz de fazer qualquer coisa.
Vance gostaria de ter dito um pouco mais alto e percebeu parecer um garoto emburrado. Mas em nada aquele curto momento de se manter firme, do seu modo convencido, o desanimou. Como antigamente seu amigo o aguardava e não era mais um menino covarde que deixaria alguém na chuva até que decidisse que queria aceitar o consolo. Assim os sussurros ansiados continuaram escapando de seus lábios de tempo em tempo e sentia que abusava da sorte a cada nova pronúncia. A calmaria, aquele nada como resposta aos chamados atribulados, aparentava ser o prelúdio do pior.
O rapaz estava quase pensando em novamente gritar para reavaliar a provável posição de Oliver, quando por uma última vez pronunciou seu nome em tom baixo ao seguir para o próximo corredor de livros antigos. Foi pego de surpresa quando escutou aquela voz grave quase em sussurro:
— Aqui.
A sensação foi parecida com não ter finalizado sua pesquisa no prazo que considerou e o professor dizer que a data de entrega estava distante. Vance estaria longe de dizer que naquele instante foi tomado por grande alívio. Fora envolvido pela oportunidade porque ainda tinham tempo e uma chance em suas mãos. Aproximou-se de Oliver, quase sorrindo pouco nos passos finais do reencontro.
— Tire os sapatos e se prepare para correr.
— Eu acho que agora só precisamos seguir pra lá — respondeu Oliver ao começar a fazer como orientado, sem perceber que apontou para uma direção que o outro não conseguia ver.
Vance ficou mais confiante, entretanto, escutaram uma risadinha em algum lugar. Jamais desconfiariam de que o riso se dava pelo fato de procurarem pela porta trancada. O rapaz congelou onde estava, como uma estátua, enrijecido pelo retorno do medo que a dona da voz desconhecida proporcionava e os livros escorregaram de suas mãos. Sentiu o toque de Oliver quando agarrou o tecido de sua camisa, mas logo foi solto e o aperto se firmou em sua mão.
Mesmos descalços podiam ser ouvidos embora, em suas opiniões singelas e otimistas, fosse mais complicado de serem encontrados pelo som baixo que se perdia fácil na imensidão da Biblioteca. Vance acreditava que esse pensamento poderia ser seu maior aliado se não houvesse derrubado os livros e criado o maior sinal de localização. Havia suavizado em muito o trabalho do que estava atrás deles e agora, diferente do equilíbrio que encontrara para tomar as rédeas, imergia na certeza que aos poucos formou desde que escutou aquela canção: não sairiam da Biblioteca.
Com o coração novamente pesado, sem forças para acreditar em qualquer pingo de argumento que provasse o contrário do que aconteceria, estava mais preparado para receber outro ataque. Dessa vez não seria um susto ou surpresa como quando garantiu a Oliver que tudo era irreal e estavam sendo enganados por pessoas comuns. Mas era também uma noite para confrontar suas certezas e não suspeitava que seu coração preparado sofresse da mesma maneira que antes.
Sentir frio seria pouco para descrever, Vance se considerou como uma estaca de gelo pouco antes de sentir o impacto quando Oliver foi agarrado e puxado para trás. Sem desfazer o aperto de mãos o rapaz caiu e bateu o queixo no chão. Atordoado, seu corpo foi levado junto pelo piso gelado e todo seu interior agitou-se. A dor no queixo era pequena se comparada a sensação que o atingia ao escutar o amigo gritando em meio ao desespero e o quebrantar definitivo da possibilidade em escapar. Vance havia paralisado incontáveis vezes durante aquela busca por fantasmas e em todas elas a razão era o susto ou o medo. Nunca a desistência. Aquela era, portanto, a primeira vez.
Percebeu que Oliver mudava de posição, de deitado pareceu ser levantado e mesmo assim não o soltou. Quando o primeiro som de fíbula e tíbia sendo quebrados foi escutado, as lágrimas se formaram nos olhos de Vance. Conhecia muitas dores físicas, mas nenhuma tão intensa. Oliver encontrava-se ocupado em extravasar a dor que sentia naquele momento de outra forma, sem lágrimas, apenas com a voz retumbando nos ouvidos do amigo e se estendo pelo corredor. E quando foi puxado mais para cima, Vance agarrou seu braço com a outra mão livre.
— Corre! — disse Oliver.
Ele engoliu algumas palavras e apertou ainda mais a mão e braço do amigo, se recusando a dar as costas para alguém novamente. O barulho dos ossos quebrando fez as lágrimas escorrem pelo seu rosto, tornando sua resposta embargada:
— Não.
— Pare de chorar e saia logo daqui — insistiu Oliver quase com um grito, mas sua voz tremia devido a dor.
Vance fechou os olhos com força e sem cogitar seguir a sugestão. Por alguns instantes limitou-se a escutar a mesma cena de antes, dessa vez trêmulo conforme Oliver sofria, rangendo os dentes, e não conseguia mais dizer nada. O aperto em sua mão foi ficando cada vez mais fraco pela parte de Oliver. Vance sustentava-se apenas por agarrar o cotovelo de Oliver, e ficou igualmente suspenso no ar por sua própria decisão de permanecer o segurando enquanto aguardava sua vez.
Sentiu-se sozinho no silêncio.
Não teve certeza se Oliver escutou quando finalmente conseguiu responder.
— Idiota. É o som da chuva.
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