A Biblioteca Assombrada
5 Lights Out
As histórias sobre a cidade costumam possuir um desfecho parecido com o qual Vance imaginou ser o fim. Provavelmente concorda que aquele último suspiro seria um final adequado para ensinar aos outros que devemos ser cautelosos e educados. Nenhum jovem que ouve esse conto se atreve a entrar em um quarto sem antes bater na porta. Não dão um passo à frente sem antes escutar uma pessoa responder e permitir sua entrada. Poucos visitantes se animaram a descobrir muitos lugares em Volery, procurando esquivar de eventos desagradáveis.
Vance sentiu a dor, o medo e a aflição se condensarem até o estranho instante em que encontrou nada além de preocupante inércia, diferente de Beatrice, Percy e Oliver, os quais encontraram o fim sem prolongações para o que os aguardava adiante. Aquele rapaz caiu em sono profundo, sem sonhos ou pesadelos, somente com sua cabeça latejando a todo momento. Tinha a inquietante certeza de estar dentro da biblioteca, pois sentia-se preso e encurralado em algum lugar e ainda não possuía nada além de escuridão ao seu redor. Em nada conseguia pensar, o que constatava era aquela dor aguda e persistente que conseguia ser mais forte que suas eventuais enxaquecas.
Em algum momento daquela manhã as cortinas no segundo andar da biblioteca foram abertas, permitindo que a luz entrasse e despertasse o rapaz deitado no meio da sala. A dor escapou de sua cabeça, proporcionando tamanho alívio que não se preocupou com o motivo por trás do sumiço daquilo que o incomodou por horas. Foi suficiente que desaparecesse. Apoiou os cotovelos no tapete macio, abrindo os olhos finalmente, e aguardou o cenário embaçado se ajustar. Julgando que onde estava não fazia importância, preocupou-se consigo mesmo em primeiro lugar. Era uma memória complicada de lidar, pois toda a noite na Biblioteca fora limitada ao tato e audição, mas sabia tudo que acontecera. Aquilo o tinha matado.
Contrariando a memória ele abaixou o olhar e percebeu estar intacto. Avaliou a mão esquerda, constatando ser feito de carne e osso, e depois a fechou com força por alguns instantes. Esticou os dedos e observou o tom rosado que a palma adquiriu com o esforço. De forma inexplicável permanecia aparentemente vivo e o sangue fluía por suas veias. Continuava um rapaz magro com o cabelo desgrenhado e alguns fios caindo sobre os olhos verdes e escuros, as roupas limpas e alinhadas...
— Acordou cedo, pensei que teríamos que aguardar por mais tempo — comentou alguém.
Vance piscou algumas vezes depois de erguer a cabeça e encontrar a dona da voz que conheceu horas atrás. Mesmo convicto de sua morte e de ter acordado logo após, arregalou os olhos quando a moça fantasmagórica se aproximou sem hesitar. Flutuava com elegância, a saia do vestido tremulou com seu avanço, mas o rapaz se atentou primeiro na testa franzida e os lábios reprimidos. Se perguntou o motivo da irritação, entretanto, essa questão foi perdendo a relevância ao apenas observar como ela parecia irreal. Branco azulado dos pés à cabeça, até mesmo em suas roupas, e cintilava de maneira estranhamente apagada. Por mais que não enxergasse tão bem através dela, sua imagem transmitia a sensação de ser intangível. Ele se perdeu na imagem antiga, o vestido de saia alta e cheia, os detalhes de renda... Parecia uma mulher de outra época.
— Conte-nos agora o que fez ao Bibliotecário! — exigiu a mulher ao colocar as mãos na cintura.
— Conte-nos? — repetiu Vance e olhou ao redor.
Encontrou sofás vermelhos e vazios em dois lados opostos do grande tapete, havia uma mesa de centro perto dele comportando uma bandeja com xícaras de chá. Considerou-as embaçadas e, mesmo paradas, pareciam se mover continuamente com ondulações como se fossem feitas de fumaça. Franziu o cenho, desgostoso do que mais encontraria de estranho, e continuou vasculhando a sala ampla e quase vazia. Não haviam outros móveis naquele espaço, nada além de paredes escuras e portas de madeira. Encontrou um homem na frente de uma delas, com sua postura impecavelmente correta, e a impassividade em sua expressão o tornava mais pacífico. Possuía a mesma imagem fantasmagórica das xícaras e daquela mulher, mas Vance encontrou cores em toda a sua aparência. Tinha a pele clara e seus olhos ostentavam a cor de folhas secas no outono. Sem dúvidas era um fantasma também, ainda que fosse capaz de trazer uma imagem comum.
— Rapaz, diga-me logo o que fez — a desconhecida disse de forma ríspida por ter sido ignorada.
Vance engoliu em seco, confuso, e tornou a encará-la para responder:
— Eu não fiz nada!
A risada irônica que recebeu de resposta o fez confirmar: era ela quem tinha cantado antes. Ele respirou fundo, por mais que a outra parecesse intocável, poderia ser possível que puxasse sua orelha para confessar qualquer coisa.
— Ele é o novo Bibliotecário? — indagou outro alguém.
Vance virou o rosto em direção a voz, uma garotinha acabara de atravessar uma das portas. Assim como a mulher, ela passou voando e atravessou a sala até o homem que permanecia em seu estado de observação.
— Parece que sim, Dahlia — respondeu ele quando a menina se aproximou.
Diferente dos mais velhos, ela ficava oscilando para cima e para baixo, como se estivesse apreciando algum tempo na água do mar.
— Espere um momento. — Vance se levantou, mais perplexo do que antes. — Que história é essa de bibliotecário? E onde é que estou? Quem são vocês?
A mulher próxima dele cerrou os dentes, como se estivesse incomodada por ele passar a fazer as perguntas. Cruzou os braços, ignorando as questões pertinentes, e Vance se voltou para o outro fantasma. O homem sorriu gentilmente, como que para demonstrar que tudo estava bem. Permanecia com os pés no chão, sem flutuar, e abriu a porta atrás de si dizendo:
— Tenho algumas respostas...
— Vai subir as escadas? — quis saber Dahlia, rodopiando pelo ar. — Eu quero ir junto!
— Se o senhor ali permitir.
Vance ficou sem reação com a resposta que escutou e os olhares que recebeu dos três fantasmas. Até mesmo a mulher parecia indicar antecipação com um ar de “é melhor me deixar acompanhar”. De garoto perdido ele tinha passado a ser quem concedia alguma permissão, e em nada lhe agradava quando não entendia os termos que o levara até esse ponto.
Ao menos alguém estava prometendo algumas explicações, então presumiu não fazer mal dançar conforme a música. Mas desconcertado com a posição que obteve sem motivo algum, apenas assentiu em silêncio e seguiu para as escadas. Olhou para trás depois de alguns instantes e viu o homem pisar em cada degrau, som nenhum era emitido de seus passos. Dahlia seguia acima deles, como uma borboleta sobrevoando um jardim, mas não ultrapassava Vance que ia na dianteira e isso o fez puxar a gola de sua camisa. Não gostava do que acontecia, todavia, era menos aterrorizante que sua experiência anterior.
Enquanto subia cada degrau com receio ele começava a sentir-se realmente estranho com as insinuações feitas e em como parecia vivo quando deveria ser o contrário. Se lembrava vividamente de quando foi puxado depois de Oliver.
— Sabe me dizer onde estão meus amigos?
— Eles logo aparecerão, seja paciente — respondeu o homem fantasma.
Suspirou, ainda perdido, e parou diante outra porta ao topo das escadas. Girou a maçaneta e encontrou um espaço repleto por estantes que guardavam livros e várias folhas de papel empilhadas e presas por barbantes. Também constatou armários altos com incontáveis gavetas. As enormes janelas permitiam uma boa iluminação, porém, aquelas paredes de pedra ainda constituíam um ambiente antigo e sombrio demais para o gosto do rapaz. Dando poucos passos a frente para descobrir melhor o lugar, Vance foi atacado por sua consciente. Sua cabeça pareceu pesar, uma pressão enorme tomou conta de sua mente, e ele tocou a têmpora com o desconforto inesperado.
— É como imaginávamos. — O homem parou ao seu lado, sua primeira fala era nitidamente para si e a mulher irritadiça, e inspirou profundamente antes de encarar a Vance. — Responderei suas perguntas na melhor ordem para compreensão. Primeiramente, nós somos fantasmas dessa biblioteca. Eu me chamo Jacin e teve a oportunidade de apreciar a bela voz de Odalis ontem a noite. — Ele lançou um olhar repreensivo para a outra que virou o rosto e flutuou para explorar o espaço. — E Dahlia... Ah! deve estar bagunçando as anotações agora.
Vance começou a formular ainda mais perguntas, porém, o desconforto mental o manteve calado. Procurou manter-se focado na imagem de Jacin. Em seu cabelo curto e loiro, muito bem ajeitado, e trajava roupas simples de camponês. Era mais alto e mais robusto que o rapaz, a camisa branca e de mangas longas não disfarçavam tanto sua constituição física. Parecia ter por volta de trinta e poucos anos.
— Seus amigos aparecerão em breve. Todos que foram devorados pelo Bibliotecário se tornaram fantasmas. Ainda está na biblioteca, agora no terceiro andar. Apenas dois são visíveis aos vivos.
A explicação não o assustava, embora as palavras fossem dolorosas de escutar pois o relembrava dos gritos que escutara. O peso em sua mente se acentuava também, como quando passava horas demais debruçado sobre livros e fazendo anotações corridas noite adentro. Fechou os olhos, atormentado, e sentiu uma mão repousando em seu ombro.
— Relaxe um pouco ou as informações que provavelmente obteve o deixarão sem força alguma.
— Informações?
— Olhe ao seu redor. Todas essas estantes contêm livros com páginas em branco esperando serem preenchidas — começou Jacin a explicar. — O Bibliotecário precisa de conhecimento para o transcrever e assim encontrar um lugar na biblioteca para o dispor.
— Por que raios ele... atacaria pessoas dessa maneira se tinha um trabalho para fazer aqui?
Jacin ergueu a sobrancelha, sugestivo, e aguardou as peças se encaixarem para Vance.
O rapaz ainda o observava como forma de manter a mente longe da dor, percebendo sardas sobre o nariz do mais velho e uma cicatriz irregular seguindo da testa até abaixo do olho esquerdo. O último detalhe aparecia e sumia em questão de instantes, indo e voltando com sua imagem sendo uma luminosidade que o outro ainda procurava se acostumar. Os segundos passaram, muito pacientes, e Vance alcançou uma conclusão acertada: o Bibliotecário devorava alguém para obter conhecimento. Sua expressão de compreensão fez Jacin se afastar e assentir tristemente. Mas existiam mais perguntas a serem feitas e muito a ser explicado.
— O que era exatamente esse Bibliotecário?
— Defina como quiser, mas não vai gostar de como eu o chamava e temos uma criança aqui. — O fantasma deu de ombros.
— Tenha respeito com os mortos, Jacin! Você é um deles — gritou Odalis de algum lugar.
Estava mais do que claro que a mulher se tornara leal ou admiradora do Bibliotecário, o que em nada deixava Vance contente (e muito menos o fantasma ao seu lado). No entanto também evitou pensar nos motivos que a levavam a ser cruel ao ponto de ajudar e amedrontar as pessoas que se perdiam naqueles corredores.
— Ele controlava ou mandava em vocês? — quis saber Vance.
— Tem algum poder sobre nós, embora não demonstrasse interesse algum em utilizar. Nunca nos deixava o ver completamente e usava uma capa que cobria todo seu corpo. Odalis o enxergou uma vez e o descreveu como uma sombra espessa.
Vance assentiu, pensativo, e teve certeza de que era um monstro mágico. Uma resolução que ainda soava mal aos seus ouvidos, o fazendo respirar pesado, pois ainda era difícil tratar aquilo seriamente usando alguns termos que traziam a ideia de irrealidade e história inventada. Agora sabia que em Volery era possível, então uma questão inevitável escapuliu por seus lábios.
— Eu tomei o lugar dele? — quis saber o rapaz, assustado com a possibilidade que não conseguiu dizer em voz alta.
Jacin abaixou o olhar, afinal compreendia muito bem o que isso significava. Ser o Bibliotecário implicaria em tarefas que precisaria realizar dali em diante e a peculiaridade fazia ambos sentirem o coração pesar. O homem balançou a cabeça positivamente, visivelmente incomodado de ser quem dava a notícia mórbida e desconfortável.
Agora entende o motivo de não ser uma história somente para ensinar os moradores de Volery ou viajantes, embora ainda possa ser muito bem utilizada para esse fim se souber onde parar de contar. Vance, curiosamente, se tornou a primeira exceção de vitória contra o vazio, mesmo que seu fim continuasse igual ao de tantos outros. Ruim e doloroso, sobretudo, sem retorno. Vilões em busca de vingança costumam dizer que existem opções piores que a morte. O rapaz concordou imensamente com eles.
— Senhor, como se chama? — quis saber Jacin.
— Vance Mather.
Jacin sorriu cordialmente, fazendo algum esforço em meio ao desconforto do assunto complicado que tinham naquele momento.
— Eu não compreendo os motivos do Bibliotecário, mas ter tomado o lugar dele não significa que precise fazer o mesmo. Podemos ajudá-lo a descobrir mais sobre isso, afinal manteve-se inalterável. Antes de qualquer coisa você ainda é quem diz ser.
A princípio o rapaz não esboçou reação alguma com aquele encorajamento que deveria ser o bastante para trazer o mínimo de conforto. Aquele fantasma não sabia que Vance feria as pessoas antes que fosse ferido. Não fazia ideia de que preferia ceder ao seu lado egoísta tão cedo antes que o fizesse no momento que esperassem seu altruísmo e acabasse prejudicando alguém com isso. O coração era traiçoeiro e Vance temia que criassem confiança nele, assim como temia em criar confiança em outros, por isso não se importava em ser repreensível. Se esperassem que fosse ruim não se surpreenderiam que em algum momento realmente acabasse sendo.
Ele assentiu sem ânimo, se sentia estranho e preso em um pesadelo cruel. Procurou afastar a afirmação de que possivelmente seria quem buscaria por conhecimento de forma tão letal e desnecessária. Se realmente fosse um fardo ser quem criava todo o conteúdo daquele lugar, preferia fazer de maneira que não envolvesse qualquer ato de violência como aquele.
— Jacin! Jacin! Jacin! — exclamava Dahlia ao retornar voando e com um enorme sorriso no rosto, em suas mãos havia um livro de capa rosa de tom escuro. Ela exibiu o livro ainda sem título. — Olha, tem minhas histórias aqui!
O branco azulado da pequena fantasma cintilou com sua animação e Vance sentiu um aperto no peito, aturdido ao pensar que aquela criança havia encarado o mesmo pesadelo que ele e os amigos. Se questionava como o Bibliotecário tivera a coragem de colocar fim a vida de alguém tão jovem, simplesmente por histórias que ela deveria ter inventado. Algo tão simples e inocente que de uma forma irrefreável fora roubada sem explicações aceitáveis.
— Você tem quantos anos? — perguntou Vance para a menina.
Dahlia perdeu altitude, mas permaneceu no ar ao abraçar seu precioso exemplar e tomou uma expressão pensativa.
— Oito.
— De verdade?
— Eu perdi a conta e o tio Jacin disse que não era importante. — Ela ficou à altura dele para dizer baixo em seu ouvido uma última informação. —Mas Odalis tem um pouquinho mais de mil.
Ele percebeu ser um detalhe que irritaria a mulher, por ser segredo, e quase riu junto de Dahlia que se afastava com um ar de travessura realizada. Julgando pela forma natural e infantil que ela agia, unindo a resposta que recebeu, presumiu que os fantasmas mantinham a aparência e a mentalidade de quando perderam a vida. Dahlia tornou a voar entre as estantes, animada como quem tinha encontrado um refúgio mágico para explorar.
Vance permanecia de pé no mesmo lugar. Quanto mais ele encontrava livros e papéis amontoados por aquele espaço, olhando ao redor sem se mover muito, cogitou que também estaria preso ao longo dos anos. As divagações quase o tomaram inteiramente quando se lembrou de alguém em liberdade. Adelle estava encarando o frio da noite e a preocupação com eles. Seu coração bateu mais rápido, temeroso que algo pudesse ter acontecido. Desconhecia antes o perigo de uma biblioteca abandonada, mas estava ciente dos perigos de uma rua vazia na madrugada.
— Jacin, a moça do lado de fora...
— Acredito que esteja bem e talvez retorne em breve. Tentou trazer oficiais e ninguém veio os procurar.
Naquele momento ele compreendeu que ninguém viria mesmo sendo tarde demais, os habitantes da cidade sabiam que deveriam se manter longe do perigo. Começou a desejar que ela também desistisse de entrar e voltasse para casa, para a segurança de seu lar, por mais que pudesse a magoar ter de deixá-los para trás com a incerteza retumbando no peito. Sua expressão de tristeza alterou-se para surpresa quando escutou vozes conhecidas em uma discussão. Boquiaberto ele prestou atenção a discussão:
— Fantasmas existem! Eu sabia!
— Oliver, não deveria estar contente com a descoberta quando nós somos os fantasmas — rebateu Beatrice, irritadiça.
— Rapaz, eu posso voar!
— Pare de girar desse jeito, Percy, estou ficando tonto — respondeu Oliver, embora houvesse uma insinuação de riso em seu tom.
Vance deu meia volta e disparou pelas escadas para reencontrar os amigos, porém, a cada degrau se dava conta de sua situação. Temia como eles reagiriam ao receberem a notícia de que se tornara o novo monstro, e sabia que antes daquela noite anterior já era um. Convencido, arrogante e distante para aqueles que estavam sempre ao seu lado. Imaginou que os veria pela última vez, talvez decidissem assombrar qualquer outro lugar na cidade.
O sentimento pesado o comprimindo de várias maneiras era contrário à ação de suas pernas, o levando desesperadamente para a sala. Queria que quando aquelas luzes tivessem se apagado assim permanecessem. Contudo um brilho breve e suave se revelou em seus olhos quando encontrou os amigos e os três sorriram.
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